"Guga por Kuerten" está longe de ser a homenagem que o atleta merecia - mas nem por isso você deve deixar de assistir! Guga é um cara iluminado, carismático, especial; então acredite: mesmo que a minissérie documental do Disney+ se limite ao superficial, ainda assim ela é imperdível! Como não poderia deixar de ser, "Guga por Kuerten"acompanha a trajetória de Gustavo Kuerten, o maior tenista da história do país (ao lado de Maria Esther Bueno), pela perspectiva do próprio atleta, do seu treinador e de sua família. Dividida em 5 episódios, a minissérie não apenas celebra suas vitórias no esporte, mas também revela o ser humano incrível por trás do ídolo, explorando suas lutas pessoais e a relação com a família e amigos. Com um olhar íntimo, a produção oferece aos amantes de tênis um recorte da jornada de Guga, especialmente em Roland Garros, até chegar ao topo do tênis mundial!
A partir de entrevistas com o próprio Guga, com seu irmão Rafael e seu treinador Larri Passos, "Guga por Kuerten" nos leva de volta a momentos icônicos de sua carreira, como a vitória surpreendente em 1997,quando ele se tornou o primeiro brasileiro a vencer o prestigioso torneio de Roland Garros. Além de seus triunfos nas quadras de Paris, a minissérie examina as dificuldades enfrentadas pelo atleta, desde a perda do pai logo cedo até sua lesão no quadril que marcou sua carreira e que o levou para uma aposentadoria precoce. Confira o trailer:
É inegável que "Guga por Kuerten" faz um ótimo trabalho ao equilibrar o sucesso estrondoso do atleta com as dificuldades pessoais de um garoto que viu seu maior ídolo, o pai, partir logo cedo. O Guga ainda dava seus primeiros passos na carreira quando seu pai enfartou em uma quadra de tênis e é a partir desse gatilho que a narrativa torna o relato do atleta ainda mais inspirador e emocionante. Logo no primeiro episódio você vai se emocionar muito, então é praticamente impossível não se conectar com sua dor; o que me incomodou no entanto, foi a forma "desesperada" como a direção/roteiro tirou Guga desse momento marcante e o colocou em Roland Garros - veja, o corte é tão brusco que eu precisei voltar o episódio para entender que não se tratava de um erro do player. Obviamente que essa escolha conceitual fortalece temas mais universais como superação, resiliência e até discute os impactos das escolhas pessoais do atleta, e de sua família, de uma maneira que transcende o esporte, trazendo as lições de vida e os valores que ele carrega até hoje, mas a impressão que fica é que faltou ir além do óbvio.
Alternando entrevistas emocionantes e cenas de arquivo que capturam os grandes momentos da sua carreira pelo seu olhar, Guga oferece insights diretos sobre sua jornada dentro das quadras com muita honestidade. Sua sinceridade em relação às dificuldades, as pressões da fama e as lesões que o impediram de continuar no auge tornam o documentário não apenas uma homenagem, mas uma reflexão interessante sobre a realidade por trás das glórias do esporte. A minissérie também destaca a relação de Guga com sua família, especialmente com seu irmão Guilherme, que sofria de paralisia cerebral e foi uma das maiores motivações para o tenista. Esses momentos trazem para a tela o lado mais sensível e pessoal de Guga, mostrando a importância da família e de suas raízes em sua formação como ser humano - os relatos de sua mãe Alice são especiais nesse sentido.
Duas horas e trinta minutos é muito pouco para dar aos brasileiros aquilo que Guga representou. Não se pode colocar Federer, Nadal e Djokovic na frente de uma câmera e só tirar deles dois minutos de depoimento - o fato é que Guga merecia um "Man in the Arena" ou um "Arremesso Final" e não teve. "Guga por Kuerten", infelizmente, sofre pelo esforço descomunal da edição para use tornar dinâmico e acaba falhando na maneira como utiliza esse vasto material de arquivo disponível, por outro lado é preciso que se diga: mesmo na correria, a minissérie tem alma! "Guga por Kuerten" é um tributo emocionante a uma das figuras mais queridas do esporte brasileiro de todos os tempos. Um cara que nos fez acordar cedo aos domingos novamente, um atleta incrível, monstruoso, importante para toda uma geração e que soube equilibrar suas vitórias profissionais com suas batalhas pessoais com honestidade e valores.
"Guga por Kuerten" oferece um resumo do que foi Gustavo Kuerten, não apenas como o tricampeão de Roland Garros, mas como ser humano - e justamente por isso vai ficar aquele sentimento de "quero mais"!
"Guga por Kuerten" está longe de ser a homenagem que o atleta merecia - mas nem por isso você deve deixar de assistir! Guga é um cara iluminado, carismático, especial; então acredite: mesmo que a minissérie documental do Disney+ se limite ao superficial, ainda assim ela é imperdível! Como não poderia deixar de ser, "Guga por Kuerten"acompanha a trajetória de Gustavo Kuerten, o maior tenista da história do país (ao lado de Maria Esther Bueno), pela perspectiva do próprio atleta, do seu treinador e de sua família. Dividida em 5 episódios, a minissérie não apenas celebra suas vitórias no esporte, mas também revela o ser humano incrível por trás do ídolo, explorando suas lutas pessoais e a relação com a família e amigos. Com um olhar íntimo, a produção oferece aos amantes de tênis um recorte da jornada de Guga, especialmente em Roland Garros, até chegar ao topo do tênis mundial!
A partir de entrevistas com o próprio Guga, com seu irmão Rafael e seu treinador Larri Passos, "Guga por Kuerten" nos leva de volta a momentos icônicos de sua carreira, como a vitória surpreendente em 1997,quando ele se tornou o primeiro brasileiro a vencer o prestigioso torneio de Roland Garros. Além de seus triunfos nas quadras de Paris, a minissérie examina as dificuldades enfrentadas pelo atleta, desde a perda do pai logo cedo até sua lesão no quadril que marcou sua carreira e que o levou para uma aposentadoria precoce. Confira o trailer:
É inegável que "Guga por Kuerten" faz um ótimo trabalho ao equilibrar o sucesso estrondoso do atleta com as dificuldades pessoais de um garoto que viu seu maior ídolo, o pai, partir logo cedo. O Guga ainda dava seus primeiros passos na carreira quando seu pai enfartou em uma quadra de tênis e é a partir desse gatilho que a narrativa torna o relato do atleta ainda mais inspirador e emocionante. Logo no primeiro episódio você vai se emocionar muito, então é praticamente impossível não se conectar com sua dor; o que me incomodou no entanto, foi a forma "desesperada" como a direção/roteiro tirou Guga desse momento marcante e o colocou em Roland Garros - veja, o corte é tão brusco que eu precisei voltar o episódio para entender que não se tratava de um erro do player. Obviamente que essa escolha conceitual fortalece temas mais universais como superação, resiliência e até discute os impactos das escolhas pessoais do atleta, e de sua família, de uma maneira que transcende o esporte, trazendo as lições de vida e os valores que ele carrega até hoje, mas a impressão que fica é que faltou ir além do óbvio.
Alternando entrevistas emocionantes e cenas de arquivo que capturam os grandes momentos da sua carreira pelo seu olhar, Guga oferece insights diretos sobre sua jornada dentro das quadras com muita honestidade. Sua sinceridade em relação às dificuldades, as pressões da fama e as lesões que o impediram de continuar no auge tornam o documentário não apenas uma homenagem, mas uma reflexão interessante sobre a realidade por trás das glórias do esporte. A minissérie também destaca a relação de Guga com sua família, especialmente com seu irmão Guilherme, que sofria de paralisia cerebral e foi uma das maiores motivações para o tenista. Esses momentos trazem para a tela o lado mais sensível e pessoal de Guga, mostrando a importância da família e de suas raízes em sua formação como ser humano - os relatos de sua mãe Alice são especiais nesse sentido.
Duas horas e trinta minutos é muito pouco para dar aos brasileiros aquilo que Guga representou. Não se pode colocar Federer, Nadal e Djokovic na frente de uma câmera e só tirar deles dois minutos de depoimento - o fato é que Guga merecia um "Man in the Arena" ou um "Arremesso Final" e não teve. "Guga por Kuerten", infelizmente, sofre pelo esforço descomunal da edição para use tornar dinâmico e acaba falhando na maneira como utiliza esse vasto material de arquivo disponível, por outro lado é preciso que se diga: mesmo na correria, a minissérie tem alma! "Guga por Kuerten" é um tributo emocionante a uma das figuras mais queridas do esporte brasileiro de todos os tempos. Um cara que nos fez acordar cedo aos domingos novamente, um atleta incrível, monstruoso, importante para toda uma geração e que soube equilibrar suas vitórias profissionais com suas batalhas pessoais com honestidade e valores.
"Guga por Kuerten" oferece um resumo do que foi Gustavo Kuerten, não apenas como o tricampeão de Roland Garros, mas como ser humano - e justamente por isso vai ficar aquele sentimento de "quero mais"!
“Halston” é mais uma produção Original Netflix assinada por Ryan Murphy (“American Horror Story”, “O Povo contra O.J. Simpson”, “O Assassinato de Gianni Versace”), depois dos mais recentes lançamentos como “Hollywood”, “The Politician” e “Ratched”, além dos filmes “Baile de Formatura” e “The Boys in the Band”. Pois bem, a minissérie conta a história da ascensão e queda do lendário estilista que virou um ícone da moda nos anos 70, Roy Halston. Estrelada por Ewan McGregor, essa é uma minissérie que já vale o destaque entre os lançamentos da plataforma em 2021.
Baseado na biografia “Simply Halston: The Untold Story” de Steven Gaines, “Halston” reconstitui as famosas festas no Studio 54 e mostra, sem nenhum pudor, as farras com drogas e sexo do estilista. Ao longo dos 5 episódios, podemos acompanhar o seu processo criativo, além de ver suas peças mais icônicas tais como o chapéu “pillbox” de Jackie Kennedy, os macacões decotados e brilhantes de Liza Minelli (uma das melhores amigas do estilista) e os lindos figurinos dos balés da Martha Graham. Sua alta produtividade e versatilidade o levavam a criar até 10 coleções por ano, algo até hoje impensável. Sua ambição, segundo ele, era “vestir todas as pessoas da América”. Multifacetado, além de roupas, ele assinou uma linha luxuosa de cama e banho, óculos escuros, tapetes, sapatos, luvas e até o uniforme da polícia de Nova York. Confira o Trailer:
Roy Halston Frowick (1932-1990) foi o primeiro estilista americano a se tornar uma celebridade. Ewan McGregor está excelente no papel e encarnou com perfeição os maneirismos e até a forma peculiar com que Halston falava, tendo recebido elogios rasgados de Ryan Murphy por sua atuação. Todos os trejeitos e estilo de Halston faziam parte do seu branding pessoal. Ele intuitivamente sabia que tinha que se destacar como uma personalidade excêntrica da moda e se inventar como marca, a fim de se tornar um ícone do mundo fashion. A minissérie mostra bem como sua personalidade destemida ajudou a transformar seu nome numa marca tão famosa. Halston conseguia ser tão envolvente e persuasivo que montou o seu primeiro ateliê sem ainda ter os recursos (milionários) necessários, convencendo clientes a investir em sua marca. O que Halston queria, conseguia realizar.
Embora tenha sentido falta de alguns artistas famosos e intelectuais que faziam parte do círculo de Halston, entre eles Andy Warhol e Bianca Jagger, aparentemente a produção preferiu focar mais na genialidade do estilista e na evolução dos seus negócios desde o bem-sucedido licenciamento da marca Halston nos anos 70, fazendo com que a marca se expandisse além das roupas e acessórios até o seu famoso perfume, lançado em 1975, que vendeu 85 milhões de dólares em apenas dois anos.
