"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!
O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:
"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.
Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").
Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também).
"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.
Vale muito a pena!
Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção!
"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!
O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:
"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.
Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").
Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também).
"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.
Vale muito a pena!
Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção!
Olha, "Até os Ossos" não é nada fácil e justamente por isso deve dividir opiniões - até pela zona um pouco cinzenta por onde ele transita, entre um profundo drama de relações e um suspense com boa dose de realismo. O filme dirigido por Luca Guadagnino (de "Me Chame pelo Seu Nome), mergulha, sem receios, nas complexidades da condição humana, explorando dois temas bastante sensíveis: o primeiro, identidade; o segundo, muito chocante, canibalismo. Com uma abordagem visceral e perturbadora, o filme nos desafia a confrontar nossas próprias noções de existência e a questionar o "diferente" por um olhar mais íntimo - mas cuidado: você pode se impressionar com as cenas que você vai assistir ao dar o play.
Assombrada por um instinto que é incapaz de controlar, a jovem Maren Yearly (Taylor Russell) embarca em uma jornada em busca de suas raízes após ceder a um novo ataque canibal. No caminho, ela encontra o misterioso Lee (Timothée Chalamet), que demonstra padecer do mesmo problema. Juntos, eles percebem que a aceitação deve se sobressair à compreensão de sua verdadeira essência, e buscam por formas que autorizem a manutenção de seu relacionamento. Confira o trailer:
Talvez a melhor forma de definir "Até os Ossos" seja: um suspense com alma. Digo isso pois o roteiro escrito pelo David Kajganich (de "Suspíria: A Dança do Medo") e pela Camille DeAngelis (que criou a história) foge do lugar comum ao tentar equilibrar uma trama de certa forma simples, mas com elementos pouco explorados no cinema ao longo dos anos - embora seja inegável que o tema "canibalismo" venha ganhando cada vez mais holofotes em produções recentes. Talvez, essa ousadia do roteiro tenha encontrado uma gramática cinematográfica perfeita nas mãos de Guadagnino, já que o diretor é capaz de levar o público para uma jornada emocional e psicológica extremamente desconfortável sem se esquecer de que por trás do impacto visual, existe dores muito particulares de seus personagens - reparem como o texto transmite a vulnerabilidade e a intensidade dos personagens com a mesma precisão.
Sua direção é mais uma vez primorosa. Com uma abordagem visual arrojada, seguindo aquele estilo mais independente, com cenas de diálogos importantes resolvidas sem cortes e muita, muita, criatividade para refletir a angústia e a desconexão daquela realidade em imagens - e aqui cabe um outro elogio: o desenho de som, muitas vezes faz o mesmo papel da imagem com maestria, já que Guadagnino "sugere" e "mostra" com a igual potência. A fotografia do bielorrusso Arseni Khachaturan (de "The Idol") é marcada por imagens impactantes sim, mas também por muito simbolismo já que precisa retratar uma condição que enxerga beleza e um desejo peculiar pelo corpo humano, de uma forma completamente diferente de quem assiste - que, inclusive, sente na pele uma enorme repulsa.
Por fim é preciso destacar as performances de Russell e Chalamet. Ambos com uma entrega visceral, além de uma capacidade de se expressar e trabalhar uma gama de emoções sem usar muito das palavras - lindo de ver. Outro que merece aplausos é Mark Rylance como Sully - é incrível como ele transmite sua dor e sua frustração, ao mesmo tempo em que o olhar indica sua obsessão. Olha, digno de prêmios!
O fato é que "Bones and All" (no original) não vai ter meio termo, ou você vai amar ou vai odiar - principalmente se você levar em consideração que depois do prólogo (genial), o primeiro ato patina um pouco, deixando o segundo ato para ajustar o tom da narrativa e entregar um terceiro ato bem mais redondinho e surpreendente. Agora, também é preciso dizer que, embarcado na experiência, o filme não terá problemas em se mostrar desafiador ao mergulhar nas profundezas de uma condição humana muito desconfortável.
Se eu fosse você, eu arriscaria!
Olha, "Até os Ossos" não é nada fácil e justamente por isso deve dividir opiniões - até pela zona um pouco cinzenta por onde ele transita, entre um profundo drama de relações e um suspense com boa dose de realismo. O filme dirigido por Luca Guadagnino (de "Me Chame pelo Seu Nome), mergulha, sem receios, nas complexidades da condição humana, explorando dois temas bastante sensíveis: o primeiro, identidade; o segundo, muito chocante, canibalismo. Com uma abordagem visceral e perturbadora, o filme nos desafia a confrontar nossas próprias noções de existência e a questionar o "diferente" por um olhar mais íntimo - mas cuidado: você pode se impressionar com as cenas que você vai assistir ao dar o play.
Assombrada por um instinto que é incapaz de controlar, a jovem Maren Yearly (Taylor Russell) embarca em uma jornada em busca de suas raízes após ceder a um novo ataque canibal. No caminho, ela encontra o misterioso Lee (Timothée Chalamet), que demonstra padecer do mesmo problema. Juntos, eles percebem que a aceitação deve se sobressair à compreensão de sua verdadeira essência, e buscam por formas que autorizem a manutenção de seu relacionamento. Confira o trailer:
Talvez a melhor forma de definir "Até os Ossos" seja: um suspense com alma. Digo isso pois o roteiro escrito pelo David Kajganich (de "Suspíria: A Dança do Medo") e pela Camille DeAngelis (que criou a história) foge do lugar comum ao tentar equilibrar uma trama de certa forma simples, mas com elementos pouco explorados no cinema ao longo dos anos - embora seja inegável que o tema "canibalismo" venha ganhando cada vez mais holofotes em produções recentes. Talvez, essa ousadia do roteiro tenha encontrado uma gramática cinematográfica perfeita nas mãos de Guadagnino, já que o diretor é capaz de levar o público para uma jornada emocional e psicológica extremamente desconfortável sem se esquecer de que por trás do impacto visual, existe dores muito particulares de seus personagens - reparem como o texto transmite a vulnerabilidade e a intensidade dos personagens com a mesma precisão.
Sua direção é mais uma vez primorosa. Com uma abordagem visual arrojada, seguindo aquele estilo mais independente, com cenas de diálogos importantes resolvidas sem cortes e muita, muita, criatividade para refletir a angústia e a desconexão daquela realidade em imagens - e aqui cabe um outro elogio: o desenho de som, muitas vezes faz o mesmo papel da imagem com maestria, já que Guadagnino "sugere" e "mostra" com a igual potência. A fotografia do bielorrusso Arseni Khachaturan (de "The Idol") é marcada por imagens impactantes sim, mas também por muito simbolismo já que precisa retratar uma condição que enxerga beleza e um desejo peculiar pelo corpo humano, de uma forma completamente diferente de quem assiste - que, inclusive, sente na pele uma enorme repulsa.
Por fim é preciso destacar as performances de Russell e Chalamet. Ambos com uma entrega visceral, além de uma capacidade de se expressar e trabalhar uma gama de emoções sem usar muito das palavras - lindo de ver. Outro que merece aplausos é Mark Rylance como Sully - é incrível como ele transmite sua dor e sua frustração, ao mesmo tempo em que o olhar indica sua obsessão. Olha, digno de prêmios!
O fato é que "Bones and All" (no original) não vai ter meio termo, ou você vai amar ou vai odiar - principalmente se você levar em consideração que depois do prólogo (genial), o primeiro ato patina um pouco, deixando o segundo ato para ajustar o tom da narrativa e entregar um terceiro ato bem mais redondinho e surpreendente. Agora, também é preciso dizer que, embarcado na experiência, o filme não terá problemas em se mostrar desafiador ao mergulhar nas profundezas de uma condição humana muito desconfortável.
Se eu fosse você, eu arriscaria!
"Athena" chama muito mais atenção por sua experiência visual do que propriamente por um roteiro impecável - e isso não é um grande problema se lembrarmos de "1917", que segue justamente esse mesmo conceito (dadas as devidas proporções técnicas e de orçamento). Aqui, é possível perceber que o filme do francês Romain Gavras usa de elementos dramáticos extremamente atuais, muitos deles referenciados no grande sucesso "Os Miseráveis", de 2019, para entregar uma dinâmica focada no caos, muito mais próxima do mexicano "Nuevo Orden", inclusive.
Em um Conjunto Habitacional conhecido como Athena, um crime brutal abala toda a comunidade. A trágica história se passa na vida de três jovens, que têm os seus destinos completamente transformados quando o irmão mais novo é morto sob circunstâncias inexplicáveis. Os irmãos de origem argelina e indignados com o assassinato, dão início a uma cruzada em busca de respostas e de justiça, cada um da sua maneira. Porém os embates violentos em Athena colocam eles no centro de um conflito, obrigando-os a ressignificar o luto e a dor em uma revolta organizada de enormes proporções. Confira o trailer (em inglês):
É de se admirar a escolha de Gavras em acompanhar seus personagens principais a partir de longos e eficientes planos sequência - o do prólogo, por exemplo, é de uma qualidade técnica e artística de fazer inveja a muito diretor experiente. No entanto a pirotecnia visual acaba se sobressaindo perante um roteiro que beira a superficialidade, mesmo quando traz para discussão assuntos relevantes como a realidade multicultural na França e a intolerância que essa condição provoca. Dos três irmãos (e protagonistas), Abdel (Dali Benssalah) e Karim (Sami Slimane) possuem arcos até que interessantes (e corajosos); já o terceiro, que segue Moktar (Ouassini Embarek), eu diria que é completamente dispensável.
De fato, a impressão que dá é que "Athena" poderia ser uma minissérie de 4 episódios tranquilamente - com os três primeiros contando a história do ponto de vista de cada um dos irmãos e o quarto seguindo o policial Jérôme (Anthony Bajon). Dito isso, Gavras se apoia no roteiro (que contou com a ilustre colaboração de Ladj Ly de "Os Miseráveis") para priorizar muito mais o "movimento" do que a "profundidade" - isso impacta na nossa percepção do caos, do barril de pólvora que já explodiu, criando uma sensação de desconforto impressionante, mas acaba prejudicando aqueles que buscam um pouco mais de camadas para nos conectarmos emocionalmente com os personagens. A impressão é que são tantas histórias para contar que o filme acaba não contando nenhuma delas tão bem.
Ainda que "Athena" seja um filme de muita (muita mesmo) qualidade, extremamente bem filmado e com várias sequências inacreditáveis de tão boas; as emoções e a indignação que a morte de um jovem naquelas condições provocaria, não florescem. Isso deixa muito claro que aqui, o drama deu lugar para a ação da mesma forma que a reflexão sucumbiu ao entretenimento. Funciona? Sim, funciona muito bem, mas como recomendação sugiro que antes de "Athena" você assista "Os Miseráveis" para que todo esse contexto social e cultural faça ainda mais sentido na narrativa como um todo.
Vale seu play!
"Athena" chama muito mais atenção por sua experiência visual do que propriamente por um roteiro impecável - e isso não é um grande problema se lembrarmos de "1917", que segue justamente esse mesmo conceito (dadas as devidas proporções técnicas e de orçamento). Aqui, é possível perceber que o filme do francês Romain Gavras usa de elementos dramáticos extremamente atuais, muitos deles referenciados no grande sucesso "Os Miseráveis", de 2019, para entregar uma dinâmica focada no caos, muito mais próxima do mexicano "Nuevo Orden", inclusive.
Em um Conjunto Habitacional conhecido como Athena, um crime brutal abala toda a comunidade. A trágica história se passa na vida de três jovens, que têm os seus destinos completamente transformados quando o irmão mais novo é morto sob circunstâncias inexplicáveis. Os irmãos de origem argelina e indignados com o assassinato, dão início a uma cruzada em busca de respostas e de justiça, cada um da sua maneira. Porém os embates violentos em Athena colocam eles no centro de um conflito, obrigando-os a ressignificar o luto e a dor em uma revolta organizada de enormes proporções. Confira o trailer (em inglês):
É de se admirar a escolha de Gavras em acompanhar seus personagens principais a partir de longos e eficientes planos sequência - o do prólogo, por exemplo, é de uma qualidade técnica e artística de fazer inveja a muito diretor experiente. No entanto a pirotecnia visual acaba se sobressaindo perante um roteiro que beira a superficialidade, mesmo quando traz para discussão assuntos relevantes como a realidade multicultural na França e a intolerância que essa condição provoca. Dos três irmãos (e protagonistas), Abdel (Dali Benssalah) e Karim (Sami Slimane) possuem arcos até que interessantes (e corajosos); já o terceiro, que segue Moktar (Ouassini Embarek), eu diria que é completamente dispensável.
De fato, a impressão que dá é que "Athena" poderia ser uma minissérie de 4 episódios tranquilamente - com os três primeiros contando a história do ponto de vista de cada um dos irmãos e o quarto seguindo o policial Jérôme (Anthony Bajon). Dito isso, Gavras se apoia no roteiro (que contou com a ilustre colaboração de Ladj Ly de "Os Miseráveis") para priorizar muito mais o "movimento" do que a "profundidade" - isso impacta na nossa percepção do caos, do barril de pólvora que já explodiu, criando uma sensação de desconforto impressionante, mas acaba prejudicando aqueles que buscam um pouco mais de camadas para nos conectarmos emocionalmente com os personagens. A impressão é que são tantas histórias para contar que o filme acaba não contando nenhuma delas tão bem.
Ainda que "Athena" seja um filme de muita (muita mesmo) qualidade, extremamente bem filmado e com várias sequências inacreditáveis de tão boas; as emoções e a indignação que a morte de um jovem naquelas condições provocaria, não florescem. Isso deixa muito claro que aqui, o drama deu lugar para a ação da mesma forma que a reflexão sucumbiu ao entretenimento. Funciona? Sim, funciona muito bem, mas como recomendação sugiro que antes de "Athena" você assista "Os Miseráveis" para que todo esse contexto social e cultural faça ainda mais sentido na narrativa como um todo.
Vale seu play!
"Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa" não é o tipo de filme de herói que me agrada, mas é preciso reconhecer que existe um público enorme que até prefere essemood mais suave e descompromissado do que algo mais denso com as discussões filosóficas que o Zack Snyder estava propondo para o DCU. Quando analisei"Coringa" escrevi o seguinte comentário: "Coringa" merece servir de modelo para todos os filmes que a DC vai produzir daqui para frente, pois trouxe para o selo (black / dark) a identidade que foi se perdendo depois dos sucessos da Marvel - e aqui cabe o comentário: a DC não é a Marvel e o seu maior erro foi querer suavizar suas histórias para se enquadrar em uma classificação que não está no seu DNA".
Pois bem, o sucesso de "Coringa" é indiscutível, com o público e com a crítica, e mesmo assim a DC ainda volta no tempo e ainda luta para se afirmar como selo! "Aves de Rapina", por exemplo, fica em cima do muro: tem muito do que eu acreditava que a DC deveria deixar de lado para fortalecer sua identidade, mas também foi muito elogiada pela forma como a história foi contada, mesmo com um roteiro infantilizado (infelizmente) - embora o filme tenha muita ação e não esconde a violência, o universo de "Aves de Rapina" é muito mais próximo de "Esquadrão Suicida" - que sempre foi tido como um fracasso que deveria ser esquecido - do que aquele de "Coringa", trazendo um look menos sombrio e com personagens coadjuvantes muito mais engraçadinhos do que bem desenvolvidos - ou seja, a DC assume a violência, mas não pesa na mão quando o assunto é se aprofundar na história e nas motivações dos personagens. A mensagem que fica é essa: "só assista o filme e se divirta!" - e eu complemento: "por sua conta e risco, claro!"
O filme passa rapidamente pela história de Harleen Quinzel, desde criança, até conhecer o Sr. C (aquele "Coringa Rapper" do Jared Leto e não aquele Coringa genial do Joaquin Phoenix) - as inserções gráficas já nos posicionam sobre o tom do filme, inclusive. Assim que restabelece a personagem Arlequina com uma premissa pseudo-dramática sobre o término do seu relacionamento com o Coringa, começa uma corrida (desesperada) para construir algumas situações que possam justificar a criação do grupo que dá nome ao filme: "Aves de Rapina"; e mesmo o roteiro sendo inteligente na apresentação de cada uma das personagens: Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Renee Montoya (Rosie Perez) e Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), quebrando muitas vezes a linearidade do tempo, as motivações de cada uma delas, são tão superficiais e batidas que refletem até em um personagem que tinha tudo para ser assustador ao melhor estilo Hannibal Lecter, o Máscara Negra (Ewan McGregor), mas que acaba soando como um garoto mimado que se irrita quando ele acha que alguém "está rindo da cara dele" (sim, existe essa cena no filme)!
Como é possível observar no trailer, e talvez por isso criou-se uma expectativa enorme sobre o seu lançamento, a novata diretora Cathy Yan assume a violência nua e crua em cenas de lutas extremamente bem coreografadas ao melhor estilo Demolidor (Netflix) na tentativa explícita de empoderar suas personagens femininas - e ela consegue cumprir sua missão com louvor. O balé da ação por trás das habilidades circenses de Arlequina pode não ter a mesma tensão e potência como em "Esquadrão Suicida", mas continua com aquele enorme carisma graças ao excelente trabalho da Margot Robbie - ela funciona tanto nas cenas mais dramáticas, quando nas escrachadas. A precisão cirúrgica da Caçadora e a habilidade natural de Renee Montoya estão muito bem justificadas e completamente dentro do contexto do filme, apenas o poder da Canário Negro que cai de para-quedas e ninguém nunca mais toca no assunto - é quase como se sua habilidade fosse a luta de rua e não a força de sua voz!
A partir daqui peço licença para refletir sobre as escolhas da DC, sem clubismo: "Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa" tem o seu mérito como subproduto da DC, mas o que me incomodou novamente, e isso não deve influenciar no gosto pessoal de ninguém, foi a falta de planejamento da DC, já que ela está tentando reconstruir seu Universo depois de algumas bobagens. Se houve um acerto tão claro e reconhecido como "Coringa" e mesmo que a proposta dos produtos sejam completamente diferentes (e são!), não se pode esquecer dos pontos de convergência entre as histórias, afinal ambas se passam em Gotham, por exemplo: então por que é tudo tão diferente? Os anos passaram entre uma história e outra, claro, mas houve algum reflexo na cidade, nos personagens? Nada é falado... Tudo fica ainda mais confuso quando os executivos vem à público dizer que o filme é independente - mas meu amigo, existem várias referências ao (para muitos) desastroso primeiro "Esquadrão Suicida" e nenhuma sobre o novo Universo DC... cadê a coerência?
