Dos cinco melhores filmes do diretor M. Night Shyamalan (de "Sexto Sentido"), esse, sem dúvida, é o menos conhecido e comentado - e justamente por isso merece muito a sua atenção. Shyamalan é um craque, mas perdeu muito a mão - especialmente depois de "A Vila", no entanto, com a "A Visita" ele celebra o seu retorno as raízes mais independentes e de uma gramática cinematográfica que ele conhece como ninguém. Claro, o filme é um suspense psicológico na sua essência, com uma abordagem mais intimista, é verdade, e um tom mais despretensioso. Misturando elementos de horror, mistério e um humor negro bastante peculiar, Shyamalan constrói uma narrativa que entretém, mas também desconstrói convenções do gênero de forma criativa e até subversiva. O filme brinca com o formato de found footage para criar tensão e imersão, mas com a assinatura única de um diretor capaz de combinar reviravoltas com reflexões importantes sobre a dinâmica familiar e o medo do desconhecido.
A trama segue os irmãos Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould), que viajam para visitar os avós maternos, com quem nunca tiveram contato. Becca, uma aspirante a cineasta, decide documentar a viagem, mas a medida que os dias passam, comportamentos estranhos de seus avós (Deanna Dunagan e Peter McRobbie) começam a se intensificar, mergulhando os jovens em um mistério assustador que os força a confrontar seus medos mais profundos. Confira o ótimo trailer:
Sem a pressão de entregar mais um blockbuster de muito sucesso, Shyamalan escreve um roteiro mais enxuto, que mistura habilmente momentos de humor negro com o terror/suspense, se apropriando de diálogos que capturam a autenticidade da interação entre irmãos e as nuances das dinâmicas familiares entre personagens "desconehcidos". O diretor e roteirista, utiliza esses momentos mais leves para contrabalançar a crescente sensação de perigo que ele adora provocar na audiência, criando assim uma experiência que nos mantém constantemente envolvidos. Além disso, "A Visita" usa do subtexto para discutir temas como abandono, reconexão e os medos associados à velhice e à perda de controle.
Partindo dessa premissa, a escolha dofound footage, embora arriscada, é bem executada - o diretor parece se divertir com as linguagens que ele mesmo propõe e com isso acaba encontrando o equilíbrio perfeito entre o estilo mais documental com uma narrativa mais tradicional. A câmera de Shyamalan muitas vezes funciona como um elemento dramático, destacando a curiosidade infantil e a vulnerabilidade dos protagonistas enquanto os eventos ao redor deles se tornam cada vez mais perturbadores. Veja, Shyamalan domina essa linguagem, ele sabe explorar o ponto de vista dos personagens para criar uma atmosfera de tensão crescente. Com isso, as performances do elenco se toram fundamentais para o impacto emocional do filme. Olivia DeJonge traz inteligência e fragilidade para Becca, enquanto Ed Oxenbould oferece um alívio cômico natural como Tyler, pontuando os momentos de terror autêntico com um tipo de humor mais juvenil. Deanna Dunagan e Peter McRobbie contrabalanceiam esse tom - eles entregam atuações intensas e desconcertantes como os avós, Nana e Pop, alternando entre a afetuosidade e comportamentos profundamente inquietantes. Repare como essa dinâmica imposta por Shyamalan torna difícil a distinção entre a normalidade e a ameaça velada.
Outros dois pontos merecem sua atenção: design de som e trilha sonora. Eles desempenham papéis cruciais na criação dessa atmosfera de mistério do filme. Shyamalan usa o silêncio estratégico e sons ambientes para amplificar o desconforto e a claustrofobia dos protagonistas, enquanto os momentos mais intensos são pontuados por ruídos e sons diegéticos que acentuam a nossa imersão como audiência. O fato é que "A Visita" é amplamente eficaz em seu objetivo de nos tirar a tranquilidade, com uma narrativa habilmente conduzida para gerar o impacto da revelação final e mais uma vez provar que M. Night Shyamalan sabe manipular as expectativas como poucos!
Vale demais!
PS: "A Visita" foi considerado o Melhor Filme do gênero pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films dos EUA, em 2016.
Dos cinco melhores filmes do diretor M. Night Shyamalan (de "Sexto Sentido"), esse, sem dúvida, é o menos conhecido e comentado - e justamente por isso merece muito a sua atenção. Shyamalan é um craque, mas perdeu muito a mão - especialmente depois de "A Vila", no entanto, com a "A Visita" ele celebra o seu retorno as raízes mais independentes e de uma gramática cinematográfica que ele conhece como ninguém. Claro, o filme é um suspense psicológico na sua essência, com uma abordagem mais intimista, é verdade, e um tom mais despretensioso. Misturando elementos de horror, mistério e um humor negro bastante peculiar, Shyamalan constrói uma narrativa que entretém, mas também desconstrói convenções do gênero de forma criativa e até subversiva. O filme brinca com o formato de found footage para criar tensão e imersão, mas com a assinatura única de um diretor capaz de combinar reviravoltas com reflexões importantes sobre a dinâmica familiar e o medo do desconhecido.
A trama segue os irmãos Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould), que viajam para visitar os avós maternos, com quem nunca tiveram contato. Becca, uma aspirante a cineasta, decide documentar a viagem, mas a medida que os dias passam, comportamentos estranhos de seus avós (Deanna Dunagan e Peter McRobbie) começam a se intensificar, mergulhando os jovens em um mistério assustador que os força a confrontar seus medos mais profundos. Confira o ótimo trailer:
Sem a pressão de entregar mais um blockbuster de muito sucesso, Shyamalan escreve um roteiro mais enxuto, que mistura habilmente momentos de humor negro com o terror/suspense, se apropriando de diálogos que capturam a autenticidade da interação entre irmãos e as nuances das dinâmicas familiares entre personagens "desconehcidos". O diretor e roteirista, utiliza esses momentos mais leves para contrabalançar a crescente sensação de perigo que ele adora provocar na audiência, criando assim uma experiência que nos mantém constantemente envolvidos. Além disso, "A Visita" usa do subtexto para discutir temas como abandono, reconexão e os medos associados à velhice e à perda de controle.
Partindo dessa premissa, a escolha dofound footage, embora arriscada, é bem executada - o diretor parece se divertir com as linguagens que ele mesmo propõe e com isso acaba encontrando o equilíbrio perfeito entre o estilo mais documental com uma narrativa mais tradicional. A câmera de Shyamalan muitas vezes funciona como um elemento dramático, destacando a curiosidade infantil e a vulnerabilidade dos protagonistas enquanto os eventos ao redor deles se tornam cada vez mais perturbadores. Veja, Shyamalan domina essa linguagem, ele sabe explorar o ponto de vista dos personagens para criar uma atmosfera de tensão crescente. Com isso, as performances do elenco se toram fundamentais para o impacto emocional do filme. Olivia DeJonge traz inteligência e fragilidade para Becca, enquanto Ed Oxenbould oferece um alívio cômico natural como Tyler, pontuando os momentos de terror autêntico com um tipo de humor mais juvenil. Deanna Dunagan e Peter McRobbie contrabalanceiam esse tom - eles entregam atuações intensas e desconcertantes como os avós, Nana e Pop, alternando entre a afetuosidade e comportamentos profundamente inquietantes. Repare como essa dinâmica imposta por Shyamalan torna difícil a distinção entre a normalidade e a ameaça velada.
Outros dois pontos merecem sua atenção: design de som e trilha sonora. Eles desempenham papéis cruciais na criação dessa atmosfera de mistério do filme. Shyamalan usa o silêncio estratégico e sons ambientes para amplificar o desconforto e a claustrofobia dos protagonistas, enquanto os momentos mais intensos são pontuados por ruídos e sons diegéticos que acentuam a nossa imersão como audiência. O fato é que "A Visita" é amplamente eficaz em seu objetivo de nos tirar a tranquilidade, com uma narrativa habilmente conduzida para gerar o impacto da revelação final e mais uma vez provar que M. Night Shyamalan sabe manipular as expectativas como poucos!
Vale demais!
PS: "A Visita" foi considerado o Melhor Filme do gênero pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films dos EUA, em 2016.
Aqui temos uma ficção científica raiz, ou seja, com muito mais drama do que alienígenas - e obviamente com aquele toque reflexivo sobre a existência humana pela perspectiva das relações familiares. Pois bem, dirigido por James Gray, "Ad Astra"é um filme mais contemplativo (e visualmente impressionante) que usa a vastidão do espaço como pano de fundo para explorar dilemas existenciais profundos - talvez por isso que a obra nos remeta aos grandes clássicos como "2001: Uma Odisseia no Espaço", mas com um certo ar de modernidade técnica e artística que encontramos em filmes mais recentes como "Gravidade" e "Interestelar". A grande verdade é que "Ad Astra" oferece uma jornada introspectiva das mais interessantes se encaramos a proposta de Gray e assim refletirmos sobre solidão e sobre o eterno conflito entre pai e filho. Indicado ao Oscar de Melhor Desenho de Som em 2020, "Ad Astra" se destaca especialmente pelo trabalho meticuloso de sua ambientação sonora, transportando a audiência diretamente para uma imensidão silenciosa e ao mesmo tempo perturbadora, do universo.
O filme, basicamente, acompanha Roy McBride (Brad Pitt), um astronauta experiente e conhecido pela serenidade quase sobre-humana durante missões mais arriscadas. Quando a Terra começa a sofrer os efeitos devastadores de uma série de pulsos energéticos misteriosos, Roy é convocado para investigar o caso - só que a missão rapidamente ganha contornos pessoais. Ele descobre que seu pai, Clifford McBride (Tommy Lee Jones), lendário astronauta dado como desaparecido há mais de duas décadas em uma missão secreta nas profundezas do sistema solar, pode estar vivo – e diretamente ligado à ameaça que agora coloca em risco toda a humanidade. Ao embarcar nessa missão, Roy precisa confrontar segredos do seu passado com suas próprias escolhas. Confira o trailer:
Antes de mais nada é preciso dizer que James Gray é um diretor conhecido por explorar com muita habilidade, dramas intensos sobre relações familiares e sobre a busca existencial - e aqui, mesmo se tratando de uma ficção científica, não é diferente. "Ad Astra" é, acima de tudo, uma jornada emocional profunda sobre isolamento e busca por significado. A direção de Gray então, opta por uma narrativa introspectiva, deixando espaço para reflexões mais silenciosas, amplificadas pela atuação sutil e poderosa de Brad Pitt, que carrega o filme com uma performance no tom certo, expressando um turbilhão de emoções através de pequenas gestos e com seu olhar - o Roy McBride de Pitt é uma versão de Ryan Stone (Sandra Bullock) em "Gravidade". É de se aplaudir a forma como o ator consegue transmitir uma fragilidade camuflada pela disciplina militar de seu personagem, especialmente evidente nas cenas mais silenciosas, onde ele trava batalhas internas devastadoras antes do potencial encontro com seu pai.
Do ponto de vista técnico, "Ad Astra" impressiona em diversos aspectos. O desenho de som, obviamente, merece destaque pela forma como captura a sensação de estar perdido no espaço, alternando o silêncio absoluto, inquietante e opressivo, com as explosões de ruído cuidadosamente controladas que marcam os momentos de tensão. A equipe de som liderada por Gary Rydstrom (ganhador de 7 Oscars) construiu uma experiência sensorial absurda em detalhes - cada mínimo ruído assume uma importância crucial na narrativa, desde o leve chiado das comunicações via rádio até o assustador impacto de uma explosão silenciosa em gravidade zero. Outro ponto forte é a direção de fotografia de Hoyte van Hoytema (de "Tenet") - ele cria um espetáculo visual deslumbrante, destacando-se em planos que transmitem a insignificância humana diante do espaço infinito. A iluminação bem pontuada, as sombras pronunciadas e o uso expressivo do contraste, especialmente entre os tons de azul e laranja, reforçam a sensação de introspecção e solidão, além de dar ao filme uma elegância visual ímpar.
Se há algo que pode afastar parte da audiência, no entanto, é o seu ritmo mais cadenciado e naturalmente mais reflexivo. Diferente de filmes mais comerciais, "Ad Astra" é menos focado na ação e mais nas implicações psicológicas e filosóficas de sua trama. é essa abordagem contemplativa, embora desafiadora para a audiência, que torna o filme mais memorável - especialmente ao abandonar a necessidade de explicar todos os elementos científicos para privilegiar as questões humanas fundamentais.
Uma experiência profundamente emocional e existencialista, em resumo, "Ad Astra" é uma obra corajosa e sofisticada por isso, que eleva o gênero da ficção científica ao utilizar o espaço como metáfora para explorar o incômodo do "vazio" em sua essência. Vale muito o seu play!
Aqui temos uma ficção científica raiz, ou seja, com muito mais drama do que alienígenas - e obviamente com aquele toque reflexivo sobre a existência humana pela perspectiva das relações familiares. Pois bem, dirigido por James Gray, "Ad Astra"é um filme mais contemplativo (e visualmente impressionante) que usa a vastidão do espaço como pano de fundo para explorar dilemas existenciais profundos - talvez por isso que a obra nos remeta aos grandes clássicos como "2001: Uma Odisseia no Espaço", mas com um certo ar de modernidade técnica e artística que encontramos em filmes mais recentes como "Gravidade" e "Interestelar". A grande verdade é que "Ad Astra" oferece uma jornada introspectiva das mais interessantes se encaramos a proposta de Gray e assim refletirmos sobre solidão e sobre o eterno conflito entre pai e filho. Indicado ao Oscar de Melhor Desenho de Som em 2020, "Ad Astra" se destaca especialmente pelo trabalho meticuloso de sua ambientação sonora, transportando a audiência diretamente para uma imensidão silenciosa e ao mesmo tempo perturbadora, do universo.
O filme, basicamente, acompanha Roy McBride (Brad Pitt), um astronauta experiente e conhecido pela serenidade quase sobre-humana durante missões mais arriscadas. Quando a Terra começa a sofrer os efeitos devastadores de uma série de pulsos energéticos misteriosos, Roy é convocado para investigar o caso - só que a missão rapidamente ganha contornos pessoais. Ele descobre que seu pai, Clifford McBride (Tommy Lee Jones), lendário astronauta dado como desaparecido há mais de duas décadas em uma missão secreta nas profundezas do sistema solar, pode estar vivo – e diretamente ligado à ameaça que agora coloca em risco toda a humanidade. Ao embarcar nessa missão, Roy precisa confrontar segredos do seu passado com suas próprias escolhas. Confira o trailer:
Antes de mais nada é preciso dizer que James Gray é um diretor conhecido por explorar com muita habilidade, dramas intensos sobre relações familiares e sobre a busca existencial - e aqui, mesmo se tratando de uma ficção científica, não é diferente. "Ad Astra" é, acima de tudo, uma jornada emocional profunda sobre isolamento e busca por significado. A direção de Gray então, opta por uma narrativa introspectiva, deixando espaço para reflexões mais silenciosas, amplificadas pela atuação sutil e poderosa de Brad Pitt, que carrega o filme com uma performance no tom certo, expressando um turbilhão de emoções através de pequenas gestos e com seu olhar - o Roy McBride de Pitt é uma versão de Ryan Stone (Sandra Bullock) em "Gravidade". É de se aplaudir a forma como o ator consegue transmitir uma fragilidade camuflada pela disciplina militar de seu personagem, especialmente evidente nas cenas mais silenciosas, onde ele trava batalhas internas devastadoras antes do potencial encontro com seu pai.
Do ponto de vista técnico, "Ad Astra" impressiona em diversos aspectos. O desenho de som, obviamente, merece destaque pela forma como captura a sensação de estar perdido no espaço, alternando o silêncio absoluto, inquietante e opressivo, com as explosões de ruído cuidadosamente controladas que marcam os momentos de tensão. A equipe de som liderada por Gary Rydstrom (ganhador de 7 Oscars) construiu uma experiência sensorial absurda em detalhes - cada mínimo ruído assume uma importância crucial na narrativa, desde o leve chiado das comunicações via rádio até o assustador impacto de uma explosão silenciosa em gravidade zero. Outro ponto forte é a direção de fotografia de Hoyte van Hoytema (de "Tenet") - ele cria um espetáculo visual deslumbrante, destacando-se em planos que transmitem a insignificância humana diante do espaço infinito. A iluminação bem pontuada, as sombras pronunciadas e o uso expressivo do contraste, especialmente entre os tons de azul e laranja, reforçam a sensação de introspecção e solidão, além de dar ao filme uma elegância visual ímpar.
Se há algo que pode afastar parte da audiência, no entanto, é o seu ritmo mais cadenciado e naturalmente mais reflexivo. Diferente de filmes mais comerciais, "Ad Astra" é menos focado na ação e mais nas implicações psicológicas e filosóficas de sua trama. é essa abordagem contemplativa, embora desafiadora para a audiência, que torna o filme mais memorável - especialmente ao abandonar a necessidade de explicar todos os elementos científicos para privilegiar as questões humanas fundamentais.
Uma experiência profundamente emocional e existencialista, em resumo, "Ad Astra" é uma obra corajosa e sofisticada por isso, que eleva o gênero da ficção científica ao utilizar o espaço como metáfora para explorar o incômodo do "vazio" em sua essência. Vale muito o seu play!
Um soco no estômago! "Adolescência" é realmente impactante, mas é preciso alinhar as expectativas: essa surpreendente minissérie da Netflix não é sobre um crime brutal e sim sobre os reflexos em quem, de alguma forma, está (ou esteve) envolvido com o caso. O fato é que "Adolescence" (no original) é uma daquelas produções que chegam discretamente e acabam surpreendendo pela profundidade de sua história e pela abordagem conceitual ousada de seu diretor. Criada por Jack Thorne (de "Extraordinário") e Stephen Graham (de "O Chef"), a minissérie de apenas quatro capítulos, aborda, com sensibilidade e um olhar crítico impressionante, temas complexos tão absurdamente comuns na juventude moderna que vão de conflitos familiares até as influências negativas das redes sociais, explorando os desafios da adolescência de forma incisiva e bastante visceral.