Se você gosta de dramas biográficos, com aquele toque de empreendedorismo, “Halston” é sob medida para você. Seja pela grande atuação de Ewan McGregor, pela produção impecável ou apenas para conhecer a história desse grande ícone da moda!
Escrito por Ana Cristina Paixão
“Halston” é mais uma produção Original Netflix assinada por Ryan Murphy (“American Horror Story”, “O Povo contra O.J. Simpson”, “O Assassinato de Gianni Versace”), depois dos mais recentes lançamentos como “Hollywood”, “The Politician” e “Ratched”, além dos filmes “Baile de Formatura” e “The Boys in the Band”. Pois bem, a minissérie conta a história da ascensão e queda do lendário estilista que virou um ícone da moda nos anos 70, Roy Halston. Estrelada por Ewan McGregor, essa é uma minissérie que já vale o destaque entre os lançamentos da plataforma em 2021.
Baseado na biografia “Simply Halston: The Untold Story” de Steven Gaines, “Halston” reconstitui as famosas festas no Studio 54 e mostra, sem nenhum pudor, as farras com drogas e sexo do estilista. Ao longo dos 5 episódios, podemos acompanhar o seu processo criativo, além de ver suas peças mais icônicas tais como o chapéu “pillbox” de Jackie Kennedy, os macacões decotados e brilhantes de Liza Minelli (uma das melhores amigas do estilista) e os lindos figurinos dos balés da Martha Graham. Sua alta produtividade e versatilidade o levavam a criar até 10 coleções por ano, algo até hoje impensável. Sua ambição, segundo ele, era “vestir todas as pessoas da América”. Multifacetado, além de roupas, ele assinou uma linha luxuosa de cama e banho, óculos escuros, tapetes, sapatos, luvas e até o uniforme da polícia de Nova York. Confira o Trailer:
Roy Halston Frowick (1932-1990) foi o primeiro estilista americano a se tornar uma celebridade. Ewan McGregor está excelente no papel e encarnou com perfeição os maneirismos e até a forma peculiar com que Halston falava, tendo recebido elogios rasgados de Ryan Murphy por sua atuação. Todos os trejeitos e estilo de Halston faziam parte do seu branding pessoal. Ele intuitivamente sabia que tinha que se destacar como uma personalidade excêntrica da moda e se inventar como marca, a fim de se tornar um ícone do mundo fashion. A minissérie mostra bem como sua personalidade destemida ajudou a transformar seu nome numa marca tão famosa. Halston conseguia ser tão envolvente e persuasivo que montou o seu primeiro ateliê sem ainda ter os recursos (milionários) necessários, convencendo clientes a investir em sua marca. O que Halston queria, conseguia realizar.
Embora tenha sentido falta de alguns artistas famosos e intelectuais que faziam parte do círculo de Halston, entre eles Andy Warhol e Bianca Jagger, aparentemente a produção preferiu focar mais na genialidade do estilista e na evolução dos seus negócios desde o bem-sucedido licenciamento da marca Halston nos anos 70, fazendo com que a marca se expandisse além das roupas e acessórios até o seu famoso perfume, lançado em 1975, que vendeu 85 milhões de dólares em apenas dois anos.
Se você gosta de dramas biográficos, com aquele toque de empreendedorismo, “Halston” é sob medida para você. Seja pela grande atuação de Ewan McGregor, pela produção impecável ou apenas para conhecer a história desse grande ícone da moda!
Escrito por Ana Cristina Paixão
É impossível assistir "Hebe - A estrela do Brasil" e não imaginar qual seria seu discurso ou sua postura ao acompanhar tudo o que vem acontecendo no mundo atualmente. De fato, Hebe era uma comunicadora à frente do seu tempo e, realmente, sua história merecia ser contada; mas qual delas? O grande acerto do filme dirigido pelo Maurício Farias, foi entender que uma vida tão intensa como a que Hebe viveu, poderia ser facilmente comprimida em menos de duas horas de projeção desde que se encontrasse o recorte perfeito - e foi o que a aconteceu! O recorte escolhido foi capaz de mostrar toda sua personalidade, sua enorme capacidade profissional, suas convicções pessoais, sua relação com os amigos, filho, marido e companheiros de trabalho, mas acima de tudo, foi certeiro ao mostrar a forma como ela se comportava perante as mais diversas situações onde uma mulher precisava se impor para conquistar seu lugar!
O Brasil dos anos 80 vivia uma de suas piores crises econômicas e politicas da história. Era um período de transição, onde os limites ainda estavam sendo restabelecidos e a maneira como as celebridades da TV se mostravam influenciava ativamente sua enorme audiência. Eram outros tempos, onde apenas a TV consumia toda a atenção de milhões de pessoas durante a noite - o chamado horário nobre. É nesse contexto que Hebe surgia na tela: exuberante! Era a imagem perfeita do poder e do sucesso. Ao completar 40 anos de profissão, perto de chegar aos 60 de vida, Hebe estava madura e já não aceitava ser apenas um produto do seu sucesso. Mais do que isso, já não suportava mais ser uma mulher submissa ao marido, ao salário e ao governo. O filme acompanha justamente o período de abertura política do país, essa transição entre a ditadura militar e a democracia, período onde Hebe resolveu trocar de emissora e se colocar ativamente como a voz dos brasileiros!
O filme é inteligente ao mostrar com o equilíbrio perfeito, todo o brilho da sua vida pública e a escuridão da sua vida privada. Todo o preconceito que sofreu por defender as minorias, o machismo de um marido ciumento, a pressão dos seus superiores e, claro, a repressão de uma ditadura militar que se escondia nos gritos abafados de uma fraca democracia! Mesmo com algumas cenas sem o menor propósito narrativo (como todas que envolvem seu ex-marido) e algumas falas sem sentido algum para época (não existia a necessidade de se levantar uma bandeira como hoje, tudo partia apenas da livre expressão e não de um idealismo fabricado), o roteiro é bom e é refletido no dinamismo do filme. Arrisco dizer que, com vinte minutos a menos, "Hebe - A estrela do Brasil" seria a melhor cinebiografia produzida até o momento no Brasil. É preciso exaltar o trabalho de Andrea Beltrão como Hebe - ela está impecável! É um grande trabalho de atriz, com uma grande pesquisa corporal (cheio de detalhes per particulares) e sua capacidade de sentir as emoções são tão verdadeiras que nos emocionamos até com os momentos de alegria da personagem - o que é raro! Marco Ricca também, um monstro como Lélio, marido de Hebe - intenso, reflexivo, inseguro.
"Hebe - A estrela do Brasil" é um filme divertido e emocionante. Um retrato de uma época importante na nossa história, cheio de personagens inesquecíveis e com um toque nostálgico muito bacana. Entretenimento de primeira. Vale muito a pena!
É impossível assistir "Hebe - A estrela do Brasil" e não imaginar qual seria seu discurso ou sua postura ao acompanhar tudo o que vem acontecendo no mundo atualmente. De fato, Hebe era uma comunicadora à frente do seu tempo e, realmente, sua história merecia ser contada; mas qual delas? O grande acerto do filme dirigido pelo Maurício Farias, foi entender que uma vida tão intensa como a que Hebe viveu, poderia ser facilmente comprimida em menos de duas horas de projeção desde que se encontrasse o recorte perfeito - e foi o que a aconteceu! O recorte escolhido foi capaz de mostrar toda sua personalidade, sua enorme capacidade profissional, suas convicções pessoais, sua relação com os amigos, filho, marido e companheiros de trabalho, mas acima de tudo, foi certeiro ao mostrar a forma como ela se comportava perante as mais diversas situações onde uma mulher precisava se impor para conquistar seu lugar!
O Brasil dos anos 80 vivia uma de suas piores crises econômicas e politicas da história. Era um período de transição, onde os limites ainda estavam sendo restabelecidos e a maneira como as celebridades da TV se mostravam influenciava ativamente sua enorme audiência. Eram outros tempos, onde apenas a TV consumia toda a atenção de milhões de pessoas durante a noite - o chamado horário nobre. É nesse contexto que Hebe surgia na tela: exuberante! Era a imagem perfeita do poder e do sucesso. Ao completar 40 anos de profissão, perto de chegar aos 60 de vida, Hebe estava madura e já não aceitava ser apenas um produto do seu sucesso. Mais do que isso, já não suportava mais ser uma mulher submissa ao marido, ao salário e ao governo. O filme acompanha justamente o período de abertura política do país, essa transição entre a ditadura militar e a democracia, período onde Hebe resolveu trocar de emissora e se colocar ativamente como a voz dos brasileiros!
O filme é inteligente ao mostrar com o equilíbrio perfeito, todo o brilho da sua vida pública e a escuridão da sua vida privada. Todo o preconceito que sofreu por defender as minorias, o machismo de um marido ciumento, a pressão dos seus superiores e, claro, a repressão de uma ditadura militar que se escondia nos gritos abafados de uma fraca democracia! Mesmo com algumas cenas sem o menor propósito narrativo (como todas que envolvem seu ex-marido) e algumas falas sem sentido algum para época (não existia a necessidade de se levantar uma bandeira como hoje, tudo partia apenas da livre expressão e não de um idealismo fabricado), o roteiro é bom e é refletido no dinamismo do filme. Arrisco dizer que, com vinte minutos a menos, "Hebe - A estrela do Brasil" seria a melhor cinebiografia produzida até o momento no Brasil. É preciso exaltar o trabalho de Andrea Beltrão como Hebe - ela está impecável! É um grande trabalho de atriz, com uma grande pesquisa corporal (cheio de detalhes per particulares) e sua capacidade de sentir as emoções são tão verdadeiras que nos emocionamos até com os momentos de alegria da personagem - o que é raro! Marco Ricca também, um monstro como Lélio, marido de Hebe - intenso, reflexivo, inseguro.
"Hebe - A estrela do Brasil" é um filme divertido e emocionante. Um retrato de uma época importante na nossa história, cheio de personagens inesquecíveis e com um toque nostálgico muito bacana. Entretenimento de primeira. Vale muito a pena!
Só assistam esse documentário! É sério!
Primeiro porque você ficará com um sorriso no rosto em pelo menos uns 80% do filme e segundo por se tratar da história de um dos maiores fenômenos de um esporte em todos os tempos - eu diria inclusive que ele está no meu top 5 ao lado de Pelé, Jordan, Phelps e Brady. Dirigido pela dupla Ben e Gabe Turner, "I am Bolt" tem uma dinâmica narrativa extremamente fluida, ágil e interessante cinematograficamente, ou seja, é muito fácil mergulhar no universo de Bolt e se apaixonar ainda mais por um dos atletas mais carismáticos de uma geração.
Usain Bolt é, e será o homem mais veloz do mundo por muito tempo ainda. Ele é único atleta na história do atletismo a ser tricampeão em três modalidades de pista em Jogos Olímpicos consecutivamente. E a lista de vitórias na carreira não para por aí, mas a vida de Bolt não se resume a isto. Em "I am Bolt", o velocista jamaicano abre as portas para um universo que vai além das pistas, ele se apresenta como o Bolt amigo, filho, com muitos sonhos e desafios e, principalmente, como um ser humano que muitos acreditam nem ser possível existir. Confira o trailer (em inglês):
Talvez o maior mérito de "I am Bolt" seja a forma como o roteiro construiu a jornada do atleta. Aproveitando uma linha narrativa que prioriza o desafio que foi para ele chegar ao Rio em 2016 em condições de lutar por uma medalha de ouro, após uma temporada de muitas incertezas e contusões, o documentário traça paralelos com várias passagens muito marcantes da sua carreira, desde o inicio como campeão mundial juvenil até se transformar no fenômeno esportivo que simplesmente não deu chances aos adversários durante mais de 10 anos.