"Aves de Rapina" pode ser um acerto para quem entende que existe uma dinâmica diferente entre as obras e um distanciamento natural entre as histórias, que a liberdade artística pode influenciar no resultado individual, mas nunca como um todo e que a forma como está sendo pensado e criado o novo DCU é só para um ou outro selo da marca, com os personagens principais e tal... Não sei, para mim não convenceu, mas, como reforço, essa é só a minha opinião!
Se você gosta de filmes de ação, cheio de piadas e com alguma referência aos quadrinhos, é possível que você se divirta com "Aves de Rapina", se você espera um filmaço como "Coringa" nem perca seu tempo!
"Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa" não é o tipo de filme de herói que me agrada, mas é preciso reconhecer que existe um público enorme que até prefere essemood mais suave e descompromissado do que algo mais denso com as discussões filosóficas que o Zack Snyder estava propondo para o DCU. Quando analisei"Coringa" escrevi o seguinte comentário: "Coringa" merece servir de modelo para todos os filmes que a DC vai produzir daqui para frente, pois trouxe para o selo (black / dark) a identidade que foi se perdendo depois dos sucessos da Marvel - e aqui cabe o comentário: a DC não é a Marvel e o seu maior erro foi querer suavizar suas histórias para se enquadrar em uma classificação que não está no seu DNA".
Pois bem, o sucesso de "Coringa" é indiscutível, com o público e com a crítica, e mesmo assim a DC ainda volta no tempo e ainda luta para se afirmar como selo! "Aves de Rapina", por exemplo, fica em cima do muro: tem muito do que eu acreditava que a DC deveria deixar de lado para fortalecer sua identidade, mas também foi muito elogiada pela forma como a história foi contada, mesmo com um roteiro infantilizado (infelizmente) - embora o filme tenha muita ação e não esconde a violência, o universo de "Aves de Rapina" é muito mais próximo de "Esquadrão Suicida" - que sempre foi tido como um fracasso que deveria ser esquecido - do que aquele de "Coringa", trazendo um look menos sombrio e com personagens coadjuvantes muito mais engraçadinhos do que bem desenvolvidos - ou seja, a DC assume a violência, mas não pesa na mão quando o assunto é se aprofundar na história e nas motivações dos personagens. A mensagem que fica é essa: "só assista o filme e se divirta!" - e eu complemento: "por sua conta e risco, claro!"
O filme passa rapidamente pela história de Harleen Quinzel, desde criança, até conhecer o Sr. C (aquele "Coringa Rapper" do Jared Leto e não aquele Coringa genial do Joaquin Phoenix) - as inserções gráficas já nos posicionam sobre o tom do filme, inclusive. Assim que restabelece a personagem Arlequina com uma premissa pseudo-dramática sobre o término do seu relacionamento com o Coringa, começa uma corrida (desesperada) para construir algumas situações que possam justificar a criação do grupo que dá nome ao filme: "Aves de Rapina"; e mesmo o roteiro sendo inteligente na apresentação de cada uma das personagens: Canário Negro (Jurnee Smollett-Bell), Renee Montoya (Rosie Perez) e Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), quebrando muitas vezes a linearidade do tempo, as motivações de cada uma delas, são tão superficiais e batidas que refletem até em um personagem que tinha tudo para ser assustador ao melhor estilo Hannibal Lecter, o Máscara Negra (Ewan McGregor), mas que acaba soando como um garoto mimado que se irrita quando ele acha que alguém "está rindo da cara dele" (sim, existe essa cena no filme)!
Como é possível observar no trailer, e talvez por isso criou-se uma expectativa enorme sobre o seu lançamento, a novata diretora Cathy Yan assume a violência nua e crua em cenas de lutas extremamente bem coreografadas ao melhor estilo Demolidor (Netflix) na tentativa explícita de empoderar suas personagens femininas - e ela consegue cumprir sua missão com louvor. O balé da ação por trás das habilidades circenses de Arlequina pode não ter a mesma tensão e potência como em "Esquadrão Suicida", mas continua com aquele enorme carisma graças ao excelente trabalho da Margot Robbie - ela funciona tanto nas cenas mais dramáticas, quando nas escrachadas. A precisão cirúrgica da Caçadora e a habilidade natural de Renee Montoya estão muito bem justificadas e completamente dentro do contexto do filme, apenas o poder da Canário Negro que cai de para-quedas e ninguém nunca mais toca no assunto - é quase como se sua habilidade fosse a luta de rua e não a força de sua voz!
A partir daqui peço licença para refletir sobre as escolhas da DC, sem clubismo: "Aves de Rapina: Arlequina e Sua Emancipação Fantabulosa" tem o seu mérito como subproduto da DC, mas o que me incomodou novamente, e isso não deve influenciar no gosto pessoal de ninguém, foi a falta de planejamento da DC, já que ela está tentando reconstruir seu Universo depois de algumas bobagens. Se houve um acerto tão claro e reconhecido como "Coringa" e mesmo que a proposta dos produtos sejam completamente diferentes (e são!), não se pode esquecer dos pontos de convergência entre as histórias, afinal ambas se passam em Gotham, por exemplo: então por que é tudo tão diferente? Os anos passaram entre uma história e outra, claro, mas houve algum reflexo na cidade, nos personagens? Nada é falado... Tudo fica ainda mais confuso quando os executivos vem à público dizer que o filme é independente - mas meu amigo, existem várias referências ao (para muitos) desastroso primeiro "Esquadrão Suicida" e nenhuma sobre o novo Universo DC... cadê a coerência?
"Aves de Rapina" pode ser um acerto para quem entende que existe uma dinâmica diferente entre as obras e um distanciamento natural entre as histórias, que a liberdade artística pode influenciar no resultado individual, mas nunca como um todo e que a forma como está sendo pensado e criado o novo DCU é só para um ou outro selo da marca, com os personagens principais e tal... Não sei, para mim não convenceu, mas, como reforço, essa é só a minha opinião!
Se você gosta de filmes de ação, cheio de piadas e com alguma referência aos quadrinhos, é possível que você se divirta com "Aves de Rapina", se você espera um filmaço como "Coringa" nem perca seu tempo!
Provavelmente "Bacurau" não seja o tipo de filme que você está pensando que é - eu diria que ele está muito mais para "Cidade de Deus" do que para "Abril Despedaçado", portanto se você tinha qualquer tipo de receio, pode confiar: "Bacurau" é um grande filme e vai te surpreender!
No sertão de Pernambuco, existe uma cidade chamada Bacurau. Quando uma moradora respeitada por todos, dona Carmelita, morre, estranhos episódios começam acontecer. É quando Lunga (Silvero Pereira) é chamado para ajudar seus conterrâneos, mas o perigo vai muito além do que todos poderiam imaginar.
Antes de assistir o trailer eu preciso te dar mais um aviso: quanto menos você souber sobre o filme, mais impactante será sua experiência! Agora é com você:
Não é por acaso que o filme começa com ares de ficção científica, onde vemos a Terra pela perspectiva de quem está no espaço. Conforme a câmera vai se movimentando para estabelecer o cenário onde a ação que assistiremos nas próximas duas horas vai desenrolar, percebemos que o destino não é o hemisfério norte ou o Estados Unidos, como de costume. O destino é o hemisfério sul, a América do Sul, mais precisamente em um país, vejam só, chamado Brasil. Acontece que o mergulho dramático ainda vai além até chegarmos em Bacurau - e como a placa que indica a proximidade da cidade, em meio a uma estrada cheia de buracos e um calor de matar, sugere: se for para Bacurau, vá em paz!
Não existem forma melhor de começar um filme como a partir do roteiro escrito por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (que também dirigem a obra) - sem dizer uma única palavra, já entendemos a importância que aquele cenário trará para trama. E não digo isso pela necessidade regionalista de exaltar um Brasil que muitos de nós não conhecemos e que sofre com a miséria e com a corrupção daqueles que deveriam defender os interesses de um povo sofrido - e eu disse um povo sofrido, não infeliz! Se você leu até aqui, já pode estar imaginando: mais um filme sobre o sertão, briga de famílias, dificuldades sociais, seca, calor e mosquitos. Embora "Bacurau" tenha tudo isso, ele é muito mais, já que não se trata de um drama e sim de um filme de ação - por mais que ele seja construído em cima de camadas bem profundas e sutilmente referenciadas em um texto inteligente e, principalmente, provocativo.
"Bacurau" é uma viagem emocional, o nosso "Casamento Vermelho"! Tecnicamente muito bem realizado, com uma fotografia belíssima do Pedro Sotero, não é por acaso que o filme venceu o Prêmio do Juri no Festival de Cannes em 2019 e esteve concorrendo em mais de 70 eventos ao redor do globo, tendo levado mais de 50 prêmios em todos eles. Ao dar o play, tenha em mente que nada que os diretores colocam em cena está ali por acaso - desde uma explicação sobre a real localização da cidade no Google Earth ao tosco disco voador com aspecto de anos 70 que aparece misteriosamente - é muito interessante como o roteiro brinca com a dicotomia entre tecnologia e tradição cultural ou até entre violência e tranquilidade.
Quando me propus a escrever um review sobre "Bacurau" meu único propósito era: preciso dizer para as pessoas assistirem a esse filme, mas não posso prejudicar sua experiência, para que elas tenham a exata sensação que sinto agora: a de ter assistido um filme realmente incrível! Diferente de outros reviews, não me aprofundei na trama e nem critiquei alguns elementos artísticos justamente para não quebrar sua expectativa - então se você buscou algo assim, você pode até estar irritado comigo, mas assista o filme porque tenho certeza que essa irritação vai ser tornar agradecimento.
Vale muito a pena!
Provavelmente "Bacurau" não seja o tipo de filme que você está pensando que é - eu diria que ele está muito mais para "Cidade de Deus" do que para "Abril Despedaçado", portanto se você tinha qualquer tipo de receio, pode confiar: "Bacurau" é um grande filme e vai te surpreender!
No sertão de Pernambuco, existe uma cidade chamada Bacurau. Quando uma moradora respeitada por todos, dona Carmelita, morre, estranhos episódios começam acontecer. É quando Lunga (Silvero Pereira) é chamado para ajudar seus conterrâneos, mas o perigo vai muito além do que todos poderiam imaginar.
Antes de assistir o trailer eu preciso te dar mais um aviso: quanto menos você souber sobre o filme, mais impactante será sua experiência! Agora é com você:
Não é por acaso que o filme começa com ares de ficção científica, onde vemos a Terra pela perspectiva de quem está no espaço. Conforme a câmera vai se movimentando para estabelecer o cenário onde a ação que assistiremos nas próximas duas horas vai desenrolar, percebemos que o destino não é o hemisfério norte ou o Estados Unidos, como de costume. O destino é o hemisfério sul, a América do Sul, mais precisamente em um país, vejam só, chamado Brasil. Acontece que o mergulho dramático ainda vai além até chegarmos em Bacurau - e como a placa que indica a proximidade da cidade, em meio a uma estrada cheia de buracos e um calor de matar, sugere: se for para Bacurau, vá em paz!
Não existem forma melhor de começar um filme como a partir do roteiro escrito por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (que também dirigem a obra) - sem dizer uma única palavra, já entendemos a importância que aquele cenário trará para trama. E não digo isso pela necessidade regionalista de exaltar um Brasil que muitos de nós não conhecemos e que sofre com a miséria e com a corrupção daqueles que deveriam defender os interesses de um povo sofrido - e eu disse um povo sofrido, não infeliz! Se você leu até aqui, já pode estar imaginando: mais um filme sobre o sertão, briga de famílias, dificuldades sociais, seca, calor e mosquitos. Embora "Bacurau" tenha tudo isso, ele é muito mais, já que não se trata de um drama e sim de um filme de ação - por mais que ele seja construído em cima de camadas bem profundas e sutilmente referenciadas em um texto inteligente e, principalmente, provocativo.
"Bacurau" é uma viagem emocional, o nosso "Casamento Vermelho"! Tecnicamente muito bem realizado, com uma fotografia belíssima do Pedro Sotero, não é por acaso que o filme venceu o Prêmio do Juri no Festival de Cannes em 2019 e esteve concorrendo em mais de 70 eventos ao redor do globo, tendo levado mais de 50 prêmios em todos eles. Ao dar o play, tenha em mente que nada que os diretores colocam em cena está ali por acaso - desde uma explicação sobre a real localização da cidade no Google Earth ao tosco disco voador com aspecto de anos 70 que aparece misteriosamente - é muito interessante como o roteiro brinca com a dicotomia entre tecnologia e tradição cultural ou até entre violência e tranquilidade.
Quando me propus a escrever um review sobre "Bacurau" meu único propósito era: preciso dizer para as pessoas assistirem a esse filme, mas não posso prejudicar sua experiência, para que elas tenham a exata sensação que sinto agora: a de ter assistido um filme realmente incrível! Diferente de outros reviews, não me aprofundei na trama e nem critiquei alguns elementos artísticos justamente para não quebrar sua expectativa - então se você buscou algo assim, você pode até estar irritado comigo, mas assista o filme porque tenho certeza que essa irritação vai ser tornar agradecimento.
Vale muito a pena!
Um pouquinho de "Mayor of Kingstown", um pouquinho de "Reacher", um pouquinho de "Tulsa King" - é isso que você vai encontrar nas quatro temporadas da excelente "Banshee". E sim, a série já acabou e tem um final! Criada por Jonathan Tropper (de "See") e David Schickler, e dirigida com o estilo marcante do dinamarquês Ole Christian Madsen, "Banshee" é um verdadeiro furacão de adrenalina e intensidade, capaz de prender qualquer pessoa que goste de muita ação combinada com uma narrativa, de fato, bem desenvolvida (e a prova disso você vai tirar no último episódio da quarta temporada). Essa série da Warner (leia-se Max) é uma mistura poderosa de violência, sexo, personagens cheios de personalidade e uma trama que equilibra o drama e o caos com um toque de humor ácido, ou seja, entretenimento puro que nos remete ao melhor do universo neo-noir que já foi produzido para a televisão.
A história se desenrola na fictícia cidade de Banshee, na Pensilvânia, onde Lucas Hood (Antony Starr), um ladrão profissional recém-saído da prisão, assume inesperadamente a identidade do novo xerife local após testemunhar sua morte. Enquanto tenta manter sua verdadeira identidade escondida, Hood precisa lidar com diversos desafios, entre eles a perigosa figura do gângster local Kai Proctor (Ulrich Thomsen), seu amor do passado, Anastasia (Ivana Milicevic), agora com nova identidade, e a constante ameaça de antigos inimigos que buscam vingança. Em meio a tudo isso, Hood tenta equilibrar sua ambígua moralidade enquanto enfrenta dilemas éticos a cada novo episódio. Confira o trailer (em inglês):
Vamos começar pelo roteiro - e a conexão impecável com a direção: Tropper e Schickler acertam demais ao oferecer uma abordagem direta, corajosa e sem concessões em uma narrativa que tinha tudo para cair no estereótipo. Não que isso não exista, afinal estamos falando de uma série de ação, mas aqui parece não haver espaço para sutilezas ou sentimentalismos exagerados já que "Banshee" entrega violência gráfica e uma ação visceral em doses, digamos, bastante elevadas (mas nunca gratuitamente). Ao melhor estilo "Demolidor" (e quem assistiu a série da Netflix vai entender perfeitamente a comparação), cada confronto físico é meticulosamente coreografado e filmado de maneira brilhante, mostrando que o diretor Ole Christian Madsen está em plena sintonia com a energia crua exigida pela série. Existe um uso inteligente das locações e uma iluminação sombria e granulada que contribuem demais para uma estética que oscila entre o western moderno e o thriller policial. Essa fotografia, aliás, explora muito bem o contraste entre as paisagens rurais e urbanas de Banshee, com uma iluminação que intensifica o clima mais noir da narrativa.
Antony Starr brilha intensamente na pele do enigmático Lucas Hood, oferecendo uma atuação sólida e cheia de intenções - repare que a jornada do personagem é muito mais profunda que o amontoado de socos e chutes que nunca faltam. Sua interpretação é crível e envolvente, se destacando não apenas nas cenas violentas, mas principalmente nos momentos introspectivos em que sua complexidade emocional e moral vem à tona. Ulrich Thomsen, por outro lado, entrega uma performance mais clássica, que mistura brutalidade com elegância, criando um antagonista memorável e muitas vezes imprevisível. Ivana Milicevic também merece destaque - ela consegue criar camadas significativas para sua personagem, transitando entre a vulnerabilidade e a força com absoluta naturalidade. Outro ponto positivo da série é a construção de personagens secundários intrigantes como Job (Hoon Lee), o hacker extravagante e bem-humorado, que garante ótimos momentos de leveza e ironia - bem anos 90, eu diria.
Apesar de ser uma série que nunca teve o reconhecimento absoluto que merecia enquanto estava no ar, "Banshee" possui muitos méritos justamente pelo seu compromisso em entregar entretenimento intenso, mas inteligente. Veja, a série não tenta agradar todo mundo, mas sim conquistar aqueles que gostam de uma narrativa potente, a base de testosterona e com personagens que constantemente desafiam padrões éticos e morais em situações que nos tiram da zona de conforto. Chega a ser curioso como uma série tão boa como essa, não tenha alcançado o reconhecimento além de um Emmy de "Efeitos Visuais" em 2013 - embora tenha ganho o status de "The Best Final Season" pelaAcademy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, dos EUA. Em resumo, "Banshee", posso te garantir, é um retrato pulsante e eletrizante sobre redenção e violência que vai te surpreender!
Vale muito o seu play!
