indika.tv - ml-vc

The One

"The One" é um novelão, mas não faço essa afirmação com nenhum tipo de demérito, até porquê o entretenimento é muito bom, mas apenas posiciono a série em uma categoria bastante específica para que você não crie uma expectativa e se decepcione. Bem mais próximo da francesa "Osmosis" do que da americana "Soulmates", essa produção inglesa vem chamando a atenção do público desde seu lançamento com uma premissa bastante explorada recentemente, mas dessa vez com uma trama bem amarrada, com toques de mistério policial e ótimos ganchos para as demais temporadas.

O arco principal acompanha a história de uma revolucionária startup multibilionária chamada The One, que já uniu milhões de pessoas ao redor do mundo graças a ciência e ao desenvolvimento de uma tecnologia capaz de indicar com exatidão quem é o seu match perfeito. Basta enviar uma amostra de DNA (um fio de cabelo, por exemplo) para que em alguns dias você tenha o perfil de sua alma gêmea. Encabeçando essa jornada empreendedora está Rebecca Webb (Hannah Ware), a co-fundadora e CEO da The One, que está sendo investigada pela detetive Kate Saunders (Zoë Tapper) por um suposto assassinato de seu colega de apartamento, que sumiu pouco depois da empresa estourar. Confira o trailer:

Como todo bom novelão, algumas histórias paralelas são inseridas na trama e acabam criando uma dinâmica bastante interessante para os episódios. Embora as histórias desses coadjuvantes estejam conectadas ao sistema da The One, garantindo explicações bem didáticas sobre seu funcionamento e suas consequências nas vidas das pessoas, pouco impacto causa no arco principal - esse com uma narrativa bem mais para "How To Get Away With Murder" do que para "Black Mirror". O roteiro aliás é bem previsível, com uma ou outra boa surpresa, mas nem por isso deixa de nos prender - a investigação de um suposto assassinato, bem no meio de uma jornada de sucesso profissional e de impacto na sociedade, com os reflexos da tecnologia ajudando (ou destruindo) casais; tudo isso se amarra muito bem - mas em nenhum momento se aprofunda em elementos filosóficos ou discussões éticas, tudo está ali com o único propósito do entretenimento!

A produção é bem cuidada, tem uma direção que não compromete, atores desconhecidos e medianos, um texto que vai exigir uma boa suspensão da realidade, com muitos flashbacks; e mesmo assim funciona - aliás, essa parece ser a receita infalível da Netflix: adaptações de livros bem avaliados pelo público (nesse caso do autor John Marrs), um orçamento sem grandes pretensões e equipes dispostas a entregar um bom produto - sem necessariamente ter alguém de grife como acontecia antigamente. Foi assim com "Não Fale com Estranhos" e "Por trás dos seus olhos", e até com o catalão "Se eu não tivesse te conhecido".

Para quem gosta da receita, só dar o play!

Assista Agora

"The One" é um novelão, mas não faço essa afirmação com nenhum tipo de demérito, até porquê o entretenimento é muito bom, mas apenas posiciono a série em uma categoria bastante específica para que você não crie uma expectativa e se decepcione. Bem mais próximo da francesa "Osmosis" do que da americana "Soulmates", essa produção inglesa vem chamando a atenção do público desde seu lançamento com uma premissa bastante explorada recentemente, mas dessa vez com uma trama bem amarrada, com toques de mistério policial e ótimos ganchos para as demais temporadas.

O arco principal acompanha a história de uma revolucionária startup multibilionária chamada The One, que já uniu milhões de pessoas ao redor do mundo graças a ciência e ao desenvolvimento de uma tecnologia capaz de indicar com exatidão quem é o seu match perfeito. Basta enviar uma amostra de DNA (um fio de cabelo, por exemplo) para que em alguns dias você tenha o perfil de sua alma gêmea. Encabeçando essa jornada empreendedora está Rebecca Webb (Hannah Ware), a co-fundadora e CEO da The One, que está sendo investigada pela detetive Kate Saunders (Zoë Tapper) por um suposto assassinato de seu colega de apartamento, que sumiu pouco depois da empresa estourar. Confira o trailer:

Como todo bom novelão, algumas histórias paralelas são inseridas na trama e acabam criando uma dinâmica bastante interessante para os episódios. Embora as histórias desses coadjuvantes estejam conectadas ao sistema da The One, garantindo explicações bem didáticas sobre seu funcionamento e suas consequências nas vidas das pessoas, pouco impacto causa no arco principal - esse com uma narrativa bem mais para "How To Get Away With Murder" do que para "Black Mirror". O roteiro aliás é bem previsível, com uma ou outra boa surpresa, mas nem por isso deixa de nos prender - a investigação de um suposto assassinato, bem no meio de uma jornada de sucesso profissional e de impacto na sociedade, com os reflexos da tecnologia ajudando (ou destruindo) casais; tudo isso se amarra muito bem - mas em nenhum momento se aprofunda em elementos filosóficos ou discussões éticas, tudo está ali com o único propósito do entretenimento!

A produção é bem cuidada, tem uma direção que não compromete, atores desconhecidos e medianos, um texto que vai exigir uma boa suspensão da realidade, com muitos flashbacks; e mesmo assim funciona - aliás, essa parece ser a receita infalível da Netflix: adaptações de livros bem avaliados pelo público (nesse caso do autor John Marrs), um orçamento sem grandes pretensões e equipes dispostas a entregar um bom produto - sem necessariamente ter alguém de grife como acontecia antigamente. Foi assim com "Não Fale com Estranhos" e "Por trás dos seus olhos", e até com o catalão "Se eu não tivesse te conhecido".

Para quem gosta da receita, só dar o play!

Assista Agora

The Third Day

"The third day" surgiu como uma aposta da HBO, um novo modelo narrativo, uma experiência audiovisual: a minissérie foi criada com duas fases de três de episódios, cada uma delas focada em um protagonista, Sam (Jude Law) e Helen (Naomie Harris), respectivamente, e que seriam conectadas por uma espécie de livestream nas redes sociais com duração de 12 horas ininterruptas, em apenas um plano sequência e com os mesmos atores. Esse projeto do Dennis Kelly (Utopia) em parceria com Felix Barrett, da companhia teatral "Punchdrunk", pode ser analisado de duas formas: como uma ótima estratégia de marketing em tempos de pandemia e pela qualidade do produto que está disponível no streaming da HBO - vou focar na segunda opção e com o máximo de cuidado para não soltar nenhum spoiler!

Na história, após sofrer uma tragédia familiar, Sam está fazendo uma viagem pela costa da Inglaterra, sozinho, quando encontra uma jovem em perigo. Ao salvar a vida de Epona (Jessie Ross), ele resolve acompanha-la até sua casa - mesmo contra a vontade da garota. O grande problema é que Epona mora em um lugar bastante peculiar: uma ilha chamada Osea, um pedaço de terra que está ligado ao continente apenas por uma sinuosa e estreita estradinha, que só aparece poucos minutos por dia, quando a maré está baixa. Ao chegar em Osea, Sam percebe que se trata de uma comunidade extremamente religiosa, aparentemente amigável, que está se preparando para um tradicional festival. Pouco a pouco, porém, ele entende que alguns costumes dos habitantes da ilha são assustadores, mas Sam precisa manter a calma, lidar com suas incertezas (e fantasmas) até que a estrada esteja disponível novamente para que ele possa voltar ao continente sem causar problemas. Confira o trailer:

Se você gostou de "Midsommar" do Ari Aster pode dar um play sem medo - a história é bem semelhante e o conceito narrativo também. Se eu pudesse definir, eu diria que a primeira parte é mais autoral, uma aula de construção visual alinhada com uma narrativa interessante (e moderna) comandada pelo premiado diretor Marc Munden (O Jardim Secreto). Já na segunda parte, encontramos um conceito mais tradicional, mas não por isso mal executado pela diretora Philippa Lowthorpe (The Crown). Interessante que mesmo com um visual que não se conecta, cada uma das partes tem um identidade e uma razão para tal, o que nos dá a impressão que estamos assistindo produtos completamente independentes - mas não é o caso: tudo vai se conectar (vamos falar sobre isso mais a frente)!

Caso queira parar por aqui, "The third day" é um suspense psicológico com toques sobrenaturais que vai te entreter e entregar muitas respostas, mas tudo no seu tempo e, acredite, tudo que não for respondido só servirá para colocar a história em um patamar ainda mais interessante!