Embora o jornada esportiva seja o valor histórico relevante aqui, a maneira como Ben e Gabe permitiram que Bolt criasse sua própria visão cinematográfica sobre sua vida, gerou ótimos e descontraídos momentos que dificilmente um atleta se propõe a mostrar. Bolt, é honesto em 100% do tempo, mesmo quando o assunto é mais delicado e que exige dele uma maior exposição: ao comentar sobre a necessidade de uma auto-motivação para se manter competitivo e confidenciar que isso parecia não ser mais tão impotente no final de sua carreira, temos a exata noção do que foi preciso fazer para ele se tornar esse atleta tão raro. Essa humanização é um presente para quem é capaz de criar paralelos com outras profissões e extrair a essência do que é querer ser o melhor (e conseguir).
O documentário nos ajuda a ter uma visão mais ampla do que é ser Usain Bolt - quase sempre em primeira pessoa. Em pouco menos que 120 minutos, percebemos, com muita proximidade, a importância de como determinados aspectos da vida do jamaicano, desde a infância no colégio de Trelawny até seu vínculo com os pais e amigos, ou a relação com os companheiros de equipe, seu treinador, Glenn Mills, o melhor amigo e empresário, Nugent Walker, e o agente, Ricky Simms; ajudaram a moldar seu caráter como ser humano, o diferenciando como atleta talentoso que sempre foi. São pouco depoimentos formais, é verdade, dando um aspecto quase caseiro aos vídeos, mas é de se elogiar como um recorte documental tão extenso se transformou em uma obra simplesmente imperdível para quem gosta de esporte e de biografia de atletas fora do normal.
Vale muito a pena!
Só assistam esse documentário! É sério!
Primeiro porque você ficará com um sorriso no rosto em pelo menos uns 80% do filme e segundo por se tratar da história de um dos maiores fenômenos de um esporte em todos os tempos - eu diria inclusive que ele está no meu top 5 ao lado de Pelé, Jordan, Phelps e Brady. Dirigido pela dupla Ben e Gabe Turner, "I am Bolt" tem uma dinâmica narrativa extremamente fluida, ágil e interessante cinematograficamente, ou seja, é muito fácil mergulhar no universo de Bolt e se apaixonar ainda mais por um dos atletas mais carismáticos de uma geração.
Usain Bolt é, e será o homem mais veloz do mundo por muito tempo ainda. Ele é único atleta na história do atletismo a ser tricampeão em três modalidades de pista em Jogos Olímpicos consecutivamente. E a lista de vitórias na carreira não para por aí, mas a vida de Bolt não se resume a isto. Em "I am Bolt", o velocista jamaicano abre as portas para um universo que vai além das pistas, ele se apresenta como o Bolt amigo, filho, com muitos sonhos e desafios e, principalmente, como um ser humano que muitos acreditam nem ser possível existir. Confira o trailer (em inglês):
Talvez o maior mérito de "I am Bolt" seja a forma como o roteiro construiu a jornada do atleta. Aproveitando uma linha narrativa que prioriza o desafio que foi para ele chegar ao Rio em 2016 em condições de lutar por uma medalha de ouro, após uma temporada de muitas incertezas e contusões, o documentário traça paralelos com várias passagens muito marcantes da sua carreira, desde o inicio como campeão mundial juvenil até se transformar no fenômeno esportivo que simplesmente não deu chances aos adversários durante mais de 10 anos.
Embora o jornada esportiva seja o valor histórico relevante aqui, a maneira como Ben e Gabe permitiram que Bolt criasse sua própria visão cinematográfica sobre sua vida, gerou ótimos e descontraídos momentos que dificilmente um atleta se propõe a mostrar. Bolt, é honesto em 100% do tempo, mesmo quando o assunto é mais delicado e que exige dele uma maior exposição: ao comentar sobre a necessidade de uma auto-motivação para se manter competitivo e confidenciar que isso parecia não ser mais tão impotente no final de sua carreira, temos a exata noção do que foi preciso fazer para ele se tornar esse atleta tão raro. Essa humanização é um presente para quem é capaz de criar paralelos com outras profissões e extrair a essência do que é querer ser o melhor (e conseguir).
O documentário nos ajuda a ter uma visão mais ampla do que é ser Usain Bolt - quase sempre em primeira pessoa. Em pouco menos que 120 minutos, percebemos, com muita proximidade, a importância de como determinados aspectos da vida do jamaicano, desde a infância no colégio de Trelawny até seu vínculo com os pais e amigos, ou a relação com os companheiros de equipe, seu treinador, Glenn Mills, o melhor amigo e empresário, Nugent Walker, e o agente, Ricky Simms; ajudaram a moldar seu caráter como ser humano, o diferenciando como atleta talentoso que sempre foi. São pouco depoimentos formais, é verdade, dando um aspecto quase caseiro aos vídeos, mas é de se elogiar como um recorte documental tão extenso se transformou em uma obra simplesmente imperdível para quem gosta de esporte e de biografia de atletas fora do normal.
Vale muito a pena!
"I May Destroy You" é aquele típico fenômeno que não conseguimos explicar a razão pela qual ainda não está sendo aplaudida de pé por todo mundo, como rapidamente aconteceu com Chernobyl, por exemplo. A série é desconfortante, pesada, profunda e muito provocadora; mas em nenhum momento precisa agredir para alcançar o seu objetivo - ou melhor, talvez uma ou outra cena, para uma audiência mais conservadora, possa chocar pela naturalidade, mas nunca pela falta de propósito ao trazer inúmeros assuntos tão delicados (e importantes)!
Arabella Essiedu (Michaela Coel) é uma jovem escritora que foi descoberta no Twitter e que acaba de ser contratada por uma editora de vanguarda para escrever seu livro. Após passar uma breve temporada na Itália trabalhando na obra, Anabella retorna para Londres e acaba sofrendo um bloqueio criativo. Pressionada por um cronograma super apertado, ela decide sair para relaxar com os amigos e, uma hora depois, voltar para frente do seu laptop e finalizar o trabalho. Acontece que essa noite marca a vida de Anabella para sempre, já que ela acorda em sua casa e não se lembra exatamente o que aconteceu, apenas alguns flashes deixam a entender que ela foi drogada e abusada sexualmente! Confira o trailer:
De fato, você não vai encontrar uma série leve, mas pode ter a mais absoluta certeza que ela não vai te poupar de várias reflexões e, da maneira mais inteligente que um roteiro pode entregar, te colocar em uma posição de vulnerabilidade intelectual ao expôr o que o ser humano tem de bom e de ruim, sem ao menos ser capaz de definir a linha tênue que justifique essa diferença. A série fala sobre consentimento sexual e racismo, claro, mas ela vai muito além e graças a uma construção de personagem impecável é possível entender que nem tudo é tão racional ou fácil de se explicar. Posso dizer que através das inúmeras camadas que vamos conhecendo, tanto de Anabella quanto dos seus dois melhores amigos, Terry (Weruche Opia) e Kwame (Paapa Essiedu), é possível perceber que antes de tudo somos imperfeitos, mas que nem por isso seremos absolvidos de algumas atitudes ou posturas perante o outro! Olha, vale muito seu play, now!
"I may destroy you" é uma co-produção entre BBC e da HBO criada pela própria Michaela Coel. Coel é uma atriz versátil que fez muito sucesso como comediante, mas que também foi capaz de entregar personagens dramáticos com a mesma competência. Na série, ela traz para discussão várias releituras auto-biográficas o que, naturalmente, causam um incômodo ainda maior. Os episódios de 30 minutos são cirurgicamente precisos, embora a narrativa gire entorno do que realmente aconteceu na noite em que Anabella saiu com os amigos e que, possivelmente, foi abusada, outros elementos ajudam a construir uma história de personagens. Não por acaso existem quebras na linha do tempo, mas todas elas servem para encaixar uma ou outra peça desse enorme quebra-cabeça que forma a personalidade da protagonista. Ao discutir amizade, influência nas redes sociais, relacionamentos, masculinidade, machismo, feminismo, raça, gênero, carreira, arte e muito mais, usando sempre um tom bastante existencialista, "I may destroy you" se coloca em um patamar que poucas vezes encontramos em uma série - talvez seja uma espécie de amadurecimento (se é que é possível) de "Euphoria", também da HBO.
Muito bem dirigida por Sam Miller (Luther), mas com a própria Michaela Coel como co-diretora (em 9 dos 12 episódios da temporada), fica fácil perceber como o conceito visual é de uma elegância estética impressionante, mas que nunca alivia no conteúdo. Eu te convido a reparar no 9º episódio quando a psicóloga de Anabella desenha em um simples pedaço de papel, uma explicação extremamente profunda de como, nos dias de hoje, é difícil abraçar a nossa essência em relação a performance que somos obrigados a ter em um mundo de espetáculos como nas redes sociais. É incrível a delicadeza como essa cena foi dirigida e o impacto que ela nos causa - um excelente exemplo de como direção e roteiro estão 100% alinhados!
Embora a série tenha uma conclusão bastante satisfatória, fica claro que existe assunto para uma segunda temporada, porém nenhuma posição, tanto da HBO quanto da BBC, foi confirmada. Portanto, eu sugiro que você aproveite muito, cada um dos episódios de "I may destroy you", pois a série é de fato imperdível - com uma trilha sonora sensacional e performances incríveis de todo elenco. Eu sou capaz de apostar que ela vem muito forte na temporada de premiações de 2021.
Tudo é bom, mas nada do que vemos ali é fácil! Vale muito a pena! Mesmo!
"I May Destroy You" é aquele típico fenômeno que não conseguimos explicar a razão pela qual ainda não está sendo aplaudida de pé por todo mundo, como rapidamente aconteceu com Chernobyl, por exemplo. A série é desconfortante, pesada, profunda e muito provocadora; mas em nenhum momento precisa agredir para alcançar o seu objetivo - ou melhor, talvez uma ou outra cena, para uma audiência mais conservadora, possa chocar pela naturalidade, mas nunca pela falta de propósito ao trazer inúmeros assuntos tão delicados (e importantes)!
Arabella Essiedu (Michaela Coel) é uma jovem escritora que foi descoberta no Twitter e que acaba de ser contratada por uma editora de vanguarda para escrever seu livro. Após passar uma breve temporada na Itália trabalhando na obra, Anabella retorna para Londres e acaba sofrendo um bloqueio criativo. Pressionada por um cronograma super apertado, ela decide sair para relaxar com os amigos e, uma hora depois, voltar para frente do seu laptop e finalizar o trabalho. Acontece que essa noite marca a vida de Anabella para sempre, já que ela acorda em sua casa e não se lembra exatamente o que aconteceu, apenas alguns flashes deixam a entender que ela foi drogada e abusada sexualmente! Confira o trailer:
De fato, você não vai encontrar uma série leve, mas pode ter a mais absoluta certeza que ela não vai te poupar de várias reflexões e, da maneira mais inteligente que um roteiro pode entregar, te colocar em uma posição de vulnerabilidade intelectual ao expôr o que o ser humano tem de bom e de ruim, sem ao menos ser capaz de definir a linha tênue que justifique essa diferença. A série fala sobre consentimento sexual e racismo, claro, mas ela vai muito além e graças a uma construção de personagem impecável é possível entender que nem tudo é tão racional ou fácil de se explicar. Posso dizer que através das inúmeras camadas que vamos conhecendo, tanto de Anabella quanto dos seus dois melhores amigos, Terry (Weruche Opia) e Kwame (Paapa Essiedu), é possível perceber que antes de tudo somos imperfeitos, mas que nem por isso seremos absolvidos de algumas atitudes ou posturas perante o outro! Olha, vale muito seu play, now!