Um pouquinho de "Mayor of Kingstown", um pouquinho de "Reacher", um pouquinho de "Tulsa King" - é isso que você vai encontrar nas quatro temporadas da excelente "Banshee". E sim, a série já acabou e tem um final! Criada por Jonathan Tropper (de "See") e David Schickler, e dirigida com o estilo marcante do dinamarquês Ole Christian Madsen, "Banshee" é um verdadeiro furacão de adrenalina e intensidade, capaz de prender qualquer pessoa que goste de muita ação combinada com uma narrativa, de fato, bem desenvolvida (e a prova disso você vai tirar no último episódio da quarta temporada). Essa série da Warner (leia-se Max) é uma mistura poderosa de violência, sexo, personagens cheios de personalidade e uma trama que equilibra o drama e o caos com um toque de humor ácido, ou seja, entretenimento puro que nos remete ao melhor do universo neo-noir que já foi produzido para a televisão.
A história se desenrola na fictícia cidade de Banshee, na Pensilvânia, onde Lucas Hood (Antony Starr), um ladrão profissional recém-saído da prisão, assume inesperadamente a identidade do novo xerife local após testemunhar sua morte. Enquanto tenta manter sua verdadeira identidade escondida, Hood precisa lidar com diversos desafios, entre eles a perigosa figura do gângster local Kai Proctor (Ulrich Thomsen), seu amor do passado, Anastasia (Ivana Milicevic), agora com nova identidade, e a constante ameaça de antigos inimigos que buscam vingança. Em meio a tudo isso, Hood tenta equilibrar sua ambígua moralidade enquanto enfrenta dilemas éticos a cada novo episódio. Confira o trailer (em inglês):
Vamos começar pelo roteiro - e a conexão impecável com a direção: Tropper e Schickler acertam demais ao oferecer uma abordagem direta, corajosa e sem concessões em uma narrativa que tinha tudo para cair no estereótipo. Não que isso não exista, afinal estamos falando de uma série de ação, mas aqui parece não haver espaço para sutilezas ou sentimentalismos exagerados já que "Banshee" entrega violência gráfica e uma ação visceral em doses, digamos, bastante elevadas (mas nunca gratuitamente). Ao melhor estilo "Demolidor" (e quem assistiu a série da Netflix vai entender perfeitamente a comparação), cada confronto físico é meticulosamente coreografado e filmado de maneira brilhante, mostrando que o diretor Ole Christian Madsen está em plena sintonia com a energia crua exigida pela série. Existe um uso inteligente das locações e uma iluminação sombria e granulada que contribuem demais para uma estética que oscila entre o western moderno e o thriller policial. Essa fotografia, aliás, explora muito bem o contraste entre as paisagens rurais e urbanas de Banshee, com uma iluminação que intensifica o clima mais noir da narrativa.
Antony Starr brilha intensamente na pele do enigmático Lucas Hood, oferecendo uma atuação sólida e cheia de intenções - repare que a jornada do personagem é muito mais profunda que o amontoado de socos e chutes que nunca faltam. Sua interpretação é crível e envolvente, se destacando não apenas nas cenas violentas, mas principalmente nos momentos introspectivos em que sua complexidade emocional e moral vem à tona. Ulrich Thomsen, por outro lado, entrega uma performance mais clássica, que mistura brutalidade com elegância, criando um antagonista memorável e muitas vezes imprevisível. Ivana Milicevic também merece destaque - ela consegue criar camadas significativas para sua personagem, transitando entre a vulnerabilidade e a força com absoluta naturalidade. Outro ponto positivo da série é a construção de personagens secundários intrigantes como Job (Hoon Lee), o hacker extravagante e bem-humorado, que garante ótimos momentos de leveza e ironia - bem anos 90, eu diria.
Apesar de ser uma série que nunca teve o reconhecimento absoluto que merecia enquanto estava no ar, "Banshee" possui muitos méritos justamente pelo seu compromisso em entregar entretenimento intenso, mas inteligente. Veja, a série não tenta agradar todo mundo, mas sim conquistar aqueles que gostam de uma narrativa potente, a base de testosterona e com personagens que constantemente desafiam padrões éticos e morais em situações que nos tiram da zona de conforto. Chega a ser curioso como uma série tão boa como essa, não tenha alcançado o reconhecimento além de um Emmy de "Efeitos Visuais" em 2013 - embora tenha ganho o status de "The Best Final Season" pelaAcademy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, dos EUA. Em resumo, "Banshee", posso te garantir, é um retrato pulsante e eletrizante sobre redenção e violência que vai te surpreender!
Vale muito o seu play!
"Bastardos Inglórios" é mais uma obra-prima do mestre Tarantino! Eliminar nazistas, que tema lindo, não acham? Misture esse lindo tema com um roteiro inteligente, atuações estupendas e uma direção visceral, pronto... temos um clássico!
Segunda Guerra Mundial. A França está ocupada pelos nazistas. O tenente Aldo Raine (Brad Pitt) é o encarregado de reunir um pelotão de soldados de origem judaica, com o objetivo de realizar uma missão suicida contra os alemães. O objetivo é eliminar o maior número possível de nazistas, da forma mais cruel possível. Paralelamente Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent) assiste a execução de sua família pelas mãos do coronel Hans Landa (Christoph Waltz), o que faz com que ela fuja para Paris. Lá Dreyfuss se disfarça como operadora e dona de um cinema local, enquanto planeja uma forma de se vingar. Confira o trailer:
Fatalmente, penso que junto com "Pulp Fiction", "Bastardos Inglórios" está, tranquilamente, no top 2 do Tarantino até aqui - na minha opinião.
Se trata de uma obra com a narração de fatos de uma França sob o domínio nazista com um roteiro perspicaz, não há como negar! A direção se alinha com uma estrutura narrativa que vai abordando os acontecimentos e intercalando os personagens até completar a ação - é uma completa “bagunça” arrumada. Tarantino abusa dos seus artifícios de imersão, é fácil nos sentirmos parte do filme, é um senso de espacialidade única. As explosões e o sangue jorrando não demora a aparecer - é um filme do Tarantino, né? Mas o verdadeiro mérito se encontra na dualidade designada para toda a narrativa, onde mesclam esplendorosamente bem as cenas de crueldade com os diálogos impecáveis.
Os diálogos são a cobertura e a cereja do bolo - eles são expressivos e intensos. A veracidade com que as conversas fluem é angustiante, isso aumenta o nível de tensão e o receio, o desconforto, vão nos invadindo de uma forma implacável! As atuações estão esplendorosas, o destaque vai para Waltz, que não por acaso venceu o Oscar de "Ator Coadjuvante" em 2010, com um personagem magnífico, misturando uma serenidade densa com um senso de crueldade - um assassino perfeito e digo mais: é um dos melhores coadjuvantes do século, sem dúvida. Pitt é outro que está ótimo, o personagem caiu como uma luva para o ator, está descontraído e elegante, uma excelente atuação. Todos do elenco parecem muito a vontade, era nítido que o clima nos bastidores realmente colocaria o filme em outro patamar - foi o que aconteceu!
Tarantino nos presenteia do melhor "jeito tarantinesco" possível: referências ao extremo, sangue jorrando em litros, um vilão odiável e fogo nos nazistas - olha que coisa linda de se contar e de assistir. "Bastardos Inglórios" é nitidamente um filme fora da curva. Personagens inesquecíveis, uma narrativa pesada colocando em jogo a sobrevivência de todos em cena com o maior clamor de originalidade e perspicácia possível - um marco do cinema, um dos melhores filmes da década! É impressionante como o filme consegue nos transmitir o alívio de tentar expurgar essa raça nazista que só nos deixou sequelas!
É a junção de brutalidade e inteligência sendo codificada em um filme icônico! Tarantino é gênio e é um deleite ver e rever essa obra! Ainda preciso dizer que vale a pena?
Up-date: "Bastardos Inglórios" recebeu 8 indicações no Oscar 2010, inclusive "Melhor Filme"!
Escrito por Bruno Overbeck - uma parceria @overcinee
"Bastardos Inglórios" é mais uma obra-prima do mestre Tarantino! Eliminar nazistas, que tema lindo, não acham? Misture esse lindo tema com um roteiro inteligente, atuações estupendas e uma direção visceral, pronto... temos um clássico!
Segunda Guerra Mundial. A França está ocupada pelos nazistas. O tenente Aldo Raine (Brad Pitt) é o encarregado de reunir um pelotão de soldados de origem judaica, com o objetivo de realizar uma missão suicida contra os alemães. O objetivo é eliminar o maior número possível de nazistas, da forma mais cruel possível. Paralelamente Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent) assiste a execução de sua família pelas mãos do coronel Hans Landa (Christoph Waltz), o que faz com que ela fuja para Paris. Lá Dreyfuss se disfarça como operadora e dona de um cinema local, enquanto planeja uma forma de se vingar. Confira o trailer:
Fatalmente, penso que junto com "Pulp Fiction", "Bastardos Inglórios" está, tranquilamente, no top 2 do Tarantino até aqui - na minha opinião.
Se trata de uma obra com a narração de fatos de uma França sob o domínio nazista com um roteiro perspicaz, não há como negar! A direção se alinha com uma estrutura narrativa que vai abordando os acontecimentos e intercalando os personagens até completar a ação - é uma completa “bagunça” arrumada. Tarantino abusa dos seus artifícios de imersão, é fácil nos sentirmos parte do filme, é um senso de espacialidade única. As explosões e o sangue jorrando não demora a aparecer - é um filme do Tarantino, né? Mas o verdadeiro mérito se encontra na dualidade designada para toda a narrativa, onde mesclam esplendorosamente bem as cenas de crueldade com os diálogos impecáveis.
Os diálogos são a cobertura e a cereja do bolo - eles são expressivos e intensos. A veracidade com que as conversas fluem é angustiante, isso aumenta o nível de tensão e o receio, o desconforto, vão nos invadindo de uma forma implacável! As atuações estão esplendorosas, o destaque vai para Waltz, que não por acaso venceu o Oscar de "Ator Coadjuvante" em 2010, com um personagem magnífico, misturando uma serenidade densa com um senso de crueldade - um assassino perfeito e digo mais: é um dos melhores coadjuvantes do século, sem dúvida. Pitt é outro que está ótimo, o personagem caiu como uma luva para o ator, está descontraído e elegante, uma excelente atuação. Todos do elenco parecem muito a vontade, era nítido que o clima nos bastidores realmente colocaria o filme em outro patamar - foi o que aconteceu!
Tarantino nos presenteia do melhor "jeito tarantinesco" possível: referências ao extremo, sangue jorrando em litros, um vilão odiável e fogo nos nazistas - olha que coisa linda de se contar e de assistir. "Bastardos Inglórios" é nitidamente um filme fora da curva. Personagens inesquecíveis, uma narrativa pesada colocando em jogo a sobrevivência de todos em cena com o maior clamor de originalidade e perspicácia possível - um marco do cinema, um dos melhores filmes da década! É impressionante como o filme consegue nos transmitir o alívio de tentar expurgar essa raça nazista que só nos deixou sequelas!
É a junção de brutalidade e inteligência sendo codificada em um filme icônico! Tarantino é gênio e é um deleite ver e rever essa obra! Ainda preciso dizer que vale a pena?
Up-date: "Bastardos Inglórios" recebeu 8 indicações no Oscar 2010, inclusive "Melhor Filme"!
Escrito por Bruno Overbeck - uma parceria @overcinee
Angustiante - eu só te digo isso: angustiante!
Sim, o filme sabe como explorar temas como a tentação, a infidelidade e as consequências morais de algumas decisões, digamos, mais impulsivas. O diretor, Eli Roth ("O Albergue"), de fato, sabe mesmo como criar uma atmosfera de suspense que nos tira da zona de conforto. Porém, também é preciso que se diga, que o filme não será uma unanimidade, já que o roteiro tem dificuldades para desenvolver plenamente suas ótimas ideias, principalmente quando escolhe o caminho mais fácil, excessivamente exagerado em certos momentos. É como se Roth quisesse ser um Tarantino! Funciona? Claro que sim, mas mais como entretenimento despretensioso do que como um filme inesquecível!
"Bata Antes de Entrar" conta a história de Evan Webber (Keanu Reeves) um arquiteto bem-sucedido que está sozinho em casa durante um fim de semana enquanto sua esposa e filhos estão viajando. Sua tranquilidade, porém, é interrompida quando duas jovens, Genesis (Lorenza Izzo) e Bel (Ana de Armas), batem em sua porta em busca de ajuda durante uma tempestade. Se inicialmente elas tentam seduzi-lo, no dia seguinte, elas passam a persegui-lo implacavelmente, transformando um ato de fraqueza em uma experiência das mais macabras! Confira o trailer:
A direção de Roth é eficaz em muitos sentidos - na criação de uma tensão progressiva e ao usar de elementos visuais para transmitir algum desconforto, sucesso. O filme acaba ganhando uma dimensão menos superficial com a fotografia do Antonio Quercia e a trilha sonora assinada pelo Manuel Riveiro, ambos de "Aftershock" - eles contribuem demais nessa construção de uma a atmosfera quase claustrofóbica e intensa, aumentando a curiosa sensação de paranoia e agonia vivida pelo protagonista de uma forma impressionante.
Aliás, a atuação de Keanu Reeves é ótima - ele retrata com maestria essa luta interna entre a moral e a tentação, conforme ele é seduzido pelas jovens. Poderia ser melhor desenvolvido? Sim, mas em nada atrapalha nossa experiência. Lorenza Izzo e Ana de Armas também entregam performances convincentes, alternando entre uma aparência inocente e outra manipuladora, com a mesma competência. Tudo isso faz de "Bata antes de Entrar" em filme provocativo - um bom suspense psicológico sem derramar uma gota de sangue (ou, pelo menos, sem derramar muito sangue) e que sabe brincar com nossas mais diversas sensações e, por que não, fantasias!
Uma coisa é certa, "Knock Knock" (no original) funciona muito melhor como um entretenimento, que mergulha nas nuances da tentação e das consequências morais do impulso, do que como um thriller psicológico profundo cheio de interpretações e teorias como o próprio trailer pode sugerir. Dito isso, aproveite e experiência e divirta-se!
Angustiante - eu só te digo isso: angustiante!
Sim, o filme sabe como explorar temas como a tentação, a infidelidade e as consequências morais de algumas decisões, digamos, mais impulsivas. O diretor, Eli Roth ("O Albergue"), de fato, sabe mesmo como criar uma atmosfera de suspense que nos tira da zona de conforto. Porém, também é preciso que se diga, que o filme não será uma unanimidade, já que o roteiro tem dificuldades para desenvolver plenamente suas ótimas ideias, principalmente quando escolhe o caminho mais fácil, excessivamente exagerado em certos momentos. É como se Roth quisesse ser um Tarantino! Funciona? Claro que sim, mas mais como entretenimento despretensioso do que como um filme inesquecível!
"Bata Antes de Entrar" conta a história de Evan Webber (Keanu Reeves) um arquiteto bem-sucedido que está sozinho em casa durante um fim de semana enquanto sua esposa e filhos estão viajando. Sua tranquilidade, porém, é interrompida quando duas jovens, Genesis (Lorenza Izzo) e Bel (Ana de Armas), batem em sua porta em busca de ajuda durante uma tempestade. Se inicialmente elas tentam seduzi-lo, no dia seguinte, elas passam a persegui-lo implacavelmente, transformando um ato de fraqueza em uma experiência das mais macabras! Confira o trailer:
A direção de Roth é eficaz em muitos sentidos - na criação de uma tensão progressiva e ao usar de elementos visuais para transmitir algum desconforto, sucesso. O filme acaba ganhando uma dimensão menos superficial com a fotografia do Antonio Quercia e a trilha sonora assinada pelo Manuel Riveiro, ambos de "Aftershock" - eles contribuem demais nessa construção de uma a atmosfera quase claustrofóbica e intensa, aumentando a curiosa sensação de paranoia e agonia vivida pelo protagonista de uma forma impressionante.
Aliás, a atuação de Keanu Reeves é ótima - ele retrata com maestria essa luta interna entre a moral e a tentação, conforme ele é seduzido pelas jovens. Poderia ser melhor desenvolvido? Sim, mas em nada atrapalha nossa experiência. Lorenza Izzo e Ana de Armas também entregam performances convincentes, alternando entre uma aparência inocente e outra manipuladora, com a mesma competência. Tudo isso faz de "Bata antes de Entrar" em filme provocativo - um bom suspense psicológico sem derramar uma gota de sangue (ou, pelo menos, sem derramar muito sangue) e que sabe brincar com nossas mais diversas sensações e, por que não, fantasias!
Uma coisa é certa, "Knock Knock" (no original) funciona muito melhor como um entretenimento, que mergulha nas nuances da tentação e das consequências morais do impulso, do que como um thriller psicológico profundo cheio de interpretações e teorias como o próprio trailer pode sugerir. Dito isso, aproveite e experiência e divirta-se!
Certamente "Batem à Porta" não tem a profundidade de "Mãe!", da mesma forma que M. Night Shyamalan não tem a genialidade de Darren Aronofsky. No entanto, é muito provável que se você gostou de um dos filmes, você também gostará do outro - e o inverso será verdadeiro. Veja, é inegável a força da identidade de um diretor como Shyamalan, seu nome virou sinônimo de reviravoltas narrativas e atmosferas de suspense carregadas de tensão psicológica - ele, de fato, domina essa gramática como poucos e seus filmes sempre vão dividir opiniões. Em "Batem à Porta", adaptação do livro "The Cabin at the End of the World" de Paul Tremblay, isso não será diferente já que o cineasta, mais uma vez, se apropria de uma premissa inquietante para construir um thriller verdadeiramente claustrofóbico, que sabe explorar dilemas morais, elementos de fanatismo e, principalmente, sabe construir a sensação de medo perante o desconhecido, mas evita a ação gratuita - apenas para citar sua cinematografia, é como se Shyamalan revisitasse "Sinais" e "Fim dos Tempos" para se inspirar e buscar o equilíbrio em pró do entretenimento. O resultado, é preciso que se diga, não é (e nem será) inesquecível, mas merece demais a sua atenção pela forma cheia de simbolismos como a narrativa cria um conflito que transita entre uma ameaça que pode estar tanto do mundo exterior quanto do íntimo dos personagens - o que desafia nossa percepção ao mesmo tempo que provoca muita reflexão.