Quando terminamos de assistir a primeira parte da minissérie, temos a impressão de que tudo está resolvido e que podemos seguir para a segunda sem nos preocupar em fazer conexões que vão além do cenário que se passa a história: Osea. A própria dinâmica narrativa e visual nos motivam a pensar assim, mas quando Helen (Naomie Harris) e suas duas filhas, Ellie (Nico Parker) e Talulah (Charlotte Gairdner-Mihell) chegam na ilha percebemos uma total decadência, estabelecendo imediatamente uma atmosfera muito mais pesada, opressora, antipática - um mood totalmente oposto de quando Sam chegou. Ao nos depararmos com os mesmos personagens, automaticamente entendemos que não só o cenário é igual, mas que, mesmo sem uma indicação temporal exata, a história continuou. Mais uma vez, Paddy Considine e Emily Watson, como Sr. e Sra. Martin, são os anfitriões, mas será só no final do episódio 4 que tudo fará sentido e te prenderá até o final!

Um ponto interessante e que merece elogios é a maneira como Dennis Kelly foi amarrando todos detalhes mesmo respeitando as diferenças entre as partes: o que era mais introspectivo com Sam, onde a tensão estava dentro do protagonista, agora ganha um tom mais próximo do horror visual, com os habitantes da ilha praticamente transformados em entidades do mal. Helen, que chega na ilha com a desculpa de comemorar o aniversário de Ellie, sua filha mais velha, não entende muito bem o que está acontecendo ao seu redor e é por isso que somos convidados à se relacionar com as consequências do que aconteceu na primeira parte, quase como se soubéssemos todas as respostas - e, claro, não sabemos de nada! Ao nos induzir a acreditar que os protagonistas são Sam e Helen e que suas histórias são completamente independentes, o roteiro ganha em qualidade sem roubar no jogo!

Como o já citado "Midsommar""The third day"não agradará a todos e não será um entretenimento dos mais fáceis de assistir, mas é um fato que Dennis Kelly aproveita a tendência de narrativas menos convencionais, apoiadas em um movimento que enaltecesse o terror psicológico onde o visual que choca é cirurgicamente pontuado apenas para servir como apoio, para entregar uma minissérie de altíssima qualidade técnica e artística, e que nos provoca a cada episódio.

Série com o carimbo HBO, experimentando sempre!

Curiosidade: A premissa é baseada em fatos reais, já que a Ilha de Osea, localizada no estuário do rio Blackwater, em Essex, no leste da Inglaterra, realmente existe e ela realmente é conectada à margem por uma estrada sinuosa que só aparece em maré baixa. Além disso, ela foi de propriedade de Frederick Nicholas Charrington, herdeiro de uma família cervejeira milionária que abriu mão da fortuna para criar uma clínica de tratamento de vícios na ilha, resultando em uma espécie de culto. E, como se isso não bastasse, Charrington foi mesmo um dos investigados pela Scotland Yard por suspeita de ser Jack, o Estripador. (Fonte: Plano Crítico)

Assista Agora

"The third day" surgiu como uma aposta da HBO, um novo modelo narrativo, uma experiência audiovisual: a minissérie foi criada com duas fases de três de episódios, cada uma delas focada em um protagonista, Sam (Jude Law) e Helen (Naomie Harris), respectivamente, e que seriam conectadas por uma espécie de livestream nas redes sociais com duração de 12 horas ininterruptas, em apenas um plano sequência e com os mesmos atores. Esse projeto do Dennis Kelly (Utopia) em parceria com Felix Barrett, da companhia teatral "Punchdrunk", pode ser analisado de duas formas: como uma ótima estratégia de marketing em tempos de pandemia e pela qualidade do produto que está disponível no streaming da HBO - vou focar na segunda opção e com o máximo de cuidado para não soltar nenhum spoiler!

Na história, após sofrer uma tragédia familiar, Sam está fazendo uma viagem pela costa da Inglaterra, sozinho, quando encontra uma jovem em perigo. Ao salvar a vida de Epona (Jessie Ross), ele resolve acompanha-la até sua casa - mesmo contra a vontade da garota. O grande problema é que Epona mora em um lugar bastante peculiar: uma ilha chamada Osea, um pedaço de terra que está ligado ao continente apenas por uma sinuosa e estreita estradinha, que só aparece poucos minutos por dia, quando a maré está baixa. Ao chegar em Osea, Sam percebe que se trata de uma comunidade extremamente religiosa, aparentemente amigável, que está se preparando para um tradicional festival. Pouco a pouco, porém, ele entende que alguns costumes dos habitantes da ilha são assustadores, mas Sam precisa manter a calma, lidar com suas incertezas (e fantasmas) até que a estrada esteja disponível novamente para que ele possa voltar ao continente sem causar problemas. Confira o trailer:

Se você gostou de "Midsommar" do Ari Aster pode dar um play sem medo - a história é bem semelhante e o conceito narrativo também. Se eu pudesse definir, eu diria que a primeira parte é mais autoral, uma aula de construção visual alinhada com uma narrativa interessante (e moderna) comandada pelo premiado diretor Marc Munden (O Jardim Secreto). Já na segunda parte, encontramos um conceito mais tradicional, mas não por isso mal executado pela diretora Philippa Lowthorpe (The Crown). Interessante que mesmo com um visual que não se conecta, cada uma das partes tem um identidade e uma razão para tal, o que nos dá a impressão que estamos assistindo produtos completamente independentes - mas não é o caso: tudo vai se conectar (vamos falar sobre isso mais a frente)!

Caso queira parar por aqui, "The third day" é um suspense psicológico com toques sobrenaturais que vai te entreter e entregar muitas respostas, mas tudo no seu tempo e, acredite, tudo que não for respondido só servirá para colocar a história em um patamar ainda mais interessante!

Quando terminamos de assistir a primeira parte da minissérie, temos a impressão de que tudo está resolvido e que podemos seguir para a segunda sem nos preocupar em fazer conexões que vão além do cenário que se passa a história: Osea. A própria dinâmica narrativa e visual nos motivam a pensar assim, mas quando Helen (Naomie Harris) e suas duas filhas, Ellie (Nico Parker) e Talulah (Charlotte Gairdner-Mihell) chegam na ilha percebemos uma total decadência, estabelecendo imediatamente uma atmosfera muito mais pesada, opressora, antipática - um mood totalmente oposto de quando Sam chegou. Ao nos depararmos com os mesmos personagens, automaticamente entendemos que não só o cenário é igual, mas que, mesmo sem uma indicação temporal exata, a história continuou. Mais uma vez, Paddy Considine e Emily Watson, como Sr. e Sra. Martin, são os anfitriões, mas será só no final do episódio 4 que tudo fará sentido e te prenderá até o final!

Um ponto interessante e que merece elogios é a maneira como Dennis Kelly foi amarrando todos detalhes mesmo respeitando as diferenças entre as partes: o que era mais introspectivo com Sam, onde a tensão estava dentro do protagonista, agora ganha um tom mais próximo do horror visual, com os habitantes da ilha praticamente transformados em entidades do mal. Helen, que chega na ilha com a desculpa de comemorar o aniversário de Ellie, sua filha mais velha, não entende muito bem o que está acontecendo ao seu redor e é por isso que somos convidados à se relacionar com as consequências do que aconteceu na primeira parte, quase como se soubéssemos todas as respostas - e, claro, não sabemos de nada! Ao nos induzir a acreditar que os protagonistas são Sam e Helen e que suas histórias são completamente independentes, o roteiro ganha em qualidade sem roubar no jogo!

Como o já citado "Midsommar""The third day"não agradará a todos e não será um entretenimento dos mais fáceis de assistir, mas é um fato que Dennis Kelly aproveita a tendência de narrativas menos convencionais, apoiadas em um movimento que enaltecesse o terror psicológico onde o visual que choca é cirurgicamente pontuado apenas para servir como apoio, para entregar uma minissérie de altíssima qualidade técnica e artística, e que nos provoca a cada episódio.

Série com o carimbo HBO, experimentando sempre!

