Martin Scorsese é um dos maiores cineastas da história do cinema - isso não há como negar. Com uma carreira de mais de 50 anos, ele já dirigiu alguns dos filmes mais importantes e aclamados de todos os tempos, como "Taxi Driver", "Os Bons Companheiros", "Cassino" e "A Invenção de Hugo Cabret", só para citar os clássicos. Scorsese já foi indicado 9 vezes ao Oscar de "Melhor Diretor" e venceu por "Os Infiltrados". De fato um currículo de respeito e é certamente por isso que nos propomos a assistir mais de três horas e meia de seu mais recente trabalho, o drama "Assassinos da Lua das Flores". Olha, o filme é realmente muito bom, dos melhores de sua carreira como diretor, mas meu amigo, é longo demais! Será preciso uma dose extra de empolgação para encarar essa jornada, mesmo sabendo que a qualidade técnica e artística é tão alta que nem vemos o tempo passar. "Assassinos da Lua das Flores" é mais uma prova do talento e da maestria de Scorsese, mas como uma minissérie, a experiência seria bem menos cansativa.
Baseado no livro homônimo de David Grann, "Assassinos da Lua das Flores" conta a história real de uma série de assassinatos misteriosos que ocorreram na década de 1920 na tribo indígena Osage, no estado americano de Oklahoma. Os Osage eram donos de terras ricas em petróleo, e suas mortes levantaram suspeitas de que poderiam ter sido encomendadas por pessoas que queriam se apoderar de suas riquezas, especialmente William Hale (Robert De Niro). Confira o trailer:
Produzido pela AppleTV+ e estrelado por Leonardo DiCaprio, Jesse Plemons, Robert De Niro e Lily Gladstone, "Assassinos da Lua das Flores" tem todos os elementos que fazem os olhos dos votantes do Oscar brilhar. Sério, o filme é de cair o queixo - pela qualidade, pelo tamanho da produção, e, claro, pela forma que Scorsese reproduziu uma atmosfera de recorrente tensão e desconfiança, em pleno anos 20, com tanta perfeição. Você analisa os detalhes, destrincha o roteiro, repara em tudo e não encontra um vacilo sequer - é impressionante como a direção de Scorsese é impecável ao ponto de prender nossa atenção do início ao fim, em um misto de horror e poesia. Reparem como o roteiro do genial Eric Roth (vencedor do Oscar por "Forrest Gump" e indicado mais seis vezes, a última por "Duna") transita com perfeição entre a ganância, a vaidade e o desejo do individuo que se sobrepõe ao meio em que a história acontece - eu diria, uma espécie de faroeste macabro onde a tensão e a violência desenfreada dão o tom das relações sociais e humanas pela perspectiva de quem sofre e de quem comete crimes tão brutais.
DiCaprio interpreta Ernest Burkhart, um homem branco que se casa com uma mulher Osage, Mollie (Lily Gladstone), e se torna um dos responsáveis por articular os crimes a mando do tio William - e aqui cabe um observação sobre o texto: se inicialmente tudo fica subentendido, com o passar do tempo as motivações e ações ficam completamente escancaradas. Em nenhum momento o roteiro se propõe a seguir a sinopse, criar um mistério e gerar dúvidas - tudo é muito claro, no entanto são nas consequências intimas dos personagens que a trama ganha profundidade e reflexão (e talvez por isso o filme não tenha sido uma unanimidade). As performances dos atores são excelentes: DiCaprio dá um tom de complexidade e ambivalência ao seu Ernest que, na minha opinião, o credenciaria, no mínimo, para uma indicação ao Oscar. Já Lily Gladstone, essa vai ser a barbada do ano na categoria "Melhor Atriz", pode me cobrar depois.
Se "Assassinos da Lua das Flores" sabe explorar temas como corrupção e preconceito com certa brutalidade no seu "conteúdo", mas saiba que é na sua "forma" que o filme oferece uma visão verdadeiramente fascinante sobre aquele período turbulento da história americana. A fotografia do Rodrigo Prieto (mexicano parceiro de Alejandro G. Iñárritu e indicado cinco vezes ao Oscar) e a trilha sonora de Robbie Robertson (de "O Irlandês") provocam na audiência um misto de emoções que se alternam entre a tensão e a preocupação, e com aquela típica frieza do diretor, narra visualmente um banho de sangue étnico, com suas consequências sociais e impactos psicológicos, de um jeito onde o cinema parece funcionar, mais uma vez, como uma janela para muito do que acontece nos dias de hoje ao redor do nosso planeta.
Obrigado Scorsese!
Vale muito o play. Vale muito a reflexão!
Martin Scorsese é um dos maiores cineastas da história do cinema - isso não há como negar. Com uma carreira de mais de 50 anos, ele já dirigiu alguns dos filmes mais importantes e aclamados de todos os tempos, como "Taxi Driver", "Os Bons Companheiros", "Cassino" e "A Invenção de Hugo Cabret", só para citar os clássicos. Scorsese já foi indicado 9 vezes ao Oscar de "Melhor Diretor" e venceu por "Os Infiltrados". De fato um currículo de respeito e é certamente por isso que nos propomos a assistir mais de três horas e meia de seu mais recente trabalho, o drama "Assassinos da Lua das Flores". Olha, o filme é realmente muito bom, dos melhores de sua carreira como diretor, mas meu amigo, é longo demais! Será preciso uma dose extra de empolgação para encarar essa jornada, mesmo sabendo que a qualidade técnica e artística é tão alta que nem vemos o tempo passar. "Assassinos da Lua das Flores" é mais uma prova do talento e da maestria de Scorsese, mas como uma minissérie, a experiência seria bem menos cansativa.
Baseado no livro homônimo de David Grann, "Assassinos da Lua das Flores" conta a história real de uma série de assassinatos misteriosos que ocorreram na década de 1920 na tribo indígena Osage, no estado americano de Oklahoma. Os Osage eram donos de terras ricas em petróleo, e suas mortes levantaram suspeitas de que poderiam ter sido encomendadas por pessoas que queriam se apoderar de suas riquezas, especialmente William Hale (Robert De Niro). Confira o trailer:
Produzido pela AppleTV+ e estrelado por Leonardo DiCaprio, Jesse Plemons, Robert De Niro e Lily Gladstone, "Assassinos da Lua das Flores" tem todos os elementos que fazem os olhos dos votantes do Oscar brilhar. Sério, o filme é de cair o queixo - pela qualidade, pelo tamanho da produção, e, claro, pela forma que Scorsese reproduziu uma atmosfera de recorrente tensão e desconfiança, em pleno anos 20, com tanta perfeição. Você analisa os detalhes, destrincha o roteiro, repara em tudo e não encontra um vacilo sequer - é impressionante como a direção de Scorsese é impecável ao ponto de prender nossa atenção do início ao fim, em um misto de horror e poesia. Reparem como o roteiro do genial Eric Roth (vencedor do Oscar por "Forrest Gump" e indicado mais seis vezes, a última por "Duna") transita com perfeição entre a ganância, a vaidade e o desejo do individuo que se sobrepõe ao meio em que a história acontece - eu diria, uma espécie de faroeste macabro onde a tensão e a violência desenfreada dão o tom das relações sociais e humanas pela perspectiva de quem sofre e de quem comete crimes tão brutais.
DiCaprio interpreta Ernest Burkhart, um homem branco que se casa com uma mulher Osage, Mollie (Lily Gladstone), e se torna um dos responsáveis por articular os crimes a mando do tio William - e aqui cabe um observação sobre o texto: se inicialmente tudo fica subentendido, com o passar do tempo as motivações e ações ficam completamente escancaradas. Em nenhum momento o roteiro se propõe a seguir a sinopse, criar um mistério e gerar dúvidas - tudo é muito claro, no entanto são nas consequências intimas dos personagens que a trama ganha profundidade e reflexão (e talvez por isso o filme não tenha sido uma unanimidade). As performances dos atores são excelentes: DiCaprio dá um tom de complexidade e ambivalência ao seu Ernest que, na minha opinião, o credenciaria, no mínimo, para uma indicação ao Oscar. Já Lily Gladstone, essa vai ser a barbada do ano na categoria "Melhor Atriz", pode me cobrar depois.
Se "Assassinos da Lua das Flores" sabe explorar temas como corrupção e preconceito com certa brutalidade no seu "conteúdo", mas saiba que é na sua "forma" que o filme oferece uma visão verdadeiramente fascinante sobre aquele período turbulento da história americana. A fotografia do Rodrigo Prieto (mexicano parceiro de Alejandro G. Iñárritu e indicado cinco vezes ao Oscar) e a trilha sonora de Robbie Robertson (de "O Irlandês") provocam na audiência um misto de emoções que se alternam entre a tensão e a preocupação, e com aquela típica frieza do diretor, narra visualmente um banho de sangue étnico, com suas consequências sociais e impactos psicológicos, de um jeito onde o cinema parece funcionar, mais uma vez, como uma janela para muito do que acontece nos dias de hoje ao redor do nosso planeta.
Obrigado Scorsese!
Vale muito o play. Vale muito a reflexão!
"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!
O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:
"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.
Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").
Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também).
"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.
Vale muito a pena!
Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção!
"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!
O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:
"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.
Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").
Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também).
"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.
Vale muito a pena!
Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção!
Olha, "Até os Ossos" não é nada fácil e justamente por isso deve dividir opiniões - até pela zona um pouco cinzenta por onde ele transita, entre um profundo drama de relações e um suspense com boa dose de realismo. O filme dirigido por Luca Guadagnino (de "Me Chame pelo Seu Nome), mergulha, sem receios, nas complexidades da condição humana, explorando dois temas bastante sensíveis: o primeiro, identidade; o segundo, muito chocante, canibalismo. Com uma abordagem visceral e perturbadora, o filme nos desafia a confrontar nossas próprias noções de existência e a questionar o "diferente" por um olhar mais íntimo - mas cuidado: você pode se impressionar com as cenas que você vai assistir ao dar o play.
Assombrada por um instinto que é incapaz de controlar, a jovem Maren Yearly (Taylor Russell) embarca em uma jornada em busca de suas raízes após ceder a um novo ataque canibal. No caminho, ela encontra o misterioso Lee (Timothée Chalamet), que demonstra padecer do mesmo problema. Juntos, eles percebem que a aceitação deve se sobressair à compreensão de sua verdadeira essência, e buscam por formas que autorizem a manutenção de seu relacionamento. Confira o trailer:
Talvez a melhor forma de definir "Até os Ossos" seja: um suspense com alma. Digo isso pois o roteiro escrito pelo David Kajganich (de "Suspíria: A Dança do Medo") e pela Camille DeAngelis (que criou a história) foge do lugar comum ao tentar equilibrar uma trama de certa forma simples, mas com elementos pouco explorados no cinema ao longo dos anos - embora seja inegável que o tema "canibalismo" venha ganhando cada vez mais holofotes em produções recentes. Talvez, essa ousadia do roteiro tenha encontrado uma gramática cinematográfica perfeita nas mãos de Guadagnino, já que o diretor é capaz de levar o público para uma jornada emocional e psicológica extremamente desconfortável sem se esquecer de que por trás do impacto visual, existe dores muito particulares de seus personagens - reparem como o texto transmite a vulnerabilidade e a intensidade dos personagens com a mesma precisão.
Sua direção é mais uma vez primorosa. Com uma abordagem visual arrojada, seguindo aquele estilo mais independente, com cenas de diálogos importantes resolvidas sem cortes e muita, muita, criatividade para refletir a angústia e a desconexão daquela realidade em imagens - e aqui cabe um outro elogio: o desenho de som, muitas vezes faz o mesmo papel da imagem com maestria, já que Guadagnino "sugere" e "mostra" com a igual potência. A fotografia do bielorrusso Arseni Khachaturan (de "The Idol") é marcada por imagens impactantes sim, mas também por muito simbolismo já que precisa retratar uma condição que enxerga beleza e um desejo peculiar pelo corpo humano, de uma forma completamente diferente de quem assiste - que, inclusive, sente na pele uma enorme repulsa.
Por fim é preciso destacar as performances de Russell e Chalamet. Ambos com uma entrega visceral, além de uma capacidade de se expressar e trabalhar uma gama de emoções sem usar muito das palavras - lindo de ver. Outro que merece aplausos é Mark Rylance como Sully - é incrível como ele transmite sua dor e sua frustração, ao mesmo tempo em que o olhar indica sua obsessão. Olha, digno de prêmios!
O fato é que "Bones and All" (no original) não vai ter meio termo, ou você vai amar ou vai odiar - principalmente se você levar em consideração que depois do prólogo (genial), o primeiro ato patina um pouco, deixando o segundo ato para ajustar o tom da narrativa e entregar um terceiro ato bem mais redondinho e surpreendente. Agora, também é preciso dizer que, embarcado na experiência, o filme não terá problemas em se mostrar desafiador ao mergulhar nas profundezas de uma condição humana muito desconfortável.
Se eu fosse você, eu arriscaria!
Olha, "Até os Ossos" não é nada fácil e justamente por isso deve dividir opiniões - até pela zona um pouco cinzenta por onde ele transita, entre um profundo drama de relações e um suspense com boa dose de realismo. O filme dirigido por Luca Guadagnino (de "Me Chame pelo Seu Nome), mergulha, sem receios, nas complexidades da condição humana, explorando dois temas bastante sensíveis: o primeiro, identidade; o segundo, muito chocante, canibalismo. Com uma abordagem visceral e perturbadora, o filme nos desafia a confrontar nossas próprias noções de existência e a questionar o "diferente" por um olhar mais íntimo - mas cuidado: você pode se impressionar com as cenas que você vai assistir ao dar o play.
Assombrada por um instinto que é incapaz de controlar, a jovem Maren Yearly (Taylor Russell) embarca em uma jornada em busca de suas raízes após ceder a um novo ataque canibal. No caminho, ela encontra o misterioso Lee (Timothée Chalamet), que demonstra padecer do mesmo problema. Juntos, eles percebem que a aceitação deve se sobressair à compreensão de sua verdadeira essência, e buscam por formas que autorizem a manutenção de seu relacionamento. Confira o trailer:
Talvez a melhor forma de definir "Até os Ossos" seja: um suspense com alma. Digo isso pois o roteiro escrito pelo David Kajganich (de "Suspíria: A Dança do Medo") e pela Camille DeAngelis (que criou a história) foge do lugar comum ao tentar equilibrar uma trama de certa forma simples, mas com elementos pouco explorados no cinema ao longo dos anos - embora seja inegável que o tema "canibalismo" venha ganhando cada vez mais holofotes em produções recentes. Talvez, essa ousadia do roteiro tenha encontrado uma gramática cinematográfica perfeita nas mãos de Guadagnino, já que o diretor é capaz de levar o público para uma jornada emocional e psicológica extremamente desconfortável sem se esquecer de que por trás do impacto visual, existe dores muito particulares de seus personagens - reparem como o texto transmite a vulnerabilidade e a intensidade dos personagens com a mesma precisão.
Sua direção é mais uma vez primorosa. Com uma abordagem visual arrojada, seguindo aquele estilo mais independente, com cenas de diálogos importantes resolvidas sem cortes e muita, muita, criatividade para refletir a angústia e a desconexão daquela realidade em imagens - e aqui cabe um outro elogio: o desenho de som, muitas vezes faz o mesmo papel da imagem com maestria, já que Guadagnino "sugere" e "mostra" com a igual potência. A fotografia do bielorrusso Arseni Khachaturan (de "The Idol") é marcada por imagens impactantes sim, mas também por muito simbolismo já que precisa retratar uma condição que enxerga beleza e um desejo peculiar pelo corpo humano, de uma forma completamente diferente de quem assiste - que, inclusive, sente na pele uma enorme repulsa.
Por fim é preciso destacar as performances de Russell e Chalamet. Ambos com uma entrega visceral, além de uma capacidade de se expressar e trabalhar uma gama de emoções sem usar muito das palavras - lindo de ver. Outro que merece aplausos é Mark Rylance como Sully - é incrível como ele transmite sua dor e sua frustração, ao mesmo tempo em que o olhar indica sua obsessão. Olha, digno de prêmios!
O fato é que "Bones and All" (no original) não vai ter meio termo, ou você vai amar ou vai odiar - principalmente se você levar em consideração que depois do prólogo (genial), o primeiro ato patina um pouco, deixando o segundo ato para ajustar o tom da narrativa e entregar um terceiro ato bem mais redondinho e surpreendente. Agora, também é preciso dizer que, embarcado na experiência, o filme não terá problemas em se mostrar desafiador ao mergulhar nas profundezas de uma condição humana muito desconfortável.
Se eu fosse você, eu arriscaria!
"Atleta A" é um verdadeiro soco no estômago!
Esse documentário da Netflix, expõe o médico oficial da equipe de ginástica olímpica do EUA, Larry Nassar, que abusou das jovens atletas durante anos, sem que a Federação iniciasse, ao menos, uma investigação depois de denúncias que vinham desde 2015! Olha, além de emocionante, "Atleta A" é desconfortável como duas outras recentes produções: "Jeffrey Epstein: Poder e Perversão"da Netflix e "Deixando Neverland" da HBO. Confira o trailer (em inglês):
O grande mérito do documentário dirigido pela dupla Bonni Cohen e Jon Shenk e talvez a razão pela qual ele seja diferente dos outros dois títulos mencionados, é a forma direta e avassaladora como o roteiro vai ligando os fatos a partir da denúncia de uma potencial medalhista olímpica, Maggie Nichols, que teve seu sonho de disputar uma Olimpíada ceifado por uma Federação hipócrita, mais preocupada com uma medalha de ouro do que com o respeito por suas atletas, adolescentes de 13 anos que foram abusadas sistematicamente por Nassar. Para quem gosta de esporte e, no meu caso, pai de um menina, fica quase impossível não pausar o filme para recuperar o fôlego, dada a potência e coragem dos depoimentos que assistimos - é simplesmente sensacional a forma como uma história complexa foi bem explicada em apenas 1:40.
Não é difícil perceber a sensibilidade com que Cohen e Shenk desenvolveram as histórias de algumas peças importantes dessa denúncia que abalou o esporte americano em 2016 durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Embora paralelas, seu encontro se transforma em um dos momentos mais emocionantes do filme, onde vemos algumas vítimas do médico lendo seus relatos sobre o trauma e a vergonha que sentiram após os abusos perante uma juíza incrédula. Foram 150 sobreviventes unidas para desmascarar Larry Nassar. O interessante, porém, é que o documentário é capaz de equilibrar perfeitamente a construção de uma investigação jornalística (e não policial) com a própria história do esporte, com alguns métodos (e personagens) que fizeram sucesso na Romênia de Nadia Comaneti e foram importados para transformar os EUA em uma potência do esporte!