A trama de "Knock at the Cabin", no original, acompanha o casal Eric (Jonathan Groff) e Andrew (Ben Aldridge), que viajam com a filha adotiva, Wen (Kristen Cui), para uma cabana isolada no meio da floresta. A tranquilidade da viagem é abruptamente interrompida quando quatro estranhos invadem o local e os fazem reféns. O líder do grupo, Leonard (Dave Bautista), afirma que a família precisa tomar uma decisão impensável: sacrificar um de seus membros para evitar um possível apocalipse. Confira o trailer e sinta o clima:
O maior mérito de "Batem à Porta" é, à medida que a tensão cresce, como o filme brinca com nossa percepção - especialmente ao manter a dúvida sobre a veracidade da profecia ou se tudo não passa de uma ilusão coletiva alimentada pelo extremismo religioso dos invasores. Justamente por isso, Shyamalan adota um ritmo mais contido durante a narrativa, evitando o espetáculo e apostando muito mais em uma abordagem intimista e opressiva do que no impacto visual - esse é um dos pontos que pode, mas não deveria, decepcionar parta da audiência. A fotografia do genial Jarin Blaschke (de "O Farol" e "Nosferatu" ) cumpre seu papel ao reforçar essa sensação de angústia por usar e abusar de planos fechados e de um jogo de luz e sombra que intensifica o suspense da história. O uso de close-ups extremos contribui para uma atmosfera sufocante, colocando a audiência no centro do desespero dos personagens - especialmente quando Shyamalan sugere mais do que mostra. Repare como a ausência de grandes sequências de ação mantém o foco na psicologia dos envolvidos, transformando "Batem à Porta" em um exercício de tensão contínua dos mais bem sucedidos.
Dave Bautista entrega uma performance surpreendente, fugindo dos papéis caricatos que se acostumou para aqui interpretar um personagem complexo, que equilibra uma certa doçura com lapsos de ameaça - tudo a partir de nuances impressionantes. Jonathan Groff e Ben Aldridge também se destacam, transmitindo com intensidade o desespero e o ceticismo de seus personagens, enquanto a jovem Kristen Cui, em sua estreia no cinema, adiciona um componente emocional essencial, representando a inocência e o amor incondicional diante do caos. Seguindo essa linha de raciocínio, aliás, minha única critica ao filme diz respeito ao desenvolvimento de alguns dos personagens coadjuvantes - suas histórias poderiam ser mais interessantes, impactantes até, se a lógica de conexão de Redmond (Rupert Grint) com os protagonistas fosse a mesma entre todos (vocês vão entender assim que os créditos subirem).
Pois bem, embora a premissa de "Batem à Porta" seja intrigante e o suspense funcione na maior parte do tempo, Shyamalan opta por uma resolução mais clara e direta do que no livro de Paul Tremblay - que mantém uma ambiguidade mais marcante. Isso pode frustrar aqueles que esperam um encerramento mais enigmático, porém a decisão do diretor de suavizar alguns elementos da obra original, que naturalmente dilui parte do impacto emocional e filosófico da história, deixa a experiência mais próxima do entretenimento do que daquele peso perturbador de assistir "Mãe!", por exemplo.
Saiba que o filme é eficiente ao explorar questões sobre fé, sacrifício e sobre o poder das crenças diante do absurdo, dito isso, não tenho a menor dúvida que "Batem à Porta" foi subestimado, mas que muitos vão se envolver e se empatizar com o drama de daquela família diante de uma decisão que pode mudar os rumos da humanidade. Vale seu play!
Certamente "Batem à Porta" não tem a profundidade de "Mãe!", da mesma forma que M. Night Shyamalan não tem a genialidade de Darren Aronofsky. No entanto, é muito provável que se você gostou de um dos filmes, você também gostará do outro - e o inverso será verdadeiro. Veja, é inegável a força da identidade de um diretor como Shyamalan, seu nome virou sinônimo de reviravoltas narrativas e atmosferas de suspense carregadas de tensão psicológica - ele, de fato, domina essa gramática como poucos e seus filmes sempre vão dividir opiniões. Em "Batem à Porta", adaptação do livro "The Cabin at the End of the World" de Paul Tremblay, isso não será diferente já que o cineasta, mais uma vez, se apropria de uma premissa inquietante para construir um thriller verdadeiramente claustrofóbico, que sabe explorar dilemas morais, elementos de fanatismo e, principalmente, sabe construir a sensação de medo perante o desconhecido, mas evita a ação gratuita - apenas para citar sua cinematografia, é como se Shyamalan revisitasse "Sinais" e "Fim dos Tempos" para se inspirar e buscar o equilíbrio em pró do entretenimento. O resultado, é preciso que se diga, não é (e nem será) inesquecível, mas merece demais a sua atenção pela forma cheia de simbolismos como a narrativa cria um conflito que transita entre uma ameaça que pode estar tanto do mundo exterior quanto do íntimo dos personagens - o que desafia nossa percepção ao mesmo tempo que provoca muita reflexão.
A trama de "Knock at the Cabin", no original, acompanha o casal Eric (Jonathan Groff) e Andrew (Ben Aldridge), que viajam com a filha adotiva, Wen (Kristen Cui), para uma cabana isolada no meio da floresta. A tranquilidade da viagem é abruptamente interrompida quando quatro estranhos invadem o local e os fazem reféns. O líder do grupo, Leonard (Dave Bautista), afirma que a família precisa tomar uma decisão impensável: sacrificar um de seus membros para evitar um possível apocalipse. Confira o trailer e sinta o clima:
O maior mérito de "Batem à Porta" é, à medida que a tensão cresce, como o filme brinca com nossa percepção - especialmente ao manter a dúvida sobre a veracidade da profecia ou se tudo não passa de uma ilusão coletiva alimentada pelo extremismo religioso dos invasores. Justamente por isso, Shyamalan adota um ritmo mais contido durante a narrativa, evitando o espetáculo e apostando muito mais em uma abordagem intimista e opressiva do que no impacto visual - esse é um dos pontos que pode, mas não deveria, decepcionar parta da audiência. A fotografia do genial Jarin Blaschke (de "O Farol" e "Nosferatu" ) cumpre seu papel ao reforçar essa sensação de angústia por usar e abusar de planos fechados e de um jogo de luz e sombra que intensifica o suspense da história. O uso de close-ups extremos contribui para uma atmosfera sufocante, colocando a audiência no centro do desespero dos personagens - especialmente quando Shyamalan sugere mais do que mostra. Repare como a ausência de grandes sequências de ação mantém o foco na psicologia dos envolvidos, transformando "Batem à Porta" em um exercício de tensão contínua dos mais bem sucedidos.
Dave Bautista entrega uma performance surpreendente, fugindo dos papéis caricatos que se acostumou para aqui interpretar um personagem complexo, que equilibra uma certa doçura com lapsos de ameaça - tudo a partir de nuances impressionantes. Jonathan Groff e Ben Aldridge também se destacam, transmitindo com intensidade o desespero e o ceticismo de seus personagens, enquanto a jovem Kristen Cui, em sua estreia no cinema, adiciona um componente emocional essencial, representando a inocência e o amor incondicional diante do caos. Seguindo essa linha de raciocínio, aliás, minha única critica ao filme diz respeito ao desenvolvimento de alguns dos personagens coadjuvantes - suas histórias poderiam ser mais interessantes, impactantes até, se a lógica de conexão de Redmond (Rupert Grint) com os protagonistas fosse a mesma entre todos (vocês vão entender assim que os créditos subirem).
Pois bem, embora a premissa de "Batem à Porta" seja intrigante e o suspense funcione na maior parte do tempo, Shyamalan opta por uma resolução mais clara e direta do que no livro de Paul Tremblay - que mantém uma ambiguidade mais marcante. Isso pode frustrar aqueles que esperam um encerramento mais enigmático, porém a decisão do diretor de suavizar alguns elementos da obra original, que naturalmente dilui parte do impacto emocional e filosófico da história, deixa a experiência mais próxima do entretenimento do que daquele peso perturbador de assistir "Mãe!", por exemplo.
Saiba que o filme é eficiente ao explorar questões sobre fé, sacrifício e sobre o poder das crenças diante do absurdo, dito isso, não tenho a menor dúvida que "Batem à Porta" foi subestimado, mas que muitos vão se envolver e se empatizar com o drama de daquela família diante de uma decisão que pode mudar os rumos da humanidade. Vale seu play!
"Batman" é muito bom! Eu diria que é um filme com a identidade de uma DC que a gente, de fato, quer ver! Embora seja um filme longo, com mais de 3 horas de duração, "Batman" é dinâmico na sua proposta narrativa e belíssimo no seu conceito visual. O filme do talentoso Matt Reeves, sem dúvida, tem mais de Nolan do que de Snyder - mas eu vou explicar melhor isso abaixo.
Nos dois anos em que protegeu asruas como Batman (Robert Pattinson), provocando medo no coração dos criminosos, Bruce Wayne mergulhou nas sombras de Gotham City. Com apenas alguns aliados confiáveis – Alfred Pennyworth (Andy Serkis), o comissário James Gordon (Jeffrey Wright); e com uma enorme rede de corrupção, inclusive com personalidades de destaque e muitos policiais da cidade, o vigilante solitário tornou-se a única esperança de vingança entre seus concidadãos. Quando um assassino mira a elite de Gotham com uma série de maquinações sádicas, um rastro de pistas enigmáticas leva Batman, a investigar o submundo da cidade, onde encontra personagens como Selina Kyle, a Mulher-Gato (Zoë Kravitz), Oswald Cobblepot, também conhecido como Pinguim (Colin Farrell), Carmine Falcone (John Turturro) e Edward Nashton, também conhecido como Charada (Paul Dano). À medida que surgem evidências e as ações do criminoso apontam para uma direção mais clara, Batman precisa forjar novas relações, desmascarar o culpado e trazer justiça para Gotham City, há tanto tempo atormentada pelo abuso de poder e pela corrupção. Confira o trailer:
"Batman" tem um roteiro muito inteligente e foi muito estratégico ao posicionar a história do filme depois de "Coringa"de Todd Phillips, que se passa no inicio dos anos 80, e antes do "Cavaleiro das Trevas" - aqui vou citar como referência a HQ, não desdenhando da versão do Nolan (longe disso), mas apenas porque a trilogia acabou criando um linha temporal própria e se analisada em retrospectiva, muita coisa pode não se encaixar nessa nova visão do herói. Se em "Coringa" Bruce Wayne era apenas uma criança e em "Cavaleiro das Trevas", uma versão mais madura, amargurada e cansada; em "Batman", Wayne ainda é jovem, mas depois de dois anos defendendo Gotham, alguns questionamentos já começam assombrar sua cabeça - aliás, esses questionamentos são poeticamente narrados por Pattinson, com uma Gotham chuvosa de fundo, criando uma atmosfera noir ao melhor estilo Sin City (do também, Frank Miller).
Se em "Cavaleiro da Trevas" tínhamos um vilão sádico, doente, imprevisível e cruel, posso dizer que Paul Dano bebe da mesma fonte com seu "Charada" - sua caracterização e seu modus operandi se encaixam perfeitamente naquele mood escuro e depressivo de Gotham, dando uma conotação de "Jogos Mortais" ao filme e provocando o herói a ser o que ele realmente é: um detetive! O plano do Charada é tão obscuro quanto sua identidade, mas a forma como o roteiro vai arquitetando os fatos é surpreendentemente bom - o inicio do terceiro ato chega a ser épico. Pattinson como Batman também convence, as cenas de ação lembram o melhor daquele primeiro ano inesquecível de "Demolidor" e o espirito perturbador do herói que soa como entidade macabra para os vilões, está ali. O problema é o Bruce Wayne do ator - talvez até pelo pouco tempo de tela, faltou desenvolvimento (que facilmente pode ser resolvido em um futuro próximo).
A fotografia do genial Greig Fraser (de "Duna" e "Lion") trabalha tão bem o contraste entre luz e sombra que mesmo com a escuridão (visual) da noite, conseguimos assistir tudo perfeitamente - uma aula de cinematografia para produções recentes com "Game of Thrones", por exemplo. A trilha sonora de Michael Giacchino (vencedor do Oscar por "Up") é outro espetáculo - as sequências com a versão de "Ave Maria" de Franz Schubert são lindas. Agora uma coisa é fato, tudo isso sem uma direção como a de Matt Reeves cairia no lugar comum e em "Batman" nada está no lugar comum, porque tudo se encaixa perfeitamente - até a armadura e o batmóvel estão incríveis!
"The Batman" (no original) parece entender que o universo sombrio da DC é muito mais interessante do que o amontoado de piadas que só funcionam nos filmes da Marvel. Com "Coringa" nas entrelinhas (prestem muita atenção porque os detalhes estão lá), Reeves dá mais um passo importante para a construção de um universo que, já sabemos, terá uma série do Pinguim (com o mesmo Colin Farrell) na HBO Max. A dúvida que fica é se esse universo pode ser expandido além das fronteiras de Gotham - eu acho que seria um perigo, porque, sinceramente, parece que a DC acertou a mão, mas é melhor não abusar.
"Batman" é muito bom! Eu diria que é um filme com a identidade de uma DC que a gente, de fato, quer ver! Embora seja um filme longo, com mais de 3 horas de duração, "Batman" é dinâmico na sua proposta narrativa e belíssimo no seu conceito visual. O filme do talentoso Matt Reeves, sem dúvida, tem mais de Nolan do que de Snyder - mas eu vou explicar melhor isso abaixo.
Nos dois anos em que protegeu asruas como Batman (Robert Pattinson), provocando medo no coração dos criminosos, Bruce Wayne mergulhou nas sombras de Gotham City. Com apenas alguns aliados confiáveis – Alfred Pennyworth (Andy Serkis), o comissário James Gordon (Jeffrey Wright); e com uma enorme rede de corrupção, inclusive com personalidades de destaque e muitos policiais da cidade, o vigilante solitário tornou-se a única esperança de vingança entre seus concidadãos. Quando um assassino mira a elite de Gotham com uma série de maquinações sádicas, um rastro de pistas enigmáticas leva Batman, a investigar o submundo da cidade, onde encontra personagens como Selina Kyle, a Mulher-Gato (Zoë Kravitz), Oswald Cobblepot, também conhecido como Pinguim (Colin Farrell), Carmine Falcone (John Turturro) e Edward Nashton, também conhecido como Charada (Paul Dano). À medida que surgem evidências e as ações do criminoso apontam para uma direção mais clara, Batman precisa forjar novas relações, desmascarar o culpado e trazer justiça para Gotham City, há tanto tempo atormentada pelo abuso de poder e pela corrupção. Confira o trailer:
"Batman" tem um roteiro muito inteligente e foi muito estratégico ao posicionar a história do filme depois de "Coringa"de Todd Phillips, que se passa no inicio dos anos 80, e antes do "Cavaleiro das Trevas" - aqui vou citar como referência a HQ, não desdenhando da versão do Nolan (longe disso), mas apenas porque a trilogia acabou criando um linha temporal própria e se analisada em retrospectiva, muita coisa pode não se encaixar nessa nova visão do herói. Se em "Coringa" Bruce Wayne era apenas uma criança e em "Cavaleiro das Trevas", uma versão mais madura, amargurada e cansada; em "Batman", Wayne ainda é jovem, mas depois de dois anos defendendo Gotham, alguns questionamentos já começam assombrar sua cabeça - aliás, esses questionamentos são poeticamente narrados por Pattinson, com uma Gotham chuvosa de fundo, criando uma atmosfera noir ao melhor estilo Sin City (do também, Frank Miller).
Se em "Cavaleiro da Trevas" tínhamos um vilão sádico, doente, imprevisível e cruel, posso dizer que Paul Dano bebe da mesma fonte com seu "Charada" - sua caracterização e seu modus operandi se encaixam perfeitamente naquele mood escuro e depressivo de Gotham, dando uma conotação de "Jogos Mortais" ao filme e provocando o herói a ser o que ele realmente é: um detetive! O plano do Charada é tão obscuro quanto sua identidade, mas a forma como o roteiro vai arquitetando os fatos é surpreendentemente bom - o inicio do terceiro ato chega a ser épico. Pattinson como Batman também convence, as cenas de ação lembram o melhor daquele primeiro ano inesquecível de "Demolidor" e o espirito perturbador do herói que soa como entidade macabra para os vilões, está ali. O problema é o Bruce Wayne do ator - talvez até pelo pouco tempo de tela, faltou desenvolvimento (que facilmente pode ser resolvido em um futuro próximo).
A fotografia do genial Greig Fraser (de "Duna" e "Lion") trabalha tão bem o contraste entre luz e sombra que mesmo com a escuridão (visual) da noite, conseguimos assistir tudo perfeitamente - uma aula de cinematografia para produções recentes com "Game of Thrones", por exemplo. A trilha sonora de Michael Giacchino (vencedor do Oscar por "Up") é outro espetáculo - as sequências com a versão de "Ave Maria" de Franz Schubert são lindas. Agora uma coisa é fato, tudo isso sem uma direção como a de Matt Reeves cairia no lugar comum e em "Batman" nada está no lugar comum, porque tudo se encaixa perfeitamente - até a armadura e o batmóvel estão incríveis!
"The Batman" (no original) parece entender que o universo sombrio da DC é muito mais interessante do que o amontoado de piadas que só funcionam nos filmes da Marvel. Com "Coringa" nas entrelinhas (prestem muita atenção porque os detalhes estão lá), Reeves dá mais um passo importante para a construção de um universo que, já sabemos, terá uma série do Pinguim (com o mesmo Colin Farrell) na HBO Max. A dúvida que fica é se esse universo pode ser expandido além das fronteiras de Gotham - eu acho que seria um perigo, porque, sinceramente, parece que a DC acertou a mão, mas é melhor não abusar.
Se alguém me perguntasse o que eu faria depois de "Coringa" do Todd Phillips e do "Batman"do Matt Reeves, eu responderia tranquilamente: adaptaria "Batman - A Piada Mortal" em live-action - minha única dúvida seria se eu usaria o final que vemos na tela ou de fato mostraria o que aconteceu após a "piada" do Coringa pela mente brilhante de Alan Moore! Dito isso, posso afirmar sem medo de errar que esse filme em animação da DC é simplesmente sensacional, mas, como já é possível imaginar, é também polêmico - já que nem todos vão entender a genialidade do diretor Sam Liu (A Morte do Superman) a partir do roteiro de Brian Azzarello e da HQ de Moore.
