"Não Fale com Estranhos", é uma minissérie da Netflix que chamou a atenção de muitos assinantes e que, surpreendentemente, recebeu muitos elogios da crítica especializada. Mas, antes de mais nada, em respeito aos nossos usuários, eu preciso ser muito sincero: achei a história um pouco previsível e a minissérie muito mal dirigida (e explicarei melhor meu ponto de vista logo abaixo), mas admito que o projeto tem alguns bons elementos: os ganchos entre os episódios são excelentes (razão que me fez continuar assistindo, inclusive) e um final bastante corajoso e que, além de me agradar, me surpreendeu!
Dito isso, "Não Fale com Estranhos" é baseada no best-seller ("Stranger") de Harlan Coben (o mesmo de "Safe") e conta a história de Adam Price (Richard Armitage) um pai de uma família da classe média/alta britânica que, aparentemente, tem uma vida perfeita: é casado com uma linda e talentosa esposa que o ama, é bem-sucedido como advogado em seu escritório e tem um excelente relacionamento com os filhos; até que uma jovem desconhecida (Hannah John-Kamen) se aproxima de Price e revela que sua mulher mentiu sobre uma recente gravidez e sugere que ele pode não ser o pai biológico dos seus dois filhos. Confrontada, Corrine Price (Dervla Kirwan) nega tais acusações, mas promete se explicar assim que se sentir confortável, porém, no dia seguinte, ela simplesmente desaparece deixando apenas um recado no celular para o marido!
Aparentemente "Não Fale com Estranhos" tem muitos elementos que me chamaram atenção em "The Undoing", só que bastou eu assistir alguns episódios da minissérie da Netflix para perceber que se tratava de um novelão, tamanho era a quantidade de subtramas que, mesmo tendo alguma relação com o arco principal, serviram muito mais de "distração" do que como elementos dramáticos essenciais para o desenvolvimento da história que realmente interessava - isso sem falar na sensível diferença de qualidade estética entre os dois projetos! Mesmo assim, é bem provável que "Não Fale com Estranhos" agrade ao assinante da Netflix que seguiu todas as temporadas de "Revenge" ou "Orphan Black" e que se divertiu com "Safe". Para os mais exigentes, sugiro outras opções!
É claro que o livro de Coben deve ter uma história mais fluída que sua adaptação para Netflix, pois o roteiro (mesmo com a supervisão do próprio autor) ficou cheio de furos, com uma narrativa, ao meu ver, preguiçosa e muito mais preocupada em distrair quem assistia a minissérie do que nos convidando a montar um enorme e intrigante quebra-cabeça (como "The Sinner" fez tão bem) - pelo simples fato de que muitas daquelas peças não serviram para nada! É claro que não sabemos disso logo de cara - a minissérie começa muito bem por sinal e vai nos enchendo de perguntas com o roteiro lançando diversos núcleos (assim como uma novela, por isso a comparação), cada qual com um drama bem particular, nos prendendo em um emaranhado de situações misteriosas. Imagine: a mulher que desaparece após um confronto com o marido que pode acabar com uma história de "contos de fadas", um estudante é encontrado nu após uma festa escolar que mais parece um ritual, um alpaca decapitada no meio de Manchester, um empreiteiro querendo destruir um bairro tradicional enquanto um dos moradores procura resistir à desapropriação e o assassinato da melhor amiga da detetive que investiga tudo isso - sem falar, claro, na jovem desconhecida e misteriosa que costura várias dessas situações! Aliás, as situações são tão distantes uma das outras que se unidas com um propósito narrativo mais inteligente, poderiam transformar a história em algo incrível! Esquece! Existem conexões sim, mas a grande maioria delas são mais superficiais, eu diria mal desenvolvidas, e ainda extremamente forçadas ao melhor estilo novelão - e, mais uma vez, se você gosta da dinâmica de novela, você provavelmente vai gostar de "Não Fale com Estranhos", mas é um outro produto audiovisual com suas forças, mas também com suas fraquezas.
"Não Fale com Estranhos" vai agradar mais uns do que outros - esses 8 episódios podem ser um bom entretenimento, sim, se você estiver buscando algo menos profundo e menos elaborado, mas mesmo assim com algum mistério - só não espere algo como "Big Little Lies" ou "Sharp Objects" por exemplo!
"Não Fale com Estranhos", é uma minissérie da Netflix que chamou a atenção de muitos assinantes e que, surpreendentemente, recebeu muitos elogios da crítica especializada. Mas, antes de mais nada, em respeito aos nossos usuários, eu preciso ser muito sincero: achei a história um pouco previsível e a minissérie muito mal dirigida (e explicarei melhor meu ponto de vista logo abaixo), mas admito que o projeto tem alguns bons elementos: os ganchos entre os episódios são excelentes (razão que me fez continuar assistindo, inclusive) e um final bastante corajoso e que, além de me agradar, me surpreendeu!
Dito isso, "Não Fale com Estranhos" é baseada no best-seller ("Stranger") de Harlan Coben (o mesmo de "Safe") e conta a história de Adam Price (Richard Armitage) um pai de uma família da classe média/alta britânica que, aparentemente, tem uma vida perfeita: é casado com uma linda e talentosa esposa que o ama, é bem-sucedido como advogado em seu escritório e tem um excelente relacionamento com os filhos; até que uma jovem desconhecida (Hannah John-Kamen) se aproxima de Price e revela que sua mulher mentiu sobre uma recente gravidez e sugere que ele pode não ser o pai biológico dos seus dois filhos. Confrontada, Corrine Price (Dervla Kirwan) nega tais acusações, mas promete se explicar assim que se sentir confortável, porém, no dia seguinte, ela simplesmente desaparece deixando apenas um recado no celular para o marido!
Aparentemente "Não Fale com Estranhos" tem muitos elementos que me chamaram atenção em "The Undoing", só que bastou eu assistir alguns episódios da minissérie da Netflix para perceber que se tratava de um novelão, tamanho era a quantidade de subtramas que, mesmo tendo alguma relação com o arco principal, serviram muito mais de "distração" do que como elementos dramáticos essenciais para o desenvolvimento da história que realmente interessava - isso sem falar na sensível diferença de qualidade estética entre os dois projetos! Mesmo assim, é bem provável que "Não Fale com Estranhos" agrade ao assinante da Netflix que seguiu todas as temporadas de "Revenge" ou "Orphan Black" e que se divertiu com "Safe". Para os mais exigentes, sugiro outras opções!
É claro que o livro de Coben deve ter uma história mais fluída que sua adaptação para Netflix, pois o roteiro (mesmo com a supervisão do próprio autor) ficou cheio de furos, com uma narrativa, ao meu ver, preguiçosa e muito mais preocupada em distrair quem assistia a minissérie do que nos convidando a montar um enorme e intrigante quebra-cabeça (como "The Sinner" fez tão bem) - pelo simples fato de que muitas daquelas peças não serviram para nada! É claro que não sabemos disso logo de cara - a minissérie começa muito bem por sinal e vai nos enchendo de perguntas com o roteiro lançando diversos núcleos (assim como uma novela, por isso a comparação), cada qual com um drama bem particular, nos prendendo em um emaranhado de situações misteriosas. Imagine: a mulher que desaparece após um confronto com o marido que pode acabar com uma história de "contos de fadas", um estudante é encontrado nu após uma festa escolar que mais parece um ritual, um alpaca decapitada no meio de Manchester, um empreiteiro querendo destruir um bairro tradicional enquanto um dos moradores procura resistir à desapropriação e o assassinato da melhor amiga da detetive que investiga tudo isso - sem falar, claro, na jovem desconhecida e misteriosa que costura várias dessas situações! Aliás, as situações são tão distantes uma das outras que se unidas com um propósito narrativo mais inteligente, poderiam transformar a história em algo incrível! Esquece! Existem conexões sim, mas a grande maioria delas são mais superficiais, eu diria mal desenvolvidas, e ainda extremamente forçadas ao melhor estilo novelão - e, mais uma vez, se você gosta da dinâmica de novela, você provavelmente vai gostar de "Não Fale com Estranhos", mas é um outro produto audiovisual com suas forças, mas também com suas fraquezas.
"Não Fale com Estranhos" vai agradar mais uns do que outros - esses 8 episódios podem ser um bom entretenimento, sim, se você estiver buscando algo menos profundo e menos elaborado, mas mesmo assim com algum mistério - só não espere algo como "Big Little Lies" ou "Sharp Objects" por exemplo!
Esse filme é simplesmente genial! Bem na linha do premiado filme austríaco "Goodnight Mommy", "Não Fale o Mal" é o que existe de melhor na cinematografia de M. Night Shyamalan (de "A Visita"), Ari Aster (de "Hereditário") e da dupla Severin Fiala e Veronika Franz (de o "Chalé")! Angustiante, corajoso e impactante! Lançado em 2022 e dirigido pelo dinamarquês Christian Tafdrup (olho nesse diretor), essa é a versão original do remake hollywoodiano que tem James McAvoy como protagonista. "Speak No Evil" (no original) é um suspense psicológico perturbador que explora os limites do desconforto em uma relação social e as consequências sombrias por ignorar todos os sinais de perigo - chega a ser impressionante como o filme utiliza a tensão psicológica e a dissonância cultural para criar um horror realmente inquietante que, olha, permanece com a audiência muito tempo depois dos créditos subirem!
A trama segue Bjørn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch), um casal dinamarquês que, durante férias na Itália, conhece Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders), um casal holandês aparentemente acolhedor e simpático. Após a viagem, Bjørn e Louise recebem um convite para visitar esse casal em sua casa no interior remoto da Holanda, e, apesar de hesitantes, decidem aceitar. À medida que a estadia avança, no entanto, comportamentos cada vez mais bizarros começam a surgir, gerando tensão entre os anfitriões e os visitantes, que se veem presos em uma situação bastante ameaçadora. Confira o trailer (em inglês):
O roteiro co-escrito pelo diretor Christian Tafdrup e pelo seu irmão Mads, é uma crítica assustadora aos códigos de cortesia social que muitas vezes nos levam a ignorar comportamentos alarmantes pelo simples intuito de evitar conflitos. Obviamente que em "Não Fale o Mal" essa premissa é elevada até níveis extsratostfericos, mas chega a ser impressionante como a história revela o medo de parecer rude ou ofensivo e como isso pode se tornar um instrumento de manipulação e violência, ultrapassando os limites entre confiança e submissão que podem ser explorados de uma maneira muito cruel - para não dizer doentia. A narrativa dos Tafdrup não se preocupa em explicar as motivações dos antagonistas de forma óbvia, isso nem importa na verdade, mas sim em manter um nível de ambiguidade que só aumenta a sensação de que algo terrível está prestes a acontecer a todo momento.
A direção de Christian é eficaz em criar essa atmosfera angustiante de desconforto crescente. Desde o início, o diretor constrói uma tensão sutil, utilizando diálogos aparentemente inofensivos e interações que soam inocentes para gerar uma sensação de mal-estar suportável. Ao explorar algumas dinâmicas de poder e certas pressões sociais que levam os personagens a ignorar sinais de alerta, questionando até que ponto somos levados a priorizar a polidez e a acomodação em situações desconfortáveis, o diretor manipula nossas sensações e nos entrega uma experiência rara - pela força e pela originalidade. Repare como a escolha de uma abordagem mais minimalista e focada na psicologia dos personagens só intensifica a sensação de impotência que vemos na tela. O trabalho de Morten Burian e Sidsel Siem Koch transmitem esse desconforto gradual de uma forma muito realista. Fedja van Huêt e Karina Smulders, por sua vez, entregam performances mais intensas, alternando entre a simpatia desconcertante e hostilidade velada, contribuindo para uma relação verdadeiramente sinistra.
A fotografia aqui, é quase um personagem: o uso de espaços mais apertados e planos mais fechados reforça o caráter opressor do filme, enquanto as paisagens isoladas da Holanda contribuem para o sentimento de vulnerabilidade dos personagens. A paleta de cores fria e os enquadramentos cuidadosamente compostos intensificam a sensação de angústia, transformando cenas simples em momentos de grande tensão - mérito de Erik Molberg Hansen (de "Industry"). Tecnicamente perfeito e artisticamente irretocável, "Não Fale o Mal" entrou para o ranking dos melhores filmes que já recomendei - por ser eficiente em seu propósito de gerar constrangimento e tensão, pela intensidade de sua trama e por transitar no limite do doentio e do perturbador com tanta sabedoria. Antes do play saiba que o filme não recorre aos sustos tradicionais do suspense, mas se apropria de uma abordagem psicológica profunda que culmina em um desfecho brutal e inquietante.
Não espere respostas, mergulhe na experiência. Vale demais o seu play!
Esse filme é simplesmente genial! Bem na linha do premiado filme austríaco "Goodnight Mommy", "Não Fale o Mal" é o que existe de melhor na cinematografia de M. Night Shyamalan (de "A Visita"), Ari Aster (de "Hereditário") e da dupla Severin Fiala e Veronika Franz (de o "Chalé")! Angustiante, corajoso e impactante! Lançado em 2022 e dirigido pelo dinamarquês Christian Tafdrup (olho nesse diretor), essa é a versão original do remake hollywoodiano que tem James McAvoy como protagonista. "Speak No Evil" (no original) é um suspense psicológico perturbador que explora os limites do desconforto em uma relação social e as consequências sombrias por ignorar todos os sinais de perigo - chega a ser impressionante como o filme utiliza a tensão psicológica e a dissonância cultural para criar um horror realmente inquietante que, olha, permanece com a audiência muito tempo depois dos créditos subirem!
A trama segue Bjørn (Morten Burian) e Louise (Sidsel Siem Koch), um casal dinamarquês que, durante férias na Itália, conhece Patrick (Fedja van Huêt) e Karin (Karina Smulders), um casal holandês aparentemente acolhedor e simpático. Após a viagem, Bjørn e Louise recebem um convite para visitar esse casal em sua casa no interior remoto da Holanda, e, apesar de hesitantes, decidem aceitar. À medida que a estadia avança, no entanto, comportamentos cada vez mais bizarros começam a surgir, gerando tensão entre os anfitriões e os visitantes, que se veem presos em uma situação bastante ameaçadora. Confira o trailer (em inglês):
O roteiro co-escrito pelo diretor Christian Tafdrup e pelo seu irmão Mads, é uma crítica assustadora aos códigos de cortesia social que muitas vezes nos levam a ignorar comportamentos alarmantes pelo simples intuito de evitar conflitos. Obviamente que em "Não Fale o Mal" essa premissa é elevada até níveis extsratostfericos, mas chega a ser impressionante como a história revela o medo de parecer rude ou ofensivo e como isso pode se tornar um instrumento de manipulação e violência, ultrapassando os limites entre confiança e submissão que podem ser explorados de uma maneira muito cruel - para não dizer doentia. A narrativa dos Tafdrup não se preocupa em explicar as motivações dos antagonistas de forma óbvia, isso nem importa na verdade, mas sim em manter um nível de ambiguidade que só aumenta a sensação de que algo terrível está prestes a acontecer a todo momento.
A direção de Christian é eficaz em criar essa atmosfera angustiante de desconforto crescente. Desde o início, o diretor constrói uma tensão sutil, utilizando diálogos aparentemente inofensivos e interações que soam inocentes para gerar uma sensação de mal-estar suportável. Ao explorar algumas dinâmicas de poder e certas pressões sociais que levam os personagens a ignorar sinais de alerta, questionando até que ponto somos levados a priorizar a polidez e a acomodação em situações desconfortáveis, o diretor manipula nossas sensações e nos entrega uma experiência rara - pela força e pela originalidade. Repare como a escolha de uma abordagem mais minimalista e focada na psicologia dos personagens só intensifica a sensação de impotência que vemos na tela. O trabalho de Morten Burian e Sidsel Siem Koch transmitem esse desconforto gradual de uma forma muito realista. Fedja van Huêt e Karina Smulders, por sua vez, entregam performances mais intensas, alternando entre a simpatia desconcertante e hostilidade velada, contribuindo para uma relação verdadeiramente sinistra.
A fotografia aqui, é quase um personagem: o uso de espaços mais apertados e planos mais fechados reforça o caráter opressor do filme, enquanto as paisagens isoladas da Holanda contribuem para o sentimento de vulnerabilidade dos personagens. A paleta de cores fria e os enquadramentos cuidadosamente compostos intensificam a sensação de angústia, transformando cenas simples em momentos de grande tensão - mérito de Erik Molberg Hansen (de "Industry"). Tecnicamente perfeito e artisticamente irretocável, "Não Fale o Mal" entrou para o ranking dos melhores filmes que já recomendei - por ser eficiente em seu propósito de gerar constrangimento e tensão, pela intensidade de sua trama e por transitar no limite do doentio e do perturbador com tanta sabedoria. Antes do play saiba que o filme não recorre aos sustos tradicionais do suspense, mas se apropria de uma abordagem psicológica profunda que culmina em um desfecho brutal e inquietante.
Não espere respostas, mergulhe na experiência. Vale demais o seu play!
Como a versão americana, com Naomi Watts, do premiado filme austríaco "Goodnight Mommy", dos diretores Severin Fiala e Veronika Franz, eu diria que essa nova adaptação de "Não Fale o Mal" também não decepciona, no entanto é preciso ressaltar que ela não não tem, nem de longe, a coragem e o requinte narrativo/estético do seu original - e aqui cabe uma sugestão: assista essa versão primeiro e se você gostar, pode ir tranquilo buscar o play do filme dinamarquês que tenho certeza, você vai amar justamente por suas diferenças! "Speak No Evil", no original, é daqueles filmes que permanecem martelando na nossa cabeça muito tempo após os créditos finais. Dirigido pelo James Watkins, conhecido pelo perturbador “A Mulher de Preto” (2012), o filme é mais do que um remake em inglês do excelente thriller psicológico de Christian e Mads Tafdrup, é na verdade uma releitura do material original que escolhe outros caminhos, talvez mais expositivos e menos impactantes, para entreter um público menos alternativo. Tal qual obras contemporâneas que causam muito desconforto ao trazer o horror mais psicológico para a narrativa, como “Midsommar” de Ari Aster, esse "Não Fale o Mal" de Watkins entrega uma jornada realmente intensa que sabe explorar magistralmente os limites sociais e a natureza da maldade escondida sob as aparências, digamos, mais gentis.
