indika.tv - ml-relacoes

Barry

"Barry" é muito bom, interessante, mas sem um conflito que nos provoque! Aqui, temos um filme de personagem, mas antes dele se transformar no protagonista, na personalidade, no homem admirado: estou falando de Barack Obama.

O filme se passa no início da década de 80, quando o jovem Barry era um dos poucos estudantes negros na Universidade de Columbia, em Nova York. Enquanto namora uma jovem branca e rica, Charlotte (Anya Taylor-Joy), ele começa a questionar o racismo estrutural nos EUA, passando por várias experiências e dificuldades de adaptação, não só como universitário, mas também em relação aos seus colegas onde o senso de não-pertencimento o incomodava mais do que sua própria incapacidade de mudar o mundo. Confira o trailer (em inglês):

Embora a produção tenha sido encabeçada por dois estreantes: o diretor Vikram Gandhi e o roteirista Adam Mansbach; "Barry" é muito competente em mostrar um recorte importante da vida de Obama sem cair na armadilha de querer evidenciar a todo momento sua enorme capacidade intelectual e de comunicação. Na verdade, o filme mostra muito mais suas fraquezas do que suas qualidades. Um dos elementos narrativos que mais me chamou a atenção foi a falta de pertencimento que ele sentia por estar rodeado de brancos - inclusive esse é um ponto que dificultava o relacionamento com sua mãe, Stanley Ann Dunham (Ashley Judd) - uma americana especializada em antropologia econômica e desenvolvimento rural que vivia há algum tempo na Indonésia. Aliás, o filme bate muito na tecla de como uma estrutura familiar frágil impactou tanto na vida do futuro presidente dos EUA - talvez isso explique muito de sua relação com Michelle e suas duas filhas.

Pois bem, outro assunto muito discutido no roteiro diz respeito ao racismo e aqui eu acho que Mansbach perdeu um pouco a mão, pois ele não soube se aproveitar das situações absurdas que Obama passou para levantar questões tão importantes sobre o assunto -  a impressão que dá é que o roteiro quer aproveitar de uma discussão legítima para categorizar quem é do bem e quem é do mal pela cor de pele. Quando o roteiro aproveita da fragilidade de Obama para discutir suas inseguranças, a história ganha força, mas isso oscila muito - não que atrapalhe a experiência de quem assiste, mas é um fato.

O jovem Devon Terrell não compromete, mas ele não está no nível de Anya Taylor-Joy. Eu diria que o personagem merecia um ator mais experiente - ainda mais pelo estilo narrativo muito focado na performance do elenco. Aliás, existe um senso de inquietação durante todo filme, como se esperássemos uma bomba explodir a qualquer momento e é isso que nos move durante essa jornada. Nem de longe será um filme inesquecível, mas admito que foi muito curioso conhecer um lado de Barack Obama que nem imaginava se encaixar na sua personalidade.

Por isso, vale o play!

Assista Agora

"Barry" é muito bom, interessante, mas sem um conflito que nos provoque! Aqui, temos um filme de personagem, mas antes dele se transformar no protagonista, na personalidade, no homem admirado: estou falando de Barack Obama.

O filme se passa no início da década de 80, quando o jovem Barry era um dos poucos estudantes negros na Universidade de Columbia, em Nova York. Enquanto namora uma jovem branca e rica, Charlotte (Anya Taylor-Joy), ele começa a questionar o racismo estrutural nos EUA, passando por várias experiências e dificuldades de adaptação, não só como universitário, mas também em relação aos seus colegas onde o senso de não-pertencimento o incomodava mais do que sua própria incapacidade de mudar o mundo. Confira o trailer (em inglês):

Embora a produção tenha sido encabeçada por dois estreantes: o diretor Vikram Gandhi e o roteirista Adam Mansbach; "Barry" é muito competente em mostrar um recorte importante da vida de Obama sem cair na armadilha de querer evidenciar a todo momento sua enorme capacidade intelectual e de comunicação. Na verdade, o filme mostra muito mais suas fraquezas do que suas qualidades. Um dos elementos narrativos que mais me chamou a atenção foi a falta de pertencimento que ele sentia por estar rodeado de brancos - inclusive esse é um ponto que dificultava o relacionamento com sua mãe, Stanley Ann Dunham (Ashley Judd) - uma americana especializada em antropologia econômica e desenvolvimento rural que vivia há algum tempo na Indonésia. Aliás, o filme bate muito na tecla de como uma estrutura familiar frágil impactou tanto na vida do futuro presidente dos EUA - talvez isso explique muito de sua relação com Michelle e suas duas filhas.

Pois bem, outro assunto muito discutido no roteiro diz respeito ao racismo e aqui eu acho que Mansbach perdeu um pouco a mão, pois ele não soube se aproveitar das situações absurdas que Obama passou para levantar questões tão importantes sobre o assunto -  a impressão que dá é que o roteiro quer aproveitar de uma discussão legítima para categorizar quem é do bem e quem é do mal pela cor de pele. Quando o roteiro aproveita da fragilidade de Obama para discutir suas inseguranças, a história ganha força, mas isso oscila muito - não que atrapalhe a experiência de quem assiste, mas é um fato.

O jovem Devon Terrell não compromete, mas ele não está no nível de Anya Taylor-Joy. Eu diria que o personagem merecia um ator mais experiente - ainda mais pelo estilo narrativo muito focado na performance do elenco. Aliás, existe um senso de inquietação durante todo filme, como se esperássemos uma bomba explodir a qualquer momento e é isso que nos move durante essa jornada. Nem de longe será um filme inesquecível, mas admito que foi muito curioso conhecer um lado de Barack Obama que nem imaginava se encaixar na sua personalidade.

Por isso, vale o play!

Assista Agora

Barry

Eu não teria me surpreendido se soubesse que "Barry" tivesse sido criado por Vince Gilligan - e se você sabe exatamente do que estou falando, você também já sabe o que vai encontrar nessa série sensacional (e que já foi finalizada) da HBO. Criada por Alec Berg (showrunner de "Silicon Valley") e Bill Hader (que também é o protagonista da série, mas foi redator por muitos anos em "Saturday Night Live"), "Barry" é daquelas séries que surpreendem pela forma única como mistura gêneros, aparentemente opostos, com maestria - aqui temos uma comédia mais ácida (e sombria) com um drama existencial profundo e, em muitos momentos, perturbador. Com um estilo narrativo que lembra (e muito) "Breaking Bad", a série brilha pela sua abordagem honesta perante o anti-herói ao ponto de ser considerada uma das produções mais ousadas e inteligentes da HBO nos últimos anos - não por acaso considerada o "Breaking Bad" da HBO.

A trama, basicamente, gira em torno de Barry Berkman (Bill Hader), um ex-fuzileiro naval que trabalha como assassino profissional, profundamente deprimido e buscando algum sentido para sua existência vazia. Ao ser enviado para Los Angeles em mais uma missão, ele acidentalmente acaba se interessando por um curso de atuação ministrado pelo excêntrico professor Gene Cousineau (Henry Winkler). Fascinado pela possibilidade de recomeçar e talvez até mesmo abandonar sua violenta vida passada, Barry decide se tornar ator, algo que claramente não combina com seu perfil introvertido, rígido e perturbado. Esse conflito entre suas duas vidas, uma brutal e a outra artística, é o coração pulsante da série e a razão que vai te fazer ficar grudado na tela por quatro temporadas. Confira o trailer (em inglês):

"Barry" sabe brincar com nossa percepção e, principalmente, quebrar nossas expectativas - isso é raro e maravilhoso de assistir. A forma como Berg e Hader transitam entre momentos hilários e sequências profundamente inquietantes é primorosa - não por acaso a série já recebeu mais de 50 indicações ao Emmy (ganhando 10). O roteiro é extremamente afiado, daqueles que jamais subestimam a audiência, entregando diálogos inteligentes, cheios de sarcasmo e ironia. Hader, aliás, não apenas co-escreve e protagoniza, como também dirige vários dos episódios mais emblemáticos, destacando-se por sua capacidade notável de equilibrar o tom da narrativa sempre carregado de reflexões em várias camadas.

Um dos maiores trunfos da série é justamente o desempenho de Bill Hader como Barry - ele entrega a atuação mais memorável de sua carreira. Famoso por seu trabalho cômico no "Saturday Night Live", ele surpreende ao revelar uma capacidade dramática poderosa, conferindo a Barry nuances bastante complexas e, claro, provocativas. Através de sua performance minimalista e quase sempre silenciosa, Hader consegue mostrar toda a profundidade de um personagem que tinha tudo para cair no caricato. Repare como ele é capaz de transmitir, constantemente, aquela sensação de perigo iminente, tensão e culpa - bem na linha das que também assombraram o inesquecível Walter White de Bryan Cranston. Outro nome que merece sua atenção é o de Henry Winkler - ele rouba muitas cenas como o professor de atuação narcisista e sem noção. Winkler, que foi indicado ao Emmy em todos os anos que a série esteve no ar (ganhando em 2018), traz carisma e humor ao personagem, proporcionando momentos de leveza tão necessários em meio à densidade emocional que muitas vezes a trama cria. Outro grande destaque, claro, é Anthony Carrigan como NoHo Hank - um mafioso checheno cuja simpatia, ingenuidade e senso de humor absurdo o transformaram em um dos personagens favoritos da audiência, funcionando também como um alívio cômico constante em meio ao caos violento que cerca Barry.

Do ponto de vista técnico, "Barry" é excepcional. A fotografia é precisa, muitas vezes crua, algo que contribui para amplificar a atmosfera emocional e ameaçadora da série - talvez aqui esteja sua grande sacada ao se distanciar do calor contrastado e potente da Albuquerque de "Breaking Bad". A direção dos episódios, por outro lado, repete o ritmo quase cinematográfico, especialmente nas sequências de ação, da série de Gilligan - tudo é filmado com uma elegância surpreendente. É muito interessante como a dinâmica narrativa imposta pela direção e montagem nos deixa em um estado constante de tensão, angustia e expectativa! Mas calma, a série também brilha em suas reflexões mais profundas - Barry não é apenas sobre um assassino tentando mudar de vida: é uma análise muito mais complexa sobre a identidade de um ex-combatente, sobre o trauma do passado, sobre a culpa de algumas escolhas e, principalmente, sobre a possibilidade (ou impossibilidade) de uma redenção. Ao explorar essas camadas morais, "Barry" frequentemente subverte expectativas narrativas, levando a audiência a discutir sobre os limites éticos e as consequências de nossas escolhas.

Enfim, "Barry" é uma das produções mais originais, instigantes e inteligentes disponíveis nos catálogos do streaming - se eu fosse você não deixaria de dar o play!

Assista Agora

Eu não teria me surpreendido se soubesse que "Barry" tivesse sido criado por Vince Gilligan - e se você sabe exatamente do que estou falando, você também já sabe o que vai encontrar nessa série sensacional (e que já foi finalizada) da HBO. Criada por Alec Berg (showrunner de "Silicon Valley") e Bill Hader (que também é o protagonista da série, mas foi redator por muitos anos em "Saturday Night Live"), "Barry" é daquelas séries que surpreendem pela forma única como mistura gêneros, aparentemente opostos, com maestria - aqui temos uma comédia mais ácida (e sombria) com um drama existencial profundo e, em muitos momentos, perturbador. Com um estilo narrativo que lembra (e muito) "Breaking Bad", a série brilha pela sua abordagem honesta perante o anti-herói ao ponto de ser considerada uma das produções mais ousadas e inteligentes da HBO nos últimos anos - não por acaso considerada o "Breaking Bad" da HBO.

A trama, basicamente, gira em torno de Barry Berkman (Bill Hader), um ex-fuzileiro naval que trabalha como assassino profissional, profundamente deprimido e buscando algum sentido para sua existência vazia. Ao ser enviado para Los Angeles em mais uma missão, ele acidentalmente acaba se interessando por um curso de atuação ministrado pelo excêntrico professor Gene Cousineau (Henry Winkler). Fascinado pela possibilidade de recomeçar e talvez até mesmo abandonar sua violenta vida passada, Barry decide se tornar ator, algo que claramente não combina com seu perfil introvertido, rígido e perturbado. Esse conflito entre suas duas vidas, uma brutal e a outra artística, é o coração pulsante da série e a razão que vai te fazer ficar grudado na tela por quatro temporadas. Confira o trailer (em inglês):

"Barry" sabe brincar com nossa percepção e, principalmente, quebrar nossas expectativas - isso é raro e maravilhoso de assistir. A forma como Berg e Hader transitam entre momentos hilários e sequências profundamente inquietantes é primorosa - não por acaso a série já recebeu mais de 50 indicações ao Emmy (ganhando 10). O roteiro é extremamente afiado, daqueles que jamais subestimam a audiência, entregando diálogos inteligentes, cheios de sarcasmo e ironia. Hader, aliás, não apenas co-escreve e protagoniza, como também dirige vários dos episódios mais emblemáticos, destacando-se por sua capacidade notável de equilibrar o tom da narrativa sempre carregado de reflexões em várias camadas.

Um dos maiores trunfos da série é justamente o desempenho de Bill Hader como Barry - ele entrega a atuação mais memorável de sua carreira. Famoso por seu trabalho cômico no "Saturday Night Live", ele surpreende ao revelar uma capacidade dramática poderosa, conferindo a Barry nuances bastante complexas e, claro, provocativas. Através de sua performance minimalista e quase sempre silenciosa, Hader consegue mostrar toda a profundidade de um personagem que tinha tudo para cair no caricato. Repare como ele é capaz de transmitir, constantemente, aquela sensação de perigo iminente, tensão e culpa - bem na linha das que também assombraram o inesquecível Walter White de Bryan Cranston. Outro nome que merece sua atenção é o de Henry Winkler - ele rouba muitas cenas como o professor de atuação narcisista e sem noção. Winkler, que foi indicado ao Emmy em todos os anos que a série esteve no ar (ganhando em 2018), traz carisma e humor ao personagem, proporcionando momentos de leveza tão necessários em meio à densidade emocional que muitas vezes a trama cria. Outro grande destaque, claro, é Anthony Carrigan como NoHo Hank - um mafioso checheno cuja simpatia, ingenuidade e senso de humor absurdo o transformaram em um dos personagens favoritos da audiência, funcionando também como um alívio cômico constante em meio ao caos violento que cerca Barry.

Do ponto de vista técnico, "Barry" é excepcional. A fotografia é precisa, muitas vezes crua, algo que contribui para amplificar a atmosfera emocional e ameaçadora da série - talvez aqui esteja sua grande sacada ao se distanciar do calor contrastado e potente da Albuquerque de "Breaking Bad". A direção dos episódios, por outro lado, repete o ritmo quase cinematográfico, especialmente nas sequências de ação, da série de Gilligan - tudo é filmado com uma elegância surpreendente. É muito interessante como a dinâmica narrativa imposta pela direção e montagem nos deixa em um estado constante de tensão, angustia e expectativa! Mas calma, a série também brilha em suas reflexões mais profundas - Barry não é apenas sobre um assassino tentando mudar de vida: é uma análise muito mais complexa sobre a identidade de um ex-combatente, sobre o trauma do passado, sobre a culpa de algumas escolhas e, principalmente, sobre a possibilidade (ou impossibilidade) de uma redenção. Ao explorar essas camadas morais, "Barry" frequentemente subverte expectativas narrativas, levando a audiência a discutir sobre os limites éticos e as consequências de nossas escolhas.

Enfim, "Barry" é uma das produções mais originais, instigantes e inteligentes disponíveis nos catálogos do streaming - se eu fosse você não deixaria de dar o play!

Assista Agora

Baseado Numa História Real

Se você é fã de true crime (mas fã mesmo), você vai se amarrar em "Baseado Numa História Real" - não por ser mais uma trama do gênero, mas pela forma como a narrativa brinca com os elementos dramáticos tão característicos para construir mistérios que vem conquistando uma audiência absurda nos últimos anos. "Baseado Numa História Real" está para o true crime, da mesma forma que Silicon Valley está para o universo de startups. Lançada em 2023 pelo Peacock e aqui distribuída pelo Globoplay, a série criada por Craig Rosenberg (de, nada menos que, "The Boys"), combina a leveza da sátira com a densidade do suspense para explorar a obsessão contemporânea com crimes reais e a cultura dos podcasts sobre o assunto. Com uma abordagem que mescla humor ácido (um tanto sombrio em vários momentos), mistério e crítica social, "Baseado Numa História Real" questiona o fascínio que o público tem por histórias de crimes violentos, enquanto cria uma jornada envolvente e, por vezes, desconcertante.

A trama gira em torno de Ava (Kaley Cuoco) e Nathan (Chris Messina), um casal de Los Angeles que, ao enfrentar dificuldades financeiras, vê uma oportunidade lucrativa quando descobrem que alguém próximo a eles pode ser um assassino em série. Em vez de denunciar o criminoso, eles decidem criar um podcast de crime real, capitalizando o fascínio público por esse tipo de conteúdo. Ao longo dos 8 episódios, o casal se vê envolvido em uma série de eventos cada vez mais perigosos e fora de controle, enquanto tentam equilibrar suas vidas pessoais e o desejo de sucesso na mídia. Confira o trailer:

Uma das forças de "Baseado Numa História Real", sem dúvida, é a forma como a série satiriza a obsessão moderna por crimes reais - menos pastelão de que "Only Murders in the Building"e menos criativa que "Depois da Festa", no entanto igualmente divertida e possivelmente mais equilibrada do que as duas. Se criação de podcasts e séries documentais sobre assassinatos se tornou um fenômeno da cultura pop, a série de Craig Rosenberg captura muito bem a ironia dessa obsessão ao questionar o quanto as pessoas estão dispostas a explorar o sofrimento real em nome do entretenimento (e, óbvio, do dinheiro). Ava e Nathan, longe de serem heróis tradicionais, se tornam cúmplices morais na exploração de uma tragédia para seus próprios ganhos, o que faz a audiência refletir sobre a linha tênue entre a curiosidade e a hipocrisia.