A trama acompanha o jovem Jamie Miller (Owen Cooper), um adolescente de 13 anos que se vê no centro de um crime chocante. A minissérie investiga as consequências deste evento, mostrando como diferentes personagens reagem diante das adversidades e pressões sociais. O roteiro evita os clichês típicos desse tipo de narrativa com muita habilidade, dedicando-se, ao invés disso, a um cuidadoso estudo das relações interpessoais e das dificuldades enfrentadas pelos adolescentes na atualidade. Confira o trailer (em inglês):
Para começar, como não citar um dos grandes destaques de "Adolescência": a direção habilidosa de Philip Barantini. Ele comanda todos os quatro episódios utilizando uma técnica incrível de plano-sequência, exatamente como fez com seu "O Chef"! Repare como essa dinâmica narrativa cria uma sensação constante de tensão e realismo, ampliando a nossa imersão na história ao mesmo tempo que reforça o caráter claustrofóbico e urgente das situações enfrentadas pelos personagens. Mesmo com o desafio de contar cada episódio em tempo real e em ambientes restritos, Barantini consegue manter o ritmo fluido e cativante, deixando a audiência mais do que engajada, eu diria, grudada na tela! Obviamente que o roteiro favorece essa escolha conceitual, já que ele não hesita em tocar em temas difíceis como as particularidades das dinâmicas escolares, abordando questões bem sensíveis como bullying, como a masculinidade tóxica, a misoginia e o perigoso impacto das redes sociais e das subculturas digitais (incels, manosfera e figuras nocivas como Andrew Tate são citadas claramente no roteiro). Veja, se a minissérie propõe reflexões importantes sobre responsabilidade familiar e social, questionando como a sociedade moderna pode estar contribuindo para o aumento da violência juvenil, saiba que no intimo de cada personagem o que encontramos mesmo é só a dor - cada um com a sua e em intensidades diferentes, inclusive.
Outro ponto forte de "Adolescência", sem dúvida, são as atuações. Destaque especial para Stephen Graham, que entrega uma performance intensa e emocionalmente carregada como o pai de Jamie. Owen Cooper também impressiona em sua interpretação complexa e cheia de detalhes, retratando a insegurança e a confusão natural, típicas da adolescência, com muita autenticidade. Erin Doherty, mais uma vez, merece menção pela sutileza e força que traz à sua personagem no terceiro episódio, contribuindo para que a narrativa atinja um nível emocional realmente muito profundo. Aliás, a escolha do roteiro em pontuar a história em quatro tempos distintos, cada qual em seu episódio, focando sempre em um personagem distinto, é genial ao ponto da minissérie fazer difíceis análises sociais sem nunca forçar a barra, ao contrário, tudo é conduzido com uma delicadeza dramática única, reforçando o compromisso da produção em expor temas relevantes sem superficialidade.
Embora alguns momentos possam parecer ligeiramente expositivos demais devido à necessidade de contextualização rápida exigida pelo formato em tempo real, esses pequenos deslizes são facilmente superados pelo impacto emocional e pelo rigor artístico da obra. Cada episódio adiciona uma camada significativa à narrativa mais ampla, culminando em uma experiência que permanece com a gente muito além do fim da história - a decisão de encerrar com uma reflexão familiar profunda em vez de um julgamento dramático, por exemplo, oferece uma conclusão emocionalmente muito mais rica e madura, reafirmando o foco de "Adolescência" nas questões sociais e familiares subjacentes, e não no entretenimento fácil onde o fim nem sempre justificam os meios.
Vale demais o play, especialmente se você já tiver uma criança em casa!
Um soco no estômago! "Adolescência" é realmente impactante, mas é preciso alinhar as expectativas: essa surpreendente minissérie da Netflix não é sobre um crime brutal e sim sobre os reflexos em quem, de alguma forma, está (ou esteve) envolvido com o caso. O fato é que "Adolescence" (no original) é uma daquelas produções que chegam discretamente e acabam surpreendendo pela profundidade de sua história e pela abordagem conceitual ousada de seu diretor. Criada por Jack Thorne (de "Extraordinário") e Stephen Graham (de "O Chef"), a minissérie de apenas quatro capítulos, aborda, com sensibilidade e um olhar crítico impressionante, temas complexos tão absurdamente comuns na juventude moderna que vão de conflitos familiares até as influências negativas das redes sociais, explorando os desafios da adolescência de forma incisiva e bastante visceral.
A trama acompanha o jovem Jamie Miller (Owen Cooper), um adolescente de 13 anos que se vê no centro de um crime chocante. A minissérie investiga as consequências deste evento, mostrando como diferentes personagens reagem diante das adversidades e pressões sociais. O roteiro evita os clichês típicos desse tipo de narrativa com muita habilidade, dedicando-se, ao invés disso, a um cuidadoso estudo das relações interpessoais e das dificuldades enfrentadas pelos adolescentes na atualidade. Confira o trailer (em inglês):
Para começar, como não citar um dos grandes destaques de "Adolescência": a direção habilidosa de Philip Barantini. Ele comanda todos os quatro episódios utilizando uma técnica incrível de plano-sequência, exatamente como fez com seu "O Chef"! Repare como essa dinâmica narrativa cria uma sensação constante de tensão e realismo, ampliando a nossa imersão na história ao mesmo tempo que reforça o caráter claustrofóbico e urgente das situações enfrentadas pelos personagens. Mesmo com o desafio de contar cada episódio em tempo real e em ambientes restritos, Barantini consegue manter o ritmo fluido e cativante, deixando a audiência mais do que engajada, eu diria, grudada na tela! Obviamente que o roteiro favorece essa escolha conceitual, já que ele não hesita em tocar em temas difíceis como as particularidades das dinâmicas escolares, abordando questões bem sensíveis como bullying, como a masculinidade tóxica, a misoginia e o perigoso impacto das redes sociais e das subculturas digitais (incels, manosfera e figuras nocivas como Andrew Tate são citadas claramente no roteiro). Veja, se a minissérie propõe reflexões importantes sobre responsabilidade familiar e social, questionando como a sociedade moderna pode estar contribuindo para o aumento da violência juvenil, saiba que no intimo de cada personagem o que encontramos mesmo é só a dor - cada um com a sua e em intensidades diferentes, inclusive.
Outro ponto forte de "Adolescência", sem dúvida, são as atuações. Destaque especial para Stephen Graham, que entrega uma performance intensa e emocionalmente carregada como o pai de Jamie. Owen Cooper também impressiona em sua interpretação complexa e cheia de detalhes, retratando a insegurança e a confusão natural, típicas da adolescência, com muita autenticidade. Erin Doherty, mais uma vez, merece menção pela sutileza e força que traz à sua personagem no terceiro episódio, contribuindo para que a narrativa atinja um nível emocional realmente muito profundo. Aliás, a escolha do roteiro em pontuar a história em quatro tempos distintos, cada qual em seu episódio, focando sempre em um personagem distinto, é genial ao ponto da minissérie fazer difíceis análises sociais sem nunca forçar a barra, ao contrário, tudo é conduzido com uma delicadeza dramática única, reforçando o compromisso da produção em expor temas relevantes sem superficialidade.
Embora alguns momentos possam parecer ligeiramente expositivos demais devido à necessidade de contextualização rápida exigida pelo formato em tempo real, esses pequenos deslizes são facilmente superados pelo impacto emocional e pelo rigor artístico da obra. Cada episódio adiciona uma camada significativa à narrativa mais ampla, culminando em uma experiência que permanece com a gente muito além do fim da história - a decisão de encerrar com uma reflexão familiar profunda em vez de um julgamento dramático, por exemplo, oferece uma conclusão emocionalmente muito mais rica e madura, reafirmando o foco de "Adolescência" nas questões sociais e familiares subjacentes, e não no entretenimento fácil onde o fim nem sempre justificam os meios.
Vale demais o play, especialmente se você já tiver uma criança em casa!
Quanto menos você souber sobre "Aftersun", melhor será a sua experiência! No entanto, e isso é preciso que se diga, não será uma jornada das mais tranquilas e nem todos vão se conectar com a proposta intimista, reflexiva e cheia de sensibilidade que a diretora estreante Charlotte Wells propõe. Talvez o primeiro ponto a se levantar seja justamente a forma como Wells retrata sensações e sentimentos bastante particulares quando evocamos algo tão preciso em nossa vida: as memórias de um ente querido ou de um tempo que, infelizmente, não voltará. Aqui, a diretora, com habilidade, pesa na mão ao discutir as relações familiares pela perspectiva de uma garota de 11 anos em uma viagem de férias com seu pai - como em "Um Lugar Qualquer" existe um desconforto entre a nostalgia e a melancolia que, de fato, nos corrói por dentro. Mas atenção, embora "Aftersun" brinque com uma sensação de que algo impactante pode acontecer a qualquer momento, eu alinho sua expectativa: o filme não é sobre um fato e sim sobre o contexto que aqueles personagens viveram (já que o filme é basicamente uma página de um livro de memórias).
Sophie (Celia Rowlson-Hall na versão adulta) reflete sobre a alegria e a melancolia das férias que ela (Frankie Corio, na versão pré-adolescente) passou com seu pai Calum (Paul Mescal) na Turquia, 20 anos antes. Em um jogo de memórias reais ou simplesmente imaginárias, Sophie tenta preencher as lacunas entre o pai amoroso e cuidadoso que conheceu, com o homem cheio de marcas e dores que ela acreditava nem existir. Confira o trailer:
"Aftersun" é o tipo do filme que não deve ser definido assim que os créditos sobem - ele exige um certo tempo para digestão, para alguma reflexão e, quem sabe até, para um olhar mais íntimo sobre nossa própria relação com a "saudade". Com uma linguagem quase experimental, uma identidade marcante e um conceito independente bem latente, o filme é tocante na sua essência e emocionante na sua simplicidade - o que traz certo frescor narrativo e até alguma provocação já que o roteiro tem uma trama direta e clara ao apresentar apenas uma passagem da vida de dois personagens. O segredo, no entanto, está na maneira como a protagonista revisita essa viagem a partir das suas lembranças e de gravações em VHS feitas na época - é como se ela montasse um quebra-cabeça, agora mais madura, com peças que jamais teve contato.
A performance de Paul Mescal (indicado ao Oscar 2023 por esse personagem) é um dos pontos fortes do filme - o ator captura com maestria a complexidade de Calum, um homem que luta contra seus próprios demônios enquanto tenta ser um bom pai para Sophie. Reparem como Mescal mantém, ou pelo menos tenta manter, a filha propositalmente (e com certa dor de quem quer apenas proteger seu grande amor) afastada de certos aspectos de sua vida - as perguntas da filha sobre o relacionamento dele com a mãe, com outras namoradas, com o dinheiro; enfim, tudo toca na alma de quem assiste e te falo: nem é preciso diálogos rebuscados ou cenas de embate, é tudo no olhar, no silêncio, na sensibilidade de Wells em insinuar e não escancarar o óbvio. Frankie Corio, como não poderia deixar de ser, também brilha, transmitindo a inocência e a confusão da juventude com muita propriedade - olho nessa atriz!
"Aftersun" tem na fotografia de Gregory Oke (de "Raf") uma contribuição importante para a construção dessa atmosfera melancólica do filme, com cores desbotadas e imagens granuladas que evocam a nostalgia das férias em família. A montagem impressionista de Blair McClendon (a mesma de "A Assistente") também merece elogios: tudo acontece no seu tempo, independente de onde esteja na cronologia dos fatos - é muito bom! Mesmo que definido pela própria Charlotte Wells como uma história autobiográfica, "Aftersun" sabe exatamente como escapar do egocentrismo com poesia e simbolismo, e assim entregar uma jornada autêntica, generosa e profundamente verdadeira sobre o que há de mais particular, e por isso inquestionável, na experiência humana quando o amor está acima de tudo.
Dói, mas vale seu play!
Quanto menos você souber sobre "Aftersun", melhor será a sua experiência! No entanto, e isso é preciso que se diga, não será uma jornada das mais tranquilas e nem todos vão se conectar com a proposta intimista, reflexiva e cheia de sensibilidade que a diretora estreante Charlotte Wells propõe. Talvez o primeiro ponto a se levantar seja justamente a forma como Wells retrata sensações e sentimentos bastante particulares quando evocamos algo tão preciso em nossa vida: as memórias de um ente querido ou de um tempo que, infelizmente, não voltará. Aqui, a diretora, com habilidade, pesa na mão ao discutir as relações familiares pela perspectiva de uma garota de 11 anos em uma viagem de férias com seu pai - como em "Um Lugar Qualquer" existe um desconforto entre a nostalgia e a melancolia que, de fato, nos corrói por dentro. Mas atenção, embora "Aftersun" brinque com uma sensação de que algo impactante pode acontecer a qualquer momento, eu alinho sua expectativa: o filme não é sobre um fato e sim sobre o contexto que aqueles personagens viveram (já que o filme é basicamente uma página de um livro de memórias).
Sophie (Celia Rowlson-Hall na versão adulta) reflete sobre a alegria e a melancolia das férias que ela (Frankie Corio, na versão pré-adolescente) passou com seu pai Calum (Paul Mescal) na Turquia, 20 anos antes. Em um jogo de memórias reais ou simplesmente imaginárias, Sophie tenta preencher as lacunas entre o pai amoroso e cuidadoso que conheceu, com o homem cheio de marcas e dores que ela acreditava nem existir. Confira o trailer:
"Aftersun" é o tipo do filme que não deve ser definido assim que os créditos sobem - ele exige um certo tempo para digestão, para alguma reflexão e, quem sabe até, para um olhar mais íntimo sobre nossa própria relação com a "saudade". Com uma linguagem quase experimental, uma identidade marcante e um conceito independente bem latente, o filme é tocante na sua essência e emocionante na sua simplicidade - o que traz certo frescor narrativo e até alguma provocação já que o roteiro tem uma trama direta e clara ao apresentar apenas uma passagem da vida de dois personagens. O segredo, no entanto, está na maneira como a protagonista revisita essa viagem a partir das suas lembranças e de gravações em VHS feitas na época - é como se ela montasse um quebra-cabeça, agora mais madura, com peças que jamais teve contato.
A performance de Paul Mescal (indicado ao Oscar 2023 por esse personagem) é um dos pontos fortes do filme - o ator captura com maestria a complexidade de Calum, um homem que luta contra seus próprios demônios enquanto tenta ser um bom pai para Sophie. Reparem como Mescal mantém, ou pelo menos tenta manter, a filha propositalmente (e com certa dor de quem quer apenas proteger seu grande amor) afastada de certos aspectos de sua vida - as perguntas da filha sobre o relacionamento dele com a mãe, com outras namoradas, com o dinheiro; enfim, tudo toca na alma de quem assiste e te falo: nem é preciso diálogos rebuscados ou cenas de embate, é tudo no olhar, no silêncio, na sensibilidade de Wells em insinuar e não escancarar o óbvio. Frankie Corio, como não poderia deixar de ser, também brilha, transmitindo a inocência e a confusão da juventude com muita propriedade - olho nessa atriz!
"Aftersun" tem na fotografia de Gregory Oke (de "Raf") uma contribuição importante para a construção dessa atmosfera melancólica do filme, com cores desbotadas e imagens granuladas que evocam a nostalgia das férias em família. A montagem impressionista de Blair McClendon (a mesma de "A Assistente") também merece elogios: tudo acontece no seu tempo, independente de onde esteja na cronologia dos fatos - é muito bom! Mesmo que definido pela própria Charlotte Wells como uma história autobiográfica, "Aftersun" sabe exatamente como escapar do egocentrismo com poesia e simbolismo, e assim entregar uma jornada autêntica, generosa e profundamente verdadeira sobre o que há de mais particular, e por isso inquestionável, na experiência humana quando o amor está acima de tudo.
Dói, mas vale seu play!
Depois de muito do que já se foi falado e escrito sobre "Ainda Estou Aqui" vou tentar ser o mais honesto e direto possível: esse é um filme que retrata a nossa história - uma história que em hipótese alguma pode ser ignorada, normalizada e, principalmente, esquecida! E aqui não tenho a intenção nenhuma de soar politizado - meu intuito é falar sobre cinema (de qualidade)! Dito isso, posso te garantir que "Ainda Estou Aqui" é um daqueles filmes que chegam com um peso histórico inevitável e uma urgência que ressoa muito além de seu contexto original - sua história dói na alma, mas não deixa de aquecer o coração. Dirigido pelo grande Walter Salles, o filme adapta o livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva que conta a jornada de sua mãe, Eunice Paiva, e como ela lidou com o desaparecimento do marido durante o período de ditadura no Brasil tendo cinco crianças para cuidar. O filme não se limita a narrar os eventos brutais da ditadura militar, mas sim em mergulhar no impacto silencioso e corrosivo da ausência, da incerteza e da necessidade de seguir em frente mesmo quando o passado se recusa a ser enterrado. "Ainda Estou Aqui" é um tratado sobre a memória e sobre a dor através de uma perspectiva profundamente pessoal.
A trama se desenrola no Rio de Janeiro dos anos 1970, quando Rubens Paiva (Selton Mello), ex-deputado cassado pelo golpe de 1964, é sequestrado pelo regime militar e nunca mais retorna para casa. Eunice (Fernanda Torres), até então uma esposa e mãe dedicada, se vê obrigada a lidar com a situação e, paralelamente, com uma reestruturação completa de sua vida. "Ainda Estou Aqui" acompanha a protagonista em sua busca por respostas, enquanto enfrenta o peso do medo, da repressão e da transformação que se impõe sobre ela e seus filhos. Confira o trailer:
Basta assistir ao trailer para entender que "Ainda Estou Aqui" não será uma jornada muito confortável. É impressionante como o diretor Walter Salles demonstra um controle total sobre o material de Marcelo Rubens Paiva, entregando um filme que transita entre um universo de dor íntima em meio à denúncia política, mas sem nunca recorrer ao discurso panfletário. Sua direção se apoia na observação minuciosa da rotina de Eunice, construindo uma atmosfera de tensão crescente através de detalhes sutis - e é aí que está a genialidade da obra. Repare nos telefonemas interrompidos, nos olhares trocados em silêncio, nos agentes do regime que se movem nas sombras - tudo funciona como um grande quebra-cabeça, onde as peças tendem a se conectar e ao observarmos por uma perspectiva mais ampla, nos vemos imersos em uma experiência marcada pelo terror (psicológico). A fotografia de Adrian Tejido (de "Narcos" e "Dom") alterna entre uma câmera mais nervosa para capturar a urgência dos momentos de angústia com composições rigorosas que enfatizam o isolamento e o luto da protagonista. Em todo momento temos a sensação nostálgica daquele Rio de Janeiro raiz, cheio de cor e textura de uma Cidade Maravilhosa da câmera Super-8, porém sempre contrastando com uma realidade mais sombria, monocromática, pesada. A trilha sonora de Warren Ellis (de "A Proposta") complementa essa abordagem cheia de dicotomia que vai da alegria ao melancólico, contido é verdade, evitando manipulações emocionais fáceis ou desnecessários.