A trama segue um casal, a americana Louise (Mackenzie Davis) e o britânico Ben Dalton(Scoot McNairy), que durante uma viagem de férias na Itália, conhece outro casal, que transita entre o simpático e o sem noção, formado pelo carismático Paddy (James McAvoy) e sua esposa Agnes (Alix West Lefler). Encantados pelo novo vínculo criado, Louise e Ben aceitam o convite para visitar a casa dos novos amigos em uma isolada propriedade rural na Europa. O que deveria ser um agradável final de semana, rapidamente se transforma em uma sucessão perturbadora de situações chatas, pequenos conflitos, e manipulações sutis que questionam até onde somos capazes de suportar o desconforto para manter as aparências. Confira o trailer:
Para começar uma análise mais profunda, vale citar que Watkins acerta em cheio ao preservar a essência do original dinamarquês enquanto adiciona sua própria visão cinematográfica, aproveitando ao máximo o talento do elenco liderado por um inspirado McAvoy e destacando ainda mais os elementos inquietantes do roteiro dos Tafdrup. Sua direção é extremamente hábil ao manipular a tensão psicológica sem nunca revelar demais, preferindo trabalhar com uma atmosfera de ansiedade crescente. A sensação de ameaça constante permeia cada diálogo e cada silêncio prolongado, muitas vezes até constrangedores, enquanto o diretor brinca com a nossas expectativas sobre quando e como o verdadeiro terror irá se manifestar. Aqui, Watkins prova novamente que domina o gênero do suspense psicológico com excelência, nos guiando por uma experiência que nos tira da zona de conforto - olha, é impossível não nos colocarmos na situação que Ben e Louise estão passando.
A fotografia assinada por Tim Maurice-Jones (de "Atentado em Paris") traz uma iluminação baixa e enquadramentos meticulosamente posicionados que criam uma atmosfera claustrofóbica e opressora, especialmente no contraste entre as cenas internas, carregadas de ansiedade e tensão, e as paisagens externas aparentemente tranquilas e bucólicas. Cada plano, aliás, parece estrategicamente pensado para aumentar a sensação de vulnerabilidade dos protagonistas, reforçando o sentimento de que algo muito errado está acontecendo sob aquela superfície de gentileza excessiva. O roteiro é perfeito ao retratar como funciona o comportamento passivo-agressivo, especialmente por parte dos antagonistas. James McAvoy entrega mais uma performance assustadoramente convincente, oscilando entre a simpatia irresistível e uma marcante ambiguidade moral. Mackenzie Davis, para mim, é o grande destaque dessa versão - sua atuação é cheia de subtextos, um misto de força e insegurança muito convincente, que vão moldando o drama mais profundo que aquele casal vive (o gatilho da crise me pareceu até mais interessante que o original, inclusive).
Para quem já viu a versão dinamarquesa, algumas passagens podem parecer atenuadas, reduzindo levemente a surpresa que tanto marcou o filme original - mas o contrário não será verdadeiro, pode confiar. Mesmo assim, Watkins acerta ao preservar o impacto devastador da mensagem social sobre as armadilhas de algumas convenções e sobre o medo do confronto deliberado fantasiado de educação - algo que nos remete ao ótimo "Pisque Duas Vezes". É exatamente nessa reflexão que reside o verdadeiro horror da narrativa: até onde uma pessoa comum pode ir, abrindo mão de seus instintos e ignorando sinais de perigo, apenas para evitar desconfortos sociais? “Não Fale o Mal” em ambas as versões é uma obra profundamente perturbadora, cujo verdadeiro terror está nas banalidades que regem nosso comportamento - e isso vai te fazer pensar durante toda a jornada!
Vale demais o seu play!
Como a versão americana, com Naomi Watts, do premiado filme austríaco "Goodnight Mommy", dos diretores Severin Fiala e Veronika Franz, eu diria que essa nova adaptação de "Não Fale o Mal" também não decepciona, no entanto é preciso ressaltar que ela não não tem, nem de longe, a coragem e o requinte narrativo/estético do seu original - e aqui cabe uma sugestão: assista essa versão primeiro e se você gostar, pode ir tranquilo buscar o play do filme dinamarquês que tenho certeza, você vai amar justamente por suas diferenças! "Speak No Evil", no original, é daqueles filmes que permanecem martelando na nossa cabeça muito tempo após os créditos finais. Dirigido pelo James Watkins, conhecido pelo perturbador “A Mulher de Preto” (2012), o filme é mais do que um remake em inglês do excelente thriller psicológico de Christian e Mads Tafdrup, é na verdade uma releitura do material original que escolhe outros caminhos, talvez mais expositivos e menos impactantes, para entreter um público menos alternativo. Tal qual obras contemporâneas que causam muito desconforto ao trazer o horror mais psicológico para a narrativa, como “Midsommar” de Ari Aster, esse "Não Fale o Mal" de Watkins entrega uma jornada realmente intensa que sabe explorar magistralmente os limites sociais e a natureza da maldade escondida sob as aparências, digamos, mais gentis.
A trama segue um casal, a americana Louise (Mackenzie Davis) e o britânico Ben Dalton(Scoot McNairy), que durante uma viagem de férias na Itália, conhece outro casal, que transita entre o simpático e o sem noção, formado pelo carismático Paddy (James McAvoy) e sua esposa Agnes (Alix West Lefler). Encantados pelo novo vínculo criado, Louise e Ben aceitam o convite para visitar a casa dos novos amigos em uma isolada propriedade rural na Europa. O que deveria ser um agradável final de semana, rapidamente se transforma em uma sucessão perturbadora de situações chatas, pequenos conflitos, e manipulações sutis que questionam até onde somos capazes de suportar o desconforto para manter as aparências. Confira o trailer:
Para começar uma análise mais profunda, vale citar que Watkins acerta em cheio ao preservar a essência do original dinamarquês enquanto adiciona sua própria visão cinematográfica, aproveitando ao máximo o talento do elenco liderado por um inspirado McAvoy e destacando ainda mais os elementos inquietantes do roteiro dos Tafdrup. Sua direção é extremamente hábil ao manipular a tensão psicológica sem nunca revelar demais, preferindo trabalhar com uma atmosfera de ansiedade crescente. A sensação de ameaça constante permeia cada diálogo e cada silêncio prolongado, muitas vezes até constrangedores, enquanto o diretor brinca com a nossas expectativas sobre quando e como o verdadeiro terror irá se manifestar. Aqui, Watkins prova novamente que domina o gênero do suspense psicológico com excelência, nos guiando por uma experiência que nos tira da zona de conforto - olha, é impossível não nos colocarmos na situação que Ben e Louise estão passando.
A fotografia assinada por Tim Maurice-Jones (de "Atentado em Paris") traz uma iluminação baixa e enquadramentos meticulosamente posicionados que criam uma atmosfera claustrofóbica e opressora, especialmente no contraste entre as cenas internas, carregadas de ansiedade e tensão, e as paisagens externas aparentemente tranquilas e bucólicas. Cada plano, aliás, parece estrategicamente pensado para aumentar a sensação de vulnerabilidade dos protagonistas, reforçando o sentimento de que algo muito errado está acontecendo sob aquela superfície de gentileza excessiva. O roteiro é perfeito ao retratar como funciona o comportamento passivo-agressivo, especialmente por parte dos antagonistas. James McAvoy entrega mais uma performance assustadoramente convincente, oscilando entre a simpatia irresistível e uma marcante ambiguidade moral. Mackenzie Davis, para mim, é o grande destaque dessa versão - sua atuação é cheia de subtextos, um misto de força e insegurança muito convincente, que vão moldando o drama mais profundo que aquele casal vive (o gatilho da crise me pareceu até mais interessante que o original, inclusive).
Para quem já viu a versão dinamarquesa, algumas passagens podem parecer atenuadas, reduzindo levemente a surpresa que tanto marcou o filme original - mas o contrário não será verdadeiro, pode confiar. Mesmo assim, Watkins acerta ao preservar o impacto devastador da mensagem social sobre as armadilhas de algumas convenções e sobre o medo do confronto deliberado fantasiado de educação - algo que nos remete ao ótimo "Pisque Duas Vezes". É exatamente nessa reflexão que reside o verdadeiro horror da narrativa: até onde uma pessoa comum pode ir, abrindo mão de seus instintos e ignorando sinais de perigo, apenas para evitar desconfortos sociais? “Não Fale o Mal” em ambas as versões é uma obra profundamente perturbadora, cujo verdadeiro terror está nas banalidades que regem nosso comportamento - e isso vai te fazer pensar durante toda a jornada!
Vale demais o seu play!
“No Matarás” é mais um suspense psicológico espanhol (e isso já diz muito dado o sucesso das recentes produções do país como "Remédio Amargo", "Quem com ferro fere" e "A Casa") que vai te deixar preso do início ao fim. Isso porque logo após um evento traumático envolvendo o protagonista, as coisas começam ir de mal a pior.
Na trama, Dani (Mario Casas) é um bom rapaz que durante os últimos anos se dedicou exclusivamente a cuidar do seu pai doente até a sua morte. Justamente quando ele decide retomar a sua vida e fazer uma longa viagem, Dani conhece Mila (Milena Smit), uma mulher tão perturbadora e sensual como instável, quei transforma sua noite em um verdadeiro pesadelo. Confira o trailer (em espanhol):
Embora a história se mantenha eletrizante por mais de uma hora, na sequência final algumas revelações e acontecimentos beiram o exagero, mais ou menos como o que já vimos em outros filmes espanhóis, mas nada que comprometa o bom entretenimento que essa noite alucinante proporciona. A direção de David Victori (de "Sky Rojo") contribui para criação dessa atmosfera: ela é energética, seja pelos cortes frequentes, pela trilha sonora ou pelo fato do tempo inteiro acompanharmos uma movimentação de câmera que caminha junto com os personagens - uma técnica que funciona muito bem nessa narrativa que explora a sensação de urgência e todos os anseios e desespero do protagonista.
A direção de fotografia de Elías M. Félix ("O Pacto ") também é eficiente e faz um bom uso da iluminação, do brilho do neon e das cores vibrantes da noite agitada, caótica e trágica. No elenco, Mario Casas (“Um Contratempo” e "Remédio Amargo") tem se mostrado o ator perfeito para viver esses papeis que o colocam em situações desesperadoras, já que o ator transita muito bem suas emoções. A atriz Milena Smit (“Mães Paralelas”) também entrega um trabalho sensacional - é impossível você não sentir raiva da personagem que o tempo todo testará sua paciência.
“No Matarás” é envolvente e consegue prender sua atenção o tempo inteiro, além das surpresas que os desdobramentos da história proporciona, ainda que dê uma derrapada na reta final, tenho certeza que sua experiência durante uma hora e meia será no mínimo proveitosa.
Se você procura um bom entretenimento, só dar o play!
Escrito por Mark Hewes - uma parceria @indiqueipraver
“No Matarás” é mais um suspense psicológico espanhol (e isso já diz muito dado o sucesso das recentes produções do país como "Remédio Amargo", "Quem com ferro fere" e "A Casa") que vai te deixar preso do início ao fim. Isso porque logo após um evento traumático envolvendo o protagonista, as coisas começam ir de mal a pior.
Na trama, Dani (Mario Casas) é um bom rapaz que durante os últimos anos se dedicou exclusivamente a cuidar do seu pai doente até a sua morte. Justamente quando ele decide retomar a sua vida e fazer uma longa viagem, Dani conhece Mila (Milena Smit), uma mulher tão perturbadora e sensual como instável, quei transforma sua noite em um verdadeiro pesadelo. Confira o trailer (em espanhol):
Embora a história se mantenha eletrizante por mais de uma hora, na sequência final algumas revelações e acontecimentos beiram o exagero, mais ou menos como o que já vimos em outros filmes espanhóis, mas nada que comprometa o bom entretenimento que essa noite alucinante proporciona. A direção de David Victori (de "Sky Rojo") contribui para criação dessa atmosfera: ela é energética, seja pelos cortes frequentes, pela trilha sonora ou pelo fato do tempo inteiro acompanharmos uma movimentação de câmera que caminha junto com os personagens - uma técnica que funciona muito bem nessa narrativa que explora a sensação de urgência e todos os anseios e desespero do protagonista.
A direção de fotografia de Elías M. Félix ("O Pacto ") também é eficiente e faz um bom uso da iluminação, do brilho do neon e das cores vibrantes da noite agitada, caótica e trágica. No elenco, Mario Casas (“Um Contratempo” e "Remédio Amargo") tem se mostrado o ator perfeito para viver esses papeis que o colocam em situações desesperadoras, já que o ator transita muito bem suas emoções. A atriz Milena Smit (“Mães Paralelas”) também entrega um trabalho sensacional - é impossível você não sentir raiva da personagem que o tempo todo testará sua paciência.
“No Matarás” é envolvente e consegue prender sua atenção o tempo inteiro, além das surpresas que os desdobramentos da história proporciona, ainda que dê uma derrapada na reta final, tenho certeza que sua experiência durante uma hora e meia será no mínimo proveitosa.
Se você procura um bom entretenimento, só dar o play!
Escrito por Mark Hewes - uma parceria @indiqueipraver
"Noite Passada em Soho" é um filme extremamente envolvente - pela história e pelo visual! Esse suspense que transita entre o psicológico e o sobrenatural é quase uma mistura do coreano "A Ligação" com o clássico de Darren Aronofsky, "Cisne Negro".
No filme acompanhamos Eloise (Thomasin Mckenzie) quando ela decide deixar a sua pequena cidade natal para estudar moda em Londres. Obcecada pelos anos 60, ela se depara com uma vida dinâmica e moderna onde nem tudo parece corresponder às suas românticas expectativas. O impacto dessa mudança tão radical gera uma série de frustrações para Eloise - que leva ela se mudar para um antigo apartamento no centro do Soho, administrado pela curiosa Ms. Collins (Diana Rigg). A situação se complica ainda mais quando a protagonista passa a ter sonhos extremamente realistas com a misteriosa Sandie (Anya Taylor-Joy), uma aspirante a cantora cujas atitudes e escolhas passam a interferir fortemente na vida da própria Eloise. Confira o trailer:
A primeira vista, "Noite Passada em Soho" impacta pela perfeita combinação entre um filme esteticamente impecável, muito mérito do diretor Edgar Wright, com uma trilha sonora fantástica, assinada por Steven Price (vencedor do Oscar por "Gravidade"). Mas também temos um outro lado, e é quando entra em cena o roteiro da Krysty Wilson-Cairns (indicada ao Oscar por "1917") baseado em uma história que o próprio Wright trouxe para o desenvolvimento ao se propor resgatar suas fantasias de adolescente e sua relação mais íntima com o Soho londrino. Veja, o filme não tem a menor pretensão de transformar sua narrativa em uma experiência empírica comprovada por qualquer que seja a linha cientifica ou espiritual de sua interpretação - as coisas simplesmente acontecem, dentro de uma dinâmica particular do diretor e suficiente para nos fazer ficar de olhos grudados na tela por quase duas horas.
Cheio de referências conceituais, as escolhas de Wright direcionam a audiência para uma jornada única, uma linha tênue entre o surreal e o patológico, entre o sonho e a experiência mediúnica - tudo isso sendo construído por duas protagonistas cheias de camadas, brilhantemente conduzidas por uma trama que traz muitos signos, como se o filme fosse um "Alice no País das Maravilhas" de Eloise. Reparem como o uso dos espelhos, por exemplo, cria uma sensação de incerteza e mistério impressionantes. É, de fato, um trabalho fenomenal de direção, fotografia e montagem - além de ter um suporte de efeitos especiais bastante competente e nada invasivo.
Obviamente que ter Anya Taylor-Joy, Thomasin Mckenzie, Diana Rigg e Matt Smith só ajuda, mas é preciso dizer que "Noite Passada em Soho" é o resultado do seu diretor como maestro - um filme maduro, divertido, inteligente, bonito e ainda dinâmico. Se não tem a profundidade de "Cisne Negro", posso garantir que é um entretenimento de primeira; que, mesmo com algumas soluções até que previsíveis, muito desse quebra-cabeça vai se resolvendo sem roubar no jogo e acaba entregando um final bastante correto.
Vale a pena!
"Noite Passada em Soho" é um filme extremamente envolvente - pela história e pelo visual! Esse suspense que transita entre o psicológico e o sobrenatural é quase uma mistura do coreano "A Ligação" com o clássico de Darren Aronofsky, "Cisne Negro".
No filme acompanhamos Eloise (Thomasin Mckenzie) quando ela decide deixar a sua pequena cidade natal para estudar moda em Londres. Obcecada pelos anos 60, ela se depara com uma vida dinâmica e moderna onde nem tudo parece corresponder às suas românticas expectativas. O impacto dessa mudança tão radical gera uma série de frustrações para Eloise - que leva ela se mudar para um antigo apartamento no centro do Soho, administrado pela curiosa Ms. Collins (Diana Rigg). A situação se complica ainda mais quando a protagonista passa a ter sonhos extremamente realistas com a misteriosa Sandie (Anya Taylor-Joy), uma aspirante a cantora cujas atitudes e escolhas passam a interferir fortemente na vida da própria Eloise. Confira o trailer:
A primeira vista, "Noite Passada em Soho" impacta pela perfeita combinação entre um filme esteticamente impecável, muito mérito do diretor Edgar Wright, com uma trilha sonora fantástica, assinada por Steven Price (vencedor do Oscar por "Gravidade"). Mas também temos um outro lado, e é quando entra em cena o roteiro da Krysty Wilson-Cairns (indicada ao Oscar por "1917") baseado em uma história que o próprio Wright trouxe para o desenvolvimento ao se propor resgatar suas fantasias de adolescente e sua relação mais íntima com o Soho londrino. Veja, o filme não tem a menor pretensão de transformar sua narrativa em uma experiência empírica comprovada por qualquer que seja a linha cientifica ou espiritual de sua interpretação - as coisas simplesmente acontecem, dentro de uma dinâmica particular do diretor e suficiente para nos fazer ficar de olhos grudados na tela por quase duas horas.
Cheio de referências conceituais, as escolhas de Wright direcionam a audiência para uma jornada única, uma linha tênue entre o surreal e o patológico, entre o sonho e a experiência mediúnica - tudo isso sendo construído por duas protagonistas cheias de camadas, brilhantemente conduzidas por uma trama que traz muitos signos, como se o filme fosse um "Alice no País das Maravilhas" de Eloise. Reparem como o uso dos espelhos, por exemplo, cria uma sensação de incerteza e mistério impressionantes. É, de fato, um trabalho fenomenal de direção, fotografia e montagem - além de ter um suporte de efeitos especiais bastante competente e nada invasivo.