A série se destaca também pelo tom sarcástico, mesmo quando lida com temas perturbadores ou cenas visualmente impactantes. O humor negro do roteiro permeia os diálogos e as situações absurdas em que Ava e Nathan se metem - o que ajuda nesse equilíbrio entre o suspense crescente e os momentos mais leves da história. Essa mistura de comédia e tensão, aliás, é uma das marcas registradas da narrativa de Rosenberg, basta lembrar de "The Boys, porém, aqui, com episódios mais curtos e uma trama que avança rapidamente, a narrativa precisa ser realmente eficaz para manter o engajamento. Repleta de reviravoltas inesperadas que, embora por vezes exageradas, mantêm o tom cômico e satírico, a série usa e abusa de um ar de imprevisibilidade que funciona demais! Kaley Cuoco parece se reinventar mais uma vez - ela oferece uma atuação divertida e cheia de camadas. Repare como ela é competente ao criar uma mulher desesperada para revitalizar sua vida e seu casamento, ao mesmo tempo em que se vê fascinada pela possibilidade de sucesso financeiro com o podcast. E aí a química com Chris Messina se faz valer - é o marido cético e pragmático que, apesar de inicialmente hesitante, acaba sendo atraído pela ideia da mulher amada, o que cria uma dinâmica interessante entre o casal.

Já pelo título, a crítica que "Baseado Numa História Real" faz ao consumo desenfreado de histórias de crimes reais, levanta questões sobre a moralidade de transformar a brutalidade em entretenimento e a forma como o público, muitas vezes, se desconecta da realidade por trás dessas histórias. Os protagonistas que inicialmente começam o podcast como uma solução para seus problemas, rapidamente percebem que estão em um caminho perigoso e que pode ter consequências reais - esse "comentário" sobre a desumanização do trágico na cultura moderna dá à série uma profundidade surpreendente, fazendo com que "as entrelinhas" cheguem muito além de um comédia superficial.

Vale a pena conferir!

Assista Agora

Se você é fã de true crime (mas fã mesmo), você vai se amarrar em "Baseado Numa História Real" - não por ser mais uma trama do gênero, mas pela forma como a narrativa brinca com os elementos dramáticos tão característicos para construir mistérios que vem conquistando uma audiência absurda nos últimos anos. "Baseado Numa História Real" está para o true crime, da mesma forma que Silicon Valley está para o universo de startups. Lançada em 2023 pelo Peacock e aqui distribuída pelo Globoplay, a série criada por Craig Rosenberg (de, nada menos que, "The Boys"), combina a leveza da sátira com a densidade do suspense para explorar a obsessão contemporânea com crimes reais e a cultura dos podcasts sobre o assunto. Com uma abordagem que mescla humor ácido (um tanto sombrio em vários momentos), mistério e crítica social, "Baseado Numa História Real" questiona o fascínio que o público tem por histórias de crimes violentos, enquanto cria uma jornada envolvente e, por vezes, desconcertante.

A trama gira em torno de Ava (Kaley Cuoco) e Nathan (Chris Messina), um casal de Los Angeles que, ao enfrentar dificuldades financeiras, vê uma oportunidade lucrativa quando descobrem que alguém próximo a eles pode ser um assassino em série. Em vez de denunciar o criminoso, eles decidem criar um podcast de crime real, capitalizando o fascínio público por esse tipo de conteúdo. Ao longo dos 8 episódios, o casal se vê envolvido em uma série de eventos cada vez mais perigosos e fora de controle, enquanto tentam equilibrar suas vidas pessoais e o desejo de sucesso na mídia. Confira o trailer:

Uma das forças de "Baseado Numa História Real", sem dúvida, é a forma como a série satiriza a obsessão moderna por crimes reais - menos pastelão de que "Only Murders in the Building"e menos criativa que "Depois da Festa", no entanto igualmente divertida e possivelmente mais equilibrada do que as duas. Se criação de podcasts e séries documentais sobre assassinatos se tornou um fenômeno da cultura pop, a série de Craig Rosenberg captura muito bem a ironia dessa obsessão ao questionar o quanto as pessoas estão dispostas a explorar o sofrimento real em nome do entretenimento (e, óbvio, do dinheiro). Ava e Nathan, longe de serem heróis tradicionais, se tornam cúmplices morais na exploração de uma tragédia para seus próprios ganhos, o que faz a audiência refletir sobre a linha tênue entre a curiosidade e a hipocrisia.

A série se destaca também pelo tom sarcástico, mesmo quando lida com temas perturbadores ou cenas visualmente impactantes. O humor negro do roteiro permeia os diálogos e as situações absurdas em que Ava e Nathan se metem - o que ajuda nesse equilíbrio entre o suspense crescente e os momentos mais leves da história. Essa mistura de comédia e tensão, aliás, é uma das marcas registradas da narrativa de Rosenberg, basta lembrar de "The Boys, porém, aqui, com episódios mais curtos e uma trama que avança rapidamente, a narrativa precisa ser realmente eficaz para manter o engajamento. Repleta de reviravoltas inesperadas que, embora por vezes exageradas, mantêm o tom cômico e satírico, a série usa e abusa de um ar de imprevisibilidade que funciona demais! Kaley Cuoco parece se reinventar mais uma vez - ela oferece uma atuação divertida e cheia de camadas. Repare como ela é competente ao criar uma mulher desesperada para revitalizar sua vida e seu casamento, ao mesmo tempo em que se vê fascinada pela possibilidade de sucesso financeiro com o podcast. E aí a química com Chris Messina se faz valer - é o marido cético e pragmático que, apesar de inicialmente hesitante, acaba sendo atraído pela ideia da mulher amada, o que cria uma dinâmica interessante entre o casal.

Já pelo título, a crítica que "Baseado Numa História Real" faz ao consumo desenfreado de histórias de crimes reais, levanta questões sobre a moralidade de transformar a brutalidade em entretenimento e a forma como o público, muitas vezes, se desconecta da realidade por trás dessas histórias. Os protagonistas que inicialmente começam o podcast como uma solução para seus problemas, rapidamente percebem que estão em um caminho perigoso e que pode ter consequências reais - esse "comentário" sobre a desumanização do trágico na cultura moderna dá à série uma profundidade surpreendente, fazendo com que "as entrelinhas" cheguem muito além de um comédia superficial.

Vale a pena conferir!

Assista Agora

Batalha Bilionária

"Batalha Bilionária: O Caso Google Earth" é um verdadeiro estudo de caso para empreendedores e suas startups - são tantas lições inseridas em um ótimo roteiro que fica até difícil classificar a minissérie de 4 episódios da Netflix em "apenas" um excelente entretenimento - embora o seja! A título de referência, ele segue bem a linha de "A Rede Social", filme de 2010, dirigido por David Fincher.

Baseada em fatos reais, "Batalha Bilionária: O Caso Google Earth" conta a história de dois jovens empreendedores, Juri Müller (Marius Ahrendt/Misel Maticevic) e Carsten Schlüter (Leonard Scheicher/Mark Waschke), criadores da startup "ART + COM", com sede em Berlim, que foram buscar na justiça seus direitos para serem reconhecidos como os verdadeiros inventores do algoritmo que deu origem ao Google Earth após uma violação de patente há mais de 25 anos atrás. Confira o trailer:

Criada por Oliver Ziegenbalg e Robert Thalheim, essa produção alemã fez uma escolha muito interessante ao priorizar o lado mais fraco da disputa. Se em "A Rede Social" a trama trouxe a perspectiva do vencedor, no caso Mark Zuckerberg, em "Batalha Bilionária" é como se o foco fosse os irmãos Winklevoss. 

Veja, embora o roteiro tenha sido muito feliz ao trazer para a tela muitos diálogos fiéis aos testemunhos judiciais, os protagonistas em si, Juri Müller e Carsten Schlüter, são apenas personagens fictícios - na verdade eles servem como representação dos quatro desenvolvedores alemães reais que criaram o "TerraVision" (base do Google Earth). Outro personagem importante, Brian Anderson (Lukas Loughran), a pessoa que supostamente copiou o algoritmo dos alemães antes de se tornar funcionário Google, também só existe na ficção, mesmo sendo fielmente baseado em uma pessoa real. O fato é que essas escolhas tinham tudo para desqualificar a sensação de veracidade da minissérie, mas o diretor Robert Thalheim conseguiu justamente o contrário - brilhantemente, ele criou uma dinâmica narrativa que absorve o lado humano da jornada, gerando uma identificação imediata com os protagonistas e uma relação de empatia muito profunda para depois, pouco a pouco, ir inserindo as discussões técnicas em si.

As sacadas do roteiro são ótimas - mas aqueles que estão mais envolvidos com empreendedorismo certamente vão aproveitar melhor dessa particularidade. Da idéia, passando pelo sonho, a luta por investimento, inúmeras apresentações, o medo do fracasso, a busca por mais investimentos, outro sonho - agora da venda da empresa; enfim, tudo está em "Batalha Bilionária: O Caso Google Earth" que ainda chega embalada por uma competente reconstrução de época de uma Berlin underground do inicio dos anos 90, do surgimento do Vale do Silício nos EUA e de sua cativante atmosfera empreendedora. Aqui cabe uma observação: apesar da Netflix ter apresentado a minissérie como um drama de tribunal, é apenas no último episódio que esse subgênero ganha força. Ele vai servir como aquele grande final que todos estão esperando: o embate decisivo entre David e Golias - mas a verdade é que toda a jornada vale a pena.

"Batalha Bilionária: O Caso Google Earth" vai te surpreender!

Assista Agora

"Batalha Bilionária: O Caso Google Earth" é um verdadeiro estudo de caso para empreendedores e suas startups - são tantas lições inseridas em um ótimo roteiro que fica até difícil classificar a minissérie de 4 episódios da Netflix em "apenas" um excelente entretenimento - embora o seja! A título de referência, ele segue bem a linha de "A Rede Social", filme de 2010, dirigido por David Fincher.

Baseada em fatos reais, "Batalha Bilionária: O Caso Google Earth" conta a história de dois jovens empreendedores, Juri Müller (Marius Ahrendt/Misel Maticevic) e Carsten Schlüter (Leonard Scheicher/Mark Waschke), criadores da startup "ART + COM", com sede em Berlim, que foram buscar na justiça seus direitos para serem reconhecidos como os verdadeiros inventores do algoritmo que deu origem ao Google Earth após uma violação de patente há mais de 25 anos atrás. Confira o trailer:

Criada por Oliver Ziegenbalg e Robert Thalheim, essa produção alemã fez uma escolha muito interessante ao priorizar o lado mais fraco da disputa. Se em "A Rede Social" a trama trouxe a perspectiva do vencedor, no caso Mark Zuckerberg, em "Batalha Bilionária" é como se o foco fosse os irmãos Winklevoss. 

Veja, embora o roteiro tenha sido muito feliz ao trazer para a tela muitos diálogos fiéis aos testemunhos judiciais, os protagonistas em si, Juri Müller e Carsten Schlüter, são apenas personagens fictícios - na verdade eles servem como representação dos quatro desenvolvedores alemães reais que criaram o "TerraVision" (base do Google Earth). Outro personagem importante, Brian Anderson (Lukas Loughran), a pessoa que supostamente copiou o algoritmo dos alemães antes de se tornar funcionário Google, também só existe na ficção, mesmo sendo fielmente baseado em uma pessoa real. O fato é que essas escolhas tinham tudo para desqualificar a sensação de veracidade da minissérie, mas o diretor Robert Thalheim conseguiu justamente o contrário - brilhantemente, ele criou uma dinâmica narrativa que absorve o lado humano da jornada, gerando uma identificação imediata com os protagonistas e uma relação de empatia muito profunda para depois, pouco a pouco, ir inserindo as discussões técnicas em si.

As sacadas do roteiro são ótimas - mas aqueles que estão mais envolvidos com empreendedorismo certamente vão aproveitar melhor dessa particularidade. Da idéia, passando pelo sonho, a luta por investimento, inúmeras apresentações, o medo do fracasso, a busca por mais investimentos, outro sonho - agora da venda da empresa; enfim, tudo está em "Batalha Bilionária: O Caso Google Earth" que ainda chega embalada por uma competente reconstrução de época de uma Berlin underground do inicio dos anos 90, do surgimento do Vale do Silício nos EUA e de sua cativante atmosfera empreendedora. Aqui cabe uma observação: apesar da Netflix ter apresentado a minissérie como um drama de tribunal, é apenas no último episódio que esse subgênero ganha força. Ele vai servir como aquele grande final que todos estão esperando: o embate decisivo entre David e Golias - mas a verdade é que toda a jornada vale a pena.

"Batalha Bilionária: O Caso Google Earth" vai te surpreender!

Assista Agora

Batem à Porta

Batem à Porta

Certamente "Batem à Porta" não tem a profundidade de "Mãe!", da mesma forma que M. Night Shyamalan não tem a genialidade de Darren Aronofsky. No entanto, é muito provável que se você gostou de um dos filmes, você também gostará do outro - e o inverso será verdadeiro. Veja, é inegável a força da identidade de um diretor como Shyamalan, seu nome virou sinônimo de reviravoltas narrativas e atmosferas de suspense carregadas de tensão psicológica - ele, de fato, domina essa gramática como poucos e seus filmes sempre vão dividir opiniões. Em "Batem à Porta", adaptação do livro "The Cabin at the End of the World" de Paul Tremblay, isso não será diferente já que o cineasta, mais uma vez, se apropria de uma premissa inquietante para construir um thriller verdadeiramente claustrofóbico, que sabe explorar dilemas morais, elementos de fanatismo e, principalmente, sabe construir a sensação de medo perante o desconhecido, mas evita a ação gratuita - apenas para citar sua cinematografia, é como se Shyamalan revisitasse "Sinais" e "Fim dos Tempos" para se inspirar e buscar o equilíbrio em pró do entretenimento. O resultado, é preciso que se diga, não é (e nem será) inesquecível, mas merece demais a sua atenção pela forma cheia de simbolismos como a narrativa cria um conflito que transita entre uma ameaça que pode estar tanto do mundo exterior quanto do íntimo dos personagens - o que desafia nossa percepção ao mesmo tempo que provoca muita reflexão.

A trama de "Knock at the Cabin", no original, acompanha o casal Eric (Jonathan Groff) e Andrew (Ben Aldridge), que viajam com a filha adotiva, Wen (Kristen Cui), para uma cabana isolada no meio da floresta. A tranquilidade da viagem é abruptamente interrompida quando quatro estranhos invadem o local e os fazem reféns. O líder do grupo, Leonard (Dave Bautista), afirma que a família precisa tomar uma decisão impensável: sacrificar um de seus membros para evitar um possível apocalipse. Confira o trailer e sinta o clima:

O maior mérito de "Batem à Porta" é, à medida que a tensão cresce, como o filme brinca com nossa percepção - especialmente ao manter a dúvida sobre a veracidade da profecia ou se tudo não passa de uma ilusão coletiva alimentada pelo extremismo religioso dos invasores. Justamente por isso, Shyamalan adota um ritmo mais contido durante a narrativa, evitando o espetáculo e apostando muito mais em uma abordagem intimista e opressiva do que no impacto visual - esse é um dos pontos que pode, mas não deveria, decepcionar parta da audiência. A fotografia do genial Jarin Blaschke (de "O Farol" e "Nosferatu" ) cumpre seu papel ao reforçar essa sensação de angústia por usar e abusar de planos fechados e de um jogo de luz e sombra que intensifica o suspense da história. O uso de close-ups extremos contribui para uma atmosfera sufocante, colocando a audiência no centro do desespero dos personagens - especialmente quando Shyamalan sugere mais do que mostra. Repare como a ausência de grandes sequências de ação mantém o foco na psicologia dos envolvidos, transformando "Batem à Porta" em um exercício de tensão contínua dos mais bem sucedidos.

Dave Bautista entrega uma performance surpreendente, fugindo dos papéis caricatos que se acostumou para aqui interpretar um personagem complexo, que equilibra uma certa doçura com lapsos de ameaça - tudo a partir de nuances impressionantes. Jonathan Groff e Ben Aldridge também se destacam, transmitindo com intensidade o desespero e o ceticismo de seus personagens, enquanto a jovem Kristen Cui, em sua estreia no cinema, adiciona um componente emocional essencial, representando a inocência e o amor incondicional diante do caos. Seguindo essa linha de raciocínio, aliás, minha única critica ao filme diz respeito ao desenvolvimento de alguns dos personagens coadjuvantes - suas histórias poderiam ser mais interessantes, impactantes até, se a lógica de conexão de Redmond (Rupert Grint) com os protagonistas fosse a mesma entre todos (vocês vão entender assim que os créditos subirem).

Pois bem, embora a premissa de "Batem à Porta" seja intrigante e o suspense funcione na maior parte do tempo, Shyamalan opta por uma resolução mais clara e direta do que no livro de Paul Tremblay - que mantém uma ambiguidade mais marcante. Isso pode frustrar aqueles que esperam um encerramento mais enigmático, porém a decisão do diretor de suavizar alguns elementos da obra original, que naturalmente dilui parte do impacto emocional e filosófico da história, deixa a experiência mais próxima do entretenimento do que daquele peso perturbador de assistir "Mãe!", por exemplo.

Saiba que o filme é eficiente ao explorar questões sobre fé, sacrifício e sobre o poder das crenças diante do absurdo, dito isso, não tenho a menor dúvida que "Batem à Porta" foi subestimado, mas que muitos vão se envolver e se empatizar com o drama de daquela família diante de uma decisão que pode mudar os rumos da humanidade. Vale seu play!

Assista Agora

Certamente "Batem à Porta" não tem a profundidade de "Mãe!", da mesma forma que M. Night Shyamalan não tem a genialidade de Darren Aronofsky. No entanto, é muito provável que se você gostou de um dos filmes, você também gostará do outro - e o inverso será verdadeiro. Veja, é inegável a força da identidade de um diretor como Shyamalan, seu nome virou sinônimo de reviravoltas narrativas e atmosferas de suspense carregadas de tensão psicológica - ele, de fato, domina essa gramática como poucos e seus filmes sempre vão dividir opiniões. Em "Batem à Porta", adaptação do livro "The Cabin at the End of the World" de Paul Tremblay, isso não será diferente já que o cineasta, mais uma vez, se apropria de uma premissa inquietante para construir um thriller verdadeiramente claustrofóbico, que sabe explorar dilemas morais, elementos de fanatismo e, principalmente, sabe construir a sensação de medo perante o desconhecido, mas evita a ação gratuita - apenas para citar sua cinematografia, é como se Shyamalan revisitasse "Sinais" e "Fim dos Tempos" para se inspirar e buscar o equilíbrio em pró do entretenimento. O resultado, é preciso que se diga, não é (e nem será) inesquecível, mas merece demais a sua atenção pela forma cheia de simbolismos como a narrativa cria um conflito que transita entre uma ameaça que pode estar tanto do mundo exterior quanto do íntimo dos personagens - o que desafia nossa percepção ao mesmo tempo que provoca muita reflexão.