Na história acompanhamos um Batman enfurecido procurando o fugitivo Coringa depois de uma ataque covarde à família Gordon com o único intuito de provar sua tese, da maneira mais diabólica, que inocentaria sua própria descendência na loucura. Confira o trailer (em inglês):
"A Piada Mortal" foi lançada em 1988 e rapidamente se tornou um enorme sucesso e referência entre os leitores das HQs do Batman. Depois de assistir uma adaptação tão fiel como "Batman e o Longo dia das Bruxas", eu diria que a DC se superou, pois ela conseguiu expandir ainda mais o universo criado por Moore e ainda honrar a sua obra original sem deixar de lado toda aquela autenticidade e visão criativa.
Veja, se na HQ a Batgirl estava inserida na história somente para alavancar a trama de outros personagens, aqui ela é peça importante na humanização do herói - que casa perfeitamente com o perfil estabelecido por Reeves em "The Batman". Outro ponto alto e muito bem explorado, sem dúvida, é a participação do Coringa - e aqui é impossível não fazer a conexão que citei na apresentação desse review. Brilhantemente interpretado por Mark Hamill (o Luke Skywalker de "Star Wars"), esse Coringa tem o sadismo no olhar, a loucura nos gestos e a inteligência nos discursos como na performance deJoaquin Phoenix - sua última piada é uma resposta simplesmente genial para uma "proposta" (que nunca seria cumprida) do Batman. É lindo de ver (e de imaginar na voz do ator).
Essa animação é basicamente sobre a "loucura". Sabendo que o original de Moore se baseou no livro "A História da Loucura" do sociólogo Michel Foucault, fica clara a preocupação do diretor em explorar cada detalhe da psiquê dos personagens e os gatilhos (ou atitudes) que fariam cada um deles serem classificados como "loucos" dentro de um contexto. São várias passagens, da violência da Batgirl às atitudes do Comissário Gordon e do próprio Batman no final da história - algumas referências nas cenas onde a animação explora o passado do Coringa, embora diferentes do filme de Phillips, na essência transformadora são as mesmas; e muito marcantes!
Visualmente, "A Piada Mortal" não tem a beleza e mood depressivo de "Batman e o Longo dia das Bruxas", mas também está longe de ser simplista. Existe um charme nos traços, principalmente dos personagens - eu só senti falta de uma Gotham mais sombria, opressora, escura. A própria narração da Batgirl no inicio da jornada pontua esse clima menos denso. Resumindo, essa animação consegue mostrar, mais uma vez, a força de um personagem que parece vai ser levado a sério daqui para frente nos cinemas, com um universo rico, cheio de conexões entre passado e presente, e que estão prontos para serem aproveitados - sem se esquecer da reflexão honesta e profunda sobre a diferença ente propósito e loucura.
Vale muito seu play!
Se alguém me perguntasse o que eu faria depois de "Coringa" do Todd Phillips e do "Batman"do Matt Reeves, eu responderia tranquilamente: adaptaria "Batman - A Piada Mortal" em live-action - minha única dúvida seria se eu usaria o final que vemos na tela ou de fato mostraria o que aconteceu após a "piada" do Coringa pela mente brilhante de Alan Moore! Dito isso, posso afirmar sem medo de errar que esse filme em animação da DC é simplesmente sensacional, mas, como já é possível imaginar, é também polêmico - já que nem todos vão entender a genialidade do diretor Sam Liu (A Morte do Superman) a partir do roteiro de Brian Azzarello e da HQ de Moore.
Na história acompanhamos um Batman enfurecido procurando o fugitivo Coringa depois de uma ataque covarde à família Gordon com o único intuito de provar sua tese, da maneira mais diabólica, que inocentaria sua própria descendência na loucura. Confira o trailer (em inglês):
"A Piada Mortal" foi lançada em 1988 e rapidamente se tornou um enorme sucesso e referência entre os leitores das HQs do Batman. Depois de assistir uma adaptação tão fiel como "Batman e o Longo dia das Bruxas", eu diria que a DC se superou, pois ela conseguiu expandir ainda mais o universo criado por Moore e ainda honrar a sua obra original sem deixar de lado toda aquela autenticidade e visão criativa.
Veja, se na HQ a Batgirl estava inserida na história somente para alavancar a trama de outros personagens, aqui ela é peça importante na humanização do herói - que casa perfeitamente com o perfil estabelecido por Reeves em "The Batman". Outro ponto alto e muito bem explorado, sem dúvida, é a participação do Coringa - e aqui é impossível não fazer a conexão que citei na apresentação desse review. Brilhantemente interpretado por Mark Hamill (o Luke Skywalker de "Star Wars"), esse Coringa tem o sadismo no olhar, a loucura nos gestos e a inteligência nos discursos como na performance deJoaquin Phoenix - sua última piada é uma resposta simplesmente genial para uma "proposta" (que nunca seria cumprida) do Batman. É lindo de ver (e de imaginar na voz do ator).
Essa animação é basicamente sobre a "loucura". Sabendo que o original de Moore se baseou no livro "A História da Loucura" do sociólogo Michel Foucault, fica clara a preocupação do diretor em explorar cada detalhe da psiquê dos personagens e os gatilhos (ou atitudes) que fariam cada um deles serem classificados como "loucos" dentro de um contexto. São várias passagens, da violência da Batgirl às atitudes do Comissário Gordon e do próprio Batman no final da história - algumas referências nas cenas onde a animação explora o passado do Coringa, embora diferentes do filme de Phillips, na essência transformadora são as mesmas; e muito marcantes!
Visualmente, "A Piada Mortal" não tem a beleza e mood depressivo de "Batman e o Longo dia das Bruxas", mas também está longe de ser simplista. Existe um charme nos traços, principalmente dos personagens - eu só senti falta de uma Gotham mais sombria, opressora, escura. A própria narração da Batgirl no inicio da jornada pontua esse clima menos denso. Resumindo, essa animação consegue mostrar, mais uma vez, a força de um personagem que parece vai ser levado a sério daqui para frente nos cinemas, com um universo rico, cheio de conexões entre passado e presente, e que estão prontos para serem aproveitados - sem se esquecer da reflexão honesta e profunda sobre a diferença ente propósito e loucura.
Vale muito seu play!
"Batman e o Longo dia das Bruxas" é uma adaptação em duas partes de uma série de HQs deJeph Loeb eTim Sale, publicadas entre os anos de 1996 e 1997. O interessante dessa animação é que muito do momento do herói, o clima completamente noir e alguns personagens não tão conhecidos do grande público, também estarão no filme "The Batman" do Matt Reeves - é o caso, por exemplo, do mafioso Carmine Falcone.
Aliás, nessa primeira parte da adaptação, enquanto Batman, o capitão Jim Gordon e o promotor público Harvey Dent (ainda sem se transformar no "Duas Caras", mas com ótimas sacadas do que o personagem pode vir a ser) trabalham lado a lado para eliminar com as atividades ilegais de Falcone em Gotham, porém uma série de assassinatos misteriosos que acontecem apenas nos feriados e que parecem estar vinculados ao mundo da máfia, passam a chamar atenção do herói que agora também precisa lidar com o desconhecido. Confira o trailer:
Veja, se você leu "Batman e o Longo dia das Bruxas" a sensação de assistir a animação será basicamente a mesma - o que faz alguns fãs vibrarem e outros não se interessarem pela mesma obra só que em uma nova mídia. O fato é que o diretor Chris Palmer (de "Superman: O Homem do Amanhã") conseguiu, com a ajuda do roteirista Tim Sheridan, replicar o conceito narrativo e visual da HQ e ainda criar uma dinâmica cinematográfica repleta de mistério e drama - essa é uma característica muito particular da história que funciona perfeitamente na HQ, mas que acaba prejudicando um pouco a experiência na animação por que falta ação - e é até importante que se diga que esse Batman não é um herói maduro, ele soa estar no começo de sua jornada, tentando encontrar um equilíbrio e entendendo que, para realmente livrar a cidade do crime, ele precisará desenvolver suas habilidades como detetive e nem sempre sair para o embate fisico.
O elenco conta com Josh Duhamel (como Harvey Dent), Billy Burke (como Comissário Gordon), Jensen Ackles (como Batman), Naya Rivera (como Mulher Gato) e Troy Baker (como Coringa). Todos fizeram um competente trabalho, sem ter nenhum tipo de descompasso entre a voz e seus personagens, mas não tem como não referenciar Jensen Ackles - certamente uma das vozes mais consistentes que já tiveram a oportunidade de dublar o homem-morcego.
Esteticamente "Batman e o Longo dia das Bruxas" é lindo, com uma técnica 2D e um traço bem particular, funciona como uma HQ em movimento - as cenas em que Gotham é o cenário, com sua profunda escuridão, um certo brilho de neon e a chuva na contra-luz, olha, deslumbrante. Com relação a jornada, ela é de fato bastante imersiva e traz um mistério que realmente nos provoca - obviamente se você nunca leu a história isso vai ser ainda mais impactante. A fidelidade ao material original traz mais acertos do que erros e o que vemos ao final dessa primeira parte só nos faz querer assistir a segunda o quanto antes.
Para você que gosta de filmes de herói, mas com um roteiro um pouco mais profundo e até provocador, tenho certeza que o play será diversão na certa!
"Batman e o Longo dia das Bruxas" é uma adaptação em duas partes de uma série de HQs deJeph Loeb eTim Sale, publicadas entre os anos de 1996 e 1997. O interessante dessa animação é que muito do momento do herói, o clima completamente noir e alguns personagens não tão conhecidos do grande público, também estarão no filme "The Batman" do Matt Reeves - é o caso, por exemplo, do mafioso Carmine Falcone.
Aliás, nessa primeira parte da adaptação, enquanto Batman, o capitão Jim Gordon e o promotor público Harvey Dent (ainda sem se transformar no "Duas Caras", mas com ótimas sacadas do que o personagem pode vir a ser) trabalham lado a lado para eliminar com as atividades ilegais de Falcone em Gotham, porém uma série de assassinatos misteriosos que acontecem apenas nos feriados e que parecem estar vinculados ao mundo da máfia, passam a chamar atenção do herói que agora também precisa lidar com o desconhecido. Confira o trailer:
Veja, se você leu "Batman e o Longo dia das Bruxas" a sensação de assistir a animação será basicamente a mesma - o que faz alguns fãs vibrarem e outros não se interessarem pela mesma obra só que em uma nova mídia. O fato é que o diretor Chris Palmer (de "Superman: O Homem do Amanhã") conseguiu, com a ajuda do roteirista Tim Sheridan, replicar o conceito narrativo e visual da HQ e ainda criar uma dinâmica cinematográfica repleta de mistério e drama - essa é uma característica muito particular da história que funciona perfeitamente na HQ, mas que acaba prejudicando um pouco a experiência na animação por que falta ação - e é até importante que se diga que esse Batman não é um herói maduro, ele soa estar no começo de sua jornada, tentando encontrar um equilíbrio e entendendo que, para realmente livrar a cidade do crime, ele precisará desenvolver suas habilidades como detetive e nem sempre sair para o embate fisico.
O elenco conta com Josh Duhamel (como Harvey Dent), Billy Burke (como Comissário Gordon), Jensen Ackles (como Batman), Naya Rivera (como Mulher Gato) e Troy Baker (como Coringa). Todos fizeram um competente trabalho, sem ter nenhum tipo de descompasso entre a voz e seus personagens, mas não tem como não referenciar Jensen Ackles - certamente uma das vozes mais consistentes que já tiveram a oportunidade de dublar o homem-morcego.
Esteticamente "Batman e o Longo dia das Bruxas" é lindo, com uma técnica 2D e um traço bem particular, funciona como uma HQ em movimento - as cenas em que Gotham é o cenário, com sua profunda escuridão, um certo brilho de neon e a chuva na contra-luz, olha, deslumbrante. Com relação a jornada, ela é de fato bastante imersiva e traz um mistério que realmente nos provoca - obviamente se você nunca leu a história isso vai ser ainda mais impactante. A fidelidade ao material original traz mais acertos do que erros e o que vemos ao final dessa primeira parte só nos faz querer assistir a segunda o quanto antes.
Para você que gosta de filmes de herói, mas com um roteiro um pouco mais profundo e até provocador, tenho certeza que o play será diversão na certa!
A parte 2 do "Batman e o Longo dia das Bruxas" é ainda melhor, mais dinâmica, que a "parte 1", embora o roteiro vacile um pouquinho mais na transição que Gotham está vivendo devido a chegada de um vigilante noturno e justiceiro implacável como "Batman" - e mais uma vez: essa animação insere várias informações que serão relevantes, inclusive, no novo filme de Matt Reeves, "The Batman".
Na parte final de "Batman e o Longo dia das Bruxas", o assassino conhecido como Feriado (sim, o nome em inglês é muito mais charmoso) continua à solta e Batman, mesmo sofrendo com uma crise de identidade após os eventos da primeira parte, precisa ajudar Harvey Dent e o Comissário Gordon que tentam de todas as formas acabar de uma vez por todas com a onda de mortes causadas pelo serial killer,porém uma nova leva (agora) de super-vilões vem surgindo em Gotham e o Homem-Morcego precisa lidar com o peso da sua existência e o reflexo das suas ações no mundo do crime. Confira o trailer:
Obviamente que a premissa segue as consequências da primeira parte da animação, com a mesma atmosfera noir de uma Gotham, que mesmo atemporal, tem um ar “anos 30”, porém a mudança na jornada do herói parece mais claro e o que foi apenas sugerido com a presença do Coringa antes, agora ganha força e os vilões normais, mafiosos e corruptos, passam a ter a ajuda de personagens com poderes e naturalmente mais insanos - aliás, aqui pode estar uma vacilada do roteiro, pois ele não estabelece exatamente o ponto de virada e nem justifica algumas aproximações que vemos na animação, digamos que fica "subentendido": a relação de Bruce Wayne e Hera Venenosa (Katee Sackhoff), é um exemplo.
Por outro lado, essa continuação tem mais ação, não se preocupando tanto em mergulhar nas dores ou nas aflições dos personagens - nesse sentido, o ponto alto é a conclusão do arco de Harvey Dent que finalmente se transforma em Duas Caras. Dent tem suas motivações claras, mas ainda assim alguns pontos soaram nebulosos para mim: a razão pela qual a psique assassinada começa a domina-lo (qual foi o gatilho para isso acontecer?) e a sua aliança (improvável) com Solomon Grundy (Fred Tatasciore) são mais dois "vacilos" do roteiro. Claro que que eu sei que os vilões aparecem de maneira substancialmente semelhante na HQ, mas a fidelidade com a história original que funcionou muito bem na parte 1, quando o número de personagens era infinitamente menor, aqui me pareceu um pouco atropelado demais.
Veja, não que os vilões clássicos não devessem aparecer, mas é que eles simplesmente caem de paraquedas, sem nenhum pretexto aparente - tanto a já comentada Hera Venenosa, como o Espantalho (Robin Atkin Downes), o Chapeleiro Maluco (John DiMaggio) e, principalmente, o Pinguim (David Dastmalchian), poderiam ser melhor apresentados. E aqui cabe um comentário, no filme "The Batman" essa transição parece melhor desenvolvida, então se você usar as duas histórias, se posicionando na linha temporal de Gotham, é possível que sua experiência seja mais completa - a própria cena de Falcone sendo salvo por Thomas Wayne e de Bruce discutindo sobre o caráter do seu pai com Alfred, que funcionam muito bem no filme, na animação parecem até ser uma uma expansão da narrativa.
As duas partes de "Batman e o Longo dia das Bruxas" são extremamente satisfatórias, mas como adaptação acabou ficando muito presa ao material original e essas gaps apareceram na hora que a história pediu mais ação. Um pouco mais de ousadia e de tempo de tela poderiam transformar essa jornada em algo épico - uma minissérie de de 4 ou 6 episódios para estabelecer algumas relações funcionaria perfeitamente, mas também não podemos esquecer que agora temos o cinema e o HBO Max para cumprir com esse papel - o jogo não está perdido, ele está só começando. "Star Wars" que o diga!
Vale seu play!
A parte 2 do "Batman e o Longo dia das Bruxas" é ainda melhor, mais dinâmica, que a "parte 1", embora o roteiro vacile um pouquinho mais na transição que Gotham está vivendo devido a chegada de um vigilante noturno e justiceiro implacável como "Batman" - e mais uma vez: essa animação insere várias informações que serão relevantes, inclusive, no novo filme de Matt Reeves, "The Batman".
Na parte final de "Batman e o Longo dia das Bruxas", o assassino conhecido como Feriado (sim, o nome em inglês é muito mais charmoso) continua à solta e Batman, mesmo sofrendo com uma crise de identidade após os eventos da primeira parte, precisa ajudar Harvey Dent e o Comissário Gordon que tentam de todas as formas acabar de uma vez por todas com a onda de mortes causadas pelo serial killer,porém uma nova leva (agora) de super-vilões vem surgindo em Gotham e o Homem-Morcego precisa lidar com o peso da sua existência e o reflexo das suas ações no mundo do crime. Confira o trailer:
Obviamente que a premissa segue as consequências da primeira parte da animação, com a mesma atmosfera noir de uma Gotham, que mesmo atemporal, tem um ar “anos 30”, porém a mudança na jornada do herói parece mais claro e o que foi apenas sugerido com a presença do Coringa antes, agora ganha força e os vilões normais, mafiosos e corruptos, passam a ter a ajuda de personagens com poderes e naturalmente mais insanos - aliás, aqui pode estar uma vacilada do roteiro, pois ele não estabelece exatamente o ponto de virada e nem justifica algumas aproximações que vemos na animação, digamos que fica "subentendido": a relação de Bruce Wayne e Hera Venenosa (Katee Sackhoff), é um exemplo.