Curiosidade: A premissa é baseada em fatos reais, já que a Ilha de Osea, localizada no estuário do rio Blackwater, em Essex, no leste da Inglaterra, realmente existe e ela realmente é conectada à margem por uma estrada sinuosa que só aparece em maré baixa. Além disso, ela foi de propriedade de Frederick Nicholas Charrington, herdeiro de uma família cervejeira milionária que abriu mão da fortuna para criar uma clínica de tratamento de vícios na ilha, resultando em uma espécie de culto. E, como se isso não bastasse, Charrington foi mesmo um dos investigados pela Scotland Yard por suspeita de ser Jack, o Estripador. (Fonte: Plano Crítico)

Assista Agora

The Voyeurs

Como "A Mulher na Janela", com Amy Adams e Julianne Moor, "The Voyeurs" (ou "Observadores") é um filme datado, típico dos anos 90, em uma época onde nossas referências eram infinitamente mais limitadas do que são hoje - digo isso, pois será necessário uma enorme dose de suspensão da realidade para embarcar no plot twist  que o roteirista e diretor Michael Mohan no oferece no final do segundo ato - e aqui cabe um comentário: a solução não é ruim, chega a ser até surpreendente, mas não é nada palpável tendo como base os inúmeros outros filmes ou séries do gênero que já assistimos com tantas ofertas por aí!

Pippa (Sydney Sweeney) e Thomas (Justice Smith) são um casal muito apaixonado que acabam de se mudar para um lindo apartamento, onde vão morar juntos pela primeira vez. Tudo é um mar de rosas para o casal até eles perceberem que, pela janela, conseguem acompanhar absolutamente tudo que se passa no apartamento de um vizinho do prédio em frente. Curiosos, os dois começam um excitante passatempo de observar a rotina do casal vizinho: o fotógrafo Seb (Ben Hardy) e a esposa Julia (Natasha Liu Bordizzo). Aos poucos, o que parecia uma mera diversão vai se tornando uma verdadeira obsessão para Pippa, e o enorme interesse que ela constrói sobre a vida de seus vizinhos começa a ameaçar o seu próprio relacionamento com Thomas. Confira o trailer:

É inegável que "The Voyeurs" toca em um assunto que soa fascinante para quase todo ser humano: a curiosidade de saber o que acontece atrás da parede ao lado (no caso, no prédio da frente). Com isso, nos conectamos rapidamente com o casal de protagonistas e entendemos aquela incontrolável sensação, muitas vezes excitante, de observar a vida alheia. Muito bem dirigido pelo Michael Mohan, a angustia de estarmos sendo observados acompanha a própria Pippa em muitos momentos do filme e a forma como Sweeney lida com essa "tensão" é quase tão provocadora quanto nos momentos em que ela mesmo passa a ser a observadora - e tudo isso não é por acaso, reparem. O trabalho da atriz (e não é o primeiro, basta lembrar de "The White Lotus") é sensacional, pois ela transita naquela linha tênue entre a curiosidade e a invasão de privacidade, deixando claro que sempre existe espaço para arriscar um pouco mais.

O grande problema do filme, na nossa opinião, não está na forma, mas sim no conteúdo. Os dois primeiros atos nos direcionam para um drama muito mais profundo, sensual e até provocador do que necessariamente para um suspense psicológico - o envolvimento entre os personagens cria um clima onde o medo de ser descoberto é até maior do que saber o que aconteceria se, de fato, fossemos descobertos! Acontece que a força dessa tensão vai se enfraquecendo durante o filme, pois a história parece não encontrar caminhos para manter esse mood, com isso assistimos somos apresentados para soluções pouco interessantes e quase sempre absurdas, que impactam na veracidade daquele bom drama e, claro, na relação entre os personagens com um conflito menos potente. 

Ao som de uma ótima versão de “Eyes without a face” na voz de Angel Olsen, "The Voyeurs" brinca com a melancolia do ser humano ao mesmo tempo em que provoca o fetiche da invasão de privacidade, mas sem se aprofundar em nenhum dos temas - e é isso que pode incomodar alguns. Ao estabelecer que o universo dos personagens-chave está em observar, no caso de Pippa em lidar com a visão das pessoas (ela trabalha em um consultório oftalmológico) e no caso de Seb em fotografar modelos maravilhosas, o roteiro força a barra em ter que provar que tudo faz sentido sempre. O que eu quero dizer é que se você não se apegar aos detalhes, "The Voyeurs" será um ótimo entretenimento. Se você também não se apegar ao realismo no pé da letra, o filme pode ser um entretenimento melhor ainda. Mas se você quiser algo inteligente, bem construído e cheio de camadas, esquece, esse filme pode não ser para você e nem foi feito para ser.

Vale a pena? Sim, nessa condições! Então só dê o play se estiver disposto embarcar em uma ótima diversão!

Assista Agora

Como "A Mulher na Janela", com Amy Adams e Julianne Moor, "The Voyeurs" (ou "Observadores") é um filme datado, típico dos anos 90, em uma época onde nossas referências eram infinitamente mais limitadas do que são hoje - digo isso, pois será necessário uma enorme dose de suspensão da realidade para embarcar no plot twist  que o roteirista e diretor Michael Mohan no oferece no final do segundo ato - e aqui cabe um comentário: a solução não é ruim, chega a ser até surpreendente, mas não é nada palpável tendo como base os inúmeros outros filmes ou séries do gênero que já assistimos com tantas ofertas por aí!

Pippa (Sydney Sweeney) e Thomas (Justice Smith) são um casal muito apaixonado que acabam de se mudar para um lindo apartamento, onde vão morar juntos pela primeira vez. Tudo é um mar de rosas para o casal até eles perceberem que, pela janela, conseguem acompanhar absolutamente tudo que se passa no apartamento de um vizinho do prédio em frente. Curiosos, os dois começam um excitante passatempo de observar a rotina do casal vizinho: o fotógrafo Seb (Ben Hardy) e a esposa Julia (Natasha Liu Bordizzo). Aos poucos, o que parecia uma mera diversão vai se tornando uma verdadeira obsessão para Pippa, e o enorme interesse que ela constrói sobre a vida de seus vizinhos começa a ameaçar o seu próprio relacionamento com Thomas. Confira o trailer:

É inegável que "The Voyeurs" toca em um assunto que soa fascinante para quase todo ser humano: a curiosidade de saber o que acontece atrás da parede ao lado (no caso, no prédio da frente). Com isso, nos conectamos rapidamente com o casal de protagonistas e entendemos aquela incontrolável sensação, muitas vezes excitante, de observar a vida alheia. Muito bem dirigido pelo Michael Mohan, a angustia de estarmos sendo observados acompanha a própria Pippa em muitos momentos do filme e a forma como Sweeney lida com essa "tensão" é quase tão provocadora quanto nos momentos em que ela mesmo passa a ser a observadora - e tudo isso não é por acaso, reparem. O trabalho da atriz (e não é o primeiro, basta lembrar de "The White Lotus") é sensacional, pois ela transita naquela linha tênue entre a curiosidade e a invasão de privacidade, deixando claro que sempre existe espaço para arriscar um pouco mais.

O grande problema do filme, na nossa opinião, não está na forma, mas sim no conteúdo. Os dois primeiros atos nos direcionam para um drama muito mais profundo, sensual e até provocador do que necessariamente para um suspense psicológico - o envolvimento entre os personagens cria um clima onde o medo de ser descoberto é até maior do que saber o que aconteceria se, de fato, fossemos descobertos! Acontece que a força dessa tensão vai se enfraquecendo durante o filme, pois a história parece não encontrar caminhos para manter esse mood, com isso assistimos somos apresentados para soluções pouco interessantes e quase sempre absurdas, que impactam na veracidade daquele bom drama e, claro, na relação entre os personagens com um conflito menos potente. 

Ao som de uma ótima versão de “Eyes without a face” na voz de Angel Olsen, "The Voyeurs" brinca com a melancolia do ser humano ao mesmo tempo em que provoca o fetiche da invasão de privacidade, mas sem se aprofundar em nenhum dos temas - e é isso que pode incomodar alguns. Ao estabelecer que o universo dos personagens-chave está em observar, no caso de Pippa em lidar com a visão das pessoas (ela trabalha em um consultório oftalmológico) e no caso de Seb em fotografar modelos maravilhosas, o roteiro força a barra em ter que provar que tudo faz sentido sempre. O que eu quero dizer é que se você não se apegar aos detalhes, "The Voyeurs" será um ótimo entretenimento. Se você também não se apegar ao realismo no pé da letra, o filme pode ser um entretenimento melhor ainda. Mas se você quiser algo inteligente, bem construído e cheio de camadas, esquece, esse filme pode não ser para você e nem foi feito para ser.