A trama de "Knock at the Cabin", no original, acompanha o casal Eric (Jonathan Groff) e Andrew (Ben Aldridge), que viajam com a filha adotiva, Wen (Kristen Cui), para uma cabana isolada no meio da floresta. A tranquilidade da viagem é abruptamente interrompida quando quatro estranhos invadem o local e os fazem reféns. O líder do grupo, Leonard (Dave Bautista), afirma que a família precisa tomar uma decisão impensável: sacrificar um de seus membros para evitar um possível apocalipse. Confira o trailer e sinta o clima:

O maior mérito de "Batem à Porta" é, à medida que a tensão cresce, como o filme brinca com nossa percepção - especialmente ao manter a dúvida sobre a veracidade da profecia ou se tudo não passa de uma ilusão coletiva alimentada pelo extremismo religioso dos invasores. Justamente por isso, Shyamalan adota um ritmo mais contido durante a narrativa, evitando o espetáculo e apostando muito mais em uma abordagem intimista e opressiva do que no impacto visual - esse é um dos pontos que pode, mas não deveria, decepcionar parta da audiência. A fotografia do genial Jarin Blaschke (de "O Farol" e "Nosferatu" ) cumpre seu papel ao reforçar essa sensação de angústia por usar e abusar de planos fechados e de um jogo de luz e sombra que intensifica o suspense da história. O uso de close-ups extremos contribui para uma atmosfera sufocante, colocando a audiência no centro do desespero dos personagens - especialmente quando Shyamalan sugere mais do que mostra. Repare como a ausência de grandes sequências de ação mantém o foco na psicologia dos envolvidos, transformando "Batem à Porta" em um exercício de tensão contínua dos mais bem sucedidos.

Dave Bautista entrega uma performance surpreendente, fugindo dos papéis caricatos que se acostumou para aqui interpretar um personagem complexo, que equilibra uma certa doçura com lapsos de ameaça - tudo a partir de nuances impressionantes. Jonathan Groff e Ben Aldridge também se destacam, transmitindo com intensidade o desespero e o ceticismo de seus personagens, enquanto a jovem Kristen Cui, em sua estreia no cinema, adiciona um componente emocional essencial, representando a inocência e o amor incondicional diante do caos. Seguindo essa linha de raciocínio, aliás, minha única critica ao filme diz respeito ao desenvolvimento de alguns dos personagens coadjuvantes - suas histórias poderiam ser mais interessantes, impactantes até, se a lógica de conexão de Redmond (Rupert Grint) com os protagonistas fosse a mesma entre todos (vocês vão entender assim que os créditos subirem).

Pois bem, embora a premissa de "Batem à Porta" seja intrigante e o suspense funcione na maior parte do tempo, Shyamalan opta por uma resolução mais clara e direta do que no livro de Paul Tremblay - que mantém uma ambiguidade mais marcante. Isso pode frustrar aqueles que esperam um encerramento mais enigmático, porém a decisão do diretor de suavizar alguns elementos da obra original, que naturalmente dilui parte do impacto emocional e filosófico da história, deixa a experiência mais próxima do entretenimento do que daquele peso perturbador de assistir "Mãe!", por exemplo.

Saiba que o filme é eficiente ao explorar questões sobre fé, sacrifício e sobre o poder das crenças diante do absurdo, dito isso, não tenho a menor dúvida que "Batem à Porta" foi subestimado, mas que muitos vão se envolver e se empatizar com o drama de daquela família diante de uma decisão que pode mudar os rumos da humanidade. Vale seu play!

Assista Agora

Bebê Rena

Recomendado pela crítica e pela audiência, "Bebê Rena" é realmente uma jornada singular sobre temas nada tranquilos que vão mexer com você - e não se engane, a minissérie de 7 episódios da Netflix não tem absolutamente nada de comédia, ou pelo menos, não em sua essência dramática. Basicamente, esse projeto encabeçado pelo até então desconhecido Richard Gadd é uma mistura de "I May Destroy You"com "Amante, Stalker e Mortal" e certamente vai te levar por a uma jornada pelos cantos mais obscuros da mente humana, explorando temas delicados como trauma, abuso, obsessão e vingança, mas de uma forma extremamente angustiante! Sim, se você realmente está disposto a enfrentar uma experiência tão imersiva quanto perturbadora, você está no "play"certo!

"Bebê Rena" acompanha a história verídica do comediante, barman e escritor Donny Dunn (versão ficcional de Richard Gadd, vivido por ele mesmo), que se envolve com a desconhecida Martha (Jessica Gunning), uma mulher vulnerável que está passando por seus próprios (e sérios) problemas pessoais. Esse rápido e distorcido encontro acaba seguindo para uma estranha obsessão, que acaba impactando a vida dos dois, provocando Donny a enfrentar um trauma profundo e sombrio de seu passado. Confira o trailer (em inglês):

Mesmo que em um primeiro olhar a minissérie tenha um leve tom de comédia, daquelas irônicas e bem construídas que estamos acostumados encontrar entre as produções britânicas, posso te garantir que "Bebê Rena" é mesmo um profundo thriller psicológico com fortes influências dos melhores (e patológicos) dramas de relações. É justamente por essa quebra de expectativas que somos sugados pela história de Gadd - chega ser surpreendente, ao nos darmos conta, como ficamos imersos em uma profunda reflexão sobre a natureza humana e os efeitos devastadores de um trauma. E aqui não estamos relativizando os contextos, já que o roteiro nos convida a questionar os limites da obsessão, da vingança e do perdão a todo momento e de uma maneira muito inteligente.

Essa conexão com o protagonista nos remete aos tempos de "Breaking Bad" e de como nos sentíamos angustiados com Walter White, Jesse Pinkman e até com Jane Margolis. O que eu quero dizer é que temos a exata noção do que é certo e o que é errado nessa história, mas mesmo assim nos empatizamos com Gadd e entendemos perfeitamente suas motivações para agir e ser quem ele é - aliás a estratégia narrativa do roteiro, entregando uma peça por vez e nos provocando criar nossa própria "big picture" da história, é simplesmente genial. Richard Gadd, como ator, entrega uma performance magistral, capturando com perfeição a fragilidade e o medo do seu personagem - o fato dele ser inseguro vai se justificando de acordo com sua desconstrução e esse processo é tão cheio de camadas que Vince Gilligan deve estar orgulhoso. Já Jessica Gunning é brilhante ao transitar entre a obsessão, a imaturidade, a sensibilidade e o desequilíbrio da sua personagem de um jeito, olha, perturbador - as explosões de sua personagem chega a dar medo!

"Bebê Rena" se destaca pela originalidade com que apresenta uma atmosfera sombria e claustrofóbica mesmo que fantasiada de mais uma caso improvável de perseguição! Saiba que essa história não é exatamente sobre a relação doentia entre Donny e Martha, mas sim sobre o que essa estranha conexão desperta em Donny - essa não é uma peça tão fácil de encaixar, mas será essencial para que você entenda onde Gadd quis chegar. 

Prepare-se para uma jornada perturbadora, pesada (na forma e no conteúdo) e inesquecível, digna de muito prêmios!

Assista Agora

Recomendado pela crítica e pela audiência, "Bebê Rena" é realmente uma jornada singular sobre temas nada tranquilos que vão mexer com você - e não se engane, a minissérie de 7 episódios da Netflix não tem absolutamente nada de comédia, ou pelo menos, não em sua essência dramática. Basicamente, esse projeto encabeçado pelo até então desconhecido Richard Gadd é uma mistura de "I May Destroy You"com "Amante, Stalker e Mortal" e certamente vai te levar por a uma jornada pelos cantos mais obscuros da mente humana, explorando temas delicados como trauma, abuso, obsessão e vingança, mas de uma forma extremamente angustiante! Sim, se você realmente está disposto a enfrentar uma experiência tão imersiva quanto perturbadora, você está no "play"certo!

"Bebê Rena" acompanha a história verídica do comediante, barman e escritor Donny Dunn (versão ficcional de Richard Gadd, vivido por ele mesmo), que se envolve com a desconhecida Martha (Jessica Gunning), uma mulher vulnerável que está passando por seus próprios (e sérios) problemas pessoais. Esse rápido e distorcido encontro acaba seguindo para uma estranha obsessão, que acaba impactando a vida dos dois, provocando Donny a enfrentar um trauma profundo e sombrio de seu passado. Confira o trailer (em inglês):

Mesmo que em um primeiro olhar a minissérie tenha um leve tom de comédia, daquelas irônicas e bem construídas que estamos acostumados encontrar entre as produções britânicas, posso te garantir que "Bebê Rena" é mesmo um profundo thriller psicológico com fortes influências dos melhores (e patológicos) dramas de relações. É justamente por essa quebra de expectativas que somos sugados pela história de Gadd - chega ser surpreendente, ao nos darmos conta, como ficamos imersos em uma profunda reflexão sobre a natureza humana e os efeitos devastadores de um trauma. E aqui não estamos relativizando os contextos, já que o roteiro nos convida a questionar os limites da obsessão, da vingança e do perdão a todo momento e de uma maneira muito inteligente.

Essa conexão com o protagonista nos remete aos tempos de "Breaking Bad" e de como nos sentíamos angustiados com Walter White, Jesse Pinkman e até com Jane Margolis. O que eu quero dizer é que temos a exata noção do que é certo e o que é errado nessa história, mas mesmo assim nos empatizamos com Gadd e entendemos perfeitamente suas motivações para agir e ser quem ele é - aliás a estratégia narrativa do roteiro, entregando uma peça por vez e nos provocando criar nossa própria "big picture" da história, é simplesmente genial. Richard Gadd, como ator, entrega uma performance magistral, capturando com perfeição a fragilidade e o medo do seu personagem - o fato dele ser inseguro vai se justificando de acordo com sua desconstrução e esse processo é tão cheio de camadas que Vince Gilligan deve estar orgulhoso. Já Jessica Gunning é brilhante ao transitar entre a obsessão, a imaturidade, a sensibilidade e o desequilíbrio da sua personagem de um jeito, olha, perturbador - as explosões de sua personagem chega a dar medo!

"Bebê Rena" se destaca pela originalidade com que apresenta uma atmosfera sombria e claustrofóbica mesmo que fantasiada de mais uma caso improvável de perseguição! Saiba que essa história não é exatamente sobre a relação doentia entre Donny e Martha, mas sim sobre o que essa estranha conexão desperta em Donny - essa não é uma peça tão fácil de encaixar, mas será essencial para que você entenda onde Gadd quis chegar. 

Prepare-se para uma jornada perturbadora, pesada (na forma e no conteúdo) e inesquecível, digna de muito prêmios!

Assista Agora

Bela Vingança

Se "Bela Vingança" tem um grande mérito, eu diria que é o de ser um filme corajoso e que mesmo com uma certa previsibilidade (proposital), não tem receio algum de correr riscos, entregando um resultado estético e narrativo que merece ser elogiado de pé! O filme de estreia como diretora da atriz (já indicada ao Emmy duas vezes, por "The Crown" e por "Killing Eve") Emerald Fennell, transborda honestidade e responsabilidade ao tocar em uma ferida delicada e que vai gerar muito desconforto: a teoria do estupro discutida não só pelo lado de quem sofre, mas também pelo lado de quem se omite. Veja, existe sim um componente claramente didático no roteiro (que levou o Oscar de "original" em 2020), mas nem por isso o entretenimento é colocado de lado e mesmo com algumas cenas bem chocantes visualmente, fica fácil entender mesmo quando o lado mais intimo do ser humano é retratado - é aí que sentimos na pele.

Cassie (Carey Mulligan) é uma mulher com profundos traumas do passado que frequenta bares todas as noites e que finge estar bêbada para quando homens mal-intencionados se aproximarem com a desculpa de que vão ajudá-la, entrar em ação e se vingar dos predadores que tiveram o azar de conhecê-la. Acontece que nem todos os homens, aparentemente, estão na mesma prateleira, é aí que Cassie começa a refletir se sua postura é a mais correta e se suas escolhas de vida estão, de fato, a fazendo feliz. Confira o trailer:

"Bela Vingança" tem um cuidado que pode passar batido pelos mais desatentos, mas que vale pontuar para que você preste bem atenção e aproveite melhor a experiência: o filme pode até parecer meio sem identidade, com uma narrativa um pouco desconexa e sem manter um padrão visual alinhado com a proposta inicial, mas tudo isso tem sua razão de ser. Se no primeiro momento a estética lembra um slasher dos anos 80 (como "X - A Marca da Morte"), rapidamente ele pode soar como um drama adolescente (ao melhor estilo "Nudes" ou "13 Reasons Why") e por fim ainda emular uma certa atmosfera moderninha de comédia romântica (meio "Modern Love") - e tudo isso não acontece por acaso, é como se existisse uma representação gráfica da confusão mental pela qual a protagonista tem que conviver e que vai se misturando durante a trama. A relação com seus pais é um ótimo exemplo desse conceito. Aliás essa escolha de Fennell faz todo sentido quando olhamos em retrospectiva depois que descobrimos todas as nuances da história e por quais caminhos ela se desenvolve até o final - é genial essa sensibilidade do roteiro e da direção.

Mulligan está simplesmente sensacional como Cassandra - reparem como ela trabalha seu range de interpretação sem antecipar suas motivações, ou seja, você nunca sabe o que esperar da atriz em cena. Seu estilo fisico sugere certa meiguice; seu humor, alguma ironia; e suas ações alguma angustia. É impressionante, inclusive, como a escalação do elenco foi feliz em construir uma persona de "quem vê cara, não vê coração" também do lado masculino, trazendo ídolos de outras produções que marcaram época como “caras legais” - a ideia de quebra de expectativas é fundamental para entendermos a raiz do problema que o filme discute com sabedoria.

"Bela Vingança" pode até soar como um belo tapa na cara para a masculinidade tóxica, mas isso seria uma análise superficial e lacradora demais para nosso conceito editorial, já que, como obra cinematográfica, o filme vai muito além ao respeitar o que mais interessa em toda essa discussão: entender o sentimento de quem carrega essa marca seja pelo ato que não necessariamente tenha sofrido, mas que de alguma forma impactou em sua vida e que foi potencializado pelo "caminhão de omissões" típicas de uma sociedade hipócrita - a cena com a reitora da faculdade é impagável justamente por isso). Os últimos vinte minutos do filme, aliás, são essenciais para fechar o arco com sagacidade e ousadia, o que transforma a jornada de um gosto amargo em um fio de esperança!

Vale muito o seu play!

Assista Agora

Se "Bela Vingança" tem um grande mérito, eu diria que é o de ser um filme corajoso e que mesmo com uma certa previsibilidade (proposital), não tem receio algum de correr riscos, entregando um resultado estético e narrativo que merece ser elogiado de pé! O filme de estreia como diretora da atriz (já indicada ao Emmy duas vezes, por "The Crown" e por "Killing Eve") Emerald Fennell, transborda honestidade e responsabilidade ao tocar em uma ferida delicada e que vai gerar muito desconforto: a teoria do estupro discutida não só pelo lado de quem sofre, mas também pelo lado de quem se omite. Veja, existe sim um componente claramente didático no roteiro (que levou o Oscar de "original" em 2020), mas nem por isso o entretenimento é colocado de lado e mesmo com algumas cenas bem chocantes visualmente, fica fácil entender mesmo quando o lado mais intimo do ser humano é retratado - é aí que sentimos na pele.

Cassie (Carey Mulligan) é uma mulher com profundos traumas do passado que frequenta bares todas as noites e que finge estar bêbada para quando homens mal-intencionados se aproximarem com a desculpa de que vão ajudá-la, entrar em ação e se vingar dos predadores que tiveram o azar de conhecê-la. Acontece que nem todos os homens, aparentemente, estão na mesma prateleira, é aí que Cassie começa a refletir se sua postura é a mais correta e se suas escolhas de vida estão, de fato, a fazendo feliz. Confira o trailer:

"Bela Vingança" tem um cuidado que pode passar batido pelos mais desatentos, mas que vale pontuar para que você preste bem atenção e aproveite melhor a experiência: o filme pode até parecer meio sem identidade, com uma narrativa um pouco desconexa e sem manter um padrão visual alinhado com a proposta inicial, mas tudo isso tem sua razão de ser. Se no primeiro momento a estética lembra um slasher dos anos 80 (como "X - A Marca da Morte"), rapidamente ele pode soar como um drama adolescente (ao melhor estilo "Nudes" ou "13 Reasons Why") e por fim ainda emular uma certa atmosfera moderninha de comédia romântica (meio "Modern Love") - e tudo isso não acontece por acaso, é como se existisse uma representação gráfica da confusão mental pela qual a protagonista tem que conviver e que vai se misturando durante a trama. A relação com seus pais é um ótimo exemplo desse conceito. Aliás essa escolha de Fennell faz todo sentido quando olhamos em retrospectiva depois que descobrimos todas as nuances da história e por quais caminhos ela se desenvolve até o final - é genial essa sensibilidade do roteiro e da direção.

Mulligan está simplesmente sensacional como Cassandra - reparem como ela trabalha seu range de interpretação sem antecipar suas motivações, ou seja, você nunca sabe o que esperar da atriz em cena. Seu estilo fisico sugere certa meiguice; seu humor, alguma ironia; e suas ações alguma angustia. É impressionante, inclusive, como a escalação do elenco foi feliz em construir uma persona de "quem vê cara, não vê coração" também do lado masculino, trazendo ídolos de outras produções que marcaram época como “caras legais” - a ideia de quebra de expectativas é fundamental para entendermos a raiz do problema que o filme discute com sabedoria.