Obviamente que ter Anya Taylor-Joy, Thomasin Mckenzie, Diana Rigg e Matt Smith só ajuda, mas é preciso dizer que "Noite Passada em Soho" é o resultado do seu diretor como maestro - um filme maduro, divertido, inteligente, bonito e ainda dinâmico. Se não tem a profundidade de "Cisne Negro", posso garantir que é um entretenimento de primeira; que, mesmo com algumas soluções até que previsíveis, muito desse quebra-cabeça vai se resolvendo sem roubar no jogo e acaba entregando um final bastante correto.
Vale a pena!
Antes mesmo de "Parasita", "Nós" já tinha instalado um triplex na cabeça de muita gente e te garanto: o impacto (e a crítica) é bem semelhante - especialmente pelo "toque Jordan Peele" que o filme traz em seu DNA. O fato é que "Us", no original, é um daqueles filmes que transcendem o gênero do horror clássico para se tornar uma inquietante e poderosa reflexão sobre desigualdade social e sobre a dualidade da natureza humana. Seguindo a fórmula que o diretor apresentou em seu aclamado “Corra!” (ou "Get Out"), o filme entrega uma trama assustadora na sua essência, repleta de simbolismos e com um humor ácido que amplifica o desconforto sem nunca abandonar o valor do entretenimento. Eu diria, inclusive, que "Nós" é uma daquelas experiências fascinantes tanto para os amantes do suspense psicológico quanto para quem busca uma obra com camadas mais profundas de discussão - que normalmente divide opiniões, é verdade, mas que também coloca a obra em outra prateleira!
A história acompanha Adelaide Wilson (Lupita Nyong'o), que retorna com seu marido Gabe (Winston Duke) e seus filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex) para uma casa de veraneio onde cresceu, perto de Santa Cruz, na Califórnia. Após um traumático evento de sua infância na praia local, Adelaide vive com a constante sensação de que algo sinistro a persegue. A paranoia se concretiza quando a família é subitamente atacada por estranhas figuras que, aterrorizantemente, revelam-se como seus próprios doppelgängers, ou seja, versões sombrias de si mesmos, iniciando uma luta por sobrevivência e respostas diante do inimaginável. Confira o trailer:
Jordan Peele, mais uma vez, confirma sua genialidade ao brincar com o suspense e a tensão de forma magistral. Como de costume, sua direção é precisa e cheia de identidade, alternando habilmente momentos de alta tensão com ótimas sequências de ação e uma violência realmente visceral. Peele trabalha cuidadosamente a atmosfera que ele cria com muita competência, explorando cenários claustrofóbicos, silêncios perturbadores e o uso marcante das cores para criar um sentimento constante de insegurança e apreensão. A fotografia de Mike Gioulakis (não por acaso também fotógrafo de "Tempo" do Shyamalan) contribui diretamente para essa ambientação, usando contrastes fortes entre luz e sombra, especialmente no jogo quase mítico entre o mundo "real" e o "subterrâneo". O roteiro, nesse sentido, usa e abusa dessa riqueza de simbolismos - a metáfora central, com os doppelgängers como versões reprimidas e esquecidas da sociedade, serve como uma poderosa crítica às disparidades sociais e ao lado obscuro do sonho americano. Essa provocante dualidade presente no filme é explorada de forma genial, mostrando não apenas o confronto externo, mas também um conflito interno, existencial, sobre o quanto estamos dispostos a reconhecer nossas próprias "sombras". Reparem como Peele brinca com referências cinematográficas, desde clássicos como “O Iluminado” até “Os Pássaros” de Hitchcock, fortalecendo ainda mais essa narrativa que dialoga com ícones do gênero como poucos.
Outro ponto a se observar é como a performance de Lupita Nyong'o rouba completamente a cena. Sua atuação como Adelaide e sua perturbadora versão "Red" é simplesmente impressionante. A atriz entrega duas personalidades distintas, cada uma cheia de detalhes próprios - enquanto uma é protetora, vulnerável e assustada, a outra é uma presença ameaçadora, com movimentos rígidos e aterrorizante. Seu trabalho demonstra uma versatilidade extraordinária, em uma das melhores interpretações dos últimos anos dentro do gênero. Winston Duke oferece o contraponto perfeito, com um humor pontual, quase constrangedor, que alivia brevemente a tensão sem prejudicar o mood do filme. Outro grande destaque de "Nós" é a sua trilha sonora - Michael Abels (parceiro fundamental de Peele ao longo dos anos) utiliza desde temas clássicos até versões mais perturbadoras de músicas populares, como "I Got 5 On It" - música que se torna praticamente um personagem no filme. Enquanto Abels cria uma atmosfera sonora inesquecível, é a montagem de Nicholas Monsour (de "O Reformatório Nickel") que mantém o ritmo tão acelerado, principalmente nos momentos de revelação, onde cortes rápidos e sincronizados amplificam o impacto das imagens.
Veja, “Nós”, em certos momentos, escolhe abrir mão do mistério para oferecer explicações literais sobre a origem dos doppelgängers. Isso pode diminuir a força simbólica da história para alguns mais exigentes, porém, a habilidade narrativa de Peele e sua preocupação com as questões sociais garantem que o filme permaneça envolvente e impactante até o fim, se tornando uma prova definitiva do seu talento, colocando ele como um dos cineastas mais importantes e criativos de sua geração!
Vale muito o seu play (e se prepare para alguns sustos)!
Antes mesmo de "Parasita", "Nós" já tinha instalado um triplex na cabeça de muita gente e te garanto: o impacto (e a crítica) é bem semelhante - especialmente pelo "toque Jordan Peele" que o filme traz em seu DNA. O fato é que "Us", no original, é um daqueles filmes que transcendem o gênero do horror clássico para se tornar uma inquietante e poderosa reflexão sobre desigualdade social e sobre a dualidade da natureza humana. Seguindo a fórmula que o diretor apresentou em seu aclamado “Corra!” (ou "Get Out"), o filme entrega uma trama assustadora na sua essência, repleta de simbolismos e com um humor ácido que amplifica o desconforto sem nunca abandonar o valor do entretenimento. Eu diria, inclusive, que "Nós" é uma daquelas experiências fascinantes tanto para os amantes do suspense psicológico quanto para quem busca uma obra com camadas mais profundas de discussão - que normalmente divide opiniões, é verdade, mas que também coloca a obra em outra prateleira!
A história acompanha Adelaide Wilson (Lupita Nyong'o), que retorna com seu marido Gabe (Winston Duke) e seus filhos Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex) para uma casa de veraneio onde cresceu, perto de Santa Cruz, na Califórnia. Após um traumático evento de sua infância na praia local, Adelaide vive com a constante sensação de que algo sinistro a persegue. A paranoia se concretiza quando a família é subitamente atacada por estranhas figuras que, aterrorizantemente, revelam-se como seus próprios doppelgängers, ou seja, versões sombrias de si mesmos, iniciando uma luta por sobrevivência e respostas diante do inimaginável. Confira o trailer:
Jordan Peele, mais uma vez, confirma sua genialidade ao brincar com o suspense e a tensão de forma magistral. Como de costume, sua direção é precisa e cheia de identidade, alternando habilmente momentos de alta tensão com ótimas sequências de ação e uma violência realmente visceral. Peele trabalha cuidadosamente a atmosfera que ele cria com muita competência, explorando cenários claustrofóbicos, silêncios perturbadores e o uso marcante das cores para criar um sentimento constante de insegurança e apreensão. A fotografia de Mike Gioulakis (não por acaso também fotógrafo de "Tempo" do Shyamalan) contribui diretamente para essa ambientação, usando contrastes fortes entre luz e sombra, especialmente no jogo quase mítico entre o mundo "real" e o "subterrâneo". O roteiro, nesse sentido, usa e abusa dessa riqueza de simbolismos - a metáfora central, com os doppelgängers como versões reprimidas e esquecidas da sociedade, serve como uma poderosa crítica às disparidades sociais e ao lado obscuro do sonho americano. Essa provocante dualidade presente no filme é explorada de forma genial, mostrando não apenas o confronto externo, mas também um conflito interno, existencial, sobre o quanto estamos dispostos a reconhecer nossas próprias "sombras". Reparem como Peele brinca com referências cinematográficas, desde clássicos como “O Iluminado” até “Os Pássaros” de Hitchcock, fortalecendo ainda mais essa narrativa que dialoga com ícones do gênero como poucos.
Outro ponto a se observar é como a performance de Lupita Nyong'o rouba completamente a cena. Sua atuação como Adelaide e sua perturbadora versão "Red" é simplesmente impressionante. A atriz entrega duas personalidades distintas, cada uma cheia de detalhes próprios - enquanto uma é protetora, vulnerável e assustada, a outra é uma presença ameaçadora, com movimentos rígidos e aterrorizante. Seu trabalho demonstra uma versatilidade extraordinária, em uma das melhores interpretações dos últimos anos dentro do gênero. Winston Duke oferece o contraponto perfeito, com um humor pontual, quase constrangedor, que alivia brevemente a tensão sem prejudicar o mood do filme. Outro grande destaque de "Nós" é a sua trilha sonora - Michael Abels (parceiro fundamental de Peele ao longo dos anos) utiliza desde temas clássicos até versões mais perturbadoras de músicas populares, como "I Got 5 On It" - música que se torna praticamente um personagem no filme. Enquanto Abels cria uma atmosfera sonora inesquecível, é a montagem de Nicholas Monsour (de "O Reformatório Nickel") que mantém o ritmo tão acelerado, principalmente nos momentos de revelação, onde cortes rápidos e sincronizados amplificam o impacto das imagens.
Veja, “Nós”, em certos momentos, escolhe abrir mão do mistério para oferecer explicações literais sobre a origem dos doppelgängers. Isso pode diminuir a força simbólica da história para alguns mais exigentes, porém, a habilidade narrativa de Peele e sua preocupação com as questões sociais garantem que o filme permaneça envolvente e impactante até o fim, se tornando uma prova definitiva do seu talento, colocando ele como um dos cineastas mais importantes e criativos de sua geração!
Vale muito o seu play (e se prepare para alguns sustos)!
"Nove Desconhecidos" chegou com status de "minissérie premium da HBO" na Prime Vídeo, principalmente por todos os nomes envolvidos, como o showrunner David E. Kelley de “The Undoing” e a autora australiana Liane Moriarty de “Big Little Lies”, sem falar, obviamente, de Nicole Kidman como protagonista, apoiada em um elenco com Melissa McCarthy, Regina Hall, Luke Evans, Michael Shannon e Bobby Cannavale. Como comentamos no Blog da Viu Review, "Nove Desconhecidos" foi cercada de muita expectativa e após a exibição de 3 episódios muitas incertezas começaram aparecer (e com razão), mas só no final do episódio 8 que foi possível cravar que a minissérie estava longe de ser um decepção como muitos previam - muito pelo contrário, eu diria que vale muito a pena, desde que você embarque no conceito narrativo, digamos, psicodélico!
Frustrados com suas vidas, nove estranhos embarcam em um programa de relaxamento e espiritualidade criado por um SPA de luxo liderado por Marsha (Nicole Kidman), mas ao longo dos dias eles percebem que a experiência pode acabar colocando suas vidas e sanidade em perigo, confira o trailer:
Talvez a o grande problema de "Nove Desconhecidos" seja a falta de identidade - mas não pela história não se posicionar perante um gênero especifico ou um conceito narrativo e estético inovador, e sim pela própria expectativa que nós mesmos criamos. É claro que o roteiro colabora para essa sensação de que algo extraordinário está prestes a acontecer a todo momento e que a trama vem repleta de reviravoltas surpreendentes, mas a fato é que isso tem mais a ver com quem assiste do que com a minissérie em si. Embora seja necessário uma boa dose de suspensão da realidade e mesmo sabendo que muitos personagens são completamente estereotipados, em nenhum momento o roteiro rouba no jogo - ele só demora para mostrar as peças certas que, juntas, entregam um final bem satisfatório.
No fundo, "Nove Desconhecidos" é um recorte de uma era onde os programas de auto-conhecimento e os coachings de terapias holísticas se tornaram sinônimos de superficialidade e oportunismo - por isso sempre esperamos o pior da protagonista, afinal acreditamos nesse estereótipo, mesmo que inconscientemente. Veja, enquanto a narrativa demonstra elementos que facilmente nos remetem as conexões com a espiritualidade, temos a impressão de que se trata de uma história cheia de mistérios, mas quando os psicotrópicos vão ganhando força de uma maneira muito natural dentro da trama, somos transportados para situações mais palpáveis e é quando começamos a reconhecer o valor da história - e isso não quer dizer que o mistério desaparece, ele só se transforma. Diferente do livro, não se tem tempo suficiente para desenvolver cada um dos personagens com deveria e é por isso que alguns se sobressaem: a história da família Marconi formada por Napoleon (Michael Shannon), Heather (Asher Keddie) e Zoe (Grace Van Patten) é um caso e a forte relação entre Frances (Melissa McCarthy) e Tony (Bobby Cannavale), é outro destaque - se a série chamasse "Cinco Desconhecidos" teríamos o mesmo resultado, acreditem!
A atmosfera poética criada ao redor de Masha, criadora da Tranquillum House, vai se dissipar com o passar dos episódios e sua motivação se tornará cada vez mais clara. A questão dos métodos ou da ilegalidade de suas ações também geram boas discussões. Com isso temos bons conflitos e outros nem tanto, mas quando nos apegarmos na real proposta de "Nove Desconhecidos", passamos a entender que o processo de "perdão" e a "cura emocional" de cada um dos personagens guiam uma crítica velada sobre a ética, a legalidade e o real benefício de alguns, digamos, treinamentos de reprogramação.
Vale o play!
"Nove Desconhecidos" chegou com status de "minissérie premium da HBO" na Prime Vídeo, principalmente por todos os nomes envolvidos, como o showrunner David E. Kelley de “The Undoing” e a autora australiana Liane Moriarty de “Big Little Lies”, sem falar, obviamente, de Nicole Kidman como protagonista, apoiada em um elenco com Melissa McCarthy, Regina Hall, Luke Evans, Michael Shannon e Bobby Cannavale. Como comentamos no Blog da Viu Review, "Nove Desconhecidos" foi cercada de muita expectativa e após a exibição de 3 episódios muitas incertezas começaram aparecer (e com razão), mas só no final do episódio 8 que foi possível cravar que a minissérie estava longe de ser um decepção como muitos previam - muito pelo contrário, eu diria que vale muito a pena, desde que você embarque no conceito narrativo, digamos, psicodélico!
Frustrados com suas vidas, nove estranhos embarcam em um programa de relaxamento e espiritualidade criado por um SPA de luxo liderado por Marsha (Nicole Kidman), mas ao longo dos dias eles percebem que a experiência pode acabar colocando suas vidas e sanidade em perigo, confira o trailer:
Talvez a o grande problema de "Nove Desconhecidos" seja a falta de identidade - mas não pela história não se posicionar perante um gênero especifico ou um conceito narrativo e estético inovador, e sim pela própria expectativa que nós mesmos criamos. É claro que o roteiro colabora para essa sensação de que algo extraordinário está prestes a acontecer a todo momento e que a trama vem repleta de reviravoltas surpreendentes, mas a fato é que isso tem mais a ver com quem assiste do que com a minissérie em si. Embora seja necessário uma boa dose de suspensão da realidade e mesmo sabendo que muitos personagens são completamente estereotipados, em nenhum momento o roteiro rouba no jogo - ele só demora para mostrar as peças certas que, juntas, entregam um final bem satisfatório.
No fundo, "Nove Desconhecidos" é um recorte de uma era onde os programas de auto-conhecimento e os coachings de terapias holísticas se tornaram sinônimos de superficialidade e oportunismo - por isso sempre esperamos o pior da protagonista, afinal acreditamos nesse estereótipo, mesmo que inconscientemente. Veja, enquanto a narrativa demonstra elementos que facilmente nos remetem as conexões com a espiritualidade, temos a impressão de que se trata de uma história cheia de mistérios, mas quando os psicotrópicos vão ganhando força de uma maneira muito natural dentro da trama, somos transportados para situações mais palpáveis e é quando começamos a reconhecer o valor da história - e isso não quer dizer que o mistério desaparece, ele só se transforma. Diferente do livro, não se tem tempo suficiente para desenvolver cada um dos personagens com deveria e é por isso que alguns se sobressaem: a história da família Marconi formada por Napoleon (Michael Shannon), Heather (Asher Keddie) e Zoe (Grace Van Patten) é um caso e a forte relação entre Frances (Melissa McCarthy) e Tony (Bobby Cannavale), é outro destaque - se a série chamasse "Cinco Desconhecidos" teríamos o mesmo resultado, acreditem!
A atmosfera poética criada ao redor de Masha, criadora da Tranquillum House, vai se dissipar com o passar dos episódios e sua motivação se tornará cada vez mais clara. A questão dos métodos ou da ilegalidade de suas ações também geram boas discussões. Com isso temos bons conflitos e outros nem tanto, mas quando nos apegarmos na real proposta de "Nove Desconhecidos", passamos a entender que o processo de "perdão" e a "cura emocional" de cada um dos personagens guiam uma crítica velada sobre a ética, a legalidade e o real benefício de alguns, digamos, treinamentos de reprogramação.
Vale o play!
Noventa minutos de muita tensão e angústia, é isso que você vai encontrar no ótimo "O Acusado". Na linha tênue entre "Zona de Confronto", "O Homem nas Trevas" e "Bata Antes de Entrar", o novo filme do talentoso diretor inglês Philip Barantini (o mesmo do sucesso, "O Chef") surpreende tanto pela dinâmica claustrofóbica de sua narrativa quanto pela critica extremamente atual contra uma geração "rede social" que se coloca em uma posição de superioridade ao achar que sua opinião é de fato uma verdade universal sem pensar nas consequências que ela pode representar para o ser humano, ainda mais se esse se encaixar no estereótipo de quem sofre algum tipo de discriminação. Disseminar "incertezas" pode ser muito mais perigoso em tempos de "justiça digital".