Vale a pena? Sim, nessa condições! Então só dê o play se estiver disposto embarcar em uma ótima diversão!

Assista Agora

Them

"Them" consegue ser ambígua e polêmica desde o título: a série tem sido traduzida por "Eles" e "Outros" nas diferentes plataformas e sites. Nessa série antológica de época, uma família afro-americana se muda para um bairro caucasiano e racista. Acompanhamos seus 10 primeiros dias no novo lar. Confira o trailer:

A qualidade técnica é indiscutível e a ambientação do subúrbio americano dos anos 50 é simplesmente impecável, dos carros à trilha sonora. O contexto histórico também é retratado: na primeira metade do século 20, cerca de 6 milhões de afro-americanos deixaram o sul – rural e ainda segregacionista – em direção a centros urbanos, noutras regiões do país, no movimento conhecido como Grande Migração.

Os elementos de tensão e horror são diversos e muito bem trabalhados: traumas do passado, vizinhança hostil, sociedade racista, pesadelos, entidades ameaçadoras... A realidade é dúbia e a dúvida é sustentada, pelo menos, até o ousado penúltimo episódio – um flashback em preto e branco, focado em um personagem que até então mal havia dado as caras.

Em vários momentos, porém, a ousadia se transforma num flerte com o sadismo: além do horror psicológico, há uma dezena de cenas de violência explícita e até tortura. Isso não seria um problema se a direção não cruzasse a linha da “violência que serve à história”.

A partir do polêmico 5º episódio – onde avisos de gatilho, não à toa, aparecem antes do início – a crítica social sucumbe em detrimento ao horror onde o propósito parece ser chocar a audiência. Basta ver como as recentes produções "Lovecraft Country", "Nós" e "Corra!" trabalham o mesmo tema (racismo), dentro do mesmo gênero (terror), de forma mais equilibrada.

O casal protagonista convence tanto nos momentos dramáticos quanto nos explosivos, o que não é fácil. Interpretações num tom acima ou abaixo, somadas à violência desviada da mensagem central, comprometeriam o resultado final. A principal "vilã" também se destaca: ela ganha camadas e se vê forçada a flexibilizar convicções durante a jornada, sempre com um sorriso amarelo acompanhado de iminentes lágrimas.

Usando alegorias sádicas e excessos narrativos para falar sobre luto, culpa e racismo, "Them" te desafia a assisti-la sem revirar os olhos (ou o estômago) pelo menos uma vez. Uma experiência intensa e perturbadora, que vale mais pela jornada!

Escrito por Ricelli Ribeiro com Edição de André Siqueira - uma parceria@dicastreaming

Assista Agora

"Them" consegue ser ambígua e polêmica desde o título: a série tem sido traduzida por "Eles" e "Outros" nas diferentes plataformas e sites. Nessa série antológica de época, uma família afro-americana se muda para um bairro caucasiano e racista. Acompanhamos seus 10 primeiros dias no novo lar. Confira o trailer:

A qualidade técnica é indiscutível e a ambientação do subúrbio americano dos anos 50 é simplesmente impecável, dos carros à trilha sonora. O contexto histórico também é retratado: na primeira metade do século 20, cerca de 6 milhões de afro-americanos deixaram o sul – rural e ainda segregacionista – em direção a centros urbanos, noutras regiões do país, no movimento conhecido como Grande Migração.

Os elementos de tensão e horror são diversos e muito bem trabalhados: traumas do passado, vizinhança hostil, sociedade racista, pesadelos, entidades ameaçadoras... A realidade é dúbia e a dúvida é sustentada, pelo menos, até o ousado penúltimo episódio – um flashback em preto e branco, focado em um personagem que até então mal havia dado as caras.

Em vários momentos, porém, a ousadia se transforma num flerte com o sadismo: além do horror psicológico, há uma dezena de cenas de violência explícita e até tortura. Isso não seria um problema se a direção não cruzasse a linha da “violência que serve à história”.

A partir do polêmico 5º episódio – onde avisos de gatilho, não à toa, aparecem antes do início – a crítica social sucumbe em detrimento ao horror onde o propósito parece ser chocar a audiência. Basta ver como as recentes produções "Lovecraft Country", "Nós" e "Corra!" trabalham o mesmo tema (racismo), dentro do mesmo gênero (terror), de forma mais equilibrada.

O casal protagonista convence tanto nos momentos dramáticos quanto nos explosivos, o que não é fácil. Interpretações num tom acima ou abaixo, somadas à violência desviada da mensagem central, comprometeriam o resultado final. A principal "vilã" também se destaca: ela ganha camadas e se vê forçada a flexibilizar convicções durante a jornada, sempre com um sorriso amarelo acompanhado de iminentes lágrimas.

Usando alegorias sádicas e excessos narrativos para falar sobre luto, culpa e racismo, "Them" te desafia a assisti-la sem revirar os olhos (ou o estômago) pelo menos uma vez. Uma experiência intensa e perturbadora, que vale mais pela jornada!

Escrito por Ricelli Ribeiro com Edição de André Siqueira - uma parceria@dicastreaming

Assista Agora

Twilight Zone

Twilight Zone

"Twilight Zone" da CBS (all access), distribuído pela Amazon Prime Vídeo aqui no Brasil, é uma grande homenagem ao clássico programa de 1959. Criada por Rod Serling, "Além da Imaginação", como ficou conhecido por aqui, possui episódios independentes que mostram histórias com personagens que por alguma razão existencial precisam enfrentar algum problema (normalmente apresentado de forma exagerada) tendo como pano de fundo elementos de suspense, mistério e fantasia. Eu diria que  "Twilight Zone" é a versão raiz de "Black Mirror" e essa nova versão soube equilibrar muito bem a tradição e o conceito narrativo da série com a modernidade e as ferramentas de um cinema quase autoral. O resultado, embora satisfatório, varia de acordo com os episódios - existe sim uma inconsistência, mas que vai depender do gosto e das preferências de quem assiste e aí é que a série navega com tranquilidade, pois talvez não seja uma unanimidade total, mas vai divertir e entreter na maior parte do tempo. É uma boa pedida para maratonar da mesma forma que funciona em episódios isolados! Vale seu play!

Um dos elementos que encontramos no DNA de "Twilight Zone" e que depois foi muito bem trabalhado em "Amazing Stories" de Steven Spielberg - que aliás já está repaginando o seu formato com a equipe da Amblim deve fazer seu lançamento ainda esse ano na Apple TV+ - é subtexto por trás de cada história central dos episódios. É fundamental para quem assiste, entender que a série usa desse artificio como justificativa para o exagero ou para o aproveitar seu direito de ser inexplicável! Nessa nova versão é muito fácil encontrar esse subtexto, mas em alguns episódios ele parece tão superficial que chegamos a duvidar da sua eficiência, mesmo com um elenco de peso. Vejamos:

- Episódio 1: O comediante Samir Wassan (Kumail Nanjiani - indicado ao Emmy 2019 como "melhor ator convidado") quer ser famoso a qualquer custo, mas para isso é preciso pagar um preço e o roteiro trabalha muito bem esse conceito que nos acompanha durante toda a vida: será que estamos dispostos a pagar o preço para nos diferenciarmos na multidão? A grande maioria não quer, mas os poucos que querem, em algum momento, se perguntam se valeu a pena, mas aí já pode ser tarde! - Para mim, esse é um dos melhores episódios dessa primeira temporada.

-  Episódio 2: O jornalista Justin Sanderson (Adam Scott) encontra uma gravação que fala sobre o futuro e como suas decisões podem afetar o destino do Voo 1015, onde ele á passageiro. O episódio mostra a luta contra o tempo e a angustia de um homem que sabe como ajudar, mas é incompreendido pelas suas ações - tão atual, não? 

- Episódio 3: Uma velha filmadora tem o poder de rebobinar o tempo e esse excelente episódio mostra como o racismo é tão incontrolável quanto a vida cotidiana. Sem dúvida um dos melhores episódios e que nos convida à uma reflexão profunda. Agora prepare-se, tenho a impressão que é a história mais visceral e sufocante da temporada. Muito dolorida!