"Bela Vingança" pode até soar como um belo tapa na cara para a masculinidade tóxica, mas isso seria uma análise superficial e lacradora demais para nosso conceito editorial, já que, como obra cinematográfica, o filme vai muito além ao respeitar o que mais interessa em toda essa discussão: entender o sentimento de quem carrega essa marca seja pelo ato que não necessariamente tenha sofrido, mas que de alguma forma impactou em sua vida e que foi potencializado pelo "caminhão de omissões" típicas de uma sociedade hipócrita - a cena com a reitora da faculdade é impagável justamente por isso). Os últimos vinte minutos do filme, aliás, são essenciais para fechar o arco com sagacidade e ousadia, o que transforma a jornada de um gosto amargo em um fio de esperança!

Vale muito o seu play!

Assista Agora

Belfast

"Belfast" está para o diretor Kenneth Branagh da mesma forma como "Roma" foi para o Alfonso Cuarón - e não por acaso, o filme também chega como um dos favoritos ao Oscar 2022!

Buddy (Jude Hill) é um menino de nove anos que passa a questionar o caminho para a vida adulta no momento em que seu mundo vira de cabeça para baixo quando sua comunidade,  estável e amorosa, passa a sofrer ataques e a fomentar a rivalidade entre famílias católicas e protestantes. A partir daí, tudo o que Buddy achava que entendia sobre a vida muda para sempre, mas sua alegria, seu sorriso, a música e a magia formativa dos filmes que ele sempre amou, passam a servir de combustível para ele enfrentar suas novas dificuldades. Confira o trailer:

"Belfast" retrata eventos verídicos de uma época conhecida na Irlanda como "The Troubles", tendo a população protestante de um lado, maioria e que queria mais proximidade com a Inglaterra, e do outro a população católica que, por sua vez, defendia a independência ou mesmo a integração da Irlanda do Norte com a Irlanda - obviamente que essa irracionalidade fez com que pequenos grupos (de ambos os lados) recorressem à violência e à rebelião a fim de resolverem seus impasses sócio-políticos.

Pois bem, buscando um equilíbrio conceitual e narrativo entre "Roma" e "Jojo Rabbit"(de Taika Waititi), o diretor e roteirista Kenneth Branagh foi extremamente feliz em abordar um conflito muito impactante para aquela sociedade (imagina para uma criança de 9 anos) e ainda sim manter a leveza e a simpatia da história graças a forma como Buddy enxergava aquele momento delicado. É claro que o filme carrega uma atmosfera de dor, de sofrimento, de memórias marcantes, ainda assim ele nos faz sorrir. Filmado em preto e branco e com uma fotografia irretocável do diretor Haris Zambarloukos (de "Locke") o conceito visual traz um carga emocional muito necessária para a trama ao mesmo tempo em que brinca com lúdico ao usar as cores apenas quando Buddy se relaciona com arte - essa perspectiva cria uma sensação nostálgica impressionante.

Se "Licorice Pizza" é o coming-of-age de Paul Thomas Anderson, "Belfast" é a versão do sub-gênero cheia de dor e sorrisos de Branagh - uma verdadeira celebração familiar, mesmo quando nossos olhos mais maduros entendem de outra forma o relacionamento (e as dificuldades) dos pais de Buddy, o casal Ma (Caitirona Balfe) e Pa (Jamie Dornan), ou a vida com marcas profundas de seus avós - com Judi Dench e Ciarán Hinds dando um show e justificando suas indicações como "coadjuvantes". O fato é que "Belfast" se apoia na intransigência ideológica de quem precisa rotular o ser humano para criticar as diferenças em vez de exaltar a pluralidade cultural, para contar uma história de dificuldades e receios, com muita ternura, amor e, principalmente, saudade!

Imperdível!

Up-date: "Belfast" foi indicado em sete categorias no Oscar 2022, inclusive Melhor Filme e ganhou em Melhor Roteiro.

Assista Agora

"Belfast" está para o diretor Kenneth Branagh da mesma forma como "Roma" foi para o Alfonso Cuarón - e não por acaso, o filme também chega como um dos favoritos ao Oscar 2022!

Buddy (Jude Hill) é um menino de nove anos que passa a questionar o caminho para a vida adulta no momento em que seu mundo vira de cabeça para baixo quando sua comunidade,  estável e amorosa, passa a sofrer ataques e a fomentar a rivalidade entre famílias católicas e protestantes. A partir daí, tudo o que Buddy achava que entendia sobre a vida muda para sempre, mas sua alegria, seu sorriso, a música e a magia formativa dos filmes que ele sempre amou, passam a servir de combustível para ele enfrentar suas novas dificuldades. Confira o trailer:

"Belfast" retrata eventos verídicos de uma época conhecida na Irlanda como "The Troubles", tendo a população protestante de um lado, maioria e que queria mais proximidade com a Inglaterra, e do outro a população católica que, por sua vez, defendia a independência ou mesmo a integração da Irlanda do Norte com a Irlanda - obviamente que essa irracionalidade fez com que pequenos grupos (de ambos os lados) recorressem à violência e à rebelião a fim de resolverem seus impasses sócio-políticos.

Pois bem, buscando um equilíbrio conceitual e narrativo entre "Roma" e "Jojo Rabbit"(de Taika Waititi), o diretor e roteirista Kenneth Branagh foi extremamente feliz em abordar um conflito muito impactante para aquela sociedade (imagina para uma criança de 9 anos) e ainda sim manter a leveza e a simpatia da história graças a forma como Buddy enxergava aquele momento delicado. É claro que o filme carrega uma atmosfera de dor, de sofrimento, de memórias marcantes, ainda assim ele nos faz sorrir. Filmado em preto e branco e com uma fotografia irretocável do diretor Haris Zambarloukos (de "Locke") o conceito visual traz um carga emocional muito necessária para a trama ao mesmo tempo em que brinca com lúdico ao usar as cores apenas quando Buddy se relaciona com arte - essa perspectiva cria uma sensação nostálgica impressionante.

Se "Licorice Pizza" é o coming-of-age de Paul Thomas Anderson, "Belfast" é a versão do sub-gênero cheia de dor e sorrisos de Branagh - uma verdadeira celebração familiar, mesmo quando nossos olhos mais maduros entendem de outra forma o relacionamento (e as dificuldades) dos pais de Buddy, o casal Ma (Caitirona Balfe) e Pa (Jamie Dornan), ou a vida com marcas profundas de seus avós - com Judi Dench e Ciarán Hinds dando um show e justificando suas indicações como "coadjuvantes". O fato é que "Belfast" se apoia na intransigência ideológica de quem precisa rotular o ser humano para criticar as diferenças em vez de exaltar a pluralidade cultural, para contar uma história de dificuldades e receios, com muita ternura, amor e, principalmente, saudade!

Imperdível!

Up-date: "Belfast" foi indicado em sete categorias no Oscar 2022, inclusive Melhor Filme e ganhou em Melhor Roteiro.

Assista Agora

Belle Époque

"Belle Époque" é um delicioso convite à nostalgia! Como em "Meia-noite em Paris" ou em “O Último Amor de Mr. Morgan”, o filme traz no roteiro uma leveza e uma sensibilidade impressionantes para discutir a importância de olhar para si, para só depois poder encontrar o outro. Eu diria, inclusive, que essa produção francesa dirigida pelo talentoso Nicolas Bedos (de "Os Infiéis") traz o que existe de melhor nos dramas de relação para o tom envolvente de uma comédia que em nenhum instante se perde no usual e que sabe aproveitar os gatilhos emocionais para nos perguntar, a cada momento, se estaríamos dispostos a viver a melhor época de nossa vida de novo!

Victor (Daniel Auteuil) é um sexagenário desiludido com o casamento em crise. Quando ele é apresentado para a empresa de Antoine (Guillaume Canet) que o sugere um serviço que une encenação teatral com recriação histórica, sua vida vira de cabeça para baixo. Victor decide então reviver o que ele considera a semana mais marcante de sua vida, onde, 40 anos antes, conheceu um grande e inesquecível amor. Confira o trailer:

Talvez o grande mérito de "Belle Époque" seja o de nos provocar, não só uma reflexão profunda como também a lidar com a dor da autoindulgência! Obviamente que todo aquele sentimento mais nostálgico escondido em nossa memória e principalmente em nosso coração, nos acompanha por toda jornada, porém o texto do próprio Bedos estabelece que mesmo nas decisões mais racionais, de alguma forma, é possível encontrar um leve sorriso ou um aprendizado capaz de mudar nossa percepção - essa dinâmica narrativa deixa tudo mais agradável, te garanto. Sim, eu sei que pode até parecer filosófico demais, mas é justamente por isso que o filme nos prende do começo ao fim - a identificação com Victor é imediata e a conexão com sua situação soa tão realista que nos permite estar ao seu lado, custe o que custar.

Guillaume Canet (como Antoine) e a belíssima Doria Tillier (como Margot) representam com muita sabedoria alguns arquétipos que se encaixam perfeitamente ao novo olhar sobre o sucesso e o fracasso das relações: o controlador e bem sucedido empresário que se apaixona pela sensível e talentosa artista que busca o seu lugar no mundo. Esse é exatamente o mesmo recorte, só que invertido, de Marianne Drumond (Fanny Ardant) e de Victor (Daniel Auteuil) - aqui as discussões sobre o peso de algumas escolhas e o reflexo de determinadas decisões de vida vão do presente ao passado para o casal em crise com a mesma simetria que um dia pode se tornar o futuro do casal que ainda luta para se encontrar.

Com uma trilha sonora original que vai de Billie Holiday à Fontella Bass, "La Belle Époque" (no original) celebra o amor sem pieguice - como uma bela poesia aos saudosistas ou um choque de realidade aos mais racionais, tudo sem esquecer do bom entretenimento. Se a arte nos permite sonhar, Bedos certamente se aproveitou da sua para nos presentear com um universo tão mágico quanto palpável, daqueles que não queremos acordar mesmo na hora marcada. Se o filme soa como uma reencenação de uma história de amor, certamente você vai sentir seu coração apertar por desejar reviver algum momento especial da sua vida!

E é por isso que vale muito o seu play!

Assista Agora

"Belle Époque" é um delicioso convite à nostalgia! Como em "Meia-noite em Paris" ou em “O Último Amor de Mr. Morgan”, o filme traz no roteiro uma leveza e uma sensibilidade impressionantes para discutir a importância de olhar para si, para só depois poder encontrar o outro. Eu diria, inclusive, que essa produção francesa dirigida pelo talentoso Nicolas Bedos (de "Os Infiéis") traz o que existe de melhor nos dramas de relação para o tom envolvente de uma comédia que em nenhum instante se perde no usual e que sabe aproveitar os gatilhos emocionais para nos perguntar, a cada momento, se estaríamos dispostos a viver a melhor época de nossa vida de novo!

Victor (Daniel Auteuil) é um sexagenário desiludido com o casamento em crise. Quando ele é apresentado para a empresa de Antoine (Guillaume Canet) que o sugere um serviço que une encenação teatral com recriação histórica, sua vida vira de cabeça para baixo. Victor decide então reviver o que ele considera a semana mais marcante de sua vida, onde, 40 anos antes, conheceu um grande e inesquecível amor. Confira o trailer:

Talvez o grande mérito de "Belle Époque" seja o de nos provocar, não só uma reflexão profunda como também a lidar com a dor da autoindulgência! Obviamente que todo aquele sentimento mais nostálgico escondido em nossa memória e principalmente em nosso coração, nos acompanha por toda jornada, porém o texto do próprio Bedos estabelece que mesmo nas decisões mais racionais, de alguma forma, é possível encontrar um leve sorriso ou um aprendizado capaz de mudar nossa percepção - essa dinâmica narrativa deixa tudo mais agradável, te garanto. Sim, eu sei que pode até parecer filosófico demais, mas é justamente por isso que o filme nos prende do começo ao fim - a identificação com Victor é imediata e a conexão com sua situação soa tão realista que nos permite estar ao seu lado, custe o que custar.

Guillaume Canet (como Antoine) e a belíssima Doria Tillier (como Margot) representam com muita sabedoria alguns arquétipos que se encaixam perfeitamente ao novo olhar sobre o sucesso e o fracasso das relações: o controlador e bem sucedido empresário que se apaixona pela sensível e talentosa artista que busca o seu lugar no mundo. Esse é exatamente o mesmo recorte, só que invertido, de Marianne Drumond (Fanny Ardant) e de Victor (Daniel Auteuil) - aqui as discussões sobre o peso de algumas escolhas e o reflexo de determinadas decisões de vida vão do presente ao passado para o casal em crise com a mesma simetria que um dia pode se tornar o futuro do casal que ainda luta para se encontrar.

Com uma trilha sonora original que vai de Billie Holiday à Fontella Bass, "La Belle Époque" (no original) celebra o amor sem pieguice - como uma bela poesia aos saudosistas ou um choque de realidade aos mais racionais, tudo sem esquecer do bom entretenimento. Se a arte nos permite sonhar, Bedos certamente se aproveitou da sua para nos presentear com um universo tão mágico quanto palpável, daqueles que não queremos acordar mesmo na hora marcada. Se o filme soa como uma reencenação de uma história de amor, certamente você vai sentir seu coração apertar por desejar reviver algum momento especial da sua vida!

E é por isso que vale muito o seu play!

Assista Agora

Better Things

Como em "O Método Kominsky" e mais recentemente em "A Nova Vida de Toby", assistir "Better Things" é como olhar pela janela, reconhecer a vida e, com muito bom humor, enfrentá-la. Existe uma honestidade no texto dessa excelente produção do FX (disponível aqui no Star+) que nos envolve e nos conecta com a protagonista de uma forma muito natural. Enxergar a beleza da maternidade pode soar até usual, mas reconhecer suas dificuldades já exige um pouco mais de coragem, e é nesse ponto que os criadores da série, Pamela Adlon e Louis C.K., dão uma aula de sensibilidade ao entregar uma jornada emocionante, inteligente, dinâmica e muito afinada com a realidade, a partir da perspectiva de quem de fato merece os holofotes: a mulher!

'Better Things', basicamente, conta a história de Sam (Pamela Adlon), uma atriz, mãe e divorciada que cuida de suas três filhas sozinha. Apesar de sua profissão, a vida de Sam não é tão glamorosa quanto se pensa; ela trabalha duro para pagar as contas, cuidar das três filhas, Max (Mikey Madison), Frankie (Hannah Alligood) e Duke (Olivia Edward); e ainda poder se reconectar com sua essência, mesmo com as marcas que a vida foi deixando para ela. Confira o excelente 'first look' (em inglês):

Premiadíssimo, Louis C.K. é a mente criativa por trás de projetos como "Louis" e "Trapaça"; que ao se encontrar com Pamela Adlon (a inesquecível Marcy de "Californication"), nos entrega uma abordagem realista sobre a vida cotidiana, retratando com muita autenticidade os altos e baixos da experiência de ser mãe, explorando os desafios, as alegrias, as frustrações e os sacrifícios envolvidos na criação e na educação dos filhos. A dupla mostra muita competência ao abordar uma variedade de questões relevantes, como relacionamentos, feminismo, envelhecimento e até passagens mais curiosas como o mercado de trabalho para mulheres na indústria do entretenimento - reparem como o texto trata desses temas de forma inteligente e perspicaz, sem perder a mão, equilibrando o tom mais descontraído ao mesmo tempo em que não deixa de lado o drama e os sentimentos mais íntimos dos personagens.

Aliás, o que dizer sobre a performance de Pamela Adlon como Sam Fox? É impossível não citá-la como um dos destaques não só da série, mas do entretenimento como um todo. Sua interpretação é crua, quase documental, sincera ao extremo e muitas vezes hilária - ela já tinha provado sua capacidade com Marcy e agora só ratifica sua qualidade como artista, inclusive sendo indicada ao Emmy 7 vezes. Adlon tem um alcance de interpretação invejável, capaz de trabalhar uma vulnerabilidade e uma autenticidade cativantes, tornando Sam uma personagem mais humana, com falhas palpáveis, na qual a audiência se reconhece, se identifica e, claro, torce!

Outro aspecto que me chamou a atenção em "Better Things" diz respeito à sua representação diversificada de personagens. A série foi capaz de apresentar uma ampla gama de possibilidades ao retratar mulheres complexas, cada uma com suas próprias histórias e desafios, capazes de abordar assuntos difíceis e desconfortáveis, mas sempre de forma genuína e respeitosa. Repare no terceiro episódio da primeira temporada como a mãe de Sam lida com o fato de um homem negro ir jantar em sua casa. Existe uma leveza e uma ironia no texto que são dignas de muitos elogios.

"Better Things" é uma série cativante que retrata com autenticidade a vida e a luta de uma mulher moderna: como mãe e como profissional. Eu diria que essas cinco temporadas (e sim, a série tem um final) são uma experiência das mais envolventes, divertidas, sinceras e reflexivas - que vão deixar muitas saudades.

Vai na fé que vale muito o seu play!

Assista Agora

Como em "O Método Kominsky" e mais recentemente em "A Nova Vida de Toby", assistir "Better Things" é como olhar pela janela, reconhecer a vida e, com muito bom humor, enfrentá-la. Existe uma honestidade no texto dessa excelente produção do FX (disponível aqui no Star+) que nos envolve e nos conecta com a protagonista de uma forma muito natural. Enxergar a beleza da maternidade pode soar até usual, mas reconhecer suas dificuldades já exige um pouco mais de coragem, e é nesse ponto que os criadores da série, Pamela Adlon e Louis C.K., dão uma aula de sensibilidade ao entregar uma jornada emocionante, inteligente, dinâmica e muito afinada com a realidade, a partir da perspectiva de quem de fato merece os holofotes: a mulher!