"Atleta A", de fato, vale muito a pena, mas se prepare, pois não será um jornada das mais fáceis já que além das investigações sobre abuso de menores, nos deparamos com personagens movidos por poder, dinheiro, fama; elementos que nada tem a ver com os valores do esporte e com o sonho de criança de muitas dessas atletas que queriam representar o seu país nas competições internacionais - e aqui eu cito uma passagem que me marcou muito: existe uma linha muito tênue entre exigência e assédio moral, agora projete isso em uma criança de pouco mais de dez anos e fica fácil entender porquê o assunto mexe tanto com a gente!
Dê o play, mas esteja disposto a viver uma série de sensações, onde muitas delas não serão tão agradáveis!
"Atleta A" é um verdadeiro soco no estômago!
Esse documentário da Netflix, expõe o médico oficial da equipe de ginástica olímpica do EUA, Larry Nassar, que abusou das jovens atletas durante anos, sem que a Federação iniciasse, ao menos, uma investigação depois de denúncias que vinham desde 2015! Olha, além de emocionante, "Atleta A" é desconfortável como duas outras recentes produções: "Jeffrey Epstein: Poder e Perversão"da Netflix e "Deixando Neverland" da HBO. Confira o trailer (em inglês):
O grande mérito do documentário dirigido pela dupla Bonni Cohen e Jon Shenk e talvez a razão pela qual ele seja diferente dos outros dois títulos mencionados, é a forma direta e avassaladora como o roteiro vai ligando os fatos a partir da denúncia de uma potencial medalhista olímpica, Maggie Nichols, que teve seu sonho de disputar uma Olimpíada ceifado por uma Federação hipócrita, mais preocupada com uma medalha de ouro do que com o respeito por suas atletas, adolescentes de 13 anos que foram abusadas sistematicamente por Nassar. Para quem gosta de esporte e, no meu caso, pai de um menina, fica quase impossível não pausar o filme para recuperar o fôlego, dada a potência e coragem dos depoimentos que assistimos - é simplesmente sensacional a forma como uma história complexa foi bem explicada em apenas 1:40.
Não é difícil perceber a sensibilidade com que Cohen e Shenk desenvolveram as histórias de algumas peças importantes dessa denúncia que abalou o esporte americano em 2016 durante as Olimpíadas do Rio de Janeiro. Embora paralelas, seu encontro se transforma em um dos momentos mais emocionantes do filme, onde vemos algumas vítimas do médico lendo seus relatos sobre o trauma e a vergonha que sentiram após os abusos perante uma juíza incrédula. Foram 150 sobreviventes unidas para desmascarar Larry Nassar. O interessante, porém, é que o documentário é capaz de equilibrar perfeitamente a construção de uma investigação jornalística (e não policial) com a própria história do esporte, com alguns métodos (e personagens) que fizeram sucesso na Romênia de Nadia Comaneti e foram importados para transformar os EUA em uma potência do esporte!
"Atleta A", de fato, vale muito a pena, mas se prepare, pois não será um jornada das mais fáceis já que além das investigações sobre abuso de menores, nos deparamos com personagens movidos por poder, dinheiro, fama; elementos que nada tem a ver com os valores do esporte e com o sonho de criança de muitas dessas atletas que queriam representar o seu país nas competições internacionais - e aqui eu cito uma passagem que me marcou muito: existe uma linha muito tênue entre exigência e assédio moral, agora projete isso em uma criança de pouco mais de dez anos e fica fácil entender porquê o assunto mexe tanto com a gente!
Dê o play, mas esteja disposto a viver uma série de sensações, onde muitas delas não serão tão agradáveis!
Provavelmente "Bacurau" não seja o tipo de filme que você está pensando que é - eu diria que ele está muito mais para "Cidade de Deus" do que para "Abril Despedaçado", portanto se você tinha qualquer tipo de receio, pode confiar: "Bacurau" é um grande filme e vai te surpreender!
No sertão de Pernambuco, existe uma cidade chamada Bacurau. Quando uma moradora respeitada por todos, dona Carmelita, morre, estranhos episódios começam acontecer. É quando Lunga (Silvero Pereira) é chamado para ajudar seus conterrâneos, mas o perigo vai muito além do que todos poderiam imaginar.
Antes de assistir o trailer eu preciso te dar mais um aviso: quanto menos você souber sobre o filme, mais impactante será sua experiência! Agora é com você:
Não é por acaso que o filme começa com ares de ficção científica, onde vemos a Terra pela perspectiva de quem está no espaço. Conforme a câmera vai se movimentando para estabelecer o cenário onde a ação que assistiremos nas próximas duas horas vai desenrolar, percebemos que o destino não é o hemisfério norte ou o Estados Unidos, como de costume. O destino é o hemisfério sul, a América do Sul, mais precisamente em um país, vejam só, chamado Brasil. Acontece que o mergulho dramático ainda vai além até chegarmos em Bacurau - e como a placa que indica a proximidade da cidade, em meio a uma estrada cheia de buracos e um calor de matar, sugere: se for para Bacurau, vá em paz!
Não existem forma melhor de começar um filme como a partir do roteiro escrito por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (que também dirigem a obra) - sem dizer uma única palavra, já entendemos a importância que aquele cenário trará para trama. E não digo isso pela necessidade regionalista de exaltar um Brasil que muitos de nós não conhecemos e que sofre com a miséria e com a corrupção daqueles que deveriam defender os interesses de um povo sofrido - e eu disse um povo sofrido, não infeliz! Se você leu até aqui, já pode estar imaginando: mais um filme sobre o sertão, briga de famílias, dificuldades sociais, seca, calor e mosquitos. Embora "Bacurau" tenha tudo isso, ele é muito mais, já que não se trata de um drama e sim de um filme de ação - por mais que ele seja construído em cima de camadas bem profundas e sutilmente referenciadas em um texto inteligente e, principalmente, provocativo.
"Bacurau" é uma viagem emocional, o nosso "Casamento Vermelho"! Tecnicamente muito bem realizado, com uma fotografia belíssima do Pedro Sotero, não é por acaso que o filme venceu o Prêmio do Juri no Festival de Cannes em 2019 e esteve concorrendo em mais de 70 eventos ao redor do globo, tendo levado mais de 50 prêmios em todos eles. Ao dar o play, tenha em mente que nada que os diretores colocam em cena está ali por acaso - desde uma explicação sobre a real localização da cidade no Google Earth ao tosco disco voador com aspecto de anos 70 que aparece misteriosamente - é muito interessante como o roteiro brinca com a dicotomia entre tecnologia e tradição cultural ou até entre violência e tranquilidade.
Quando me propus a escrever um review sobre "Bacurau" meu único propósito era: preciso dizer para as pessoas assistirem a esse filme, mas não posso prejudicar sua experiência, para que elas tenham a exata sensação que sinto agora: a de ter assistido um filme realmente incrível! Diferente de outros reviews, não me aprofundei na trama e nem critiquei alguns elementos artísticos justamente para não quebrar sua expectativa - então se você buscou algo assim, você pode até estar irritado comigo, mas assista o filme porque tenho certeza que essa irritação vai ser tornar agradecimento.
Vale muito a pena!
Provavelmente "Bacurau" não seja o tipo de filme que você está pensando que é - eu diria que ele está muito mais para "Cidade de Deus" do que para "Abril Despedaçado", portanto se você tinha qualquer tipo de receio, pode confiar: "Bacurau" é um grande filme e vai te surpreender!
No sertão de Pernambuco, existe uma cidade chamada Bacurau. Quando uma moradora respeitada por todos, dona Carmelita, morre, estranhos episódios começam acontecer. É quando Lunga (Silvero Pereira) é chamado para ajudar seus conterrâneos, mas o perigo vai muito além do que todos poderiam imaginar.
Antes de assistir o trailer eu preciso te dar mais um aviso: quanto menos você souber sobre o filme, mais impactante será sua experiência! Agora é com você:
Não é por acaso que o filme começa com ares de ficção científica, onde vemos a Terra pela perspectiva de quem está no espaço. Conforme a câmera vai se movimentando para estabelecer o cenário onde a ação que assistiremos nas próximas duas horas vai desenrolar, percebemos que o destino não é o hemisfério norte ou o Estados Unidos, como de costume. O destino é o hemisfério sul, a América do Sul, mais precisamente em um país, vejam só, chamado Brasil. Acontece que o mergulho dramático ainda vai além até chegarmos em Bacurau - e como a placa que indica a proximidade da cidade, em meio a uma estrada cheia de buracos e um calor de matar, sugere: se for para Bacurau, vá em paz!
Não existem forma melhor de começar um filme como a partir do roteiro escrito por Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles (que também dirigem a obra) - sem dizer uma única palavra, já entendemos a importância que aquele cenário trará para trama. E não digo isso pela necessidade regionalista de exaltar um Brasil que muitos de nós não conhecemos e que sofre com a miséria e com a corrupção daqueles que deveriam defender os interesses de um povo sofrido - e eu disse um povo sofrido, não infeliz! Se você leu até aqui, já pode estar imaginando: mais um filme sobre o sertão, briga de famílias, dificuldades sociais, seca, calor e mosquitos. Embora "Bacurau" tenha tudo isso, ele é muito mais, já que não se trata de um drama e sim de um filme de ação - por mais que ele seja construído em cima de camadas bem profundas e sutilmente referenciadas em um texto inteligente e, principalmente, provocativo.
"Bacurau" é uma viagem emocional, o nosso "Casamento Vermelho"! Tecnicamente muito bem realizado, com uma fotografia belíssima do Pedro Sotero, não é por acaso que o filme venceu o Prêmio do Juri no Festival de Cannes em 2019 e esteve concorrendo em mais de 70 eventos ao redor do globo, tendo levado mais de 50 prêmios em todos eles. Ao dar o play, tenha em mente que nada que os diretores colocam em cena está ali por acaso - desde uma explicação sobre a real localização da cidade no Google Earth ao tosco disco voador com aspecto de anos 70 que aparece misteriosamente - é muito interessante como o roteiro brinca com a dicotomia entre tecnologia e tradição cultural ou até entre violência e tranquilidade.
Quando me propus a escrever um review sobre "Bacurau" meu único propósito era: preciso dizer para as pessoas assistirem a esse filme, mas não posso prejudicar sua experiência, para que elas tenham a exata sensação que sinto agora: a de ter assistido um filme realmente incrível! Diferente de outros reviews, não me aprofundei na trama e nem critiquei alguns elementos artísticos justamente para não quebrar sua expectativa - então se você buscou algo assim, você pode até estar irritado comigo, mas assista o filme porque tenho certeza que essa irritação vai ser tornar agradecimento.
Vale muito a pena!
"Bad Monkey" não tem o escracho de "Only Murders in the Building", muito menos a seriedade de "True Detective", no entanto essa série da AppleTV+ transita muito bem entre o conceito narrativo das duas - talvez mais para o lado dramático, eu diria. A verdade é que "Bad Monkey" chegou chancelada pela a assinatura de Bill Lawrence, responsável por nada menos que "Ted Lasso", "Scrubs" e "Falando a Real", ou seja, um dos showrunners mais bem-sucedidos da comédia contemporânea. Baseada no livro homônimo de Carl Hiaasen, a série combina um elegante (quase britânico) humor ácido com um drama policial mais tradicional, além de uma leve pitada de sátira social, para criar uma narrativa realmente envolvente ambientada na Flórida - um território já naturalmente caótico e propício para histórias que bebem na fonte do absurdo e do realismo mais cínico. O interessante aqui é que a série equilibra o mistério e a comicidade com uma trama que vai além do convencional, explorando o submundo dos golpes imobiliários e da corrupção em um dos estados mais pitorescos dos EUA.
"Bad Monkey" acompanha Andrew Yancy (Vince Vaughn), um ex-detetive rebaixado a inspetor de saúde pública após um incidente desastroso na polícia de Miami. Cansado de inspecionar restaurantes e determinado a recuperar sua posição, ele encontra a oportunidade perfeita quando um braço humano aparece misteriosamente na costa da Flórida. Convencido de que o caso esconde algo muito maior, Yancy inicia uma investigação informal que o leva para um labirinto de esquemas fraudulentos, corrupção, magnatas inescrupulosos e, claro, para o macaco travesso que dá nome à série. Confira o trailer (em inglês):
Sem dúvida que o tom leve da série é um de seus maiores trunfos. "Bad Monkey" captura perfeitamente a essência do romance de Carl Hiaasen, conhecido por seu humor afiado e personagens bem excêntricos. Bill Lawrence se aproveita dessa excelente matéria-prima para imprimir sua identidade narrativa, transformando um enredo policial envolvente em uma jornada cheia de diálogos rápidos, situações absurdas e reviravoltas inteligentes - mesmo exigindo uma certa abstração da realidade, é verdade. O roteiro não apenas mantém a audiência intrigada com o mistério central, como também cria ótimas camadas ao se aprofundar nos personagens secundários, cada um contribuindo para a construção de um universo insano e de certa forma satírico. Reparem como o narrador faz toda a diferença - ele pontua o tom da trama de forma esplendorosa.
Vince Vaughn lidera o elenco com um carisma natural e um timing cômico preciso - para muitos, esse é seu melhor trabalho em muito tempo. Seu Andrew Yancy é um protagonista típico de histórias noir contemporâneas: falho, persistente e irresistivelmente sarcástico - quase um Hank Moody da Costa Leste. Ao seu redor, encontramos um elenco de apoio que brilha com performances de fato marcantes - e aqui eu incluo o "bad monkey", que, apesar de ser um coadjuvante bastante peculiar, se torna uma peça fundamental para a trama. A série também conta com participações de atores renomados como John Ortiz e Tom Nowicki, o que reforça a qualidade da produção e a capacidade de Lawrence em atrair talentos para seus projetos, digamos, pouco convencionais.
Visualmente, Bad Monkey faz um ótimo trabalho ao capturar o lado ensolarado da Flórida, mas também aquela perspectiva mais sombria. A fotografia destaca as paisagens exuberantes e a decadência daquele universo com a mesma competência - e é impressionante como essa dicotomia cria uma atmosfera nostálgica e provocadora. O desenho de produção reforça e mood mais excêntrico, com cenários que transitam entre o kitsch e o luxuoso, refletindo bem os contrastes que a história tanto explora. A realidade é que "Bad Monkey" se destaca por sua habilidade de misturar gêneros sem perder o ritmo. A série não se limita a ser apenas uma comédia pastelão ou um angustiante drama policial, mas sim um híbrido bem dosado que alterna entre momentos de tensão, críticas sociais afiadas e cenas muito divertidas. Bill Lawrence demonstra, mais uma vez, seu talento para criar narrativas cativantes, construídas sobre personagens profundos e situações imprevisíveis que nos impedem de parar de assistir.
Vale muito o seu play!
"Bad Monkey" não tem o escracho de "Only Murders in the Building", muito menos a seriedade de "True Detective", no entanto essa série da AppleTV+ transita muito bem entre o conceito narrativo das duas - talvez mais para o lado dramático, eu diria. A verdade é que "Bad Monkey" chegou chancelada pela a assinatura de Bill Lawrence, responsável por nada menos que "Ted Lasso", "Scrubs" e "Falando a Real", ou seja, um dos showrunners mais bem-sucedidos da comédia contemporânea. Baseada no livro homônimo de Carl Hiaasen, a série combina um elegante (quase britânico) humor ácido com um drama policial mais tradicional, além de uma leve pitada de sátira social, para criar uma narrativa realmente envolvente ambientada na Flórida - um território já naturalmente caótico e propício para histórias que bebem na fonte do absurdo e do realismo mais cínico. O interessante aqui é que a série equilibra o mistério e a comicidade com uma trama que vai além do convencional, explorando o submundo dos golpes imobiliários e da corrupção em um dos estados mais pitorescos dos EUA.
"Bad Monkey" acompanha Andrew Yancy (Vince Vaughn), um ex-detetive rebaixado a inspetor de saúde pública após um incidente desastroso na polícia de Miami. Cansado de inspecionar restaurantes e determinado a recuperar sua posição, ele encontra a oportunidade perfeita quando um braço humano aparece misteriosamente na costa da Flórida. Convencido de que o caso esconde algo muito maior, Yancy inicia uma investigação informal que o leva para um labirinto de esquemas fraudulentos, corrupção, magnatas inescrupulosos e, claro, para o macaco travesso que dá nome à série. Confira o trailer (em inglês):
Sem dúvida que o tom leve da série é um de seus maiores trunfos. "Bad Monkey" captura perfeitamente a essência do romance de Carl Hiaasen, conhecido por seu humor afiado e personagens bem excêntricos. Bill Lawrence se aproveita dessa excelente matéria-prima para imprimir sua identidade narrativa, transformando um enredo policial envolvente em uma jornada cheia de diálogos rápidos, situações absurdas e reviravoltas inteligentes - mesmo exigindo uma certa abstração da realidade, é verdade. O roteiro não apenas mantém a audiência intrigada com o mistério central, como também cria ótimas camadas ao se aprofundar nos personagens secundários, cada um contribuindo para a construção de um universo insano e de certa forma satírico. Reparem como o narrador faz toda a diferença - ele pontua o tom da trama de forma esplendorosa.
Vince Vaughn lidera o elenco com um carisma natural e um timing cômico preciso - para muitos, esse é seu melhor trabalho em muito tempo. Seu Andrew Yancy é um protagonista típico de histórias noir contemporâneas: falho, persistente e irresistivelmente sarcástico - quase um Hank Moody da Costa Leste. Ao seu redor, encontramos um elenco de apoio que brilha com performances de fato marcantes - e aqui eu incluo o "bad monkey", que, apesar de ser um coadjuvante bastante peculiar, se torna uma peça fundamental para a trama. A série também conta com participações de atores renomados como John Ortiz e Tom Nowicki, o que reforça a qualidade da produção e a capacidade de Lawrence em atrair talentos para seus projetos, digamos, pouco convencionais.
Visualmente, Bad Monkey faz um ótimo trabalho ao capturar o lado ensolarado da Flórida, mas também aquela perspectiva mais sombria. A fotografia destaca as paisagens exuberantes e a decadência daquele universo com a mesma competência - e é impressionante como essa dicotomia cria uma atmosfera nostálgica e provocadora. O desenho de produção reforça e mood mais excêntrico, com cenários que transitam entre o kitsch e o luxuoso, refletindo bem os contrastes que a história tanto explora. A realidade é que "Bad Monkey" se destaca por sua habilidade de misturar gêneros sem perder o ritmo. A série não se limita a ser apenas uma comédia pastelão ou um angustiante drama policial, mas sim um híbrido bem dosado que alterna entre momentos de tensão, críticas sociais afiadas e cenas muito divertidas. Bill Lawrence demonstra, mais uma vez, seu talento para criar narrativas cativantes, construídas sobre personagens profundos e situações imprevisíveis que nos impedem de parar de assistir.