Fernanda Torres entrega uma das melhores atuações de sua carreira, equilibrando a força e a vulnerabilidade em uma performance que cresce a cada cena. Sua transição de esposa de classe média alta para uma mulher que precisa reconstruir sua identidade e lutar por justiça é sutil, mas avassaladora - aqui não temos cenas impactantes, algo mais gráfico, o esplendor do trabalho de Torres está sempre em impor o tom certo, na hora certa. Selton Mello, apesar de pouco tempo de tela, constrói um Rubens carismático e idealista, cuja ausência se torna um fantasma persistente ao longo do filme - seu trabalho é essencial para criarmos uma conexão emocional com a história. Sem ele, não existiria o Globo de Ouro de Fernanda Torres! E como não citar Fernanda Montenegro? Em uma participação breve e impactante, ela adiciona camadas profundas à narrativa ao interpretar a Eunice mais velha, nos anos 2000, refletindo sobre o passado com a dor que nunca se dissipou - e sem dizer uma única palavra!
"Ainda Estou Aqui" merece sua atenção, especialmente por evitar as armadilhas do melodrama e por escolher o caminho mais complexo dessa história: o de focar no impacto psicológico e social da ditadura e não o de recriar seus eventos mais brutais e desprezíveis. "Ainda Estou Aqui" é um filme que fala não apenas sobre o passado, mas sobre o presente, especialmente em um momento em que discursos revisionistas tentam reescrever essa história. Mais do que um drama histórico, essa é uma obra sobre o valor da memória, da resiliência e da necessidade de encarar a verdade, por mais dolorosa que ela seja, e mudar!
Imperdível!
Up-date:"Ainda Estou Aqui" ganhou como "Melhor Filme Internacional" no Oscar 2025!
O filme está em cartaz nos cinemas.
Depois de muito do que já se foi falado e escrito sobre "Ainda Estou Aqui" vou tentar ser o mais honesto e direto possível: esse é um filme que retrata a nossa história - uma história que em hipótese alguma pode ser ignorada, normalizada e, principalmente, esquecida! E aqui não tenho a intenção nenhuma de soar politizado - meu intuito é falar sobre cinema (de qualidade)! Dito isso, posso te garantir que "Ainda Estou Aqui" é um daqueles filmes que chegam com um peso histórico inevitável e uma urgência que ressoa muito além de seu contexto original - sua história dói na alma, mas não deixa de aquecer o coração. Dirigido pelo grande Walter Salles, o filme adapta o livro de memórias de Marcelo Rubens Paiva que conta a jornada de sua mãe, Eunice Paiva, e como ela lidou com o desaparecimento do marido durante o período de ditadura no Brasil tendo cinco crianças para cuidar. O filme não se limita a narrar os eventos brutais da ditadura militar, mas sim em mergulhar no impacto silencioso e corrosivo da ausência, da incerteza e da necessidade de seguir em frente mesmo quando o passado se recusa a ser enterrado. "Ainda Estou Aqui" é um tratado sobre a memória e sobre a dor através de uma perspectiva profundamente pessoal.
A trama se desenrola no Rio de Janeiro dos anos 1970, quando Rubens Paiva (Selton Mello), ex-deputado cassado pelo golpe de 1964, é sequestrado pelo regime militar e nunca mais retorna para casa. Eunice (Fernanda Torres), até então uma esposa e mãe dedicada, se vê obrigada a lidar com a situação e, paralelamente, com uma reestruturação completa de sua vida. "Ainda Estou Aqui" acompanha a protagonista em sua busca por respostas, enquanto enfrenta o peso do medo, da repressão e da transformação que se impõe sobre ela e seus filhos. Confira o trailer:
Basta assistir ao trailer para entender que "Ainda Estou Aqui" não será uma jornada muito confortável. É impressionante como o diretor Walter Salles demonstra um controle total sobre o material de Marcelo Rubens Paiva, entregando um filme que transita entre um universo de dor íntima em meio à denúncia política, mas sem nunca recorrer ao discurso panfletário. Sua direção se apoia na observação minuciosa da rotina de Eunice, construindo uma atmosfera de tensão crescente através de detalhes sutis - e é aí que está a genialidade da obra. Repare nos telefonemas interrompidos, nos olhares trocados em silêncio, nos agentes do regime que se movem nas sombras - tudo funciona como um grande quebra-cabeça, onde as peças tendem a se conectar e ao observarmos por uma perspectiva mais ampla, nos vemos imersos em uma experiência marcada pelo terror (psicológico). A fotografia de Adrian Tejido (de "Narcos" e "Dom") alterna entre uma câmera mais nervosa para capturar a urgência dos momentos de angústia com composições rigorosas que enfatizam o isolamento e o luto da protagonista. Em todo momento temos a sensação nostálgica daquele Rio de Janeiro raiz, cheio de cor e textura de uma Cidade Maravilhosa da câmera Super-8, porém sempre contrastando com uma realidade mais sombria, monocromática, pesada. A trilha sonora de Warren Ellis (de "A Proposta") complementa essa abordagem cheia de dicotomia que vai da alegria ao melancólico, contido é verdade, evitando manipulações emocionais fáceis ou desnecessários.
Fernanda Torres entrega uma das melhores atuações de sua carreira, equilibrando a força e a vulnerabilidade em uma performance que cresce a cada cena. Sua transição de esposa de classe média alta para uma mulher que precisa reconstruir sua identidade e lutar por justiça é sutil, mas avassaladora - aqui não temos cenas impactantes, algo mais gráfico, o esplendor do trabalho de Torres está sempre em impor o tom certo, na hora certa. Selton Mello, apesar de pouco tempo de tela, constrói um Rubens carismático e idealista, cuja ausência se torna um fantasma persistente ao longo do filme - seu trabalho é essencial para criarmos uma conexão emocional com a história. Sem ele, não existiria o Globo de Ouro de Fernanda Torres! E como não citar Fernanda Montenegro? Em uma participação breve e impactante, ela adiciona camadas profundas à narrativa ao interpretar a Eunice mais velha, nos anos 2000, refletindo sobre o passado com a dor que nunca se dissipou - e sem dizer uma única palavra!
"Ainda Estou Aqui" merece sua atenção, especialmente por evitar as armadilhas do melodrama e por escolher o caminho mais complexo dessa história: o de focar no impacto psicológico e social da ditadura e não o de recriar seus eventos mais brutais e desprezíveis. "Ainda Estou Aqui" é um filme que fala não apenas sobre o passado, mas sobre o presente, especialmente em um momento em que discursos revisionistas tentam reescrever essa história. Mais do que um drama histórico, essa é uma obra sobre o valor da memória, da resiliência e da necessidade de encarar a verdade, por mais dolorosa que ela seja, e mudar!
Imperdível!
Up-date:"Ainda Estou Aqui" ganhou como "Melhor Filme Internacional" no Oscar 2025!
O filme está em cartaz nos cinemas.
Eu não precisei mais do que quatro minutos para ter meu coração completamente destruído por esse filme! É sério, "Alabama Monroe" é um excelente filme, mas também implacável, duro, intenso e muito profundo. Uma aula de roteiro, de direção e de montagem - não por acaso foi um dos filmes mais premiados no circuito de festivais entre os anos de 2013 e 2015, inclusive representou a Bélgica no Oscar de 2014 como "Melhor Filme Internacional".
Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh) se apaixonam à primeira vista, apesar das diferenças entre eles: ela toda tatuada, realista religiosa e cosmopolita; ele um músico, ateu romântico e do campo. Quando a filha do casal fica muito doente, o amor dos dois é levado a julgamento pela dor, mas principalmente pela maneira como cada um enxerga o mundo. Confira o trailer:
Eu poderia iniciar esse review dizendo que "Alabama Monroe" é um filme sobre as dificuldades que a vida nos impõe sem pedir licença. Mas não, essa belíssima produção belga é, na verdade, uma verdadeira história de amor - mas não dessas onde as peças se encaixam perfeitamente. Aliás, é na diferença "de ser e de viver" que Elise e Didier se conectam, mesmo que o preço passe a ser muito alto quando os conflitos de ideias começam a pautar a relação. Embora tocante, principalmente se você já tiver uma família formada, o roteiro usa e abusa da música para estabelecer o mais profundo elo entre o casal e é assim, desde o inicio, que essa linda história é construída (e destruída).
Dirigida pelo talentoso Felix van Groeningen (de "Querido Menino"), "Alabama Monroe" teve o roteiro escrito pelo próprio diretor ao lado de Carl Joos Johan, adaptando de uma peça teatral de Johan Heldenbergh, o que cria uma atmosfera profunda de identificação entre o autor e o ator - fossem os tempos da Academia, Heldenbergh teria enormes chances de receber uma indicação como "Melhor Ator" no Oscar. Sua performance atém de visceral, é realista e tão cheia de camadas que temos a impressão de estarmos assistindo um documentário e não uma ficção. A cena em que ele expõe toda sua dor para a platéia durante um show da sua banda, já no terceiro ato do filme, é digna de se aplaudir de pé! Reparem. Veerle Baetens não fica muito atrás, ela é uma espécie de camaleão, capaz de entregar uma doçura em uma cena e imediatamente depois o que vemos é uma pessoa completamente diferente, selvagem, impulsiva. Essa quebra de expectativa é lindamente orquestrada por uma montagem que passei por várias linhas do tempo com muita sabedoria, criando um clima de incerteza e tensão impressionantes - Nico Leunen (de "Ad Astra") matou a pau!
Veja, inicialmente o filme parece querer nos levar para uma certa emotividade barata a partir de uma história que traz, em seu centro, uma linda criança com câncer - e de fato somos tocados por essa circunstância. Mas Groeningen é genial ao nos surpreender, ele entende o peso da sua narrativa e ao lado de Leunen, nos afasta desse sentimentalismo fácil, dispensando, por exemplo, uma trilha sonora nesses momentos de maior sofrimento. Por outro lado, ele usa a música para nos reconectar com o casal, com o amor, com a relação, na esperança de que tudo pode dar certo para eles, porém, como na vida, algumas marcas não são esquecidas assim!
Embora "Alabama Monroe" também faça sentido como título, talvez o original "The Broken Circle Breakdown" tenha muito mais a dizer sobre o filme!
Vale muito o seu play!
Eu não precisei mais do que quatro minutos para ter meu coração completamente destruído por esse filme! É sério, "Alabama Monroe" é um excelente filme, mas também implacável, duro, intenso e muito profundo. Uma aula de roteiro, de direção e de montagem - não por acaso foi um dos filmes mais premiados no circuito de festivais entre os anos de 2013 e 2015, inclusive representou a Bélgica no Oscar de 2014 como "Melhor Filme Internacional".
Elise (Veerle Baetens) e Didier (Johan Heldenbergh) se apaixonam à primeira vista, apesar das diferenças entre eles: ela toda tatuada, realista religiosa e cosmopolita; ele um músico, ateu romântico e do campo. Quando a filha do casal fica muito doente, o amor dos dois é levado a julgamento pela dor, mas principalmente pela maneira como cada um enxerga o mundo. Confira o trailer:
Eu poderia iniciar esse review dizendo que "Alabama Monroe" é um filme sobre as dificuldades que a vida nos impõe sem pedir licença. Mas não, essa belíssima produção belga é, na verdade, uma verdadeira história de amor - mas não dessas onde as peças se encaixam perfeitamente. Aliás, é na diferença "de ser e de viver" que Elise e Didier se conectam, mesmo que o preço passe a ser muito alto quando os conflitos de ideias começam a pautar a relação. Embora tocante, principalmente se você já tiver uma família formada, o roteiro usa e abusa da música para estabelecer o mais profundo elo entre o casal e é assim, desde o inicio, que essa linda história é construída (e destruída).
Dirigida pelo talentoso Felix van Groeningen (de "Querido Menino"), "Alabama Monroe" teve o roteiro escrito pelo próprio diretor ao lado de Carl Joos Johan, adaptando de uma peça teatral de Johan Heldenbergh, o que cria uma atmosfera profunda de identificação entre o autor e o ator - fossem os tempos da Academia, Heldenbergh teria enormes chances de receber uma indicação como "Melhor Ator" no Oscar. Sua performance atém de visceral, é realista e tão cheia de camadas que temos a impressão de estarmos assistindo um documentário e não uma ficção. A cena em que ele expõe toda sua dor para a platéia durante um show da sua banda, já no terceiro ato do filme, é digna de se aplaudir de pé! Reparem. Veerle Baetens não fica muito atrás, ela é uma espécie de camaleão, capaz de entregar uma doçura em uma cena e imediatamente depois o que vemos é uma pessoa completamente diferente, selvagem, impulsiva. Essa quebra de expectativa é lindamente orquestrada por uma montagem que passei por várias linhas do tempo com muita sabedoria, criando um clima de incerteza e tensão impressionantes - Nico Leunen (de "Ad Astra") matou a pau!
Veja, inicialmente o filme parece querer nos levar para uma certa emotividade barata a partir de uma história que traz, em seu centro, uma linda criança com câncer - e de fato somos tocados por essa circunstância. Mas Groeningen é genial ao nos surpreender, ele entende o peso da sua narrativa e ao lado de Leunen, nos afasta desse sentimentalismo fácil, dispensando, por exemplo, uma trilha sonora nesses momentos de maior sofrimento. Por outro lado, ele usa a música para nos reconectar com o casal, com o amor, com a relação, na esperança de que tudo pode dar certo para eles, porém, como na vida, algumas marcas não são esquecidas assim!
Embora "Alabama Monroe" também faça sentido como título, talvez o original "The Broken Circle Breakdown" tenha muito mais a dizer sobre o filme!
Vale muito o seu play!
Esse filme é simplesmente sensacional, mas vai mexer com você e já te aviso: não vai ser uma jornada emocionalmente tranquila! "Além do Tempo" ou "Zee van tijd", no original, é um filme holandês profundamente tocante que explora com sutileza as complexidades do luto e da reconstrução emocional após uma perda irreparável. Inserido numa tradição cinematográfica europeia que se dedica a mergulhar fundo no íntimo de seus personagens, semelhante a obras como "Manchester à Beira-Mar" e "Amor", de Michael Haneke, esse drama dirigido com muita sensibilidade por Theu Boermans se destaca por sua abordagem mais poética e introspectiva, e pela precisão cirúrgica com que investiga os limites do amor diante de uma tragédia familiar.
A trama, basicamente, gira em torno do jovem casal Lucas (Reinout Scholten van Aschat) e Johanna (Sallie Harmsen), que embarcam em uma viagem marítima com seu filho pequeno, Kai (River Oosterink). O que deveria ser um momento idílico de conexão familiar se transforma em um pesadelo quando, no meio ao Atlântico, a criança misteriosamente some. Esse evento devastador não só quebra a estrutura familiar, como molda e redefine completamente suas vidas pelos próximos 30 e poucos anos. Confira o trailer:
Baseado em uma história real, o roteiro, escrito por Marieke van der Pol, opta por uma narrativa que intercala diferentes linhas do tempo da vida do casal, apresentando não apenas os acontecimentos imediatos após a tragédia, mas também como as consequências ecoam décadas depois, trazendo temas sensíveis para a discussão como as dores inerentes da memória e da culpa, além dos diferentes caminhos de superação que cada um escolhe trilhar após uma situação limite. A direção de Boermans, vale dizer, é particularmente impressionante - a forma como ele lida com a cronologia não linear da história é primorosa. Boermans conduz o filme como um quebra-cabeças emocional, montando com cuidado as peças do passado e presente de maneira fluída e natural, permitindo que a audiência acompanhe o desenvolvimento dos personagens de forma gradual, envolvente e visceral. Boermans usa de uma montagem excelente de Herman P. Koerts e Job ter Burg para criar transições que enfatizam o impacto emocional das lembranças e o peso das decisões tomadas pelos protagonistas, evitando assim que a narrativa caia em um melodrama fácil. Veja, aqui tudo é retratado com muita (mas, muita) sensibilidade.
Tecnicamente, "Além do Tempo" é primoroso. A fotografia do Myrthe Mosterman merece destaque especial pela forma como capta as nuances emocionais da história, variando entre a claridade vibrante das cenas iniciais, representando a plenitude, e os tons mais sóbrios e cinzentos que predominam nos períodos posteriores, refletindo o estado emocional dos personagens. Veja, a escolha visual de retratar o mar tanto como símbolo de liberdade quanto de dor insuperável é especialmente poderosa, ao ponto de transformar o oceano em um personagem próprio dentro da narrativa. Como todo filme de relação, impossível não citar as atuações extraordinárias do elenco. Reinout Scholten van Aschat e Sallie Harmsen entregam performances extremamente convincentes e emocionantes, construindo personagens cheio de camadas e realmente humanos. Aschat consegue, com poucos gestos e olhares, transmitir a profunda angústia e o isolamento emocional de Lucas, enquanto Harmsen impressiona pela forma como Johanna internaliza sua dor, exibindo uma marca silenciosa que se manifesta em pequenas nuances. Já Gijs Scholten van Aschat e Elsie de Brauw, que interpretam o casal 30 anos depois, adicionam elementos de complexidade ao filme, refletindo o desgaste e a resiliência acumulados ao longo dos anos, cada qual com seus fantasmas.
Se há algo que pode incomodar em "Além do Tempo" certamente é o seu ritmo. Até pela própria proposta do diretor, o filme exige uma dose significativa de paciência e entrega emocional, podendo soar contemplativo demais para alguns, mas é justamente esse ritmo mais lento que permite um mergulho mais profundo na psicologia dos personagens e na exploração detalhada das consequências da perda e, claro, do seu luto. Em última análise, "Além do Tempo" é uma experiência intensa, que usa uma linguagem artística sofisticada para investigar questões universais sobre o amor, e os caminhos de cura que o tempo pode ou não proporcionar. Com uma direção precisa, atuações de se aplaudir de pé e uma abordagem visual de estremo bom gosto, Theu Boermans entrega um filme emocionalmente maduro e reflexivo, que certamente irá permanecer na sua mente muito depois que os créditos finais rolarem na tela.
Olha, um filme indispensável para quem aprecia o cinema de qualidade e saber tocar profundamente na alma humana. Vale demais!
Esse filme é simplesmente sensacional, mas vai mexer com você e já te aviso: não vai ser uma jornada emocionalmente tranquila! "Além do Tempo" ou "Zee van tijd", no original, é um filme holandês profundamente tocante que explora com sutileza as complexidades do luto e da reconstrução emocional após uma perda irreparável. Inserido numa tradição cinematográfica europeia que se dedica a mergulhar fundo no íntimo de seus personagens, semelhante a obras como "Manchester à Beira-Mar" e "Amor", de Michael Haneke, esse drama dirigido com muita sensibilidade por Theu Boermans se destaca por sua abordagem mais poética e introspectiva, e pela precisão cirúrgica com que investiga os limites do amor diante de uma tragédia familiar.