"I may destroy you" é uma co-produção entre BBC e da HBO criada pela própria Michaela Coel. Coel é uma atriz versátil que fez muito sucesso como comediante, mas que também foi capaz de entregar personagens dramáticos com a mesma competência. Na série, ela traz para discussão várias releituras auto-biográficas o que, naturalmente, causam um incômodo ainda maior. Os episódios de 30 minutos são cirurgicamente precisos, embora a narrativa gire entorno do que realmente aconteceu na noite em que Anabella saiu com os amigos e que, possivelmente, foi abusada, outros elementos ajudam a construir uma história de personagens. Não por acaso existem quebras na linha do tempo, mas todas elas servem para encaixar uma ou outra peça desse enorme quebra-cabeça que forma a personalidade da protagonista. Ao discutir amizade, influência nas redes sociais, relacionamentos, masculinidade, machismo, feminismo, raça, gênero, carreira, arte e muito mais, usando sempre um tom bastante existencialista, "I may destroy you" se coloca em um patamar que poucas vezes encontramos em uma série - talvez seja uma espécie de amadurecimento (se é que é possível) de "Euphoria", também da HBO.
Muito bem dirigida por Sam Miller (Luther), mas com a própria Michaela Coel como co-diretora (em 9 dos 12 episódios da temporada), fica fácil perceber como o conceito visual é de uma elegância estética impressionante, mas que nunca alivia no conteúdo. Eu te convido a reparar no 9º episódio quando a psicóloga de Anabella desenha em um simples pedaço de papel, uma explicação extremamente profunda de como, nos dias de hoje, é difícil abraçar a nossa essência em relação a performance que somos obrigados a ter em um mundo de espetáculos como nas redes sociais. É incrível a delicadeza como essa cena foi dirigida e o impacto que ela nos causa - um excelente exemplo de como direção e roteiro estão 100% alinhados!
Embora a série tenha uma conclusão bastante satisfatória, fica claro que existe assunto para uma segunda temporada, porém nenhuma posição, tanto da HBO quanto da BBC, foi confirmada. Portanto, eu sugiro que você aproveite muito, cada um dos episódios de "I may destroy you", pois a série é de fato imperdível - com uma trilha sonora sensacional e performances incríveis de todo elenco. Eu sou capaz de apostar que ela vem muito forte na temporada de premiações de 2021.
Tudo é bom, mas nada do que vemos ali é fácil! Vale muito a pena! Mesmo!
Essa era uma história que merecia ser contada - uma pena que foi contada com tanta pressa! "I Wanna Dance with Somebody" é sim um filme muito envolvente por sua trilha sonora (os fãs da cantora vão amar), mas que ao mesmo tempo é muito prejudicado pela escolha criativa do roteirista Anthony McCarten (o mesmo de "Bohemian Rhapsody" - e isso explica muita coisa) em cobrir toda a vida de Whitney Houston em pouco menos de duas horas e meia. Essa escolha faz do filme um produto ruim? Longe disso, mas a sensação de superficialidade em algumas passagens importantes (como o abuso de drogas e álcool ou a derrocada financeira da cantora) pode incomodar os mais exigentes.
O filme é um retrato da complexa e multifacetada mulher por trás de uma voz única. Da garota do coral de Nova Jersey à uma das mais recordistas e premiadas artistas de todos tempos, o público vai ser levado em uma jornada emocionante pela vida e pela carreira de Whitney Houston (Naomi Ackie), com performances arrebatadoras e uma trilha composta pelos hits mais amados da diva. Confira o trailer:
O grande nome de "I Wanna Dance with Somebody" é a atriz Naomi Ackie (de "Small Axe") - sua capacidade de ir se transformando ao longo da linha temporal apressada da história, é impressionante! Além de um trabalho vocal digno de Oscar e uma interpretação com muita alma, Ackie tem uma imposição corporal que pontua perfeitamente cada uma das fases de sua personagem - com pouquíssima maquiagem, essa jornada de construção de um ícone é tão impecável que mesmo fisicamente pouco parecida com a cantora, a atriz entrega muita verdade. Reparem como sua voz, seu sorriso e seu brilho vão se perdendo propositalmente ao longo do filme (lembram de "Judy"?).
Outro nome que merece destaque, sem dúvida, é Stanley Tucci como o produtor e amigo de Whitney, Clive Davis - ele dá uma aula de interpretação, tanto que uma das cenas mais belas do filme é quando ele pede para que a cantora procure uma clinica de reabilitação. Embora muito sensível, essa cena é um sopro de profundidade no meio de tanta superficialidade - a diretora Kasi Lemmons, que chamou atenção pelo seu "A Vida e a História de Madam C.J. Walker", até tenta, mas acaba escolhendo "mais do mesmo" para contar uma história que já cansamos de assistir em seu "conteúdo", com uma gramática cinematográfica limitada e pouco criativa em sua "forma". Aqui cabe um comentário, mais uma vez remetendo ao que "Bohemian Rhapsody" tinha de melhor: se não é possível entregar um grande filme; o filme, no mínimo, precisa ser grandioso - Singer conseguiu, Lemmons vacilou um pouco.
Bem realizado tecnicamente e emocionante em vários momentos, quase sempre quando Whitney solta sua voz, "I Wanna Dance with Somebody", na verdade, é um imperdível resumão nostálgico da vida de uma das maiores cantoras de todos os tempos (para muitos a maior) e só!
PS: o documentário "Whitney: Can I be me" pode ser um bom complemento de uma realidade que você vai assistir aqui na ficção.
Essa era uma história que merecia ser contada - uma pena que foi contada com tanta pressa! "I Wanna Dance with Somebody" é sim um filme muito envolvente por sua trilha sonora (os fãs da cantora vão amar), mas que ao mesmo tempo é muito prejudicado pela escolha criativa do roteirista Anthony McCarten (o mesmo de "Bohemian Rhapsody" - e isso explica muita coisa) em cobrir toda a vida de Whitney Houston em pouco menos de duas horas e meia. Essa escolha faz do filme um produto ruim? Longe disso, mas a sensação de superficialidade em algumas passagens importantes (como o abuso de drogas e álcool ou a derrocada financeira da cantora) pode incomodar os mais exigentes.
O filme é um retrato da complexa e multifacetada mulher por trás de uma voz única. Da garota do coral de Nova Jersey à uma das mais recordistas e premiadas artistas de todos tempos, o público vai ser levado em uma jornada emocionante pela vida e pela carreira de Whitney Houston (Naomi Ackie), com performances arrebatadoras e uma trilha composta pelos hits mais amados da diva. Confira o trailer:
O grande nome de "I Wanna Dance with Somebody" é a atriz Naomi Ackie (de "Small Axe") - sua capacidade de ir se transformando ao longo da linha temporal apressada da história, é impressionante! Além de um trabalho vocal digno de Oscar e uma interpretação com muita alma, Ackie tem uma imposição corporal que pontua perfeitamente cada uma das fases de sua personagem - com pouquíssima maquiagem, essa jornada de construção de um ícone é tão impecável que mesmo fisicamente pouco parecida com a cantora, a atriz entrega muita verdade. Reparem como sua voz, seu sorriso e seu brilho vão se perdendo propositalmente ao longo do filme (lembram de "Judy"?).
Outro nome que merece destaque, sem dúvida, é Stanley Tucci como o produtor e amigo de Whitney, Clive Davis - ele dá uma aula de interpretação, tanto que uma das cenas mais belas do filme é quando ele pede para que a cantora procure uma clinica de reabilitação. Embora muito sensível, essa cena é um sopro de profundidade no meio de tanta superficialidade - a diretora Kasi Lemmons, que chamou atenção pelo seu "A Vida e a História de Madam C.J. Walker", até tenta, mas acaba escolhendo "mais do mesmo" para contar uma história que já cansamos de assistir em seu "conteúdo", com uma gramática cinematográfica limitada e pouco criativa em sua "forma". Aqui cabe um comentário, mais uma vez remetendo ao que "Bohemian Rhapsody" tinha de melhor: se não é possível entregar um grande filme; o filme, no mínimo, precisa ser grandioso - Singer conseguiu, Lemmons vacilou um pouco.
Bem realizado tecnicamente e emocionante em vários momentos, quase sempre quando Whitney solta sua voz, "I Wanna Dance with Somebody", na verdade, é um imperdível resumão nostálgico da vida de uma das maiores cantoras de todos os tempos (para muitos a maior) e só!
PS: o documentário "Whitney: Can I be me" pode ser um bom complemento de uma realidade que você vai assistir aqui na ficção.
Você certamente já ouviu falar de Warren Buffett - grande investidor (e filantropo) americano. Mas provavelmente o nome "Carl Icahn" ainda soe pouco familiar. Embora ambos sejam investidores de peso (e multi-bilionários) o modus operandi de cada um é bem particular e talvez esteja aí o grande valor do documentário da HBO, "Icahn: O Bilionário Incansável" - apresentar de uma forma simples e direta mais uma estratégia de investimento que ajudou a construir um mito - sim, Carl Icahn é um mito e você vai entender a razão nesse filme de um pouco mais de 90 minutos.
Como a própria sinopse oficial descreve, "Icahn: The Restless Billionaire" (no original) fornece acesso sem precedentes à visão do provocativo e franco financista bilionário, Carl Icahn, explorando as fascinantes contradições de um incansável investidor que acumulou cerca de US$ 20 bilhões ao longo do último meio século e que está na vanguarda de alguns dos negócios mais lendários de nossos tempos, como Apple, Netflix, entre outros. Confira o trailer (em inglês):
A trajetória de Icahn se confunde com a história do capitalismo americano e isso por si só já é um dos grandes motivos para você que gosta do assunto assistir esse documentário dirigido (e escrito) pelo Bruce David Klein. O diretor explora com maestria toda essa jornada, desde sua entrada no mercado financeiro (em 1961), passando por sua participação na aquisição hostil da TWA até criar a gestora de investimentos Icahn Enterprises onde Icahn ganhou fama e força no mercado na década de 90 graças ao seu estilo, digamos, pouco amistoso com os CEOs das empresas em que investia.
Icahn sempre foi um personagem interessante, vindo de uma família judia e de poucos recursos, ele entendeu que poderia ganhar muito dinheiro graças a sua enorme capacidade de aprendizado - do pôquer ao seu estilo de investir em empresas em queda na bolsa. É claro que sua personalidade impositiva (para ser educado) resultou em uma longa lista de disputas e animosidades - um dos casos mais marcantes de sua carreira foi uma discussão na TV, ao vivo, com o também investidor Bill Ackman, sobre a Herbalife - Ackman que recentemente comprou 1,1 bilhão de dólares de ações da Netflix (empresa que Icahn é o maior acionista).
O único assunto que na minha opinião faltou no documentário diz respeito a breve trajetória de Icahn na política. Também cercada de polêmicas e desentendimentos, seu posicionamento ganhou destaque mundial na eleição de 2016, época em que ele fez parte da chapa do presidente eleito Donald Trump.
O fato é que "Icahn: O Bilionário Incansável" é um retrato importante do desenvolvimento econômico dos EUA, pelos olhos de Wall Street. Sem abrir mão de explorar os fracassos do protagonista e de seu relacionamento com a esposa Gail, o documentário traz ótimos depoimentos (como de Bill Gates e de Andrew Ross Sorkin, roteirista de "Grande Demais para Quebrar" e "Billions"), imagens de arquivo (inclusive pessoais) e, claro, a presença do próprio Carl Icahn que analisa em retrospectiva passagens importantes da sua carreira de sucesso.
Vale muito a pena!