Aqui acompanhamos a história de terror vivida por Harri Bhavsar (Chaneil Kular), um jovem paquistanês que precisa lidar com uma injustiça brutal: ele é apontado como o responsável por uma atentado a bomba no metrô de Londres, simplesmente por parecer com um possível suspeito - sim, eu disse "possível" suspeito. De uma hora para a outra o jovem passa a ser perseguido e ameaçado pela internet até que justiceiros começam a caça-lo-lo em busca de vingança. Confira o trailer (em inglês):
É de se elogiar a capacidade que o roteiro, escrito pela dupla de novatos Barnaby Boulton e James Cummings, tem de retratar o lado ruim das relações digitais, principalmente quando pautadas por "fake news". Reparem como antes mesmo da chegada de um clímax simplesmente aterrorizante no segundo ato, o diretor já parece antecipar o real poder de sua trama sem deixar de provocar uma reflexão audiência: o que acontece com Harri Bhavsar poderia acontecer com qualquer um (dada, obviamente, toda a suspensão de uma realidade muito particular da história) e isso, basicamente, eleva nossa ansiedade para o que vem pela frente. Se apropriando dessa angustia crescente, o filme vai apresentando camadas emocionais de seu protagonista ao mesmo tempo em que assistimos de camarote (leia-se pelos olhos dele) todo aquele circo que vai se construindo com o único e claro objetivo de "caça às bruxas" - algo, aliás, bem comum na internet.
Barantini sabe que essa situação especifica pode se transformar na pior experiência da vida de um jovem e ao alinhar o tema com uma gramática cinematográfica mais próxima do suspense do que do drama em si, vivenciamos em "O Acusado" exatamente aquilo que mais tememos. O tribunal virtual, que efetivamente analisa, julga e condena sem chance de um mero desconhecido se defender, é o mesmo que dá o direito para pessoas completamente sem noção resolver os problemas com as próprias mãos. Quando o fotógrafo Matthew Lewis (também de "O Chef") limita seus enquadramentos respeitando a geografia daquele cenário, seja com um jogo de luz e sombra ou com as trocas de perspectiva pelo movimento óptico do foco, temos a exata noção do que é estar preso onde, teoricamente, deveríamos estar seguros e como o ser humano poder sim ser doentio - e aqui cabem mais dois elogios: o filme é muito bem montado, com cortes precisos que ajudam a criar todo esse mood de tensão constante e o desenho de som, delicado, orgânico e muito pontual, coloca um elemento de realismo que é impressionante.
"O Acusado" mesmo curto, parece interminável - graças a capacidade de Barantini (e de seu time) em adequar o tempo de cada cena, da forma mais meticulosa possível, com a ação essencial que o talentoso Chaneil Kular precisa experienciar para mexer com nossas sensações - aliás, me lembrou muito o trabalho de Riz Ahmed em "The Night Of". Enfim, mesmo que tímido em sua campanha de marketing dentro da Netflix, esse é o tipo do filme que merece muita atenção pelo que assistimos na tela e pelo que deve ser discutido assim que os créditos sobem!
Um filme que vai te surpreender de verdade e que faz valer muito a pena o seu play!
Noventa minutos de muita tensão e angústia, é isso que você vai encontrar no ótimo "O Acusado". Na linha tênue entre "Zona de Confronto", "O Homem nas Trevas" e "Bata Antes de Entrar", o novo filme do talentoso diretor inglês Philip Barantini (o mesmo do sucesso, "O Chef") surpreende tanto pela dinâmica claustrofóbica de sua narrativa quanto pela critica extremamente atual contra uma geração "rede social" que se coloca em uma posição de superioridade ao achar que sua opinião é de fato uma verdade universal sem pensar nas consequências que ela pode representar para o ser humano, ainda mais se esse se encaixar no estereótipo de quem sofre algum tipo de discriminação. Disseminar "incertezas" pode ser muito mais perigoso em tempos de "justiça digital".
Aqui acompanhamos a história de terror vivida por Harri Bhavsar (Chaneil Kular), um jovem paquistanês que precisa lidar com uma injustiça brutal: ele é apontado como o responsável por uma atentado a bomba no metrô de Londres, simplesmente por parecer com um possível suspeito - sim, eu disse "possível" suspeito. De uma hora para a outra o jovem passa a ser perseguido e ameaçado pela internet até que justiceiros começam a caça-lo-lo em busca de vingança. Confira o trailer (em inglês):
É de se elogiar a capacidade que o roteiro, escrito pela dupla de novatos Barnaby Boulton e James Cummings, tem de retratar o lado ruim das relações digitais, principalmente quando pautadas por "fake news". Reparem como antes mesmo da chegada de um clímax simplesmente aterrorizante no segundo ato, o diretor já parece antecipar o real poder de sua trama sem deixar de provocar uma reflexão audiência: o que acontece com Harri Bhavsar poderia acontecer com qualquer um (dada, obviamente, toda a suspensão de uma realidade muito particular da história) e isso, basicamente, eleva nossa ansiedade para o que vem pela frente. Se apropriando dessa angustia crescente, o filme vai apresentando camadas emocionais de seu protagonista ao mesmo tempo em que assistimos de camarote (leia-se pelos olhos dele) todo aquele circo que vai se construindo com o único e claro objetivo de "caça às bruxas" - algo, aliás, bem comum na internet.
Barantini sabe que essa situação especifica pode se transformar na pior experiência da vida de um jovem e ao alinhar o tema com uma gramática cinematográfica mais próxima do suspense do que do drama em si, vivenciamos em "O Acusado" exatamente aquilo que mais tememos. O tribunal virtual, que efetivamente analisa, julga e condena sem chance de um mero desconhecido se defender, é o mesmo que dá o direito para pessoas completamente sem noção resolver os problemas com as próprias mãos. Quando o fotógrafo Matthew Lewis (também de "O Chef") limita seus enquadramentos respeitando a geografia daquele cenário, seja com um jogo de luz e sombra ou com as trocas de perspectiva pelo movimento óptico do foco, temos a exata noção do que é estar preso onde, teoricamente, deveríamos estar seguros e como o ser humano poder sim ser doentio - e aqui cabem mais dois elogios: o filme é muito bem montado, com cortes precisos que ajudam a criar todo esse mood de tensão constante e o desenho de som, delicado, orgânico e muito pontual, coloca um elemento de realismo que é impressionante.
"O Acusado" mesmo curto, parece interminável - graças a capacidade de Barantini (e de seu time) em adequar o tempo de cada cena, da forma mais meticulosa possível, com a ação essencial que o talentoso Chaneil Kular precisa experienciar para mexer com nossas sensações - aliás, me lembrou muito o trabalho de Riz Ahmed em "The Night Of". Enfim, mesmo que tímido em sua campanha de marketing dentro da Netflix, esse é o tipo do filme que merece muita atenção pelo que assistimos na tela e pelo que deve ser discutido assim que os créditos sobem!
Um filme que vai te surpreender de verdade e que faz valer muito a pena o seu play!
Antes de mais nada é preciso atestar que "O Amante Duplo" não será das jornadas mais tranquilas, pois esse suspense psicológico francês usa e abusa de cenas bem desconfortáveis para colocar a audiência dentro de um universo que pode até soar inverossímil, mas ao embarcar com uma certa descrença da realidade, fica impossível não ser impactado pela forma como o diretor François Ozon nos conduz pela história.
Chloé (Marine Vacth) é uma mulher reprimida sexualmente que, constantemente, sente dores na altura do estômago. Acreditando que seu problema seja psicológico, ela busca a ajuda profissional de Paul (Jérémie Renier), um psicólogo indicado por sua ginecologista. Porém, conforme as sessões vão evoluindo, eles acabam se apaixonando. Diante da situação, Paul resolve encerrar a terapia e indica uma colega para tratar sua futura esposa. Acontece que Chloé, enciumada por uma situação bem particular, resolve se consultar com outro psicólogo e acaba conhecendo o irmão gêmeo de Paul, criando um triângulo amoroso perigoso e cheio de segredos. Confira o trailer:
O plano-detalhe inicial de "O Amante Duplo" já vai te dizer exatamente o que vem pela frente - e é essa postura honesta de Ozon que você precisa levar em consideração ao decidir se continua ou não o filme. Posso te adiantar que outras cenas impactantes ou apelativas (como queiram) vão acontecer! Essa escolha do diretor não é por acaso: se o desconforto não está nos diálogos bem trabalhados do roteiro, fatalmente se aplica em algumas cenas que acabam justificando a complexidade dos personagens e a dinâmica narrativa da história. O que inicialmente parece um drama ao melhor estilo "Sessão de Terapia", logo se transforma em suspense psicológico com várias referências de "O Homem Duplicado", mas com toques de Roman Polanski e Brian De Palma.
É inegável a qualidade estética do filme. François Ozonfaz um belo trabalho com seus enquadramentos, criando planos muito bem desenhados tecnicamente, para dar a sensação de um desconforto completamente fora da realidade ao mesmo tempo que ele aproveita para internalizar muitas questões que estão sendo discutidas nos próprios diálogos entre paciente e terapeuta - repare, por exemplo, como ele prioriza os personagens em primeiro plano e imediatamente usa o foco para enquadrar suas imagens nos espelhos. A montagem valoriza esse distanciamento da realidade, mas a conexão imediata entre pensamentos, olhares e discurso, são completamente desconstruídos a cada cena - essa manipulação aumenta a sensação de mistério, de caos psicológico, de vazio e ainda traz um enorme impacto visual para a narrativa - as cenas no museu são lindas.
Vacth está excelente: seus olhares, sua dor e sua insegurança estão tatuadas no seu corpo - é impressionante como ela transita entre a retração e a liberação sexual em todo momento. Renier também está muito bem: a dualidade entre um homem misterioso e o outro transparente, ou ainda um passivo e o outro ativo, com fraquezas e fortalezas, funciona perfeitamente na proposta visual do filme e nos deixa cheio de dúvidas que se sustentam até o inicio do terceiro ato. O fato é que "O Amante Duplo" tem tudo que um bom suspense psicológico precisa, inclusive uma enorme facilidade para chocar e fazer nossa mente explodir - se normalmente o final decepciona a audiência menos ligada em filmes autorais e independentes, aqui não será o caso!
Em tempo: para quem conhece a essência das teorias psicanalíticas freudianas, fica fácil reconhecer a maravilhosa metáfora visual que o diretor imprime em vários momentos dessa surpreendente adaptação do livro "Lives of the Twins" de Joyce Carol Oates. Vale muito seu play, mas esteja preparado!
Antes de mais nada é preciso atestar que "O Amante Duplo" não será das jornadas mais tranquilas, pois esse suspense psicológico francês usa e abusa de cenas bem desconfortáveis para colocar a audiência dentro de um universo que pode até soar inverossímil, mas ao embarcar com uma certa descrença da realidade, fica impossível não ser impactado pela forma como o diretor François Ozon nos conduz pela história.
Chloé (Marine Vacth) é uma mulher reprimida sexualmente que, constantemente, sente dores na altura do estômago. Acreditando que seu problema seja psicológico, ela busca a ajuda profissional de Paul (Jérémie Renier), um psicólogo indicado por sua ginecologista. Porém, conforme as sessões vão evoluindo, eles acabam se apaixonando. Diante da situação, Paul resolve encerrar a terapia e indica uma colega para tratar sua futura esposa. Acontece que Chloé, enciumada por uma situação bem particular, resolve se consultar com outro psicólogo e acaba conhecendo o irmão gêmeo de Paul, criando um triângulo amoroso perigoso e cheio de segredos. Confira o trailer:
O plano-detalhe inicial de "O Amante Duplo" já vai te dizer exatamente o que vem pela frente - e é essa postura honesta de Ozon que você precisa levar em consideração ao decidir se continua ou não o filme. Posso te adiantar que outras cenas impactantes ou apelativas (como queiram) vão acontecer! Essa escolha do diretor não é por acaso: se o desconforto não está nos diálogos bem trabalhados do roteiro, fatalmente se aplica em algumas cenas que acabam justificando a complexidade dos personagens e a dinâmica narrativa da história. O que inicialmente parece um drama ao melhor estilo "Sessão de Terapia", logo se transforma em suspense psicológico com várias referências de "O Homem Duplicado", mas com toques de Roman Polanski e Brian De Palma.
É inegável a qualidade estética do filme. François Ozonfaz um belo trabalho com seus enquadramentos, criando planos muito bem desenhados tecnicamente, para dar a sensação de um desconforto completamente fora da realidade ao mesmo tempo que ele aproveita para internalizar muitas questões que estão sendo discutidas nos próprios diálogos entre paciente e terapeuta - repare, por exemplo, como ele prioriza os personagens em primeiro plano e imediatamente usa o foco para enquadrar suas imagens nos espelhos. A montagem valoriza esse distanciamento da realidade, mas a conexão imediata entre pensamentos, olhares e discurso, são completamente desconstruídos a cada cena - essa manipulação aumenta a sensação de mistério, de caos psicológico, de vazio e ainda traz um enorme impacto visual para a narrativa - as cenas no museu são lindas.
Vacth está excelente: seus olhares, sua dor e sua insegurança estão tatuadas no seu corpo - é impressionante como ela transita entre a retração e a liberação sexual em todo momento. Renier também está muito bem: a dualidade entre um homem misterioso e o outro transparente, ou ainda um passivo e o outro ativo, com fraquezas e fortalezas, funciona perfeitamente na proposta visual do filme e nos deixa cheio de dúvidas que se sustentam até o inicio do terceiro ato. O fato é que "O Amante Duplo" tem tudo que um bom suspense psicológico precisa, inclusive uma enorme facilidade para chocar e fazer nossa mente explodir - se normalmente o final decepciona a audiência menos ligada em filmes autorais e independentes, aqui não será o caso!
Em tempo: para quem conhece a essência das teorias psicanalíticas freudianas, fica fácil reconhecer a maravilhosa metáfora visual que o diretor imprime em vários momentos dessa surpreendente adaptação do livro "Lives of the Twins" de Joyce Carol Oates. Vale muito seu play, mas esteja preparado!
"O Aviso" é mais um daqueles suspenses psicológicos intrigantes, muito bem realizado e com um roteiro interessante, mas por conta de uma pequena solução narrativa, certamente, vai dividir opiniões. Esse filme espanhol, produzido pela Netflix se baseia no livro de Paul Pen e conta a história de Jon (Raúl Arévalo) que ao ver seu melhor amigo, David (Sergio Mur), ser baleado enquanto estavam em um posto de gasolina, começa investigar o crime até que percebe um estranho padrão matemático entre vários incidentes que ocorreram no mesmo local durante anos. Ao mesmo tempo, mas dez anos a frente, acompanhamos Nico (Hugo Arbúes), uma criança de nove anos que certo dia recebe um bilhete dizendo que sua vida pode estar em risco se ele for nesse posto de gasolina no dia do seu aniversário. É, eu sei que pode parecer confuso, mas o filme contorna muito bem essa premissa com inteligência. Confira o trailer, dublado:
"O Aviso", na minha opinião, tem mais acertos do que erros - principalmente se você assistir sem muita expectativa e mergulhar na paranóia do protagonista na busca alucinada para entender os padrões que construíram todos os crimes que ocorreram naquele local. Não espere explicações lógicas, por mais controversa que possa parecer a frase já que os números "não mentem" - o fato é que a trama vai fazer algum sentido se você não se preocupar com as respostas e sim com as suposições que o roteiro vai inserindo na história pouco a pouco... e isso é muito divertido!
O diretor Daniel Calparsoro (de "Tormenta" e o "O Silêncio da Cidade Branca") acertou ao brincar com a temporalidade do roteiro sem a necessidade de parecer didático com quem assiste. No início pode causar algum estranhamento, mas lentamente fica fácil entender exatamente quando cada linha narrativa acontece e, claro, nos provoca a imaginar como elas se encontrarão - apenas algumas cenas com um filtro sépia para invocar um passado distante, incomoda um pouco e embora a escolha visual seja justificável, faltou coragem para manter aquele conceito visual mais neutro! A partir do segundo ato, essa conjunção temporal vai ficando cada vez mais óbvia, mas o valor do roteiro de Chris Sparling ("Mercy") e Jorge Guerricaechevarría ("Quem com ferro fere") está em, justamente, não deixar o óbvio atrapalhar a experiência - eles vão nos apresentando outros elementos (inclusive sobrenaturais) com o objetivo de criar mais dúvidas do que repostas - da mesma forma como o grande M. Night Shyamalan nos presenteava em um passado distante.
O elenco merece destaque também: Raúl Arévalo entrega um personagem (Jon) bastante honesto - por sofrer de esquizofrenia e da culpa pelo acidente do amigo, a tendência óbvia era fugir do tom e super valorizar o drama ou o estereótipo; não foi o caso - nem mesmo as aplicações de insetos em um CG bem mequetrefe, atrapalharam seu trabalho! Aura Garrido, a Laura, mãe de Nico, também não cede a tentação do overacting e funciona bem ao equilibrar o fato de ser super protetora com a necessidade de preparar seu filho para enfrentar o mundo! Hugo Arbúes, o Nico, traduz exatamente o que representa uma infância insegura e ameaçada pelo bullying que pode viver um menino mais introvertido nos dias de hoje.
No geral, "O Aviso" funciona muito bem como um ótimo entretenimento que mistura mistério, investigação e suspense (com uma pitada de sobrenatural), que nos deixam intrigados e imersos em uma infinidade de possibilidades que nos movem até o final do filme. Talvez esse final possa decepcionar um pouco (foi o que aconteceu comigo), porém a jornada foi tão divertida que nem dei muita bola para esse vacilo do roteiro. Eu indico, mais pela diversão do que por ser um filme inesquecível!
"O Aviso" é mais um daqueles suspenses psicológicos intrigantes, muito bem realizado e com um roteiro interessante, mas por conta de uma pequena solução narrativa, certamente, vai dividir opiniões. Esse filme espanhol, produzido pela Netflix se baseia no livro de Paul Pen e conta a história de Jon (Raúl Arévalo) que ao ver seu melhor amigo, David (Sergio Mur), ser baleado enquanto estavam em um posto de gasolina, começa investigar o crime até que percebe um estranho padrão matemático entre vários incidentes que ocorreram no mesmo local durante anos. Ao mesmo tempo, mas dez anos a frente, acompanhamos Nico (Hugo Arbúes), uma criança de nove anos que certo dia recebe um bilhete dizendo que sua vida pode estar em risco se ele for nesse posto de gasolina no dia do seu aniversário. É, eu sei que pode parecer confuso, mas o filme contorna muito bem essa premissa com inteligência. Confira o trailer, dublado:
"O Aviso", na minha opinião, tem mais acertos do que erros - principalmente se você assistir sem muita expectativa e mergulhar na paranóia do protagonista na busca alucinada para entender os padrões que construíram todos os crimes que ocorreram naquele local. Não espere explicações lógicas, por mais controversa que possa parecer a frase já que os números "não mentem" - o fato é que a trama vai fazer algum sentido se você não se preocupar com as respostas e sim com as suposições que o roteiro vai inserindo na história pouco a pouco... e isso é muito divertido!