A trama, basicamente, gira em torno do jovem casal Lucas (Reinout Scholten van Aschat) e Johanna (Sallie Harmsen), que embarcam em uma viagem marítima com seu filho pequeno, Kai (River Oosterink). O que deveria ser um momento idílico de conexão familiar se transforma em um pesadelo quando, no meio ao Atlântico, a criança misteriosamente some. Esse evento devastador não só quebra a estrutura familiar, como molda e redefine completamente suas vidas pelos próximos 30 e poucos anos. Confira o trailer:
Baseado em uma história real, o roteiro, escrito por Marieke van der Pol, opta por uma narrativa que intercala diferentes linhas do tempo da vida do casal, apresentando não apenas os acontecimentos imediatos após a tragédia, mas também como as consequências ecoam décadas depois, trazendo temas sensíveis para a discussão como as dores inerentes da memória e da culpa, além dos diferentes caminhos de superação que cada um escolhe trilhar após uma situação limite. A direção de Boermans, vale dizer, é particularmente impressionante - a forma como ele lida com a cronologia não linear da história é primorosa. Boermans conduz o filme como um quebra-cabeças emocional, montando com cuidado as peças do passado e presente de maneira fluída e natural, permitindo que a audiência acompanhe o desenvolvimento dos personagens de forma gradual, envolvente e visceral. Boermans usa de uma montagem excelente de Herman P. Koerts e Job ter Burg para criar transições que enfatizam o impacto emocional das lembranças e o peso das decisões tomadas pelos protagonistas, evitando assim que a narrativa caia em um melodrama fácil. Veja, aqui tudo é retratado com muita (mas, muita) sensibilidade.
Tecnicamente, "Além do Tempo" é primoroso. A fotografia do Myrthe Mosterman merece destaque especial pela forma como capta as nuances emocionais da história, variando entre a claridade vibrante das cenas iniciais, representando a plenitude, e os tons mais sóbrios e cinzentos que predominam nos períodos posteriores, refletindo o estado emocional dos personagens. Veja, a escolha visual de retratar o mar tanto como símbolo de liberdade quanto de dor insuperável é especialmente poderosa, ao ponto de transformar o oceano em um personagem próprio dentro da narrativa. Como todo filme de relação, impossível não citar as atuações extraordinárias do elenco. Reinout Scholten van Aschat e Sallie Harmsen entregam performances extremamente convincentes e emocionantes, construindo personagens cheio de camadas e realmente humanos. Aschat consegue, com poucos gestos e olhares, transmitir a profunda angústia e o isolamento emocional de Lucas, enquanto Harmsen impressiona pela forma como Johanna internaliza sua dor, exibindo uma marca silenciosa que se manifesta em pequenas nuances. Já Gijs Scholten van Aschat e Elsie de Brauw, que interpretam o casal 30 anos depois, adicionam elementos de complexidade ao filme, refletindo o desgaste e a resiliência acumulados ao longo dos anos, cada qual com seus fantasmas.
Se há algo que pode incomodar em "Além do Tempo" certamente é o seu ritmo. Até pela própria proposta do diretor, o filme exige uma dose significativa de paciência e entrega emocional, podendo soar contemplativo demais para alguns, mas é justamente esse ritmo mais lento que permite um mergulho mais profundo na psicologia dos personagens e na exploração detalhada das consequências da perda e, claro, do seu luto. Em última análise, "Além do Tempo" é uma experiência intensa, que usa uma linguagem artística sofisticada para investigar questões universais sobre o amor, e os caminhos de cura que o tempo pode ou não proporcionar. Com uma direção precisa, atuações de se aplaudir de pé e uma abordagem visual de estremo bom gosto, Theu Boermans entrega um filme emocionalmente maduro e reflexivo, que certamente irá permanecer na sua mente muito depois que os créditos finais rolarem na tela.
Olha, um filme indispensável para quem aprecia o cinema de qualidade e saber tocar profundamente na alma humana. Vale demais!
Todo mundo tem problemas, claro, e aqui, nessa imperdível dramédia que está na Max, somos convidados a explorar camadas tão profundas dessa dinâmica cotidiana e assim discutir o real poder que temos para encontrar a felicidade que, olha, provavelmente você não vai conseguir parar de assistir - mas já te aviso: será preciso uma certa dose de sensibilidade para entender a proposta dos criadores Hannah Bos e Paul Thureen (ambos roteiristas de "High Maintenance" e "Strangers"). "Alguém em Algum Lugar" é uma verdadeira joia - uma série inteligente e sensível que transforma o "dia a dia" em uma fonte de humor e emoção, de fato, marcante. Ambientada em uma pequena cidade do Kansas, essa produção da HBO, aborda questões universais sobre pertencimento, luto e aceitação, mas de uma maneira íntima e sutil, sem recorrer a grandes reviravoltas ou eventos dramáticos - aqui é a vida como ela é. Importante: "Alguém em Algum Lugar" não é um entretenimento fácil, especialmente por construir uma narrativa centrada em personagens que são profundamente humanos, falhos e adoravelmente reais!
"Somebody Somewhere", basicamente, segue Sam (Bridget Everett), uma mulher que está lidando com o luto pela morte de sua irmã e tentando encontrar sentido em uma vida que parece estagnada após seus 40 anos. Apesar de sua conexão cada vez mais distante com sua família e um trabalho desinteressante e burocrático, Sam encontra esperança e renovação ao se reconectar com a música e ao formar laços inesperados com pessoas de sua comunidade. Entre essas conexões está Joel (Jeff Hiller), um ex-colega de escola que apresenta Sam para um grupo eclético e acolhedor, ponto de partida para ela redescobrir o poder de sua voz — literalmente e metaforicamente. Confira o trailer:
"Alguém em Algum Lugar"combina humor sutil com momentos de introspecção emocional que ressoam profundamente na audiência - esse é o ponto a ser observado na série. Como em "Método Kominsky", o roteiro evita o melodrama gratuito, optando por explorar os pequenos triunfos e alguns fracassos da vida com uma honestidade que é ao mesmo tempo cômica e tocante. A narrativa acerta demais ao não tentar resolver os problemas de seus personagens de forma apressada - ela abraça a complexidade de suas jornadas pessoais e celebra a beleza de encontrar apoio e aceitação em lugares inesperados. A direção de "Alguém em Algum Lugar", que traz nomes como Robert Cohen (de "Black·ish") e Jay Duplass (de "Togetherness"), enfatiza a simplicidade e o realismo da história. Os cenários, que incluem casas modestas, igrejas e campos abertos do Kansas, criam uma atmosfera de autenticidade que reflete a monotonia e a beleza das pequenas cidades americanas. A fotografia é discreta, mas eficaz nesse sentido, com enquadramentos muito bem construídos que capturam a solidão de Sam e, especialmente, sua transformação gradual, conforme ela se abre para novas possibilidades.
Bridget Everett, que atriz incrível! Ela brilha no papel de Sam, trazendo uma vulnerabilidade crua, sincera, e um senso de humor "autodepreciativo" que tornam sua personagem imediatamente empática e cativante. Sua performance é um equilíbrio perfeito entre melancolia e esperança, capturando as nuances de alguém que está tentando encontrar um propósito em meio ao caos interno que se tornou sua vida. Jeff Hiller, como Joel, é o complemento ideal para Everett - é sua dupla dinâmica, eu diria. Ele oferece um retrato caloroso e engraçado de um homem que, assim como Sam, busca pertencimento e conexão, mas com uma vibe diferente. A trilha sonora é outro ponto que vale destacar: com músicas que refletem a jornada emocional de Sam e sua paixão pela arte, muitas vezes interpretadas pela própria Bridget Everett, elas adicionam uma camada extra de intimidade e autenticidade à série, tornando essas canções um elemento fundamental para a narrativa.
"Alguém em Algum Lugar" pode não agradar a todos - isso é um fato. Seu ritmo cadenciado e a ausência de grandes eventos podem ser um desafio para aqueles que preferem narrativas repletas de conflitos óbvios. No entanto, é exatamente essa abordagem mais contida que torna a série tão única e especial, pois ela se concentra nos detalhes sutis e nos momentos aparentemente mundanos que compõem a vida - a sua, a minha. "Alguém em Algum Lugar" é uma grande surpresa, uma da melhores do ano - profundamente humana e tocante, que encontra beleza e significado nas pequenas coisas. Lindo de ver!
Vale muito o seu play!
Todo mundo tem problemas, claro, e aqui, nessa imperdível dramédia que está na Max, somos convidados a explorar camadas tão profundas dessa dinâmica cotidiana e assim discutir o real poder que temos para encontrar a felicidade que, olha, provavelmente você não vai conseguir parar de assistir - mas já te aviso: será preciso uma certa dose de sensibilidade para entender a proposta dos criadores Hannah Bos e Paul Thureen (ambos roteiristas de "High Maintenance" e "Strangers"). "Alguém em Algum Lugar" é uma verdadeira joia - uma série inteligente e sensível que transforma o "dia a dia" em uma fonte de humor e emoção, de fato, marcante. Ambientada em uma pequena cidade do Kansas, essa produção da HBO, aborda questões universais sobre pertencimento, luto e aceitação, mas de uma maneira íntima e sutil, sem recorrer a grandes reviravoltas ou eventos dramáticos - aqui é a vida como ela é. Importante: "Alguém em Algum Lugar" não é um entretenimento fácil, especialmente por construir uma narrativa centrada em personagens que são profundamente humanos, falhos e adoravelmente reais!
"Somebody Somewhere", basicamente, segue Sam (Bridget Everett), uma mulher que está lidando com o luto pela morte de sua irmã e tentando encontrar sentido em uma vida que parece estagnada após seus 40 anos. Apesar de sua conexão cada vez mais distante com sua família e um trabalho desinteressante e burocrático, Sam encontra esperança e renovação ao se reconectar com a música e ao formar laços inesperados com pessoas de sua comunidade. Entre essas conexões está Joel (Jeff Hiller), um ex-colega de escola que apresenta Sam para um grupo eclético e acolhedor, ponto de partida para ela redescobrir o poder de sua voz — literalmente e metaforicamente. Confira o trailer:
"Alguém em Algum Lugar"combina humor sutil com momentos de introspecção emocional que ressoam profundamente na audiência - esse é o ponto a ser observado na série. Como em "Método Kominsky", o roteiro evita o melodrama gratuito, optando por explorar os pequenos triunfos e alguns fracassos da vida com uma honestidade que é ao mesmo tempo cômica e tocante. A narrativa acerta demais ao não tentar resolver os problemas de seus personagens de forma apressada - ela abraça a complexidade de suas jornadas pessoais e celebra a beleza de encontrar apoio e aceitação em lugares inesperados. A direção de "Alguém em Algum Lugar", que traz nomes como Robert Cohen (de "Black·ish") e Jay Duplass (de "Togetherness"), enfatiza a simplicidade e o realismo da história. Os cenários, que incluem casas modestas, igrejas e campos abertos do Kansas, criam uma atmosfera de autenticidade que reflete a monotonia e a beleza das pequenas cidades americanas. A fotografia é discreta, mas eficaz nesse sentido, com enquadramentos muito bem construídos que capturam a solidão de Sam e, especialmente, sua transformação gradual, conforme ela se abre para novas possibilidades.
Bridget Everett, que atriz incrível! Ela brilha no papel de Sam, trazendo uma vulnerabilidade crua, sincera, e um senso de humor "autodepreciativo" que tornam sua personagem imediatamente empática e cativante. Sua performance é um equilíbrio perfeito entre melancolia e esperança, capturando as nuances de alguém que está tentando encontrar um propósito em meio ao caos interno que se tornou sua vida. Jeff Hiller, como Joel, é o complemento ideal para Everett - é sua dupla dinâmica, eu diria. Ele oferece um retrato caloroso e engraçado de um homem que, assim como Sam, busca pertencimento e conexão, mas com uma vibe diferente. A trilha sonora é outro ponto que vale destacar: com músicas que refletem a jornada emocional de Sam e sua paixão pela arte, muitas vezes interpretadas pela própria Bridget Everett, elas adicionam uma camada extra de intimidade e autenticidade à série, tornando essas canções um elemento fundamental para a narrativa.
"Alguém em Algum Lugar" pode não agradar a todos - isso é um fato. Seu ritmo cadenciado e a ausência de grandes eventos podem ser um desafio para aqueles que preferem narrativas repletas de conflitos óbvios. No entanto, é exatamente essa abordagem mais contida que torna a série tão única e especial, pois ela se concentra nos detalhes sutis e nos momentos aparentemente mundanos que compõem a vida - a sua, a minha. "Alguém em Algum Lugar" é uma grande surpresa, uma da melhores do ano - profundamente humana e tocante, que encontra beleza e significado nas pequenas coisas. Lindo de ver!
Vale muito o seu play!
Enfim um ar de esperança! Não é surpresa para ninguém em como a franquia "Alien" sempre oscilou entre o horror mais claustrofóbico e a ação gratuitamente desenfreada, alternando abordagens bastante duvidosas ao longo das últimas décadas. Já "Alien: Romulus", dirigido pelo talentoso Fede Álvarez (de "O Homem nas Trevas"), busca resgatar a essência aterrorizante do projeto original de Ridley Scott ao mesmo tempo em que se esforça para modernizar sua estética e sua estrutura narrativa - e funciona uns 90%! Dito isso, é fácil afirmar que o resultado que Álvarez consegue é satisfatório até demais - eu diria que "Romulus" é um filme que se posiciona bem entre "Alien: O Oitavo Passageiro" (de 1979) e "Aliens: O Resgate" (de 1986), não só na linha do tempo, como também pela forma e pelo seu estilo. Para quem sabe do que eu estou falando, provavelmente aqueles maiores de 40 anos, esse novo capítulo da franquia oferece, de fato, uma experiência nostálgica, intensa e visceral que nos remete aos bons tempos do cinema de ficção cientifica!
A trama, basicamente, acompanha um grupo de jovens colonizadores espaciais que enxergam a oportunidade de mudar de vida ao explorar uma estação aparentemente abandonada. O problema é que o plano que parecia simples de roubar algumas câmaras de criogenia dá errado, e eles se vêem presos em um ambiente extremamente hostil, onde os xenomorfos transformam aqueles corredores escuros em um verdadeiro jogo de gato e rato. Confira o trailer (em inglês):
A grande força de "Alien: Romulus", sem dúvida, está na tensão constante e na forma como Álvarez manipula o suspense. Diferente dos últimos filmes, como Prometheus (2012) e Alien: Covenant (2017), que apostaram em tramas mais filosóficas, este novo capítulo mantém o foco no terror puro, remetendo à dinâmica de sobrevivência a qualquer custo. O roteiro equilibra bem os momentos de ação e de silêncio, permitindo que a audiência sinta o peso da ameaça a cada nova aparição dos xenomorfos - realmente é uma atmosfera angustiante. Álvarez aposta nesse DNA narrativo em cada detalhe - o design de produção, por exemplo, resgata a estética industrial e desgastada dos primeiros filmes, evitando o excesso de CGI em favor de efeitos práticos e até animatrônicos para os Aliens. A fotografia do Galo Olivares (que foi operador de câmera em "Roma") utiliza uma iluminação baixa e enquadramentos sufocantes para reforçar a sensação de confinamento, enquanto a música de Benjamin Wallfisch (de "Blade Runner 2049") mantém um equilíbrio entre o suspense crescente e a grandiosidade épica da franquia.
Aqui, a protagonista Rain Carradine (Cailee Spaeny), assume um papel de destaque, evocando o espírito de heroínas clássicas da saga, mas com uma abordagem mais humana e talvez por isso, mais realista. Diferente das protagonistas hipercompetentes que dominam o gênero, Rain se desenvolve organicamente ao longo da história, reagindo ao medo, ao desespero e a resiliência como parte da audiência diante das ameaças crescentes que encontram na tela. Spaeny conduz a história perante essa proposta com uma performance sólida, transmitindo exatamente o significado do peso da desesperança e da luta pela sobrevivência. David Jonsson, o androide Andy, cuja presença adiciona um elemento de mistério e ambiguidade moral, nos remete a personagens icônicos da franquia como o inesquecível Ash (de 1979) e Bishop (de 1986). A química entre Rain e Andy, bem como com os outros membros da tripulação, é bem construída, embora alguns personagens recebam um desenvolvimento menor, tornando-se previsíveis dentro da lógica de "vítimas em sequência".
Se há algo que pode ser criticado, talvez seja a sua previsibilidade - alguns elementos narrativos de "Alien: Romulus" se mantém fiel à estrutura mais clássica, sem grandes inovações em termos de desenvolvimento de personagens ou reviravoltas. No entanto, essa abordagem funciona dentro do contexto proposto, oferecendo um regaste aquela experiência intensa e satisfatória de um terror espacial que fez história, mas que precisava alcançar novas gerações - funcionou, tanto que em breve teremos uma nova continuação. Tecnicamente impecável e respeitando o legado da saga sem abrir mão de sua identidade como cineasta, Álvarez se posiciona como uma referência quando o assunto é experiência claustrofóbica, cheia de tensão e em uma atmosfera opressiva - seja no espaço ou na rua perto de nossa casa como em "O Homem nas Trevas".
Vale demais seu play!
Enfim um ar de esperança! Não é surpresa para ninguém em como a franquia "Alien" sempre oscilou entre o horror mais claustrofóbico e a ação gratuitamente desenfreada, alternando abordagens bastante duvidosas ao longo das últimas décadas. Já "Alien: Romulus", dirigido pelo talentoso Fede Álvarez (de "O Homem nas Trevas"), busca resgatar a essência aterrorizante do projeto original de Ridley Scott ao mesmo tempo em que se esforça para modernizar sua estética e sua estrutura narrativa - e funciona uns 90%! Dito isso, é fácil afirmar que o resultado que Álvarez consegue é satisfatório até demais - eu diria que "Romulus" é um filme que se posiciona bem entre "Alien: O Oitavo Passageiro" (de 1979) e "Aliens: O Resgate" (de 1986), não só na linha do tempo, como também pela forma e pelo seu estilo. Para quem sabe do que eu estou falando, provavelmente aqueles maiores de 40 anos, esse novo capítulo da franquia oferece, de fato, uma experiência nostálgica, intensa e visceral que nos remete aos bons tempos do cinema de ficção cientifica!
A trama, basicamente, acompanha um grupo de jovens colonizadores espaciais que enxergam a oportunidade de mudar de vida ao explorar uma estação aparentemente abandonada. O problema é que o plano que parecia simples de roubar algumas câmaras de criogenia dá errado, e eles se vêem presos em um ambiente extremamente hostil, onde os xenomorfos transformam aqueles corredores escuros em um verdadeiro jogo de gato e rato. Confira o trailer (em inglês):
A grande força de "Alien: Romulus", sem dúvida, está na tensão constante e na forma como Álvarez manipula o suspense. Diferente dos últimos filmes, como Prometheus (2012) e Alien: Covenant (2017), que apostaram em tramas mais filosóficas, este novo capítulo mantém o foco no terror puro, remetendo à dinâmica de sobrevivência a qualquer custo. O roteiro equilibra bem os momentos de ação e de silêncio, permitindo que a audiência sinta o peso da ameaça a cada nova aparição dos xenomorfos - realmente é uma atmosfera angustiante. Álvarez aposta nesse DNA narrativo em cada detalhe - o design de produção, por exemplo, resgata a estética industrial e desgastada dos primeiros filmes, evitando o excesso de CGI em favor de efeitos práticos e até animatrônicos para os Aliens. A fotografia do Galo Olivares (que foi operador de câmera em "Roma") utiliza uma iluminação baixa e enquadramentos sufocantes para reforçar a sensação de confinamento, enquanto a música de Benjamin Wallfisch (de "Blade Runner 2049") mantém um equilíbrio entre o suspense crescente e a grandiosidade épica da franquia.