-  Episódio 4: É Natal e em uma cidade militar do Alaska, um viajante misterioso chega para movimentar a noite e provocar os mais diversos sentimentos nas pessoas. Esse episódio é meio arrastado. Mesmo com momentos interessantes, a história não me convenceu, embora o subtexto seja um dos mais provocativos ao trazer para discussão a hipocrisia humana!

- Episódio 5: Um profissional responsável por campanhas eleitorais está quase em ruínas quando resolve criar um novo ícone para concorrer a presidência dos EUA: no caso uma criança de 11 anos. Outro tema muito atual: a discussão do populismo e da força das mídias sociais - mas a história não me pareceu muito inspirada. Basta lembrar que o próprio "Black Mirror" fez algo muito parecido, porém com muito mais habilidade e criatividade em “The Waldo Moment”!

- Episódio 6: O mais "ficção científica" da temporada mostra uma tripulação tendo que fazer escolhas a todo momento para chegar a marte depois que os EUA sofrem um ataque nuclear da China! Mais um episódio arrastado na minha opinião. O conceito é excelente, mas na prática criou poucos conflitos interessantes e o final, embora cause uma certa surpresa, me pareceu bobo.

- Episódio 7: Depois de um chuva de meteoros, surge uma infecção que transforma a maneira como os homens reagem a determinadas situações. O assunto "a masculinidade tóxica" é discutido aqui com muita criatividade. Talvez esse seja o episódio com mais elementos de terror da temporada.

- Episódio 8: Uma rica dona de casa é levada para um centro de detenção sem entender muito bem os motivos, o que mexe com sua realidade e com seu passado. A discussão sobre os violentos centros de detenção de imigrantes nos EUA é o pano de fundo dessa história. Mais uma vez: embora o assunto seja excelente, o resultado do episódio fica muito aquém do seu potencial. Esse episódio eu achei chato!

- Episódio 9: Um professor de antropologia encontra um revolver que parece ter vida própria, no pente uma bala com seu nome. Esse é um episódio bem intrigante, fala sobre as mudanças da vida e como isso pode interferir na personalidade das pessoas. É interessante, mas não surpreende.

- Episódio 10: A roteirista (ficticia) do "Twilight Zone" é assombrada por uma entidade que representa muito do seu passado. Esse episódio é muito mais interessante pela homenagem as origens da série do que propriamente por uma história magnifica construída para encerrar a temporada em alto estilo. Na verdade eu diria até que o episódio fraco, mas o resgate do gênero com uma pegada mais de suspense e sobrenatural carregam a trama até um final de certa forma nostálgico. 

De fato os episódios são muito bem produzidos, embora a maioria deles usem de um mesmo cenário para contar toda a história o que não seria um problema se o texto fosse muito bom - o que não é o caso! A dinâmica narrativa sofre com essa limitação e, certamente, acusa o golpe quando os roteiros são menos inspirados. Jordan Peele é o narrador perfeito para a série - tem o tom, as pausas dramáticas e uma postura enigmática, além de ser uma referência, ou melhor, a personificação do renascimento de um gênero que estava esquecido: o suspense fantástico!

Como disse anteriormente,  "Twilight Zone" é agradável como entretenimento, mas não é e nem será o fenômeno que foi no final dos anos 50. Talvez uma segunda temporada traga mais oxigênio para série, quem sabe diminuindo o tempo dos episódios ou cuidando melhor das histórias, mas independente de qualquer coisa, vale como divertimento.

Assista Agora

"Twilight Zone" da CBS (all access), distribuído pela Amazon Prime Vídeo aqui no Brasil, é uma grande homenagem ao clássico programa de 1959. Criada por Rod Serling, "Além da Imaginação", como ficou conhecido por aqui, possui episódios independentes que mostram histórias com personagens que por alguma razão existencial precisam enfrentar algum problema (normalmente apresentado de forma exagerada) tendo como pano de fundo elementos de suspense, mistério e fantasia. Eu diria que  "Twilight Zone" é a versão raiz de "Black Mirror" e essa nova versão soube equilibrar muito bem a tradição e o conceito narrativo da série com a modernidade e as ferramentas de um cinema quase autoral. O resultado, embora satisfatório, varia de acordo com os episódios - existe sim uma inconsistência, mas que vai depender do gosto e das preferências de quem assiste e aí é que a série navega com tranquilidade, pois talvez não seja uma unanimidade total, mas vai divertir e entreter na maior parte do tempo. É uma boa pedida para maratonar da mesma forma que funciona em episódios isolados! Vale seu play!

Um dos elementos que encontramos no DNA de "Twilight Zone" e que depois foi muito bem trabalhado em "Amazing Stories" de Steven Spielberg - que aliás já está repaginando o seu formato com a equipe da Amblim deve fazer seu lançamento ainda esse ano na Apple TV+ - é subtexto por trás de cada história central dos episódios. É fundamental para quem assiste, entender que a série usa desse artificio como justificativa para o exagero ou para o aproveitar seu direito de ser inexplicável! Nessa nova versão é muito fácil encontrar esse subtexto, mas em alguns episódios ele parece tão superficial que chegamos a duvidar da sua eficiência, mesmo com um elenco de peso. Vejamos:

- Episódio 1: O comediante Samir Wassan (Kumail Nanjiani - indicado ao Emmy 2019 como "melhor ator convidado") quer ser famoso a qualquer custo, mas para isso é preciso pagar um preço e o roteiro trabalha muito bem esse conceito que nos acompanha durante toda a vida: será que estamos dispostos a pagar o preço para nos diferenciarmos na multidão? A grande maioria não quer, mas os poucos que querem, em algum momento, se perguntam se valeu a pena, mas aí já pode ser tarde! - Para mim, esse é um dos melhores episódios dessa primeira temporada.

-  Episódio 2: O jornalista Justin Sanderson (Adam Scott) encontra uma gravação que fala sobre o futuro e como suas decisões podem afetar o destino do Voo 1015, onde ele á passageiro. O episódio mostra a luta contra o tempo e a angustia de um homem que sabe como ajudar, mas é incompreendido pelas suas ações - tão atual, não? 

- Episódio 3: Uma velha filmadora tem o poder de rebobinar o tempo e esse excelente episódio mostra como o racismo é tão incontrolável quanto a vida cotidiana. Sem dúvida um dos melhores episódios e que nos convida à uma reflexão profunda. Agora prepare-se, tenho a impressão que é a história mais visceral e sufocante da temporada. Muito dolorida!

-  Episódio 4: É Natal e em uma cidade militar do Alaska, um viajante misterioso chega para movimentar a noite e provocar os mais diversos sentimentos nas pessoas. Esse episódio é meio arrastado. Mesmo com momentos interessantes, a história não me convenceu, embora o subtexto seja um dos mais provocativos ao trazer para discussão a hipocrisia humana!

- Episódio 5: Um profissional responsável por campanhas eleitorais está quase em ruínas quando resolve criar um novo ícone para concorrer a presidência dos EUA: no caso uma criança de 11 anos. Outro tema muito atual: a discussão do populismo e da força das mídias sociais - mas a história não me pareceu muito inspirada. Basta lembrar que o próprio "Black Mirror" fez algo muito parecido, porém com muito mais habilidade e criatividade em “The Waldo Moment”!

- Episódio 6: O mais "ficção científica" da temporada mostra uma tripulação tendo que fazer escolhas a todo momento para chegar a marte depois que os EUA sofrem um ataque nuclear da China! Mais um episódio arrastado na minha opinião. O conceito é excelente, mas na prática criou poucos conflitos interessantes e o final, embora cause uma certa surpresa, me pareceu bobo.

- Episódio 7: Depois de um chuva de meteoros, surge uma infecção que transforma a maneira como os homens reagem a determinadas situações. O assunto "a masculinidade tóxica" é discutido aqui com muita criatividade. Talvez esse seja o episódio com mais elementos de terror da temporada.

- Episódio 8: Uma rica dona de casa é levada para um centro de detenção sem entender muito bem os motivos, o que mexe com sua realidade e com seu passado. A discussão sobre os violentos centros de detenção de imigrantes nos EUA é o pano de fundo dessa história. Mais uma vez: embora o assunto seja excelente, o resultado do episódio fica muito aquém do seu potencial. Esse episódio eu achei chato!