O diretor Daniel Calparsoro (de "Tormenta" e o "O Silêncio da Cidade Branca") acertou ao brincar com a temporalidade do roteiro sem a necessidade de parecer didático com quem assiste. No início pode causar algum estranhamento, mas lentamente fica fácil entender exatamente quando cada linha narrativa acontece e, claro, nos provoca a imaginar como elas se encontrarão - apenas algumas cenas com um filtro sépia para invocar um passado distante, incomoda um pouco e embora a escolha visual seja justificável, faltou coragem para manter aquele conceito visual mais neutro! A partir do segundo ato, essa conjunção temporal vai ficando cada vez mais óbvia, mas o valor do roteiro de Chris Sparling ("Mercy") e Jorge Guerricaechevarría ("Quem com ferro fere") está em, justamente, não deixar o óbvio atrapalhar a experiência - eles vão nos apresentando outros elementos (inclusive sobrenaturais) com o objetivo de criar mais dúvidas do que repostas - da mesma forma como o grande M. Night Shyamalan nos presenteava em um passado distante.
O elenco merece destaque também: Raúl Arévalo entrega um personagem (Jon) bastante honesto - por sofrer de esquizofrenia e da culpa pelo acidente do amigo, a tendência óbvia era fugir do tom e super valorizar o drama ou o estereótipo; não foi o caso - nem mesmo as aplicações de insetos em um CG bem mequetrefe, atrapalharam seu trabalho! Aura Garrido, a Laura, mãe de Nico, também não cede a tentação do overacting e funciona bem ao equilibrar o fato de ser super protetora com a necessidade de preparar seu filho para enfrentar o mundo! Hugo Arbúes, o Nico, traduz exatamente o que representa uma infância insegura e ameaçada pelo bullying que pode viver um menino mais introvertido nos dias de hoje.
No geral, "O Aviso" funciona muito bem como um ótimo entretenimento que mistura mistério, investigação e suspense (com uma pitada de sobrenatural), que nos deixam intrigados e imersos em uma infinidade de possibilidades que nos movem até o final do filme. Talvez esse final possa decepcionar um pouco (foi o que aconteceu comigo), porém a jornada foi tão divertida que nem dei muita bola para esse vacilo do roteiro. Eu indico, mais pela diversão do que por ser um filme inesquecível!
"O Beco do Pesadelo" tem a identidade de peso do seu diretor, Guillermo del Toro ("A Forma da Água" e "O Labirinto do Fauno") - visualmente impecável, com um história envolvente e que te prende do começo ao fim (sempre com uma lição escondida). Talvez um pouco menos "poético" que seus dois filmes que citamos, "O Beco do Pesadelo" usa a exploração da miséria humana (e aqui a "miséria" não tem necessariamente a ver com dinheiro) para discutir sobre a ambição descomedida que pode ser levada aos últimos níveis (e aqui sim estamos falando só de dinheiro)!
No filme conhecemos Stanton Carlisle (Bradley Cooper), um homem de passado nebuloso que encontra ocupação e companhia junto a outros marginalizados em uma espécie de circo itinerante repleto de espetáculos bizarros. Percebendo ótimas oportunidades de enganar as pessoas utilizando artimanhas bastante duvidosas, Stan se junta a Molly Cahill (Rooney Mara) em busca de melhores oportunidades até se tornar reconhecido como um mentalista famoso, ludibriando a elite rica da sociedade de Nova York dos anos 1940. Já é nesse contexto que ele conhece a psiquiatra Lilith Ritter (Cate Blanchett), iniciando uma parceria entre eles que transforma golpes até então inofensivos em um perigoso jogo de mentiras. Confira o trailer:
É impossível assistir "O Beco do Pesadelo" e não ficar deslumbrado com a qualidade visual do filme - do desenho de produção da premiada Tamara Deverell (Star Trek: Discovery) até a fotografia do sempre genial Dan Laustsen (A Forma da Água). Obviamente que todo departamento de arte segue esse mesmo cuidado estético, ajudando Del Toro a contar essa história com muito esmero visual - reparem como conseguimos perceber a presença de determinados personagens, mesmo antes deles serem totalmente enquadrados para que a cena de fato aconteça.
Ao focar no visual temos a impressão que o roteiro perde força, não é o caso - aqui a adaptação da obra homônima de William Lindsay Gresham se ajusta perfeitamente com a proposta do diretor que mistura elementos fantásticos, com um bom drama de personagem, usando vários gatilhos de suspense (e até de terror, eu diria), em uma dinâmica narrativa muito interessante (mesmo que um pouco longa para o meu gosto). Se no primeiro ato Del Toro nos direciona para um estilo narrativo mais explicativo, a partir do segundo, ele simplesmente transforma a história em uma espécie de fábula que expõe as profundas consequências perante algumas atitudes duvidosas que são tomadas na busca de uma ascensão social frágil e nada honesta.
Se nas cenas iniciais vemos um homem que chegou ao fundo do poço sendo cruelmente explorado por mera diversão, logo nos deparamos com outro que deseja apenas recomeçar sua vida "custe o que custar". Sabiamente Del Toro fomenta essa dicotomia a todo momento, mostrando as fragilidades dos personagens e onde isso pode leva-los. Dito isso, "O Beco do Pesadelo" não deve ser encarado como um suspense noir como o recente "Noite Passada em Soho", muito pelo contrário, o filme é muito mais um drama de personagem na sua essência - que aliás é potencializado pelo irretocável trabalho do trio Bradley Cooper, Cate Blanchett e Rooney Mara, e com a participação luxuosa de Toni Collette e Willem Dafoe.
Vale muito a pena!
"O Beco do Pesadelo" tem a identidade de peso do seu diretor, Guillermo del Toro ("A Forma da Água" e "O Labirinto do Fauno") - visualmente impecável, com um história envolvente e que te prende do começo ao fim (sempre com uma lição escondida). Talvez um pouco menos "poético" que seus dois filmes que citamos, "O Beco do Pesadelo" usa a exploração da miséria humana (e aqui a "miséria" não tem necessariamente a ver com dinheiro) para discutir sobre a ambição descomedida que pode ser levada aos últimos níveis (e aqui sim estamos falando só de dinheiro)!
No filme conhecemos Stanton Carlisle (Bradley Cooper), um homem de passado nebuloso que encontra ocupação e companhia junto a outros marginalizados em uma espécie de circo itinerante repleto de espetáculos bizarros. Percebendo ótimas oportunidades de enganar as pessoas utilizando artimanhas bastante duvidosas, Stan se junta a Molly Cahill (Rooney Mara) em busca de melhores oportunidades até se tornar reconhecido como um mentalista famoso, ludibriando a elite rica da sociedade de Nova York dos anos 1940. Já é nesse contexto que ele conhece a psiquiatra Lilith Ritter (Cate Blanchett), iniciando uma parceria entre eles que transforma golpes até então inofensivos em um perigoso jogo de mentiras. Confira o trailer:
É impossível assistir "O Beco do Pesadelo" e não ficar deslumbrado com a qualidade visual do filme - do desenho de produção da premiada Tamara Deverell (Star Trek: Discovery) até a fotografia do sempre genial Dan Laustsen (A Forma da Água). Obviamente que todo departamento de arte segue esse mesmo cuidado estético, ajudando Del Toro a contar essa história com muito esmero visual - reparem como conseguimos perceber a presença de determinados personagens, mesmo antes deles serem totalmente enquadrados para que a cena de fato aconteça.
Ao focar no visual temos a impressão que o roteiro perde força, não é o caso - aqui a adaptação da obra homônima de William Lindsay Gresham se ajusta perfeitamente com a proposta do diretor que mistura elementos fantásticos, com um bom drama de personagem, usando vários gatilhos de suspense (e até de terror, eu diria), em uma dinâmica narrativa muito interessante (mesmo que um pouco longa para o meu gosto). Se no primeiro ato Del Toro nos direciona para um estilo narrativo mais explicativo, a partir do segundo, ele simplesmente transforma a história em uma espécie de fábula que expõe as profundas consequências perante algumas atitudes duvidosas que são tomadas na busca de uma ascensão social frágil e nada honesta.
Se nas cenas iniciais vemos um homem que chegou ao fundo do poço sendo cruelmente explorado por mera diversão, logo nos deparamos com outro que deseja apenas recomeçar sua vida "custe o que custar". Sabiamente Del Toro fomenta essa dicotomia a todo momento, mostrando as fragilidades dos personagens e onde isso pode leva-los. Dito isso, "O Beco do Pesadelo" não deve ser encarado como um suspense noir como o recente "Noite Passada em Soho", muito pelo contrário, o filme é muito mais um drama de personagem na sua essência - que aliás é potencializado pelo irretocável trabalho do trio Bradley Cooper, Cate Blanchett e Rooney Mara, e com a participação luxuosa de Toni Collette e Willem Dafoe.
Vale muito a pena!
É impossível assistir "O Chalé" (ou "The Lodge", título original) e não lembrar de "Hereditário". De fato existem muitas semelhanças, principalmente por usar de alguns elementos visuais e até de um certo conceito narrativo para trazer o mesmo tom de suspense, porém se o filme do diretor Ari Aster se apoiava no sobrenatural, o da dupla Severin Fiala e Veronika Franz (a mesma do excelente "Boa Noite, Mamãe" de 2014) usa mais do psicológico (mesmo que flertando com o inexplicável).
"O Chalé" conta a história de Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) que após viverem um drama familiar, são levados pelo pai, Richard (Richard Armitage), até um chalé da família para passar o Natal com sua nova namorada, Grace (Riley Keough). O problema é que ele precisa se ausentar alguns uns dias para trabalhar e a única opção é deixar as crianças com Grace, que mal as conhecem e ainda é taxada como a culpada pela separação de Richard. O que poderia ser uma ótima oportunidade de aproximação entre eles, logo se transforma em um verdadeiro terror quando situações inexplicáveis começam acontecer. Confira o trailer:
Na verdade "O Chalé" não me pareceu um filme tão autoral quanto "Hereditário", embora conceitualmente, seja! Minha percepção foi que Severin Fiala e Veronika Franz entregam um filme não tão profundo, sem tantas camadas e que exige menos da interpretação. O que eu quero dizer é que, mesmo misterioso, "O Chalé" é um filme mais fácil de entender, onde as peças do quebra-cabeça vão se encaixando com o tempo e no final tudo faz sentido e pronto - não precisamos sair igual loucos buscando mais informações além do que acabamos de assistir! Sendo assim, é um filme que deve agradar mais pessoas: aquelas que gostam do gênero e pretendem se entreter com ele, sem a necessidade de depois ficar discutindo sobre os mínimos detalhes! Eu gostei e indico com mais tranquilidade que "Hereitário" ou que o próprio "Boa Noite, Mamãe", mas saiba que se você se envolve com esse tipo de narrativa, sua diversão está garantida!
O roteiro de Sergio Casci, Veronika Franz e Severin Fiala consegue criar aquela dúvida interminável desde o momento em que o filme mergulha na tensão entre as crianças e a futura madrasta. O mérito de carregar tantas perguntas sem respostas até o final do segundo ato, merece ser destacado - poucos filmes conseguem manter o nível de tensão, de abstração dos fatos e de mistério com tanta competência. O problema, ao meu ver, é justamente o terceiro ato: não pelo conteúdo, mas pela forma como tudo é resolvido - me pareceu rápido demais! Até a metade do segundo ato, mais ou menos, o roteiro chega a empolgar: ele transita entre uma boa atmosfera de suspense sobrenatural e uma excelente linha de terror psicológico. Não que o final não faça sentido ou que seja ruim, longe disso, ele só é resolvido sem muitos questionamentos, tudo fica muito claro e explicado demais - até alguns enquadramentos são didáticos além da conta.
"O Chalé" não se apoia em tantas alegorias como "Hereditário", embora use muitos elementos que parecem ser até uma cópia do filme de Aster (e lógico que não é); cito duas: a sensação angustiante de misturar planos do chalé com a de uma casa em miniatura, que nos faz perder completamente a noção de espaço e realidade, e as referências às seitas religiosas (ou satânicas, dependendo do ponto de vista) - aqui temos uma cena sensacional gravada em vídeo, bem documental, que é angustiante e que explica muito sobre Grace e seus fantasmas - reparem! Além disso existe um certo mergulho na psiquê dos personagens que também são similares, principalmente da própria Grace (Riley Keough) e de Laura (Alicia Silverstone, em uma participação curta, mas marcante) com relação à Annie de Toni Collette. Sobre o elenco, mais um excelente trabalho, comedido, no tom certo e ao mesmo tempo bastante convincente do Jaeden Martell ("Em defesa de Jacob") - esse menino é um fenômeno e logo será reconhecido por isso - podem me cobrar!
O diretores já haviam provado conhecer exatamente essa gramática cinematográfica do suspense e, mais uma vez, fazem uma leitura visual muito interessante ao fixar a câmera e deixar que os atores contem a história como se estivessem em um palco. Quando escolhem os planos mais fechados, normalmente no rosto dos atores e em momentos extremamente introspectivos, temos a impressão que somos capazes que compreender perfeitamente aquele olhar e ao escutar o silêncio de suas pausas, vem aquela sensação aterrorizante de desconhecido - Riley Keough usa e abusa dessas pausas com muita maestria! A fotografia do grego Thimios Bakatakis (de "O Sacrifício do Cervo Sagrado") é linda e o Desenho de Som do Sylvain Bellemare (vencedor do Oscar com "A Chegada") e Paul Lucien Col (responsável por grandes sucessos da HBO como "Sharp Objects" e "Big Little Lies") é digno de prêmios!
"O Chalé" não é um filme de "sustos", é um filme de personagens complexos em sentimentos que, mesmo sem um mergulho tão profundo, nos provocam a reinterpretar as situações de acordo com a nossa crença - e isso é um dos pontos altos do filme. Ele é angustiante, um pouco claustrofóbico, mas bastante honesto ao construir o suspense baseado em uma trama que não rouba no jogo, que entrega as pistas nos momentos certos e nos deixa viajar em várias teorias. Vale como entretenimento sem a menor dúvida!
É impossível assistir "O Chalé" (ou "The Lodge", título original) e não lembrar de "Hereditário". De fato existem muitas semelhanças, principalmente por usar de alguns elementos visuais e até de um certo conceito narrativo para trazer o mesmo tom de suspense, porém se o filme do diretor Ari Aster se apoiava no sobrenatural, o da dupla Severin Fiala e Veronika Franz (a mesma do excelente "Boa Noite, Mamãe" de 2014) usa mais do psicológico (mesmo que flertando com o inexplicável).
"O Chalé" conta a história de Aidan (Jaeden Martell) e Mia (Lia McHugh) que após viverem um drama familiar, são levados pelo pai, Richard (Richard Armitage), até um chalé da família para passar o Natal com sua nova namorada, Grace (Riley Keough). O problema é que ele precisa se ausentar alguns uns dias para trabalhar e a única opção é deixar as crianças com Grace, que mal as conhecem e ainda é taxada como a culpada pela separação de Richard. O que poderia ser uma ótima oportunidade de aproximação entre eles, logo se transforma em um verdadeiro terror quando situações inexplicáveis começam acontecer. Confira o trailer:
Na verdade "O Chalé" não me pareceu um filme tão autoral quanto "Hereditário", embora conceitualmente, seja! Minha percepção foi que Severin Fiala e Veronika Franz entregam um filme não tão profundo, sem tantas camadas e que exige menos da interpretação. O que eu quero dizer é que, mesmo misterioso, "O Chalé" é um filme mais fácil de entender, onde as peças do quebra-cabeça vão se encaixando com o tempo e no final tudo faz sentido e pronto - não precisamos sair igual loucos buscando mais informações além do que acabamos de assistir! Sendo assim, é um filme que deve agradar mais pessoas: aquelas que gostam do gênero e pretendem se entreter com ele, sem a necessidade de depois ficar discutindo sobre os mínimos detalhes! Eu gostei e indico com mais tranquilidade que "Hereitário" ou que o próprio "Boa Noite, Mamãe", mas saiba que se você se envolve com esse tipo de narrativa, sua diversão está garantida!
O roteiro de Sergio Casci, Veronika Franz e Severin Fiala consegue criar aquela dúvida interminável desde o momento em que o filme mergulha na tensão entre as crianças e a futura madrasta. O mérito de carregar tantas perguntas sem respostas até o final do segundo ato, merece ser destacado - poucos filmes conseguem manter o nível de tensão, de abstração dos fatos e de mistério com tanta competência. O problema, ao meu ver, é justamente o terceiro ato: não pelo conteúdo, mas pela forma como tudo é resolvido - me pareceu rápido demais! Até a metade do segundo ato, mais ou menos, o roteiro chega a empolgar: ele transita entre uma boa atmosfera de suspense sobrenatural e uma excelente linha de terror psicológico. Não que o final não faça sentido ou que seja ruim, longe disso, ele só é resolvido sem muitos questionamentos, tudo fica muito claro e explicado demais - até alguns enquadramentos são didáticos além da conta.
"O Chalé" não se apoia em tantas alegorias como "Hereditário", embora use muitos elementos que parecem ser até uma cópia do filme de Aster (e lógico que não é); cito duas: a sensação angustiante de misturar planos do chalé com a de uma casa em miniatura, que nos faz perder completamente a noção de espaço e realidade, e as referências às seitas religiosas (ou satânicas, dependendo do ponto de vista) - aqui temos uma cena sensacional gravada em vídeo, bem documental, que é angustiante e que explica muito sobre Grace e seus fantasmas - reparem! Além disso existe um certo mergulho na psiquê dos personagens que também são similares, principalmente da própria Grace (Riley Keough) e de Laura (Alicia Silverstone, em uma participação curta, mas marcante) com relação à Annie de Toni Collette. Sobre o elenco, mais um excelente trabalho, comedido, no tom certo e ao mesmo tempo bastante convincente do Jaeden Martell ("Em defesa de Jacob") - esse menino é um fenômeno e logo será reconhecido por isso - podem me cobrar!