Vale muito o seu play!
Entretenimento puro - divertido e cheio de referências. Genial? Longe disso, mas bastante honesto pelo que se propõe! Veja, Jaume Collet-Serra construiu sua carreira equilibrando o suspense e a ação com uma eficiência rara. Desde "Águas Rasas" até "O Passageiro", o diretor espanhol se especializou em transformar premissas aparentemente simples em experiências carregadas de tensão, apostando no dinamismo da narrativa e no uso inteligente do espaço cênico. Em "Bagagem de Risco", sua estreia na Netflix, ele retoma essas características dentro de um thriller ambientado inteiramente em um aeroporto durante a véspera de Natal. Com um elenco liderado por Taron Egerton e Jason Bateman, o filme busca recriar a sensação claustrofóbica de clássicos do gênero, como "Plano de Voo" e "Código de Conduta", mas com um toque contemporâneo e um subtexto moral que adiciona mais camadas à trama.
A história gira em torno de Ethan Kopek (Egerton), um jovem agente do TSA (Administração de Segurança de Transporte) que, em um dia de trabalho aparentemente normal no aeroporto de Los Angeles, recebe uma missão impossível de recusar: um estranho enigmático (Bateman) ameaça eliminar sua esposa grávida caso Kopek não consiga deixar passar uma bagagem pela segurança, especificamente pelo seu raio-x, que irá detonar uma bomba durante um voo doméstico. Confira o trailer (em inglês):
Talvez o mais bacana de "Bagagem de Risco" esteja justamente em seu primeiro ato onde, ao melhor estilo "Culpa", o dilema ético é colocado à prova. Dentro de um contexto narrativo bem construído onde o personagem Kopek, que tem um histórico problemático, se vê em um jogo psicológico que qualquer decisão errada que tome, pode resultar em centenas de mortes. Com essa premissa estabelecida, Collet-Serra, como de costume, dosa bem o ritmo e entrega uma atmosfera de tensão, deixando a audiência imersa em uma sufocante sequência de ações dentro de um aeroporto lotado - que, aliás, se torna um personagem tão importante quanto os protagonistas. Lembram de John McClane em "Duro de Matar"?
Repare como a fotografia de Lyle Vincent (de "A Escada" e "Má Educação") trabalha com os tons frios e uma iluminação artificial agressiva (natural de aeroportos mais tradicionais), criando um ambiente quase inóspito, onde a impessoalidade do espaço reflete a angústia crescente de Kopek. É aí que a câmera de Collet-Serra (que está sempre em movimento, alternando entre planos fechados mais sufocantes e composições que exploram a vastidão do aeroporto) destaca como o protagonista, mesmo cercado por milhares de pessoas, está completamente sozinho diante de uma ameaça invisível. Esse jogo visual reforça a sensação de paranoia, lembrando o que o diretor fez em "Sem Escalas".
Taron Egerton entrega uma performance sólida, sustentando a carga dramática do filme com uma presença física e emocional que lembra seu trabalho em "Black Bird". Seu Kopek é um homem pressionado por traumas do passado e pela exigência de um sistema que não perdoa erros. Jason Bateman, por sua vez, assume um papel que destoa de seus personagens mais conhecidos. Seu antagonista não é exatamente ameaçador no sentido físico, mas exerce um domínio psicológico que mantém a tensão elevada na narrativa. A escolha de Bateman para o papel pode parecer inusitada, mas funciona dentro da proposta do filme já que a dinâmica entre os dois personagens, um dos pontos altos da narrativa, se apoia em diálogos carregados de subtexto e de manipulação. O roteiro de TJ Fixman (com longa carreira escrevendo bons jogos de video-game) aposta em uma dinâmica mais cerebral do que explosiva, evitando as tradicionais sequências grandiosas de ação. Isso não significa que "Bagagem de Risco" careça de adrenalina - a tensão aqui está em cada movimento de Kopek, nas escolhas que ele precisa fazer e na dúvida sobre até que ponto ele está disposto a ceder para garantir a segurança das pessoas ao seu redor.
O uso do tempo real na narrativa é um acerto de Collet-Serra - isso notavelmente amplifica a imersão. À medida que o relógio avança, a urgência se torna mais palpável, e o diretor utiliza isso com maestria a seu favor. No entanto o terceiro ato acaba tropeçando na sua pretensão - muito ao tentar entregar uma resolução impactante sem necessariamente justificar algumas das decisões tomadas no caminho. O fato é que têm momentos em que o roteiro se apoia em tantas conveniências narrativas para conduzir a trama ao clímax, que certamente vai frustrar aqueles mais exigentes. O que eu quero dizer é que o filme se abstém de explorar mais profundamente algumas das questões morais que ele mesmo levantou, optando por um desfecho que privilegia a ação e não a reflexão inteligente. Mesmo assim, posso dizer que "Bagagem de Risco" cumpre seu papel com um thriller eficiente e bem conduzido, que reforça a habilidade de Jaume Collet-Serra em transformar cenários cotidianos em palcos de alta tensão capaz de mexer com nossas sensações - e é isso que importa!
Vale seu play!
Entretenimento puro - divertido e cheio de referências. Genial? Longe disso, mas bastante honesto pelo que se propõe! Veja, Jaume Collet-Serra construiu sua carreira equilibrando o suspense e a ação com uma eficiência rara. Desde "Águas Rasas" até "O Passageiro", o diretor espanhol se especializou em transformar premissas aparentemente simples em experiências carregadas de tensão, apostando no dinamismo da narrativa e no uso inteligente do espaço cênico. Em "Bagagem de Risco", sua estreia na Netflix, ele retoma essas características dentro de um thriller ambientado inteiramente em um aeroporto durante a véspera de Natal. Com um elenco liderado por Taron Egerton e Jason Bateman, o filme busca recriar a sensação claustrofóbica de clássicos do gênero, como "Plano de Voo" e "Código de Conduta", mas com um toque contemporâneo e um subtexto moral que adiciona mais camadas à trama.
A história gira em torno de Ethan Kopek (Egerton), um jovem agente do TSA (Administração de Segurança de Transporte) que, em um dia de trabalho aparentemente normal no aeroporto de Los Angeles, recebe uma missão impossível de recusar: um estranho enigmático (Bateman) ameaça eliminar sua esposa grávida caso Kopek não consiga deixar passar uma bagagem pela segurança, especificamente pelo seu raio-x, que irá detonar uma bomba durante um voo doméstico. Confira o trailer (em inglês):
Talvez o mais bacana de "Bagagem de Risco" esteja justamente em seu primeiro ato onde, ao melhor estilo "Culpa", o dilema ético é colocado à prova. Dentro de um contexto narrativo bem construído onde o personagem Kopek, que tem um histórico problemático, se vê em um jogo psicológico que qualquer decisão errada que tome, pode resultar em centenas de mortes. Com essa premissa estabelecida, Collet-Serra, como de costume, dosa bem o ritmo e entrega uma atmosfera de tensão, deixando a audiência imersa em uma sufocante sequência de ações dentro de um aeroporto lotado - que, aliás, se torna um personagem tão importante quanto os protagonistas. Lembram de John McClane em "Duro de Matar"?
Repare como a fotografia de Lyle Vincent (de "A Escada" e "Má Educação") trabalha com os tons frios e uma iluminação artificial agressiva (natural de aeroportos mais tradicionais), criando um ambiente quase inóspito, onde a impessoalidade do espaço reflete a angústia crescente de Kopek. É aí que a câmera de Collet-Serra (que está sempre em movimento, alternando entre planos fechados mais sufocantes e composições que exploram a vastidão do aeroporto) destaca como o protagonista, mesmo cercado por milhares de pessoas, está completamente sozinho diante de uma ameaça invisível. Esse jogo visual reforça a sensação de paranoia, lembrando o que o diretor fez em "Sem Escalas".
Taron Egerton entrega uma performance sólida, sustentando a carga dramática do filme com uma presença física e emocional que lembra seu trabalho em "Black Bird". Seu Kopek é um homem pressionado por traumas do passado e pela exigência de um sistema que não perdoa erros. Jason Bateman, por sua vez, assume um papel que destoa de seus personagens mais conhecidos. Seu antagonista não é exatamente ameaçador no sentido físico, mas exerce um domínio psicológico que mantém a tensão elevada na narrativa. A escolha de Bateman para o papel pode parecer inusitada, mas funciona dentro da proposta do filme já que a dinâmica entre os dois personagens, um dos pontos altos da narrativa, se apoia em diálogos carregados de subtexto e de manipulação. O roteiro de TJ Fixman (com longa carreira escrevendo bons jogos de video-game) aposta em uma dinâmica mais cerebral do que explosiva, evitando as tradicionais sequências grandiosas de ação. Isso não significa que "Bagagem de Risco" careça de adrenalina - a tensão aqui está em cada movimento de Kopek, nas escolhas que ele precisa fazer e na dúvida sobre até que ponto ele está disposto a ceder para garantir a segurança das pessoas ao seu redor.
O uso do tempo real na narrativa é um acerto de Collet-Serra - isso notavelmente amplifica a imersão. À medida que o relógio avança, a urgência se torna mais palpável, e o diretor utiliza isso com maestria a seu favor. No entanto o terceiro ato acaba tropeçando na sua pretensão - muito ao tentar entregar uma resolução impactante sem necessariamente justificar algumas das decisões tomadas no caminho. O fato é que têm momentos em que o roteiro se apoia em tantas conveniências narrativas para conduzir a trama ao clímax, que certamente vai frustrar aqueles mais exigentes. O que eu quero dizer é que o filme se abstém de explorar mais profundamente algumas das questões morais que ele mesmo levantou, optando por um desfecho que privilegia a ação e não a reflexão inteligente. Mesmo assim, posso dizer que "Bagagem de Risco" cumpre seu papel com um thriller eficiente e bem conduzido, que reforça a habilidade de Jaume Collet-Serra em transformar cenários cotidianos em palcos de alta tensão capaz de mexer com nossas sensações - e é isso que importa!
Vale seu play!
"Banco Central Sob Ataque" é muito interessante, mas é preciso alinhar as expectativas: não espere muita ação - aqui, é o drama (e um perturbador recorte histórico) que vai te mover durante a jornada. Lançada em 2024 pela Netflix, essa minissérie espanhola narra, com uma boa dose de tensão e algum dinamismo, um dos assaltos mais ousados e emblemáticos da história recente da Espanha. Escrita por Patxi Amezcua e dirigida por Daniel Calparsoro, ambos de "O Aviso", a produção foca no olhar crítico sobre as motivações e consequências de um crime que desafiou o sistema financeiro e a ordem social em um período marcado pelo golpe de Estado frustrado que ocorreu na Espanha em 23 de fevereiro de 1981. Assim como "La Casa de Papel", "Asalto al Banco Central" (no original) também explora o fascínio e o impacto dos grandes assaltos na mídia, mas com uma abordagem realista e ancorada em fatos históricos impressionantes - eu diria que por isso, tudo fica ainda mais envolvente.
Em cinco episódios, acompanhamos um grupo de criminosos altamente organizados que planeja e executa um roubo audacioso ao Banco Central da Espanha. À medida que o plano se desenrola, a audiência é levada a conhecer não apenas os detalhes históricos sobre o assalto, mas também os conflitos internos do grupo e os desafios enfrentados pelas autoridades para evitar um desastre midiático - já que cerca de 200 pessoas eram mantidas como reféns. A minissérie alterna entre a perspectiva dos assaltantes e dos investigadores ao mesmo tempo que conhecemos a história de Maider (María Pedraza), uma jornalista que desafia as autoridades para descobrir a verdadeira motivação do assalto, criando assim uma narrativa multifacetada que nos mantém envolvidos do início ao fim. Confira o trailer:
Patxi Amezcua entrega um roteiro que sabe misturar elementos documentais com um drama de diálogos ágeis e bastante incisivos na sua essência. Obviamente que para nós, brasileiros, a dinâmica politica da Espanha pós-ditadura não é um assunto dos mais dominantes, mas é preciso que se diga que a narrativa proposta por Amezcua é eficaz ao explorar a psicologia dos personagens, especialmente no que diz respeito às relações do grupo de assaltantes com suas ideologias e perante as tensões partidárias entre esquerda e extrema direita que ameaçavam a recente democracia do país. A minissérie também é inteligente em abordar os eventos históricos com elementos de ficção que estão 100% alinhados com a proposta de transformar em entretenimento um fato marcante para a sociedade da época. Temas como ganância, corrupção e os limites da moralidade, que questionam as linhas tênues entre certo e errado em um contexto onde todos os envolvidos parecem ter algo a esconder, são muito bem desenvolvidos tanto nos personagens principais quando nos coadjuvantes.
Nesse sentido a direção de Daniel Calparsoro é marcada não só por sua habilidade em criar cenas de alta tensão, mas também por nunca perder o foco na construção desses personagens. Calparsoro equilibra momentos de adrenalina com sequências mais introspectivas, permitindo que a audiência se conecte com as motivações e vulnerabilidades de ambos os lados da história, provocando julgamentos que, de fato, confundem nossa persepção ao ponto de não sabermos muito bem para quem devemos torcer. O diretor utiliza uma cinematografia sombria e dinâmica, com enquadramentos que intensificam o clima claustrofóbico e a sensação de urgência dentro do banco, enquanto nas cenas externas captura a pressão pública e midiática que se desenrola paralelamente ao assalto - inclusive estabelecendo sua condição histórica inserindo imagens reais de arquivos jornalísticos.
Mesmo contando com seu grande elenco como um dos trunfos da minissérie, eu destaco três nomes conhecidos do público da Netflix que merecem sua atenção: Miguel Herrán como o líder do grupo de assaltantes, José Juan Martínez Gómez, o "El Rubio" - ele entrega mais uma performance magnética e cheia de nuances, mostrando a dualidade de um homem que combina inteligência estratégica com uma fragilidade emocional oculta com muita precisão dramática. Ao lado dele, María Pedraza e Isak Férriz, o policial Paco López, contribuem demais para a autenticidade dos conflitos e das relações quase sempre dúbias entre uma jovem jornalista e o responsável pelas investigações - repare como o apelo moral daquela sociedade ainda machucada pela ditadura traz para esses personagens um contraponto sólido e humano.
"Banco Central Sob Ataque", embora tenha seus momentos previsíveis, é uma minissérie que compensa por ter uma narrativa envolvente e personagens que capturam a complexidade de um conflito real entre o anarquismo e a politica da época sem soar didática demais. Tanto para os fãs de dramas criminais históricos e intensos quanto para aqueles que buscam só o entretenimento, eu diria que esse é o tipo de obra que tende a agradar a todos!
Vale seu play!
"Banco Central Sob Ataque" é muito interessante, mas é preciso alinhar as expectativas: não espere muita ação - aqui, é o drama (e um perturbador recorte histórico) que vai te mover durante a jornada. Lançada em 2024 pela Netflix, essa minissérie espanhola narra, com uma boa dose de tensão e algum dinamismo, um dos assaltos mais ousados e emblemáticos da história recente da Espanha. Escrita por Patxi Amezcua e dirigida por Daniel Calparsoro, ambos de "O Aviso", a produção foca no olhar crítico sobre as motivações e consequências de um crime que desafiou o sistema financeiro e a ordem social em um período marcado pelo golpe de Estado frustrado que ocorreu na Espanha em 23 de fevereiro de 1981. Assim como "La Casa de Papel", "Asalto al Banco Central" (no original) também explora o fascínio e o impacto dos grandes assaltos na mídia, mas com uma abordagem realista e ancorada em fatos históricos impressionantes - eu diria que por isso, tudo fica ainda mais envolvente.
Em cinco episódios, acompanhamos um grupo de criminosos altamente organizados que planeja e executa um roubo audacioso ao Banco Central da Espanha. À medida que o plano se desenrola, a audiência é levada a conhecer não apenas os detalhes históricos sobre o assalto, mas também os conflitos internos do grupo e os desafios enfrentados pelas autoridades para evitar um desastre midiático - já que cerca de 200 pessoas eram mantidas como reféns. A minissérie alterna entre a perspectiva dos assaltantes e dos investigadores ao mesmo tempo que conhecemos a história de Maider (María Pedraza), uma jornalista que desafia as autoridades para descobrir a verdadeira motivação do assalto, criando assim uma narrativa multifacetada que nos mantém envolvidos do início ao fim. Confira o trailer:
Patxi Amezcua entrega um roteiro que sabe misturar elementos documentais com um drama de diálogos ágeis e bastante incisivos na sua essência. Obviamente que para nós, brasileiros, a dinâmica politica da Espanha pós-ditadura não é um assunto dos mais dominantes, mas é preciso que se diga que a narrativa proposta por Amezcua é eficaz ao explorar a psicologia dos personagens, especialmente no que diz respeito às relações do grupo de assaltantes com suas ideologias e perante as tensões partidárias entre esquerda e extrema direita que ameaçavam a recente democracia do país. A minissérie também é inteligente em abordar os eventos históricos com elementos de ficção que estão 100% alinhados com a proposta de transformar em entretenimento um fato marcante para a sociedade da época. Temas como ganância, corrupção e os limites da moralidade, que questionam as linhas tênues entre certo e errado em um contexto onde todos os envolvidos parecem ter algo a esconder, são muito bem desenvolvidos tanto nos personagens principais quando nos coadjuvantes.
Nesse sentido a direção de Daniel Calparsoro é marcada não só por sua habilidade em criar cenas de alta tensão, mas também por nunca perder o foco na construção desses personagens. Calparsoro equilibra momentos de adrenalina com sequências mais introspectivas, permitindo que a audiência se conecte com as motivações e vulnerabilidades de ambos os lados da história, provocando julgamentos que, de fato, confundem nossa persepção ao ponto de não sabermos muito bem para quem devemos torcer. O diretor utiliza uma cinematografia sombria e dinâmica, com enquadramentos que intensificam o clima claustrofóbico e a sensação de urgência dentro do banco, enquanto nas cenas externas captura a pressão pública e midiática que se desenrola paralelamente ao assalto - inclusive estabelecendo sua condição histórica inserindo imagens reais de arquivos jornalísticos.
Mesmo contando com seu grande elenco como um dos trunfos da minissérie, eu destaco três nomes conhecidos do público da Netflix que merecem sua atenção: Miguel Herrán como o líder do grupo de assaltantes, José Juan Martínez Gómez, o "El Rubio" - ele entrega mais uma performance magnética e cheia de nuances, mostrando a dualidade de um homem que combina inteligência estratégica com uma fragilidade emocional oculta com muita precisão dramática. Ao lado dele, María Pedraza e Isak Férriz, o policial Paco López, contribuem demais para a autenticidade dos conflitos e das relações quase sempre dúbias entre uma jovem jornalista e o responsável pelas investigações - repare como o apelo moral daquela sociedade ainda machucada pela ditadura traz para esses personagens um contraponto sólido e humano.