- Episódio 9: Um professor de antropologia encontra um revolver que parece ter vida própria, no pente uma bala com seu nome. Esse é um episódio bem intrigante, fala sobre as mudanças da vida e como isso pode interferir na personalidade das pessoas. É interessante, mas não surpreende.

- Episódio 10: A roteirista (ficticia) do "Twilight Zone" é assombrada por uma entidade que representa muito do seu passado. Esse episódio é muito mais interessante pela homenagem as origens da série do que propriamente por uma história magnifica construída para encerrar a temporada em alto estilo. Na verdade eu diria até que o episódio fraco, mas o resgate do gênero com uma pegada mais de suspense e sobrenatural carregam a trama até um final de certa forma nostálgico. 

De fato os episódios são muito bem produzidos, embora a maioria deles usem de um mesmo cenário para contar toda a história o que não seria um problema se o texto fosse muito bom - o que não é o caso! A dinâmica narrativa sofre com essa limitação e, certamente, acusa o golpe quando os roteiros são menos inspirados. Jordan Peele é o narrador perfeito para a série - tem o tom, as pausas dramáticas e uma postura enigmática, além de ser uma referência, ou melhor, a personificação do renascimento de um gênero que estava esquecido: o suspense fantástico!

Como disse anteriormente,  "Twilight Zone" é agradável como entretenimento, mas não é e nem será o fenômeno que foi no final dos anos 50. Talvez uma segunda temporada traga mais oxigênio para série, quem sabe diminuindo o tempo dos episódios ou cuidando melhor das histórias, mas independente de qualquer coisa, vale como divertimento.

Assista Agora

Você

"Você", série do "Lifetime" que a Netflix distribui globalmente é boa, divertida, mas desde que você não a leve muito a sério. Digo isso depois de assistir a primeira temporada inteira e, por mais de uma vez, adiar o momento de escrever esse review. E por uma razão simples: eu estava tentando entender onde aquela história queria me levar!

O trailer indica uma linha narrativa muito interessante, com um conceito bastante particular, mas que não se encontra inicialmente na série: a história de um vendedor de livros que se apaixona por uma jovem escritora e imediatamente começa a destrinchar a vida dela pelas redes sociais sugere um suspense psicológico, mas eu não via isso em nada da série!!! Assim que assisti o primeiro episódio, e embora tenha gostado bastante, me senti "enganado" por causa dessa falta de coerência entre o trailer e a obra! Os episódios foram passando e, lentamente, fui me envolvendo com a história - traços da personalidade do protagonista vão aparecendo, se tornando mais interessante. O problema é que isso não se sustenta por muito tempo e ficamos com a sensação que aquilo tudo não faz muito sentido - algumas soluções do roteiro são, inclusive, infantis demais!!! Teve um momento que "You" me pareceu muito mais uma comédia romântica adolescente, com lapsos de suspense, do que algo que pudesse justificar os ótimos comentários que havia lido até ali. 

Continuando: com o passar dos episódios eu fui entendendo (mesmo com um pé atrás) que aquela era a história, aquele era o arco do protagonista e aquele cenário "Gossip Girl" faziam parte de um quebra-cabeça que poderia me surpreender. Admito que demorou para eu entender, mas no final justificou a construção da trama principal!! A premissa é realmente boa, mas o tom escolhido para a série foi muito inconstante durante a temporada (na minha opinião) - alguém com um pouco menos de paciência e fora do público-alvo teria desistido. Até me lembrou "Gipsy" - outra série que usou da mesma estratégia e depois não se sustentou!!! No caso de "Você"  essa característica da série acaba jogando a favor quando se chega nos episódios finais! As situações criadas para o protagonista stalkear a personagem Guinevere Beck são absurdas, completamente fora da realidade e muito forçadas - mas são divertidas, por isso funciona muito bem. Os offs narrativos se sobrepõem as ações com sentimentos e indagações muito inteligentes, quase como se estivéssemos lendo um livro - isso acaba cativando!!! A série vai nos surpreendendo e aquela cadeia de eventos que parecia bobo se torna interessante (mas, por favor, não esperem algo como "The Night of" da HBO)!!! Embora a série seja bem produzida e tenha sua identidade, os episódio 2 e 3 tem problemas sérios de falta de continuidade na fotografia, sem a menor unidade de cor entre alguns planos e contra-planos - imperdoável para esse nível de projeto (reparem na cena em que os personagens principais conversam na cama no ep.2). Fica a observação!

A Netflix já avisou que vai assumir a produção da segunda temporada dado o sucesso da primeira, o que colabora com a minha primeira afirmação: "You" é boa, ótima para uma maratona no final de semana, basta não levar muito a sério as situações absurdas dos personagens e a diversão está garantida!!! Penn Badgley (Joe) está no elenco e isso nos leva a ter sensação de que a série é um spin-off obscuro de "Gossip Girl" - até o cenário parece o mesmo!!!! Elizabeth Lail está ótima, sua personagem é complexa, mas palpável, verdadeira - isso ajuda a equilibrar aquele universo estereotipado que ela faz parte. Alguns personagens, algumas das amigas da Bec, por exemplo, são completamente dispensáveis.

No geral, se você assistir até o final, a série passa a ser um ótimo entretenimento e até surpreendente. "You" vale a pena, parece não ter pressa, isso é muito bacana quando existe um rumo certo. Vale a diversão!!!

Assista Agora

"Você", série do "Lifetime" que a Netflix distribui globalmente é boa, divertida, mas desde que você não a leve muito a sério. Digo isso depois de assistir a primeira temporada inteira e, por mais de uma vez, adiar o momento de escrever esse review. E por uma razão simples: eu estava tentando entender onde aquela história queria me levar!

O trailer indica uma linha narrativa muito interessante, com um conceito bastante particular, mas que não se encontra inicialmente na série: a história de um vendedor de livros que se apaixona por uma jovem escritora e imediatamente começa a destrinchar a vida dela pelas redes sociais sugere um suspense psicológico, mas eu não via isso em nada da série!!! Assim que assisti o primeiro episódio, e embora tenha gostado bastante, me senti "enganado" por causa dessa falta de coerência entre o trailer e a obra! Os episódios foram passando e, lentamente, fui me envolvendo com a história - traços da personalidade do protagonista vão aparecendo, se tornando mais interessante. O problema é que isso não se sustenta por muito tempo e ficamos com a sensação que aquilo tudo não faz muito sentido - algumas soluções do roteiro são, inclusive, infantis demais!!! Teve um momento que "You" me pareceu muito mais uma comédia romântica adolescente, com lapsos de suspense, do que algo que pudesse justificar os ótimos comentários que havia lido até ali. 

Continuando: com o passar dos episódios eu fui entendendo (mesmo com um pé atrás) que aquela era a história, aquele era o arco do protagonista e aquele cenário "Gossip Girl" faziam parte de um quebra-cabeça que poderia me surpreender. Admito que demorou para eu entender, mas no final justificou a construção da trama principal!! A premissa é realmente boa, mas o tom escolhido para a série foi muito inconstante durante a temporada (na minha opinião) - alguém com um pouco menos de paciência e fora do público-alvo teria desistido. Até me lembrou "Gipsy" - outra série que usou da mesma estratégia e depois não se sustentou!!! No caso de "Você"  essa característica da série acaba jogando a favor quando se chega nos episódios finais! As situações criadas para o protagonista stalkear a personagem Guinevere Beck são absurdas, completamente fora da realidade e muito forçadas - mas são divertidas, por isso funciona muito bem. Os offs narrativos se sobrepõem as ações com sentimentos e indagações muito inteligentes, quase como se estivéssemos lendo um livro - isso acaba cativando!!! A série vai nos surpreendendo e aquela cadeia de eventos que parecia bobo se torna interessante (mas, por favor, não esperem algo como "The Night of" da HBO)!!! Embora a série seja bem produzida e tenha sua identidade, os episódio 2 e 3 tem problemas sérios de falta de continuidade na fotografia, sem a menor unidade de cor entre alguns planos e contra-planos - imperdoável para esse nível de projeto (reparem na cena em que os personagens principais conversam na cama no ep.2). Fica a observação!