Por outro lado, essa continuação tem mais ação, não se preocupando tanto em mergulhar nas dores ou nas aflições dos personagens - nesse sentido, o ponto alto é a conclusão do arco de Harvey Dent que finalmente se transforma em Duas Caras. Dent tem suas motivações claras, mas ainda assim alguns pontos soaram nebulosos para mim: a razão pela qual a psique assassinada começa a domina-lo (qual foi o gatilho para isso acontecer?) e a sua aliança (improvável) com Solomon Grundy (Fred Tatasciore) são mais dois "vacilos" do roteiro. Claro que que eu sei que os vilões aparecem de maneira substancialmente semelhante na HQ, mas a fidelidade com a história original que funcionou muito bem na parte 1, quando o número de personagens era infinitamente menor, aqui me pareceu um pouco atropelado demais.
Veja, não que os vilões clássicos não devessem aparecer, mas é que eles simplesmente caem de paraquedas, sem nenhum pretexto aparente - tanto a já comentada Hera Venenosa, como o Espantalho (Robin Atkin Downes), o Chapeleiro Maluco (John DiMaggio) e, principalmente, o Pinguim (David Dastmalchian), poderiam ser melhor apresentados. E aqui cabe um comentário, no filme "The Batman" essa transição parece melhor desenvolvida, então se você usar as duas histórias, se posicionando na linha temporal de Gotham, é possível que sua experiência seja mais completa - a própria cena de Falcone sendo salvo por Thomas Wayne e de Bruce discutindo sobre o caráter do seu pai com Alfred, que funcionam muito bem no filme, na animação parecem até ser uma uma expansão da narrativa.
As duas partes de "Batman e o Longo dia das Bruxas" são extremamente satisfatórias, mas como adaptação acabou ficando muito presa ao material original e essas gaps apareceram na hora que a história pediu mais ação. Um pouco mais de ousadia e de tempo de tela poderiam transformar essa jornada em algo épico - uma minissérie de de 4 ou 6 episódios para estabelecer algumas relações funcionaria perfeitamente, mas também não podemos esquecer que agora temos o cinema e o HBO Max para cumprir com esse papel - o jogo não está perdido, ele está só começando. "Star Wars" que o diga!
Vale seu play!
Se você está disposto a mergulhar em um filme de ação raiz, bem estilo "Sylvester Stallone anos 90", nem perca seu tempo lendo essa análise, role o cursor para baixo e clique em "assista agora" que seu entretenimento está garantido!Dirigido pelo experiente David Ayer (de "Esquadrão Suicida") e estrelado pelo carismático Jason Statham, "Beekeeper: Rede de Vingança" é um verdadeiro jogo de video-game, com muita pancadaria e alguma (mas pouca) história -tudo embalado, obviamente, por uma produção caprichada. O que eu quero dizer é que aqui não dá para esperar um roteiro dos mais inteligentes e complexos, embora ele seja realmente conciso, ou performances inesquecíveis; o inegável é que o filme entrega muita diversão para quem gosta do gênero e isso é mais que suficiente!
Aposentado da organização secreta “Beekeepers”, Adam Clay (Statham) volta à ativa quando sua vizinha sofre um golpe financeiro e acaba morrendo. Ao descobrir uma rede criminosa gerenciada por um grupo influente politicamente, a missão de Adam evolui, expondo um sistema de corrupção que ameaça toda sociedade americana. Confira o trailer:
Mesmo que Ayer se esforce para criar camadas mais profundas para um mero filme de ação com uma história onde o pano de fundo explora temas como ganância, impunidade e busca por justiça, "The Beekeeper" (no original) é bom mesmo por causa da pancadaria e dos tiroteios. O roteiro, escrito por Kurt Wimmer (de "Código de Conduta") é até que bem construído, com uma dinâmica bem estabelecida, mas os diálogos, meu Deus, são fracos demais - os paralelos entre os males da sociedade contemporânea e as particularidades do ecossistema das abelhas chegam a ser constrangedores. Mas isso é um problema? Claro que não, pois quem se propõe a dar um play em um filme de Jason Statham quer mesmo é assistir as cenas de ação - muito bem coreografadas e executadas com perfeição pelo protagonista, diga-se de passagem.
A direção de Ayer, como não podia deixar de ser, sabe muito bem como é potente sua estrela. Com uma condução precisa e muito dinâmica, o diretor se apropria de takes longos e planos bem pensados para aumentar a imersão da audiência em uma história que tem o mérito de nos prender desde o início. Veja, essa é uma história de um herói rústico, um Rambo da vida, que solitário detona os falsos mocinhos e não se importa quem é o Papa ou o Presidente dos EUA, mas simcom o que está certo e o que está errado. Em cima desse conceito que a fotografia de Gabriel Beristain (de "Viúva Negra") gira, capturando a beleza ostensiva do sucesso (leia-se dinheiro e poder) a qualquer custo e a brutalidade de um homem em busca de justiça.
"Beekeeper" é só um filme de vingança - fácil na sua essência e divertido na sua proposta. Eu diria até que em tempos tão complexos como o nosso, normalmente retratado em filmes tão mais pretensiosos, ganhar quase duas horas se entretendo com uma história tão fantasiosa quanto inocente como essa, olha, é de se aplaudir sem o receio de parecer superficial.
Vale o seu play e a pipoca que nos acompanha!
Se você está disposto a mergulhar em um filme de ação raiz, bem estilo "Sylvester Stallone anos 90", nem perca seu tempo lendo essa análise, role o cursor para baixo e clique em "assista agora" que seu entretenimento está garantido!Dirigido pelo experiente David Ayer (de "Esquadrão Suicida") e estrelado pelo carismático Jason Statham, "Beekeeper: Rede de Vingança" é um verdadeiro jogo de video-game, com muita pancadaria e alguma (mas pouca) história -tudo embalado, obviamente, por uma produção caprichada. O que eu quero dizer é que aqui não dá para esperar um roteiro dos mais inteligentes e complexos, embora ele seja realmente conciso, ou performances inesquecíveis; o inegável é que o filme entrega muita diversão para quem gosta do gênero e isso é mais que suficiente!
Aposentado da organização secreta “Beekeepers”, Adam Clay (Statham) volta à ativa quando sua vizinha sofre um golpe financeiro e acaba morrendo. Ao descobrir uma rede criminosa gerenciada por um grupo influente politicamente, a missão de Adam evolui, expondo um sistema de corrupção que ameaça toda sociedade americana. Confira o trailer:
Mesmo que Ayer se esforce para criar camadas mais profundas para um mero filme de ação com uma história onde o pano de fundo explora temas como ganância, impunidade e busca por justiça, "The Beekeeper" (no original) é bom mesmo por causa da pancadaria e dos tiroteios. O roteiro, escrito por Kurt Wimmer (de "Código de Conduta") é até que bem construído, com uma dinâmica bem estabelecida, mas os diálogos, meu Deus, são fracos demais - os paralelos entre os males da sociedade contemporânea e as particularidades do ecossistema das abelhas chegam a ser constrangedores. Mas isso é um problema? Claro que não, pois quem se propõe a dar um play em um filme de Jason Statham quer mesmo é assistir as cenas de ação - muito bem coreografadas e executadas com perfeição pelo protagonista, diga-se de passagem.
A direção de Ayer, como não podia deixar de ser, sabe muito bem como é potente sua estrela. Com uma condução precisa e muito dinâmica, o diretor se apropria de takes longos e planos bem pensados para aumentar a imersão da audiência em uma história que tem o mérito de nos prender desde o início. Veja, essa é uma história de um herói rústico, um Rambo da vida, que solitário detona os falsos mocinhos e não se importa quem é o Papa ou o Presidente dos EUA, mas simcom o que está certo e o que está errado. Em cima desse conceito que a fotografia de Gabriel Beristain (de "Viúva Negra") gira, capturando a beleza ostensiva do sucesso (leia-se dinheiro e poder) a qualquer custo e a brutalidade de um homem em busca de justiça.
"Beekeeper" é só um filme de vingança - fácil na sua essência e divertido na sua proposta. Eu diria até que em tempos tão complexos como o nosso, normalmente retratado em filmes tão mais pretensiosos, ganhar quase duas horas se entretendo com uma história tão fantasiosa quanto inocente como essa, olha, é de se aplaudir sem o receio de parecer superficial.
Vale o seu play e a pipoca que nos acompanha!
"Belfast" está para o diretor Kenneth Branagh da mesma forma como "Roma" foi para o Alfonso Cuarón - e não por acaso, o filme também chega como um dos favoritos ao Oscar 2022!
Buddy (Jude Hill) é um menino de nove anos que passa a questionar o caminho para a vida adulta no momento em que seu mundo vira de cabeça para baixo quando sua comunidade, estável e amorosa, passa a sofrer ataques e a fomentar a rivalidade entre famílias católicas e protestantes. A partir daí, tudo o que Buddy achava que entendia sobre a vida muda para sempre, mas sua alegria, seu sorriso, a música e a magia formativa dos filmes que ele sempre amou, passam a servir de combustível para ele enfrentar suas novas dificuldades. Confira o trailer:
"Belfast" retrata eventos verídicos de uma época conhecida na Irlanda como "The Troubles", tendo a população protestante de um lado, maioria e que queria mais proximidade com a Inglaterra, e do outro a população católica que, por sua vez, defendia a independência ou mesmo a integração da Irlanda do Norte com a Irlanda - obviamente que essa irracionalidade fez com que pequenos grupos (de ambos os lados) recorressem à violência e à rebelião a fim de resolverem seus impasses sócio-políticos.
Pois bem, buscando um equilíbrio conceitual e narrativo entre "Roma" e "Jojo Rabbit"(de Taika Waititi), o diretor e roteirista Kenneth Branagh foi extremamente feliz em abordar um conflito muito impactante para aquela sociedade (imagina para uma criança de 9 anos) e ainda sim manter a leveza e a simpatia da história graças a forma como Buddy enxergava aquele momento delicado. É claro que o filme carrega uma atmosfera de dor, de sofrimento, de memórias marcantes, ainda assim ele nos faz sorrir. Filmado em preto e branco e com uma fotografia irretocável do diretor Haris Zambarloukos (de "Locke") o conceito visual traz um carga emocional muito necessária para a trama ao mesmo tempo em que brinca com lúdico ao usar as cores apenas quando Buddy se relaciona com arte - essa perspectiva cria uma sensação nostálgica impressionante.
Se "Licorice Pizza" é o coming-of-age de Paul Thomas Anderson, "Belfast" é a versão do sub-gênero cheia de dor e sorrisos de Branagh - uma verdadeira celebração familiar, mesmo quando nossos olhos mais maduros entendem de outra forma o relacionamento (e as dificuldades) dos pais de Buddy, o casal Ma (Caitirona Balfe) e Pa (Jamie Dornan), ou a vida com marcas profundas de seus avós - com Judi Dench e Ciarán Hinds dando um show e justificando suas indicações como "coadjuvantes". O fato é que "Belfast" se apoia na intransigência ideológica de quem precisa rotular o ser humano para criticar as diferenças em vez de exaltar a pluralidade cultural, para contar uma história de dificuldades e receios, com muita ternura, amor e, principalmente, saudade!
Imperdível!
Up-date: "Belfast" foi indicado em sete categorias no Oscar 2022, inclusive Melhor Filme e ganhou em Melhor Roteiro.
"Belfast" está para o diretor Kenneth Branagh da mesma forma como "Roma" foi para o Alfonso Cuarón - e não por acaso, o filme também chega como um dos favoritos ao Oscar 2022!
Buddy (Jude Hill) é um menino de nove anos que passa a questionar o caminho para a vida adulta no momento em que seu mundo vira de cabeça para baixo quando sua comunidade, estável e amorosa, passa a sofrer ataques e a fomentar a rivalidade entre famílias católicas e protestantes. A partir daí, tudo o que Buddy achava que entendia sobre a vida muda para sempre, mas sua alegria, seu sorriso, a música e a magia formativa dos filmes que ele sempre amou, passam a servir de combustível para ele enfrentar suas novas dificuldades. Confira o trailer:
"Belfast" retrata eventos verídicos de uma época conhecida na Irlanda como "The Troubles", tendo a população protestante de um lado, maioria e que queria mais proximidade com a Inglaterra, e do outro a população católica que, por sua vez, defendia a independência ou mesmo a integração da Irlanda do Norte com a Irlanda - obviamente que essa irracionalidade fez com que pequenos grupos (de ambos os lados) recorressem à violência e à rebelião a fim de resolverem seus impasses sócio-políticos.
Pois bem, buscando um equilíbrio conceitual e narrativo entre "Roma" e "Jojo Rabbit"(de Taika Waititi), o diretor e roteirista Kenneth Branagh foi extremamente feliz em abordar um conflito muito impactante para aquela sociedade (imagina para uma criança de 9 anos) e ainda sim manter a leveza e a simpatia da história graças a forma como Buddy enxergava aquele momento delicado. É claro que o filme carrega uma atmosfera de dor, de sofrimento, de memórias marcantes, ainda assim ele nos faz sorrir. Filmado em preto e branco e com uma fotografia irretocável do diretor Haris Zambarloukos (de "Locke") o conceito visual traz um carga emocional muito necessária para a trama ao mesmo tempo em que brinca com lúdico ao usar as cores apenas quando Buddy se relaciona com arte - essa perspectiva cria uma sensação nostálgica impressionante.
Se "Licorice Pizza" é o coming-of-age de Paul Thomas Anderson, "Belfast" é a versão do sub-gênero cheia de dor e sorrisos de Branagh - uma verdadeira celebração familiar, mesmo quando nossos olhos mais maduros entendem de outra forma o relacionamento (e as dificuldades) dos pais de Buddy, o casal Ma (Caitirona Balfe) e Pa (Jamie Dornan), ou a vida com marcas profundas de seus avós - com Judi Dench e Ciarán Hinds dando um show e justificando suas indicações como "coadjuvantes". O fato é que "Belfast" se apoia na intransigência ideológica de quem precisa rotular o ser humano para criticar as diferenças em vez de exaltar a pluralidade cultural, para contar uma história de dificuldades e receios, com muita ternura, amor e, principalmente, saudade!
Imperdível!
Up-date: "Belfast" foi indicado em sete categorias no Oscar 2022, inclusive Melhor Filme e ganhou em Melhor Roteiro.
"Cadáver" (ou Kadaver, no seu título original) é um filme norueguês que vem chamando muito a atenção dos assinantes da Netflix por apresentar uma história criativa bem ao estilo "Sleep No More" - espetáculo que trás uma interessante proposta narrativa conhecida como teatro de imersão. Vale ressaltar que essa é, provavelmente, a experiência teatral mais original em muito tempo, de Nova York, onde você não senta para assistir a peça, pois não existe palco para se ter platéia; se você quer saber a história, é preciso acompanhar os atores pelos corredores e cômodos de um hotel, vivenciar as cenas, mesmo que mascarados para diferenciar público de personagens.
Pois bem, esse suspense psicológico da Netflix mostra uma cidade arrasada por uma catástrofe nuclear, onde as pessoas não tem o que comer e, literalmente, estão morrendo de fome e de frio pelas ruas. Escondidos em uma casa, a ex-atriz Leo (Gitte Witt) tenta sobreviver como pode com sua filha de dez anos, Alice (Tuva Olivia Remman), e com seu marido, Jacob (Thomas Gullestad). É nessa realidade devastadora, mas relativizada pelo lúdico da relação mãe e filha, que surge um fio de esperança quando o dono de um hotel de luxo da cidade convida alguns moradores para um misterioso jantar que culminará, justamente, em um bizarro espetáculo de teatro imersivo! Confira o trailer:
Talvez "Cadáver" não tenha o impacto visual para chocar ou até uma profundidade narrativa como o "O Poço", porém é preciso dizer que o diretor e roteirista Jarand Herdal (Everywhen) teve o grande mérito de criar uma constante tensão se apoiando muito mais no medo do desconhecido do que nos sustos que poderíamos levar durante o filme e isso, propositalmente, nos remete ao estilo de entretenimento que temos ao assistir um teatro imersivo: o fato de Herdal manipular nossa curiosidade ao mesmo tempo que manipula as sensações de insegurança dos protagonistas nos coloca dentro daquela realidade!
Saiba que não se trata de algo tão marcante, mas mesmo assim vale muito a pena se você se interessa pelo estilo do filme, por se tratar de uma escola cinematográfica completamente diferente do que estamos acostumados e, claro, por nos provocar a entender o que de fato está acontecendo ali.
Quando entendemos que a maior referência de "Cadáver" vem da obra de Lewis Carroll e é praticamente uma versão macabra de "Alice no País das Maravilhas", tudo passa a fazer um pouco mais de sentido. Veja: Alice é uma linda menina loira, seu bicho de pelúcia é um coelho, o convite para o chá na verdade é um banquete que antecede o espetáculo, Mathias é um anfitrião maluco como o chapeleiro, o cenário é repleto de espelhos, buracos e formas, e o tempo se torna questão de sobrevivência para tentar encontrar o caminho de volta para casa. Reparem: não é por acaso que, na chegada da família ao hotel, Mathias diz, encantado com a pequena Alice:Você deixa eu te mostrar o meu País das Maravilhas?”
Marcante como a versão de Tim Burton para o clássico de Carroll, "Cadáver" trás a bela fotografia de Jallo Faber que mostra diferentes ambientes, separados como universos, a partir de uma predominância azulada e fria para o mundo exterior, pontuada com o vermelho do figurino de Alice, e uma linha mais amarelada, quente, quase "kubrickiana" dentro do hotel. Aliás, o cenário é quase um copy/paste de "O Iluminado" - repleto de corredores longos e escuros, quadros de animais (na maioria das vezes, mortos) e um mobilia pesada, vitoriana.
Se visualmente o filme chama atenção é no roteiro que ele vacila: Herdal pesa na mão ao focar na busca desesperada de uma mãe por sua filha e esquece de tudo que está acontecendo a sua volta. Não que isso não carregue um drama natural, mas é que quase nada é revelado durante os dois primeiros atos e, de repente, tudo é despejado no terceiro para finalizar o arco principal e os secundários, sem muitas explicações e com motivações bem previsíveis, eu diria.
É fato que a história não tem um ritmo tão marcante quanto "Us" do Jordan Peele, por exemplo, mas é impossível negar que ela não te prenda! Por tudo isso vale a recomendação e a promessa de um entretenimento de qualidade, mas que não vai ser inesquecível (como poderia)!