'Better Things', basicamente, conta a história de Sam (Pamela Adlon), uma atriz, mãe e divorciada que cuida de suas três filhas sozinha. Apesar de sua profissão, a vida de Sam não é tão glamorosa quanto se pensa; ela trabalha duro para pagar as contas, cuidar das três filhas, Max (Mikey Madison), Frankie (Hannah Alligood) e Duke (Olivia Edward); e ainda poder se reconectar com sua essência, mesmo com as marcas que a vida foi deixando para ela. Confira o excelente 'first look' (em inglês):

Premiadíssimo, Louis C.K. é a mente criativa por trás de projetos como "Louis" e "Trapaça"; que ao se encontrar com Pamela Adlon (a inesquecível Marcy de "Californication"), nos entrega uma abordagem realista sobre a vida cotidiana, retratando com muita autenticidade os altos e baixos da experiência de ser mãe, explorando os desafios, as alegrias, as frustrações e os sacrifícios envolvidos na criação e na educação dos filhos. A dupla mostra muita competência ao abordar uma variedade de questões relevantes, como relacionamentos, feminismo, envelhecimento e até passagens mais curiosas como o mercado de trabalho para mulheres na indústria do entretenimento - reparem como o texto trata desses temas de forma inteligente e perspicaz, sem perder a mão, equilibrando o tom mais descontraído ao mesmo tempo em que não deixa de lado o drama e os sentimentos mais íntimos dos personagens.

Aliás, o que dizer sobre a performance de Pamela Adlon como Sam Fox? É impossível não citá-la como um dos destaques não só da série, mas do entretenimento como um todo. Sua interpretação é crua, quase documental, sincera ao extremo e muitas vezes hilária - ela já tinha provado sua capacidade com Marcy e agora só ratifica sua qualidade como artista, inclusive sendo indicada ao Emmy 7 vezes. Adlon tem um alcance de interpretação invejável, capaz de trabalhar uma vulnerabilidade e uma autenticidade cativantes, tornando Sam uma personagem mais humana, com falhas palpáveis, na qual a audiência se reconhece, se identifica e, claro, torce!

Outro aspecto que me chamou a atenção em "Better Things" diz respeito à sua representação diversificada de personagens. A série foi capaz de apresentar uma ampla gama de possibilidades ao retratar mulheres complexas, cada uma com suas próprias histórias e desafios, capazes de abordar assuntos difíceis e desconfortáveis, mas sempre de forma genuína e respeitosa. Repare no terceiro episódio da primeira temporada como a mãe de Sam lida com o fato de um homem negro ir jantar em sua casa. Existe uma leveza e uma ironia no texto que são dignas de muitos elogios.

"Better Things" é uma série cativante que retrata com autenticidade a vida e a luta de uma mulher moderna: como mãe e como profissional. Eu diria que essas cinco temporadas (e sim, a série tem um final) são uma experiência das mais envolventes, divertidas, sinceras e reflexivas - que vão deixar muitas saudades.

Vai na fé que vale muito o seu play!

Assista Agora

Big Little Lies

Não por acaso esperei terminar as duas temporadas de "Big Little Lies" para fazer esse review. A série (que nasceu como minissérie em 2017 na HBO) é daquelas imperdíveis, pois equilibra muito bem uma ótima produção, uma excelente direção e uma trama inteligente - principalmente na temporada 1. Vale dizer, inclusive, que se você já assistiu a primeira temporada, fizemos um "primeiras impressões" sobre essa última e você pode ler aqui. Pois bem, para quem ainda não teve o prazer de assistir os 14 episódios disponíveis, vai uma rápida sinopse que vou me aprofundar um pouco mais abaixo: A série tem como ponto de partida um possível assassinado que ocorreu na pequena cidade de Monterrey, na Califórnia. Como toda cidade pequena, fofocas e comentários tomam conta do dia a dia da comunidade que é mostrado em retrospectiva (com um show de edição) pelo ponto de vista de quatro mulheres: Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman), Renata (Laura Dern) e Jane (Shailene Woodley). Tendo esse mistério como pano de fundo, "Big Little Lies" fala sobre conflitos de relacionamentos entre amigos, pares e filhos de uma forma muito direta. Ao mesmo tempo que expõe a fragilidade do ser humano com temas complexos como o de uma relação violenta e abusiva, também trata de casualidades como um desentendimento entre crianças na sala de aula.  O fato é que Big Little Lies trás o que tem de melhor em entretenimento disponível e vale muito (mas muito) à pena! Confira o trailer:

O ritmo fragmentado, completamente não linear, cheio de cortes bruscos e flashes aparentemente sem sentido pode assustar num primeiro momento. É compreensível, pois o diretor Jean-Marc Vallée usa de uma técnica extremamente clipada para criar uma série de sensações e expectativas - o fato é que, de repente, já estamos vidrados e imersos naquela trama cheia de mistérios. Embora "Big Little Lies" tenha uma divisão narrativa bastante clara ente uma e outra temporada, o conceito estético se mantém como um dos maiores acertos da produção - é realmente lindo o trabalho de concepção de Vallée que a diretora Andrea Arnold mantém na segunda temporada. Se engana quem acredita que a série tem como objetivo falar apenas sobre um possível crime onde não sabemos nada sobre a vítima e sobre o assassino, isso é só o gatilho para focar em temas espinhosos e cotidianos. Sim, no final da primeira temporada descobrimos quem matou e quem é a vítima e isso seria suficiente para finalizar a obra, mas com tanto sucesso a HBO resolveu arriscar uma continuação e, digamos, se deu bem, mas com um "porém". A segunda temporada continua tratando dos mesmos temas espinhosos, mas com uma pequena (mas importante) falha na identidade narrativa - ela muda de sub-gênero sem mais nem menos. No inicio tudo leva a crer que o pano de fundo será a consequência do crime e sua investigação, mas lentamente vai se perdendo ao dar mais valor à uma disputa familiar do tribunal. São 4 ou 5 episódios alinhados àquela trama consistente da primeira temporada e outros 2 episódios perdidos pelo caminho. Que fique claro que isso não torna a série ruim, menos intrigante ou dispensável, muito pelo contrario, assistir Meryl Streep como Mary Louise Wright é um enorme prazer, mas não se pode negar que a série se mostrou de uma forma e a entrega não acompanhou a expectativa inicial. Digamos que fugiu do tema!

É óbvio que a primeira temporada de "Big Little Lies" é melhor, mas não achei ruim a segunda não. Começa muito bem, dá a impressão que vai decolar, mas aí caí no comum, no caricato do sonho americano e não surpreende, mas diverte! Já a relação entre as personagens e seus problemas íntimos e sociais continuam bem consistentes como na temporada anterior - eu diria que é isso que segura a série, embora as soluções sejam incrivelmente mais rápidas que o seu desenvolvimento. O destaque positivo, para mim, foi o enorme crescimento da personagem Renata (Laura Dern) e o negativo foi a falta de protagonismo da personagem Jane (Shailene Woodley). Madeline (Reese Witherspoon) e Celeste (Nicole Kidman) continuam interessantes. A quinta do grupo e que, naturalmente, ganhou um pouco mais de destaque nessa temporada, Bonnie (Zoë Kravitz) não se encaixou - é possível entender seu arco, tem um final interessante, mas não tem o menor carisma e o plot sobrenatural da relação com sua mãe é completamente dispensável!

Como disse acima, "Big Little Lies" é imperdível. Tem uma primeira temporada digna das dezenas de prêmios que ganhou, com uma trama muito bem amarrada e um final interessante. Já aquele famoso receio de transformar uma minissérie em série se confirma, faz com que BLL perca força e tenha que se apoiar exclusivamente no talento das protagonistas. Fica ruim? Não, mas se perde dentro dos seus próprios méritos - me trouxe um pouco da ressaca de "Bloodline". Vale a pena? Muito! 

Assista Agora

Não por acaso esperei terminar as duas temporadas de "Big Little Lies" para fazer esse review. A série (que nasceu como minissérie em 2017 na HBO) é daquelas imperdíveis, pois equilibra muito bem uma ótima produção, uma excelente direção e uma trama inteligente - principalmente na temporada 1. Vale dizer, inclusive, que se você já assistiu a primeira temporada, fizemos um "primeiras impressões" sobre essa última e você pode ler aqui. Pois bem, para quem ainda não teve o prazer de assistir os 14 episódios disponíveis, vai uma rápida sinopse que vou me aprofundar um pouco mais abaixo: A série tem como ponto de partida um possível assassinado que ocorreu na pequena cidade de Monterrey, na Califórnia. Como toda cidade pequena, fofocas e comentários tomam conta do dia a dia da comunidade que é mostrado em retrospectiva (com um show de edição) pelo ponto de vista de quatro mulheres: Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman), Renata (Laura Dern) e Jane (Shailene Woodley). Tendo esse mistério como pano de fundo, "Big Little Lies" fala sobre conflitos de relacionamentos entre amigos, pares e filhos de uma forma muito direta. Ao mesmo tempo que expõe a fragilidade do ser humano com temas complexos como o de uma relação violenta e abusiva, também trata de casualidades como um desentendimento entre crianças na sala de aula.  O fato é que Big Little Lies trás o que tem de melhor em entretenimento disponível e vale muito (mas muito) à pena! Confira o trailer:

O ritmo fragmentado, completamente não linear, cheio de cortes bruscos e flashes aparentemente sem sentido pode assustar num primeiro momento. É compreensível, pois o diretor Jean-Marc Vallée usa de uma técnica extremamente clipada para criar uma série de sensações e expectativas - o fato é que, de repente, já estamos vidrados e imersos naquela trama cheia de mistérios. Embora "Big Little Lies" tenha uma divisão narrativa bastante clara ente uma e outra temporada, o conceito estético se mantém como um dos maiores acertos da produção - é realmente lindo o trabalho de concepção de Vallée que a diretora Andrea Arnold mantém na segunda temporada. Se engana quem acredita que a série tem como objetivo falar apenas sobre um possível crime onde não sabemos nada sobre a vítima e sobre o assassino, isso é só o gatilho para focar em temas espinhosos e cotidianos. Sim, no final da primeira temporada descobrimos quem matou e quem é a vítima e isso seria suficiente para finalizar a obra, mas com tanto sucesso a HBO resolveu arriscar uma continuação e, digamos, se deu bem, mas com um "porém". A segunda temporada continua tratando dos mesmos temas espinhosos, mas com uma pequena (mas importante) falha na identidade narrativa - ela muda de sub-gênero sem mais nem menos. No inicio tudo leva a crer que o pano de fundo será a consequência do crime e sua investigação, mas lentamente vai se perdendo ao dar mais valor à uma disputa familiar do tribunal. São 4 ou 5 episódios alinhados àquela trama consistente da primeira temporada e outros 2 episódios perdidos pelo caminho. Que fique claro que isso não torna a série ruim, menos intrigante ou dispensável, muito pelo contrario, assistir Meryl Streep como Mary Louise Wright é um enorme prazer, mas não se pode negar que a série se mostrou de uma forma e a entrega não acompanhou a expectativa inicial. Digamos que fugiu do tema!

É óbvio que a primeira temporada de "Big Little Lies" é melhor, mas não achei ruim a segunda não. Começa muito bem, dá a impressão que vai decolar, mas aí caí no comum, no caricato do sonho americano e não surpreende, mas diverte! Já a relação entre as personagens e seus problemas íntimos e sociais continuam bem consistentes como na temporada anterior - eu diria que é isso que segura a série, embora as soluções sejam incrivelmente mais rápidas que o seu desenvolvimento. O destaque positivo, para mim, foi o enorme crescimento da personagem Renata (Laura Dern) e o negativo foi a falta de protagonismo da personagem Jane (Shailene Woodley). Madeline (Reese Witherspoon) e Celeste (Nicole Kidman) continuam interessantes. A quinta do grupo e que, naturalmente, ganhou um pouco mais de destaque nessa temporada, Bonnie (Zoë Kravitz) não se encaixou - é possível entender seu arco, tem um final interessante, mas não tem o menor carisma e o plot sobrenatural da relação com sua mãe é completamente dispensável!

Como disse acima, "Big Little Lies" é imperdível. Tem uma primeira temporada digna das dezenas de prêmios que ganhou, com uma trama muito bem amarrada e um final interessante. Já aquele famoso receio de transformar uma minissérie em série se confirma, faz com que BLL perca força e tenha que se apoiar exclusivamente no talento das protagonistas. Fica ruim? Não, mas se perde dentro dos seus próprios méritos - me trouxe um pouco da ressaca de "Bloodline". Vale a pena? Muito! 

Assista Agora

Black Mirror

"Black Mirror" é uma série inglesa que surpreendeu em 2012 ao ganhar o Emmy Internacional com uma proposta inovadora: cada episódio era totalmente independente um do outro, mas o roteiro era construído sempre baseado na mesma premissa - como o mundo virtual/tecnológico pode influenciar o mundo real! Sei que hoje pode parecer nada inovador, mas em 2012 chamou a atenção do mundo por ser um projeto muito bem produzido, com uma linguagem muito dinâmica e um roteiro extremamente inteligente e criativo. Me lembro que na época, 2013, "Black Mirror" foi uma das coisas mais bacanas e inteligentes que eu já tinha assistido! 

Natural que com o passar das temporadas, aquela sensação de "novidade" acaba diminuindo e com a expectativa lá no alto, muitas pessoas vão se decepcionando com a série. Eu procuro fazer uma análise mais cuidadosa, até para não parecer injusto. Durante todos esses anos tivemos episódios excelente e outros nem tanto. Imagino que até a terceira temporada o saldo foi muito positivo. A quarta fugiu muito do conceito inicial e a quinta, mesmo voltando um pouco à sua origem (como explicarei logo abaixo), talvez tenha sido a mais fraca de todas - mas isso não quer dizer que a série está um lixo ou que não tenham coisas boas que podemos considerar como relevantes dentro desse formato incrível e original que nos faz aguardar sempre o próximo episódio.

Depois que a Netflix assumiu o projeto e "americanizou" sua produção e desenvolvimento, muito desse conceito visual inglês se perdeu (ou foi se perdendo) - porém teve algo que me chamou atenção nos dois primeiros episódios da quinta temporada: houve uma certa humanização do roteiro, ou melhor, a influência da tecnologia (e não a supervalorização dela) nas decisões ideológicas dos personagens foi um resgate da origem de Black Mirror.

Fazendo aquele resumo rápido e sincero: até a terceira temporada a diversão está garantida, a quarta varia muito e a quinta é apenas mediana. 1/3 você joga fora e os outros 2/3 você até se diverte, mas se por acaso dormir, não se preocupe que não vai mudar nada na sua vida!

Assista Agora

"Black Mirror" é uma série inglesa que surpreendeu em 2012 ao ganhar o Emmy Internacional com uma proposta inovadora: cada episódio era totalmente independente um do outro, mas o roteiro era construído sempre baseado na mesma premissa - como o mundo virtual/tecnológico pode influenciar o mundo real! Sei que hoje pode parecer nada inovador, mas em 2012 chamou a atenção do mundo por ser um projeto muito bem produzido, com uma linguagem muito dinâmica e um roteiro extremamente inteligente e criativo. Me lembro que na época, 2013, "Black Mirror" foi uma das coisas mais bacanas e inteligentes que eu já tinha assistido! 

Natural que com o passar das temporadas, aquela sensação de "novidade" acaba diminuindo e com a expectativa lá no alto, muitas pessoas vão se decepcionando com a série. Eu procuro fazer uma análise mais cuidadosa, até para não parecer injusto. Durante todos esses anos tivemos episódios excelente e outros nem tanto. Imagino que até a terceira temporada o saldo foi muito positivo. A quarta fugiu muito do conceito inicial e a quinta, mesmo voltando um pouco à sua origem (como explicarei logo abaixo), talvez tenha sido a mais fraca de todas - mas isso não quer dizer que a série está um lixo ou que não tenham coisas boas que podemos considerar como relevantes dentro desse formato incrível e original que nos faz aguardar sempre o próximo episódio.

Depois que a Netflix assumiu o projeto e "americanizou" sua produção e desenvolvimento, muito desse conceito visual inglês se perdeu (ou foi se perdendo) - porém teve algo que me chamou atenção nos dois primeiros episódios da quinta temporada: houve uma certa humanização do roteiro, ou melhor, a influência da tecnologia (e não a supervalorização dela) nas decisões ideológicas dos personagens foi um resgate da origem de Black Mirror.

Fazendo aquele resumo rápido e sincero: até a terceira temporada a diversão está garantida, a quarta varia muito e a quinta é apenas mediana. 1/3 você joga fora e os outros 2/3 você até se diverte, mas se por acaso dormir, não se preocupe que não vai mudar nada na sua vida!

Assista Agora

Blind

"Blind" é um grande filme, mas você só vai perceber isso depois que conseguir digerir sua proposta e, em retrospectiva, encaixar uma série de detalhes que a principio pareciam até uma certa loucura do roteirista ou um experimento cinematográfico para um público bem alternativo e amante da arte independente! Vai por mim: tudo fará muito sentido e a genialidade da dinâmica narrativa de "Blind" é justamente a de brincar com nossas percepções, como se não conseguíssemos enxergar as várias pistas que o diretor Eskil Vogt vai nos dando - e não estou sendo redundante.

Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) é uma linda mulher que perdeu a visão já adulta. Aparentemente deprimida com a nova condição, ela resolve ficar isolada em sua própria casa, onde se sente mais segura. Seu grande parceiro nesta difícil adaptação é o marido, Morten (Henrik Rafaelsen). Porém, com o passar dos dias, presa em um cotidiano monocromático, suas lembranças de um mundo que ela conheceu vão desaparecendo gradativamente, é quando ela percebe que o maior perigo está dentro de si mesma. Confira o trailer:

"Blind" fala sobre a solidão e os reflexos que ela pode causar no nosso comportamento - principalmente se essa solidão for uma escolha, mesmo que inconsciente, para se proteger de uma nova condição. O impacto que ela causa no outro é tão profundo quanto reflexivo e talvez esse premiado filme norueguês pareça confuso demais para quem não está disposto a embarcar em uma narrativa bastante particular - e aqui não basta estar apenas disposto, será preciso ter paciência até que as coisas façam sentido! O filme não é "uma viagem" , ele é uma representação clara de como nossa mente pode nos derrubar a qualquer momento e isso se extende para quem está assistindo. Olha, filme tão difícil, quanto genial! Vale muito a pena!