"Banco Central Sob Ataque", embora tenha seus momentos previsíveis, é uma minissérie que compensa por ter uma narrativa envolvente e personagens que capturam a complexidade de um conflito real entre o anarquismo e a politica da época sem soar didática demais. Tanto para os fãs de dramas criminais históricos e intensos quanto para aqueles que buscam só o entretenimento, eu diria que esse é o tipo de obra que tende a agradar a todos!
Vale seu play!
Um pouquinho de "Mayor of Kingstown", um pouquinho de "Reacher", um pouquinho de "Tulsa King" - é isso que você vai encontrar nas quatro temporadas da excelente "Banshee". E sim, a série já acabou e tem um final! Criada por Jonathan Tropper (de "See") e David Schickler, e dirigida com o estilo marcante do dinamarquês Ole Christian Madsen, "Banshee" é um verdadeiro furacão de adrenalina e intensidade, capaz de prender qualquer pessoa que goste de muita ação combinada com uma narrativa, de fato, bem desenvolvida (e a prova disso você vai tirar no último episódio da quarta temporada). Essa série da Warner (leia-se Max) é uma mistura poderosa de violência, sexo, personagens cheios de personalidade e uma trama que equilibra o drama e o caos com um toque de humor ácido, ou seja, entretenimento puro que nos remete ao melhor do universo neo-noir que já foi produzido para a televisão.
A história se desenrola na fictícia cidade de Banshee, na Pensilvânia, onde Lucas Hood (Antony Starr), um ladrão profissional recém-saído da prisão, assume inesperadamente a identidade do novo xerife local após testemunhar sua morte. Enquanto tenta manter sua verdadeira identidade escondida, Hood precisa lidar com diversos desafios, entre eles a perigosa figura do gângster local Kai Proctor (Ulrich Thomsen), seu amor do passado, Anastasia (Ivana Milicevic), agora com nova identidade, e a constante ameaça de antigos inimigos que buscam vingança. Em meio a tudo isso, Hood tenta equilibrar sua ambígua moralidade enquanto enfrenta dilemas éticos a cada novo episódio. Confira o trailer (em inglês):
Vamos começar pelo roteiro - e a conexão impecável com a direção: Tropper e Schickler acertam demais ao oferecer uma abordagem direta, corajosa e sem concessões em uma narrativa que tinha tudo para cair no estereótipo. Não que isso não exista, afinal estamos falando de uma série de ação, mas aqui parece não haver espaço para sutilezas ou sentimentalismos exagerados já que "Banshee" entrega violência gráfica e uma ação visceral em doses, digamos, bastante elevadas (mas nunca gratuitamente). Ao melhor estilo "Demolidor" (e quem assistiu a série da Netflix vai entender perfeitamente a comparação), cada confronto físico é meticulosamente coreografado e filmado de maneira brilhante, mostrando que o diretor Ole Christian Madsen está em plena sintonia com a energia crua exigida pela série. Existe um uso inteligente das locações e uma iluminação sombria e granulada que contribuem demais para uma estética que oscila entre o western moderno e o thriller policial. Essa fotografia, aliás, explora muito bem o contraste entre as paisagens rurais e urbanas de Banshee, com uma iluminação que intensifica o clima mais noir da narrativa.
Antony Starr brilha intensamente na pele do enigmático Lucas Hood, oferecendo uma atuação sólida e cheia de intenções - repare que a jornada do personagem é muito mais profunda que o amontoado de socos e chutes que nunca faltam. Sua interpretação é crível e envolvente, se destacando não apenas nas cenas violentas, mas principalmente nos momentos introspectivos em que sua complexidade emocional e moral vem à tona. Ulrich Thomsen, por outro lado, entrega uma performance mais clássica, que mistura brutalidade com elegância, criando um antagonista memorável e muitas vezes imprevisível. Ivana Milicevic também merece destaque - ela consegue criar camadas significativas para sua personagem, transitando entre a vulnerabilidade e a força com absoluta naturalidade. Outro ponto positivo da série é a construção de personagens secundários intrigantes como Job (Hoon Lee), o hacker extravagante e bem-humorado, que garante ótimos momentos de leveza e ironia - bem anos 90, eu diria.
Apesar de ser uma série que nunca teve o reconhecimento absoluto que merecia enquanto estava no ar, "Banshee" possui muitos méritos justamente pelo seu compromisso em entregar entretenimento intenso, mas inteligente. Veja, a série não tenta agradar todo mundo, mas sim conquistar aqueles que gostam de uma narrativa potente, a base de testosterona e com personagens que constantemente desafiam padrões éticos e morais em situações que nos tiram da zona de conforto. Chega a ser curioso como uma série tão boa como essa, não tenha alcançado o reconhecimento além de um Emmy de "Efeitos Visuais" em 2013 - embora tenha ganho o status de "The Best Final Season" pelaAcademy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, dos EUA. Em resumo, "Banshee", posso te garantir, é um retrato pulsante e eletrizante sobre redenção e violência que vai te surpreender!
Vale muito o seu play!
Um pouquinho de "Mayor of Kingstown", um pouquinho de "Reacher", um pouquinho de "Tulsa King" - é isso que você vai encontrar nas quatro temporadas da excelente "Banshee". E sim, a série já acabou e tem um final! Criada por Jonathan Tropper (de "See") e David Schickler, e dirigida com o estilo marcante do dinamarquês Ole Christian Madsen, "Banshee" é um verdadeiro furacão de adrenalina e intensidade, capaz de prender qualquer pessoa que goste de muita ação combinada com uma narrativa, de fato, bem desenvolvida (e a prova disso você vai tirar no último episódio da quarta temporada). Essa série da Warner (leia-se Max) é uma mistura poderosa de violência, sexo, personagens cheios de personalidade e uma trama que equilibra o drama e o caos com um toque de humor ácido, ou seja, entretenimento puro que nos remete ao melhor do universo neo-noir que já foi produzido para a televisão.
A história se desenrola na fictícia cidade de Banshee, na Pensilvânia, onde Lucas Hood (Antony Starr), um ladrão profissional recém-saído da prisão, assume inesperadamente a identidade do novo xerife local após testemunhar sua morte. Enquanto tenta manter sua verdadeira identidade escondida, Hood precisa lidar com diversos desafios, entre eles a perigosa figura do gângster local Kai Proctor (Ulrich Thomsen), seu amor do passado, Anastasia (Ivana Milicevic), agora com nova identidade, e a constante ameaça de antigos inimigos que buscam vingança. Em meio a tudo isso, Hood tenta equilibrar sua ambígua moralidade enquanto enfrenta dilemas éticos a cada novo episódio. Confira o trailer (em inglês):
Vamos começar pelo roteiro - e a conexão impecável com a direção: Tropper e Schickler acertam demais ao oferecer uma abordagem direta, corajosa e sem concessões em uma narrativa que tinha tudo para cair no estereótipo. Não que isso não exista, afinal estamos falando de uma série de ação, mas aqui parece não haver espaço para sutilezas ou sentimentalismos exagerados já que "Banshee" entrega violência gráfica e uma ação visceral em doses, digamos, bastante elevadas (mas nunca gratuitamente). Ao melhor estilo "Demolidor" (e quem assistiu a série da Netflix vai entender perfeitamente a comparação), cada confronto físico é meticulosamente coreografado e filmado de maneira brilhante, mostrando que o diretor Ole Christian Madsen está em plena sintonia com a energia crua exigida pela série. Existe um uso inteligente das locações e uma iluminação sombria e granulada que contribuem demais para uma estética que oscila entre o western moderno e o thriller policial. Essa fotografia, aliás, explora muito bem o contraste entre as paisagens rurais e urbanas de Banshee, com uma iluminação que intensifica o clima mais noir da narrativa.
Antony Starr brilha intensamente na pele do enigmático Lucas Hood, oferecendo uma atuação sólida e cheia de intenções - repare que a jornada do personagem é muito mais profunda que o amontoado de socos e chutes que nunca faltam. Sua interpretação é crível e envolvente, se destacando não apenas nas cenas violentas, mas principalmente nos momentos introspectivos em que sua complexidade emocional e moral vem à tona. Ulrich Thomsen, por outro lado, entrega uma performance mais clássica, que mistura brutalidade com elegância, criando um antagonista memorável e muitas vezes imprevisível. Ivana Milicevic também merece destaque - ela consegue criar camadas significativas para sua personagem, transitando entre a vulnerabilidade e a força com absoluta naturalidade. Outro ponto positivo da série é a construção de personagens secundários intrigantes como Job (Hoon Lee), o hacker extravagante e bem-humorado, que garante ótimos momentos de leveza e ironia - bem anos 90, eu diria.
Apesar de ser uma série que nunca teve o reconhecimento absoluto que merecia enquanto estava no ar, "Banshee" possui muitos méritos justamente pelo seu compromisso em entregar entretenimento intenso, mas inteligente. Veja, a série não tenta agradar todo mundo, mas sim conquistar aqueles que gostam de uma narrativa potente, a base de testosterona e com personagens que constantemente desafiam padrões éticos e morais em situações que nos tiram da zona de conforto. Chega a ser curioso como uma série tão boa como essa, não tenha alcançado o reconhecimento além de um Emmy de "Efeitos Visuais" em 2013 - embora tenha ganho o status de "The Best Final Season" pelaAcademy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films, dos EUA. Em resumo, "Banshee", posso te garantir, é um retrato pulsante e eletrizante sobre redenção e violência que vai te surpreender!
Vale muito o seu play!
Eu não teria me surpreendido se soubesse que "Barry" tivesse sido criado por Vince Gilligan - e se você sabe exatamente do que estou falando, você também já sabe o que vai encontrar nessa série sensacional (e que já foi finalizada) da HBO. Criada por Alec Berg (showrunner de "Silicon Valley") e Bill Hader (que também é o protagonista da série, mas foi redator por muitos anos em "Saturday Night Live"), "Barry" é daquelas séries que surpreendem pela forma única como mistura gêneros, aparentemente opostos, com maestria - aqui temos uma comédia mais ácida (e sombria) com um drama existencial profundo e, em muitos momentos, perturbador. Com um estilo narrativo que lembra (e muito) "Breaking Bad", a série brilha pela sua abordagem honesta perante o anti-herói ao ponto de ser considerada uma das produções mais ousadas e inteligentes da HBO nos últimos anos - não por acaso considerada o "Breaking Bad" da HBO.
A trama, basicamente, gira em torno de Barry Berkman (Bill Hader), um ex-fuzileiro naval que trabalha como assassino profissional, profundamente deprimido e buscando algum sentido para sua existência vazia. Ao ser enviado para Los Angeles em mais uma missão, ele acidentalmente acaba se interessando por um curso de atuação ministrado pelo excêntrico professor Gene Cousineau (Henry Winkler). Fascinado pela possibilidade de recomeçar e talvez até mesmo abandonar sua violenta vida passada, Barry decide se tornar ator, algo que claramente não combina com seu perfil introvertido, rígido e perturbado. Esse conflito entre suas duas vidas, uma brutal e a outra artística, é o coração pulsante da série e a razão que vai te fazer ficar grudado na tela por quatro temporadas. Confira o trailer (em inglês):
"Barry" sabe brincar com nossa percepção e, principalmente, quebrar nossas expectativas - isso é raro e maravilhoso de assistir. A forma como Berg e Hader transitam entre momentos hilários e sequências profundamente inquietantes é primorosa - não por acaso a série já recebeu mais de 50 indicações ao Emmy (ganhando 10). O roteiro é extremamente afiado, daqueles que jamais subestimam a audiência, entregando diálogos inteligentes, cheios de sarcasmo e ironia. Hader, aliás, não apenas co-escreve e protagoniza, como também dirige vários dos episódios mais emblemáticos, destacando-se por sua capacidade notável de equilibrar o tom da narrativa sempre carregado de reflexões em várias camadas.
Um dos maiores trunfos da série é justamente o desempenho de Bill Hader como Barry - ele entrega a atuação mais memorável de sua carreira. Famoso por seu trabalho cômico no "Saturday Night Live", ele surpreende ao revelar uma capacidade dramática poderosa, conferindo a Barry nuances bastante complexas e, claro, provocativas. Através de sua performance minimalista e quase sempre silenciosa, Hader consegue mostrar toda a profundidade de um personagem que tinha tudo para cair no caricato. Repare como ele é capaz de transmitir, constantemente, aquela sensação de perigo iminente, tensão e culpa - bem na linha das que também assombraram o inesquecível Walter White de Bryan Cranston. Outro nome que merece sua atenção é o de Henry Winkler - ele rouba muitas cenas como o professor de atuação narcisista e sem noção. Winkler, que foi indicado ao Emmy em todos os anos que a série esteve no ar (ganhando em 2018), traz carisma e humor ao personagem, proporcionando momentos de leveza tão necessários em meio à densidade emocional que muitas vezes a trama cria. Outro grande destaque, claro, é Anthony Carrigan como NoHo Hank - um mafioso checheno cuja simpatia, ingenuidade e senso de humor absurdo o transformaram em um dos personagens favoritos da audiência, funcionando também como um alívio cômico constante em meio ao caos violento que cerca Barry.
Do ponto de vista técnico, "Barry" é excepcional. A fotografia é precisa, muitas vezes crua, algo que contribui para amplificar a atmosfera emocional e ameaçadora da série - talvez aqui esteja sua grande sacada ao se distanciar do calor contrastado e potente da Albuquerque de "Breaking Bad". A direção dos episódios, por outro lado, repete o ritmo quase cinematográfico, especialmente nas sequências de ação, da série de Gilligan - tudo é filmado com uma elegância surpreendente. É muito interessante como a dinâmica narrativa imposta pela direção e montagem nos deixa em um estado constante de tensão, angustia e expectativa! Mas calma, a série também brilha em suas reflexões mais profundas - Barry não é apenas sobre um assassino tentando mudar de vida: é uma análise muito mais complexa sobre a identidade de um ex-combatente, sobre o trauma do passado, sobre a culpa de algumas escolhas e, principalmente, sobre a possibilidade (ou impossibilidade) de uma redenção. Ao explorar essas camadas morais, "Barry" frequentemente subverte expectativas narrativas, levando a audiência a discutir sobre os limites éticos e as consequências de nossas escolhas.
Enfim, "Barry" é uma das produções mais originais, instigantes e inteligentes disponíveis nos catálogos do streaming - se eu fosse você não deixaria de dar o play!
Eu não teria me surpreendido se soubesse que "Barry" tivesse sido criado por Vince Gilligan - e se você sabe exatamente do que estou falando, você também já sabe o que vai encontrar nessa série sensacional (e que já foi finalizada) da HBO. Criada por Alec Berg (showrunner de "Silicon Valley") e Bill Hader (que também é o protagonista da série, mas foi redator por muitos anos em "Saturday Night Live"), "Barry" é daquelas séries que surpreendem pela forma única como mistura gêneros, aparentemente opostos, com maestria - aqui temos uma comédia mais ácida (e sombria) com um drama existencial profundo e, em muitos momentos, perturbador. Com um estilo narrativo que lembra (e muito) "Breaking Bad", a série brilha pela sua abordagem honesta perante o anti-herói ao ponto de ser considerada uma das produções mais ousadas e inteligentes da HBO nos últimos anos - não por acaso considerada o "Breaking Bad" da HBO.
A trama, basicamente, gira em torno de Barry Berkman (Bill Hader), um ex-fuzileiro naval que trabalha como assassino profissional, profundamente deprimido e buscando algum sentido para sua existência vazia. Ao ser enviado para Los Angeles em mais uma missão, ele acidentalmente acaba se interessando por um curso de atuação ministrado pelo excêntrico professor Gene Cousineau (Henry Winkler). Fascinado pela possibilidade de recomeçar e talvez até mesmo abandonar sua violenta vida passada, Barry decide se tornar ator, algo que claramente não combina com seu perfil introvertido, rígido e perturbado. Esse conflito entre suas duas vidas, uma brutal e a outra artística, é o coração pulsante da série e a razão que vai te fazer ficar grudado na tela por quatro temporadas. Confira o trailer (em inglês):
"Barry" sabe brincar com nossa percepção e, principalmente, quebrar nossas expectativas - isso é raro e maravilhoso de assistir. A forma como Berg e Hader transitam entre momentos hilários e sequências profundamente inquietantes é primorosa - não por acaso a série já recebeu mais de 50 indicações ao Emmy (ganhando 10). O roteiro é extremamente afiado, daqueles que jamais subestimam a audiência, entregando diálogos inteligentes, cheios de sarcasmo e ironia. Hader, aliás, não apenas co-escreve e protagoniza, como também dirige vários dos episódios mais emblemáticos, destacando-se por sua capacidade notável de equilibrar o tom da narrativa sempre carregado de reflexões em várias camadas.
Um dos maiores trunfos da série é justamente o desempenho de Bill Hader como Barry - ele entrega a atuação mais memorável de sua carreira. Famoso por seu trabalho cômico no "Saturday Night Live", ele surpreende ao revelar uma capacidade dramática poderosa, conferindo a Barry nuances bastante complexas e, claro, provocativas. Através de sua performance minimalista e quase sempre silenciosa, Hader consegue mostrar toda a profundidade de um personagem que tinha tudo para cair no caricato. Repare como ele é capaz de transmitir, constantemente, aquela sensação de perigo iminente, tensão e culpa - bem na linha das que também assombraram o inesquecível Walter White de Bryan Cranston. Outro nome que merece sua atenção é o de Henry Winkler - ele rouba muitas cenas como o professor de atuação narcisista e sem noção. Winkler, que foi indicado ao Emmy em todos os anos que a série esteve no ar (ganhando em 2018), traz carisma e humor ao personagem, proporcionando momentos de leveza tão necessários em meio à densidade emocional que muitas vezes a trama cria. Outro grande destaque, claro, é Anthony Carrigan como NoHo Hank - um mafioso checheno cuja simpatia, ingenuidade e senso de humor absurdo o transformaram em um dos personagens favoritos da audiência, funcionando também como um alívio cômico constante em meio ao caos violento que cerca Barry.