O diretores já haviam provado conhecer exatamente essa gramática cinematográfica do suspense e, mais uma vez, fazem uma leitura visual muito interessante ao fixar a câmera e deixar que os atores contem a história como se estivessem em um palco. Quando escolhem os planos mais fechados, normalmente no rosto dos atores e em momentos extremamente introspectivos, temos a impressão que somos capazes que compreender perfeitamente aquele olhar e ao escutar o silêncio de suas pausas, vem aquela sensação aterrorizante de desconhecido - Riley Keough usa e abusa dessas pausas com muita maestria! A fotografia do grego Thimios Bakatakis (de "O Sacrifício do Cervo Sagrado") é linda e o Desenho de Som do Sylvain Bellemare (vencedor do Oscar com "A Chegada") e Paul Lucien Col (responsável por grandes sucessos da HBO como "Sharp Objects" e "Big Little Lies") é digno de prêmios!
"O Chalé" não é um filme de "sustos", é um filme de personagens complexos em sentimentos que, mesmo sem um mergulho tão profundo, nos provocam a reinterpretar as situações de acordo com a nossa crença - e isso é um dos pontos altos do filme. Ele é angustiante, um pouco claustrofóbico, mas bastante honesto ao construir o suspense baseado em uma trama que não rouba no jogo, que entrega as pistas nos momentos certos e nos deixa viajar em várias teorias. Vale como entretenimento sem a menor dúvida!
"O Clube" mostra o lado mais escuro do ser humano, onde a hipocrisia está enraizada em camadas tão profundas que a "culpa" fica praticamente adormecida e os atos para mante-la assim se justificam por si só, mesmo que para isso seja necessário punir o outro! Esse premiado filme do chileno Pablo Larraín (de "Spencer") expõe o que há de mais sujo na igreja católica, com o cuidado de não ofender (ou julgar) a religião em si. Essa habilidade de Larraín de discutir um assunto tão sensível transforma uma narrativa extremamente autoral, e polêmica, em um filme profundo, reflexivo e muito provocador - que não vai agradar a todos, mas que é muito marcante para quem assiste.
Após um suicídio, o conselheiro espiritual para crises envolvendo a Igreja Católica, Padre García (Marcelo Alonso), é enviado para uma pequena cidade na costa do Chile onde quatro padres e uma freira, desonrados por "suspeita" de crimes que vão de abuso infantil ao roubo de bebês de mães não casadas, vivem isolados em busca de redenção. Com a chegada de Garcia, padre mais progressista e que deseja melhorar a imagem da igreja, aquela dinâmica do local já estabelecida simplesmente desaba, mostrando que cada um dos personagens possuem marcas muito mais profundas do que um retiro seria capaz de curar. Confira o trailer:
Extremamente alinhado com um visual maravilhoso, mérito do fotógrafo Sergio Armstrong (de "Neruda"), e uma direção cadenciada, mas extremamente competente de Larraín, o roteiro de "O Clube" é, sem dúvida, o ponto alto do filme. Em colaboração comGuilhermo Calderón e Daniel Villalobos, Larraín cria uma dinâmica narrativa extremamente concisa desde o primeiro plano, apresentando uma atmosfera de mistério que prende a atenção da audiência de uma forma avassaladora - e digo isso pois o assunto que guia a história é denso, mas ao mesmo tempo provocador já que o diretor prefere sugerir pelo diálogo todas as atrocidades ao invés impactar pela imagem, passando a responsabilidade dessa construção mental exclusivamente para nós. De fato o roteiro é econômico em cenas pesadas, mas riquíssimo nas descrições, criando assim um desconforto impressionante.
Se para alguns o tema vinculado a religião pode parecer pesado demais, para outros o subtexto discutido vai além - a noção de arrependimento e de redenção, fundamentais no catolicismo, ganha contornos tão problemáticos quanto reais quando o foco passa a ser personagens que escolheram esse caminho por "vocação". A forma como Larraín discute a "culpa", humaniza as fraquezas do ser humano dando a palavra para o outro lado da história antes mesmo que nosso julgamento possa ser finalizado. A maneira como a trama vai se encaixando, onde essas fraquezas vão sendo mostradas e as soluções vão sendo propostas, é de embrulhar o estômago e de perder a fé na humanidade.
Veja, através dos depoimentos dos quatros padres, da freira e da presença misteriosa do forasteiro Sandokan (Roberto Farías - em uma performance digna de muito prêmios), somos jogados sem o menor cuidado para alguns dos fatos mais obscuros da história da nossa sociedade como a própria relação da igreja com a violenta ditadura de Pinochet e as inúmeras acusações de pedofilia tão presentes, em tantos países, e que assombram a instituição desde o Vaticano.
Grande vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim em 2015, "O Clube" tem muito a dizer, a grande questão é se as pessoas que assistem essa obra-prima estarão dispostas a escutar.
Vale muito seu play!
"O Clube" mostra o lado mais escuro do ser humano, onde a hipocrisia está enraizada em camadas tão profundas que a "culpa" fica praticamente adormecida e os atos para mante-la assim se justificam por si só, mesmo que para isso seja necessário punir o outro! Esse premiado filme do chileno Pablo Larraín (de "Spencer") expõe o que há de mais sujo na igreja católica, com o cuidado de não ofender (ou julgar) a religião em si. Essa habilidade de Larraín de discutir um assunto tão sensível transforma uma narrativa extremamente autoral, e polêmica, em um filme profundo, reflexivo e muito provocador - que não vai agradar a todos, mas que é muito marcante para quem assiste.
Após um suicídio, o conselheiro espiritual para crises envolvendo a Igreja Católica, Padre García (Marcelo Alonso), é enviado para uma pequena cidade na costa do Chile onde quatro padres e uma freira, desonrados por "suspeita" de crimes que vão de abuso infantil ao roubo de bebês de mães não casadas, vivem isolados em busca de redenção. Com a chegada de Garcia, padre mais progressista e que deseja melhorar a imagem da igreja, aquela dinâmica do local já estabelecida simplesmente desaba, mostrando que cada um dos personagens possuem marcas muito mais profundas do que um retiro seria capaz de curar. Confira o trailer:
Extremamente alinhado com um visual maravilhoso, mérito do fotógrafo Sergio Armstrong (de "Neruda"), e uma direção cadenciada, mas extremamente competente de Larraín, o roteiro de "O Clube" é, sem dúvida, o ponto alto do filme. Em colaboração comGuilhermo Calderón e Daniel Villalobos, Larraín cria uma dinâmica narrativa extremamente concisa desde o primeiro plano, apresentando uma atmosfera de mistério que prende a atenção da audiência de uma forma avassaladora - e digo isso pois o assunto que guia a história é denso, mas ao mesmo tempo provocador já que o diretor prefere sugerir pelo diálogo todas as atrocidades ao invés impactar pela imagem, passando a responsabilidade dessa construção mental exclusivamente para nós. De fato o roteiro é econômico em cenas pesadas, mas riquíssimo nas descrições, criando assim um desconforto impressionante.
Se para alguns o tema vinculado a religião pode parecer pesado demais, para outros o subtexto discutido vai além - a noção de arrependimento e de redenção, fundamentais no catolicismo, ganha contornos tão problemáticos quanto reais quando o foco passa a ser personagens que escolheram esse caminho por "vocação". A forma como Larraín discute a "culpa", humaniza as fraquezas do ser humano dando a palavra para o outro lado da história antes mesmo que nosso julgamento possa ser finalizado. A maneira como a trama vai se encaixando, onde essas fraquezas vão sendo mostradas e as soluções vão sendo propostas, é de embrulhar o estômago e de perder a fé na humanidade.
Veja, através dos depoimentos dos quatros padres, da freira e da presença misteriosa do forasteiro Sandokan (Roberto Farías - em uma performance digna de muito prêmios), somos jogados sem o menor cuidado para alguns dos fatos mais obscuros da história da nossa sociedade como a própria relação da igreja com a violenta ditadura de Pinochet e as inúmeras acusações de pedofilia tão presentes, em tantos países, e que assombram a instituição desde o Vaticano.
Grande vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim em 2015, "O Clube" tem muito a dizer, a grande questão é se as pessoas que assistem essa obra-prima estarão dispostas a escutar.
Vale muito seu play!
"O Farol" ("The Lighthouse", título original) do diretor de "A Bruxa", Robert Eggers, é uma experiência sensorial incrível, porém se apoia em um tipo de narrativa pouco convencional e isso, certamente, vai dividir opiniões - eu diria que é uma experiência bem parecida com a de assistir "Pi" do Darren Aronofsky.
Na história, dois marinheiros: um veterano, Thomas Wake (Willem Dafoe) e um novato, Ephraim Winslow (Robert Pattinson); são enviados para uma ilha, aparentemente, remota, para cuidar da manutenção de um farol. Ambos precisam dividir algumas tarefas e conviver como "colegas de quarto" até que novos marinheiros possam substituí-los. Claro, não demora muito para que a diferença de hierarquia imposta pelo veterano Wake passe a incomodar Winslow tornando esse isolamento, o tédio do dia a dia e a própria convivência entre os dois, insuportável. Confira o trailer:
Como o já mencionado "Pi", "O Farol" é quase um tratado da loucura, ao analisar o comportamento humano quando levado aos extremos - e aqui cabe um observação interessante: existe uma espécie de mitologia entre marinheiros, com lendas e superstições que praticamente moldam o caráter e o respeito dessa classe perante o mar e é justamente a partir desse conceito que os personagens direcionam suas ações durante todo o filme. O grande problema é que a linha tênue entre a realidade e a imaginação vai praticamente se desfazendo conforme os dias vão passando naquele ambiente tão particular e a constante tensão entre Wake e Winslow apenas acelera esse movimento, ou seja, a partir do segundo ato, o filme nos provoca a esperar sempre o pior, já que os limites aceitáveis de uma relação entre duas pessoas simplesmente desaparece! Não espere sustos, o horror não está naquilo que vemos e sim no que sentimos - lembrem-se disso!
O diretor e seu irmão Max Eggers escreveram um roteiro primoroso, que pode até causar um certo estranhamento inicial, já que os diálogos foram construídos em cima de um inglês mais antigo, com linguajar próprio de "velhos homens do mar"! Esse toque conceitual está completamente alinhado com a estética visual do filme: branco e preto, filmado em um aspecto 1.19:1 (mais fechado que os 4:3 das TVs antigas), em 35mm e com lentes da década de 1930. A própria captação do som foi feita em "mono" o que nos provoca uma certa sensação claustrofóbica, de abafado, potencializando a angústia dos personagens, sempre espremidos em ambientes escuros, sujos, mal cuidados. O desenho de som e a trilha sonora do Mark Korven misturam elementos metálicos e graves, ensurdecedores, que dialogam perfeitamente com um certo zumbido do mau tempo constante da ilha!
A direção de Robert Eggers é espetacular, como em seu filme anterior, ele cuida de cada detalhe para que nossa experiência seja inesquecível - e de fato ele alcança esse objetivo. Se possível, assista esse filme com o som bem alto e perceba como até o silêncio atua como catalizador de emoções - veja, para muitos, o filme vai parecer muito mais um delírio autoral do que uma narrativa minimamente compreensível! Acontece que essa escolha conceitual serve justamente para construir uma tensão permanente e quando o diretor de fotografia, Jarin Blaschk (única indicação ao Oscar 2020), enquadra os atores, o que encontramos é uma aula de atuação - tanto de Willem Dafoe, quanto de Robert Pattinson - ambos inacreditavelmente esquecidos pela Academia!
O filme tem um estranho tipo de humor, irônico e sombrio, além disso trabalha o simbolismo como poucos - a referência de Aronofsky acaba fazendo muito sentido por esse ponto de vista! Saiba que se trata de uma história repleta de mistérios, tensão e suspense, pontuadas com ritmo cirúrgico da trilha sonora e com uma conclusão sem nenhuma explicação, mas que chega a nos causar um certo alívio. Como na filmografia de Ari Aster de "Hereditário" e "Midsommar" ou da dupla Severin Fiala e Veronika Franz de "O Chalé" e "Boa Noite, Mamãe", assistir o trabalho de Robert Eggers não deve agradar a todos, mas para quem está disposto a embarcar no "pouco convencional", certamente, o entretenimento de qualidade está garantido!
"O Farol" ("The Lighthouse", título original) do diretor de "A Bruxa", Robert Eggers, é uma experiência sensorial incrível, porém se apoia em um tipo de narrativa pouco convencional e isso, certamente, vai dividir opiniões - eu diria que é uma experiência bem parecida com a de assistir "Pi" do Darren Aronofsky.
Na história, dois marinheiros: um veterano, Thomas Wake (Willem Dafoe) e um novato, Ephraim Winslow (Robert Pattinson); são enviados para uma ilha, aparentemente, remota, para cuidar da manutenção de um farol. Ambos precisam dividir algumas tarefas e conviver como "colegas de quarto" até que novos marinheiros possam substituí-los. Claro, não demora muito para que a diferença de hierarquia imposta pelo veterano Wake passe a incomodar Winslow tornando esse isolamento, o tédio do dia a dia e a própria convivência entre os dois, insuportável. Confira o trailer:
Como o já mencionado "Pi", "O Farol" é quase um tratado da loucura, ao analisar o comportamento humano quando levado aos extremos - e aqui cabe um observação interessante: existe uma espécie de mitologia entre marinheiros, com lendas e superstições que praticamente moldam o caráter e o respeito dessa classe perante o mar e é justamente a partir desse conceito que os personagens direcionam suas ações durante todo o filme. O grande problema é que a linha tênue entre a realidade e a imaginação vai praticamente se desfazendo conforme os dias vão passando naquele ambiente tão particular e a constante tensão entre Wake e Winslow apenas acelera esse movimento, ou seja, a partir do segundo ato, o filme nos provoca a esperar sempre o pior, já que os limites aceitáveis de uma relação entre duas pessoas simplesmente desaparece! Não espere sustos, o horror não está naquilo que vemos e sim no que sentimos - lembrem-se disso!
O diretor e seu irmão Max Eggers escreveram um roteiro primoroso, que pode até causar um certo estranhamento inicial, já que os diálogos foram construídos em cima de um inglês mais antigo, com linguajar próprio de "velhos homens do mar"! Esse toque conceitual está completamente alinhado com a estética visual do filme: branco e preto, filmado em um aspecto 1.19:1 (mais fechado que os 4:3 das TVs antigas), em 35mm e com lentes da década de 1930. A própria captação do som foi feita em "mono" o que nos provoca uma certa sensação claustrofóbica, de abafado, potencializando a angústia dos personagens, sempre espremidos em ambientes escuros, sujos, mal cuidados. O desenho de som e a trilha sonora do Mark Korven misturam elementos metálicos e graves, ensurdecedores, que dialogam perfeitamente com um certo zumbido do mau tempo constante da ilha!
A direção de Robert Eggers é espetacular, como em seu filme anterior, ele cuida de cada detalhe para que nossa experiência seja inesquecível - e de fato ele alcança esse objetivo. Se possível, assista esse filme com o som bem alto e perceba como até o silêncio atua como catalizador de emoções - veja, para muitos, o filme vai parecer muito mais um delírio autoral do que uma narrativa minimamente compreensível! Acontece que essa escolha conceitual serve justamente para construir uma tensão permanente e quando o diretor de fotografia, Jarin Blaschk (única indicação ao Oscar 2020), enquadra os atores, o que encontramos é uma aula de atuação - tanto de Willem Dafoe, quanto de Robert Pattinson - ambos inacreditavelmente esquecidos pela Academia!
O filme tem um estranho tipo de humor, irônico e sombrio, além disso trabalha o simbolismo como poucos - a referência de Aronofsky acaba fazendo muito sentido por esse ponto de vista! Saiba que se trata de uma história repleta de mistérios, tensão e suspense, pontuadas com ritmo cirúrgico da trilha sonora e com uma conclusão sem nenhuma explicação, mas que chega a nos causar um certo alívio. Como na filmografia de Ari Aster de "Hereditário" e "Midsommar" ou da dupla Severin Fiala e Veronika Franz de "O Chalé" e "Boa Noite, Mamãe", assistir o trabalho de Robert Eggers não deve agradar a todos, mas para quem está disposto a embarcar no "pouco convencional", certamente, o entretenimento de qualidade está garantido!
"Enemy" (título original) é simplesmente sensacional, mas já aviso: é uma loucura, daqueles de dar nó na cabeça ao melhor estilo Nolan - e por isso pode decepcionar quem busca algo mais, digamos, tradicional!
O filme narra a história de Adam Bell (Jake Gyllenhaal), professor universitário preso a uma monótona rotina diária, que descobre um sósia famoso enquanto assiste a um filme. Intrigado, ele passa a seguir este homem, transformando a vida de ambos em uma loucura. Baseado no livro "O Homem Duplicado" de José Saramago, o filme vai te provocar e fazer com que você busque muitas respostas fora do filme - sim, esse é daqueles que nos faz pensar, discutir, pesquisar por horas!
A força de "O Homem Duplicado" reside justamente em sua habilidade de criar uma atmosfera de tensão e paranoia, alimentada pela atuação magistral de Gyllenhaal. Sua interpretação de dois personagens aparentemente idênticos, mas com nuances distintas, é verdadeiramente impressionante e cativante. Villeneuve, conhecido por sua habilidade em construir tramas cheias de suspense, utiliza cenários sombrios e uma trilha sonora inquietante para mergulhar a audiência na mente perturbada de Adam.
O roteiro de Javier Gullón (de "Invasor") é de uma complexidade e profundidade absurdos. Ao explorar temas como identidade, alienação e desejo, o filme desafia as nossas expectativas a cada nova descoberta e nos convida à reflexão sobre a natureza da realidade e da individualidade sem pedir permissão. A escolha de Villeneuve em manter o mistério e a ambiguidade ao longo da narrativa eleva o filme a um nível absurdo de excelência artística, deixando espaço para interpretações diversas e debates profundos após os créditos.
Além da performance estelar de Gyllenhaal, o elenco de apoio também merece destaque, com atuações sólidas de Mélanie Laurent, Sarah Gadon e Isabella Rossellini. Cada personagem adiciona uma camada adicional à complexidade da trama, contribuindo para a riqueza emocional e intelectual do filme. Dito isso, recomendar "O Homem Duplicado" acaba se tornando fácil, já que é considerada por muitos uma obra-prima do cinema moderno, que combina uma narrativa envolvente, performances excepcionais e uma profundidade temática incomparável.
"Enemy" (título original) é simplesmente sensacional, mas já aviso: é uma loucura, daqueles de dar nó na cabeça ao melhor estilo Nolan - e por isso pode decepcionar quem busca algo mais, digamos, tradicional!