"Blind" foi premiado como Melhor Roteiro no Festival de Sundance, nos EUA, em 2014; foi exibido com sucesso e também premiado no Festival de Berlim com o "Label Europa Cinema", além de acumular mais de uma dezena de indicações e troféus em festivais ao redor do mundo! Com essa chancela, "Blind" se permite sair do óbvio desde o seu roteiro até sua direção e quem amarra tudo isso é uma montagem sensacional. Toda estranheza incomoda visualmente e é com uma edição bem orgânica que a narrativa subverte o conceito espacial e temporal, fazendo nossa cabeça quase explodir!

É muito interessante como o mundo de Ingrid é exatamente o mesmo de quem assiste ao filme - existe uma linha muito tênue entre realidade e imaginação e seguindo essa lógica, o diretor Eskil Vogt, nos convida para brincar - não foi uma vez que pausei e voltei o filme para tentar entender o que tinha acontecido ou se foi uma distração momentânea que tinha me confundido. O bacana é que a história vai se desenvolvendo sem a menor pressa, mesmo correndo o risco de perder audiência, tudo acontece no seu devido tempo e quando nos damos conta do que realmente está acontecendo já caminhamos para o final - ao melhor estilo "Sexto Sentido", mas sem a necessidade de provar que tudo foi minuciosamente pensado.

Algumas cenas podem parecer exageradas, colocadas para chocar, mas não, tudo tem seu propósito e, justamente por isso, nosso pré-conceito trabalha sem filtro e no final das contas, nunca acerta. Criticamos, sentimos asco, julgamos e até sofremos pelo outro, mas esquecemos que, como na vida, toda história tem dois lados e nem sempre teremos acesso a eles. "Blind" funciona no detalhe, não se esqueça, pois essa percepção mudará sua experiência ao assistir as filme.

Vale muito a pena! 

Assista Agora

"Blind" é um grande filme, mas você só vai perceber isso depois que conseguir digerir sua proposta e, em retrospectiva, encaixar uma série de detalhes que a principio pareciam até uma certa loucura do roteirista ou um experimento cinematográfico para um público bem alternativo e amante da arte independente! Vai por mim: tudo fará muito sentido e a genialidade da dinâmica narrativa de "Blind" é justamente a de brincar com nossas percepções, como se não conseguíssemos enxergar as várias pistas que o diretor Eskil Vogt vai nos dando - e não estou sendo redundante.

Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) é uma linda mulher que perdeu a visão já adulta. Aparentemente deprimida com a nova condição, ela resolve ficar isolada em sua própria casa, onde se sente mais segura. Seu grande parceiro nesta difícil adaptação é o marido, Morten (Henrik Rafaelsen). Porém, com o passar dos dias, presa em um cotidiano monocromático, suas lembranças de um mundo que ela conheceu vão desaparecendo gradativamente, é quando ela percebe que o maior perigo está dentro de si mesma. Confira o trailer:

"Blind" fala sobre a solidão e os reflexos que ela pode causar no nosso comportamento - principalmente se essa solidão for uma escolha, mesmo que inconsciente, para se proteger de uma nova condição. O impacto que ela causa no outro é tão profundo quanto reflexivo e talvez esse premiado filme norueguês pareça confuso demais para quem não está disposto a embarcar em uma narrativa bastante particular - e aqui não basta estar apenas disposto, será preciso ter paciência até que as coisas façam sentido! O filme não é "uma viagem" , ele é uma representação clara de como nossa mente pode nos derrubar a qualquer momento e isso se extende para quem está assistindo. Olha, filme tão difícil, quanto genial! Vale muito a pena!

"Blind" foi premiado como Melhor Roteiro no Festival de Sundance, nos EUA, em 2014; foi exibido com sucesso e também premiado no Festival de Berlim com o "Label Europa Cinema", além de acumular mais de uma dezena de indicações e troféus em festivais ao redor do mundo! Com essa chancela, "Blind" se permite sair do óbvio desde o seu roteiro até sua direção e quem amarra tudo isso é uma montagem sensacional. Toda estranheza incomoda visualmente e é com uma edição bem orgânica que a narrativa subverte o conceito espacial e temporal, fazendo nossa cabeça quase explodir!

É muito interessante como o mundo de Ingrid é exatamente o mesmo de quem assiste ao filme - existe uma linha muito tênue entre realidade e imaginação e seguindo essa lógica, o diretor Eskil Vogt, nos convida para brincar - não foi uma vez que pausei e voltei o filme para tentar entender o que tinha acontecido ou se foi uma distração momentânea que tinha me confundido. O bacana é que a história vai se desenvolvendo sem a menor pressa, mesmo correndo o risco de perder audiência, tudo acontece no seu devido tempo e quando nos damos conta do que realmente está acontecendo já caminhamos para o final - ao melhor estilo "Sexto Sentido", mas sem a necessidade de provar que tudo foi minuciosamente pensado.

Algumas cenas podem parecer exageradas, colocadas para chocar, mas não, tudo tem seu propósito e, justamente por isso, nosso pré-conceito trabalha sem filtro e no final das contas, nunca acerta. Criticamos, sentimos asco, julgamos e até sofremos pelo outro, mas esquecemos que, como na vida, toda história tem dois lados e nem sempre teremos acesso a eles. "Blind" funciona no detalhe, não se esqueça, pois essa percepção mudará sua experiência ao assistir as filme.

Vale muito a pena! 

Assista Agora

Blue Valentine

Admito que na época que assisti “Blue Valentine” ou "Namorados Para Sempre" (como foi chamado por aqui), achei que fosse mais um filme independente sobre relações, feito por um diretor desconhecido e com atores ainda sem muita projeção - o que não seria demérito nenhum, mas como a experiência me dizia: tinha 50% de chances de funcionar bem. Pois bem, depois dos primeiros 30 minutos de filme, fui obrigado a parar de assistir e ir pesquisar na internet quantos prêmios esse filme havia ganhado, pois tudo era muito bom!!!

A história de Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling) que, casados há vários anos e com uma filha pequena, estão passando por um momento de crise, vendo o relacionamento ser contaminado por uma série de incertezas e inseguranças, me fisgou de cara! É lindo de ver a luta intima dos personagens para conseguir seguir em frente e tentar superar todos os seus problemas, buscando no passado tudo aquilo que fez com que eles se apaixonassem um pelo outro, é visceral! Puxa, vale muito a pena!

A direção do "novato" Derek Cianfrance é perfeita, com enquadramentos menos usuais (cheio de closes), com uma câmera mais solta, movimentos leves, uma fotografia linda do ucraniano Andrij Parekh; enfim, tem tudo que eu mais prezo em um filme sensível com esse tema - juro que fiquei de boca aberta na época! O trabalho do casal de protagonistas é perfeita (e foi nessa pesquisa que descobri que ela rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Michelle Willians em 2011). Tudo me impressionou muito: do roteiro à direção! O que eu posso dizer depois dessa experiência é que acho incrível como um filme desses pode passar tão batido pelos cinemas, sem nenhuma grande promoção e depois ser pouco indicado para se assistir no streaming! Lembro, que me senti um desatento!

“Blue Valentine”é duro, difícil, mas ao mesmo tempo gera uma reflexão profunda devido a forma como a história é contada e isso faz dele único! Nossa, vale muito a pena assistir e acompanhem esse diretor: Derek Cianfrance. Ele é muito bom e por esse filme ganhou muitos prêmios como o diretor mais promissor do ano!!!! Olha, se você, como eu, não se deu conta que esse filme poderia ser muito bom, assista imediatamente! 

Assista Agora

Admito que na época que assisti “Blue Valentine” ou "Namorados Para Sempre" (como foi chamado por aqui), achei que fosse mais um filme independente sobre relações, feito por um diretor desconhecido e com atores ainda sem muita projeção - o que não seria demérito nenhum, mas como a experiência me dizia: tinha 50% de chances de funcionar bem. Pois bem, depois dos primeiros 30 minutos de filme, fui obrigado a parar de assistir e ir pesquisar na internet quantos prêmios esse filme havia ganhado, pois tudo era muito bom!!!

A história de Cindy (Michelle Williams) e Dean (Ryan Gosling) que, casados há vários anos e com uma filha pequena, estão passando por um momento de crise, vendo o relacionamento ser contaminado por uma série de incertezas e inseguranças, me fisgou de cara! É lindo de ver a luta intima dos personagens para conseguir seguir em frente e tentar superar todos os seus problemas, buscando no passado tudo aquilo que fez com que eles se apaixonassem um pelo outro, é visceral! Puxa, vale muito a pena!

A direção do "novato" Derek Cianfrance é perfeita, com enquadramentos menos usuais (cheio de closes), com uma câmera mais solta, movimentos leves, uma fotografia linda do ucraniano Andrij Parekh; enfim, tem tudo que eu mais prezo em um filme sensível com esse tema - juro que fiquei de boca aberta na época! O trabalho do casal de protagonistas é perfeita (e foi nessa pesquisa que descobri que ela rendeu uma indicação ao Oscar de melhor atriz para Michelle Willians em 2011). Tudo me impressionou muito: do roteiro à direção! O que eu posso dizer depois dessa experiência é que acho incrível como um filme desses pode passar tão batido pelos cinemas, sem nenhuma grande promoção e depois ser pouco indicado para se assistir no streaming! Lembro, que me senti um desatento!

“Blue Valentine”é duro, difícil, mas ao mesmo tempo gera uma reflexão profunda devido a forma como a história é contada e isso faz dele único! Nossa, vale muito a pena assistir e acompanhem esse diretor: Derek Cianfrance. Ele é muito bom e por esse filme ganhou muitos prêmios como o diretor mais promissor do ano!!!! Olha, se você, como eu, não se deu conta que esse filme poderia ser muito bom, assista imediatamente! 

Assista Agora

Boa Noite, Mamãe

Quando em 2014, assisti o premiado filme austríaco "Goodnight Mommy", dos diretores Severin Fiala e Veronika Franz (de o "Chalé"), eu simplesmente o coloquei entre os melhores suspenses (psicológicos) de todos os tempos.Obviamente que ao sair a notícia de que um remake americano estava sendo produzido apenas 8 anos depois do sucesso do original, me enchi de desconfianças. Pois bem, essa nova versão dirigida pelo Matt Sobel (de "Vingança Sabor Cereja") é tão boa e surpreendente quanto!

Os irmãos gêmeos Elias e Lukas (Cameron e Nicholas Crovetti) vão passar uma temporada na casa de sua mãe (Naomi Watts) quando são surpreendidos pelas bandagens que cobrem seu rosto após um procedimento cirúrgico. Conforme o comportamento dela fica cada vez mais irreconhecível, os gêmeos passam a desconfiar de que ela seja uma impostora, despontando em uma montanha-russa de chantagens emocionais e jogos de manipulação para descobrir a verdade. Porém a verdade está além dessa desconexão com a realidade, servindo apenas de prenúncio para eventos que vão marcar a vida da família para sempre. Confira o trailer:

Quando foi lançado durante o Festival de Veneza de 2014, a versão austríaca de "Boa Noite, Mamãe" chamou muita atenção pela força dramática de uma história relativamente simples, interessante e perturbadora, que conseguia entregar uma série de reviravoltas que realmente faziam muito sentido se olhássemos em retrospectiva - conceito que havia ganhado outras proporções, alguns anos antes, com o inesquecível "Sexto Sentido" de M. "Night " Shyamalan. Pois bem, essa nova versão segue o mesmo conceito narrativo se apropriando da mesma história, mas trocando o ar mais independente e autoral do original, por uma dinâmica mais hollywoodiana de produção - o que, já adianto, funcionou perfeitamente.

O roteiro do estreante Kyle Warren praticamente repete a proposta de Franz e Fialla, inserindo um ou outro toque de horror, mas sempre se apoiando na construção daquele clima angustiante e crescente de paranoia. Ao focar a narrativa na percepção de duas crianças, é natural que a dúvida sobre o que de fato está acontecendo impacte também a audiência. Ao inserir um certo descontrole emocional da "mãe", a tensão já existente na premissa, ganha outros elementos que refletem imediatamente no fator claustrofóbico da "convivência", provocando sensações ainda mais desconfortáveis para quem assiste pela primeira vez o filme (sim, sua experiência com essa versão depende do quanto você conhece sobre a versão original).

Além do talento dos irmãos Crovetti (que já haviam chamado atenção em "Big Little Lies") é preciso que se elogie o trabalho de Watts. Ela é, sem dúvidas, o grande ganho da nova versão - sua capacidade como atriz permite que mesmo com diversos obstáculos que poderiam impedir que seu talento fosse aproveitado, já que a audiência não vê seu rosto em boa parte do filme, ela brilhe (e muito). Watts carrega no olhar uma dramaticidade que não me surpreenderia fosse reconhecida no Oscar - e não é só isso, sua expressão corporal, tom e range de interpretação estão simplesmente incríveis!

‘Boa Noite, Mamãe’ é um tiro certeiro para quem gosta de filmes de suspense que se propõem a surpreender no final. Sua narrativa é extremamente envolvente e construída para ser inquietante - as boas atuações do elenco principal, uma trilha sonora que pontua as intenções do clima sugerido pelo diretor e, lógico, as claras referências de "A Pele Que Habito" combinadas com a segurança de um roteiro que já foi testado e que funcionou bem, só ratificam a ideia da Amazon de trazer para o mainstream uma obra que até pouco tempo estava limitada ao cinema de nicho. Ponto para a era do streaming, ponto para quem apostou nesse remake!

Vale muitíssimo o seu play!

Assista Agora

Quando em 2014, assisti o premiado filme austríaco "Goodnight Mommy", dos diretores Severin Fiala e Veronika Franz (de o "Chalé"), eu simplesmente o coloquei entre os melhores suspenses (psicológicos) de todos os tempos.Obviamente que ao sair a notícia de que um remake americano estava sendo produzido apenas 8 anos depois do sucesso do original, me enchi de desconfianças. Pois bem, essa nova versão dirigida pelo Matt Sobel (de "Vingança Sabor Cereja") é tão boa e surpreendente quanto!

Os irmãos gêmeos Elias e Lukas (Cameron e Nicholas Crovetti) vão passar uma temporada na casa de sua mãe (Naomi Watts) quando são surpreendidos pelas bandagens que cobrem seu rosto após um procedimento cirúrgico. Conforme o comportamento dela fica cada vez mais irreconhecível, os gêmeos passam a desconfiar de que ela seja uma impostora, despontando em uma montanha-russa de chantagens emocionais e jogos de manipulação para descobrir a verdade. Porém a verdade está além dessa desconexão com a realidade, servindo apenas de prenúncio para eventos que vão marcar a vida da família para sempre. Confira o trailer:

Quando foi lançado durante o Festival de Veneza de 2014, a versão austríaca de "Boa Noite, Mamãe" chamou muita atenção pela força dramática de uma história relativamente simples, interessante e perturbadora, que conseguia entregar uma série de reviravoltas que realmente faziam muito sentido se olhássemos em retrospectiva - conceito que havia ganhado outras proporções, alguns anos antes, com o inesquecível "Sexto Sentido" de M. "Night " Shyamalan. Pois bem, essa nova versão segue o mesmo conceito narrativo se apropriando da mesma história, mas trocando o ar mais independente e autoral do original, por uma dinâmica mais hollywoodiana de produção - o que, já adianto, funcionou perfeitamente.

O roteiro do estreante Kyle Warren praticamente repete a proposta de Franz e Fialla, inserindo um ou outro toque de horror, mas sempre se apoiando na construção daquele clima angustiante e crescente de paranoia. Ao focar a narrativa na percepção de duas crianças, é natural que a dúvida sobre o que de fato está acontecendo impacte também a audiência. Ao inserir um certo descontrole emocional da "mãe", a tensão já existente na premissa, ganha outros elementos que refletem imediatamente no fator claustrofóbico da "convivência", provocando sensações ainda mais desconfortáveis para quem assiste pela primeira vez o filme (sim, sua experiência com essa versão depende do quanto você conhece sobre a versão original).

Além do talento dos irmãos Crovetti (que já haviam chamado atenção em "Big Little Lies") é preciso que se elogie o trabalho de Watts. Ela é, sem dúvidas, o grande ganho da nova versão - sua capacidade como atriz permite que mesmo com diversos obstáculos que poderiam impedir que seu talento fosse aproveitado, já que a audiência não vê seu rosto em boa parte do filme, ela brilhe (e muito). Watts carrega no olhar uma dramaticidade que não me surpreenderia fosse reconhecida no Oscar - e não é só isso, sua expressão corporal, tom e range de interpretação estão simplesmente incríveis!

‘Boa Noite, Mamãe’ é um tiro certeiro para quem gosta de filmes de suspense que se propõem a surpreender no final. Sua narrativa é extremamente envolvente e construída para ser inquietante - as boas atuações do elenco principal, uma trilha sonora que pontua as intenções do clima sugerido pelo diretor e, lógico, as claras referências de "A Pele Que Habito" combinadas com a segurança de um roteiro que já foi testado e que funcionou bem, só ratificam a ideia da Amazon de trazer para o mainstream uma obra que até pouco tempo estava limitada ao cinema de nicho. Ponto para a era do streaming, ponto para quem apostou nesse remake!

Vale muitíssimo o seu play!

Assista Agora

Boa Noite, Oppy

É possível se conectar, se importar e se emocionar por um rover (aquela espécie de robô de exploração espacial projetado para mover-se na superfície de um outro planeta)? "Wall-E" da Disney/Pixar provou que sim, porém, tenho a impressão, que essa relação sentimental mudou de patamar com o belíssimo documentário produzido pela Amazon ao lado da Amblin (de Steven Spielberg), "Boa Noite, Oppy". O filme do diretor Ryan White (de "The Keepers") é uma aula de narrativa, com imagens belíssimas, que transforma um assunto extremamente complexo em uma verdadeira (e honesta) jornada sobre o amor incondicional!