A Netflix já avisou que vai assumir a produção da segunda temporada dado o sucesso da primeira, o que colabora com a minha primeira afirmação: "You" é boa, ótima para uma maratona no final de semana, basta não levar muito a sério as situações absurdas dos personagens e a diversão está garantida!!! Penn Badgley (Joe) está no elenco e isso nos leva a ter sensação de que a série é um spin-off obscuro de "Gossip Girl" - até o cenário parece o mesmo!!!! Elizabeth Lail está ótima, sua personagem é complexa, mas palpável, verdadeira - isso ajuda a equilibrar aquele universo estereotipado que ela faz parte. Alguns personagens, algumas das amigas da Bec, por exemplo, são completamente dispensáveis.

No geral, se você assistir até o final, a série passa a ser um ótimo entretenimento e até surpreendente. "You" vale a pena, parece não ter pressa, isso é muito bacana quando existe um rumo certo. Vale a diversão!!!

Assista Agora

X - A Marca da Morte

Antes de ler essa análise, acho que vale a pena uma rápida sugestão: quanto menos você souber sobre "X - A Marca da Morte", melhor!

Pensando nisso, vou tomar o máximo de cuidado para evitar qualquer tipo de spoiler que possa impactar diretamente na sua experiência, mas já te adiando que estamos falando de um filme muito bom (muito mesmo) - um slasherde respeito, com aquela atmosfera setentista na forma (que carrega um conceito visual muito particular, com movimentos de câmera extremamente alinhados à uma época onde o "susto" era até mais importante que uma boa história) e no conteúdo (que respeita uma gramática cinematográfica envolvente e nostálgica, além de contar com uma trama muito bem construída, inteligente e com a clara proposta de se perpetuar)!

Em 1979, Maxine (Mia Goth), uma jovem cheia de sonhos, Wayne (Martin Henderson), seu namorado, e mais um grupo de amigos vão passar um final de semana em uma fazenda em algum lugar do Texas - a ideia é aproveitar o cenário para gravar um filme pornográfico chamado "The Farmer's Daughters". Ao chegar na propriedade, o grupo é recebido pelo casal Howard e Pearl que nem imagina o real motivo da estadia, porém situações estranhas começam acontecer e passam a impactar diretamente na vida de cada uma dessas pessoas. Confira o trailer:

Embora possa ser classificado com um terror "clássico", existe um certo suspense psicológico que envolve a história e que só fortalece a narrativa desde o primeiro plano do filme - é muito interessante como as relações entre os personagens vão sendo construídas e como elas são muito bem estabelecidas no presente, mesmo carregando algumas marcas do passado. Conforme o filme vai se desenrolando, a atmosfera vai ganhando aquele ar denso de mistério e ao adentramos no cenário onde 100% da trama se desenrola (a fazenda de Howard e Pearl) temos a certeza de que não estamos diante um filme onde a violência será gratuita ou que ela será inserida com o simples objetivo de chocar. Eu diria que existe uma certa honestidade narrativa em "X - A Marca da Morte", pois até o momento do clímax, onde o conflito inevitável acontece, tudo é pacientemente desenvolvido.

Obviamente que essa escolha conceitual vai agradar muitas pessoas, mas também irritar muitas outras pela "demora" dos acontecimentos, então esteja preparado para ir se conectando com o mistério sem a pressão de ver a ação explodir logo cedo - faz parte do jogo. Os personagens são cheios de camadas - Maxine, obviamente justifica essa percepção de complexidade íntima, mas Wayne, Bobby-Lynne (Brittany Snow), Lorraine (Jenna Ortega) e Jackson (Kid Cudi) não ficam muito distantes. A montagem também é um show - a forma com que David Kashevaroff e o diretor Ti West (de "Them") conectam situações que estão em foco com elementos narrativos que estariam no segundo plano gratuitamente, é simplesmente genial. E aqui cabe outro comentário: nada é gratuito no filme, então preste bem atenção!

O fato é que "X - A Marca da Morte" pode ser considerada uma das melhores surpresas de 2022, com sua releitura clássica de um gênero por muito tempo esquecido (ou menosprezado) e que agora com um toque de modernidade e sem esquecer a força do cinema independente, voltou a brilhar! Ti West, aliás, mais uma vez surpreende e deixa claro sua capacidade de mexer com nossas sensações e emoções sem perder a mão - como muitas vezes vimos diretores mais experientes no gênero, como James Wan, perder. Olho nele!

Vale muito o seu play!

Assista Agora

Antes de ler essa análise, acho que vale a pena uma rápida sugestão: quanto menos você souber sobre "X - A Marca da Morte", melhor!

Pensando nisso, vou tomar o máximo de cuidado para evitar qualquer tipo de spoiler que possa impactar diretamente na sua experiência, mas já te adiando que estamos falando de um filme muito bom (muito mesmo) - um slasherde respeito, com aquela atmosfera setentista na forma (que carrega um conceito visual muito particular, com movimentos de câmera extremamente alinhados à uma época onde o "susto" era até mais importante que uma boa história) e no conteúdo (que respeita uma gramática cinematográfica envolvente e nostálgica, além de contar com uma trama muito bem construída, inteligente e com a clara proposta de se perpetuar)!

Em 1979, Maxine (Mia Goth), uma jovem cheia de sonhos, Wayne (Martin Henderson), seu namorado, e mais um grupo de amigos vão passar um final de semana em uma fazenda em algum lugar do Texas - a ideia é aproveitar o cenário para gravar um filme pornográfico chamado "The Farmer's Daughters". Ao chegar na propriedade, o grupo é recebido pelo casal Howard e Pearl que nem imagina o real motivo da estadia, porém situações estranhas começam acontecer e passam a impactar diretamente na vida de cada uma dessas pessoas. Confira o trailer:

Embora possa ser classificado com um terror "clássico", existe um certo suspense psicológico que envolve a história e que só fortalece a narrativa desde o primeiro plano do filme - é muito interessante como as relações entre os personagens vão sendo construídas e como elas são muito bem estabelecidas no presente, mesmo carregando algumas marcas do passado. Conforme o filme vai se desenrolando, a atmosfera vai ganhando aquele ar denso de mistério e ao adentramos no cenário onde 100% da trama se desenrola (a fazenda de Howard e Pearl) temos a certeza de que não estamos diante um filme onde a violência será gratuita ou que ela será inserida com o simples objetivo de chocar. Eu diria que existe uma certa honestidade narrativa em "X - A Marca da Morte", pois até o momento do clímax, onde o conflito inevitável acontece, tudo é pacientemente desenvolvido.

Obviamente que essa escolha conceitual vai agradar muitas pessoas, mas também irritar muitas outras pela "demora" dos acontecimentos, então esteja preparado para ir se conectando com o mistério sem a pressão de ver a ação explodir logo cedo - faz parte do jogo. Os personagens são cheios de camadas - Maxine, obviamente justifica essa percepção de complexidade íntima, mas Wayne, Bobby-Lynne (Brittany Snow), Lorraine (Jenna Ortega) e Jackson (Kid Cudi) não ficam muito distantes. A montagem também é um show - a forma com que David Kashevaroff e o diretor Ti West (de "Them") conectam situações que estão em foco com elementos narrativos que estariam no segundo plano gratuitamente, é simplesmente genial. E aqui cabe outro comentário: nada é gratuito no filme, então preste bem atenção!

O fato é que "X - A Marca da Morte" pode ser considerada uma das melhores surpresas de 2022, com sua releitura clássica de um gênero por muito tempo esquecido (ou menosprezado) e que agora com um toque de modernidade e sem esquecer a força do cinema independente, voltou a brilhar! Ti West, aliás, mais uma vez surpreende e deixa claro sua capacidade de mexer com nossas sensações e emoções sem perder a mão - como muitas vezes vimos diretores mais experientes no gênero, como James Wan, perder. Olho nele!

Vale muito o seu play!

Assista Agora

Yellowjackets

"Yellowjackets" é, sem dúvida, um ótimo entretenimento - talvez uma mistura equilibrada (e obviamente dadas as devidas proporções) de "Big Little Lies" e "Lost", com um leve toque de "Midsommar". Criada por Ashley Lyle e Bart Nickerson (ambos de "Narcos") e indicada para mais de 10 Emmys, essa série de suspense psicológico e drama trabalha muito bem os elementos de mistério, de sobrevivência e de horror. A narrativa é contada em duas linhas do tempo principais: uma que se passa em 1996, logo após um acidente aéreo, enquanto as meninas tentam sobreviver em condições extremas; e outra no presente, onde as sobreviventes, agora adultas, lutam para seguir em frente com suas vidas, enquanto o passado retorna para assombrá-las. E olha, é a partir dessa uma atmosfera tensa e sinistra que a série, de fato, oferece uma experiência tão perturbadora quanto cativante.