Você certamente já ouviu falar de Warren Buffett - grande investidor (e filantropo) americano. Mas provavelmente o nome "Carl Icahn" ainda soe pouco familiar. Embora ambos sejam investidores de peso (e multi-bilionários) o modus operandi de cada um é bem particular e talvez esteja aí o grande valor do documentário da HBO, "Icahn: O Bilionário Incansável" - apresentar de uma forma simples e direta mais uma estratégia de investimento que ajudou a construir um mito - sim, Carl Icahn é um mito e você vai entender a razão nesse filme de um pouco mais de 90 minutos.
Como a própria sinopse oficial descreve, "Icahn: The Restless Billionaire" (no original) fornece acesso sem precedentes à visão do provocativo e franco financista bilionário, Carl Icahn, explorando as fascinantes contradições de um incansável investidor que acumulou cerca de US$ 20 bilhões ao longo do último meio século e que está na vanguarda de alguns dos negócios mais lendários de nossos tempos, como Apple, Netflix, entre outros. Confira o trailer (em inglês):
A trajetória de Icahn se confunde com a história do capitalismo americano e isso por si só já é um dos grandes motivos para você que gosta do assunto assistir esse documentário dirigido (e escrito) pelo Bruce David Klein. O diretor explora com maestria toda essa jornada, desde sua entrada no mercado financeiro (em 1961), passando por sua participação na aquisição hostil da TWA até criar a gestora de investimentos Icahn Enterprises onde Icahn ganhou fama e força no mercado na década de 90 graças ao seu estilo, digamos, pouco amistoso com os CEOs das empresas em que investia.
Icahn sempre foi um personagem interessante, vindo de uma família judia e de poucos recursos, ele entendeu que poderia ganhar muito dinheiro graças a sua enorme capacidade de aprendizado - do pôquer ao seu estilo de investir em empresas em queda na bolsa. É claro que sua personalidade impositiva (para ser educado) resultou em uma longa lista de disputas e animosidades - um dos casos mais marcantes de sua carreira foi uma discussão na TV, ao vivo, com o também investidor Bill Ackman, sobre a Herbalife - Ackman que recentemente comprou 1,1 bilhão de dólares de ações da Netflix (empresa que Icahn é o maior acionista).
O único assunto que na minha opinião faltou no documentário diz respeito a breve trajetória de Icahn na política. Também cercada de polêmicas e desentendimentos, seu posicionamento ganhou destaque mundial na eleição de 2016, época em que ele fez parte da chapa do presidente eleito Donald Trump.
O fato é que "Icahn: O Bilionário Incansável" é um retrato importante do desenvolvimento econômico dos EUA, pelos olhos de Wall Street. Sem abrir mão de explorar os fracassos do protagonista e de seu relacionamento com a esposa Gail, o documentário traz ótimos depoimentos (como de Bill Gates e de Andrew Ross Sorkin, roteirista de "Grande Demais para Quebrar" e "Billions"), imagens de arquivo (inclusive pessoais) e, claro, a presença do próprio Carl Icahn que analisa em retrospectiva passagens importantes da sua carreira de sucesso.
Vale muito a pena!
"Industry", co-produção da BBC com a HBO, está mais para "Billions" do que para "Succession", no entanto, e é preciso que se diga, essa característica menos "premium" acaba não exigindo muito da audiência, deixando a experiência muito mais próxima do entretenimento despretensioso do que se a narrativa fosse construída em cima de camadas mais profundas e com personagens mais complexos. O que eu quero dizer, é que a série criada pela Lena Dunham (de "Girls") é daquelas que vamos acompanhando sem a necessidade de maratonar ou ficar revisitando outros episódios para entender a trama como um todo - "Industry" é divertida por ser ágil e envolvente, mesmo dentro de sua superficialidade (lembram dos bons tempos de "How To Get Away With Murder" ou de "Suits"?).
Aqui somos apresentados a uma perspectiva única do competitivo setor financeiro de Londres. A trama acompanha um grupo de jovens recém-formados em busca de sucesso, dinheiro e reconhecimento em um prestigioso banco de investimentos, o Pierpoint. "Industry" mergulha no submundo corporativo, expondo os desafios enfrentados por esses jovens profissionais enquanto lidam com ambição, rivalidade e dilemas éticos do dia a dia. Confira o trailer:
Citar "How To Get Away With Murder" não foi por acaso, pois "Industry" é basicamente construída em cima de quatro personagens-chave, na faixa dos vinte e poucos anos, que estão buscando se estabelecer profissionalmente custe o que custar - como dito no próprio roteiro: "fazer parte dos 3% no topo da pirâmide, enquanto são temidos por todos". É nesse contexto que passamos a entender, mais ou menos no quarto episódio (não desista antes disso), como o texto deseja trabalhar a riqueza de seus personagens, mesmo que apoiado em alguns estereótipos. Cada um dos protagonistas representam uma classe muito bem definida - seja socialmente, politicamente e até na orientação sexual. Obviamente que essas características geram motivações pessoais mais complexas devido ao ambiente onde a história acontece e é justamente por isso que os dilemas profissionais passam a nos impactar, deixando a narrativa ainda mais divertida.
A série apresenta uma diversidade muito bem-vinda como conflito narrativo, abordando questões relevantes sobre inclusão e representatividade no ambiente corporativo, sem ser didática demais. A atmosfera do Pierpoint se propõe a ser "uma recriação mais realista possível" do mercado financeiro de Londres - e para quem gosta desse universo, fica fácil se conectar. Eu diria até que é como se estivéssemos assistindo uma série baseada no filme "O Clube dos Meninos Bilionários". Com o play você passa a mergulhar em uma cultura corporativa tóxica, destacando a pressão implacável e o ritmo frenético que define esse universo, além de oferecer um olhar atento sobre as relações no ambiente de trabalho, demonstrando como as ambições individuais podem se chocar em um canário tão competitivo.
"Industry" é entretenimento puro. Uma série que cativa mais pelos temas contemporâneos e pela atmosfera imersiva, do que pela profundidade de sua trama ou de seus personagens. Mesmo que inicialmente os assuntos e as relações soem desconexos, tudo vai se ajustando durante a primeira temporada e a entrega passa a ser bem satisfatória, para não dizer viciante! Tem muito sexo, drogas, abusos psicológicos, traições; mas sempre com aquela ideia mais fantasiosa de que se trata de uma ficção e não de um recorte especifico da vida real, certo?
Vale seu play!
"Industry", co-produção da BBC com a HBO, está mais para "Billions" do que para "Succession", no entanto, e é preciso que se diga, essa característica menos "premium" acaba não exigindo muito da audiência, deixando a experiência muito mais próxima do entretenimento despretensioso do que se a narrativa fosse construída em cima de camadas mais profundas e com personagens mais complexos. O que eu quero dizer, é que a série criada pela Lena Dunham (de "Girls") é daquelas que vamos acompanhando sem a necessidade de maratonar ou ficar revisitando outros episódios para entender a trama como um todo - "Industry" é divertida por ser ágil e envolvente, mesmo dentro de sua superficialidade (lembram dos bons tempos de "How To Get Away With Murder" ou de "Suits"?).
Aqui somos apresentados a uma perspectiva única do competitivo setor financeiro de Londres. A trama acompanha um grupo de jovens recém-formados em busca de sucesso, dinheiro e reconhecimento em um prestigioso banco de investimentos, o Pierpoint. "Industry" mergulha no submundo corporativo, expondo os desafios enfrentados por esses jovens profissionais enquanto lidam com ambição, rivalidade e dilemas éticos do dia a dia. Confira o trailer:
Citar "How To Get Away With Murder" não foi por acaso, pois "Industry" é basicamente construída em cima de quatro personagens-chave, na faixa dos vinte e poucos anos, que estão buscando se estabelecer profissionalmente custe o que custar - como dito no próprio roteiro: "fazer parte dos 3% no topo da pirâmide, enquanto são temidos por todos". É nesse contexto que passamos a entender, mais ou menos no quarto episódio (não desista antes disso), como o texto deseja trabalhar a riqueza de seus personagens, mesmo que apoiado em alguns estereótipos. Cada um dos protagonistas representam uma classe muito bem definida - seja socialmente, politicamente e até na orientação sexual. Obviamente que essas características geram motivações pessoais mais complexas devido ao ambiente onde a história acontece e é justamente por isso que os dilemas profissionais passam a nos impactar, deixando a narrativa ainda mais divertida.
A série apresenta uma diversidade muito bem-vinda como conflito narrativo, abordando questões relevantes sobre inclusão e representatividade no ambiente corporativo, sem ser didática demais. A atmosfera do Pierpoint se propõe a ser "uma recriação mais realista possível" do mercado financeiro de Londres - e para quem gosta desse universo, fica fácil se conectar. Eu diria até que é como se estivéssemos assistindo uma série baseada no filme "O Clube dos Meninos Bilionários". Com o play você passa a mergulhar em uma cultura corporativa tóxica, destacando a pressão implacável e o ritmo frenético que define esse universo, além de oferecer um olhar atento sobre as relações no ambiente de trabalho, demonstrando como as ambições individuais podem se chocar em um canário tão competitivo.
"Industry" é entretenimento puro. Uma série que cativa mais pelos temas contemporâneos e pela atmosfera imersiva, do que pela profundidade de sua trama ou de seus personagens. Mesmo que inicialmente os assuntos e as relações soem desconexos, tudo vai se ajustando durante a primeira temporada e a entrega passa a ser bem satisfatória, para não dizer viciante! Tem muito sexo, drogas, abusos psicológicos, traições; mas sempre com aquela ideia mais fantasiosa de que se trata de uma ficção e não de um recorte especifico da vida real, certo?
Vale seu play!
Apenas um público muito especifico vai se conectar com a minissérie "Irma Vep" - não porquê ela seja ruim, muito pelo contrário, ela é muito boa (com alguns críticos dizendo que ela é uma das melhores do ano, inclusive), mas também é inegável que seu conceito estético e narrativo tende a dificultar o entendimento e impacta diretamente nessa experiência metaliguística que discute os bastidores do cinema e como essa atmosfera interfere nas relações humanas. Eu diria que "Irma Vep" é uma mistura de "Um Lugar Qualquer" da Sofia Coppola com a versão da HBO de "Cenas de um Casamento"de Ingmar Bergman.
Em 8 episódiosacompanhamos Mira (Alicia Vikander), uma atriz norte-americana desiludida com os caminhos que sua vida amorosa e carreira tomaram. Quando surge uma oportunidade de ser a protagonista em uma minissérie para uma plataforma de streaming, ela viaja até a França para participar do remake do clássico "Les Vampires". Conforme vai se aprofundando no trabalho, Mira começa a notar comportamentos estranhos que não tinha antes e teme estar se tornando mais próxima de sua personagem do que gostaria. Confira o trailer:
Essa minissérie da A24 talvez seja a mais autoral e que mais tenha carregado naquele toque conceitual do cinema independente europeu que a HBO já produziu. Se inicialmente a trama parece separar perfeitamente o "real" da "fantasia", com o passar dos episódios essa distinção vai desaparecendo, criando uma linha narrativa cheia de camadas e que explora as diversas nuances de personagens que precisam lidar com seus fantasmas a cada novo desafio - profissional e pessoal.
Sim, "Irma Vep" é uma análise crítica sobre a indústria cinematográfica (e de seus atores, atrás e na frente das câmeras), porém são nas "entrelinhas" mais íntimas e fantasiosas que a história se aproveita da subjetividade para ganhar um certo charme. O diretor francês Oliver Assayas (de "Wasp - Rede de Espiões") repete a fórmula de seu premiado "Acima das Nuvens" para fazer um recorte quase auto-biográfico de quando dirigiu o homônimo clássico cult de 1996. Assayas usa dos personagens René (Vincent Macaigne) e Mira (Alicia Vikander) como porta-vozes de suas ideias e de sua visão de mundo - ambos cutucam o movimento "blockbuster" com a mesma elegância que criticam o mindset muitas vezes egocêntrico do cinema de arte europeu.