"Boa Noite, Oppy" conta a história verídica e inspiradora da Opportunity e da Spirit, dois robôs enviados para Marte com a missão de explorar o planeta na busca por indícios de água que poderiam sugerir algum tipo de vida extraterrestre no passado. A missão que inicialmente seria de apenas 90 dias, acabou se extendendo por mais 15 anos, criando assim um elo extraordinário entre os rovers e seus cientistas e engenheiros, a milhões de quilômetros de distância. Confira o trailer (em inglês):

Como em "Inspiration4 - Viagem Estelar" e até em "De Volta ao Espaço", entender as motivações de determinadas pessoas que vivem pela ciência sem ao menos saber se todo o seu esforço técnico e intelectual um dia poderá ser recompensado com informações e descobertas que, de alguma forma, servirão como ponto de partida para mudar o mundo em que vivemos, é, no mínimo, uma jornada muito mais sobre propósito do que qualquer outra coisa. As relações humanas parecem ser deixadas de lado em pró de um bem maior, as relações emocionais parecem muito mais silenciosas e, claro, aquela atmosfera de tensão e recorrente pressão soa quase que insuportável.

Por incrível que pareça, "Boa Noite, Oppy" chega para desmistificar essa impressão e sua história acaba nos conquistando pela relação intima dos personagens com seu propósito e não só pelas dificuldades que esse propósito geram até alcançar o seu sucesso. A partir de um roteiro que equilibra perfeitamente a relações pessoais com as dificuldades inerentes ao desafio profissional de colocar um robô para explorar Marte, o documentário é muito feliz em revelar e acompanhar os bastidores da NASA pelos olhos de quem viveu seus melhores dias na agência espacial americana - são muitas curiosidades que, entre outras coisas, expõem a importância do planejamento e de toda ciência por trás do sonho que parecia impossível. Ao mostrar alguns hábitos interessantes e ritos que acabam fazendo toda diferença naquele ambiente, o roteiro também humaniza a narrativa - os depoimentos são lindamente inseridos dentro de um contexto que nos envolve, que nos faz torcer, que nos toca. A relação da música no dia a dia daquelas pessoas é um ótimo exemplo de como tudo aquilo é tão verdadeiro quanto emocionante!

O fato é que "Good Night Oppy" (no original) vai muito além do que uma simples narrativa documental - posso dizer que é a jornada que conquista pela sua alma. Reconhecer os laços emocionais entre criador e criatura é de uma honestidade incrível e que nos enche de amor, sem nos darmos conta. Dito isso, não se surpreenda ao perceber que está sentindo uma enorme emoção ao ver um robô saindo de uma condição critica em sua missão ou até quando ele resolve se comunicar após ensurdecedores minutos de silêncio.

Olha, vale muito o seu play!

Assista Agora

É possível se conectar, se importar e se emocionar por um rover (aquela espécie de robô de exploração espacial projetado para mover-se na superfície de um outro planeta)? "Wall-E" da Disney/Pixar provou que sim, porém, tenho a impressão, que essa relação sentimental mudou de patamar com o belíssimo documentário produzido pela Amazon ao lado da Amblin (de Steven Spielberg), "Boa Noite, Oppy". O filme do diretor Ryan White (de "The Keepers") é uma aula de narrativa, com imagens belíssimas, que transforma um assunto extremamente complexo em uma verdadeira (e honesta) jornada sobre o amor incondicional!

"Boa Noite, Oppy" conta a história verídica e inspiradora da Opportunity e da Spirit, dois robôs enviados para Marte com a missão de explorar o planeta na busca por indícios de água que poderiam sugerir algum tipo de vida extraterrestre no passado. A missão que inicialmente seria de apenas 90 dias, acabou se extendendo por mais 15 anos, criando assim um elo extraordinário entre os rovers e seus cientistas e engenheiros, a milhões de quilômetros de distância. Confira o trailer (em inglês):

Como em "Inspiration4 - Viagem Estelar" e até em "De Volta ao Espaço", entender as motivações de determinadas pessoas que vivem pela ciência sem ao menos saber se todo o seu esforço técnico e intelectual um dia poderá ser recompensado com informações e descobertas que, de alguma forma, servirão como ponto de partida para mudar o mundo em que vivemos, é, no mínimo, uma jornada muito mais sobre propósito do que qualquer outra coisa. As relações humanas parecem ser deixadas de lado em pró de um bem maior, as relações emocionais parecem muito mais silenciosas e, claro, aquela atmosfera de tensão e recorrente pressão soa quase que insuportável.

Por incrível que pareça, "Boa Noite, Oppy" chega para desmistificar essa impressão e sua história acaba nos conquistando pela relação intima dos personagens com seu propósito e não só pelas dificuldades que esse propósito geram até alcançar o seu sucesso. A partir de um roteiro que equilibra perfeitamente a relações pessoais com as dificuldades inerentes ao desafio profissional de colocar um robô para explorar Marte, o documentário é muito feliz em revelar e acompanhar os bastidores da NASA pelos olhos de quem viveu seus melhores dias na agência espacial americana - são muitas curiosidades que, entre outras coisas, expõem a importância do planejamento e de toda ciência por trás do sonho que parecia impossível. Ao mostrar alguns hábitos interessantes e ritos que acabam fazendo toda diferença naquele ambiente, o roteiro também humaniza a narrativa - os depoimentos são lindamente inseridos dentro de um contexto que nos envolve, que nos faz torcer, que nos toca. A relação da música no dia a dia daquelas pessoas é um ótimo exemplo de como tudo aquilo é tão verdadeiro quanto emocionante!

O fato é que "Good Night Oppy" (no original) vai muito além do que uma simples narrativa documental - posso dizer que é a jornada que conquista pela sua alma. Reconhecer os laços emocionais entre criador e criatura é de uma honestidade incrível e que nos enche de amor, sem nos darmos conta. Dito isso, não se surpreenda ao perceber que está sentindo uma enorme emoção ao ver um robô saindo de uma condição critica em sua missão ou até quando ele resolve se comunicar após ensurdecedores minutos de silêncio.

Olha, vale muito o seu play!

Assista Agora

Brian Banks: Um Sonho Interrompido

"Brian Banks" (que no Brasil ganhou o expositivo subtítulo de "Um Sonho Interrompido") é o tipo do filme que desde a primeira cena temos a exata sensação de já conhecermos a história. Mesmo baseado em um caso real, de fato, a trama não tem nada de original, mas nem por isso deixa de ser uma jornada interessante - o filme dirigido pelo Tom Shadyac (do inesquecível "Patch Adams, o Amor é Contagioso") cumpre muito bem o seu papel como entretenimento, sua história é tão revoltante quanto envolvente, mas o tom é leve, gostoso de assistir.

Brian Banks (Aldis Hodge) é um astro de futebol americano universitário que vê seu sonho de jogar na NFL ser interrompido ao ser acusado por um crime que não cometeu. Mesmo com a ausência de provas, Banks é mal orientado e por isso acaba condenado a dez anos de prisão. Já em liberdade condicional, ele tenta retomar sua vida, provar sua inocência e, claro, ir atrás de seus sonhos como esportista. Confira o trailer (em inglês):

A escolha do roteiro escrito pelo Doug Atchison (de "Um Crime Racial") em retratar a triste realidade que um ex-presidiário enfrenta no dia a dia, especialmente sendo negro, funciona apenas como gatilho para nos conectarmos imediatamente ao protagonista. Aqui não temos dúvida que ele é mesmo inocente, que ele é mais uma vítima de racismo, de um sistema corrompido e de uma condenação absurda. O drama não está no crime, mas em como isso deixa marcas em quem foi injustiçado. É por isso que ao discutir esses temas, o filme não pesa na mão - o tom de esperança é tão latente que temos certeza que tudo vai dar certo no final. Isso pode até ser um problema para alguns, mas a ideia é justamente mostrar que a percepção do "copo meio cheio", muitas vezes é o que nos motiva a continuar enfrentando as dificuldades da vida.

Sim, o filme tem um pezinho no "espiritual" de "O Segredo - Ouse Sonhar"ao mesmo tempo em que traz elementos narrativos mais dramáticos dos filmes de tribunal como em "Luta por Justiça" - Morgan Freeman e Greg Kinnear são as personificações dessa dualidade narrativa. Tanto de um lado quanto de outro, você vai se deparar com uma série de clichês, mas a tendência é que isso não te incomode (pelo menos não muito). Veja, quando o protagonista está na pior, na solitária de uma prisão, e surge uma luz (literalmente) dando força para que ele continue acreditando que tudo vai melhorar, tendemos a desacreditar no poder transformador do ser humano como ferramenta de auto-superação, por outro lado nos faz refletir sobre aquelas passagens bem íntimas e solitárias que não podemos (ou sabemos) explicar com tanta exatidão - talvez nesse contexto, como linguagem cinematográfica, o filme até vacile um pouco na sua "forma", mas, sinceramente, no "conteúdo" em si, toda essa alegoria faz muito mais sentido. 

"Brian Banks: Um Sonho Interrompido" tenta se equilibrar ao mostrar uma versão "pé no chão" da história com aquela leve inclinação para a "auto-ajuda", no entanto o resultado surpreende pela honestidade com que o roteiro expõe esses lados. Se a produção foge do embate filosófico, certamente ela defende sua versão dos fatos e com isso mergulhamos cada vez mais na dor do protagonista sem se sentir na obrigação de acreditar em tudo que vemos na tela - isso é entretenimento!

Em tempo, o filme tem o futebol americanos como pano bem de fundo - então não espere nenhuma relação mais próxima com o esporte que o fato do protagonista ter tido seu sonho de criança interrompido.

Vale seu play!

Assista Agora

"Brian Banks" (que no Brasil ganhou o expositivo subtítulo de "Um Sonho Interrompido") é o tipo do filme que desde a primeira cena temos a exata sensação de já conhecermos a história. Mesmo baseado em um caso real, de fato, a trama não tem nada de original, mas nem por isso deixa de ser uma jornada interessante - o filme dirigido pelo Tom Shadyac (do inesquecível "Patch Adams, o Amor é Contagioso") cumpre muito bem o seu papel como entretenimento, sua história é tão revoltante quanto envolvente, mas o tom é leve, gostoso de assistir.

Brian Banks (Aldis Hodge) é um astro de futebol americano universitário que vê seu sonho de jogar na NFL ser interrompido ao ser acusado por um crime que não cometeu. Mesmo com a ausência de provas, Banks é mal orientado e por isso acaba condenado a dez anos de prisão. Já em liberdade condicional, ele tenta retomar sua vida, provar sua inocência e, claro, ir atrás de seus sonhos como esportista. Confira o trailer (em inglês):

A escolha do roteiro escrito pelo Doug Atchison (de "Um Crime Racial") em retratar a triste realidade que um ex-presidiário enfrenta no dia a dia, especialmente sendo negro, funciona apenas como gatilho para nos conectarmos imediatamente ao protagonista. Aqui não temos dúvida que ele é mesmo inocente, que ele é mais uma vítima de racismo, de um sistema corrompido e de uma condenação absurda. O drama não está no crime, mas em como isso deixa marcas em quem foi injustiçado. É por isso que ao discutir esses temas, o filme não pesa na mão - o tom de esperança é tão latente que temos certeza que tudo vai dar certo no final. Isso pode até ser um problema para alguns, mas a ideia é justamente mostrar que a percepção do "copo meio cheio", muitas vezes é o que nos motiva a continuar enfrentando as dificuldades da vida.

Sim, o filme tem um pezinho no "espiritual" de "O Segredo - Ouse Sonhar"ao mesmo tempo em que traz elementos narrativos mais dramáticos dos filmes de tribunal como em "Luta por Justiça" - Morgan Freeman e Greg Kinnear são as personificações dessa dualidade narrativa. Tanto de um lado quanto de outro, você vai se deparar com uma série de clichês, mas a tendência é que isso não te incomode (pelo menos não muito). Veja, quando o protagonista está na pior, na solitária de uma prisão, e surge uma luz (literalmente) dando força para que ele continue acreditando que tudo vai melhorar, tendemos a desacreditar no poder transformador do ser humano como ferramenta de auto-superação, por outro lado nos faz refletir sobre aquelas passagens bem íntimas e solitárias que não podemos (ou sabemos) explicar com tanta exatidão - talvez nesse contexto, como linguagem cinematográfica, o filme até vacile um pouco na sua "forma", mas, sinceramente, no "conteúdo" em si, toda essa alegoria faz muito mais sentido. 

"Brian Banks: Um Sonho Interrompido" tenta se equilibrar ao mostrar uma versão "pé no chão" da história com aquela leve inclinação para a "auto-ajuda", no entanto o resultado surpreende pela honestidade com que o roteiro expõe esses lados. Se a produção foge do embate filosófico, certamente ela defende sua versão dos fatos e com isso mergulhamos cada vez mais na dor do protagonista sem se sentir na obrigação de acreditar em tudo que vemos na tela - isso é entretenimento!

Em tempo, o filme tem o futebol americanos como pano bem de fundo - então não espere nenhuma relação mais próxima com o esporte que o fato do protagonista ter tido seu sonho de criança interrompido.

Vale seu play!

Assista Agora

Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças

Esse é um filme que a gente não cansa de ver e rever - e se você, por um acaso da vida, ainda não assistiu, pare tudo o que está fazendo e vá para o play sem o menor receio de errar. "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", dirigido pelo gênio Michel Gondry, é uma obra que transcende o rótulo de "filme de gênero", muito pelo contrário, o romance ou/e a ficção científica estão lá, mas como em "Her", não é algo tão fácil de explicar. O fato é que esse filme nos entrega uma experiência cinematográfica única! Com um roteiro brilhante, assinado por Charlie Kaufman (de "Quero Ser John Malkovich")"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" oferece uma visão intimista sobre a saudade, o amor e a inevitável dor que acompanha as relações humanas. Assim como o já citado "Her", a narrativa mistura elementos tecnológicos com uma jornada emocional profunda, criando um retrato visceral e muito original sobre o que significa amar e ser amado de verdade.

A trama segue Joel Barish (Jim Carrey) e Clementine Kruczynski (Kate Winslet), um casal cujas personalidades contrastantes levam ao término de seu relacionamento. Em um ato de desespero, Clementine contrata uma empresa especializada em apagar memórias para se livrar de qualquer vestígio emocional de Joel. Quando Joel descobre isso, ele decide fazer o mesmo. Contudo, à medida que as memórias são deletadas, Joel percebe que ainda deseja manter aquelas lembranças, mesmo as dolorosas, e luta para preservar partes de Clementine dentro de sua mente. O resultado é uma narrativa que se desenrola tanto no presente quanto no interior da mente de Joel, em uma montanha-russa emocional que questiona se pelo amor vale o sofrimento. Confira o trailer (em inglês):

O roteiro vencedor do Oscar de Kaufman, sem a menor dúvida, é o coração pulsante de "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" (no original). Kaufman, mais uma vez, usa da sua infinita criatividade (com um certo toque de loucura) para explorar temas universais como a perda e o arrependimento pela perspectiva da complexidade do amor. Mantendo um equilíbrio entre a introspecção melancólica e momentos de um humor bem peculiar, a escrita de Kaufman é habilidosa em capturar a autenticidade de um relacionamento em todas as suas camadas: as nuances das brigas, as pequenas demonstrações de afeto e a maneira como lembranças felizes podem coexistir com as mágoas - a forma como Kaufman desafia a audiência a refletir sobre a fragilidade da memória e como ela molda nossa identidade e nossas conexões com os outros, é simplesmente fantástica.

Michel Gondry parece ser o agente perfeito para transformar as palavras do roteiro em arte visual - ele dirige o filme com uma inventividade que reflete perfeitamente a subjetividade da memória e complexidade da mente humana. O uso de efeitos práticos, em vez de CGI, adiciona um toque tangível às sequências surreais, como a deformação dos espaços e os ambientes desmoronando enquanto as memórias desaparecem. A câmera de Gondry captura esses momentos com um estilo quase artesanal, criando uma conexão emocional profunda entre nós e o caos mental de Joel. Cada cena é meticulosamente desenhada para refletir o estado emocional do protagonista, transformando a mente em um cenário tão belo quanto inquietante. Jim Carrey e Kate Winslet, olha, transcendem qualquer expectativa. Carrey, conhecido por suas comédias, surpreende ao interpretar Joel com uma sutileza que transmite sua dor, confusão e esperança. Winslet, por sua vez, brilha como Clementine, uma personagem vibrante e imprevisível que contrasta perfeitamente com a introspecção de Joel. Juntos, eles criam uma química única que torna o relacionamento entre eles extremamente genuíno. 

 A trilha sonora de Jon Brion (muito premiado por "Embriagado de Amor") é outro destaque, com composições delicadas que acentuam a vulnerabilidade emocional do filme. Músicas como "Everybody’s Gotta Learn Sometime", de Beck, complementam perfeitamente o tom da narrativa, conectando a audiência às emoções de Joel e Clementine de uma maneira rara. O design de som também merece aplausos, criando transições suaves e por vezes angustiantes entre as memórias, o presente e o caos mental - é um baita trabalho de mixagem, diga-se de passagem. Agora saiba que "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" não é uma jornada tão tranquila assim  - o ritmo não linear e a estrutura narrativa complexa podem ser desafiadores para alguns, e sua abordagem densa pode parecer intimidadora em um primeiro olhar, no entanto, esses elementos são fundamentais para a experiência que é assistir esse filme imperdível!

Esse é um filme que nos lembra que as memórias, mesmo as dolorosas, fazem parte de quem somos e que o amor, com todas as suas camadas, faz valer o risco do sofrimento. Você está diante de uma obra obrigatória para quem aprecia o cinema que desafia a mente e o coração sem medir esforços. Vale seu play!

Assista Agora

Esse é um filme que a gente não cansa de ver e rever - e se você, por um acaso da vida, ainda não assistiu, pare tudo o que está fazendo e vá para o play sem o menor receio de errar. "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", dirigido pelo gênio Michel Gondry, é uma obra que transcende o rótulo de "filme de gênero", muito pelo contrário, o romance ou/e a ficção científica estão lá, mas como em "Her", não é algo tão fácil de explicar. O fato é que esse filme nos entrega uma experiência cinematográfica única! Com um roteiro brilhante, assinado por Charlie Kaufman (de "Quero Ser John Malkovich")"Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" oferece uma visão intimista sobre a saudade, o amor e a inevitável dor que acompanha as relações humanas. Assim como o já citado "Her", a narrativa mistura elementos tecnológicos com uma jornada emocional profunda, criando um retrato visceral e muito original sobre o que significa amar e ser amado de verdade.