O filme narra a história de Adam Bell (Jake Gyllenhaal), professor universitário preso a uma monótona rotina diária, que descobre um sósia famoso enquanto assiste a um filme. Intrigado, ele passa a seguir este homem, transformando a vida de ambos em uma loucura. Baseado no livro "O Homem Duplicado" de José Saramago, o filme vai te provocar e fazer com que você busque muitas respostas fora do filme - sim, esse é daqueles que nos faz pensar, discutir, pesquisar por horas!
A força de "O Homem Duplicado" reside justamente em sua habilidade de criar uma atmosfera de tensão e paranoia, alimentada pela atuação magistral de Gyllenhaal. Sua interpretação de dois personagens aparentemente idênticos, mas com nuances distintas, é verdadeiramente impressionante e cativante. Villeneuve, conhecido por sua habilidade em construir tramas cheias de suspense, utiliza cenários sombrios e uma trilha sonora inquietante para mergulhar a audiência na mente perturbada de Adam.
O roteiro de Javier Gullón (de "Invasor") é de uma complexidade e profundidade absurdos. Ao explorar temas como identidade, alienação e desejo, o filme desafia as nossas expectativas a cada nova descoberta e nos convida à reflexão sobre a natureza da realidade e da individualidade sem pedir permissão. A escolha de Villeneuve em manter o mistério e a ambiguidade ao longo da narrativa eleva o filme a um nível absurdo de excelência artística, deixando espaço para interpretações diversas e debates profundos após os créditos.
Além da performance estelar de Gyllenhaal, o elenco de apoio também merece destaque, com atuações sólidas de Mélanie Laurent, Sarah Gadon e Isabella Rossellini. Cada personagem adiciona uma camada adicional à complexidade da trama, contribuindo para a riqueza emocional e intelectual do filme. Dito isso, recomendar "O Homem Duplicado" acaba se tornando fácil, já que é considerada por muitos uma obra-prima do cinema moderno, que combina uma narrativa envolvente, performances excepcionais e uma profundidade temática incomparável.
Se você assistiu "O Homem sem Sombra", com Kevin Bacon e Elisabeth Shue, eu já te adianto: "O Homem Invisível" é muito (mas muito) melhor - eu diria que é outro nível de filme! Se em 2000 o filme trouxe avanços incríveis em efeitos especiais, o que acabou lhe garantindo uma indicação ao Oscar na categoria em 2001, a sua versão mais recente se apoia muito mais no roteiro e no excelente trabalho de Elisabeth Moss (a June de The Handmaid's Tale) - ela está tão incrível que não vou me surpreender se for indicada ao Oscar por esse trabalho!
A história acompanha Cecilia (Moss), uma mulher atormentada por um relacionamento abusivo com o milionário Adrian (Oliver Jackson-Cohen), um renomado especialista em óptica. Desesperada com sua situação, Cecília resolve fugir certa noite, porém as marcas dessa relação deixaram traumas profundos até que um dia ela recebe a notícia que seu ex cometeu um suicídio. Com o passar do tempo, porém, Cecilia passa a testemunhar alguns fenômenos bastante sinistros, o que a fazem suspeitar que Adrian não está morto, e sim que descobriu uma maneira de se tornar invisível para poder se vingar dela. Confira o trailer a seguir:
"O Homem Invisível" (The Invisible Man, título original) é um suspense de prato cheio, daqueles que nos gera a tensão só por imaginarmos o que pode acontecer e, claro, muitos sustos, já que o "silêncio" é muito bem trabalhado e o "vazio" é explorado com inteligência, graças ao ótimo trabalho do diretor Leigh Whannell. O filme, de fato, me surpreendeu, eu sinceramente não esperava que ele fosse tão bom e tão bem desenvolvido - ele entrega uma experiência de entretenimento ideal para quem gosta do gênero. Vale muito a pena e mais abaixo vou explicar a razão em detalhes!
Embora o filme seja baseado no personagem criado por H.G. Wells, Whannello (que também escreveu o roteiro) se apropriou apenas do fato de existir um personagem que descobre uma maneira de ficar invisível. A escolha de mostrar o ponto de vista da vítima, e não do "homem invisível", me pareceu muito acertada e ao usar uma temática extremamente atual, onde observamos os reflexos de uma relação abusiva sob olhar de quem viveu (e vive) um trauma tão marcante, é sensacional porque, de cara, já se cria uma identificação imediata com a protagonista, mesmo sem saber muito bem o que acontecia ao certo - e aqui o roteiro dá um show ao expôr toda essa relação conturbada e a motivação de Cecília logo no prólogo, com uma sequência inicial de tirar o fôlego!
Na direção, fica claro, com poucos minutos de filme, que Whannello domina a gramática cinematográfica do suspense. Certamente sua experiência anterior em títulos como Jogos Mortais, que roteirizou, e Sobrenatural, que dirigiu, serviram para entregar um filme interessante sem a necessidade de tantos efeitos especiais, afinal o detalhe do movimento era o suficiente. O fato dele usar o travelling (aquele movimento lateral da câmera) ou takes com uma lente "grande angular" para estabelecer o vazio da cena, por si só, já criam um clima de tensão absurdo. O detalhe do botão do fogão virando para aumentar a chama ou a respiração de uma noite de frio são só a cereja do bolo para uma angustia ou ansiedade que já foi construída segundos antes!
Outro elemento que te convido a observar é o desenho do som: como muitas vezes Cecilia está sozinha em cena, é preciso aumentar um pouco a relação do som (ou dos ruídos) com o ambiente para compensar esse vazio - o que é lindo de ver e ouvir, pois nossa sensibilidade auditiva é provocada a cada momento, como se estivéssemos tentando encontrar alguém que não podemos enxergar, junto com a protagonista. Se existe algo que poderia, talvez, ser melhor desenvolvido, acho que seria o drama mais intimo de Cecilia antes da certeza de que Adrian ainda estava vivo - acho que Whannello perdeu uma grande chance de discutir ainda mais a sanidade de Cecilia, bem como sua própria dúvida sobre o eventos (sobrenaturais) que ela vivenciou sozinha! Por outro lado, o roteiro é muito competente em nos surpreender - em pelo menos duas situações, ficamos de queixo caído, enquanto no final, embora interessante, a sensação de obviedade surge com força..
"O Homem Invisível" é o primeiro projeto da Universal com um selo que pretende produzir apenas remakes de monstros clássicos do cinema, mas com o foco no desenvolvimento das histórias e com uma levada mais autoral e independente dos seus roteiristas e diretores. Nesse caso, funcionou! "O Homem Invisível" custou pouco mais de 7 milhões de dólares e rendeu mais de 130 milhões - um sucesso absoluto de público e crítica e não se surpreendam se for bastante premiado na próxima temporada de festivais de gênero e se abocanhar umas 2 ou 3 indicações ao Oscar de 2021.
Sem exageros, vale muito seu play!
Se você assistiu "O Homem sem Sombra", com Kevin Bacon e Elisabeth Shue, eu já te adianto: "O Homem Invisível" é muito (mas muito) melhor - eu diria que é outro nível de filme! Se em 2000 o filme trouxe avanços incríveis em efeitos especiais, o que acabou lhe garantindo uma indicação ao Oscar na categoria em 2001, a sua versão mais recente se apoia muito mais no roteiro e no excelente trabalho de Elisabeth Moss (a June de The Handmaid's Tale) - ela está tão incrível que não vou me surpreender se for indicada ao Oscar por esse trabalho!
A história acompanha Cecilia (Moss), uma mulher atormentada por um relacionamento abusivo com o milionário Adrian (Oliver Jackson-Cohen), um renomado especialista em óptica. Desesperada com sua situação, Cecília resolve fugir certa noite, porém as marcas dessa relação deixaram traumas profundos até que um dia ela recebe a notícia que seu ex cometeu um suicídio. Com o passar do tempo, porém, Cecilia passa a testemunhar alguns fenômenos bastante sinistros, o que a fazem suspeitar que Adrian não está morto, e sim que descobriu uma maneira de se tornar invisível para poder se vingar dela. Confira o trailer a seguir:
"O Homem Invisível" (The Invisible Man, título original) é um suspense de prato cheio, daqueles que nos gera a tensão só por imaginarmos o que pode acontecer e, claro, muitos sustos, já que o "silêncio" é muito bem trabalhado e o "vazio" é explorado com inteligência, graças ao ótimo trabalho do diretor Leigh Whannell. O filme, de fato, me surpreendeu, eu sinceramente não esperava que ele fosse tão bom e tão bem desenvolvido - ele entrega uma experiência de entretenimento ideal para quem gosta do gênero. Vale muito a pena e mais abaixo vou explicar a razão em detalhes!
Embora o filme seja baseado no personagem criado por H.G. Wells, Whannello (que também escreveu o roteiro) se apropriou apenas do fato de existir um personagem que descobre uma maneira de ficar invisível. A escolha de mostrar o ponto de vista da vítima, e não do "homem invisível", me pareceu muito acertada e ao usar uma temática extremamente atual, onde observamos os reflexos de uma relação abusiva sob olhar de quem viveu (e vive) um trauma tão marcante, é sensacional porque, de cara, já se cria uma identificação imediata com a protagonista, mesmo sem saber muito bem o que acontecia ao certo - e aqui o roteiro dá um show ao expôr toda essa relação conturbada e a motivação de Cecília logo no prólogo, com uma sequência inicial de tirar o fôlego!
Na direção, fica claro, com poucos minutos de filme, que Whannello domina a gramática cinematográfica do suspense. Certamente sua experiência anterior em títulos como Jogos Mortais, que roteirizou, e Sobrenatural, que dirigiu, serviram para entregar um filme interessante sem a necessidade de tantos efeitos especiais, afinal o detalhe do movimento era o suficiente. O fato dele usar o travelling (aquele movimento lateral da câmera) ou takes com uma lente "grande angular" para estabelecer o vazio da cena, por si só, já criam um clima de tensão absurdo. O detalhe do botão do fogão virando para aumentar a chama ou a respiração de uma noite de frio são só a cereja do bolo para uma angustia ou ansiedade que já foi construída segundos antes!
Outro elemento que te convido a observar é o desenho do som: como muitas vezes Cecilia está sozinha em cena, é preciso aumentar um pouco a relação do som (ou dos ruídos) com o ambiente para compensar esse vazio - o que é lindo de ver e ouvir, pois nossa sensibilidade auditiva é provocada a cada momento, como se estivéssemos tentando encontrar alguém que não podemos enxergar, junto com a protagonista. Se existe algo que poderia, talvez, ser melhor desenvolvido, acho que seria o drama mais intimo de Cecilia antes da certeza de que Adrian ainda estava vivo - acho que Whannello perdeu uma grande chance de discutir ainda mais a sanidade de Cecilia, bem como sua própria dúvida sobre o eventos (sobrenaturais) que ela vivenciou sozinha! Por outro lado, o roteiro é muito competente em nos surpreender - em pelo menos duas situações, ficamos de queixo caído, enquanto no final, embora interessante, a sensação de obviedade surge com força..
"O Homem Invisível" é o primeiro projeto da Universal com um selo que pretende produzir apenas remakes de monstros clássicos do cinema, mas com o foco no desenvolvimento das histórias e com uma levada mais autoral e independente dos seus roteiristas e diretores. Nesse caso, funcionou! "O Homem Invisível" custou pouco mais de 7 milhões de dólares e rendeu mais de 130 milhões - um sucesso absoluto de público e crítica e não se surpreendam se for bastante premiado na próxima temporada de festivais de gênero e se abocanhar umas 2 ou 3 indicações ao Oscar de 2021.
Sem exageros, vale muito seu play!
Angustiante, claustrofóbico e um excelente entretenimento para quem gosta de sentir essas sensações ao assistir um filme! Talvez essa seja a melhor forma de definir "O Homem nas Trevas", um típico thriller com fortes elementos de suspense psicológico, absolutamente arrepiante, comandado pelo talentoso Fede Alvarez (de "Calls"), um diretor capaz de nos manter grudados na tela desde o primeiro plano - é impressionante como ele constrói essa atmosfera de tensão permanente e brinca com nossos receios antes mesmo de chegar ao clímax do filme. Com um roteiro engenhoso e algumas reviravoltas surpreendentes, eu diria esse filme entrega uma experiência das mais interessantes!
A história gira em torno de um grupo de jovens ladrões que decidem invadir a casa de um homem cego para roubar uma fortuna. No entanto, eles logo descobrem que ele é muito mais perigoso e implacável do que imaginavam. O que começa como um simples roubo se transforma em uma luta desesperada pela sobrevivência enquanto tentam escapar das garras desse homem misterioso com sede de vingança. Confira o trailer:
O roteiro escrito pelo próprio Alvarez, ao lado de seu parceiro Rodo Sayagues, tem o mérito de conseguir manter a tensão e o suspense ao longo de toda jornada, sem se preocupar em pegar atalhos para nos prender à trama - claro que existem alguns clichês tão particulares do gênero, mas a forma como eles são inseridos dentro do contexto deixa tudo tão fluido que não nos sentimos obrigados a embarcar na proposta do diretor e sim somos levados até ela sem nos darmos conta. As reviravoltas são tão bem executadas que temos a exata sensação que aquele caos pela qual os personagens estão passando soa interminável - essa gramática cinematográfica do gênero é tão bem aplicado no filme que merece elogios.
Os personagens são complexos, especialmente o homem cego de Stephen Lang - a forma como sua expressão corporal canaliza suas marcas mais íntimas, cria uma camada emocional realmente impressionante. O jovem Dylan Minnette, mais uma vez não decepciona - seu personagem Alex é muito bem desenvolvido (mesmo que soe o contrário), permitindo que o público se envolva e, principalmente, se conecte emocionalmente com suas lutas e desafios. Ao criar essa atmosfera sombria e claustrofóbica de um interminável embate dentro de uma única locação, Alvarez ao lado de seu conterrâneo, o fotógrafo uruguaio, Pedro Luque (de "Atividade paranormal"), utilizam magistralmente enquadramentos mais fechados com o foco nem sempre perfeito para aumentar a sensação de perigo iminente, de medo e de desconforto de uma forma quase insuportável - reparem como eles nos privam da visão dos personagens durante os conflitos.
Apesar de todas as qualidades que pontuamos, "O Homem nas Trevas" pode ser um pouco previsível em certos momentos - algumas situações podem ser antecipadas por uma audiência mais atenta e isso, de fato, pode diminuir um pouco o impacto emocional para algumas pessoas. No entanto, é admirável como o filme compensa esse pequeno deslize com uma narrativa eficaz, que cativa ao mesmo tempo que entretém e, mesmo sem essa pretensão, acaba marcando seu espaço como um dos melhores thrillers dessa nova geração de diretores.
Vale muito o seu play!
Angustiante, claustrofóbico e um excelente entretenimento para quem gosta de sentir essas sensações ao assistir um filme! Talvez essa seja a melhor forma de definir "O Homem nas Trevas", um típico thriller com fortes elementos de suspense psicológico, absolutamente arrepiante, comandado pelo talentoso Fede Alvarez (de "Calls"), um diretor capaz de nos manter grudados na tela desde o primeiro plano - é impressionante como ele constrói essa atmosfera de tensão permanente e brinca com nossos receios antes mesmo de chegar ao clímax do filme. Com um roteiro engenhoso e algumas reviravoltas surpreendentes, eu diria esse filme entrega uma experiência das mais interessantes!
A história gira em torno de um grupo de jovens ladrões que decidem invadir a casa de um homem cego para roubar uma fortuna. No entanto, eles logo descobrem que ele é muito mais perigoso e implacável do que imaginavam. O que começa como um simples roubo se transforma em uma luta desesperada pela sobrevivência enquanto tentam escapar das garras desse homem misterioso com sede de vingança. Confira o trailer:
O roteiro escrito pelo próprio Alvarez, ao lado de seu parceiro Rodo Sayagues, tem o mérito de conseguir manter a tensão e o suspense ao longo de toda jornada, sem se preocupar em pegar atalhos para nos prender à trama - claro que existem alguns clichês tão particulares do gênero, mas a forma como eles são inseridos dentro do contexto deixa tudo tão fluido que não nos sentimos obrigados a embarcar na proposta do diretor e sim somos levados até ela sem nos darmos conta. As reviravoltas são tão bem executadas que temos a exata sensação que aquele caos pela qual os personagens estão passando soa interminável - essa gramática cinematográfica do gênero é tão bem aplicado no filme que merece elogios.
Os personagens são complexos, especialmente o homem cego de Stephen Lang - a forma como sua expressão corporal canaliza suas marcas mais íntimas, cria uma camada emocional realmente impressionante. O jovem Dylan Minnette, mais uma vez não decepciona - seu personagem Alex é muito bem desenvolvido (mesmo que soe o contrário), permitindo que o público se envolva e, principalmente, se conecte emocionalmente com suas lutas e desafios. Ao criar essa atmosfera sombria e claustrofóbica de um interminável embate dentro de uma única locação, Alvarez ao lado de seu conterrâneo, o fotógrafo uruguaio, Pedro Luque (de "Atividade paranormal"), utilizam magistralmente enquadramentos mais fechados com o foco nem sempre perfeito para aumentar a sensação de perigo iminente, de medo e de desconforto de uma forma quase insuportável - reparem como eles nos privam da visão dos personagens durante os conflitos.
Apesar de todas as qualidades que pontuamos, "O Homem nas Trevas" pode ser um pouco previsível em certos momentos - algumas situações podem ser antecipadas por uma audiência mais atenta e isso, de fato, pode diminuir um pouco o impacto emocional para algumas pessoas. No entanto, é admirável como o filme compensa esse pequeno deslize com uma narrativa eficaz, que cativa ao mesmo tempo que entretém e, mesmo sem essa pretensão, acaba marcando seu espaço como um dos melhores thrillers dessa nova geração de diretores.
Vale muito o seu play!
O maior "problema" de “O Homem nas Trevas 2” é ser uma sequência. Digo isso, pois as principais críticas que a produção vem recebendo estão relacionadas às comparações com o primeiro filme que é, diga-se de passagem, excelente! Comparações são inevitáveis e toda continuação de um grande sucesso carrega o peso de ter que manter o nível lá em cima. Analisado individualmente, “O Homem nas Trevas 2” é ótimo, mas ao avaliá-lo em conjunto com o primeiro, algumas falhas acabam ficando mais aparentes. E talvez nem sejam “falhas”, mas sim, propostas diferentes, então antes de seguir, vamos alinhar essas expectativas.