Um time de futebol feminino escolar sofre um acidente de avião enquanto viajava para jogar um campeonato. Presas em um local selvagem, as garotas, aos poucos, percebem que as chances de um resgate se torna cada vez mais remotas - é quando a dinâmica do grupo começa a se deteriorar. Já na fase adulta, décadas após serem encontradas, quatro dessas sobreviventes passam a ser sentir chantageadas quando alguém misterioso começa a enviar mensagens para elas ameaçando contar tudo o que aconteceu durante os 19 meses em que estiveram isoladas. Confira o trailer:

Talvez o mais interessante e original de "Yellowjackets" seja justamente o que mais faltou durante aqueles inesquecíveis anos de "Lost" - em uma época pré-streaming, é preciso ressaltar. A estrutura narrativa não linear apresentada por Lyle e Nickerson é um pouco diferente da proposta de J.J. Abrams, pois aqui a série explora tanto os mistérios do que aconteceu na floresta após o acidente quanto o impacto psicológico dessas experiências traumáticas nas vidas adultas das personagens - sempre em paralelo. O roteiro consegue construir uma história que combina o mistério central, "o que realmente aconteceu na floresta e quem sobreviveu?",  com o desenvolvimento de alguns personagens profundamente ricos e complexos já na sua essência. Veja, as múltiplas camadas da série permitem que a audiência se envolva não apenas com o plot de sobrevivência, mas também com os dramas pessoais e emocionais das personagens de uma forma bastante palpável. Agora é preciso que se diga: embora a série lide com temas como trauma, culpa, vingança e até pontue sobre os limites da moralidade, "Yellowjackets" é mesmo entretenimento!

O time de diretores se apoia na tensão constante das consequências de ações passadas, mas também é eficaz em capturar o drama crescente e o isolamento íntimo das protagonistas. As cenas que se passam na floresta, por exemplo, são filmadas de maneira claustrofóbica, com um tom sombrio que reflete a deterioração física e mental das sobreviventes. Já contrastando com o presente, onde as sobreviventes tentam reconstruir suas vidas em meio aos segredos e algumas mentiras, os enquadramentos são mais limpos, mas chamam atenção por carregar a mesma sensação de perigo iminente - é muito bacana como esse conceito destaca o peso emocional de uma história que parece nunca ter fim! Repare no trabalho de Melanie Lynskey, a versão adulta de Shauna - ela é particularmente notável, trazendo uma complexidade que equilibra a frieza exterior com a turbulência interna de sua personagem. Já Juliette Lewis, como Natalie, também oferece uma performance intensa, capturando o comportamento autodestrutivo de uma mulher que não consegue escapar dos fantasmas do passado. Christina Ricci, como Misty, oferece uma mistura de excentricidade e psicopatia que é assustadora. 

"Yellowjackets"explora dinâmicas de grupo nada simples, onde as tensões entre amizade em diferentes situações e tempos, deixam suas marcas - à medida que essas situações se tornam mais desesperadoras, as personagens são forçadas a tomar decisões cada vez mais extremas, levando questões sobre moralidade e lealdade ao limite. Pouco a pouco a audiência entende que a sobrevivência na floresta foi apenas o começo de uma luta onde as consequências psicológicas, de certa forma, são ainda mais devastadoras - essa sensação de nostalgia e desconforto faz toda diferença na nossa experiência. É como se pegássemos o recorte da cena de "Lost" em que "Jack encontra Kate e diz que eles precisam voltar para a ilha" e fizéssemos uma série mais "jovem e, por incrível que pareça, mais pé no chão"!

Vale muito o seu play!

Assista Agora

"Yellowjackets" é, sem dúvida, um ótimo entretenimento - talvez uma mistura equilibrada (e obviamente dadas as devidas proporções) de "Big Little Lies" e "Lost", com um leve toque de "Midsommar". Criada por Ashley Lyle e Bart Nickerson (ambos de "Narcos") e indicada para mais de 10 Emmys, essa série de suspense psicológico e drama trabalha muito bem os elementos de mistério, de sobrevivência e de horror. A narrativa é contada em duas linhas do tempo principais: uma que se passa em 1996, logo após um acidente aéreo, enquanto as meninas tentam sobreviver em condições extremas; e outra no presente, onde as sobreviventes, agora adultas, lutam para seguir em frente com suas vidas, enquanto o passado retorna para assombrá-las. E olha, é a partir dessa uma atmosfera tensa e sinistra que a série, de fato, oferece uma experiência tão perturbadora quanto cativante.

Um time de futebol feminino escolar sofre um acidente de avião enquanto viajava para jogar um campeonato. Presas em um local selvagem, as garotas, aos poucos, percebem que as chances de um resgate se torna cada vez mais remotas - é quando a dinâmica do grupo começa a se deteriorar. Já na fase adulta, décadas após serem encontradas, quatro dessas sobreviventes passam a ser sentir chantageadas quando alguém misterioso começa a enviar mensagens para elas ameaçando contar tudo o que aconteceu durante os 19 meses em que estiveram isoladas. Confira o trailer:

Talvez o mais interessante e original de "Yellowjackets" seja justamente o que mais faltou durante aqueles inesquecíveis anos de "Lost" - em uma época pré-streaming, é preciso ressaltar. A estrutura narrativa não linear apresentada por Lyle e Nickerson é um pouco diferente da proposta de J.J. Abrams, pois aqui a série explora tanto os mistérios do que aconteceu na floresta após o acidente quanto o impacto psicológico dessas experiências traumáticas nas vidas adultas das personagens - sempre em paralelo. O roteiro consegue construir uma história que combina o mistério central, "o que realmente aconteceu na floresta e quem sobreviveu?",  com o desenvolvimento de alguns personagens profundamente ricos e complexos já na sua essência. Veja, as múltiplas camadas da série permitem que a audiência se envolva não apenas com o plot de sobrevivência, mas também com os dramas pessoais e emocionais das personagens de uma forma bastante palpável. Agora é preciso que se diga: embora a série lide com temas como trauma, culpa, vingança e até pontue sobre os limites da moralidade, "Yellowjackets" é mesmo entretenimento!

O time de diretores se apoia na tensão constante das consequências de ações passadas, mas também é eficaz em capturar o drama crescente e o isolamento íntimo das protagonistas. As cenas que se passam na floresta, por exemplo, são filmadas de maneira claustrofóbica, com um tom sombrio que reflete a deterioração física e mental das sobreviventes. Já contrastando com o presente, onde as sobreviventes tentam reconstruir suas vidas em meio aos segredos e algumas mentiras, os enquadramentos são mais limpos, mas chamam atenção por carregar a mesma sensação de perigo iminente - é muito bacana como esse conceito destaca o peso emocional de uma história que parece nunca ter fim! Repare no trabalho de Melanie Lynskey, a versão adulta de Shauna - ela é particularmente notável, trazendo uma complexidade que equilibra a frieza exterior com a turbulência interna de sua personagem. Já Juliette Lewis, como Natalie, também oferece uma performance intensa, capturando o comportamento autodestrutivo de uma mulher que não consegue escapar dos fantasmas do passado. Christina Ricci, como Misty, oferece uma mistura de excentricidade e psicopatia que é assustadora. 

"Yellowjackets"explora dinâmicas de grupo nada simples, onde as tensões entre amizade em diferentes situações e tempos, deixam suas marcas - à medida que essas situações se tornam mais desesperadoras, as personagens são forçadas a tomar decisões cada vez mais extremas, levando questões sobre moralidade e lealdade ao limite. Pouco a pouco a audiência entende que a sobrevivência na floresta foi apenas o começo de uma luta onde as consequências psicológicas, de certa forma, são ainda mais devastadoras - essa sensação de nostalgia e desconforto faz toda diferença na nossa experiência. É como se pegássemos o recorte da cena de "Lost" em que "Jack encontra Kate e diz que eles precisam voltar para a ilha" e fizéssemos uma série mais "jovem e, por incrível que pareça, mais pé no chão"!

Vale muito o seu play!

Assista Agora