A trama segue Joel Barish (Jim Carrey) e Clementine Kruczynski (Kate Winslet), um casal cujas personalidades contrastantes levam ao término de seu relacionamento. Em um ato de desespero, Clementine contrata uma empresa especializada em apagar memórias para se livrar de qualquer vestígio emocional de Joel. Quando Joel descobre isso, ele decide fazer o mesmo. Contudo, à medida que as memórias são deletadas, Joel percebe que ainda deseja manter aquelas lembranças, mesmo as dolorosas, e luta para preservar partes de Clementine dentro de sua mente. O resultado é uma narrativa que se desenrola tanto no presente quanto no interior da mente de Joel, em uma montanha-russa emocional que questiona se pelo amor vale o sofrimento. Confira o trailer (em inglês):

O roteiro vencedor do Oscar de Kaufman, sem a menor dúvida, é o coração pulsante de "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" (no original). Kaufman, mais uma vez, usa da sua infinita criatividade (com um certo toque de loucura) para explorar temas universais como a perda e o arrependimento pela perspectiva da complexidade do amor. Mantendo um equilíbrio entre a introspecção melancólica e momentos de um humor bem peculiar, a escrita de Kaufman é habilidosa em capturar a autenticidade de um relacionamento em todas as suas camadas: as nuances das brigas, as pequenas demonstrações de afeto e a maneira como lembranças felizes podem coexistir com as mágoas - a forma como Kaufman desafia a audiência a refletir sobre a fragilidade da memória e como ela molda nossa identidade e nossas conexões com os outros, é simplesmente fantástica.

Michel Gondry parece ser o agente perfeito para transformar as palavras do roteiro em arte visual - ele dirige o filme com uma inventividade que reflete perfeitamente a subjetividade da memória e complexidade da mente humana. O uso de efeitos práticos, em vez de CGI, adiciona um toque tangível às sequências surreais, como a deformação dos espaços e os ambientes desmoronando enquanto as memórias desaparecem. A câmera de Gondry captura esses momentos com um estilo quase artesanal, criando uma conexão emocional profunda entre nós e o caos mental de Joel. Cada cena é meticulosamente desenhada para refletir o estado emocional do protagonista, transformando a mente em um cenário tão belo quanto inquietante. Jim Carrey e Kate Winslet, olha, transcendem qualquer expectativa. Carrey, conhecido por suas comédias, surpreende ao interpretar Joel com uma sutileza que transmite sua dor, confusão e esperança. Winslet, por sua vez, brilha como Clementine, uma personagem vibrante e imprevisível que contrasta perfeitamente com a introspecção de Joel. Juntos, eles criam uma química única que torna o relacionamento entre eles extremamente genuíno. 

 A trilha sonora de Jon Brion (muito premiado por "Embriagado de Amor") é outro destaque, com composições delicadas que acentuam a vulnerabilidade emocional do filme. Músicas como "Everybody’s Gotta Learn Sometime", de Beck, complementam perfeitamente o tom da narrativa, conectando a audiência às emoções de Joel e Clementine de uma maneira rara. O design de som também merece aplausos, criando transições suaves e por vezes angustiantes entre as memórias, o presente e o caos mental - é um baita trabalho de mixagem, diga-se de passagem. Agora saiba que "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças" não é uma jornada tão tranquila assim  - o ritmo não linear e a estrutura narrativa complexa podem ser desafiadores para alguns, e sua abordagem densa pode parecer intimidadora em um primeiro olhar, no entanto, esses elementos são fundamentais para a experiência que é assistir esse filme imperdível!

Esse é um filme que nos lembra que as memórias, mesmo as dolorosas, fazem parte de quem somos e que o amor, com todas as suas camadas, faz valer o risco do sofrimento. Você está diante de uma obra obrigatória para quem aprecia o cinema que desafia a mente e o coração sem medir esforços. Vale seu play!

Assista Agora

C.B. Strike

"C.B. Strike" é entretenimento puro - especialmente se você gostou da famosa série antológica, também da BBC, "Sherlock". Por mais surpreendente que possa parecer, "C.B. Strike" é uma adaptação da série de livros escritos por J.K. Rowling (ela mesmo) sob o pseudônimo de Robert Galbraith, que  traz para a televisão histórias do charmoso detetive Cormoran Strike, e de sua assistente Robin Ellacott, em casos extremamente envolventes que mesclam mistério, thriller psicológico e drama pessoal. Criada por Tom Edge (de "The Crown") e Ben Richards (de "The Tunnel") essa série, posso te garanatir, é uma das melhores adaptações contemporâneas do gênero policial noir - mas com um tom mais realista e menos estilizado.

A narrativa, como já é possível imaginar, segue Cormoran Strike (Tom Burke), um ex-soldado que perdeu parte da perna em uma explosão no Afeganistão e que agora trabalha como detetive particular em Londres. Desorganizado, endividado e lidando com um trauma mal resolvido, ele sobrevive resolvendo casos passageiros até que um crime bastante complexo, o assassinato da modelo Lula Landry (Elarica Johnson), o coloca sob os holofotes. Nesse contexto que conhecemos Robin Ellacott (Holliday Grainger), uma assistente temporária que logo demonstra um talento nato para investigações, criando assim uma das melhores dinâmicas entre investigadores da atualidade. Confira o trailer (em inglês):

"C.B. Strike", de fato, se destaca pela estrutura narrativa divertida e muito fiel aos livros. Aqui, cada temporada adapta um caso específico da obra original - desde "O Chamado do Cuco", que mergulha no suposto suicídio de uma supermodelo, até "Sangue Revolto", um caso sombrio que leva a dupla a investigar um culto realmente perigoso. Com roteiros bem construídos, a adaptação foi muito feliz ao manter a complexidade das investigações, com detalhes muito precisos dos romances, mas sem perder a fluidez necessários para uma jornada na tela - a série não é ágil, é verdade, mas ela está longe de ser lenta. O sucesso foi imediato, proporcionando, até agora, cinco temporadas com dois a quatro episódios cada, totalizando 19 - sendo 16 escritos por Tom Edge.

Já a equipe de direção, liderada por Susan Tully (de "Crossing Lines"), aposta em um realismo cru, utilizando Londres não apenas como pano de fundo, mas como um personagem vivo que amplifica a atmosfera mais crônica de tensão e mistério. Diferente de "Sherlock", que estiliza a cidade para criar um ambiente quase fantasioso, "C.B. Strike" mantém os pés no chão, apresentando uma capital britânica sombria, úmida e cheia de becos estreitos que reforçam a sensação de perigo. E aqui cabe um elogio: a fotografia estruturada por Hubert Taczanowski (não por acaso de "The Missing") reforça a estética mais noir da série, brincando com as sombras e os contrastes para enfatizar os momentos de maior mistério, enquanto a trilha sonora discreta, mas eficaz, contribui para o peso do tom, só que sem se sobrepor ao drama, permitindo que a tensão seja construída da forma mais natural possível.

Tom Burke e Holliday Grainger são o grande trunfo da série. Burke incorpora Strike com a dose certa de exaustão e inteligência, mas sem cair nos clichês do detetive cínico e autodestrutivo. Ele é falho, mas extremamente perspicaz, e a série explora bem suas fraquezas sem transformá-las em mero artifício dramático. Já Grainger traz força e sensibilidade para sua personagem, cuja evolução ao longo das cinco temporadas a torna tão essencial para as investigações quanto o próprio Strike. Veja "C.B. Strike" valoriza os diálogos, a construção do mistério e o desenvolvimento dos personagens, o que pode parecer mais cadenciada para quem espera uma abordagem eletrizante. No entanto, essa escolha conceitual permite um aprofundamento maior nos casos e nas relações interpessoais, sem pressa, tornando a série uma experiência mais interessante para os fãs do gênero, ou seja, para quem gosta de histórias de detetives e de investigações meticulosas, sem nunca fugir do propósito do divertimento, essa é série que você estava esperando!

Divirta-se!

Assista Agora

"C.B. Strike" é entretenimento puro - especialmente se você gostou da famosa série antológica, também da BBC, "Sherlock". Por mais surpreendente que possa parecer, "C.B. Strike" é uma adaptação da série de livros escritos por J.K. Rowling (ela mesmo) sob o pseudônimo de Robert Galbraith, que  traz para a televisão histórias do charmoso detetive Cormoran Strike, e de sua assistente Robin Ellacott, em casos extremamente envolventes que mesclam mistério, thriller psicológico e drama pessoal. Criada por Tom Edge (de "The Crown") e Ben Richards (de "The Tunnel") essa série, posso te garanatir, é uma das melhores adaptações contemporâneas do gênero policial noir - mas com um tom mais realista e menos estilizado.

A narrativa, como já é possível imaginar, segue Cormoran Strike (Tom Burke), um ex-soldado que perdeu parte da perna em uma explosão no Afeganistão e que agora trabalha como detetive particular em Londres. Desorganizado, endividado e lidando com um trauma mal resolvido, ele sobrevive resolvendo casos passageiros até que um crime bastante complexo, o assassinato da modelo Lula Landry (Elarica Johnson), o coloca sob os holofotes. Nesse contexto que conhecemos Robin Ellacott (Holliday Grainger), uma assistente temporária que logo demonstra um talento nato para investigações, criando assim uma das melhores dinâmicas entre investigadores da atualidade. Confira o trailer (em inglês):

"C.B. Strike", de fato, se destaca pela estrutura narrativa divertida e muito fiel aos livros. Aqui, cada temporada adapta um caso específico da obra original - desde "O Chamado do Cuco", que mergulha no suposto suicídio de uma supermodelo, até "Sangue Revolto", um caso sombrio que leva a dupla a investigar um culto realmente perigoso. Com roteiros bem construídos, a adaptação foi muito feliz ao manter a complexidade das investigações, com detalhes muito precisos dos romances, mas sem perder a fluidez necessários para uma jornada na tela - a série não é ágil, é verdade, mas ela está longe de ser lenta. O sucesso foi imediato, proporcionando, até agora, cinco temporadas com dois a quatro episódios cada, totalizando 19 - sendo 16 escritos por Tom Edge.

Já a equipe de direção, liderada por Susan Tully (de "Crossing Lines"), aposta em um realismo cru, utilizando Londres não apenas como pano de fundo, mas como um personagem vivo que amplifica a atmosfera mais crônica de tensão e mistério. Diferente de "Sherlock", que estiliza a cidade para criar um ambiente quase fantasioso, "C.B. Strike" mantém os pés no chão, apresentando uma capital britânica sombria, úmida e cheia de becos estreitos que reforçam a sensação de perigo. E aqui cabe um elogio: a fotografia estruturada por Hubert Taczanowski (não por acaso de "The Missing") reforça a estética mais noir da série, brincando com as sombras e os contrastes para enfatizar os momentos de maior mistério, enquanto a trilha sonora discreta, mas eficaz, contribui para o peso do tom, só que sem se sobrepor ao drama, permitindo que a tensão seja construída da forma mais natural possível.

Tom Burke e Holliday Grainger são o grande trunfo da série. Burke incorpora Strike com a dose certa de exaustão e inteligência, mas sem cair nos clichês do detetive cínico e autodestrutivo. Ele é falho, mas extremamente perspicaz, e a série explora bem suas fraquezas sem transformá-las em mero artifício dramático. Já Grainger traz força e sensibilidade para sua personagem, cuja evolução ao longo das cinco temporadas a torna tão essencial para as investigações quanto o próprio Strike. Veja "C.B. Strike" valoriza os diálogos, a construção do mistério e o desenvolvimento dos personagens, o que pode parecer mais cadenciada para quem espera uma abordagem eletrizante. No entanto, essa escolha conceitual permite um aprofundamento maior nos casos e nas relações interpessoais, sem pressa, tornando a série uma experiência mais interessante para os fãs do gênero, ou seja, para quem gosta de histórias de detetives e de investigações meticulosas, sem nunca fugir do propósito do divertimento, essa é série que você estava esperando!

Divirta-se!

Assista Agora

Calls

"Calls" é uma das melhores séries de ficção científica que já assisti - e o que poderia ser apenas uma opinião pontual acaba ganhando muito peso quando definimos o que essa experiência audiovisual inovadora representa através de um conceito narrativo bastante antigo: "para que uma história seja uma boa história, ela precisa apenas ser sentida"! Mas como isso é possível? Simples, porém genial: em "Calls" o que interessa são os diálogos que ouvimos e não a ação que poderíamos ver -na tela, só assistimos algumas animações que pontuam criativamente uma conversa pelo telefone ou pelo celular. 

Essa série originalmente francesa foi criada porTimothée Hochet, teve sua versão americana adaptada pelo excelente diretor uruguaio Fede Álvarez (de "O Homem nas Trevas") para oApple TV+. Sem entrar em muitos detalhes para não estragar a experiência sensorial que é assistir "Calls", sua premissa é enganosamente simples, ou seja, em cada episódio (aparentemente independente) temos acesso as conversas telefônicas entre duas ou mais pessoas lidando com uma situação aparentemente casual, mas que vai ganhando contornos (literalmente) fantásticos, recheados de suspense e drama. Confira o trailer:

Antes de mais nada eu preciso dizer que "Calls" pode até causar um estranhamento inicial, mas se você gosta de ficção cientifica, não desista! É claro que o fato de não podermos assistir o que está sendo captado pelo áudio das ligações, naturalmente, nos gera certa ansiedade e angustia. Ao acreditar em uma experiência imersiva e sensorial como essa, só nos resta imaginar - como nos bons tempos da rádio e mais recentemente como alguns audiobooks ou podcasts recheados de stroytelling.

Os episódios de 15 minutos em média são extremamente bem dirigidos! Os atores são incríveis e aqui cabe um conselho: não assista dublado em hipótese alguma! No elenco temos ótimos atores como Aaron Taylor-Johnson,  Pedro Pascal, Aubrey Plaza, Mark Duplass, Rosario Dawson, Nick Jonas. Outro elemento técnico que salta aos olhos, ou melhor, "aos ouvidos", é o desenho de som e a mixagem da série - é o equilíbrio perfeito entre efeitos, trilha e voz! É impressionante como essa arte é levada para outro patamar com o objetivo claro de mexer com nossas sensações - e consegue!

Não se enganem: o diretor, todo elenco e as soluções técnicas e artísticas da série evitam que "Calls" possa ser classificada como um simples podcast ou ou até uma radionovela. As imagens que transitam entre o abstrato e o realismo tecnológico das ondas sonoras, de fato, contam ou ajudam a contar uma história extremamente bem construída e cheia de detalhes assustadores - mesmo sendo apenas retas, pontos e distorções, essas animações estão completamente alinhadas com o tom da narrativa e elas transformam a maneira com que vivenciamos todo mistério - é como se estivéssemos ouvindo a conversa alheia ou, por curiosidade, a caixa preta de uma avião antes de um acidente fatal! Emocionante e Angustiante, com o mesmo peso dramático!

Vale muito a pena: pela experiência, pela inovação e pela história bem amarrada!

Assista Agora

"Calls" é uma das melhores séries de ficção científica que já assisti - e o que poderia ser apenas uma opinião pontual acaba ganhando muito peso quando definimos o que essa experiência audiovisual inovadora representa através de um conceito narrativo bastante antigo: "para que uma história seja uma boa história, ela precisa apenas ser sentida"! Mas como isso é possível? Simples, porém genial: em "Calls" o que interessa são os diálogos que ouvimos e não a ação que poderíamos ver -na tela, só assistimos algumas animações que pontuam criativamente uma conversa pelo telefone ou pelo celular. 

Essa série originalmente francesa foi criada porTimothée Hochet, teve sua versão americana adaptada pelo excelente diretor uruguaio Fede Álvarez (de "O Homem nas Trevas") para oApple TV+. Sem entrar em muitos detalhes para não estragar a experiência sensorial que é assistir "Calls", sua premissa é enganosamente simples, ou seja, em cada episódio (aparentemente independente) temos acesso as conversas telefônicas entre duas ou mais pessoas lidando com uma situação aparentemente casual, mas que vai ganhando contornos (literalmente) fantásticos, recheados de suspense e drama. Confira o trailer:

Antes de mais nada eu preciso dizer que "Calls" pode até causar um estranhamento inicial, mas se você gosta de ficção cientifica, não desista! É claro que o fato de não podermos assistir o que está sendo captado pelo áudio das ligações, naturalmente, nos gera certa ansiedade e angustia. Ao acreditar em uma experiência imersiva e sensorial como essa, só nos resta imaginar - como nos bons tempos da rádio e mais recentemente como alguns audiobooks ou podcasts recheados de stroytelling.

Os episódios de 15 minutos em média são extremamente bem dirigidos! Os atores são incríveis e aqui cabe um conselho: não assista dublado em hipótese alguma! No elenco temos ótimos atores como Aaron Taylor-Johnson,  Pedro Pascal, Aubrey Plaza, Mark Duplass, Rosario Dawson, Nick Jonas. Outro elemento técnico que salta aos olhos, ou melhor, "aos ouvidos", é o desenho de som e a mixagem da série - é o equilíbrio perfeito entre efeitos, trilha e voz! É impressionante como essa arte é levada para outro patamar com o objetivo claro de mexer com nossas sensações - e consegue!

Não se enganem: o diretor, todo elenco e as soluções técnicas e artísticas da série evitam que "Calls" possa ser classificada como um simples podcast ou ou até uma radionovela. As imagens que transitam entre o abstrato e o realismo tecnológico das ondas sonoras, de fato, contam ou ajudam a contar uma história extremamente bem construída e cheia de detalhes assustadores - mesmo sendo apenas retas, pontos e distorções, essas animações estão completamente alinhadas com o tom da narrativa e elas transformam a maneira com que vivenciamos todo mistério - é como se estivéssemos ouvindo a conversa alheia ou, por curiosidade, a caixa preta de uma avião antes de um acidente fatal! Emocionante e Angustiante, com o mesmo peso dramático!

Vale muito a pena: pela experiência, pela inovação e pela história bem amarrada!

Assista Agora