"Cadáver" (ou Kadaver, no seu título original) é um filme norueguês que vem chamando muito a atenção dos assinantes da Netflix por apresentar uma história criativa bem ao estilo "Sleep No More" - espetáculo que trás uma interessante proposta narrativa conhecida como teatro de imersão. Vale ressaltar que essa é, provavelmente, a experiência teatral mais original em muito tempo, de Nova York, onde você não senta para assistir a peça, pois não existe palco para se ter platéia; se você quer saber a história, é preciso acompanhar os atores pelos corredores e cômodos de um hotel, vivenciar as cenas, mesmo que mascarados para diferenciar público de personagens.
Pois bem, esse suspense psicológico da Netflix mostra uma cidade arrasada por uma catástrofe nuclear, onde as pessoas não tem o que comer e, literalmente, estão morrendo de fome e de frio pelas ruas. Escondidos em uma casa, a ex-atriz Leo (Gitte Witt) tenta sobreviver como pode com sua filha de dez anos, Alice (Tuva Olivia Remman), e com seu marido, Jacob (Thomas Gullestad). É nessa realidade devastadora, mas relativizada pelo lúdico da relação mãe e filha, que surge um fio de esperança quando o dono de um hotel de luxo da cidade convida alguns moradores para um misterioso jantar que culminará, justamente, em um bizarro espetáculo de teatro imersivo! Confira o trailer:
Talvez "Cadáver" não tenha o impacto visual para chocar ou até uma profundidade narrativa como o "O Poço", porém é preciso dizer que o diretor e roteirista Jarand Herdal (Everywhen) teve o grande mérito de criar uma constante tensão se apoiando muito mais no medo do desconhecido do que nos sustos que poderíamos levar durante o filme e isso, propositalmente, nos remete ao estilo de entretenimento que temos ao assistir um teatro imersivo: o fato de Herdal manipular nossa curiosidade ao mesmo tempo que manipula as sensações de insegurança dos protagonistas nos coloca dentro daquela realidade!
Saiba que não se trata de algo tão marcante, mas mesmo assim vale muito a pena se você se interessa pelo estilo do filme, por se tratar de uma escola cinematográfica completamente diferente do que estamos acostumados e, claro, por nos provocar a entender o que de fato está acontecendo ali.
Quando entendemos que a maior referência de "Cadáver" vem da obra de Lewis Carroll e é praticamente uma versão macabra de "Alice no País das Maravilhas", tudo passa a fazer um pouco mais de sentido. Veja: Alice é uma linda menina loira, seu bicho de pelúcia é um coelho, o convite para o chá na verdade é um banquete que antecede o espetáculo, Mathias é um anfitrião maluco como o chapeleiro, o cenário é repleto de espelhos, buracos e formas, e o tempo se torna questão de sobrevivência para tentar encontrar o caminho de volta para casa. Reparem: não é por acaso que, na chegada da família ao hotel, Mathias diz, encantado com a pequena Alice:Você deixa eu te mostrar o meu País das Maravilhas?”
Marcante como a versão de Tim Burton para o clássico de Carroll, "Cadáver" trás a bela fotografia de Jallo Faber que mostra diferentes ambientes, separados como universos, a partir de uma predominância azulada e fria para o mundo exterior, pontuada com o vermelho do figurino de Alice, e uma linha mais amarelada, quente, quase "kubrickiana" dentro do hotel. Aliás, o cenário é quase um copy/paste de "O Iluminado" - repleto de corredores longos e escuros, quadros de animais (na maioria das vezes, mortos) e um mobilia pesada, vitoriana.
Se visualmente o filme chama atenção é no roteiro que ele vacila: Herdal pesa na mão ao focar na busca desesperada de uma mãe por sua filha e esquece de tudo que está acontecendo a sua volta. Não que isso não carregue um drama natural, mas é que quase nada é revelado durante os dois primeiros atos e, de repente, tudo é despejado no terceiro para finalizar o arco principal e os secundários, sem muitas explicações e com motivações bem previsíveis, eu diria.
É fato que a história não tem um ritmo tão marcante quanto "Us" do Jordan Peele, por exemplo, mas é impossível negar que ela não te prenda! Por tudo isso vale a recomendação e a promessa de um entretenimento de qualidade, mas que não vai ser inesquecível (como poderia)!
É preciso dizer que "Coringa" é o melhor filme que a DC produziu desde o "Cavaleiro das Trevas" do Nolan!!! O filme é simplesmente sensacional - eu diria que quase perfeito (e mais abaixo vou explicar por onde, na minha opinião, escapou a perfeição). Algumas observações para você que está muito ansioso para assistir: o filme é uma verdadeira imersão na "sombra" do personagem, na construção da jornada de transformação e nas suas motivações. "Coringa" merece servir de modelo para todos os filmes que a DC vai produzir daqui para frente, pois trouxe para o selo (black / dark) a identidade que foi se perdendo depois dos sucessos da Marvel - e aqui cabe o comentário: a DC não é a Marvel e o seu maior erro foi querer suavizar suas histórias para se enquadrar em uma classificação que não está no seu DNA. Esse novo selo da DC deu a liberdade que algumas histórias pediam e fica claro na tela que a violência, a profundidade psíquica, o cuidado no roteiro e o conceito estético são pilares que devem ser seguidos daqui para frente, porque o resultado é incrível!
"Coringa" segue a vida Arthur Fleck, um aspirante a comediante, completamente fracassado e com uma condição mental bastante peculiar onde, em determinados momentos, o faz rir compulsivamente (normalmente o gatilho vem do seu estado emocional fragilizado ou ameaçado). Morando com mãe, Fleck é um pacato ser humano, vítima de uma sociedade elitista e preconceituosa. Aliás, aqui vem o primeiro elogio ao roteiro: situar a história no começo dos anos 80 permitiu não só construir um novo personagem como também iniciar uma gênese que pode servir de base para futuros filmes. Em "Coringa" vemos porque Gothan se tornou tão violenta e como a dinastia Wayne interferiu nessa realidade. Aliás não foi preciso citar nada além do que vemos na tela para nos sentirmos familiarizados com aquele Universo de tão bem construído que foi. Só espero que a DC saiba usar isso com inteligência e que as informações que foram veiculadas sobre a independência dos filmes desse selo seja revista, porque seria um pecado não aproveitar "Coringa" para nada!
O roteiro é poético ao mesmo tempo que é extremamente violento. O diretor Todd Phillips ("Se beber, não case") merece uma indicação ao Oscar, pois seu trabalho é simplesmente perfeito. Ele achou o tom do filme, alinhou com a espetacular atuação de Joaquin Phoenix (que também vai ser indicado) e finalizou com uma fotografia lindíssima de um surpreendente Lawrence Sher (Godzilla II e Cães de Guerra). O roteiro é super original até para quem ama o personagem e acompanha os quadrinhos, porém peca em dois únicos momentos (e aí parece muito mais culpa ou pressão do Estúdio, do que um preciosismo dos roteiristas): quando explica as alucinações de Fleck (não precisava explicar, estava claro, o corte já contava essa história, não precisava mastigar para o público - deu raiva) e quando, mais uma vez, mostra o destino dos Wayne saindo do cinema - sério, eu já não aguento mais assistir aquele colar de pérolas caindo (desperdício de oportunidade de só sugestionar uma situação e trabalhar com a memória emotiva de quem acompanha a saga do Batman há anos). A edição de som, mixagem, a trilha sonora e o desenho de produção, olha, estão primorosos!
"Coringa" vai levar Phoenix ao Oscar por entregar um personagem tão bem construído (ou mais) que Heath Ledger. A comparação será inevitável, mas injusta, pois não se trata de um filme do Batman e sim do Coringa, mas se pensarmos como uma homenagem, meu Deus, que personagem complexo e profundo que vemos nesse filme - os caras deveriam ter feito uma série sobre ele (rs)! O filme é tão bom, tão dinâmico, tão redondo, que nem vemos o tempo passar e chegamos a torcer para que ele não acabe - e são duas horas de filme!!! Puxa, é preciso admitir que foi um grande trabalho da DC e, pode apostar, vai render pelo menos umas 5 indicações no próximo Oscar - me cobrem! Grande acerto, só, por favor, não estraguem essa obra-prima com o que já está planejado!!!
Assistam o que foi, para mim, um dos melhore filmes do ano até aqui! Mesmo!!!
Up-date: "Coringa" ganhou em duas categorias no Oscar 2020: Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator!
É preciso dizer que "Coringa" é o melhor filme que a DC produziu desde o "Cavaleiro das Trevas" do Nolan!!! O filme é simplesmente sensacional - eu diria que quase perfeito (e mais abaixo vou explicar por onde, na minha opinião, escapou a perfeição). Algumas observações para você que está muito ansioso para assistir: o filme é uma verdadeira imersão na "sombra" do personagem, na construção da jornada de transformação e nas suas motivações. "Coringa" merece servir de modelo para todos os filmes que a DC vai produzir daqui para frente, pois trouxe para o selo (black / dark) a identidade que foi se perdendo depois dos sucessos da Marvel - e aqui cabe o comentário: a DC não é a Marvel e o seu maior erro foi querer suavizar suas histórias para se enquadrar em uma classificação que não está no seu DNA. Esse novo selo da DC deu a liberdade que algumas histórias pediam e fica claro na tela que a violência, a profundidade psíquica, o cuidado no roteiro e o conceito estético são pilares que devem ser seguidos daqui para frente, porque o resultado é incrível!
"Coringa" segue a vida Arthur Fleck, um aspirante a comediante, completamente fracassado e com uma condição mental bastante peculiar onde, em determinados momentos, o faz rir compulsivamente (normalmente o gatilho vem do seu estado emocional fragilizado ou ameaçado). Morando com mãe, Fleck é um pacato ser humano, vítima de uma sociedade elitista e preconceituosa. Aliás, aqui vem o primeiro elogio ao roteiro: situar a história no começo dos anos 80 permitiu não só construir um novo personagem como também iniciar uma gênese que pode servir de base para futuros filmes. Em "Coringa" vemos porque Gothan se tornou tão violenta e como a dinastia Wayne interferiu nessa realidade. Aliás não foi preciso citar nada além do que vemos na tela para nos sentirmos familiarizados com aquele Universo de tão bem construído que foi. Só espero que a DC saiba usar isso com inteligência e que as informações que foram veiculadas sobre a independência dos filmes desse selo seja revista, porque seria um pecado não aproveitar "Coringa" para nada!
O roteiro é poético ao mesmo tempo que é extremamente violento. O diretor Todd Phillips ("Se beber, não case") merece uma indicação ao Oscar, pois seu trabalho é simplesmente perfeito. Ele achou o tom do filme, alinhou com a espetacular atuação de Joaquin Phoenix (que também vai ser indicado) e finalizou com uma fotografia lindíssima de um surpreendente Lawrence Sher (Godzilla II e Cães de Guerra). O roteiro é super original até para quem ama o personagem e acompanha os quadrinhos, porém peca em dois únicos momentos (e aí parece muito mais culpa ou pressão do Estúdio, do que um preciosismo dos roteiristas): quando explica as alucinações de Fleck (não precisava explicar, estava claro, o corte já contava essa história, não precisava mastigar para o público - deu raiva) e quando, mais uma vez, mostra o destino dos Wayne saindo do cinema - sério, eu já não aguento mais assistir aquele colar de pérolas caindo (desperdício de oportunidade de só sugestionar uma situação e trabalhar com a memória emotiva de quem acompanha a saga do Batman há anos). A edição de som, mixagem, a trilha sonora e o desenho de produção, olha, estão primorosos!
"Coringa" vai levar Phoenix ao Oscar por entregar um personagem tão bem construído (ou mais) que Heath Ledger. A comparação será inevitável, mas injusta, pois não se trata de um filme do Batman e sim do Coringa, mas se pensarmos como uma homenagem, meu Deus, que personagem complexo e profundo que vemos nesse filme - os caras deveriam ter feito uma série sobre ele (rs)! O filme é tão bom, tão dinâmico, tão redondo, que nem vemos o tempo passar e chegamos a torcer para que ele não acabe - e são duas horas de filme!!! Puxa, é preciso admitir que foi um grande trabalho da DC e, pode apostar, vai render pelo menos umas 5 indicações no próximo Oscar - me cobrem! Grande acerto, só, por favor, não estraguem essa obra-prima com o que já está planejado!!!
Assistam o que foi, para mim, um dos melhore filmes do ano até aqui! Mesmo!!!
Up-date: "Coringa" ganhou em duas categorias no Oscar 2020: Melhor Trilha Sonora e Melhor Ator!
"Drive" é um excelente filme de ação carregado de drama, filmado pela lente poética de um grande diretor que em nenhum momento teve a preocupação de se apoiar em elementos narrativos que colocariam a história no lugar comum. "Drive" sem Nicolas Winding Refn ("Demônio de Neon") seria como "Breaking Bad" sem Vince Gilligan!
Na trama, Ryan Gosling é um habilidoso motorista que trabalha como dublê de Hollywood, mas que costuma usar seu talento no volante, pontualmente, dirigindo em fugas de assaltos. Quando ele se vê envolvido emocionalmente com sua vizinha Irene (Carey Mulligan) e com o filho, Benício (Kaden Leos), esse motorista (que propositalmente não tem um nome) tenta salvar a pele do marido dela, Standard (Oscar Isaac), que acaba de sair da prisão, para que eles possam viver em paz e em família, mas, claro, as coisas não saem exatamente como planejado. Confira o trailer (em inglês):
Em inglês,drive não significa apenas dirigir, pilotar, mas também tem uma outra conotação: algo como impulso ou motivação. O personagem de Gosling é justamente um homem movido pela ação nessa dupla interpretação do título original do filme - o interessante é que essa dualidade também brinca com a cadência da história e de como o protagonista se posiciona perante seus desafios - sua introspecção e o silêncio se opõem a velocidade (olha que sensacional) das suas ações de uma forma infinitamente mais lenta que sua principal habilidade exige. Mérito dessa leitura quase poética é do dinamarquês Nicolas Winding Refn, que ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2012 e levou esse filme até a disputa da Palma de Ouro - mesmo com a Academia supreendentemente tendo ignorado "Drive" para o Oscar daquele ano, o indicando apenas em "Edição de Som".
É importante pontuar que o roteiro de "Drive", escrito por Hossein Amini (de "McMafia") a partir da adaptação do livro homônimo de James Sallis, busca expor uma personalidade pacata do protagonista como gatilho para nos conectarmos com sua jornada - é na tentativa de ajudar alguém que nunca esteve ao seu lado, que faz o personagem se transformar pelo meio em que se inseriu ou pelas próprias circunstâncias - e aqui é impossível não lembrar de Gilligan novamente e do seu Walter White. A forma como Winding Refn nos faz experienciar a jornada desse motorista é muito potente - por mais que tenhamos poucas informações sobre ele, estamos sempre ao seu lado, como testemunhas de suas ações e transformações.
A fotografia do talentoso Newton Thomas Sigel (de "Os Suspeitos") traz uma sensação de solidão impressionante, mesmo o filme se passando em Los Angeles. Mais uma vez o diretor brinca com essa dualidade narrativa e é por isso que coloco "Drive" como uma obra de arte, muito mais profundo que a maioria dos filmes de ação, mas sem perder a emoção e a tensão do gênero.
"Drive" merece ser apreciado, no seu tempo, mesmo que ele seja completamente diferente do que se espera de um filme de ação, mas não se engane: ele é muito violento e impactante visualmente - como se fosse um "Tarantino", com aquele esmero artístico e conceitual. Lindo de ver!
Vale muito a pena!
"Drive" é um excelente filme de ação carregado de drama, filmado pela lente poética de um grande diretor que em nenhum momento teve a preocupação de se apoiar em elementos narrativos que colocariam a história no lugar comum. "Drive" sem Nicolas Winding Refn ("Demônio de Neon") seria como "Breaking Bad" sem Vince Gilligan!
Na trama, Ryan Gosling é um habilidoso motorista que trabalha como dublê de Hollywood, mas que costuma usar seu talento no volante, pontualmente, dirigindo em fugas de assaltos. Quando ele se vê envolvido emocionalmente com sua vizinha Irene (Carey Mulligan) e com o filho, Benício (Kaden Leos), esse motorista (que propositalmente não tem um nome) tenta salvar a pele do marido dela, Standard (Oscar Isaac), que acaba de sair da prisão, para que eles possam viver em paz e em família, mas, claro, as coisas não saem exatamente como planejado. Confira o trailer (em inglês):
Em inglês,drive não significa apenas dirigir, pilotar, mas também tem uma outra conotação: algo como impulso ou motivação. O personagem de Gosling é justamente um homem movido pela ação nessa dupla interpretação do título original do filme - o interessante é que essa dualidade também brinca com a cadência da história e de como o protagonista se posiciona perante seus desafios - sua introspecção e o silêncio se opõem a velocidade (olha que sensacional) das suas ações de uma forma infinitamente mais lenta que sua principal habilidade exige. Mérito dessa leitura quase poética é do dinamarquês Nicolas Winding Refn, que ganhou o prêmio de Melhor Diretor no Festival de Cannes de 2012 e levou esse filme até a disputa da Palma de Ouro - mesmo com a Academia supreendentemente tendo ignorado "Drive" para o Oscar daquele ano, o indicando apenas em "Edição de Som".
É importante pontuar que o roteiro de "Drive", escrito por Hossein Amini (de "McMafia") a partir da adaptação do livro homônimo de James Sallis, busca expor uma personalidade pacata do protagonista como gatilho para nos conectarmos com sua jornada - é na tentativa de ajudar alguém que nunca esteve ao seu lado, que faz o personagem se transformar pelo meio em que se inseriu ou pelas próprias circunstâncias - e aqui é impossível não lembrar de Gilligan novamente e do seu Walter White. A forma como Winding Refn nos faz experienciar a jornada desse motorista é muito potente - por mais que tenhamos poucas informações sobre ele, estamos sempre ao seu lado, como testemunhas de suas ações e transformações.