Aqui, a protagonista Rain Carradine (Cailee Spaeny), assume um papel de destaque, evocando o espírito de heroínas clássicas da saga, mas com uma abordagem mais humana e talvez por isso, mais realista. Diferente das protagonistas hipercompetentes que dominam o gênero, Rain se desenvolve organicamente ao longo da história, reagindo ao medo, ao desespero e a resiliência como parte da audiência diante das ameaças crescentes que encontram na tela. Spaeny conduz a história perante essa proposta com uma performance sólida, transmitindo exatamente o significado do peso da desesperança e da luta pela sobrevivência. David Jonsson, o androide Andy, cuja presença adiciona um elemento de mistério e ambiguidade moral, nos remete a personagens icônicos da franquia como o inesquecível Ash (de 1979) e Bishop (de 1986). A química entre Rain e Andy, bem como com os outros membros da tripulação, é bem construída, embora alguns personagens recebam um desenvolvimento menor, tornando-se previsíveis dentro da lógica de "vítimas em sequência".
Se há algo que pode ser criticado, talvez seja a sua previsibilidade - alguns elementos narrativos de "Alien: Romulus" se mantém fiel à estrutura mais clássica, sem grandes inovações em termos de desenvolvimento de personagens ou reviravoltas. No entanto, essa abordagem funciona dentro do contexto proposto, oferecendo um regaste aquela experiência intensa e satisfatória de um terror espacial que fez história, mas que precisava alcançar novas gerações - funcionou, tanto que em breve teremos uma nova continuação. Tecnicamente impecável e respeitando o legado da saga sem abrir mão de sua identidade como cineasta, Álvarez se posiciona como uma referência quando o assunto é experiência claustrofóbica, cheia de tensão e em uma atmosfera opressiva - seja no espaço ou na rua perto de nossa casa como em "O Homem nas Trevas".
Vale demais seu play!
"Amigos para a Vida" é muito melhor do que pode parecer em um primeiro olhar, especialmente se você gostou de séries como "This is Us" ou "A Million Little Things". O filme dirigido pelo Jesse Zwick (da série "Nashville: No Ritmo da Fama") mescla com muita sabedoria um certo humor carregado de ironias com um drama cheio de camadas que vai ganhando corpo conforme a trama se desenrola, deixando uma aparente superficialidade para trás até chegar ao ponto de explorar com seriedade temas como amizade, amor, perda e a busca pela felicidade. Talvez quem tenha assistido a excelente produção francesa "Les petits mouchoirs" (que aqui no Brasil surgiu como "Até a Eternidade") ache "Amigos para a Vida" mais do mesmo, mas eu posso te garantir que além de um ótimo e leve entretenimento, esse filme vai tocar o seu coração.
A história, basicamente, gira em torno de Alex (Jason Ritter), um jovem que tenta lidar com a depressão. Quando seus amigos de faculdade descobrem sua tentativa de suicídio, decidem se reunir para um fim de semana juntos, na esperança de animá-lo. A partir desse encontro, antigos segredos são revelados, velhas feridas são reabertas e novos laços são formados. Confira o trailer (em inglês):
O tweet de Alex antes de sua tentativa de suicídio dizia: "Pergunte por mim amanhã e você encontrará um homem morto" - essa é uma frase dita por Mercutio antes de sua morte em "Romeu e Julieta" de William Shakespeare e não por acaso o ponto de partida para uma jornada de reencontro que discute a cada momento a importância de estar "hoje" ao lado de quem você realmente estima. "For Alex" (no original) se apropria de uma situação dramática para fazer um retrato honesto e comovente da vida, com seus altos e baixos, alegrias e tristezas. Quando o roteiro do próprio Zwick encontra seu verdadeiro caminho (e isso demora pelo menos um ato), percebemos que o desenvolvimento da trama vai além de uma premissa batida sobre a importância da amizade, do amor e da esperança; e a leveza como tudo isso é personificado pelo elenco cria uma fácil (e nostálgica) conexão que te fará rir, chorar e refletir sobre a vida.
O elenco, de fato, é um dos pontos fortes de "Amigos para a Vida" - basta dizer que esse foi um dos primeiros trabalhos de Jane Levy (a Zoey de "Zoey e a Sua Fantástica Playlist") e de Aubrey Plaza (a Harper Spiller de "The White Lotus"). Basicamente formado por 7 atores, o elenco mostra uma química invejável para esse tipo de texto - a forma como o roteiro vai envolvendo os personagens e seus dramas do passado, embora previsíveis, nos coloca dentro daquela dinâmica tão particular. Jason Ritter entrega uma performance interessante como Alex, transmitindo uma dor e uma fragilidade que vai além do estereótipo. Nate Parker e Max Greenfield também estão ótimos - seus personagens são multidimensionais e cheios de nuances, trazendo uma veracidade para a história que vale a pena ressaltar.
A direção de Jesse Zwick é competente, mas pouco criativa. Embora sensível e perspicaz, ele prefere se apoiar no equilíbrio entre o humor e o drama, sem cair em pieguices ou clichês, do que provocar seus atores e assim leva-los para um lugar desconhecido que traria ainda mais profundidade para as discussões - e é aqui que a fotografia do Andre Lascaris (de "Playdates") potencializa o trabalho do elenco, já que ele é capaz de capturar as nuances de cada relação sem expor seu real significado. "Amigos para a Vida" é isso, um filme que mostra como os amigos podem ser a nossa maior fonte de apoio nos momentos mais difíceis da vida, mesmo que essa relação seja carregada de marcas que precisam ser discutidas!
Vale seu play!
"Amigos para a Vida" é muito melhor do que pode parecer em um primeiro olhar, especialmente se você gostou de séries como "This is Us" ou "A Million Little Things". O filme dirigido pelo Jesse Zwick (da série "Nashville: No Ritmo da Fama") mescla com muita sabedoria um certo humor carregado de ironias com um drama cheio de camadas que vai ganhando corpo conforme a trama se desenrola, deixando uma aparente superficialidade para trás até chegar ao ponto de explorar com seriedade temas como amizade, amor, perda e a busca pela felicidade. Talvez quem tenha assistido a excelente produção francesa "Les petits mouchoirs" (que aqui no Brasil surgiu como "Até a Eternidade") ache "Amigos para a Vida" mais do mesmo, mas eu posso te garantir que além de um ótimo e leve entretenimento, esse filme vai tocar o seu coração.
A história, basicamente, gira em torno de Alex (Jason Ritter), um jovem que tenta lidar com a depressão. Quando seus amigos de faculdade descobrem sua tentativa de suicídio, decidem se reunir para um fim de semana juntos, na esperança de animá-lo. A partir desse encontro, antigos segredos são revelados, velhas feridas são reabertas e novos laços são formados. Confira o trailer (em inglês):
O tweet de Alex antes de sua tentativa de suicídio dizia: "Pergunte por mim amanhã e você encontrará um homem morto" - essa é uma frase dita por Mercutio antes de sua morte em "Romeu e Julieta" de William Shakespeare e não por acaso o ponto de partida para uma jornada de reencontro que discute a cada momento a importância de estar "hoje" ao lado de quem você realmente estima. "For Alex" (no original) se apropria de uma situação dramática para fazer um retrato honesto e comovente da vida, com seus altos e baixos, alegrias e tristezas. Quando o roteiro do próprio Zwick encontra seu verdadeiro caminho (e isso demora pelo menos um ato), percebemos que o desenvolvimento da trama vai além de uma premissa batida sobre a importância da amizade, do amor e da esperança; e a leveza como tudo isso é personificado pelo elenco cria uma fácil (e nostálgica) conexão que te fará rir, chorar e refletir sobre a vida.
O elenco, de fato, é um dos pontos fortes de "Amigos para a Vida" - basta dizer que esse foi um dos primeiros trabalhos de Jane Levy (a Zoey de "Zoey e a Sua Fantástica Playlist") e de Aubrey Plaza (a Harper Spiller de "The White Lotus"). Basicamente formado por 7 atores, o elenco mostra uma química invejável para esse tipo de texto - a forma como o roteiro vai envolvendo os personagens e seus dramas do passado, embora previsíveis, nos coloca dentro daquela dinâmica tão particular. Jason Ritter entrega uma performance interessante como Alex, transmitindo uma dor e uma fragilidade que vai além do estereótipo. Nate Parker e Max Greenfield também estão ótimos - seus personagens são multidimensionais e cheios de nuances, trazendo uma veracidade para a história que vale a pena ressaltar.
A direção de Jesse Zwick é competente, mas pouco criativa. Embora sensível e perspicaz, ele prefere se apoiar no equilíbrio entre o humor e o drama, sem cair em pieguices ou clichês, do que provocar seus atores e assim leva-los para um lugar desconhecido que traria ainda mais profundidade para as discussões - e é aqui que a fotografia do Andre Lascaris (de "Playdates") potencializa o trabalho do elenco, já que ele é capaz de capturar as nuances de cada relação sem expor seu real significado. "Amigos para a Vida" é isso, um filme que mostra como os amigos podem ser a nossa maior fonte de apoio nos momentos mais difíceis da vida, mesmo que essa relação seja carregada de marcas que precisam ser discutidas!
Vale seu play!
Lindo e sensível - talvez não tenha melhor forma de definir o francês, "Amour". Lançado em 2012 e dirigido por Michael Haneke (de "Happy End"), posso dizer que esse é um drama austero e profundamente comovente que explora as complexidades do amor pela perspectiva da velhice e da realidade que vai se tornando o fim da vida. O filme, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2012 e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013, é um retrato intimista, e de certa forma brutal, da devoção entre um casal idoso que enfrenta os desafios de uma doença e da inevitável perda. Com performances impecáveis e uma direção bastante minimalista, "Amour" oferece uma reflexão implacável sobre o amor e a dignidade no final da vida. Para aqueles que gostaram de "Meu Pai", "Amour" é uma experiência parecida e, justamente por isso, imperdível.
A trama segue Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), um casal de aposentados que vive uma vida tranquila e culta em Paris. Ambos são ex-professores de música e compartilham uma vida de amor e companheirismo. No entanto, sua rotina é abalada quando Anne sofre um derrame que paralisa um lado de seu corpo. À medida que sua condição se deteriora, Georges assume o papel de cuidador, enfrentando a dor emocional e física de ver sua amada esposa perder gradualmente sua independência e dignidade. Confira o trailer:
Michael Haneke é conhecido por sua abordagem fria e meticulosa diante de uma narrativa cinematográfica que muitas vezes se comunica pelo subtexto. Certamente ele aplica seu estilo em "Amour" de uma maneira que intensifica o impacto emocional da história. Haneke evita qualquer sentimentalismo ou melodrama, optando por uma direção precisa e uma câmera fixa que conta a história por si só - é lindo e angustiante. Repare como essa abordagem permite que a audiência experimente a crueza e a realidade da situação, oferecendo uma visão não filtrada da fragilidade humana e da natureza implacável de uma doença - como se estivéssemos observando os fatos, ali, no silêncio. A direção de fotografia de Darius Khondji (indicado ao Oscar por "Bardo" e "Evita") é igualmente discreta, utilizando luz natural e uma paleta de cores suaves para criar uma sensação de intimidade e desolação. No entanto, como o apartamento do casal serve como o único cenário do filme, Khondji brinca com as limitações, criando uma extensão da experiência dos personagens, se apropriando dos espaços cada vez mais confinados para refletir o mundo em declínio de Anne e Georges. Aliás, as escolhas visuais de Haneke e Khondji enfatizam demais essa claustrofobia e esse isolamento, aumentando a sensação de impotência e desespero que permeia toda a narrativa.
Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva entregam performances extraordinárias como Georges e Anne. Trintignant, com uma contenção emocional notável, retrata Georges como um homem dedicado, cuja paciência e compaixão são testadas ao limite enquanto ele cuida de sua esposa. Sua atuação é uma masterclass de sutileza, capturando a força silenciosa e a vulnerabilidade de um homem confrontado com a perda iminente. Riva, em uma performance profundamente corajosa, retrata Anne com uma dignidade e graça comoventes, mesmo quando sua personagem está sendo consumida pela doença. A deterioração de Anne é retratada com uma autenticidade dolorosa, e Riva lida com os desafios físicos do papel de maneira que é ao mesmo tempo devastadora e inspiradora. O filme também conta com uma breve, mas impactante, participação de Isabelle Huppert como Eva, a filha do casal, cuja incapacidade de compreender plenamente o que seus pais estão enfrentando adiciona outra camada de complexidade emocional à narrativa. Huppert representa o ponto de vista externo, mostrando o conflito entre as obrigações familiares e as realidades da vida cotidiana. Uma pancada!
"Amour" não é um filme fácil de assistir, é preciso que se diga - sua narrativa lenta e implacável, combinada com a recusa de Haneke em fornecer qualquer forma de alívio emocional ou resolução simples. No entanto, é justamente essa honestidade brutal em não suavizar a experiência do envelhecimento e da morte que tornam "Amour" tão poderoso - você vai se sentir forçado a confrontar a realidade da mortalidade de uma maneira que é desconfortável, mas necessária; e isso é lindo! Um filme que não se esquiva das verdades difíceis da vida, um retrato corajoso e honesto do amor e da dor - em sua ambiguidade e incômodo! Filmaço!
Vale muito o seu play!
Lindo e sensível - talvez não tenha melhor forma de definir o francês, "Amour". Lançado em 2012 e dirigido por Michael Haneke (de "Happy End"), posso dizer que esse é um drama austero e profundamente comovente que explora as complexidades do amor pela perspectiva da velhice e da realidade que vai se tornando o fim da vida. O filme, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2012 e o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2013, é um retrato intimista, e de certa forma brutal, da devoção entre um casal idoso que enfrenta os desafios de uma doença e da inevitável perda. Com performances impecáveis e uma direção bastante minimalista, "Amour" oferece uma reflexão implacável sobre o amor e a dignidade no final da vida. Para aqueles que gostaram de "Meu Pai", "Amour" é uma experiência parecida e, justamente por isso, imperdível.
A trama segue Georges (Jean-Louis Trintignant) e Anne (Emmanuelle Riva), um casal de aposentados que vive uma vida tranquila e culta em Paris. Ambos são ex-professores de música e compartilham uma vida de amor e companheirismo. No entanto, sua rotina é abalada quando Anne sofre um derrame que paralisa um lado de seu corpo. À medida que sua condição se deteriora, Georges assume o papel de cuidador, enfrentando a dor emocional e física de ver sua amada esposa perder gradualmente sua independência e dignidade. Confira o trailer:
Michael Haneke é conhecido por sua abordagem fria e meticulosa diante de uma narrativa cinematográfica que muitas vezes se comunica pelo subtexto. Certamente ele aplica seu estilo em "Amour" de uma maneira que intensifica o impacto emocional da história. Haneke evita qualquer sentimentalismo ou melodrama, optando por uma direção precisa e uma câmera fixa que conta a história por si só - é lindo e angustiante. Repare como essa abordagem permite que a audiência experimente a crueza e a realidade da situação, oferecendo uma visão não filtrada da fragilidade humana e da natureza implacável de uma doença - como se estivéssemos observando os fatos, ali, no silêncio. A direção de fotografia de Darius Khondji (indicado ao Oscar por "Bardo" e "Evita") é igualmente discreta, utilizando luz natural e uma paleta de cores suaves para criar uma sensação de intimidade e desolação. No entanto, como o apartamento do casal serve como o único cenário do filme, Khondji brinca com as limitações, criando uma extensão da experiência dos personagens, se apropriando dos espaços cada vez mais confinados para refletir o mundo em declínio de Anne e Georges. Aliás, as escolhas visuais de Haneke e Khondji enfatizam demais essa claustrofobia e esse isolamento, aumentando a sensação de impotência e desespero que permeia toda a narrativa.
Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva entregam performances extraordinárias como Georges e Anne. Trintignant, com uma contenção emocional notável, retrata Georges como um homem dedicado, cuja paciência e compaixão são testadas ao limite enquanto ele cuida de sua esposa. Sua atuação é uma masterclass de sutileza, capturando a força silenciosa e a vulnerabilidade de um homem confrontado com a perda iminente. Riva, em uma performance profundamente corajosa, retrata Anne com uma dignidade e graça comoventes, mesmo quando sua personagem está sendo consumida pela doença. A deterioração de Anne é retratada com uma autenticidade dolorosa, e Riva lida com os desafios físicos do papel de maneira que é ao mesmo tempo devastadora e inspiradora. O filme também conta com uma breve, mas impactante, participação de Isabelle Huppert como Eva, a filha do casal, cuja incapacidade de compreender plenamente o que seus pais estão enfrentando adiciona outra camada de complexidade emocional à narrativa. Huppert representa o ponto de vista externo, mostrando o conflito entre as obrigações familiares e as realidades da vida cotidiana. Uma pancada!
"Amour" não é um filme fácil de assistir, é preciso que se diga - sua narrativa lenta e implacável, combinada com a recusa de Haneke em fornecer qualquer forma de alívio emocional ou resolução simples. No entanto, é justamente essa honestidade brutal em não suavizar a experiência do envelhecimento e da morte que tornam "Amour" tão poderoso - você vai se sentir forçado a confrontar a realidade da mortalidade de uma maneira que é desconfortável, mas necessária; e isso é lindo! Um filme que não se esquiva das verdades difíceis da vida, um retrato corajoso e honesto do amor e da dor - em sua ambiguidade e incômodo! Filmaço!
Vale muito o seu play!
"Anatomia de um Escândalo" é uma espécie de "The Undoing" da Netflix - e não por acaso também adaptado por David E. Kelley a partir do livro homônimo de Sarah Vaughan. Pois bem, mesmo tendo o DNA de Kelley é preciso deixar bem claro que a produção não carrega o "selo HBO" e isso pode ser sentido em sua forma, mas não no conteúdo, ou seja, se para você tudo que escrevi até aqui fez sentido, provavelmente você nem vai precisar ler a análise inteira para ter a certeza que seu entretenimento está garantido! "Anatomia de um Escândalo" foi lançada em 2022 trazendo o melhor do drama jurídico ao explorar as nuances de como o poder pode gerar privilégios nocivos a partir da sensação "natural" de impunidade nos bastidores da política - aqui, britânica. A minissérie de Kelly conta com a colaboração precisa de Melissa James Gibson (de "House of Cards") para traduzir as complexidades de um caso de abuso sexual envolvendo um político influente, expondo as fissuras nas instituições que frequentemente protegem os poderosos. Esteja preparado para uma narrativa envolvente, capaz de entregar uma experiência que equilibra perfeitamente o entretenimento com o drama pessoal e a crítica social.