Do ponto de vista técnico, "Barry" é excepcional. A fotografia é precisa, muitas vezes crua, algo que contribui para amplificar a atmosfera emocional e ameaçadora da série - talvez aqui esteja sua grande sacada ao se distanciar do calor contrastado e potente da Albuquerque de "Breaking Bad". A direção dos episódios, por outro lado, repete o ritmo quase cinematográfico, especialmente nas sequências de ação, da série de Gilligan - tudo é filmado com uma elegância surpreendente. É muito interessante como a dinâmica narrativa imposta pela direção e montagem nos deixa em um estado constante de tensão, angustia e expectativa! Mas calma, a série também brilha em suas reflexões mais profundas - Barry não é apenas sobre um assassino tentando mudar de vida: é uma análise muito mais complexa sobre a identidade de um ex-combatente, sobre o trauma do passado, sobre a culpa de algumas escolhas e, principalmente, sobre a possibilidade (ou impossibilidade) de uma redenção. Ao explorar essas camadas morais, "Barry" frequentemente subverte expectativas narrativas, levando a audiência a discutir sobre os limites éticos e as consequências de nossas escolhas.
Enfim, "Barry" é uma das produções mais originais, instigantes e inteligentes disponíveis nos catálogos do streaming - se eu fosse você não deixaria de dar o play!
Se você é fã de true crime (mas fã mesmo), você vai se amarrar em "Baseado Numa História Real" - não por ser mais uma trama do gênero, mas pela forma como a narrativa brinca com os elementos dramáticos tão característicos para construir mistérios que vem conquistando uma audiência absurda nos últimos anos. "Baseado Numa História Real" está para o true crime, da mesma forma que Silicon Valley está para o universo de startups. Lançada em 2023 pelo Peacock e aqui distribuída pelo Globoplay, a série criada por Craig Rosenberg (de, nada menos que, "The Boys"), combina a leveza da sátira com a densidade do suspense para explorar a obsessão contemporânea com crimes reais e a cultura dos podcasts sobre o assunto. Com uma abordagem que mescla humor ácido (um tanto sombrio em vários momentos), mistério e crítica social, "Baseado Numa História Real" questiona o fascínio que o público tem por histórias de crimes violentos, enquanto cria uma jornada envolvente e, por vezes, desconcertante.
A trama gira em torno de Ava (Kaley Cuoco) e Nathan (Chris Messina), um casal de Los Angeles que, ao enfrentar dificuldades financeiras, vê uma oportunidade lucrativa quando descobrem que alguém próximo a eles pode ser um assassino em série. Em vez de denunciar o criminoso, eles decidem criar um podcast de crime real, capitalizando o fascínio público por esse tipo de conteúdo. Ao longo dos 8 episódios, o casal se vê envolvido em uma série de eventos cada vez mais perigosos e fora de controle, enquanto tentam equilibrar suas vidas pessoais e o desejo de sucesso na mídia. Confira o trailer:
Uma das forças de "Baseado Numa História Real", sem dúvida, é a forma como a série satiriza a obsessão moderna por crimes reais - menos pastelão de que "Only Murders in the Building"e menos criativa que "Depois da Festa", no entanto igualmente divertida e possivelmente mais equilibrada do que as duas. Se criação de podcasts e séries documentais sobre assassinatos se tornou um fenômeno da cultura pop, a série de Craig Rosenberg captura muito bem a ironia dessa obsessão ao questionar o quanto as pessoas estão dispostas a explorar o sofrimento real em nome do entretenimento (e, óbvio, do dinheiro). Ava e Nathan, longe de serem heróis tradicionais, se tornam cúmplices morais na exploração de uma tragédia para seus próprios ganhos, o que faz a audiência refletir sobre a linha tênue entre a curiosidade e a hipocrisia.
A série se destaca também pelo tom sarcástico, mesmo quando lida com temas perturbadores ou cenas visualmente impactantes. O humor negro do roteiro permeia os diálogos e as situações absurdas em que Ava e Nathan se metem - o que ajuda nesse equilíbrio entre o suspense crescente e os momentos mais leves da história. Essa mistura de comédia e tensão, aliás, é uma das marcas registradas da narrativa de Rosenberg, basta lembrar de "The Boys, porém, aqui, com episódios mais curtos e uma trama que avança rapidamente, a narrativa precisa ser realmente eficaz para manter o engajamento. Repleta de reviravoltas inesperadas que, embora por vezes exageradas, mantêm o tom cômico e satírico, a série usa e abusa de um ar de imprevisibilidade que funciona demais! Kaley Cuoco parece se reinventar mais uma vez - ela oferece uma atuação divertida e cheia de camadas. Repare como ela é competente ao criar uma mulher desesperada para revitalizar sua vida e seu casamento, ao mesmo tempo em que se vê fascinada pela possibilidade de sucesso financeiro com o podcast. E aí a química com Chris Messina se faz valer - é o marido cético e pragmático que, apesar de inicialmente hesitante, acaba sendo atraído pela ideia da mulher amada, o que cria uma dinâmica interessante entre o casal.
Já pelo título, a crítica que "Baseado Numa História Real" faz ao consumo desenfreado de histórias de crimes reais, levanta questões sobre a moralidade de transformar a brutalidade em entretenimento e a forma como o público, muitas vezes, se desconecta da realidade por trás dessas histórias. Os protagonistas que inicialmente começam o podcast como uma solução para seus problemas, rapidamente percebem que estão em um caminho perigoso e que pode ter consequências reais - esse "comentário" sobre a desumanização do trágico na cultura moderna dá à série uma profundidade surpreendente, fazendo com que "as entrelinhas" cheguem muito além de um comédia superficial.
Vale a pena conferir!
Se você é fã de true crime (mas fã mesmo), você vai se amarrar em "Baseado Numa História Real" - não por ser mais uma trama do gênero, mas pela forma como a narrativa brinca com os elementos dramáticos tão característicos para construir mistérios que vem conquistando uma audiência absurda nos últimos anos. "Baseado Numa História Real" está para o true crime, da mesma forma que Silicon Valley está para o universo de startups. Lançada em 2023 pelo Peacock e aqui distribuída pelo Globoplay, a série criada por Craig Rosenberg (de, nada menos que, "The Boys"), combina a leveza da sátira com a densidade do suspense para explorar a obsessão contemporânea com crimes reais e a cultura dos podcasts sobre o assunto. Com uma abordagem que mescla humor ácido (um tanto sombrio em vários momentos), mistério e crítica social, "Baseado Numa História Real" questiona o fascínio que o público tem por histórias de crimes violentos, enquanto cria uma jornada envolvente e, por vezes, desconcertante.
A trama gira em torno de Ava (Kaley Cuoco) e Nathan (Chris Messina), um casal de Los Angeles que, ao enfrentar dificuldades financeiras, vê uma oportunidade lucrativa quando descobrem que alguém próximo a eles pode ser um assassino em série. Em vez de denunciar o criminoso, eles decidem criar um podcast de crime real, capitalizando o fascínio público por esse tipo de conteúdo. Ao longo dos 8 episódios, o casal se vê envolvido em uma série de eventos cada vez mais perigosos e fora de controle, enquanto tentam equilibrar suas vidas pessoais e o desejo de sucesso na mídia. Confira o trailer:
Uma das forças de "Baseado Numa História Real", sem dúvida, é a forma como a série satiriza a obsessão moderna por crimes reais - menos pastelão de que "Only Murders in the Building"e menos criativa que "Depois da Festa", no entanto igualmente divertida e possivelmente mais equilibrada do que as duas. Se criação de podcasts e séries documentais sobre assassinatos se tornou um fenômeno da cultura pop, a série de Craig Rosenberg captura muito bem a ironia dessa obsessão ao questionar o quanto as pessoas estão dispostas a explorar o sofrimento real em nome do entretenimento (e, óbvio, do dinheiro). Ava e Nathan, longe de serem heróis tradicionais, se tornam cúmplices morais na exploração de uma tragédia para seus próprios ganhos, o que faz a audiência refletir sobre a linha tênue entre a curiosidade e a hipocrisia.
A série se destaca também pelo tom sarcástico, mesmo quando lida com temas perturbadores ou cenas visualmente impactantes. O humor negro do roteiro permeia os diálogos e as situações absurdas em que Ava e Nathan se metem - o que ajuda nesse equilíbrio entre o suspense crescente e os momentos mais leves da história. Essa mistura de comédia e tensão, aliás, é uma das marcas registradas da narrativa de Rosenberg, basta lembrar de "The Boys, porém, aqui, com episódios mais curtos e uma trama que avança rapidamente, a narrativa precisa ser realmente eficaz para manter o engajamento. Repleta de reviravoltas inesperadas que, embora por vezes exageradas, mantêm o tom cômico e satírico, a série usa e abusa de um ar de imprevisibilidade que funciona demais! Kaley Cuoco parece se reinventar mais uma vez - ela oferece uma atuação divertida e cheia de camadas. Repare como ela é competente ao criar uma mulher desesperada para revitalizar sua vida e seu casamento, ao mesmo tempo em que se vê fascinada pela possibilidade de sucesso financeiro com o podcast. E aí a química com Chris Messina se faz valer - é o marido cético e pragmático que, apesar de inicialmente hesitante, acaba sendo atraído pela ideia da mulher amada, o que cria uma dinâmica interessante entre o casal.
Já pelo título, a crítica que "Baseado Numa História Real" faz ao consumo desenfreado de histórias de crimes reais, levanta questões sobre a moralidade de transformar a brutalidade em entretenimento e a forma como o público, muitas vezes, se desconecta da realidade por trás dessas histórias. Os protagonistas que inicialmente começam o podcast como uma solução para seus problemas, rapidamente percebem que estão em um caminho perigoso e que pode ter consequências reais - esse "comentário" sobre a desumanização do trágico na cultura moderna dá à série uma profundidade surpreendente, fazendo com que "as entrelinhas" cheguem muito além de um comédia superficial.
Vale a pena conferir!
"Bastardos Inglórios" é mais uma obra-prima do mestre Tarantino! Eliminar nazistas, que tema lindo, não acham? Misture esse lindo tema com um roteiro inteligente, atuações estupendas e uma direção visceral, pronto... temos um clássico!
Segunda Guerra Mundial. A França está ocupada pelos nazistas. O tenente Aldo Raine (Brad Pitt) é o encarregado de reunir um pelotão de soldados de origem judaica, com o objetivo de realizar uma missão suicida contra os alemães. O objetivo é eliminar o maior número possível de nazistas, da forma mais cruel possível. Paralelamente Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent) assiste a execução de sua família pelas mãos do coronel Hans Landa (Christoph Waltz), o que faz com que ela fuja para Paris. Lá Dreyfuss se disfarça como operadora e dona de um cinema local, enquanto planeja uma forma de se vingar. Confira o trailer:
Fatalmente, penso que junto com "Pulp Fiction", "Bastardos Inglórios" está, tranquilamente, no top 2 do Tarantino até aqui - na minha opinião.
Se trata de uma obra com a narração de fatos de uma França sob o domínio nazista com um roteiro perspicaz, não há como negar! A direção se alinha com uma estrutura narrativa que vai abordando os acontecimentos e intercalando os personagens até completar a ação - é uma completa “bagunça” arrumada. Tarantino abusa dos seus artifícios de imersão, é fácil nos sentirmos parte do filme, é um senso de espacialidade única. As explosões e o sangue jorrando não demora a aparecer - é um filme do Tarantino, né? Mas o verdadeiro mérito se encontra na dualidade designada para toda a narrativa, onde mesclam esplendorosamente bem as cenas de crueldade com os diálogos impecáveis.
Os diálogos são a cobertura e a cereja do bolo - eles são expressivos e intensos. A veracidade com que as conversas fluem é angustiante, isso aumenta o nível de tensão e o receio, o desconforto, vão nos invadindo de uma forma implacável! As atuações estão esplendorosas, o destaque vai para Waltz, que não por acaso venceu o Oscar de "Ator Coadjuvante" em 2010, com um personagem magnífico, misturando uma serenidade densa com um senso de crueldade - um assassino perfeito e digo mais: é um dos melhores coadjuvantes do século, sem dúvida. Pitt é outro que está ótimo, o personagem caiu como uma luva para o ator, está descontraído e elegante, uma excelente atuação. Todos do elenco parecem muito a vontade, era nítido que o clima nos bastidores realmente colocaria o filme em outro patamar - foi o que aconteceu!
Tarantino nos presenteia do melhor "jeito tarantinesco" possível: referências ao extremo, sangue jorrando em litros, um vilão odiável e fogo nos nazistas - olha que coisa linda de se contar e de assistir. "Bastardos Inglórios" é nitidamente um filme fora da curva. Personagens inesquecíveis, uma narrativa pesada colocando em jogo a sobrevivência de todos em cena com o maior clamor de originalidade e perspicácia possível - um marco do cinema, um dos melhores filmes da década! É impressionante como o filme consegue nos transmitir o alívio de tentar expurgar essa raça nazista que só nos deixou sequelas!
É a junção de brutalidade e inteligência sendo codificada em um filme icônico! Tarantino é gênio e é um deleite ver e rever essa obra! Ainda preciso dizer que vale a pena?
Up-date: "Bastardos Inglórios" recebeu 8 indicações no Oscar 2010, inclusive "Melhor Filme"!
Escrito por Bruno Overbeck - uma parceria @overcinee
"Bastardos Inglórios" é mais uma obra-prima do mestre Tarantino! Eliminar nazistas, que tema lindo, não acham? Misture esse lindo tema com um roteiro inteligente, atuações estupendas e uma direção visceral, pronto... temos um clássico!
Segunda Guerra Mundial. A França está ocupada pelos nazistas. O tenente Aldo Raine (Brad Pitt) é o encarregado de reunir um pelotão de soldados de origem judaica, com o objetivo de realizar uma missão suicida contra os alemães. O objetivo é eliminar o maior número possível de nazistas, da forma mais cruel possível. Paralelamente Shosanna Dreyfuss (Mélanie Laurent) assiste a execução de sua família pelas mãos do coronel Hans Landa (Christoph Waltz), o que faz com que ela fuja para Paris. Lá Dreyfuss se disfarça como operadora e dona de um cinema local, enquanto planeja uma forma de se vingar. Confira o trailer:
Fatalmente, penso que junto com "Pulp Fiction", "Bastardos Inglórios" está, tranquilamente, no top 2 do Tarantino até aqui - na minha opinião.
Se trata de uma obra com a narração de fatos de uma França sob o domínio nazista com um roteiro perspicaz, não há como negar! A direção se alinha com uma estrutura narrativa que vai abordando os acontecimentos e intercalando os personagens até completar a ação - é uma completa “bagunça” arrumada. Tarantino abusa dos seus artifícios de imersão, é fácil nos sentirmos parte do filme, é um senso de espacialidade única. As explosões e o sangue jorrando não demora a aparecer - é um filme do Tarantino, né? Mas o verdadeiro mérito se encontra na dualidade designada para toda a narrativa, onde mesclam esplendorosamente bem as cenas de crueldade com os diálogos impecáveis.
Os diálogos são a cobertura e a cereja do bolo - eles são expressivos e intensos. A veracidade com que as conversas fluem é angustiante, isso aumenta o nível de tensão e o receio, o desconforto, vão nos invadindo de uma forma implacável! As atuações estão esplendorosas, o destaque vai para Waltz, que não por acaso venceu o Oscar de "Ator Coadjuvante" em 2010, com um personagem magnífico, misturando uma serenidade densa com um senso de crueldade - um assassino perfeito e digo mais: é um dos melhores coadjuvantes do século, sem dúvida. Pitt é outro que está ótimo, o personagem caiu como uma luva para o ator, está descontraído e elegante, uma excelente atuação. Todos do elenco parecem muito a vontade, era nítido que o clima nos bastidores realmente colocaria o filme em outro patamar - foi o que aconteceu!
Tarantino nos presenteia do melhor "jeito tarantinesco" possível: referências ao extremo, sangue jorrando em litros, um vilão odiável e fogo nos nazistas - olha que coisa linda de se contar e de assistir. "Bastardos Inglórios" é nitidamente um filme fora da curva. Personagens inesquecíveis, uma narrativa pesada colocando em jogo a sobrevivência de todos em cena com o maior clamor de originalidade e perspicácia possível - um marco do cinema, um dos melhores filmes da década! É impressionante como o filme consegue nos transmitir o alívio de tentar expurgar essa raça nazista que só nos deixou sequelas!
É a junção de brutalidade e inteligência sendo codificada em um filme icônico! Tarantino é gênio e é um deleite ver e rever essa obra! Ainda preciso dizer que vale a pena?
Up-date: "Bastardos Inglórios" recebeu 8 indicações no Oscar 2010, inclusive "Melhor Filme"!
Escrito por Bruno Overbeck - uma parceria @overcinee
"Beckett" é o tipo do filme que transita muito bem entre o drama e a ação, mas que acaba demorando um certo tempo para encontrar sua identidade e isso vai causar algum distanciamento da audiência - mas calma, o filme é bom, só precisamos alinhar as expectativas. Se no primeiro ato o foco é estabelecer a relação entre o protagonista e sua namorada, a partir do segundo ele subverte o gênero e traz para cena a correria e as reviravoltas de um bom thriller de ação - ou seja, se você gosta de ação será preciso suportar os primeiros 30 minutos de filme que são bem cadenciados, já se você gosta de um bom drama, é possível que você se decepcione com o andamento da trama.
Enquanto estava de férias no Norte da Grécia, o turista americano Beckett (John David Washington) se torna o alvo de uma caçada após sofrer um acidente de carro que acaba sendo fatal para sua namorada (Alicia Vikander). Devastado, Beckett tenta recompor suas forças enquanto aguarda a liberação do corpo e a investigação do acidente, porém uma série de eventos (aparentemente inexplicáveis) faz com que ele seja forçado a correr para salvar sua vida. Sem saber se comunicar e não podendo confiar em ninguém, Beckett precisa cruzar o pais até chegar na embaixada americana e assim tentar provar sua inocência, seja lá por qual crime ele está sendo procurado. Confira o trailer:
Veja, Samuel Beckett, é um famoso dramaturgo irlandês que escreveu o clássico "Esperando Godot" e acabou se transformando no maior representante do "Teatro do Absurdo" - honraria que acabou se derivando na expressão "beckettiana" que significa, prestem atenção: adjetivo usado para definir situações em que pessoas se veem imobilizadas, em comunicação truncada, sem saída ou mesmo sem propósito, como comentário pessimista da condição humana.
Não por acaso o diretor italiano Ferdinando Cito Filomarino traz esse mesmo conceito para história que ele mesmo criou e que foi roteirizada pelo estreante Kevin A. Rice. Notadamente, Filomarino quer impor uma narrativa mais autoral, com ares de filme independente e esse mood parece não se encaixar no que vemos na tela - na minha opinião, falta organicidade nas transições de gênero. O diretor acerta no drama, mas derrapa na ação. Quando ele cria as inúmeras barreiras que uma comunicação (truncada) acarreta, sentimos a angustia e o medo de Beckett, mas quando começa a caçada, ele não entrega a mesma qualidade de gramática cinematográfica - nem a montagem consegue consertar alguns planos mal executados. Porém, chega a ser impressionante como isso não impacta na experiência quando mudamos a "chavinha" do drama para a ação - o que foi construído por John David Washington continua ali e convenhamos: o que buscamos no gênero é o entretenimento das perseguições, sentir a raiva quando das traições e alívio de mais um "final feliz", e isso o filme entrega!