Mesmo com uma edição completamente fragmentada, o simbolismo e a busca por referências nunca se desalinham - quando falamos da "forma", visualmente, é muito claro quando ficção invade a realidade e quando o passado impacta o presente, porém é no "conteúdo", com diálogos muito bem desenvolvidos, que até os personagens mais estereotipados (como ao excêntrico ator alemão Gottfried de Lars Eidinger) ganham humanidade. Talvez essa quebra de expectativas perante uma história propositalmente "sem pé nem cabeça" e que pouco respeita a linha temporal, afaste a "audiência HBO", mas é impossível não elogiar a criatividade de Assayas e como ele criou uma dinâmica que sabe exatamente "onde" e "quem" provocar.
Olha, vale muito a pena, mas é preciso estar disposto a mergulhar em uma proposta pouco usual e que vai exigir uma reflexão que vai muito além do que assistimos na tela.
Apenas um público muito especifico vai se conectar com a minissérie "Irma Vep" - não porquê ela seja ruim, muito pelo contrário, ela é muito boa (com alguns críticos dizendo que ela é uma das melhores do ano, inclusive), mas também é inegável que seu conceito estético e narrativo tende a dificultar o entendimento e impacta diretamente nessa experiência metaliguística que discute os bastidores do cinema e como essa atmosfera interfere nas relações humanas. Eu diria que "Irma Vep" é uma mistura de "Um Lugar Qualquer" da Sofia Coppola com a versão da HBO de "Cenas de um Casamento"de Ingmar Bergman.
Em 8 episódiosacompanhamos Mira (Alicia Vikander), uma atriz norte-americana desiludida com os caminhos que sua vida amorosa e carreira tomaram. Quando surge uma oportunidade de ser a protagonista em uma minissérie para uma plataforma de streaming, ela viaja até a França para participar do remake do clássico "Les Vampires". Conforme vai se aprofundando no trabalho, Mira começa a notar comportamentos estranhos que não tinha antes e teme estar se tornando mais próxima de sua personagem do que gostaria. Confira o trailer:
Essa minissérie da A24 talvez seja a mais autoral e que mais tenha carregado naquele toque conceitual do cinema independente europeu que a HBO já produziu. Se inicialmente a trama parece separar perfeitamente o "real" da "fantasia", com o passar dos episódios essa distinção vai desaparecendo, criando uma linha narrativa cheia de camadas e que explora as diversas nuances de personagens que precisam lidar com seus fantasmas a cada novo desafio - profissional e pessoal.
Sim, "Irma Vep" é uma análise crítica sobre a indústria cinematográfica (e de seus atores, atrás e na frente das câmeras), porém são nas "entrelinhas" mais íntimas e fantasiosas que a história se aproveita da subjetividade para ganhar um certo charme. O diretor francês Oliver Assayas (de "Wasp - Rede de Espiões") repete a fórmula de seu premiado "Acima das Nuvens" para fazer um recorte quase auto-biográfico de quando dirigiu o homônimo clássico cult de 1996. Assayas usa dos personagens René (Vincent Macaigne) e Mira (Alicia Vikander) como porta-vozes de suas ideias e de sua visão de mundo - ambos cutucam o movimento "blockbuster" com a mesma elegância que criticam o mindset muitas vezes egocêntrico do cinema de arte europeu.
Mesmo com uma edição completamente fragmentada, o simbolismo e a busca por referências nunca se desalinham - quando falamos da "forma", visualmente, é muito claro quando ficção invade a realidade e quando o passado impacta o presente, porém é no "conteúdo", com diálogos muito bem desenvolvidos, que até os personagens mais estereotipados (como ao excêntrico ator alemão Gottfried de Lars Eidinger) ganham humanidade. Talvez essa quebra de expectativas perante uma história propositalmente "sem pé nem cabeça" e que pouco respeita a linha temporal, afaste a "audiência HBO", mas é impossível não elogiar a criatividade de Assayas e como ele criou uma dinâmica que sabe exatamente "onde" e "quem" provocar.
Olha, vale muito a pena, mas é preciso estar disposto a mergulhar em uma proposta pouco usual e que vai exigir uma reflexão que vai muito além do que assistimos na tela.
Olha, é impossível começar a análise de "Isabel" (que no original tem o subtítulo "La Historia Íntima de la Escritora Isabel Allende") sem dizer que essa minissérie chilena de 3 episódios é um verdadeiro soco no estômago e daqueles "sem dó"! Embora a produção esteja longe de ser um primor, a história de Allende é incrível, se confunde com suas obras de um forma completamente visceral e isso nos provoca uma série de sensações que, sinceramente, nos tira do eixo - especialmente no terceiro episódio.
Como é de se pressupor, "Isabel" conta a jornada da chilena Isabel Allende, a autora de língua espanhola mais lida do mundo com mais de 74 milhões de exemplares vendidos. Da infância marcada pelo sumiço do Pai, a importância do avô em sua educação, as citações do tio Salvador Allende (padrinho dela) que tentou mudar o Chile e o mundo com a implantação de um governo de extrema esquerda, a influência e o medo da ditadura na sua vida, a militância pela defesa dos direitos humanos, seus amores e decepções até o sucesso mundial de seus livros e a morte da sua filha Paula. Confira o trailer (em espanhol):
Produzida pela CNTV, emissora de TV chilena, "Isabel" tem um roteiro muito competente por se tratar de uma biografia - embora alguns assuntos importantes sejam apenas pontuados, as escolhas das passagens marcantes da vida da escritora dão uma exata noção do que foi sua jornada. Com um conceito interessante onde a quebra de linearidade temporal vai construindo a narrativa e a personalidade da protagonista, seu único deslize está na necessidade quase didática de querer explicar demais - alguns planos são completamente descartáveis e deixam pouco para nossa imaginação. Talvez o grande culpado seja o próprio diretor Rodrigo Bazes, que construíu sua carreira como diretor de arte, passou a escrever roteiros e agora migra para o comando da produção. Sua inexperiência é visível principalmente quando suas escolhas conceituais partem para o lugar comum, forçando um certo sentimentalismo com o apoio incondicional de uma trilha sonora um pouco exagerada. Porém, nada disso impacta na nossa experiência como audiência, mas é inegável que essa história na mão de um diretor mais talentoso colocaria a minissérie em outro patamar.
A atriz Daniela Ramirez no papel da escritora, entrega ótimos momentos - sua relação com a filha, desde o inicio até sua condição antes da morte é de cortar o coração - pela sinceridade e profundidade da relação que ela mesmo estabeleceu com todas as atrizes que interpretaram Paula. Tenho certeza de que aqueles que conhecem a obra de Allende vão identificar na tela muitas referências de sua obra, mas isso é só um bônus, pois toda jornada é muito bem conduzida e facilmente absorvida - sua relação espiritual que guiou sua obra "A Casa dos Espíritos" é um ótimo exemplo de como o roteiro acerta quando apenas sugere.
"Isabel" pode até começar um pouco morna, mas vai ganhando força e criando um vínculo emocional impressionante. Os vídeos pessoais de Allende ou os arquivos históricos da época são bem aproveitados na narrativa e trazem uma realidade bem interessante para a minissérie - é a cereja do bolo! O fato é que "Isabel - La Historia Íntima de la Escritora Isabel Allende" é imperdível para quem gosta de biografia, de literatura e de uma personagem feminina forte - nos seus erros e acertos!
Vale muito o seu play!
Olha, é impossível começar a análise de "Isabel" (que no original tem o subtítulo "La Historia Íntima de la Escritora Isabel Allende") sem dizer que essa minissérie chilena de 3 episódios é um verdadeiro soco no estômago e daqueles "sem dó"! Embora a produção esteja longe de ser um primor, a história de Allende é incrível, se confunde com suas obras de um forma completamente visceral e isso nos provoca uma série de sensações que, sinceramente, nos tira do eixo - especialmente no terceiro episódio.
Como é de se pressupor, "Isabel" conta a jornada da chilena Isabel Allende, a autora de língua espanhola mais lida do mundo com mais de 74 milhões de exemplares vendidos. Da infância marcada pelo sumiço do Pai, a importância do avô em sua educação, as citações do tio Salvador Allende (padrinho dela) que tentou mudar o Chile e o mundo com a implantação de um governo de extrema esquerda, a influência e o medo da ditadura na sua vida, a militância pela defesa dos direitos humanos, seus amores e decepções até o sucesso mundial de seus livros e a morte da sua filha Paula. Confira o trailer (em espanhol):
Produzida pela CNTV, emissora de TV chilena, "Isabel" tem um roteiro muito competente por se tratar de uma biografia - embora alguns assuntos importantes sejam apenas pontuados, as escolhas das passagens marcantes da vida da escritora dão uma exata noção do que foi sua jornada. Com um conceito interessante onde a quebra de linearidade temporal vai construindo a narrativa e a personalidade da protagonista, seu único deslize está na necessidade quase didática de querer explicar demais - alguns planos são completamente descartáveis e deixam pouco para nossa imaginação. Talvez o grande culpado seja o próprio diretor Rodrigo Bazes, que construíu sua carreira como diretor de arte, passou a escrever roteiros e agora migra para o comando da produção. Sua inexperiência é visível principalmente quando suas escolhas conceituais partem para o lugar comum, forçando um certo sentimentalismo com o apoio incondicional de uma trilha sonora um pouco exagerada. Porém, nada disso impacta na nossa experiência como audiência, mas é inegável que essa história na mão de um diretor mais talentoso colocaria a minissérie em outro patamar.
A atriz Daniela Ramirez no papel da escritora, entrega ótimos momentos - sua relação com a filha, desde o inicio até sua condição antes da morte é de cortar o coração - pela sinceridade e profundidade da relação que ela mesmo estabeleceu com todas as atrizes que interpretaram Paula. Tenho certeza de que aqueles que conhecem a obra de Allende vão identificar na tela muitas referências de sua obra, mas isso é só um bônus, pois toda jornada é muito bem conduzida e facilmente absorvida - sua relação espiritual que guiou sua obra "A Casa dos Espíritos" é um ótimo exemplo de como o roteiro acerta quando apenas sugere.
"Isabel" pode até começar um pouco morna, mas vai ganhando força e criando um vínculo emocional impressionante. Os vídeos pessoais de Allende ou os arquivos históricos da época são bem aproveitados na narrativa e trazem uma realidade bem interessante para a minissérie - é a cereja do bolo! O fato é que "Isabel - La Historia Íntima de la Escritora Isabel Allende" é imperdível para quem gosta de biografia, de literatura e de uma personagem feminina forte - nos seus erros e acertos!
Vale muito o seu play!
Sua definição de "pirado" vai mudar depois que você assistir o documentário da Netflix "John McAfee: Gênio, Polêmico e Fugitivo". É sério, McAfee (aquele mesmo do antivírus que todo mundo usava quando os PCs ainda dominavam o mundo) faz CEOs excêntricos como Adam Neumann da WeWork e Travis Kalanick da UBER parecerem ter saído do jardim da infância!
"Running With The Devil: The Wild World Of John McAfee" (no original) conta em pouco menos de duas horas, toda a jornada do milionário e gênio da tecnologia John McAfee durante os anos em que viveu como foragido da justiça, acusado, inclusive, de assassinato. Confira o trailer (em inglês):
Dirigido pelo Charlie Russell (de "Chris Packham: Asperger's and Me") esse documentário traz cenas e entrevistas inéditas (e surpreendentes) sobre alguns dos momentos mais conturbados da vida deMcAfee. Com uma edição primorosa do Joby Gee, Russell se aproveita de um material riquíssimo produzido pela "Vice" pouco mais de dez anos atrás, que resultou em uma estreita relação de amizade entre o próprio McAfee e um videomaker que anos depois voltou a captar em imagens, a loucura e o comportamento cheio de abusos do protagonista até ele ser preso na Espanha em outubro de 2020.