James Whitehouse (Rupert Friend) é um político carismático e bem-sucedido que, após ser acusado de estuprar uma colega de trabalho, Olivia Lytton (Naomi Scott), se vê no centro de um escândalo midiático. Ao seu lado está sua esposa, Sophie (Sienna Miller), que enfrenta a difícil tarefa de reconciliar sua lealdade ao marido com as crescentes suspeitas sobre seu comportamento e integridade. Enquanto a narrativa se desenrola, vemos o caso sendo disputado no tribunal pela promotora Kate Woodcroft (Michelle Dockery), que busca justiça em meio ao que parece ser uma batalha desigual de um homem protegido por seu status contra uma mulher aparentemente desacreditada por muitos. Confira o trailer:
1 + 1 nem sempre é 2, pelo menos pela perspectiva de quem interpreta uma situação estando nela e "Anatomia de um Escândalo" é muito inteligente em criar essa atmosfera de dúvidas com muita sabedoria - através do seu roteiro, de sua montagem e de sua direção. Ao lado das montadoras Liana Del Giudice (de "Marcella") e Mary Finlay (de "A Cor do Poder"), a diretora S.J. Clarkson (de "Succession") trabalha os flashbacks e os cortes rápidos (e desconexos) para fortalecer o conceito de narrativa fragmentada que gradualmente revela os segredos e as motivações dos personagens ao mesmo tempo em que sugere um forte senso de desorientação. Repare como as cenas de tribunal são intensas, capturando a pressão e o drama de um julgamento onde as questões de consentimento são colocadas em primeiro plano, mas é no recorte pontual das situações, com o uso de ângulos e lentes que distorcem a percepção do espaço, que encontramos o colapso de verdades que antes pareciam absolutas - isso é muito bacana.
O roteiro, de fato, é eficiente em construir uma narrativa que se equilibra o suspense com o drama mais psicológico. Kelley e Gibson exploram de forma hábil os dilemas morais e as complexidades de um escândalo sexual no meio político, mostrando o privilégio de maneira crítica e como isso molda a percepção da verdade ao ponto de influenciar os desfechos judiciais, e mais do que isso, ainda destacam o impacto devastador não apenas sobre as vítimas, mas também sobre as pessoas que cercam o acusado. Sophie, por exemplo, é uma mulher que vê seu mundo desmoronar ao questionar tudo o que sabia sobre o marido e sobre seu casamento - a performance de Sienna Miller é cheia de camadas, capturando a dor e a confusão de uma esposa que é forçada a confrontar a realidade que sempre tentou ignorar. Sua evolução ao longo da minissérie é convincente, pois ela passa de uma figura passiva e protetora para alguém que precisa lidar com as duras verdades sobre o homem com quem escolheu compartilhar sua vida. Rupert Friend entrega uma atuação sólida, interpretando esse homem que, apesar de seu charme e aparente vulnerabilidade, carrega um tom de arrogância e frieza. E Michelle Dockery, o que dizer? Ela consegue equilibrar a frieza profissional e o envolvimento emocional, tornando sua performance um dos pilares da minissérie, mas saiba que o charme da sua personagem está mesmo é no subtexto - pontuado pela hipocrisia no primeiro momento e na dura auto-avaliação mais a frente!
Obviamente que "Anatomia de um Escândalo" sofre com os clichês típicos de dramas jurídicos e escândalos políticos, podendo se tornar até previsível, mas para os amantes do gênero eu posso garantir que a minissérie é bastante eficaz em proporcionar um ótimo e rápido entretenimento (são apenas 6 episódios) ao mesmo tempo que provoca boas discussões sobre os mecanismos que sustentam os privilégios de poucos e sobre a realidade por trás dos escândalos que frequentemente vemos na tv. Para pensar sem esquecer de se divertir!
Vale o seu play!
"Anatomia de um Escândalo" é uma espécie de "The Undoing" da Netflix - e não por acaso também adaptado por David E. Kelley a partir do livro homônimo de Sarah Vaughan. Pois bem, mesmo tendo o DNA de Kelley é preciso deixar bem claro que a produção não carrega o "selo HBO" e isso pode ser sentido em sua forma, mas não no conteúdo, ou seja, se para você tudo que escrevi até aqui fez sentido, provavelmente você nem vai precisar ler a análise inteira para ter a certeza que seu entretenimento está garantido! "Anatomia de um Escândalo" foi lançada em 2022 trazendo o melhor do drama jurídico ao explorar as nuances de como o poder pode gerar privilégios nocivos a partir da sensação "natural" de impunidade nos bastidores da política - aqui, britânica. A minissérie de Kelly conta com a colaboração precisa de Melissa James Gibson (de "House of Cards") para traduzir as complexidades de um caso de abuso sexual envolvendo um político influente, expondo as fissuras nas instituições que frequentemente protegem os poderosos. Esteja preparado para uma narrativa envolvente, capaz de entregar uma experiência que equilibra perfeitamente o entretenimento com o drama pessoal e a crítica social.
James Whitehouse (Rupert Friend) é um político carismático e bem-sucedido que, após ser acusado de estuprar uma colega de trabalho, Olivia Lytton (Naomi Scott), se vê no centro de um escândalo midiático. Ao seu lado está sua esposa, Sophie (Sienna Miller), que enfrenta a difícil tarefa de reconciliar sua lealdade ao marido com as crescentes suspeitas sobre seu comportamento e integridade. Enquanto a narrativa se desenrola, vemos o caso sendo disputado no tribunal pela promotora Kate Woodcroft (Michelle Dockery), que busca justiça em meio ao que parece ser uma batalha desigual de um homem protegido por seu status contra uma mulher aparentemente desacreditada por muitos. Confira o trailer:
1 + 1 nem sempre é 2, pelo menos pela perspectiva de quem interpreta uma situação estando nela e "Anatomia de um Escândalo" é muito inteligente em criar essa atmosfera de dúvidas com muita sabedoria - através do seu roteiro, de sua montagem e de sua direção. Ao lado das montadoras Liana Del Giudice (de "Marcella") e Mary Finlay (de "A Cor do Poder"), a diretora S.J. Clarkson (de "Succession") trabalha os flashbacks e os cortes rápidos (e desconexos) para fortalecer o conceito de narrativa fragmentada que gradualmente revela os segredos e as motivações dos personagens ao mesmo tempo em que sugere um forte senso de desorientação. Repare como as cenas de tribunal são intensas, capturando a pressão e o drama de um julgamento onde as questões de consentimento são colocadas em primeiro plano, mas é no recorte pontual das situações, com o uso de ângulos e lentes que distorcem a percepção do espaço, que encontramos o colapso de verdades que antes pareciam absolutas - isso é muito bacana.
O roteiro, de fato, é eficiente em construir uma narrativa que se equilibra o suspense com o drama mais psicológico. Kelley e Gibson exploram de forma hábil os dilemas morais e as complexidades de um escândalo sexual no meio político, mostrando o privilégio de maneira crítica e como isso molda a percepção da verdade ao ponto de influenciar os desfechos judiciais, e mais do que isso, ainda destacam o impacto devastador não apenas sobre as vítimas, mas também sobre as pessoas que cercam o acusado. Sophie, por exemplo, é uma mulher que vê seu mundo desmoronar ao questionar tudo o que sabia sobre o marido e sobre seu casamento - a performance de Sienna Miller é cheia de camadas, capturando a dor e a confusão de uma esposa que é forçada a confrontar a realidade que sempre tentou ignorar. Sua evolução ao longo da minissérie é convincente, pois ela passa de uma figura passiva e protetora para alguém que precisa lidar com as duras verdades sobre o homem com quem escolheu compartilhar sua vida. Rupert Friend entrega uma atuação sólida, interpretando esse homem que, apesar de seu charme e aparente vulnerabilidade, carrega um tom de arrogância e frieza. E Michelle Dockery, o que dizer? Ela consegue equilibrar a frieza profissional e o envolvimento emocional, tornando sua performance um dos pilares da minissérie, mas saiba que o charme da sua personagem está mesmo é no subtexto - pontuado pela hipocrisia no primeiro momento e na dura auto-avaliação mais a frente!
Obviamente que "Anatomia de um Escândalo" sofre com os clichês típicos de dramas jurídicos e escândalos políticos, podendo se tornar até previsível, mas para os amantes do gênero eu posso garantir que a minissérie é bastante eficaz em proporcionar um ótimo e rápido entretenimento (são apenas 6 episódios) ao mesmo tempo que provoca boas discussões sobre os mecanismos que sustentam os privilégios de poucos e sobre a realidade por trás dos escândalos que frequentemente vemos na tv. Para pensar sem esquecer de se divertir!
Vale o seu play!
"Antes do Inverno" é o típico drama de relações que nos provoca uma série de reflexões onde, sem dúvida, a principal é: o amor é capaz de superar todas as dificuldades mesmo com o passar dos anos? Certamente você já deve estar parando para pensar sobre o assunto e se eu estou certo, pode ter certeza que essa produção francesa dirigida pelo incrível Philippe Claudel (de "Une enfance"), é para você - mas lembre-se: a complexidade das relações humanas expostas no filme chega repleta de sutilezas e sem pressa para se conectar aos fatos, ou seja, a narrativa é inteligente, mas cadenciada, o que pode te incomodar, mas que fique claro que a história só cresce e que seu terceiro ato acaba colocando o filme em outro patamar.
Paul (Daniel Auteuil) é um neurocirurgião de 60 anos casado com Lucie (Kristin Scott Thomas). A monotonia do cotidiano toma conta do casal até que lindos buquês de rosas começam a ser entregues de forma anônima na casa deles, justamente no momento em que Lou (Leïla Bekhti), uma jovem de 20 anos, não para de cruzar o caminho de Paul - é aí que percebemos que algumas máscaras começam a cair e que muito do que vemos, na verdade, não passam de aparências. Confira o trailer:
Claramente Claudel se propõe a gerar muito mais perguntas do que respostas logo de cara. Com muita sensibilidade, o diretor pontua sua narrativa com o pacato dia a dia de um típico casal bem sucedido, já estabelecido profissionalmente, seguro financeiramente, mas completamente distante afetivamente. As questões que transitam por esse universo cada vez mais frio (daí vem o nome do filme), invocam dúvidas como se aquelas pessoas, de fato, não fossem realmente quem elas gostariam de ser. A vida de Paul e Lucie claramente é confortável, mas o vazio entre eles é tão ensurdecedor que realmente nos perguntamos se aquilo tudo era realmente o que eles sonharam para o futuro.
Com o tempo passando, a idade chegando e a necessidade de ser feliz sufocando, a narrativa nos joga com muita força na direção parede com outros questionamentos existenciais que chegam a incomodar nossa intimidade e até funcionar como uma espécie de gatilho emocional onde refletimos se, justamente antes da velhice, seria aquele o momento certo para revelar frases não ditas, discussões esquecidas ou os segredos guardados? Perceba como tudo que envolve Paul e Lucie poderia acontecer comigo ou com você e é nessa atmosfera de insegurança que a história passa a entregar suas pistas e algumas atitudes dos personagens passam a fazer mais sentido.
Se temos o marido nem tão infiel, mas que se faz parecer para se sentir vivo; ou a garota sem rumo, que precisa se apoiar em alguém para continuar seu caminho; ou a esposa independente que quer parecer mais forte do que realmente é; ou o melhor melhor amigo que cobiça aquela vida, para ele (e só para ele) perfeita; e até a irmã desequilibrada que, obviamente, é a única capaz de dizer as verdades, mesmo que sua condição a impeça de ser ouvida; é claro que todas essas personas soam clichês, mas a magia de Avant l'hiver (no original) está em justamente assumir a normalidade como uma visão muito mais complexa da vida - e é isso que nos prende, que nos conquista e que nos faz pensar profundamente!
Vale muito o seu play!
"Antes do Inverno" é o típico drama de relações que nos provoca uma série de reflexões onde, sem dúvida, a principal é: o amor é capaz de superar todas as dificuldades mesmo com o passar dos anos? Certamente você já deve estar parando para pensar sobre o assunto e se eu estou certo, pode ter certeza que essa produção francesa dirigida pelo incrível Philippe Claudel (de "Une enfance"), é para você - mas lembre-se: a complexidade das relações humanas expostas no filme chega repleta de sutilezas e sem pressa para se conectar aos fatos, ou seja, a narrativa é inteligente, mas cadenciada, o que pode te incomodar, mas que fique claro que a história só cresce e que seu terceiro ato acaba colocando o filme em outro patamar.
Paul (Daniel Auteuil) é um neurocirurgião de 60 anos casado com Lucie (Kristin Scott Thomas). A monotonia do cotidiano toma conta do casal até que lindos buquês de rosas começam a ser entregues de forma anônima na casa deles, justamente no momento em que Lou (Leïla Bekhti), uma jovem de 20 anos, não para de cruzar o caminho de Paul - é aí que percebemos que algumas máscaras começam a cair e que muito do que vemos, na verdade, não passam de aparências. Confira o trailer:
Claramente Claudel se propõe a gerar muito mais perguntas do que respostas logo de cara. Com muita sensibilidade, o diretor pontua sua narrativa com o pacato dia a dia de um típico casal bem sucedido, já estabelecido profissionalmente, seguro financeiramente, mas completamente distante afetivamente. As questões que transitam por esse universo cada vez mais frio (daí vem o nome do filme), invocam dúvidas como se aquelas pessoas, de fato, não fossem realmente quem elas gostariam de ser. A vida de Paul e Lucie claramente é confortável, mas o vazio entre eles é tão ensurdecedor que realmente nos perguntamos se aquilo tudo era realmente o que eles sonharam para o futuro.
Com o tempo passando, a idade chegando e a necessidade de ser feliz sufocando, a narrativa nos joga com muita força na direção parede com outros questionamentos existenciais que chegam a incomodar nossa intimidade e até funcionar como uma espécie de gatilho emocional onde refletimos se, justamente antes da velhice, seria aquele o momento certo para revelar frases não ditas, discussões esquecidas ou os segredos guardados? Perceba como tudo que envolve Paul e Lucie poderia acontecer comigo ou com você e é nessa atmosfera de insegurança que a história passa a entregar suas pistas e algumas atitudes dos personagens passam a fazer mais sentido.
Se temos o marido nem tão infiel, mas que se faz parecer para se sentir vivo; ou a garota sem rumo, que precisa se apoiar em alguém para continuar seu caminho; ou a esposa independente que quer parecer mais forte do que realmente é; ou o melhor melhor amigo que cobiça aquela vida, para ele (e só para ele) perfeita; e até a irmã desequilibrada que, obviamente, é a única capaz de dizer as verdades, mesmo que sua condição a impeça de ser ouvida; é claro que todas essas personas soam clichês, mas a magia de Avant l'hiver (no original) está em justamente assumir a normalidade como uma visão muito mais complexa da vida - e é isso que nos prende, que nos conquista e que nos faz pensar profundamente!
Vale muito o seu play!
"As Flores Perdidas de Alice Hart" é daquelas minisséries que você se pergunta: por que não assisti isso antes? É sério, que espetáculo de roteiro! Lançada em 2023 pela Prime Video, "As Flores Perdidas de Alice Hart"é um drama profundo que transita pelas nuances do trauma e do luto em uma atmosfera de muito mistério, onde a busca pela cura em meio à beleza e ao simbolismo das flores transforma nossa jornada em uma experiência das mais envolventes e surpreendentes. Criada por Sarah Lambert e baseada no romance homônimo de Holly Ringland, a produção é dirigida por Glendyn Ivin (do excelente "Em Prantos") e apresenta uma narrativa que, assim como "Big Little Lies" e "Sharp Objects", parte dos fantasmas mais íntimos para explorar questões delicadas como violência doméstica, laços familiares e autodescoberta.
A história acompanha Alice Hart (interpretada por Alycia Debnam-Carey na fase adulta e por Alyla Browne na infância), uma jovem que perde os pais em um incêndio traumático. Depois da tragédia, Alice vai morar com sua avó June (Sigourney Weaver) em uma fazenda remota chamada Thornfield, onde flores nativas são cultivadas e utilizadas para expressar sentimentos que palavras não conseguem transmitir. Ao longo dos anos, Alice descobre segredos obscuros sobre sua família e enfrenta os próprios demônios enquanto busca um caminho para a cura e para uma liberdade emocional. Confira o trailer (em inglês):
Mesmo que soe cadenciada em um primeiro momento, a narrativa proposta pela Sarah Lambert é muito fiel ao espírito da obra de Ringland, equilibrando a exploração emocional com o mistério que envolve os segredos familiares da protagonista. O roteiro é construída de forma não linear, utilizando a quebra temporal para revelar gradualmente as conexões entre alguns personagens - é essa estrutura que nos mantém intrigados, enquanto somos provocados a olhar por diversas perspectivas na busca por uma compreensão mais profunda das motivações e escolhas que moldam a trajetória de Alice. É aqui que entra a direção de Glendyn Ivin - sua sensibilidade e habilidade para construir momentos de introspecção através de uma narrativa visualmente rica, é de se aplaudir de pé. Já no primeiro episódio, mesmo com momentos realmente impactantes, temos a exata noção de que estamos diante de um profissional capaz de traduzir sensações em uma certa poesia visual - algo como o saudoso Jean-Marc Vallée fazia com maestria.
A fotografia de "As Flores Perdidas de Alice Hart" também chama atenção. O trabalho do Sam Chiplin (parceiro de Ivin em "Em Prantos") captura a beleza das paisagens australianas e das flores que servem como metáfora para as emoções dos personagens, de uma forma magnifica. A diversidade da paleta de cores e toda iluminação são cuidadosamente trabalhadas, refletindo tanto a serenidade quanto a tensão que permeiam a história. As flores e seu simbolismo, sem dúvida, funcionam como um elemento narrativo poderoso, adicionando profundidade e significado para a jornada. Alycia Debnam-Carey sabe transformar essa atmosfera semiótica, sutil e poderosa, em energia para sua Alice - repare como ela transmite a complexidade de sua personagem na luta para superar o passado e encontrar seu próprio lugar no mundo. Sigourney Weaver também entrega uma performance que merece destaque - contida e intensa, ela vai revelando as camadas de uma mulher forte, mas que é cheia de falhas e que carrega o peso dos segredos e das decisões difíceis que já teve que tomar. A química entre as duas, aliás, é essencial para dar o tom do relacionamento conturbado entre avó e neta. E rapidamente cito Alyla Browne, a Alice na infância - que atuação sensível e comovente. Olho nessa garota!