A história é de fato boa, cheia de simbolismos que remetem ao absurdo de Beckett (o dramaturgo), mas dois elementos ajudam (e muito) na concepção do ritmo que o filme luta para impor: a fotografia do Sayombhu Mukdeeprom (Me Chame pelo Seu Nome) e a excelente trilha sonora do astro japonêsRyuichi Sakamoto. Tudo se encaixa muito bem com o excelente trabalho de Washington, dando inclusive uma sensação de que tudo foi muito bem orquestrado, mesmo não sendo (como comentamos). A grande questão e talvez o mais difícil paradoxo das escolhas de Filomarino seja justamente encontrar o seu público dentro de dois gêneros que pouco se comunicam, mas que no final do dia vai agradar muito mais do que aborrecer.
"Beckett"é entretenimento puro e que vale o play pela experiência, sem muita preocupação de acertar em todas as escolhas narrativas!
"Beckett" é o tipo do filme que transita muito bem entre o drama e a ação, mas que acaba demorando um certo tempo para encontrar sua identidade e isso vai causar algum distanciamento da audiência - mas calma, o filme é bom, só precisamos alinhar as expectativas. Se no primeiro ato o foco é estabelecer a relação entre o protagonista e sua namorada, a partir do segundo ele subverte o gênero e traz para cena a correria e as reviravoltas de um bom thriller de ação - ou seja, se você gosta de ação será preciso suportar os primeiros 30 minutos de filme que são bem cadenciados, já se você gosta de um bom drama, é possível que você se decepcione com o andamento da trama.
Enquanto estava de férias no Norte da Grécia, o turista americano Beckett (John David Washington) se torna o alvo de uma caçada após sofrer um acidente de carro que acaba sendo fatal para sua namorada (Alicia Vikander). Devastado, Beckett tenta recompor suas forças enquanto aguarda a liberação do corpo e a investigação do acidente, porém uma série de eventos (aparentemente inexplicáveis) faz com que ele seja forçado a correr para salvar sua vida. Sem saber se comunicar e não podendo confiar em ninguém, Beckett precisa cruzar o pais até chegar na embaixada americana e assim tentar provar sua inocência, seja lá por qual crime ele está sendo procurado. Confira o trailer:
Veja, Samuel Beckett, é um famoso dramaturgo irlandês que escreveu o clássico "Esperando Godot" e acabou se transformando no maior representante do "Teatro do Absurdo" - honraria que acabou se derivando na expressão "beckettiana" que significa, prestem atenção: adjetivo usado para definir situações em que pessoas se veem imobilizadas, em comunicação truncada, sem saída ou mesmo sem propósito, como comentário pessimista da condição humana.
Não por acaso o diretor italiano Ferdinando Cito Filomarino traz esse mesmo conceito para história que ele mesmo criou e que foi roteirizada pelo estreante Kevin A. Rice. Notadamente, Filomarino quer impor uma narrativa mais autoral, com ares de filme independente e esse mood parece não se encaixar no que vemos na tela - na minha opinião, falta organicidade nas transições de gênero. O diretor acerta no drama, mas derrapa na ação. Quando ele cria as inúmeras barreiras que uma comunicação (truncada) acarreta, sentimos a angustia e o medo de Beckett, mas quando começa a caçada, ele não entrega a mesma qualidade de gramática cinematográfica - nem a montagem consegue consertar alguns planos mal executados. Porém, chega a ser impressionante como isso não impacta na experiência quando mudamos a "chavinha" do drama para a ação - o que foi construído por John David Washington continua ali e convenhamos: o que buscamos no gênero é o entretenimento das perseguições, sentir a raiva quando das traições e alívio de mais um "final feliz", e isso o filme entrega!
A história é de fato boa, cheia de simbolismos que remetem ao absurdo de Beckett (o dramaturgo), mas dois elementos ajudam (e muito) na concepção do ritmo que o filme luta para impor: a fotografia do Sayombhu Mukdeeprom (Me Chame pelo Seu Nome) e a excelente trilha sonora do astro japonêsRyuichi Sakamoto. Tudo se encaixa muito bem com o excelente trabalho de Washington, dando inclusive uma sensação de que tudo foi muito bem orquestrado, mesmo não sendo (como comentamos). A grande questão e talvez o mais difícil paradoxo das escolhas de Filomarino seja justamente encontrar o seu público dentro de dois gêneros que pouco se comunicam, mas que no final do dia vai agradar muito mais do que aborrecer.
"Beckett"é entretenimento puro e que vale o play pela experiência, sem muita preocupação de acertar em todas as escolhas narrativas!
Se você está disposto a mergulhar em um filme de ação raiz, bem estilo "Sylvester Stallone anos 90", nem perca seu tempo lendo essa análise, role o cursor para baixo e clique em "assista agora" que seu entretenimento está garantido!Dirigido pelo experiente David Ayer (de "Esquadrão Suicida") e estrelado pelo carismático Jason Statham, "Beekeeper: Rede de Vingança" é um verdadeiro jogo de video-game, com muita pancadaria e alguma (mas pouca) história -tudo embalado, obviamente, por uma produção caprichada. O que eu quero dizer é que aqui não dá para esperar um roteiro dos mais inteligentes e complexos, embora ele seja realmente conciso, ou performances inesquecíveis; o inegável é que o filme entrega muita diversão para quem gosta do gênero e isso é mais que suficiente!
Aposentado da organização secreta “Beekeepers”, Adam Clay (Statham) volta à ativa quando sua vizinha sofre um golpe financeiro e acaba morrendo. Ao descobrir uma rede criminosa gerenciada por um grupo influente politicamente, a missão de Adam evolui, expondo um sistema de corrupção que ameaça toda sociedade americana. Confira o trailer:
Mesmo que Ayer se esforce para criar camadas mais profundas para um mero filme de ação com uma história onde o pano de fundo explora temas como ganância, impunidade e busca por justiça, "The Beekeeper" (no original) é bom mesmo por causa da pancadaria e dos tiroteios. O roteiro, escrito por Kurt Wimmer (de "Código de Conduta") é até que bem construído, com uma dinâmica bem estabelecida, mas os diálogos, meu Deus, são fracos demais - os paralelos entre os males da sociedade contemporânea e as particularidades do ecossistema das abelhas chegam a ser constrangedores. Mas isso é um problema? Claro que não, pois quem se propõe a dar um play em um filme de Jason Statham quer mesmo é assistir as cenas de ação - muito bem coreografadas e executadas com perfeição pelo protagonista, diga-se de passagem.
A direção de Ayer, como não podia deixar de ser, sabe muito bem como é potente sua estrela. Com uma condução precisa e muito dinâmica, o diretor se apropria de takes longos e planos bem pensados para aumentar a imersão da audiência em uma história que tem o mérito de nos prender desde o início. Veja, essa é uma história de um herói rústico, um Rambo da vida, que solitário detona os falsos mocinhos e não se importa quem é o Papa ou o Presidente dos EUA, mas simcom o que está certo e o que está errado. Em cima desse conceito que a fotografia de Gabriel Beristain (de "Viúva Negra") gira, capturando a beleza ostensiva do sucesso (leia-se dinheiro e poder) a qualquer custo e a brutalidade de um homem em busca de justiça.
"Beekeeper" é só um filme de vingança - fácil na sua essência e divertido na sua proposta. Eu diria até que em tempos tão complexos como o nosso, normalmente retratado em filmes tão mais pretensiosos, ganhar quase duas horas se entretendo com uma história tão fantasiosa quanto inocente como essa, olha, é de se aplaudir sem o receio de parecer superficial.
Vale o seu play e a pipoca que nos acompanha!
Se você está disposto a mergulhar em um filme de ação raiz, bem estilo "Sylvester Stallone anos 90", nem perca seu tempo lendo essa análise, role o cursor para baixo e clique em "assista agora" que seu entretenimento está garantido!Dirigido pelo experiente David Ayer (de "Esquadrão Suicida") e estrelado pelo carismático Jason Statham, "Beekeeper: Rede de Vingança" é um verdadeiro jogo de video-game, com muita pancadaria e alguma (mas pouca) história -tudo embalado, obviamente, por uma produção caprichada. O que eu quero dizer é que aqui não dá para esperar um roteiro dos mais inteligentes e complexos, embora ele seja realmente conciso, ou performances inesquecíveis; o inegável é que o filme entrega muita diversão para quem gosta do gênero e isso é mais que suficiente!
Aposentado da organização secreta “Beekeepers”, Adam Clay (Statham) volta à ativa quando sua vizinha sofre um golpe financeiro e acaba morrendo. Ao descobrir uma rede criminosa gerenciada por um grupo influente politicamente, a missão de Adam evolui, expondo um sistema de corrupção que ameaça toda sociedade americana. Confira o trailer:
Mesmo que Ayer se esforce para criar camadas mais profundas para um mero filme de ação com uma história onde o pano de fundo explora temas como ganância, impunidade e busca por justiça, "The Beekeeper" (no original) é bom mesmo por causa da pancadaria e dos tiroteios. O roteiro, escrito por Kurt Wimmer (de "Código de Conduta") é até que bem construído, com uma dinâmica bem estabelecida, mas os diálogos, meu Deus, são fracos demais - os paralelos entre os males da sociedade contemporânea e as particularidades do ecossistema das abelhas chegam a ser constrangedores. Mas isso é um problema? Claro que não, pois quem se propõe a dar um play em um filme de Jason Statham quer mesmo é assistir as cenas de ação - muito bem coreografadas e executadas com perfeição pelo protagonista, diga-se de passagem.
A direção de Ayer, como não podia deixar de ser, sabe muito bem como é potente sua estrela. Com uma condução precisa e muito dinâmica, o diretor se apropria de takes longos e planos bem pensados para aumentar a imersão da audiência em uma história que tem o mérito de nos prender desde o início. Veja, essa é uma história de um herói rústico, um Rambo da vida, que solitário detona os falsos mocinhos e não se importa quem é o Papa ou o Presidente dos EUA, mas simcom o que está certo e o que está errado. Em cima desse conceito que a fotografia de Gabriel Beristain (de "Viúva Negra") gira, capturando a beleza ostensiva do sucesso (leia-se dinheiro e poder) a qualquer custo e a brutalidade de um homem em busca de justiça.
"Beekeeper" é só um filme de vingança - fácil na sua essência e divertido na sua proposta. Eu diria até que em tempos tão complexos como o nosso, normalmente retratado em filmes tão mais pretensiosos, ganhar quase duas horas se entretendo com uma história tão fantasiosa quanto inocente como essa, olha, é de se aplaudir sem o receio de parecer superficial.
Vale o seu play e a pipoca que nos acompanha!
Se "Bela Vingança" tem um grande mérito, eu diria que é o de ser um filme corajoso e que mesmo com uma certa previsibilidade (proposital), não tem receio algum de correr riscos, entregando um resultado estético e narrativo que merece ser elogiado de pé! O filme de estreia como diretora da atriz (já indicada ao Emmy duas vezes, por "The Crown" e por "Killing Eve") Emerald Fennell, transborda honestidade e responsabilidade ao tocar em uma ferida delicada e que vai gerar muito desconforto: a teoria do estupro discutida não só pelo lado de quem sofre, mas também pelo lado de quem se omite. Veja, existe sim um componente claramente didático no roteiro (que levou o Oscar de "original" em 2020), mas nem por isso o entretenimento é colocado de lado e mesmo com algumas cenas bem chocantes visualmente, fica fácil entender mesmo quando o lado mais intimo do ser humano é retratado - é aí que sentimos na pele.
Cassie (Carey Mulligan) é uma mulher com profundos traumas do passado que frequenta bares todas as noites e que finge estar bêbada para quando homens mal-intencionados se aproximarem com a desculpa de que vão ajudá-la, entrar em ação e se vingar dos predadores que tiveram o azar de conhecê-la. Acontece que nem todos os homens, aparentemente, estão na mesma prateleira, é aí que Cassie começa a refletir se sua postura é a mais correta e se suas escolhas de vida estão, de fato, a fazendo feliz. Confira o trailer:
"Bela Vingança" tem um cuidado que pode passar batido pelos mais desatentos, mas que vale pontuar para que você preste bem atenção e aproveite melhor a experiência: o filme pode até parecer meio sem identidade, com uma narrativa um pouco desconexa e sem manter um padrão visual alinhado com a proposta inicial, mas tudo isso tem sua razão de ser. Se no primeiro momento a estética lembra um slasher dos anos 80 (como "X - A Marca da Morte"), rapidamente ele pode soar como um drama adolescente (ao melhor estilo "Nudes" ou "13 Reasons Why") e por fim ainda emular uma certa atmosfera moderninha de comédia romântica (meio "Modern Love") - e tudo isso não acontece por acaso, é como se existisse uma representação gráfica da confusão mental pela qual a protagonista tem que conviver e que vai se misturando durante a trama. A relação com seus pais é um ótimo exemplo desse conceito. Aliás essa escolha de Fennell faz todo sentido quando olhamos em retrospectiva depois que descobrimos todas as nuances da história e por quais caminhos ela se desenvolve até o final - é genial essa sensibilidade do roteiro e da direção.
Mulligan está simplesmente sensacional como Cassandra - reparem como ela trabalha seu range de interpretação sem antecipar suas motivações, ou seja, você nunca sabe o que esperar da atriz em cena. Seu estilo fisico sugere certa meiguice; seu humor, alguma ironia; e suas ações alguma angustia. É impressionante, inclusive, como a escalação do elenco foi feliz em construir uma persona de "quem vê cara, não vê coração" também do lado masculino, trazendo ídolos de outras produções que marcaram época como “caras legais” - a ideia de quebra de expectativas é fundamental para entendermos a raiz do problema que o filme discute com sabedoria.
"Bela Vingança" pode até soar como um belo tapa na cara para a masculinidade tóxica, mas isso seria uma análise superficial e lacradora demais para nosso conceito editorial, já que, como obra cinematográfica, o filme vai muito além ao respeitar o que mais interessa em toda essa discussão: entender o sentimento de quem carrega essa marca seja pelo ato que não necessariamente tenha sofrido, mas que de alguma forma impactou em sua vida e que foi potencializado pelo "caminhão de omissões" típicas de uma sociedade hipócrita - a cena com a reitora da faculdade é impagável justamente por isso). Os últimos vinte minutos do filme, aliás, são essenciais para fechar o arco com sagacidade e ousadia, o que transforma a jornada de um gosto amargo em um fio de esperança!
Vale muito o seu play!
Se "Bela Vingança" tem um grande mérito, eu diria que é o de ser um filme corajoso e que mesmo com uma certa previsibilidade (proposital), não tem receio algum de correr riscos, entregando um resultado estético e narrativo que merece ser elogiado de pé! O filme de estreia como diretora da atriz (já indicada ao Emmy duas vezes, por "The Crown" e por "Killing Eve") Emerald Fennell, transborda honestidade e responsabilidade ao tocar em uma ferida delicada e que vai gerar muito desconforto: a teoria do estupro discutida não só pelo lado de quem sofre, mas também pelo lado de quem se omite. Veja, existe sim um componente claramente didático no roteiro (que levou o Oscar de "original" em 2020), mas nem por isso o entretenimento é colocado de lado e mesmo com algumas cenas bem chocantes visualmente, fica fácil entender mesmo quando o lado mais intimo do ser humano é retratado - é aí que sentimos na pele.
Cassie (Carey Mulligan) é uma mulher com profundos traumas do passado que frequenta bares todas as noites e que finge estar bêbada para quando homens mal-intencionados se aproximarem com a desculpa de que vão ajudá-la, entrar em ação e se vingar dos predadores que tiveram o azar de conhecê-la. Acontece que nem todos os homens, aparentemente, estão na mesma prateleira, é aí que Cassie começa a refletir se sua postura é a mais correta e se suas escolhas de vida estão, de fato, a fazendo feliz. Confira o trailer:
"Bela Vingança" tem um cuidado que pode passar batido pelos mais desatentos, mas que vale pontuar para que você preste bem atenção e aproveite melhor a experiência: o filme pode até parecer meio sem identidade, com uma narrativa um pouco desconexa e sem manter um padrão visual alinhado com a proposta inicial, mas tudo isso tem sua razão de ser. Se no primeiro momento a estética lembra um slasher dos anos 80 (como "X - A Marca da Morte"), rapidamente ele pode soar como um drama adolescente (ao melhor estilo "Nudes" ou "13 Reasons Why") e por fim ainda emular uma certa atmosfera moderninha de comédia romântica (meio "Modern Love") - e tudo isso não acontece por acaso, é como se existisse uma representação gráfica da confusão mental pela qual a protagonista tem que conviver e que vai se misturando durante a trama. A relação com seus pais é um ótimo exemplo desse conceito. Aliás essa escolha de Fennell faz todo sentido quando olhamos em retrospectiva depois que descobrimos todas as nuances da história e por quais caminhos ela se desenvolve até o final - é genial essa sensibilidade do roteiro e da direção.
Mulligan está simplesmente sensacional como Cassandra - reparem como ela trabalha seu range de interpretação sem antecipar suas motivações, ou seja, você nunca sabe o que esperar da atriz em cena. Seu estilo fisico sugere certa meiguice; seu humor, alguma ironia; e suas ações alguma angustia. É impressionante, inclusive, como a escalação do elenco foi feliz em construir uma persona de "quem vê cara, não vê coração" também do lado masculino, trazendo ídolos de outras produções que marcaram época como “caras legais” - a ideia de quebra de expectativas é fundamental para entendermos a raiz do problema que o filme discute com sabedoria.
"Bela Vingança" pode até soar como um belo tapa na cara para a masculinidade tóxica, mas isso seria uma análise superficial e lacradora demais para nosso conceito editorial, já que, como obra cinematográfica, o filme vai muito além ao respeitar o que mais interessa em toda essa discussão: entender o sentimento de quem carrega essa marca seja pelo ato que não necessariamente tenha sofrido, mas que de alguma forma impactou em sua vida e que foi potencializado pelo "caminhão de omissões" típicas de uma sociedade hipócrita - a cena com a reitora da faculdade é impagável justamente por isso). Os últimos vinte minutos do filme, aliás, são essenciais para fechar o arco com sagacidade e ousadia, o que transforma a jornada de um gosto amargo em um fio de esperança!
Vale muito o seu play!