Um dos pioneiros da indústria da segurança digital, o criador do antivírus que até hoje ainda leva seu nome, se tornou milionário quando sua empresa foi vendida para a Intel em um negócio de US$ 7,6 bilhões. A partir daí, McAfee passou a viver no limite, com direito a envolvimento com drogas pesadas, álcool e prostituição - sua última esposa, inclusive, era prostituta. Porém a questão mais presente em "John McAfee: Gênio, Polêmico e Fugitivo" diz respeito a sua fuga de Belize para Guatemala quando foi acusado de assassinar seu vizinho, Gregory Faull, com um tiro na nuca - o crime, inclusive, que nunca foi solucionado. Essa passagem foi só o gatilho para as inúmeras paranóias (ou não) e teorias da conspiração que fizeram McAfee praticamente viver em águas internacionais com medo de ser morto.
Embora o documentário seja muito competente em explorar esse recorte específico, citando rapidamente outras polêmicas em que McAfee esteve envolvido, temos a sensação que o personagem merecia uma obra mais completa - talvez uma minissérie que se aprofundasse em temas como a derrocada de sua fortuna, os embates com a Intel para que a empresa desvinculasse o seu nome do antivírus, a pretensão de se tornar presidente dos EUA e os outros investimentos que ele fez em startups que foram mal sucedidas - o cara foi de antibióticos naturais à criptomoedas, para você ter uma ideia.
"John McAfee: Gênio, Polêmico e Fugitivo" é um documentário dinâmico, bem construído e muito interessante - um mergulho no intimo de um personagem único e que foi capaz de transitar entre a genialidade e o caos com a mesma competência. Vale muito o seu play!
Sua definição de "pirado" vai mudar depois que você assistir o documentário da Netflix "John McAfee: Gênio, Polêmico e Fugitivo". É sério, McAfee (aquele mesmo do antivírus que todo mundo usava quando os PCs ainda dominavam o mundo) faz CEOs excêntricos como Adam Neumann da WeWork e Travis Kalanick da UBER parecerem ter saído do jardim da infância!
"Running With The Devil: The Wild World Of John McAfee" (no original) conta em pouco menos de duas horas, toda a jornada do milionário e gênio da tecnologia John McAfee durante os anos em que viveu como foragido da justiça, acusado, inclusive, de assassinato. Confira o trailer (em inglês):
Dirigido pelo Charlie Russell (de "Chris Packham: Asperger's and Me") esse documentário traz cenas e entrevistas inéditas (e surpreendentes) sobre alguns dos momentos mais conturbados da vida deMcAfee. Com uma edição primorosa do Joby Gee, Russell se aproveita de um material riquíssimo produzido pela "Vice" pouco mais de dez anos atrás, que resultou em uma estreita relação de amizade entre o próprio McAfee e um videomaker que anos depois voltou a captar em imagens, a loucura e o comportamento cheio de abusos do protagonista até ele ser preso na Espanha em outubro de 2020.
Um dos pioneiros da indústria da segurança digital, o criador do antivírus que até hoje ainda leva seu nome, se tornou milionário quando sua empresa foi vendida para a Intel em um negócio de US$ 7,6 bilhões. A partir daí, McAfee passou a viver no limite, com direito a envolvimento com drogas pesadas, álcool e prostituição - sua última esposa, inclusive, era prostituta. Porém a questão mais presente em "John McAfee: Gênio, Polêmico e Fugitivo" diz respeito a sua fuga de Belize para Guatemala quando foi acusado de assassinar seu vizinho, Gregory Faull, com um tiro na nuca - o crime, inclusive, que nunca foi solucionado. Essa passagem foi só o gatilho para as inúmeras paranóias (ou não) e teorias da conspiração que fizeram McAfee praticamente viver em águas internacionais com medo de ser morto.
Embora o documentário seja muito competente em explorar esse recorte específico, citando rapidamente outras polêmicas em que McAfee esteve envolvido, temos a sensação que o personagem merecia uma obra mais completa - talvez uma minissérie que se aprofundasse em temas como a derrocada de sua fortuna, os embates com a Intel para que a empresa desvinculasse o seu nome do antivírus, a pretensão de se tornar presidente dos EUA e os outros investimentos que ele fez em startups que foram mal sucedidas - o cara foi de antibióticos naturais à criptomoedas, para você ter uma ideia.
"John McAfee: Gênio, Polêmico e Fugitivo" é um documentário dinâmico, bem construído e muito interessante - um mergulho no intimo de um personagem único e que foi capaz de transitar entre a genialidade e o caos com a mesma competência. Vale muito o seu play!
Essa era uma história que merecia ser contada e digo mais: você vai se surpreender com sua força! "Joika: Uma Americana no Bolshoi" é, de fato, uma jornada inspiradora de paixão e de superação que nos conquista logo de cara. O desconhecido diretor e roteirista James Napier Robertson (da elogiada "Whina") mostra muito talento e competência ao contar a história real de Joy Womack, uma bailarina americana que desafiou inúmeras barreiras culturais para se tornar a primeira americana a se apresentar no prestigiado Ballet Bolshoi. Narrada com uma sensibilidade impressionante e fotografada com um realismo visceral, "The American" (no original) merece demais a sua a atenção, especialmente se você se identifica com filmes como "Cisne Negro", "Birds of Paradise" e até com o georgiano, "E então nós dançamos"! Vale dizer que essa produção conquistou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Milão, além do prêmio da audiência no Palm Springs International Film Festival em 2024.
Basicamente, o filme segue Joy (Talia Ryder), uma prodígio do balé que aspira se tornar a Prima Ballerina da Academia Bolshoi de Moscou. Aos quinze anos, ela se muda para a Rússia, apoiada pelos pais, com a esperança de ser aceita na prestigiada academia. No entanto, ela rapidamente se depara com a hostilidade de suas colegas e de uma severa diretora, Tatiyana Volkova (Diane Kruger), que constantemente a chama pejorativamente de “a americana”. Determinada a provar seu valor, independente de seu país de origem, Joy enfrenta desafios físicos e emocionais enquanto luta para conquistar seu lugar de destaque na história do balé mundial. Confira o trailer (em inglês):
Naturalmente já é possível imaginar que "Joika" é um mergulha na realidade implacável dessa arte tão exigente e cheia de tradição. A pressão constante pela excelência, a disciplina draconiana e as privações físicas e emocionais são retratadas com uma honestidade brutal no filme que olha, se tem uma coisa que Robertson não faz, é nos poupar do lado sombrio da busca pela perfeição como manifestação artística Sensível e precisa, a direção nos conduzi por uma história recheada de ritmo e emoção que não cai na tentação de cortar caminhos para encontrar a conexão com a audiência. É claro que o drama está lá desde o primeiro ato, mas a forma como o roteiro vai construindo a jornada nos entrega uma série de sensações muito particulares - veja, se em "Cisne Negro" Aronofsky brinca com nossa percepção da realidade, aqui, é justamente a realidade que nos mantém angustiado até os créditos subirem.
Além da qualidade artística da direção, alguns elementos técnicos merecem destaque - a já citada fotografia é uma delas. Assinada pelo polonês Tomasz Naumiuk (de "Rastros"), a fotografia captura a beleza e a melancolia da vida na Rússia, utilizando tons frios e contrastes marcantes para criar uma atmosfera tão imersiva quanto desconfortável - algo como vimos em "O Gambito da Rainha". Já a trilha sonora composta por Dana Lund (de "The Dark Horse") transita entre melodias depressivas e outras inspiradoras acompanhando perfeitamente a jornada de Joy, intensificando as emoções, elevando a experiência e nos aproximando dos grandes clássicos do balé. Sobre o elenco, Talia Ryder entrega uma performance de tirar o fôlego - a melhor de sua carreira. Sua atuação captura a força, a determinação e a vulnerabilidade da personagem com maestria - seu domínio físico é impressionante, traduzindo em cada movimento sua paixão e a sua dor. Diane Kruger também brilha - imponente e intimidadora, mas com nuances de fragilidade, a atriz entrega uma personagem tão complexa e humana que eu diria ser "uma personificação das contradições do mundo do balé".
Mesmo que tenha surgido timidamente, "Joika: Uma Americana no Bolshoi" é sim um filme imperdível - especialmente para aqueles que buscam dramas inspiradores, histórias reais e atuações memoráveis. É um convite para entendermos as nuances da arte pela perspectiva da paixão avassaladora, da força e da resiliência como fator primordial do espírito humano. Entretenimento, mas inteligente na sua essência, saiba que você vai se emocionar, vai se inspirar e até refletir sobre o valor de acreditar em um sonho, sem aquela conotação piegas, de buscar a excelência e de encontrar na superação, os próprios limites.
Vale muito o seu play!
Essa era uma história que merecia ser contada e digo mais: você vai se surpreender com sua força! "Joika: Uma Americana no Bolshoi" é, de fato, uma jornada inspiradora de paixão e de superação que nos conquista logo de cara. O desconhecido diretor e roteirista James Napier Robertson (da elogiada "Whina") mostra muito talento e competência ao contar a história real de Joy Womack, uma bailarina americana que desafiou inúmeras barreiras culturais para se tornar a primeira americana a se apresentar no prestigiado Ballet Bolshoi. Narrada com uma sensibilidade impressionante e fotografada com um realismo visceral, "The American" (no original) merece demais a sua a atenção, especialmente se você se identifica com filmes como "Cisne Negro", "Birds of Paradise" e até com o georgiano, "E então nós dançamos"! Vale dizer que essa produção conquistou o prêmio de Melhor Filme no Festival de Cinema de Milão, além do prêmio da audiência no Palm Springs International Film Festival em 2024.
Basicamente, o filme segue Joy (Talia Ryder), uma prodígio do balé que aspira se tornar a Prima Ballerina da Academia Bolshoi de Moscou. Aos quinze anos, ela se muda para a Rússia, apoiada pelos pais, com a esperança de ser aceita na prestigiada academia. No entanto, ela rapidamente se depara com a hostilidade de suas colegas e de uma severa diretora, Tatiyana Volkova (Diane Kruger), que constantemente a chama pejorativamente de “a americana”. Determinada a provar seu valor, independente de seu país de origem, Joy enfrenta desafios físicos e emocionais enquanto luta para conquistar seu lugar de destaque na história do balé mundial. Confira o trailer (em inglês):
Naturalmente já é possível imaginar que "Joika" é um mergulha na realidade implacável dessa arte tão exigente e cheia de tradição. A pressão constante pela excelência, a disciplina draconiana e as privações físicas e emocionais são retratadas com uma honestidade brutal no filme que olha, se tem uma coisa que Robertson não faz, é nos poupar do lado sombrio da busca pela perfeição como manifestação artística Sensível e precisa, a direção nos conduzi por uma história recheada de ritmo e emoção que não cai na tentação de cortar caminhos para encontrar a conexão com a audiência. É claro que o drama está lá desde o primeiro ato, mas a forma como o roteiro vai construindo a jornada nos entrega uma série de sensações muito particulares - veja, se em "Cisne Negro" Aronofsky brinca com nossa percepção da realidade, aqui, é justamente a realidade que nos mantém angustiado até os créditos subirem.