A fotografia do talentoso Newton Thomas Sigel (de "Os Suspeitos") traz uma sensação de solidão impressionante, mesmo o filme se passando em Los Angeles. Mais uma vez o diretor brinca com essa dualidade narrativa e é por isso que coloco "Drive" como uma obra de arte, muito mais profundo que a maioria dos filmes de ação, mas sem perder a emoção e a tensão do gênero.
"Drive" merece ser apreciado, no seu tempo, mesmo que ele seja completamente diferente do que se espera de um filme de ação, mas não se engane: ele é muito violento e impactante visualmente - como se fosse um "Tarantino", com aquele esmero artístico e conceitual. Lindo de ver!
Vale muito a pena!
"El Camino" não é um grande filme! Mas antes que as pessoas me destruam por aqui, deixe-me explicar: os 120 minutos de "El Camino" são, na verdade, um Epílogo de "Breaking Bad", um episódio de final de temporada, daqueles de 2 horas, que nos fazem torcer para que nunca acabe de tão contagiante que a história é! Se você não assistiu toda temporada de "Breaking Bad", a chance de você achar "El Camino" apenas "OK" é grande, mas nós que esperamos anos por um pouco mais do que consideramos uma das melhores séries de todos os tempos, aproveitamos cada frame dessa maravilhosa experiência que o Vince Gilligan nos entregou.
Como o Teaser e o Trailer já anunciavam, o filme gira em torno de um Jesse Pinkman (Aaron Paul) atordoado, logo após fugir do cativeiro (fato que acontece justamente no último episódio da série), tentando reencontrar um caminho para sua vida e deixar todo esse passado para trás! O que me surpreendeu é a jornada de transformação que, mais uma vez, Gilligan foi capaz de construir - mas para entender exatamente o que estou falando será preciso ler nossa análise completa. Para você, que precisa apenas da nossa sugestão temos duas opções: 1- Se assistiu a série inteira, assista o filme agora e agradeça a Netflix por ter nos proporcionado mais duas horas de êxtase. 2- Se não se interessou pela série, mas quer ver mesmo assim, se prepare para duas horas de diversão, mas não espere um filme transformador ou inesquecível!
Se arriscar na construção de um novo capítulo depois de alcançar o "Céu" com um final como o de Breaking Bad, 6 anos depois, é algo que poucos fariam! Vince Gilligan fez; e mesmo depois de 4 temporadas de "Better Call Saul", uma ponta parecia solta: o que teria acontecido com Jesse Pinkman? "El Camino" não só responde essa pergunta, como prova, mais uma vez, que além de louco, Gilligan tem total controle sobre suas idéias e sobre todo um universo que ele construiu! "El Camino" não pode ser visto como uma obra isolada, ele é parte de uma estrutura que nos transporta mais uma vez para o Novo Mexico, mas com uma Albuquerque diferente, menos contrastada, quente; agora ela é mais fria, melancólica, angustiante! Em um mês onde "Coringa" bagunçou a mente de quem assistiu, pela sua profundidade psicológica, Jessie Pinkman assume o mesmo papel em "El Camino" - e aqui vai mais um dica: assistam o resumo antes de começar o filme ou, melhor, assistam os 5 últimos episódios de "Breaking Bad" para ter uma imersão 100% segura!
A trama é simples ao mesmo tempo que complexa: Jesse está escapando em um carro El Camino (ah, Vince Gilligan por favor não pare por aqui!!!) após ter sido libertado por Walter White (Bryan Cranston) do cativeiro onde foi forçado a cozinhar metanfetamina por meses - esse momento é imediatamente depois de tudo que vimos em "Felina", episódio final de "Breaking Bad". Com a polícia atrás, já que ele foi reconhecido como cúmplice de Heisenberg encontrado morto no local da chacina, Pinkman é obrigado a procurar alguns personagens marcantes da série para conseguir algum dinheiro ou ter uma oportunidade de um recomeço - aqui é preciso dizer que alguns flashbacks funcionam melhores que outros, pois em alguns momentos Gilligan parece "roubar no jogo" para explicar uma ação do personagem, mas em outros momentos, mesmo ele "roubando no jogo", temos a impressão que tudo aquilo já tinha sido construído anteriormente de tão orgânico que ficou. Pois bem, toda essa jornada é pontuada com uma fotografia típica de Marshall Adams, parceiro conceitual de Gilligan. Grandes angulares, time-lapses, planos inventivos e inesperados, tudo está ali - como deveria ser!
O roteiro é enxuto, direto e cheio de detalhes como Breaking Bad adorava nos presentear. Agora, Aaron Paul, ou melhor, Jesse Pinkman, se transformando em tudo que ele mais odiava no Walter White e comprovando que o discurso transformador de Heisenberg era, no mínimo, coerente - meu Deus, isso foi genial! O ponto alto do filme! Outro detalhe bacana que merece ser observado é a importância que personagens satélites ganharam - pode até soar como Fan Service, mas não dá para negar que foi mais uma jogada inteligente de Gilligan: Old Joe, Skinny Pete (agora o Teaser faz ainda mais sentido), Badger, Neil e até o Ed - olha, que criatividade a favor da história como um todo! Muito legal!
"El Camino" não pode ser o ponto final. Muito do que você vai encontrar deve aparecer em algum flashfoward de "Better Call Saul" ainda e, quem sabe, em algum outro "filme" ou "série", pois o material, ou melhor, as histórias paralelas parecem ter um força impensável - Pinkman é um exemplo, já que seu personagem não passaria da 1ª temporada de "Breaking Bad". Só torço para que essas surpresas em torno das idéias do Vince Gilligan nunca acabem!!!
Por favor, dê o play e divirta-se com aquela sensação deliciosa de nostalgia temperada com uma espécie de inspiração criativa do mais alto nível!
"El Camino" não é um grande filme! Mas antes que as pessoas me destruam por aqui, deixe-me explicar: os 120 minutos de "El Camino" são, na verdade, um Epílogo de "Breaking Bad", um episódio de final de temporada, daqueles de 2 horas, que nos fazem torcer para que nunca acabe de tão contagiante que a história é! Se você não assistiu toda temporada de "Breaking Bad", a chance de você achar "El Camino" apenas "OK" é grande, mas nós que esperamos anos por um pouco mais do que consideramos uma das melhores séries de todos os tempos, aproveitamos cada frame dessa maravilhosa experiência que o Vince Gilligan nos entregou.
Como o Teaser e o Trailer já anunciavam, o filme gira em torno de um Jesse Pinkman (Aaron Paul) atordoado, logo após fugir do cativeiro (fato que acontece justamente no último episódio da série), tentando reencontrar um caminho para sua vida e deixar todo esse passado para trás! O que me surpreendeu é a jornada de transformação que, mais uma vez, Gilligan foi capaz de construir - mas para entender exatamente o que estou falando será preciso ler nossa análise completa. Para você, que precisa apenas da nossa sugestão temos duas opções: 1- Se assistiu a série inteira, assista o filme agora e agradeça a Netflix por ter nos proporcionado mais duas horas de êxtase. 2- Se não se interessou pela série, mas quer ver mesmo assim, se prepare para duas horas de diversão, mas não espere um filme transformador ou inesquecível!
Se arriscar na construção de um novo capítulo depois de alcançar o "Céu" com um final como o de Breaking Bad, 6 anos depois, é algo que poucos fariam! Vince Gilligan fez; e mesmo depois de 4 temporadas de "Better Call Saul", uma ponta parecia solta: o que teria acontecido com Jesse Pinkman? "El Camino" não só responde essa pergunta, como prova, mais uma vez, que além de louco, Gilligan tem total controle sobre suas idéias e sobre todo um universo que ele construiu! "El Camino" não pode ser visto como uma obra isolada, ele é parte de uma estrutura que nos transporta mais uma vez para o Novo Mexico, mas com uma Albuquerque diferente, menos contrastada, quente; agora ela é mais fria, melancólica, angustiante! Em um mês onde "Coringa" bagunçou a mente de quem assistiu, pela sua profundidade psicológica, Jessie Pinkman assume o mesmo papel em "El Camino" - e aqui vai mais um dica: assistam o resumo antes de começar o filme ou, melhor, assistam os 5 últimos episódios de "Breaking Bad" para ter uma imersão 100% segura!
A trama é simples ao mesmo tempo que complexa: Jesse está escapando em um carro El Camino (ah, Vince Gilligan por favor não pare por aqui!!!) após ter sido libertado por Walter White (Bryan Cranston) do cativeiro onde foi forçado a cozinhar metanfetamina por meses - esse momento é imediatamente depois de tudo que vimos em "Felina", episódio final de "Breaking Bad". Com a polícia atrás, já que ele foi reconhecido como cúmplice de Heisenberg encontrado morto no local da chacina, Pinkman é obrigado a procurar alguns personagens marcantes da série para conseguir algum dinheiro ou ter uma oportunidade de um recomeço - aqui é preciso dizer que alguns flashbacks funcionam melhores que outros, pois em alguns momentos Gilligan parece "roubar no jogo" para explicar uma ação do personagem, mas em outros momentos, mesmo ele "roubando no jogo", temos a impressão que tudo aquilo já tinha sido construído anteriormente de tão orgânico que ficou. Pois bem, toda essa jornada é pontuada com uma fotografia típica de Marshall Adams, parceiro conceitual de Gilligan. Grandes angulares, time-lapses, planos inventivos e inesperados, tudo está ali - como deveria ser!
O roteiro é enxuto, direto e cheio de detalhes como Breaking Bad adorava nos presentear. Agora, Aaron Paul, ou melhor, Jesse Pinkman, se transformando em tudo que ele mais odiava no Walter White e comprovando que o discurso transformador de Heisenberg era, no mínimo, coerente - meu Deus, isso foi genial! O ponto alto do filme! Outro detalhe bacana que merece ser observado é a importância que personagens satélites ganharam - pode até soar como Fan Service, mas não dá para negar que foi mais uma jogada inteligente de Gilligan: Old Joe, Skinny Pete (agora o Teaser faz ainda mais sentido), Badger, Neil e até o Ed - olha, que criatividade a favor da história como um todo! Muito legal!
"El Camino" não pode ser o ponto final. Muito do que você vai encontrar deve aparecer em algum flashfoward de "Better Call Saul" ainda e, quem sabe, em algum outro "filme" ou "série", pois o material, ou melhor, as histórias paralelas parecem ter um força impensável - Pinkman é um exemplo, já que seu personagem não passaria da 1ª temporada de "Breaking Bad". Só torço para que essas surpresas em torno das idéias do Vince Gilligan nunca acabem!!!
Por favor, dê o play e divirta-se com aquela sensação deliciosa de nostalgia temperada com uma espécie de inspiração criativa do mais alto nível!
"Entre Mulheres" é excelente, mas muito difícil! Veja, no cenário cinematográfico contemporâneo, obras que exploram a complexidade das relações humanas e abordam temas sensíveis como o estupro, o assédio e a violência contra a mulher, têm ganhado cada vez mais destaque e o filme dirigido por Sarah Pulley (de "Histórias que Contamos"), é mais um exemplo notável dessa tendência. No entanto, aqui, não encontramos uma narrativa tão fluida, pois, propositalmente, a diretora prefere explorar o texto de uma forma que mistura o simbolismo com a dura realidade e essa escolha certamente vai afastar parte da audiência. Existe uma poesia e uma profundidade nas entrelinhas que impressionam, mas a cadência de como a trama é desenvolvida exige muita boa vontade até alcançar o final.
Baseado no livro homônimo deMiriam Toews, "Entre Mulheres" acompanha um grupo de mulheres que moram em uma comunidade cristã menonita isolada nos EUA. Alvos de crimes sexuais cometidos pelos homens da comunidade, elas criam um plebiscito para decidir se deixam a comunidade, que representa tudo o que elas conhecem até então, ou se ficam e lutam para torná-la um lugar mais seguro para elas e para as próximas gerações – uma opção não muito mais fácil, visto que quase todos os homens adultos do local se dispuseram a pagar a fiança dos criminosos e deram às suas esposas, mães, irmãs e filhas um ultimato: ou elas perdoam os agressores, ou terão de arriscar a danação eterna. Confira o trailer:
Depois de um prólogo praticamente perfeito em sua estrutura dramática, não existiria forma mais irônica de iniciar o filme em si se não com a frase: “Esta história é fruto da fértil imaginação feminina”. É impressionante como Sarah Pulley contextualiza o problema, apresenta as personagens e nos indica exatamente qual o caminho sua narrativa vai seguir, em pouquíssimos planos, quase sem nenhum diálogo, mas com uma narração tão potente quanto profunda e um texto, de fato, digno de Oscar - aliás, "Entre Mulheres" ganhou o prêmio de "Roteiro Adaptado" em 2023 e concorreu como "Melhor Filme do Ano".
A direção de Pulley merece aplausos, especialmente pela maneira como ela constrói a narrativa visualmente - eu diria que o filme é uma poesia visual, como "Retrato de uma Jovem em Chamas". A paleta de cores mais esverdeada, quase sem saturação, reflete exatamente o momento íntimo que as personagens estão passando. Existe uma frieza que conectada à fotografia do diretor Luc Montpellier (de "Tales from the Loop") cria uma atmosfera delicada, porém densa, que serve de moldura para o excepcional elenco brilhar. Além disso, por favor, reparem na trilha sonora original e como ela contribui para uma imersão visceral, nos guiando pelas profundezas das emoções sem precisar se sobressair.
De fato, o elenco de "Entre Mulheres" oferece performances notáveis que elevam a narrativa aos patamares mais altos que uma produção tão intimista pode chegar. Pulley é sagaz em trabalhar o silêncio e em quebrar nossas expectativas com trocas de tom em um piscar de olhos - a verdade é que nunca sabemos o que vamos encontrar: se um conforto, uma palavra de sabedoria, uma passagem religiosa ou simplesmente uma discussão bastante ofensiva. Claire Foy, Rooney Mara, Judith Ivey e Jessie Buckley dão um verdadeiro show!
Para aqueles que se permitirem embarcar na proposta da diretora, eu adianto que "Entre Mulheres" tem uma capacidade única de mexer com nossas emoções de uma forma muito particular - essencialmente na audiência feminina. A narrativa não se contenta em apresentar uma história simples com superficialidade; em vez disso, ela mergulha fundo nas experiências das personagens, explorando temas como o amor, o perdão, o arrependimento e a reconciliação, mesmo que submersa naquela atmosfera de alienação, religião e violência.
Vale seu play, mas não assista com sono!
"Entre Mulheres" é excelente, mas muito difícil! Veja, no cenário cinematográfico contemporâneo, obras que exploram a complexidade das relações humanas e abordam temas sensíveis como o estupro, o assédio e a violência contra a mulher, têm ganhado cada vez mais destaque e o filme dirigido por Sarah Pulley (de "Histórias que Contamos"), é mais um exemplo notável dessa tendência. No entanto, aqui, não encontramos uma narrativa tão fluida, pois, propositalmente, a diretora prefere explorar o texto de uma forma que mistura o simbolismo com a dura realidade e essa escolha certamente vai afastar parte da audiência. Existe uma poesia e uma profundidade nas entrelinhas que impressionam, mas a cadência de como a trama é desenvolvida exige muita boa vontade até alcançar o final.
Baseado no livro homônimo deMiriam Toews, "Entre Mulheres" acompanha um grupo de mulheres que moram em uma comunidade cristã menonita isolada nos EUA. Alvos de crimes sexuais cometidos pelos homens da comunidade, elas criam um plebiscito para decidir se deixam a comunidade, que representa tudo o que elas conhecem até então, ou se ficam e lutam para torná-la um lugar mais seguro para elas e para as próximas gerações – uma opção não muito mais fácil, visto que quase todos os homens adultos do local se dispuseram a pagar a fiança dos criminosos e deram às suas esposas, mães, irmãs e filhas um ultimato: ou elas perdoam os agressores, ou terão de arriscar a danação eterna. Confira o trailer:
Depois de um prólogo praticamente perfeito em sua estrutura dramática, não existiria forma mais irônica de iniciar o filme em si se não com a frase: “Esta história é fruto da fértil imaginação feminina”. É impressionante como Sarah Pulley contextualiza o problema, apresenta as personagens e nos indica exatamente qual o caminho sua narrativa vai seguir, em pouquíssimos planos, quase sem nenhum diálogo, mas com uma narração tão potente quanto profunda e um texto, de fato, digno de Oscar - aliás, "Entre Mulheres" ganhou o prêmio de "Roteiro Adaptado" em 2023 e concorreu como "Melhor Filme do Ano".
A direção de Pulley merece aplausos, especialmente pela maneira como ela constrói a narrativa visualmente - eu diria que o filme é uma poesia visual, como "Retrato de uma Jovem em Chamas". A paleta de cores mais esverdeada, quase sem saturação, reflete exatamente o momento íntimo que as personagens estão passando. Existe uma frieza que conectada à fotografia do diretor Luc Montpellier (de "Tales from the Loop") cria uma atmosfera delicada, porém densa, que serve de moldura para o excepcional elenco brilhar. Além disso, por favor, reparem na trilha sonora original e como ela contribui para uma imersão visceral, nos guiando pelas profundezas das emoções sem precisar se sobressair.
De fato, o elenco de "Entre Mulheres" oferece performances notáveis que elevam a narrativa aos patamares mais altos que uma produção tão intimista pode chegar. Pulley é sagaz em trabalhar o silêncio e em quebrar nossas expectativas com trocas de tom em um piscar de olhos - a verdade é que nunca sabemos o que vamos encontrar: se um conforto, uma palavra de sabedoria, uma passagem religiosa ou simplesmente uma discussão bastante ofensiva. Claire Foy, Rooney Mara, Judith Ivey e Jessie Buckley dão um verdadeiro show!
Para aqueles que se permitirem embarcar na proposta da diretora, eu adianto que "Entre Mulheres" tem uma capacidade única de mexer com nossas emoções de uma forma muito particular - essencialmente na audiência feminina. A narrativa não se contenta em apresentar uma história simples com superficialidade; em vez disso, ela mergulha fundo nas experiências das personagens, explorando temas como o amor, o perdão, o arrependimento e a reconciliação, mesmo que submersa naquela atmosfera de alienação, religião e violência.
Vale seu play, mas não assista com sono!