"Bem-Vindos ao Clube da Sedução" é tão excelente que chega a ser inacreditável que o Star+ não tenha dado mais atenção ao marketing dessa minissérie baseada em fatos reais que além de te surpreender, vai te prender durante os 8 episódios de uma forma impressionante. Veja, se inicialmente temos a leve impressão de estarmos diante de uma narrativa que nos remete àquela história de um pacato cidadão que vê uma oportunidade de se dar muito bem na vida mesmo que para isso ele tenha que sujar as mãos, ao melhor estilo "anti-herói" de Walter White em "Breaking Bad"; imediatamente depois somos jogados ao mundo do empreendedorismo com fortes gatilhos emocionais como em "O Urso" ou "Physical", mas que na verdade tudo não passa de uma jornada de vaidade, crime e dinheiro como em "The Thing About Pam" ou “Halston”, por exemplo.
Somen “Steve” Banerjee (Kumail Nanjiani) é um empreendedor indiano-americano que criou o Chippendales - conhecido na década de 70 como o primeiro show de strip-tease apenas com modelos masculinos. Depois de imigrar para Playa del Rey, na Califórnia, Steve vê uma oportunidade única de transformar um bar de gamão em algo único, inédito e muito rentável. Sua ambição o leva ao sucesso, com decisões firmes, criativas e visionárias, com a mesma velocidade com que sua vaidade e insegurança emocional começa destrui-lo. Confira o trailer:
Eu dei o play sem muito saber sobre a história - mal sabia, inclusive, que ela era real; porém acho necessário dizer que o clube Chippendales (de onde vem o título original "Welcome to Chippendales"), de fato, marcou uma geração de mulheres que buscavam liberdade e diversão no final dos anos 70, com a mesma veemência com que figurou nos noticiários americanos pelos consecutivos casos de assassinato e suicídio que envolveram funcionários que ali trabalharam. Por isso que a minissérie se apoia em elementos de true crime, mas 90% do seu tempo ela é muito mais sobre negócios, sucesso, dinheiro e vaidade do que qualquer outra coisa - eu diria que são ”os bastidores de showbiz" que nos guiam durante toda a jornada
Criada por Robert Siegel (o mesmo de "Pam & Tommy"), "Bem-Vindos ao Clube da Sedução" nos envolve de tal maneira que naturalmente emendamos um episódio no outro - e aqui cabe um aviso: como em “Halston” e em "Hollywood", algumas cenas que recriam o cenário gay da época, podem chocar parte da audiência. Por outro lado, o trabalho do departamento de Arte é fenomenal - dos cabelos aos figurinos, até mesmo passando pelos cenários cuidadosamente recriados, temos um projeto tecnicamente impecável e visualmente muito caprichado. O elenco encabeçado pelo talentoso Kumail Nanjiani também merece destaque. Todo núcleo principal que conta com Murray Bartlett (o Nick De Noia), Annaleigh Ashford (como Irene) e a impagável Juliette Lewis (como Denise), é digno de prêmios pela performance e pela capacidade de equilibrar a dor mais íntima com o estereótipo mais despojado típico daquele universo.
"Bem-Vindos ao Clube da Sedução" é uma jóia que pode até incomodar os mais preconceituosos, mas que encanta pela veracidade de sua jornada e nos provoca inúmeras reflexões sobre o poder que o sucesso e o dinheiro tem de transformar até quem são, como a própria Irene definiu, "pessoas boas". Com um roteiro de muita profundidade, que discute assuntos espinhosos e marcantes para toda uma sociedade, ao mesmo tempo em que nos maravilha com uma qualidade artística acima da média, fica fácil afirmar que estamos diante de um dos títulos mais subestimados de 2022 e que merece (e muito) o seu play!
"Bem-Vindos ao Clube da Sedução" é tão excelente que chega a ser inacreditável que o Star+ não tenha dado mais atenção ao marketing dessa minissérie baseada em fatos reais que além de te surpreender, vai te prender durante os 8 episódios de uma forma impressionante. Veja, se inicialmente temos a leve impressão de estarmos diante de uma narrativa que nos remete àquela história de um pacato cidadão que vê uma oportunidade de se dar muito bem na vida mesmo que para isso ele tenha que sujar as mãos, ao melhor estilo "anti-herói" de Walter White em "Breaking Bad"; imediatamente depois somos jogados ao mundo do empreendedorismo com fortes gatilhos emocionais como em "O Urso" ou "Physical", mas que na verdade tudo não passa de uma jornada de vaidade, crime e dinheiro como em "The Thing About Pam" ou “Halston”, por exemplo.
Somen “Steve” Banerjee (Kumail Nanjiani) é um empreendedor indiano-americano que criou o Chippendales - conhecido na década de 70 como o primeiro show de strip-tease apenas com modelos masculinos. Depois de imigrar para Playa del Rey, na Califórnia, Steve vê uma oportunidade única de transformar um bar de gamão em algo único, inédito e muito rentável. Sua ambição o leva ao sucesso, com decisões firmes, criativas e visionárias, com a mesma velocidade com que sua vaidade e insegurança emocional começa destrui-lo. Confira o trailer:
Eu dei o play sem muito saber sobre a história - mal sabia, inclusive, que ela era real; porém acho necessário dizer que o clube Chippendales (de onde vem o título original "Welcome to Chippendales"), de fato, marcou uma geração de mulheres que buscavam liberdade e diversão no final dos anos 70, com a mesma veemência com que figurou nos noticiários americanos pelos consecutivos casos de assassinato e suicídio que envolveram funcionários que ali trabalharam. Por isso que a minissérie se apoia em elementos de true crime, mas 90% do seu tempo ela é muito mais sobre negócios, sucesso, dinheiro e vaidade do que qualquer outra coisa - eu diria que são ”os bastidores de showbiz" que nos guiam durante toda a jornada
Criada por Robert Siegel (o mesmo de "Pam & Tommy"), "Bem-Vindos ao Clube da Sedução" nos envolve de tal maneira que naturalmente emendamos um episódio no outro - e aqui cabe um aviso: como em “Halston” e em "Hollywood", algumas cenas que recriam o cenário gay da época, podem chocar parte da audiência. Por outro lado, o trabalho do departamento de Arte é fenomenal - dos cabelos aos figurinos, até mesmo passando pelos cenários cuidadosamente recriados, temos um projeto tecnicamente impecável e visualmente muito caprichado. O elenco encabeçado pelo talentoso Kumail Nanjiani também merece destaque. Todo núcleo principal que conta com Murray Bartlett (o Nick De Noia), Annaleigh Ashford (como Irene) e a impagável Juliette Lewis (como Denise), é digno de prêmios pela performance e pela capacidade de equilibrar a dor mais íntima com o estereótipo mais despojado típico daquele universo.
"Bem-Vindos ao Clube da Sedução" é uma jóia que pode até incomodar os mais preconceituosos, mas que encanta pela veracidade de sua jornada e nos provoca inúmeras reflexões sobre o poder que o sucesso e o dinheiro tem de transformar até quem são, como a própria Irene definiu, "pessoas boas". Com um roteiro de muita profundidade, que discute assuntos espinhosos e marcantes para toda uma sociedade, ao mesmo tempo em que nos maravilha com uma qualidade artística acima da média, fica fácil afirmar que estamos diante de um dos títulos mais subestimados de 2022 e que merece (e muito) o seu play!
Não por acaso esperei terminar as duas temporadas de "Big Little Lies" para fazer esse review. A série (que nasceu como minissérie em 2017 na HBO) é daquelas imperdíveis, pois equilibra muito bem uma ótima produção, uma excelente direção e uma trama inteligente - principalmente na temporada 1. Vale dizer, inclusive, que se você já assistiu a primeira temporada, fizemos um "primeiras impressões" sobre essa última e você pode ler aqui. Pois bem, para quem ainda não teve o prazer de assistir os 14 episódios disponíveis, vai uma rápida sinopse que vou me aprofundar um pouco mais abaixo: A série tem como ponto de partida um possível assassinado que ocorreu na pequena cidade de Monterrey, na Califórnia. Como toda cidade pequena, fofocas e comentários tomam conta do dia a dia da comunidade que é mostrado em retrospectiva (com um show de edição) pelo ponto de vista de quatro mulheres: Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman), Renata (Laura Dern) e Jane (Shailene Woodley). Tendo esse mistério como pano de fundo, "Big Little Lies" fala sobre conflitos de relacionamentos entre amigos, pares e filhos de uma forma muito direta. Ao mesmo tempo que expõe a fragilidade do ser humano com temas complexos como o de uma relação violenta e abusiva, também trata de casualidades como um desentendimento entre crianças na sala de aula. O fato é que Big Little Lies trás o que tem de melhor em entretenimento disponível e vale muito (mas muito) à pena! Confira o trailer:
O ritmo fragmentado, completamente não linear, cheio de cortes bruscos e flashes aparentemente sem sentido pode assustar num primeiro momento. É compreensível, pois o diretor Jean-Marc Vallée usa de uma técnica extremamente clipada para criar uma série de sensações e expectativas - o fato é que, de repente, já estamos vidrados e imersos naquela trama cheia de mistérios. Embora "Big Little Lies" tenha uma divisão narrativa bastante clara ente uma e outra temporada, o conceito estético se mantém como um dos maiores acertos da produção - é realmente lindo o trabalho de concepção de Vallée que a diretora Andrea Arnold mantém na segunda temporada. Se engana quem acredita que a série tem como objetivo falar apenas sobre um possível crime onde não sabemos nada sobre a vítima e sobre o assassino, isso é só o gatilho para focar em temas espinhosos e cotidianos. Sim, no final da primeira temporada descobrimos quem matou e quem é a vítima e isso seria suficiente para finalizar a obra, mas com tanto sucesso a HBO resolveu arriscar uma continuação e, digamos, se deu bem, mas com um "porém". A segunda temporada continua tratando dos mesmos temas espinhosos, mas com uma pequena (mas importante) falha na identidade narrativa - ela muda de sub-gênero sem mais nem menos. No inicio tudo leva a crer que o pano de fundo será a consequência do crime e sua investigação, mas lentamente vai se perdendo ao dar mais valor à uma disputa familiar do tribunal. São 4 ou 5 episódios alinhados àquela trama consistente da primeira temporada e outros 2 episódios perdidos pelo caminho. Que fique claro que isso não torna a série ruim, menos intrigante ou dispensável, muito pelo contrario, assistir Meryl Streep como Mary Louise Wright é um enorme prazer, mas não se pode negar que a série se mostrou de uma forma e a entrega não acompanhou a expectativa inicial. Digamos que fugiu do tema!
É óbvio que a primeira temporada de "Big Little Lies" é melhor, mas não achei ruim a segunda não. Começa muito bem, dá a impressão que vai decolar, mas aí caí no comum, no caricato do sonho americano e não surpreende, mas diverte! Já a relação entre as personagens e seus problemas íntimos e sociais continuam bem consistentes como na temporada anterior - eu diria que é isso que segura a série, embora as soluções sejam incrivelmente mais rápidas que o seu desenvolvimento. O destaque positivo, para mim, foi o enorme crescimento da personagem Renata (Laura Dern) e o negativo foi a falta de protagonismo da personagem Jane (Shailene Woodley). Madeline (Reese Witherspoon) e Celeste (Nicole Kidman) continuam interessantes. A quinta do grupo e que, naturalmente, ganhou um pouco mais de destaque nessa temporada, Bonnie (Zoë Kravitz) não se encaixou - é possível entender seu arco, tem um final interessante, mas não tem o menor carisma e o plot sobrenatural da relação com sua mãe é completamente dispensável!
Como disse acima, "Big Little Lies" é imperdível. Tem uma primeira temporada digna das dezenas de prêmios que ganhou, com uma trama muito bem amarrada e um final interessante. Já aquele famoso receio de transformar uma minissérie em série se confirma, faz com que BLL perca força e tenha que se apoiar exclusivamente no talento das protagonistas. Fica ruim? Não, mas se perde dentro dos seus próprios méritos - me trouxe um pouco da ressaca de "Bloodline". Vale a pena? Muito!
Não por acaso esperei terminar as duas temporadas de "Big Little Lies" para fazer esse review. A série (que nasceu como minissérie em 2017 na HBO) é daquelas imperdíveis, pois equilibra muito bem uma ótima produção, uma excelente direção e uma trama inteligente - principalmente na temporada 1. Vale dizer, inclusive, que se você já assistiu a primeira temporada, fizemos um "primeiras impressões" sobre essa última e você pode ler aqui. Pois bem, para quem ainda não teve o prazer de assistir os 14 episódios disponíveis, vai uma rápida sinopse que vou me aprofundar um pouco mais abaixo: A série tem como ponto de partida um possível assassinado que ocorreu na pequena cidade de Monterrey, na Califórnia. Como toda cidade pequena, fofocas e comentários tomam conta do dia a dia da comunidade que é mostrado em retrospectiva (com um show de edição) pelo ponto de vista de quatro mulheres: Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman), Renata (Laura Dern) e Jane (Shailene Woodley). Tendo esse mistério como pano de fundo, "Big Little Lies" fala sobre conflitos de relacionamentos entre amigos, pares e filhos de uma forma muito direta. Ao mesmo tempo que expõe a fragilidade do ser humano com temas complexos como o de uma relação violenta e abusiva, também trata de casualidades como um desentendimento entre crianças na sala de aula. O fato é que Big Little Lies trás o que tem de melhor em entretenimento disponível e vale muito (mas muito) à pena! Confira o trailer:
O ritmo fragmentado, completamente não linear, cheio de cortes bruscos e flashes aparentemente sem sentido pode assustar num primeiro momento. É compreensível, pois o diretor Jean-Marc Vallée usa de uma técnica extremamente clipada para criar uma série de sensações e expectativas - o fato é que, de repente, já estamos vidrados e imersos naquela trama cheia de mistérios. Embora "Big Little Lies" tenha uma divisão narrativa bastante clara ente uma e outra temporada, o conceito estético se mantém como um dos maiores acertos da produção - é realmente lindo o trabalho de concepção de Vallée que a diretora Andrea Arnold mantém na segunda temporada. Se engana quem acredita que a série tem como objetivo falar apenas sobre um possível crime onde não sabemos nada sobre a vítima e sobre o assassino, isso é só o gatilho para focar em temas espinhosos e cotidianos. Sim, no final da primeira temporada descobrimos quem matou e quem é a vítima e isso seria suficiente para finalizar a obra, mas com tanto sucesso a HBO resolveu arriscar uma continuação e, digamos, se deu bem, mas com um "porém". A segunda temporada continua tratando dos mesmos temas espinhosos, mas com uma pequena (mas importante) falha na identidade narrativa - ela muda de sub-gênero sem mais nem menos. No inicio tudo leva a crer que o pano de fundo será a consequência do crime e sua investigação, mas lentamente vai se perdendo ao dar mais valor à uma disputa familiar do tribunal. São 4 ou 5 episódios alinhados àquela trama consistente da primeira temporada e outros 2 episódios perdidos pelo caminho. Que fique claro que isso não torna a série ruim, menos intrigante ou dispensável, muito pelo contrario, assistir Meryl Streep como Mary Louise Wright é um enorme prazer, mas não se pode negar que a série se mostrou de uma forma e a entrega não acompanhou a expectativa inicial. Digamos que fugiu do tema!
É óbvio que a primeira temporada de "Big Little Lies" é melhor, mas não achei ruim a segunda não. Começa muito bem, dá a impressão que vai decolar, mas aí caí no comum, no caricato do sonho americano e não surpreende, mas diverte! Já a relação entre as personagens e seus problemas íntimos e sociais continuam bem consistentes como na temporada anterior - eu diria que é isso que segura a série, embora as soluções sejam incrivelmente mais rápidas que o seu desenvolvimento. O destaque positivo, para mim, foi o enorme crescimento da personagem Renata (Laura Dern) e o negativo foi a falta de protagonismo da personagem Jane (Shailene Woodley). Madeline (Reese Witherspoon) e Celeste (Nicole Kidman) continuam interessantes. A quinta do grupo e que, naturalmente, ganhou um pouco mais de destaque nessa temporada, Bonnie (Zoë Kravitz) não se encaixou - é possível entender seu arco, tem um final interessante, mas não tem o menor carisma e o plot sobrenatural da relação com sua mãe é completamente dispensável!
Como disse acima, "Big Little Lies" é imperdível. Tem uma primeira temporada digna das dezenas de prêmios que ganhou, com uma trama muito bem amarrada e um final interessante. Já aquele famoso receio de transformar uma minissérie em série se confirma, faz com que BLL perca força e tenha que se apoiar exclusivamente no talento das protagonistas. Fica ruim? Não, mas se perde dentro dos seus próprios méritos - me trouxe um pouco da ressaca de "Bloodline". Vale a pena? Muito!
Após ler a sinopse de "Birds of Paradise", provavelmente três perguntas virão a sua cabeça, então vou me antecipar para alinharmos as expectativas. "Birds of Paradise" pode ser comparado ao "Cisne Negro" como obra cinematográfica? Não. Mas a temática é parecida certo? Sim. Então se eu gostei de "Cisne Negro", vou gostar de "Birds of Paradise"? Provavelmente sim!
A história acompanha a jornada de duas garotas que se tornam melhores amigas em uma companhia de dança e observam, impotentes, que os laços que criaram não são tão fortes para impedir seus instintos mais vaidosos e egoístas na busca por um único objetivo - vencer uma disputa individual que daria direito a um sólido contrato com a Ópera Nacional de Paris. Marine Elise Durand (Kristine Froseth) é conhecida por seu talento como bailarina, mas ainda carrega no corpo e na alma, o trauma pelo suicídio do irmão gêmeo e a pressão imposta pelo relacionamento tóxico com seus pais; já Kate Sanders (Diana Silvers) é uma jovem americana que ganhou uma bolsa para estudar ballet na França, mas que enfrenta um enorme preconceito justamente por não ser francesa - ela é chamada pejorativamente de Virginiapela austera Madame Brunelleschi (Jacqueline Bisset), dona da escola e responsável por escolher a grande vencedora. Confira o trailer:
"Birds of Paradise" é baseado no romance "Bright Burning Stars", de A.K. Small, e é uma adaptação da diretora e roteirista Sarah Adina Smith - profissional que construiu sua carreira dirigindo episódios de séries para o streaming (e isso fica muito claro no filme). Embora anos luz do Aronofsky (diretor de "Cisne Negro"), Smith é muito competente tecnicamente e sua parceria com o diretor de fotografia Shaheen Seth rendem boas (e plásticas) cenas, mostrando que o calcanhar de Aquíles do filme é mesmo o roteiro. Todos nós já sabemos que adaptar um livro para as telas não é uma tarefa das mais fáceis e aqui a necessidade de cobrir tantos eventos que ajudaram a construir as camadas mais profundas dos personagens no livro, acabam atrapalhando o que realmente importa - a relação conflituosa entre Kate e Marine. Não que isso atrapalhe o entretenimento, mas sem dúvida é um fator essencial que afasta qualquer tipo de comparação com "Cisne Negro", por exemplo.