"As Flores Perdidas de Alice Hart" não tem medo de confrontar a dor e a complexidade das relações familiares, explorando o peso do trauma e como ele pode ser transmitido de geração em geração. Embora muitas vezes densa demais, a narrativa também oferece momentos de esperança, mostrando que é possível encontrar um certo significado mesmo em meio à escuridão. Se seu ritmo pode soar lento e introspectivo demais, entenda que é essa escolha conceitual que traz a profundidade emocional que a história merece. O que eu quero dizer é que estamos diante de uma minissérie diferente, visualmente deslumbrante e emocionalmente profunda, que sabe explorar as obscuridades da vida, pontuando perfeitamente o valor da resiliência e da autodescoberta como forma de sobrevivência sem esquecer da importância da sororidade.
Imperdível!
"As Flores Perdidas de Alice Hart" é daquelas minisséries que você se pergunta: por que não assisti isso antes? É sério, que espetáculo de roteiro! Lançada em 2023 pela Prime Video, "As Flores Perdidas de Alice Hart"é um drama profundo que transita pelas nuances do trauma e do luto em uma atmosfera de muito mistério, onde a busca pela cura em meio à beleza e ao simbolismo das flores transforma nossa jornada em uma experiência das mais envolventes e surpreendentes. Criada por Sarah Lambert e baseada no romance homônimo de Holly Ringland, a produção é dirigida por Glendyn Ivin (do excelente "Em Prantos") e apresenta uma narrativa que, assim como "Big Little Lies" e "Sharp Objects", parte dos fantasmas mais íntimos para explorar questões delicadas como violência doméstica, laços familiares e autodescoberta.
A história acompanha Alice Hart (interpretada por Alycia Debnam-Carey na fase adulta e por Alyla Browne na infância), uma jovem que perde os pais em um incêndio traumático. Depois da tragédia, Alice vai morar com sua avó June (Sigourney Weaver) em uma fazenda remota chamada Thornfield, onde flores nativas são cultivadas e utilizadas para expressar sentimentos que palavras não conseguem transmitir. Ao longo dos anos, Alice descobre segredos obscuros sobre sua família e enfrenta os próprios demônios enquanto busca um caminho para a cura e para uma liberdade emocional. Confira o trailer (em inglês):
Mesmo que soe cadenciada em um primeiro momento, a narrativa proposta pela Sarah Lambert é muito fiel ao espírito da obra de Ringland, equilibrando a exploração emocional com o mistério que envolve os segredos familiares da protagonista. O roteiro é construída de forma não linear, utilizando a quebra temporal para revelar gradualmente as conexões entre alguns personagens - é essa estrutura que nos mantém intrigados, enquanto somos provocados a olhar por diversas perspectivas na busca por uma compreensão mais profunda das motivações e escolhas que moldam a trajetória de Alice. É aqui que entra a direção de Glendyn Ivin - sua sensibilidade e habilidade para construir momentos de introspecção através de uma narrativa visualmente rica, é de se aplaudir de pé. Já no primeiro episódio, mesmo com momentos realmente impactantes, temos a exata noção de que estamos diante de um profissional capaz de traduzir sensações em uma certa poesia visual - algo como o saudoso Jean-Marc Vallée fazia com maestria.
A fotografia de "As Flores Perdidas de Alice Hart" também chama atenção. O trabalho do Sam Chiplin (parceiro de Ivin em "Em Prantos") captura a beleza das paisagens australianas e das flores que servem como metáfora para as emoções dos personagens, de uma forma magnifica. A diversidade da paleta de cores e toda iluminação são cuidadosamente trabalhadas, refletindo tanto a serenidade quanto a tensão que permeiam a história. As flores e seu simbolismo, sem dúvida, funcionam como um elemento narrativo poderoso, adicionando profundidade e significado para a jornada. Alycia Debnam-Carey sabe transformar essa atmosfera semiótica, sutil e poderosa, em energia para sua Alice - repare como ela transmite a complexidade de sua personagem na luta para superar o passado e encontrar seu próprio lugar no mundo. Sigourney Weaver também entrega uma performance que merece destaque - contida e intensa, ela vai revelando as camadas de uma mulher forte, mas que é cheia de falhas e que carrega o peso dos segredos e das decisões difíceis que já teve que tomar. A química entre as duas, aliás, é essencial para dar o tom do relacionamento conturbado entre avó e neta. E rapidamente cito Alyla Browne, a Alice na infância - que atuação sensível e comovente. Olho nessa garota!
"As Flores Perdidas de Alice Hart" não tem medo de confrontar a dor e a complexidade das relações familiares, explorando o peso do trauma e como ele pode ser transmitido de geração em geração. Embora muitas vezes densa demais, a narrativa também oferece momentos de esperança, mostrando que é possível encontrar um certo significado mesmo em meio à escuridão. Se seu ritmo pode soar lento e introspectivo demais, entenda que é essa escolha conceitual que traz a profundidade emocional que a história merece. O que eu quero dizer é que estamos diante de uma minissérie diferente, visualmente deslumbrante e emocionalmente profunda, que sabe explorar as obscuridades da vida, pontuando perfeitamente o valor da resiliência e da autodescoberta como forma de sobrevivência sem esquecer da importância da sororidade.
Imperdível!
Não existe outra forma de iniciar essa análise que não seja afirmando que se você gostou de "This is Us", você também vai gostar de "As Pequenas Coisas da Vida". Talvez inicialmente você perceba que alguns alívios cômicos podem diminuir o valor da comparação com a série da NBC, principalmente pela performance propositalmente descontrolada de Kathryn Hahn; mas não se engane, a forma como essa adaptação da obra homônima da autora Cheryl Strayed vai se ajustando para retratar os dramas das relações de um casal em crise e de uma mãe com sua filha pouco amorosa, é genial. Inegavelmente muito sensível, o roteiro sabe tocar em elementos dramáticos que vão te tirar da zona de conforto - pode apostar!
A série conta a história de Clare (Hahn), uma mulher que passa por um momento complicado da sua vida - no lado profissional, sua carreira como escritora praticamente não existe mais; já pelo lado pessoal, o casamento com Danny (Quentin Plair) está em ruínas e a relação com sua filha adolescente, Rae (Tanzyn Crawford), um verdadeiro caos. Quando Clare assume uma coluna virtual de conselhos "auto-ajuda" chamado "Dear Sugar", ela vê sua vida desdobrar-se em uma complexa teia de memórias e solidão. Confira o trailer:
Com uma proposta narrativa que contempla duas linhas temporais que conceitualmente vão se cruzando, dando a exata sensação de que a protagonista precisa revisitar seu passado para poder lidar com os problemas do presente, "As Pequenas Coisas da Vida" mais acerta do que erra. Tentando equilibrar os rápidos episódios de meia hora para que tenhamos fôlego para suportar o drama até o final da temporada, e bem como "This is Us", a série que tem Reese Witherspoon e Laura Dern como produtoras executivas, vai conectando os pontos de forma bem homeopática, o que gera um certo desconforto inicialmente, mas que com o passar dos episódios vai fazendo sentido - a história do primeiro casamento de Claire é um bom exemplo dessa estratégia que brinca com nossa curiosidade.
Sob a supervisão da competente Liz Tigelaar (de "Little Fires Everywhere"), "As Pequenas Coisas da Vida" surpreende demais por quebrar nossa expectativa a cada episódio sem parecer estar perdendo o rumo. Veja, se inicialmente os conselhos de "Dear Sugar" podem parecer o elo entre a vida de Claire, do passado com o presente, é na dor da protagonista ao longo desse recorte temporal, nas suas imperfeições como ser humano e como tudo isso impactou em sua vida, que é onde a história ganha em profundidade. É claro que o conceito da narração em off ajuda a pontuar a trama quase como uma crônica, mas é lindo como a direção se aproveita do lúdico para dar sentido a tudo que é falado.
Com um elenco de peso que ainda conta com Merritt Wever como Frankie, a mãe de Clare, essa série original do Hulu vai mexer com suas emoções ao trazer temas que vão do amor incondicional à perda irreparável, passando pelos traumas familiares que exploram as complexidades e contradições da vida e das relações humanas em diversas camadas. Sim, “As Pequenas Coisas da Vida” é uma jornada de fato inspiradora, que mostra a importância de conexões autênticas e do amor verdadeiro para superar as adversidades e encontrar a felicidade, seja lá onde ela estiver - mas aviso: não será simples!
Vale muito o seu play!
Não existe outra forma de iniciar essa análise que não seja afirmando que se você gostou de "This is Us", você também vai gostar de "As Pequenas Coisas da Vida". Talvez inicialmente você perceba que alguns alívios cômicos podem diminuir o valor da comparação com a série da NBC, principalmente pela performance propositalmente descontrolada de Kathryn Hahn; mas não se engane, a forma como essa adaptação da obra homônima da autora Cheryl Strayed vai se ajustando para retratar os dramas das relações de um casal em crise e de uma mãe com sua filha pouco amorosa, é genial. Inegavelmente muito sensível, o roteiro sabe tocar em elementos dramáticos que vão te tirar da zona de conforto - pode apostar!
A série conta a história de Clare (Hahn), uma mulher que passa por um momento complicado da sua vida - no lado profissional, sua carreira como escritora praticamente não existe mais; já pelo lado pessoal, o casamento com Danny (Quentin Plair) está em ruínas e a relação com sua filha adolescente, Rae (Tanzyn Crawford), um verdadeiro caos. Quando Clare assume uma coluna virtual de conselhos "auto-ajuda" chamado "Dear Sugar", ela vê sua vida desdobrar-se em uma complexa teia de memórias e solidão. Confira o trailer:
Com uma proposta narrativa que contempla duas linhas temporais que conceitualmente vão se cruzando, dando a exata sensação de que a protagonista precisa revisitar seu passado para poder lidar com os problemas do presente, "As Pequenas Coisas da Vida" mais acerta do que erra. Tentando equilibrar os rápidos episódios de meia hora para que tenhamos fôlego para suportar o drama até o final da temporada, e bem como "This is Us", a série que tem Reese Witherspoon e Laura Dern como produtoras executivas, vai conectando os pontos de forma bem homeopática, o que gera um certo desconforto inicialmente, mas que com o passar dos episódios vai fazendo sentido - a história do primeiro casamento de Claire é um bom exemplo dessa estratégia que brinca com nossa curiosidade.
Sob a supervisão da competente Liz Tigelaar (de "Little Fires Everywhere"), "As Pequenas Coisas da Vida" surpreende demais por quebrar nossa expectativa a cada episódio sem parecer estar perdendo o rumo. Veja, se inicialmente os conselhos de "Dear Sugar" podem parecer o elo entre a vida de Claire, do passado com o presente, é na dor da protagonista ao longo desse recorte temporal, nas suas imperfeições como ser humano e como tudo isso impactou em sua vida, que é onde a história ganha em profundidade. É claro que o conceito da narração em off ajuda a pontuar a trama quase como uma crônica, mas é lindo como a direção se aproveita do lúdico para dar sentido a tudo que é falado.
Com um elenco de peso que ainda conta com Merritt Wever como Frankie, a mãe de Clare, essa série original do Hulu vai mexer com suas emoções ao trazer temas que vão do amor incondicional à perda irreparável, passando pelos traumas familiares que exploram as complexidades e contradições da vida e das relações humanas em diversas camadas. Sim, “As Pequenas Coisas da Vida” é uma jornada de fato inspiradora, que mostra a importância de conexões autênticas e do amor verdadeiro para superar as adversidades e encontrar a felicidade, seja lá onde ela estiver - mas aviso: não será simples!
Vale muito o seu play!
Martin Scorsese é um dos maiores cineastas da história do cinema - isso não há como negar. Com uma carreira de mais de 50 anos, ele já dirigiu alguns dos filmes mais importantes e aclamados de todos os tempos, como "Taxi Driver", "Os Bons Companheiros", "Cassino" e "A Invenção de Hugo Cabret", só para citar os clássicos. Scorsese já foi indicado 9 vezes ao Oscar de "Melhor Diretor" e venceu por "Os Infiltrados". De fato um currículo de respeito e é certamente por isso que nos propomos a assistir mais de três horas e meia de seu mais recente trabalho, o drama "Assassinos da Lua das Flores". Olha, o filme é realmente muito bom, dos melhores de sua carreira como diretor, mas meu amigo, é longo demais! Será preciso uma dose extra de empolgação para encarar essa jornada, mesmo sabendo que a qualidade técnica e artística é tão alta que nem vemos o tempo passar. "Assassinos da Lua das Flores" é mais uma prova do talento e da maestria de Scorsese, mas como uma minissérie, a experiência seria bem menos cansativa.
Baseado no livro homônimo de David Grann, "Assassinos da Lua das Flores" conta a história real de uma série de assassinatos misteriosos que ocorreram na década de 1920 na tribo indígena Osage, no estado americano de Oklahoma. Os Osage eram donos de terras ricas em petróleo, e suas mortes levantaram suspeitas de que poderiam ter sido encomendadas por pessoas que queriam se apoderar de suas riquezas, especialmente William Hale (Robert De Niro). Confira o trailer:
Produzido pela AppleTV+ e estrelado por Leonardo DiCaprio, Jesse Plemons, Robert De Niro e Lily Gladstone, "Assassinos da Lua das Flores" tem todos os elementos que fazem os olhos dos votantes do Oscar brilhar. Sério, o filme é de cair o queixo - pela qualidade, pelo tamanho da produção, e, claro, pela forma que Scorsese reproduziu uma atmosfera de recorrente tensão e desconfiança, em pleno anos 20, com tanta perfeição. Você analisa os detalhes, destrincha o roteiro, repara em tudo e não encontra um vacilo sequer - é impressionante como a direção de Scorsese é impecável ao ponto de prender nossa atenção do início ao fim, em um misto de horror e poesia. Reparem como o roteiro do genial Eric Roth (vencedor do Oscar por "Forrest Gump" e indicado mais seis vezes, a última por "Duna") transita com perfeição entre a ganância, a vaidade e o desejo do individuo que se sobrepõe ao meio em que a história acontece - eu diria, uma espécie de faroeste macabro onde a tensão e a violência desenfreada dão o tom das relações sociais e humanas pela perspectiva de quem sofre e de quem comete crimes tão brutais.
DiCaprio interpreta Ernest Burkhart, um homem branco que se casa com uma mulher Osage, Mollie (Lily Gladstone), e se torna um dos responsáveis por articular os crimes a mando do tio William - e aqui cabe um observação sobre o texto: se inicialmente tudo fica subentendido, com o passar do tempo as motivações e ações ficam completamente escancaradas. Em nenhum momento o roteiro se propõe a seguir a sinopse, criar um mistério e gerar dúvidas - tudo é muito claro, no entanto são nas consequências intimas dos personagens que a trama ganha profundidade e reflexão (e talvez por isso o filme não tenha sido uma unanimidade). As performances dos atores são excelentes: DiCaprio dá um tom de complexidade e ambivalência ao seu Ernest que, na minha opinião, o credenciaria, no mínimo, para uma indicação ao Oscar. Já Lily Gladstone, essa vai ser a barbada do ano na categoria "Melhor Atriz", pode me cobrar depois.
Se "Assassinos da Lua das Flores" sabe explorar temas como corrupção e preconceito com certa brutalidade no seu "conteúdo", mas saiba que é na sua "forma" que o filme oferece uma visão verdadeiramente fascinante sobre aquele período turbulento da história americana. A fotografia do Rodrigo Prieto (mexicano parceiro de Alejandro G. Iñárritu e indicado cinco vezes ao Oscar) e a trilha sonora de Robbie Robertson (de "O Irlandês") provocam na audiência um misto de emoções que se alternam entre a tensão e a preocupação, e com aquela típica frieza do diretor, narra visualmente um banho de sangue étnico, com suas consequências sociais e impactos psicológicos, de um jeito onde o cinema parece funcionar, mais uma vez, como uma janela para muito do que acontece nos dias de hoje ao redor do nosso planeta.
Obrigado Scorsese!
Vale muito o play. Vale muito a reflexão!
Martin Scorsese é um dos maiores cineastas da história do cinema - isso não há como negar. Com uma carreira de mais de 50 anos, ele já dirigiu alguns dos filmes mais importantes e aclamados de todos os tempos, como "Taxi Driver", "Os Bons Companheiros", "Cassino" e "A Invenção de Hugo Cabret", só para citar os clássicos. Scorsese já foi indicado 9 vezes ao Oscar de "Melhor Diretor" e venceu por "Os Infiltrados". De fato um currículo de respeito e é certamente por isso que nos propomos a assistir mais de três horas e meia de seu mais recente trabalho, o drama "Assassinos da Lua das Flores". Olha, o filme é realmente muito bom, dos melhores de sua carreira como diretor, mas meu amigo, é longo demais! Será preciso uma dose extra de empolgação para encarar essa jornada, mesmo sabendo que a qualidade técnica e artística é tão alta que nem vemos o tempo passar. "Assassinos da Lua das Flores" é mais uma prova do talento e da maestria de Scorsese, mas como uma minissérie, a experiência seria bem menos cansativa.
Baseado no livro homônimo de David Grann, "Assassinos da Lua das Flores" conta a história real de uma série de assassinatos misteriosos que ocorreram na década de 1920 na tribo indígena Osage, no estado americano de Oklahoma. Os Osage eram donos de terras ricas em petróleo, e suas mortes levantaram suspeitas de que poderiam ter sido encomendadas por pessoas que queriam se apoderar de suas riquezas, especialmente William Hale (Robert De Niro). Confira o trailer:
Produzido pela AppleTV+ e estrelado por Leonardo DiCaprio, Jesse Plemons, Robert De Niro e Lily Gladstone, "Assassinos da Lua das Flores" tem todos os elementos que fazem os olhos dos votantes do Oscar brilhar. Sério, o filme é de cair o queixo - pela qualidade, pelo tamanho da produção, e, claro, pela forma que Scorsese reproduziu uma atmosfera de recorrente tensão e desconfiança, em pleno anos 20, com tanta perfeição. Você analisa os detalhes, destrincha o roteiro, repara em tudo e não encontra um vacilo sequer - é impressionante como a direção de Scorsese é impecável ao ponto de prender nossa atenção do início ao fim, em um misto de horror e poesia. Reparem como o roteiro do genial Eric Roth (vencedor do Oscar por "Forrest Gump" e indicado mais seis vezes, a última por "Duna") transita com perfeição entre a ganância, a vaidade e o desejo do individuo que se sobrepõe ao meio em que a história acontece - eu diria, uma espécie de faroeste macabro onde a tensão e a violência desenfreada dão o tom das relações sociais e humanas pela perspectiva de quem sofre e de quem comete crimes tão brutais.