Dessa vez, o enredo mostra o paradeiro de Norman, após os eventos ocorridos no filme anterior. Ele está vivendo tranquilamente em um local isolado, e a novidade é que agora o ex-militar cego tem a companhia de uma jovem que foi adotada. Porém, sua paz é destruída quando criminosos invadem sua casa e sequestram a garota. Assim, Norman revive os seus instintos mais sombrios para tentar salvá-la. Confira o trailer:
Dirigido pelo estreante Rodo Sayagues (um dos produtores do excelente "Calls" da AppleTV+) “O Homem nas Trevas 2” possui um enredo mais absurdo, enquanto o primeiro tinha uma trama mais crível. Algumas situações são realmente irreais, mas isso só fica mais evidente quando, mais uma vez, comparamos as duas obras - basta lembrar que no comando de "Don't Breathe" (no original) tínhamos o talentoso, mas sempre realista, Fede Alvarez. Outro ponto que vem sendo muito criticado é a mudança no perfil do vilão cego. Ao tentar humanizá-lo e torná-lo um anti-herói, o enredo acaba se afastando do que havia dado muito certo no filme anterior, que era justamente não ter um lado certo na história para a gente torcer!
Veja, deixando as comparações de lado, o que posso afirmar é que “O Homem nas Trevas 2” se garante no quesito entretenimento. Não faltam cenas para agradar os fãs dos subgêneros slasher (subgênero de filmes de terror quase sempre envolvendo assassinos psicopatas que matam aleatoriamente) e gore (aqueles com cenas extremamente violentas, com muito sangue), assim como não faltam momentos eletrizantes para manter a nossa adrenalina alta. E para quem gosta de reviravoltas, o roteiro também apresenta algumas boas surpresas! Resumindo, o filme entrega muito, mas não tanto quanto o primeiro! E isso, a meu ver, não é um defeito!
Vale seu play. O entretenimento está garantido!
Escrito por Lucio Tannure - uma parceria @dicas_pra_maratonar
O maior "problema" de “O Homem nas Trevas 2” é ser uma sequência. Digo isso, pois as principais críticas que a produção vem recebendo estão relacionadas às comparações com o primeiro filme que é, diga-se de passagem, excelente! Comparações são inevitáveis e toda continuação de um grande sucesso carrega o peso de ter que manter o nível lá em cima. Analisado individualmente, “O Homem nas Trevas 2” é ótimo, mas ao avaliá-lo em conjunto com o primeiro, algumas falhas acabam ficando mais aparentes. E talvez nem sejam “falhas”, mas sim, propostas diferentes, então antes de seguir, vamos alinhar essas expectativas.
Dessa vez, o enredo mostra o paradeiro de Norman, após os eventos ocorridos no filme anterior. Ele está vivendo tranquilamente em um local isolado, e a novidade é que agora o ex-militar cego tem a companhia de uma jovem que foi adotada. Porém, sua paz é destruída quando criminosos invadem sua casa e sequestram a garota. Assim, Norman revive os seus instintos mais sombrios para tentar salvá-la. Confira o trailer:
Dirigido pelo estreante Rodo Sayagues (um dos produtores do excelente "Calls" da AppleTV+) “O Homem nas Trevas 2” possui um enredo mais absurdo, enquanto o primeiro tinha uma trama mais crível. Algumas situações são realmente irreais, mas isso só fica mais evidente quando, mais uma vez, comparamos as duas obras - basta lembrar que no comando de "Don't Breathe" (no original) tínhamos o talentoso, mas sempre realista, Fede Alvarez. Outro ponto que vem sendo muito criticado é a mudança no perfil do vilão cego. Ao tentar humanizá-lo e torná-lo um anti-herói, o enredo acaba se afastando do que havia dado muito certo no filme anterior, que era justamente não ter um lado certo na história para a gente torcer!
Veja, deixando as comparações de lado, o que posso afirmar é que “O Homem nas Trevas 2” se garante no quesito entretenimento. Não faltam cenas para agradar os fãs dos subgêneros slasher (subgênero de filmes de terror quase sempre envolvendo assassinos psicopatas que matam aleatoriamente) e gore (aqueles com cenas extremamente violentas, com muito sangue), assim como não faltam momentos eletrizantes para manter a nossa adrenalina alta. E para quem gosta de reviravoltas, o roteiro também apresenta algumas boas surpresas! Resumindo, o filme entrega muito, mas não tanto quanto o primeiro! E isso, a meu ver, não é um defeito!
Vale seu play. O entretenimento está garantido!
Escrito por Lucio Tannure - uma parceria @dicas_pra_maratonar
"O Labirinto" é mais um daqueles filmes "ame ou odeie", bem na linha do espanhol "O Poço". Essa produção italiana que tem Dustin Hoffman (falando em inglês) no elenco, é bem peculiar - tanto na forma quanto no seu conteúdo, ou seja, é possível amar a história, mas odiar a estética e vice-versa. O fato é que essa adaptação da obra homônima do aclamado escritor italiano Donato Carrisi (que também dirige o filme) é um suspense psicológico com elementos que remetem ao drama policial e que tenta, de várias maneiras, revitalizar o estilo noir trazendo para os dias de hoje, toda aquela experiência do exagero visual e da narrativa pontuada por uma trilha sonora igualmente marcante.
Na história, Samantha (Valentina Bellè) está no hospital, em estado de choque, quinze anos depois de ser raptada a caminho da escola. Ao lado dela, Dr. Green (Dustin Hoffman) busca resgatar suas memórias para tentar encontrar o criminoso que a manteve em cativeiro por tanto tempo. É nesse processo que Green descobre o labirinto - uma prisão subterrânea, aparentemente sem saída, onde a jovem era obrigada a resolver alguns enigmas em troca de recompensas por seus sucessos (ou sendo punida por seus fracassos). Paralelo a isso, Bruno Genko (Toni Servillo), um investigador particular de talento excepcional, também está ansioso para resolver o mistério já que não tem muito tempo de vida e ainda guarda uma relação de dívida com os pais de Samantha que o contrataram na época do sequestro. Confira o trailer:
Partindo do principio que dois protagonistas (um italiano e um americano) buscam encontrar o mesmo criminoso, mas usando de métodos e estilos distintos, a sensação de urgência e dúvida nos fisga logo de cara. A pergunta sobre qual deles conseguirá chegar até a verdade primeiro, nos guia por duas linhas narrativas distintas que, é preciso que se diga, deve ter funcionado muito melhor no livro do que no filme - e aqui cabe um comentário pertinente: muito dessa falta de conexão entre o propósito e os personagens é culpa do diretor que não teve (e não tem) a capacidade de construir uma jornada inesquecível a partir de uma história ótima, por simplesmente não dominar a gramática cinematográfica do suspense policial. Para mim a forma é falha, o conteúdo não - para você a inverso pode ser verdadeiro e tudo bem, será uma questão de gosto.
É de se ressaltar que essa é uma adaptação das mais difíceis, já que os elementos narrativos pedem uma atmosfera repleta de cenários abstratos para trazer uma forte sensação de terror psicológico com base em ambientes apavorantes - daqueles que nunca sabemos se é real ou produto da imaginação dos personagens. Essa mistura entre o pesadelo juvenil e o cabaréhardcore, mesmo em sua complexidade, funciona em vários momentos e entrega a sustentação para uma trama cheia de peças e informações espalhadas e que, a todo momento, nos convida a participar de uma investigação interessante - sempre esperando aqueles plots twistsmatadores.
Veja, como todo filme "ame ou odeie", se você se permitir mergulhar no exagero estético que comentamos, abstrair o senso de realidade e ainda se permitir embarcar na proposta do diretor, é muito provável que você vai se divertir (e muito) com "L'uomo del Labirinto" (no original). Agora, se você procura uma história mais palpável, com um realismo narrativo e estético mais conservador, esse filme definitivamente não vai te agradar.
Na linha de Harlan Coben (de "Não Fale com Estranhos") ou dos games de investigação como "Black Dahlia", vale a pena experimentar!
"O Labirinto" é mais um daqueles filmes "ame ou odeie", bem na linha do espanhol "O Poço". Essa produção italiana que tem Dustin Hoffman (falando em inglês) no elenco, é bem peculiar - tanto na forma quanto no seu conteúdo, ou seja, é possível amar a história, mas odiar a estética e vice-versa. O fato é que essa adaptação da obra homônima do aclamado escritor italiano Donato Carrisi (que também dirige o filme) é um suspense psicológico com elementos que remetem ao drama policial e que tenta, de várias maneiras, revitalizar o estilo noir trazendo para os dias de hoje, toda aquela experiência do exagero visual e da narrativa pontuada por uma trilha sonora igualmente marcante.
Na história, Samantha (Valentina Bellè) está no hospital, em estado de choque, quinze anos depois de ser raptada a caminho da escola. Ao lado dela, Dr. Green (Dustin Hoffman) busca resgatar suas memórias para tentar encontrar o criminoso que a manteve em cativeiro por tanto tempo. É nesse processo que Green descobre o labirinto - uma prisão subterrânea, aparentemente sem saída, onde a jovem era obrigada a resolver alguns enigmas em troca de recompensas por seus sucessos (ou sendo punida por seus fracassos). Paralelo a isso, Bruno Genko (Toni Servillo), um investigador particular de talento excepcional, também está ansioso para resolver o mistério já que não tem muito tempo de vida e ainda guarda uma relação de dívida com os pais de Samantha que o contrataram na época do sequestro. Confira o trailer:
Partindo do principio que dois protagonistas (um italiano e um americano) buscam encontrar o mesmo criminoso, mas usando de métodos e estilos distintos, a sensação de urgência e dúvida nos fisga logo de cara. A pergunta sobre qual deles conseguirá chegar até a verdade primeiro, nos guia por duas linhas narrativas distintas que, é preciso que se diga, deve ter funcionado muito melhor no livro do que no filme - e aqui cabe um comentário pertinente: muito dessa falta de conexão entre o propósito e os personagens é culpa do diretor que não teve (e não tem) a capacidade de construir uma jornada inesquecível a partir de uma história ótima, por simplesmente não dominar a gramática cinematográfica do suspense policial. Para mim a forma é falha, o conteúdo não - para você a inverso pode ser verdadeiro e tudo bem, será uma questão de gosto.
É de se ressaltar que essa é uma adaptação das mais difíceis, já que os elementos narrativos pedem uma atmosfera repleta de cenários abstratos para trazer uma forte sensação de terror psicológico com base em ambientes apavorantes - daqueles que nunca sabemos se é real ou produto da imaginação dos personagens. Essa mistura entre o pesadelo juvenil e o cabaréhardcore, mesmo em sua complexidade, funciona em vários momentos e entrega a sustentação para uma trama cheia de peças e informações espalhadas e que, a todo momento, nos convida a participar de uma investigação interessante - sempre esperando aqueles plots twistsmatadores.
Veja, como todo filme "ame ou odeie", se você se permitir mergulhar no exagero estético que comentamos, abstrair o senso de realidade e ainda se permitir embarcar na proposta do diretor, é muito provável que você vai se divertir (e muito) com "L'uomo del Labirinto" (no original). Agora, se você procura uma história mais palpável, com um realismo narrativo e estético mais conservador, esse filme definitivamente não vai te agradar.
Na linha de Harlan Coben (de "Não Fale com Estranhos") ou dos games de investigação como "Black Dahlia", vale a pena experimentar!
"O Mal que nos Habita" é um terror clássico com aquele toque independente do cinema argentino. Esse filme, aliás, foi considerado o melhor lançamento do gênero em 2023 e mesmo que possa soar um exagero para alguns, é inegável sua qualidade como narrativa e força como gramática visual. O fato é que "Quando acecha la maldade", no original, chega forte ao streaming depois de conquistar crítica e público por sua atmosfera claustrofóbica, por sua proposta mais original e por performances visceralmente convincentes - a repercussão lembrou muito a onda dos elogiados filmes espanhóis de terror e suspense como "Verônica", por exemplo. Agora fica o aviso: a sensação de estar assistindo algo verdadeiramente perturbador vai te acompanhar até subirem os créditos, ou seja, esteja preparado para uma jornada realmente desconfortante!
A trama se passa em uma pacata cidade do interior, onde dois irmãos encontram um corpo mutilado perto de sua propriedade. Ao iniciar uma investigação eles acabam descobrindo um homem infectado por algo misterioso que os mais religiosos dizem ser obra do diabo que está prestes a dar a luz a um demônio. Desesperados, os irmãos tentam avisar os habitantes e assim escapar do local antes que o ser maligno venha à terra, no entanto o tempo parece não estar a seu favor e o caos é instaurado por completo. Confira o trailer:
O interessante desse filme dirigido pelo Demián Rugna (de "Aterrorizados") é justamente sua abordagem crua e sem concessões que raramente encontramos no gênero terror ou do suspense. Muito mais que impactar, os gatilhos narrativos fazem com que a história não se limite em criar oportunidades para os sustos fáceis, mas sim em construir uma atmosfera densa e sufocante, explorando os medos mais primitivos do ser humano em uma jornada cheia de simbolismos. O bacana é que Rugna não esquece do seu propósito de entreter, sem complicar demais, nos confrontando, a cada cena, com sua visão sobre a brutalidade do ser humano sob a perspectiva mística de um Mal que assola aquela cidade - é sério, o que testemunhamos são atos verdadeiramente terríveis que testam a sanidade dos personagens com a mesma força que nos tiram do equilíbrio.
Rugna, que também assina o roteiro, tem uma enorme capacidade de explorar as profundezas da alma humana sem soar pretensioso demais. Repare como a cada decisão tomada pelos protagonistas, somos convidados a questionar nossos próprios limites morais e a refletir sobre a fragilidade da psique diante de situações limite onde o horror pauta ações desesperadas. Obviamente que a possessão demoníaca serve como metáfora para os males que residem dentro de cada um de nós, criando uma sensação de confronto iminente com nossos próprios demônios interiores. Criando um ritmo frenético e hipnotizante desde os primeiros minutos, "O Mal que nos Habita" prende a nossa atenção - a fotografia escura e claustrofóbica contribui para essa imersão em uma atmosfera opressiva, enquanto a trilha sonora mais minimalista estabelece a tensão e desespero ao melhor estilo Stephen King.
"O Mal que nos Habita" vai além do terror convencional, propondo uma reflexão mais profunda sobre a natureza do mal, a fragilidade da psique humana e as consequências de nossas ações. Sem querer ser didático demais, o roteiro nos faz pensar, sentir e questionar aquela realidade - que tem tudo para deixar uma marca profunda em quem o assiste. Agora, é preciso que se diga: a beleza do filme não está nas respostas fáceis - se ele não tem a complexidade de "Midsommar", ele também não é um entretenimento pipoca como "Maligno". Então se você é um apreciador do terror em sua forma mais clássica e perturbadora, sem deixar de ser autêntico, esse filme pode ser mesmo imperdível.
"O Mal que nos Habita" é um terror clássico com aquele toque independente do cinema argentino. Esse filme, aliás, foi considerado o melhor lançamento do gênero em 2023 e mesmo que possa soar um exagero para alguns, é inegável sua qualidade como narrativa e força como gramática visual. O fato é que "Quando acecha la maldade", no original, chega forte ao streaming depois de conquistar crítica e público por sua atmosfera claustrofóbica, por sua proposta mais original e por performances visceralmente convincentes - a repercussão lembrou muito a onda dos elogiados filmes espanhóis de terror e suspense como "Verônica", por exemplo. Agora fica o aviso: a sensação de estar assistindo algo verdadeiramente perturbador vai te acompanhar até subirem os créditos, ou seja, esteja preparado para uma jornada realmente desconfortante!
A trama se passa em uma pacata cidade do interior, onde dois irmãos encontram um corpo mutilado perto de sua propriedade. Ao iniciar uma investigação eles acabam descobrindo um homem infectado por algo misterioso que os mais religiosos dizem ser obra do diabo que está prestes a dar a luz a um demônio. Desesperados, os irmãos tentam avisar os habitantes e assim escapar do local antes que o ser maligno venha à terra, no entanto o tempo parece não estar a seu favor e o caos é instaurado por completo. Confira o trailer:
O interessante desse filme dirigido pelo Demián Rugna (de "Aterrorizados") é justamente sua abordagem crua e sem concessões que raramente encontramos no gênero terror ou do suspense. Muito mais que impactar, os gatilhos narrativos fazem com que a história não se limite em criar oportunidades para os sustos fáceis, mas sim em construir uma atmosfera densa e sufocante, explorando os medos mais primitivos do ser humano em uma jornada cheia de simbolismos. O bacana é que Rugna não esquece do seu propósito de entreter, sem complicar demais, nos confrontando, a cada cena, com sua visão sobre a brutalidade do ser humano sob a perspectiva mística de um Mal que assola aquela cidade - é sério, o que testemunhamos são atos verdadeiramente terríveis que testam a sanidade dos personagens com a mesma força que nos tiram do equilíbrio.
Rugna, que também assina o roteiro, tem uma enorme capacidade de explorar as profundezas da alma humana sem soar pretensioso demais. Repare como a cada decisão tomada pelos protagonistas, somos convidados a questionar nossos próprios limites morais e a refletir sobre a fragilidade da psique diante de situações limite onde o horror pauta ações desesperadas. Obviamente que a possessão demoníaca serve como metáfora para os males que residem dentro de cada um de nós, criando uma sensação de confronto iminente com nossos próprios demônios interiores. Criando um ritmo frenético e hipnotizante desde os primeiros minutos, "O Mal que nos Habita" prende a nossa atenção - a fotografia escura e claustrofóbica contribui para essa imersão em uma atmosfera opressiva, enquanto a trilha sonora mais minimalista estabelece a tensão e desespero ao melhor estilo Stephen King.
"O Mal que nos Habita" vai além do terror convencional, propondo uma reflexão mais profunda sobre a natureza do mal, a fragilidade da psique humana e as consequências de nossas ações. Sem querer ser didático demais, o roteiro nos faz pensar, sentir e questionar aquela realidade - que tem tudo para deixar uma marca profunda em quem o assiste. Agora, é preciso que se diga: a beleza do filme não está nas respostas fáceis - se ele não tem a complexidade de "Midsommar", ele também não é um entretenimento pipoca como "Maligno". Então se você é um apreciador do terror em sua forma mais clássica e perturbadora, sem deixar de ser autêntico, esse filme pode ser mesmo imperdível.