O fato é que "Birds of Paradise" deve agradar mais o jovem adulto - até por uma certa identificação com as personagens e a forma como seus dramas pessoais são retratados. Aliás, é de se elogiar o trabalho do elenco, mesmo assumindo que todos estão um tom acima em suas performances. Por outro lado, a dinâmica que Smith impõe nas cenas, principalmente quando as bailarinas estão em ação, acaba trazendo um certo frescor independente para o filme, permitindo que a experiência flua e que a sensação, ao final de pouco mais que 90 minutos, seja agradável.
No final das contas, "Birds of Paradise" vale como um ótimo e despretensioso entretenimento, principalmente para quem tem alguma relação afetiva com as artes e a dança.
Após ler a sinopse de "Birds of Paradise", provavelmente três perguntas virão a sua cabeça, então vou me antecipar para alinharmos as expectativas. "Birds of Paradise" pode ser comparado ao "Cisne Negro" como obra cinematográfica? Não. Mas a temática é parecida certo? Sim. Então se eu gostei de "Cisne Negro", vou gostar de "Birds of Paradise"? Provavelmente sim!
A história acompanha a jornada de duas garotas que se tornam melhores amigas em uma companhia de dança e observam, impotentes, que os laços que criaram não são tão fortes para impedir seus instintos mais vaidosos e egoístas na busca por um único objetivo - vencer uma disputa individual que daria direito a um sólido contrato com a Ópera Nacional de Paris. Marine Elise Durand (Kristine Froseth) é conhecida por seu talento como bailarina, mas ainda carrega no corpo e na alma, o trauma pelo suicídio do irmão gêmeo e a pressão imposta pelo relacionamento tóxico com seus pais; já Kate Sanders (Diana Silvers) é uma jovem americana que ganhou uma bolsa para estudar ballet na França, mas que enfrenta um enorme preconceito justamente por não ser francesa - ela é chamada pejorativamente de Virginiapela austera Madame Brunelleschi (Jacqueline Bisset), dona da escola e responsável por escolher a grande vencedora. Confira o trailer:
"Birds of Paradise" é baseado no romance "Bright Burning Stars", de A.K. Small, e é uma adaptação da diretora e roteirista Sarah Adina Smith - profissional que construiu sua carreira dirigindo episódios de séries para o streaming (e isso fica muito claro no filme). Embora anos luz do Aronofsky (diretor de "Cisne Negro"), Smith é muito competente tecnicamente e sua parceria com o diretor de fotografia Shaheen Seth rendem boas (e plásticas) cenas, mostrando que o calcanhar de Aquíles do filme é mesmo o roteiro. Todos nós já sabemos que adaptar um livro para as telas não é uma tarefa das mais fáceis e aqui a necessidade de cobrir tantos eventos que ajudaram a construir as camadas mais profundas dos personagens no livro, acabam atrapalhando o que realmente importa - a relação conflituosa entre Kate e Marine. Não que isso atrapalhe o entretenimento, mas sem dúvida é um fator essencial que afasta qualquer tipo de comparação com "Cisne Negro", por exemplo.
O fato é que "Birds of Paradise" deve agradar mais o jovem adulto - até por uma certa identificação com as personagens e a forma como seus dramas pessoais são retratados. Aliás, é de se elogiar o trabalho do elenco, mesmo assumindo que todos estão um tom acima em suas performances. Por outro lado, a dinâmica que Smith impõe nas cenas, principalmente quando as bailarinas estão em ação, acaba trazendo um certo frescor independente para o filme, permitindo que a experiência flua e que a sensação, ao final de pouco mais que 90 minutos, seja agradável.
No final das contas, "Birds of Paradise" vale como um ótimo e despretensioso entretenimento, principalmente para quem tem alguma relação afetiva com as artes e a dança.
"Black Bird" é mais uma excelente minissérie de "true crime" que encontramos no streaming da Apple. Eu diria que ela não é excepcional como os títulos que estamos acostumados a encontrar na HBO, mas já é possível afirmar que a plataforma, essa sim, começa a despontar, ao lado do Star+, como uma ótima opção para quem gosta do gênero. Com seis episódios de uma hora e criação de Dennis Lehane, roteirista e romancista americano, autor de sucessos como "Sobre Meninos e Lobos" e "Ilha do Medo", além de produtor de "Outsider" (adaptação de Stephen King para HBO), "Black Bird" entrega o que promete ao mostrar a jornada real de transformação de James "Jimmy" Keene enquanto ajudava o FBI a evitar a soltura de Larry Hall, um forte suspeito de ser um serial killer.
O ano é 1996, quando o charmoso traficante e ex-astro de futebol do colegial Jimmy Keene (Taron Egerton) é sentenciado a 10 anos de prisão após uma operação do FBI, que além das drogas descobriu uma quantidade considerável de armas ilegais. Para se livrar da pena, Keene recebe uma proposta arriscada das autoridades: ele precisa ser transferido para uma prisão de segurança máxima, se aproximar de Larry Hall (Paul Walter Hauser), e assim conseguir uma confissão a fim de que o maníaco ligado ao desaparecimento de várias garotas, seja mantido preso, e os corpos das vítimas, encontrados. Confira o trailer:
A história sobre essa medida drástica do FBI para tentar anular um recurso de defesa de Hall que estava prestes a conseguir uma liberdade condicional por falta de provas que realmente ligasse o seu nome aos crimes, foi contada no livro "In with the Devil: A Fallen Hero, a Serial Killer, and a Dangerous Bargain for Redemption" em que o verdadeiro Keene escreveu ao lado de Hillel Levin, porém é na adaptação de Lehane que a trama ganha ares de mistério e tensão ao estabelecer elementos investigativos fora da prisão, por parte da dupla Brian Miller (Greg Kinnear) e Lauren McCauley (Sepideh Moafi), e um forte drama psicológico de dentro da prisão, graças aos embates bem estruturados entre Keene e Hall.
O problema, no entanto, é que Lehane escorrega ao colocar mais sub-tramas, ao melhor estilo "Oz", que não se sustentam - ou melhor, que não são tão bem exploradas quanto a linha narrativa principal. Os plots do protagonista com o policial corrupto e com o mafioso "dono do pedaço", são tão frágeis quanto as cenas que exploram a relação com seu pai Jim Keene (o saudoso e quase irreconhecível Ray Liotta). Veja, não que essas sub-tramas sejam ruins, elas só não são exploradas como deveriam (ou poderiam) se a minissérie tivesse mais dois episódios, por exemplo - existe uma simplicidade na construção do roteiro, que se permite um ou outro retrocesso temporal (alguns até poéticos como o visto no episódio 5) para desenvolver ou explicar algumas camadas dos personagens, mas que nunca se aprofundam.
A direção de Michäel R. Roskam, Jim McKay e Joe Chappelle também escorrega, mas não compromete (a cena da rebelião é ruim, o resto fica bem na média). Já as performances de Taron Egerton e principalmente de Paul Walter Hauser merecem elogios - Hauser, aliás, merece ser lembrado em premiações. Seu personagem fala manso, é cheio de tiques, aproveita bem o silêncio, mas ao mesmo tempo é macabro, violento no olhar, sádico no leve sorriso. Com isso, é muito fácil concluir que "Black Bird" é uma obra de dois excelentes atores disputando um jogo de persuasão e ironia, onde o texto e a direção encontram o seu ápice na simplicidade e na dinâmica dos episódios que parecem voar.
Vale seu play!
"Black Bird" é mais uma excelente minissérie de "true crime" que encontramos no streaming da Apple. Eu diria que ela não é excepcional como os títulos que estamos acostumados a encontrar na HBO, mas já é possível afirmar que a plataforma, essa sim, começa a despontar, ao lado do Star+, como uma ótima opção para quem gosta do gênero. Com seis episódios de uma hora e criação de Dennis Lehane, roteirista e romancista americano, autor de sucessos como "Sobre Meninos e Lobos" e "Ilha do Medo", além de produtor de "Outsider" (adaptação de Stephen King para HBO), "Black Bird" entrega o que promete ao mostrar a jornada real de transformação de James "Jimmy" Keene enquanto ajudava o FBI a evitar a soltura de Larry Hall, um forte suspeito de ser um serial killer.
O ano é 1996, quando o charmoso traficante e ex-astro de futebol do colegial Jimmy Keene (Taron Egerton) é sentenciado a 10 anos de prisão após uma operação do FBI, que além das drogas descobriu uma quantidade considerável de armas ilegais. Para se livrar da pena, Keene recebe uma proposta arriscada das autoridades: ele precisa ser transferido para uma prisão de segurança máxima, se aproximar de Larry Hall (Paul Walter Hauser), e assim conseguir uma confissão a fim de que o maníaco ligado ao desaparecimento de várias garotas, seja mantido preso, e os corpos das vítimas, encontrados. Confira o trailer:
A história sobre essa medida drástica do FBI para tentar anular um recurso de defesa de Hall que estava prestes a conseguir uma liberdade condicional por falta de provas que realmente ligasse o seu nome aos crimes, foi contada no livro "In with the Devil: A Fallen Hero, a Serial Killer, and a Dangerous Bargain for Redemption" em que o verdadeiro Keene escreveu ao lado de Hillel Levin, porém é na adaptação de Lehane que a trama ganha ares de mistério e tensão ao estabelecer elementos investigativos fora da prisão, por parte da dupla Brian Miller (Greg Kinnear) e Lauren McCauley (Sepideh Moafi), e um forte drama psicológico de dentro da prisão, graças aos embates bem estruturados entre Keene e Hall.
O problema, no entanto, é que Lehane escorrega ao colocar mais sub-tramas, ao melhor estilo "Oz", que não se sustentam - ou melhor, que não são tão bem exploradas quanto a linha narrativa principal. Os plots do protagonista com o policial corrupto e com o mafioso "dono do pedaço", são tão frágeis quanto as cenas que exploram a relação com seu pai Jim Keene (o saudoso e quase irreconhecível Ray Liotta). Veja, não que essas sub-tramas sejam ruins, elas só não são exploradas como deveriam (ou poderiam) se a minissérie tivesse mais dois episódios, por exemplo - existe uma simplicidade na construção do roteiro, que se permite um ou outro retrocesso temporal (alguns até poéticos como o visto no episódio 5) para desenvolver ou explicar algumas camadas dos personagens, mas que nunca se aprofundam.
A direção de Michäel R. Roskam, Jim McKay e Joe Chappelle também escorrega, mas não compromete (a cena da rebelião é ruim, o resto fica bem na média). Já as performances de Taron Egerton e principalmente de Paul Walter Hauser merecem elogios - Hauser, aliás, merece ser lembrado em premiações. Seu personagem fala manso, é cheio de tiques, aproveita bem o silêncio, mas ao mesmo tempo é macabro, violento no olhar, sádico no leve sorriso. Com isso, é muito fácil concluir que "Black Bird" é uma obra de dois excelentes atores disputando um jogo de persuasão e ironia, onde o texto e a direção encontram o seu ápice na simplicidade e na dinâmica dos episódios que parecem voar.
Vale seu play!
"Black Doves" é entretenimento puro - especialmente se você gostou de séries como "Killing Eve" e "Sr. & Sra. Smith". Essa produção britânica da Sister and Noisy Bear para a Netflix é um thriller dos mais envolventes que mistura espionagem, crime e drama, com um toque de humor negro, em uma trama intricada e repleta de tensão. Com uma narrativa centrada em personagens complexos e motivações, digamos, ambíguas, a série se destaca por explorar as linhas tênues entre a lealdade, o amor e a traição, oferecendo ao público uma experiência cativante e cheia de reviravoltas inseridas em um contexto politico de escala global. A verdade é que "Black Doves" acerta ao combinar uma atmosfera sombria com um desenvolvimento psicológico profundo, elevando o tom da espionagem para um território mais íntimo e emocional que faz toda diferença na nossa jornada.
A trama gira em torno de Helen Webb (Keira Knightley) uma espiã profundamente infiltrada no governo britânico que, após um trágico evento pessoal, se vê envolvida em uma conspiração que ameaça não apenas sua segurança, mas também a estabilidade de um sistema político e social em crise. Enquanto lida com as consequências de seu recente passado e com relacionamentos que desafiam sua lealdade, Helen é forçada a navegar em um mundo de intrigas onde confiar em alguém pode significar sua própria destruição. Confira o trailer (dublado):
Joe Barton, conhecido por "Encounter", traz para "Black Doves" sua assinatura narrativa de equilibrar ação e tensão com uma escrita ágil e repleta de nuances. O roteiro é carregado de diálogos incisivos e momentos de introspecção que mergulham profundamente nas motivações de personagens muito bem desenvolvidos, ao mesmo tempo em que mantém o ritmo acelerado e a tensão constante - aliás, esse é um ótimo exemplo de como os britânicos sabem fazer temporadas curtas que entregam tudo o que precisam entregar, no tempo disponível e fazendo de cada minuto um gatilho para construir personagens complexos que são os destaques da obra (e aqui eu preciso incluir o Sam Young de Ben Whishaw), Veja, a direção de Alex Gabassi (de "The Crown") e de Lisa Gunning (de "The Power") brinca com a dinâmica entre ação e mistério a partir de situações que fortalecem esse ar de paranoia e urgência como em "Sr. & Sra. Smith", no entanto, a impressão que fica é que tudo parece menos expositivo.
Knightley equilibra a vulnerabilidade de sua versão "mulher do lar" com a força de uma espiã altamente letal - sua atuação transmite tanto o peso de suas decisões pessoais quanto a determinação na busca por vingança e proteção para aqueles que ama. Repare como os cenários são cuidadosamente escolhidos para refletir a dualidade de Helen, de um vida "pacata" aos momentos de ação visceral quando o bicho pega para o seu lado - o foco da criação de Barton repousa sobre Helen e Sam, sozinhos ou juntos, com os dois formando uma dupla bem improvável, mas que é ao mesmo tempo irresistível, ou seja, as bem coreografadas, violentas e sanguinolentas sequências de ação existem, mas não são prioridade. A gênese da espionagem na série é essencialmente clássica, onde é a infiltração sorrateira que faz a diferença para uma agente adormecida há muitos e muitos anos e que vive uma vida que não é a dela!
Algumas escolhas narrativas de "Black Doves"podem parecer previsíveis para aqueles mais familiarizados com o gênero, e certos arcos secundários até carecem de desenvolvimento mais profundo, ainda assim, essas limitações não comprometem em nada a nossa experiência que é sustentada por uma escrita dinâmica e por performances envolventes. Como eu pontuei no inicio da análise, "Black Doves" é entretenimento, com uma história bem arquitetada que combina espionagem de alto risco com um drama humano capaz de prender a audiência do início ao fim!
Vale o seu play. Diversão garantida e rápida, já que a primeira temporada só tem seis episódios!
"Black Doves" é entretenimento puro - especialmente se você gostou de séries como "Killing Eve" e "Sr. & Sra. Smith". Essa produção britânica da Sister and Noisy Bear para a Netflix é um thriller dos mais envolventes que mistura espionagem, crime e drama, com um toque de humor negro, em uma trama intricada e repleta de tensão. Com uma narrativa centrada em personagens complexos e motivações, digamos, ambíguas, a série se destaca por explorar as linhas tênues entre a lealdade, o amor e a traição, oferecendo ao público uma experiência cativante e cheia de reviravoltas inseridas em um contexto politico de escala global. A verdade é que "Black Doves" acerta ao combinar uma atmosfera sombria com um desenvolvimento psicológico profundo, elevando o tom da espionagem para um território mais íntimo e emocional que faz toda diferença na nossa jornada.
A trama gira em torno de Helen Webb (Keira Knightley) uma espiã profundamente infiltrada no governo britânico que, após um trágico evento pessoal, se vê envolvida em uma conspiração que ameaça não apenas sua segurança, mas também a estabilidade de um sistema político e social em crise. Enquanto lida com as consequências de seu recente passado e com relacionamentos que desafiam sua lealdade, Helen é forçada a navegar em um mundo de intrigas onde confiar em alguém pode significar sua própria destruição. Confira o trailer (dublado):
Joe Barton, conhecido por "Encounter", traz para "Black Doves" sua assinatura narrativa de equilibrar ação e tensão com uma escrita ágil e repleta de nuances. O roteiro é carregado de diálogos incisivos e momentos de introspecção que mergulham profundamente nas motivações de personagens muito bem desenvolvidos, ao mesmo tempo em que mantém o ritmo acelerado e a tensão constante - aliás, esse é um ótimo exemplo de como os britânicos sabem fazer temporadas curtas que entregam tudo o que precisam entregar, no tempo disponível e fazendo de cada minuto um gatilho para construir personagens complexos que são os destaques da obra (e aqui eu preciso incluir o Sam Young de Ben Whishaw), Veja, a direção de Alex Gabassi (de "The Crown") e de Lisa Gunning (de "The Power") brinca com a dinâmica entre ação e mistério a partir de situações que fortalecem esse ar de paranoia e urgência como em "Sr. & Sra. Smith", no entanto, a impressão que fica é que tudo parece menos expositivo.
Knightley equilibra a vulnerabilidade de sua versão "mulher do lar" com a força de uma espiã altamente letal - sua atuação transmite tanto o peso de suas decisões pessoais quanto a determinação na busca por vingança e proteção para aqueles que ama. Repare como os cenários são cuidadosamente escolhidos para refletir a dualidade de Helen, de um vida "pacata" aos momentos de ação visceral quando o bicho pega para o seu lado - o foco da criação de Barton repousa sobre Helen e Sam, sozinhos ou juntos, com os dois formando uma dupla bem improvável, mas que é ao mesmo tempo irresistível, ou seja, as bem coreografadas, violentas e sanguinolentas sequências de ação existem, mas não são prioridade. A gênese da espionagem na série é essencialmente clássica, onde é a infiltração sorrateira que faz a diferença para uma agente adormecida há muitos e muitos anos e que vive uma vida que não é a dela!
Algumas escolhas narrativas de "Black Doves"podem parecer previsíveis para aqueles mais familiarizados com o gênero, e certos arcos secundários até carecem de desenvolvimento mais profundo, ainda assim, essas limitações não comprometem em nada a nossa experiência que é sustentada por uma escrita dinâmica e por performances envolventes. Como eu pontuei no inicio da análise, "Black Doves" é entretenimento, com uma história bem arquitetada que combina espionagem de alto risco com um drama humano capaz de prender a audiência do início ao fim!
Vale o seu play. Diversão garantida e rápida, já que a primeira temporada só tem seis episódios!