DiCaprio interpreta Ernest Burkhart, um homem branco que se casa com uma mulher Osage, Mollie (Lily Gladstone), e se torna um dos responsáveis por articular os crimes a mando do tio William - e aqui cabe um observação sobre o texto: se inicialmente tudo fica subentendido, com o passar do tempo as motivações e ações ficam completamente escancaradas. Em nenhum momento o roteiro se propõe a seguir a sinopse, criar um mistério e gerar dúvidas - tudo é muito claro, no entanto são nas consequências intimas dos personagens que a trama ganha profundidade e reflexão (e talvez por isso o filme não tenha sido uma unanimidade). As performances dos atores são excelentes: DiCaprio dá um tom de complexidade e ambivalência ao seu Ernest que, na minha opinião, o credenciaria, no mínimo, para uma indicação ao Oscar. Já Lily Gladstone, essa vai ser a barbada do ano na categoria "Melhor Atriz", pode me cobrar depois.
Se "Assassinos da Lua das Flores" sabe explorar temas como corrupção e preconceito com certa brutalidade no seu "conteúdo", mas saiba que é na sua "forma" que o filme oferece uma visão verdadeiramente fascinante sobre aquele período turbulento da história americana. A fotografia do Rodrigo Prieto (mexicano parceiro de Alejandro G. Iñárritu e indicado cinco vezes ao Oscar) e a trilha sonora de Robbie Robertson (de "O Irlandês") provocam na audiência um misto de emoções que se alternam entre a tensão e a preocupação, e com aquela típica frieza do diretor, narra visualmente um banho de sangue étnico, com suas consequências sociais e impactos psicológicos, de um jeito onde o cinema parece funcionar, mais uma vez, como uma janela para muito do que acontece nos dias de hoje ao redor do nosso planeta.
Obrigado Scorsese!
Vale muito o play. Vale muito a reflexão!
"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!
O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:
"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.
Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").
Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também).
"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.
Vale muito a pena!
Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção!
"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!
O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:
"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.
Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").
Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também).
"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.
Vale muito a pena!
Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção!
"Athena" chama muito mais atenção por sua experiência visual do que propriamente por um roteiro impecável - e isso não é um grande problema se lembrarmos de "1917", que segue justamente esse mesmo conceito (dadas as devidas proporções técnicas e de orçamento). Aqui, é possível perceber que o filme do francês Romain Gavras usa de elementos dramáticos extremamente atuais, muitos deles referenciados no grande sucesso "Os Miseráveis", de 2019, para entregar uma dinâmica focada no caos, muito mais próxima do mexicano "Nuevo Orden", inclusive.
Em um Conjunto Habitacional conhecido como Athena, um crime brutal abala toda a comunidade. A trágica história se passa na vida de três jovens, que têm os seus destinos completamente transformados quando o irmão mais novo é morto sob circunstâncias inexplicáveis. Os irmãos de origem argelina e indignados com o assassinato, dão início a uma cruzada em busca de respostas e de justiça, cada um da sua maneira. Porém os embates violentos em Athena colocam eles no centro de um conflito, obrigando-os a ressignificar o luto e a dor em uma revolta organizada de enormes proporções. Confira o trailer (em inglês):
É de se admirar a escolha de Gavras em acompanhar seus personagens principais a partir de longos e eficientes planos sequência - o do prólogo, por exemplo, é de uma qualidade técnica e artística de fazer inveja a muito diretor experiente. No entanto a pirotecnia visual acaba se sobressaindo perante um roteiro que beira a superficialidade, mesmo quando traz para discussão assuntos relevantes como a realidade multicultural na França e a intolerância que essa condição provoca. Dos três irmãos (e protagonistas), Abdel (Dali Benssalah) e Karim (Sami Slimane) possuem arcos até que interessantes (e corajosos); já o terceiro, que segue Moktar (Ouassini Embarek), eu diria que é completamente dispensável.
De fato, a impressão que dá é que "Athena" poderia ser uma minissérie de 4 episódios tranquilamente - com os três primeiros contando a história do ponto de vista de cada um dos irmãos e o quarto seguindo o policial Jérôme (Anthony Bajon). Dito isso, Gavras se apoia no roteiro (que contou com a ilustre colaboração de Ladj Ly de "Os Miseráveis") para priorizar muito mais o "movimento" do que a "profundidade" - isso impacta na nossa percepção do caos, do barril de pólvora que já explodiu, criando uma sensação de desconforto impressionante, mas acaba prejudicando aqueles que buscam um pouco mais de camadas para nos conectarmos emocionalmente com os personagens. A impressão é que são tantas histórias para contar que o filme acaba não contando nenhuma delas tão bem.
Ainda que "Athena" seja um filme de muita (muita mesmo) qualidade, extremamente bem filmado e com várias sequências inacreditáveis de tão boas; as emoções e a indignação que a morte de um jovem naquelas condições provocaria, não florescem. Isso deixa muito claro que aqui, o drama deu lugar para a ação da mesma forma que a reflexão sucumbiu ao entretenimento. Funciona? Sim, funciona muito bem, mas como recomendação sugiro que antes de "Athena" você assista "Os Miseráveis" para que todo esse contexto social e cultural faça ainda mais sentido na narrativa como um todo.
Vale seu play!
"Athena" chama muito mais atenção por sua experiência visual do que propriamente por um roteiro impecável - e isso não é um grande problema se lembrarmos de "1917", que segue justamente esse mesmo conceito (dadas as devidas proporções técnicas e de orçamento). Aqui, é possível perceber que o filme do francês Romain Gavras usa de elementos dramáticos extremamente atuais, muitos deles referenciados no grande sucesso "Os Miseráveis", de 2019, para entregar uma dinâmica focada no caos, muito mais próxima do mexicano "Nuevo Orden", inclusive.
Em um Conjunto Habitacional conhecido como Athena, um crime brutal abala toda a comunidade. A trágica história se passa na vida de três jovens, que têm os seus destinos completamente transformados quando o irmão mais novo é morto sob circunstâncias inexplicáveis. Os irmãos de origem argelina e indignados com o assassinato, dão início a uma cruzada em busca de respostas e de justiça, cada um da sua maneira. Porém os embates violentos em Athena colocam eles no centro de um conflito, obrigando-os a ressignificar o luto e a dor em uma revolta organizada de enormes proporções. Confira o trailer (em inglês):
É de se admirar a escolha de Gavras em acompanhar seus personagens principais a partir de longos e eficientes planos sequência - o do prólogo, por exemplo, é de uma qualidade técnica e artística de fazer inveja a muito diretor experiente. No entanto a pirotecnia visual acaba se sobressaindo perante um roteiro que beira a superficialidade, mesmo quando traz para discussão assuntos relevantes como a realidade multicultural na França e a intolerância que essa condição provoca. Dos três irmãos (e protagonistas), Abdel (Dali Benssalah) e Karim (Sami Slimane) possuem arcos até que interessantes (e corajosos); já o terceiro, que segue Moktar (Ouassini Embarek), eu diria que é completamente dispensável.
De fato, a impressão que dá é que "Athena" poderia ser uma minissérie de 4 episódios tranquilamente - com os três primeiros contando a história do ponto de vista de cada um dos irmãos e o quarto seguindo o policial Jérôme (Anthony Bajon). Dito isso, Gavras se apoia no roteiro (que contou com a ilustre colaboração de Ladj Ly de "Os Miseráveis") para priorizar muito mais o "movimento" do que a "profundidade" - isso impacta na nossa percepção do caos, do barril de pólvora que já explodiu, criando uma sensação de desconforto impressionante, mas acaba prejudicando aqueles que buscam um pouco mais de camadas para nos conectarmos emocionalmente com os personagens. A impressão é que são tantas histórias para contar que o filme acaba não contando nenhuma delas tão bem.
Ainda que "Athena" seja um filme de muita (muita mesmo) qualidade, extremamente bem filmado e com várias sequências inacreditáveis de tão boas; as emoções e a indignação que a morte de um jovem naquelas condições provocaria, não florescem. Isso deixa muito claro que aqui, o drama deu lugar para a ação da mesma forma que a reflexão sucumbiu ao entretenimento. Funciona? Sim, funciona muito bem, mas como recomendação sugiro que antes de "Athena" você assista "Os Miseráveis" para que todo esse contexto social e cultural faça ainda mais sentido na narrativa como um todo.
Vale seu play!
"Atlanta" é uma espécie de "O Urso", só que 2016 - e não por acaso produzidos na mesma casa, a FX. A série criada pelo ator Donald Glover é uma verdadeira e criativa jornada subversiva através da cultura negra americana. Imperdível por desafiar as convenções do drama ao trazer para sua narrativa fortes elementos de comédia, daquelas bem irônicas mesmo, "Atlanta" brilha ao equilibrar os tons e assim explorar temas nada superficiais como o racismo, a busca por uma identidade e por alguns sonhos, todos pautados pelo forte apelo dos problemas sociais, mas sem pesar muito no realismo crítico. Vencedora de diversos prêmios, incluindo 7 Emmys, a série se junta a outras produções aclamadas que quebram barreiras narrativas e apresentam novas perspectivas para um entretenimento de qualidade e muito potente.
A trama gira em torno de Earnest "Earn" Marks (Donald Glover) que tenta convencer seu primo, o rapper Paperboy (Bryan Tyree Henry) que é capaz de gerenciar sua carreira e torná-lo um artista de grande sucesso. Porém, os dois discordam em diversos pontos sobre a vida, arte e entretenimento, especialmente tendo a cultura do hip-hop como base para cada decisão. Earn ainda precisa lidar com a mãe de sua filha, Van (Zazie Beets), e com o colaborador do primo, Darius (LaKeith Stainfield), em uma jornada surreal pelos bastidores da indústria musical na busca por ascensão, dinheiro e sucesso. Confira o trailer:
É inegável que a primeira temporada da série surpreende ao estabelecer um tom irreverente e surrealista com episódios que abordam assuntos delicados de uma forma inovadora e muito instigante - existe uma espécie de licença poética dando ares de fantasia em um cenário associado com a austeridade. A fotografia, por exemplo, foge da sujeira estética do "caos" de cada personagem, trazendo uma certa plasticidade para os enquadramentos, que vale dizer, extremamente inventivos. Obviamente que a trilha sonora brinca com essa proposta de Glover criando uma atmosfera tão diferenciada quanto envolvente.
Seguindo as demais temporadas, a série se aprofunda na exploração da psique dos personagens, mergulhando em temas como traumas familiares e como isso pode impactar na busca pelo sucesso. Aqui a direção se torna ainda mais ousada, com episódios que experimentam diferentes formatos e estilos narrativos, dando um charme ainda maior aos testes feitos na primeira temporada - especialmente daquele plot envolvendo certo carro invisível.
O fato é que as quatro temporadas de "Atlanta" vão desafiando nossas expectativas (e em alguns momentos dividindo opiniões) ao apresentar uma visão ainda mais complexa da vida daqueles personagens até encontrar um ótimo final. Com um elenco que brilha pela originalidade a cada episódio e uma trama que sabe ser inovadora e ousada por oferecer uma visão única da cultura americana, é possível afirmar que essa série é, de fato, uma experiência imperdível para quem procura algo desafiador como entretenimento - e vale ressaltar que se para muitos "Atlanta" surge como uma das melhores séries de todos os tempos, para outros a receptividade não foi tão impactante assim!
Independente disso, experimente o play!
"Atlanta" é uma espécie de "O Urso", só que 2016 - e não por acaso produzidos na mesma casa, a FX. A série criada pelo ator Donald Glover é uma verdadeira e criativa jornada subversiva através da cultura negra americana. Imperdível por desafiar as convenções do drama ao trazer para sua narrativa fortes elementos de comédia, daquelas bem irônicas mesmo, "Atlanta" brilha ao equilibrar os tons e assim explorar temas nada superficiais como o racismo, a busca por uma identidade e por alguns sonhos, todos pautados pelo forte apelo dos problemas sociais, mas sem pesar muito no realismo crítico. Vencedora de diversos prêmios, incluindo 7 Emmys, a série se junta a outras produções aclamadas que quebram barreiras narrativas e apresentam novas perspectivas para um entretenimento de qualidade e muito potente.
A trama gira em torno de Earnest "Earn" Marks (Donald Glover) que tenta convencer seu primo, o rapper Paperboy (Bryan Tyree Henry) que é capaz de gerenciar sua carreira e torná-lo um artista de grande sucesso. Porém, os dois discordam em diversos pontos sobre a vida, arte e entretenimento, especialmente tendo a cultura do hip-hop como base para cada decisão. Earn ainda precisa lidar com a mãe de sua filha, Van (Zazie Beets), e com o colaborador do primo, Darius (LaKeith Stainfield), em uma jornada surreal pelos bastidores da indústria musical na busca por ascensão, dinheiro e sucesso. Confira o trailer:
É inegável que a primeira temporada da série surpreende ao estabelecer um tom irreverente e surrealista com episódios que abordam assuntos delicados de uma forma inovadora e muito instigante - existe uma espécie de licença poética dando ares de fantasia em um cenário associado com a austeridade. A fotografia, por exemplo, foge da sujeira estética do "caos" de cada personagem, trazendo uma certa plasticidade para os enquadramentos, que vale dizer, extremamente inventivos. Obviamente que a trilha sonora brinca com essa proposta de Glover criando uma atmosfera tão diferenciada quanto envolvente.
Seguindo as demais temporadas, a série se aprofunda na exploração da psique dos personagens, mergulhando em temas como traumas familiares e como isso pode impactar na busca pelo sucesso. Aqui a direção se torna ainda mais ousada, com episódios que experimentam diferentes formatos e estilos narrativos, dando um charme ainda maior aos testes feitos na primeira temporada - especialmente daquele plot envolvendo certo carro invisível.
O fato é que as quatro temporadas de "Atlanta" vão desafiando nossas expectativas (e em alguns momentos dividindo opiniões) ao apresentar uma visão ainda mais complexa da vida daqueles personagens até encontrar um ótimo final. Com um elenco que brilha pela originalidade a cada episódio e uma trama que sabe ser inovadora e ousada por oferecer uma visão única da cultura americana, é possível afirmar que essa série é, de fato, uma experiência imperdível para quem procura algo desafiador como entretenimento - e vale ressaltar que se para muitos "Atlanta" surge como uma das melhores séries de todos os tempos, para outros a receptividade não foi tão impactante assim!
Independente disso, experimente o play!
"Atypical" é uma série pequena, mas muito bem estruturada. Ela conta a história de uma família onde o filho mais velho é autista. O interessante (e acho que o mérito maior da série) é que ela aborda temas bem pesados, atitudes e consequências delicadas, mas equilibra essa narrativa com certa leveza - na linha de "Extraordinário"! Ela mostra o problema, pontua com uma trilha excelente, mas depois não fica fazendo drama com assunto, pois cada um dos personagens lidam com suas atitudes de uma forma bem particular e adulta. Confira o trailer:
O protagonista de "Atypical", Sam (Keir Gilchrist) é um típico adolescente americano que está no ensino médio e passando por todos os dilemas da idade - com o diferencial de ser autista! Ao redor dele, além dos estereótipos clássicos que estamos acostumados a encontrar em séries desse tipo, está uma família um pouco confusa e amigos que desconsideram as reais necessidades de Sam. O interessante do roteiro é perceber algumas peculiaridades que, mesmo elevando um pouco o tom das relações, nos aproximam de uma realidade dramática e legítima. Vejam os personagens da mãe (Jennifer Jason Leigh) e do pai (Michael Rapaport) de Sam: eles caminham em jornadas completamente opostas, mesmo tendo o filho como referência - reparem e não se preocupem, o julgamento é justamente proposta pelo texto; mesmo que por empatia!
Outra personagem que merece destaque é a irmã Casey (Brigette Lundy-Paine) - mesmo que pareça um pouco ignorante de início, ela sabe lidar com Sam como poucas, com o silêncio ou até na gritaria, porém ela personifica seu amor através da compreensão, deixando de lado as relações de uma adolescente que vive os mesmos dilemas do irmão, só que em outra dimensão! O fato é que o roteiro trabalha muito bem essa dualidade, com a simplicidade do dia a dia e o desajuste de uma situação bem particular.
"Atypical" tem uma trama básica sobre problemas familiares que nos conquista logo de cara - é um ótimo exemplo de um bom drama fantasiado de comédia, que de boba não tem nada! O roteiro não se apoia na pieguice, ele questiona as atitudes de todos os personagens de maneira descontraída e mostra que ser normal é a missão mais complicada de todas, para todos!
Vale muito a pena!
"Atypical" é uma série pequena, mas muito bem estruturada. Ela conta a história de uma família onde o filho mais velho é autista. O interessante (e acho que o mérito maior da série) é que ela aborda temas bem pesados, atitudes e consequências delicadas, mas equilibra essa narrativa com certa leveza - na linha de "Extraordinário"! Ela mostra o problema, pontua com uma trilha excelente, mas depois não fica fazendo drama com assunto, pois cada um dos personagens lidam com suas atitudes de uma forma bem particular e adulta. Confira o trailer:
O protagonista de "Atypical", Sam (Keir Gilchrist) é um típico adolescente americano que está no ensino médio e passando por todos os dilemas da idade - com o diferencial de ser autista! Ao redor dele, além dos estereótipos clássicos que estamos acostumados a encontrar em séries desse tipo, está uma família um pouco confusa e amigos que desconsideram as reais necessidades de Sam. O interessante do roteiro é perceber algumas peculiaridades que, mesmo elevando um pouco o tom das relações, nos aproximam de uma realidade dramática e legítima. Vejam os personagens da mãe (Jennifer Jason Leigh) e do pai (Michael Rapaport) de Sam: eles caminham em jornadas completamente opostas, mesmo tendo o filho como referência - reparem e não se preocupem, o julgamento é justamente proposta pelo texto; mesmo que por empatia!
Outra personagem que merece destaque é a irmã Casey (Brigette Lundy-Paine) - mesmo que pareça um pouco ignorante de início, ela sabe lidar com Sam como poucas, com o silêncio ou até na gritaria, porém ela personifica seu amor através da compreensão, deixando de lado as relações de uma adolescente que vive os mesmos dilemas do irmão, só que em outra dimensão! O fato é que o roteiro trabalha muito bem essa dualidade, com a simplicidade do dia a dia e o desajuste de uma situação bem particular.
"Atypical" tem uma trama básica sobre problemas familiares que nos conquista logo de cara - é um ótimo exemplo de um bom drama fantasiado de comédia, que de boba não tem nada! O roteiro não se apoia na pieguice, ele questiona as atitudes de todos os personagens de maneira descontraída e mostra que ser normal é a missão mais complicada de todas, para todos!
Vale muito a pena!