Além da qualidade artística da direção, alguns elementos técnicos merecem destaque - a já citada fotografia é uma delas. Assinada pelo polonês Tomasz Naumiuk (de "Rastros"), a fotografia captura a beleza e a melancolia da vida na Rússia, utilizando tons frios e contrastes marcantes para criar uma atmosfera tão imersiva quanto desconfortável - algo como vimos em "O Gambito da Rainha". Já a trilha sonora composta por Dana Lund (de "The Dark Horse") transita entre melodias depressivas e outras inspiradoras acompanhando perfeitamente a jornada de Joy, intensificando as emoções, elevando a experiência e nos aproximando dos grandes clássicos do balé. Sobre o elenco, Talia Ryder entrega uma performance de tirar o fôlego - a melhor de sua carreira. Sua atuação captura a força, a determinação e a vulnerabilidade da personagem com maestria - seu domínio físico é impressionante, traduzindo em cada movimento sua paixão e a sua dor. Diane Kruger também brilha - imponente e intimidadora, mas com nuances de fragilidade, a atriz entrega uma personagem tão complexa e humana que eu diria ser "uma personificação das contradições do mundo do balé".
Mesmo que tenha surgido timidamente, "Joika: Uma Americana no Bolshoi" é sim um filme imperdível - especialmente para aqueles que buscam dramas inspiradores, histórias reais e atuações memoráveis. É um convite para entendermos as nuances da arte pela perspectiva da paixão avassaladora, da força e da resiliência como fator primordial do espírito humano. Entretenimento, mas inteligente na sua essência, saiba que você vai se emocionar, vai se inspirar e até refletir sobre o valor de acreditar em um sonho, sem aquela conotação piegas, de buscar a excelência e de encontrar na superação, os próprios limites.
Vale muito o seu play!
Quando "Joy" chegou aos cinemas em 2015, o filme veio carregado de críticas - umas coerentes, mas a maioria exagerada. Um filme que tem em seu arco principal a superação de uma personagem mulher em busca de um sonho empreendedor para mudar de vida definitivamente, como em "A Vida e a História de Madam C.J. Walker", precisa ser entendido e interpretado de acordo com sua proposta narrativa, não a partir da filmografia de seu diretor - no caso, David O. Russell que vinha de três grandes sucessos como "O Vencedor", "O Lado Bom da Vida" e "Trapaça", e ainda carregava a pressão de cinco indicações ao Oscar.
Inspirado em uma história real, o filme mostra a emocionante jornada de Joy (Jennifer Lawrence), uma mulher que é ferozmente determinada a manter sua excêntrica e disfuncional família unida em face da aparentemente e insuperável probabilidade de se dar mal. Motivada pela necessidade, engenhosidade e pelo sonho de uma vida melhor, Joy busca com todas as forças, triunfar como a fundadora e inventora do "esfregão", e assim se tornar a matriarca de um bilionário império que transformou sua vida e a de sua família. Confira o trailer:
Veja, talvez a história de Joy seja de fato mais interessante que o filme, mas em hipótese nenhuma podemos dizer que o filme é ruim - ele não é. Algumas escolhas narrativas de O. Russell, que também escreveu o roteiro, me pareceram equivocadas e destaco duas: a narração em off (e a escolha da personagem que faz isso) é ruim e a fixação em tentar encontrar paralelos com a Soap Opera que fez parte da vida de Joy e razão da inércia da sua mãe, pior ainda. Embora ambos sejam artifícios para cortar o caminho sempre complicado de colocar na tela uma biografia com tão pouco tempo de história, é de se notar a pretensão do diretor de querer ser genial - o que acaba sendo um desperdício de energia, pois a jornada de Joy por si só já entregaria uma conexão imediata com o público deixando espaço para algumas alegorias que ele sempre gostou de pontuar (e bem) em seu filmes.
Ao olharmos pelo prisma empreendedor, meu Deus, "Joy" é um retrato tão palpável, que mesmo no exagero do texto ainda sim nos identificamos com a jornada. Vemos como a vida espanca (sim, esse é o termo exato do que acontece) a protagonista diariamente para então acompanharmos como a determinação, a criatividade, a boa vontade, o trabalho e a esperança podem mudar o rumo das coisas. É impressionante como a protagonista vai ao fundo do poço, e claro que isso é romantizado, mas o que importa (e aqui voltamos na proposta narrativa) é a mensagem quase motivacional de resiliência.
Reparem que logo no inicio o diretor já avisa que o filme é sobre “mulheres fortes”, ou seja, se trata de uma tentativa de estabelecer uma visão de empoderamento feminino - que é válido, mas retórico. Disse tudo isso para afirmar que "Joy" (que aqui no Brasil ganhou o subtítulo de "O Nome do Sucesso") pode soar apressada, mas vai te fisgar de acordo com o olhar pela qual você receber a narrativa. Pessoalmente, achei o filme bom, interessante pelo ponto de vista da jornada do herói, mas especialmente válido por conhecer o desafio empreendedor e a vontade de vencer na vida da protagonista mesmo com tantas dificuldades.
É emocionante e divertido, mesmo que falhe como obra biográfica. Vale o play!
Quando "Joy" chegou aos cinemas em 2015, o filme veio carregado de críticas - umas coerentes, mas a maioria exagerada. Um filme que tem em seu arco principal a superação de uma personagem mulher em busca de um sonho empreendedor para mudar de vida definitivamente, como em "A Vida e a História de Madam C.J. Walker", precisa ser entendido e interpretado de acordo com sua proposta narrativa, não a partir da filmografia de seu diretor - no caso, David O. Russell que vinha de três grandes sucessos como "O Vencedor", "O Lado Bom da Vida" e "Trapaça", e ainda carregava a pressão de cinco indicações ao Oscar.
Inspirado em uma história real, o filme mostra a emocionante jornada de Joy (Jennifer Lawrence), uma mulher que é ferozmente determinada a manter sua excêntrica e disfuncional família unida em face da aparentemente e insuperável probabilidade de se dar mal. Motivada pela necessidade, engenhosidade e pelo sonho de uma vida melhor, Joy busca com todas as forças, triunfar como a fundadora e inventora do "esfregão", e assim se tornar a matriarca de um bilionário império que transformou sua vida e a de sua família. Confira o trailer:
Veja, talvez a história de Joy seja de fato mais interessante que o filme, mas em hipótese nenhuma podemos dizer que o filme é ruim - ele não é. Algumas escolhas narrativas de O. Russell, que também escreveu o roteiro, me pareceram equivocadas e destaco duas: a narração em off (e a escolha da personagem que faz isso) é ruim e a fixação em tentar encontrar paralelos com a Soap Opera que fez parte da vida de Joy e razão da inércia da sua mãe, pior ainda. Embora ambos sejam artifícios para cortar o caminho sempre complicado de colocar na tela uma biografia com tão pouco tempo de história, é de se notar a pretensão do diretor de querer ser genial - o que acaba sendo um desperdício de energia, pois a jornada de Joy por si só já entregaria uma conexão imediata com o público deixando espaço para algumas alegorias que ele sempre gostou de pontuar (e bem) em seu filmes.
Ao olharmos pelo prisma empreendedor, meu Deus, "Joy" é um retrato tão palpável, que mesmo no exagero do texto ainda sim nos identificamos com a jornada. Vemos como a vida espanca (sim, esse é o termo exato do que acontece) a protagonista diariamente para então acompanharmos como a determinação, a criatividade, a boa vontade, o trabalho e a esperança podem mudar o rumo das coisas. É impressionante como a protagonista vai ao fundo do poço, e claro que isso é romantizado, mas o que importa (e aqui voltamos na proposta narrativa) é a mensagem quase motivacional de resiliência.
Reparem que logo no inicio o diretor já avisa que o filme é sobre “mulheres fortes”, ou seja, se trata de uma tentativa de estabelecer uma visão de empoderamento feminino - que é válido, mas retórico. Disse tudo isso para afirmar que "Joy" (que aqui no Brasil ganhou o subtítulo de "O Nome do Sucesso") pode soar apressada, mas vai te fisgar de acordo com o olhar pela qual você receber a narrativa. Pessoalmente, achei o filme bom, interessante pelo ponto de vista da jornada do herói, mas especialmente válido por conhecer o desafio empreendedor e a vontade de vencer na vida da protagonista mesmo com tantas dificuldades.
É emocionante e divertido, mesmo que falhe como obra biográfica. Vale o play!
Algumas histórias mereciam ser contadas - essa, certamente, é uma delas e já te adianto: você vai se emocionar, mas não sem antes transitar por um turbilhão de sensações muito particulares. "Joy", dirigido por Ben Taylor (de "Sex Education"), é um filme realmente envolvente e inspirador que resgata um dos capítulos mais revolucionários (e controversos) da medicina moderna: o nascimento do primeiro "bebê de proveta" do mundo, Louise Joy Brown, em 1978. O filme mergulha na jornada de um grupo de pioneiros que enfrentaram imensa oposição social, religiosa e científica para realizar um avanço que transformaria a medicina reprodutiva. Assim como "Radioactive" ou "A Batalha da Correntes", "Joy" não é uma superprodução, mas uma experiência singular, que mistura a narrativa biográfica, com um toque de ciência e drama, destacando a luta pela inovação em um cenário marcado por ceticismo e resistência.
A trama acompanha a jovem enfermeira Jean Purdy (Thomasin McKenzie), o cientista Robert "Bob" Edwards (James Norton) e o cirurgião obstetra Patrick Steptoe (Bill Nighy), figuras centrais na busca pela fertilização in vitro (chamada de FIV). Em meio a críticas ferozes da mídia, resistência do establishment médico e condenações morais vindas da igreja e do estado, os três unem esforços para transformar o impossível em realidade. O nascimento de Louise Joy Brown, a primeira criança concebida fora do útero, torna-se o ápice dessa jornada, mas não sem antes revelar os desafios, sacrifícios e dilemas enfrentados pelos envolvidos. Confira o trailer e veja o que te espera:
Esse filme é um presente para Ben Taylor! Ele conduz a narrativa com uma abordagem equilibrada, combinando o rigor técnico dos procedimentos científicos com a humanidade dos personagens que ousaram desafiar o status quo. O diretor, sabendo das suas limitações de orçamento, opta por um tom mais intimista, mas que nunca perde de vista a importância histórica dos eventos retratados. Taylor vai pelo caminho de uma direção delicada e focada no fator humano, valorizando o impacto emocional do processo, tanto para os cientistas quanto para as pacientes que, no filme, representam a esperança de milhares (e milhares) de famílias. O roteiro de Jack Thorne (de "Extraordinário") é muito competente - seu recorte é inteligente, alternando entre os avanços científicos e as adversidades pessoais, sem atropelos. Seu texto traz diálogos que enfatizam o conflito entre progresso e a tradição - a ética médica e as implicações morais da FIV são discutidas em cenas que elevam a tensão, mas sem nunca perder a mão. O interessante é a forma como Thorne explora as dúvidas do público e da comunidade médica em uma distante década de 60 e 70; enquanto os protagonistas, obviamente, lutam para provar a validade de sua pesquisa. Veja, há uma crítica sutil ao conservadorismo institucional da época, que muitas vezes sacrificava o avanço da ciência em nome de crenças dogmáticas, mas saiba que esse não é o foco - a jornada que vale é a da inovação pelos olhos de quem quis mudar o mundo.
As performances do elenco são o coração do filme. McKenzie entrega uma atuação sensível e comovente, destacando a força e a dedicação de uma mulher que desempenhou um papel crucial, mas frequentemente ignorado na história da FIV - sua relação com a mãe e com a religião dão o tom daquela sociedade. Já o cientista Robert Edwards de Norton traz a paixão e o idealismo, equilibrando o brilho do visionário com os fardos que precisa carregar ao longo da pesquisa. E o cirurgião Patrick Steptoe do brilhante Bill Nighy traz um pragmatismo que contrasta com os ideais de Edwards, criando uma dinâmica envolvente entre os três protagonistas - ele é o estereótipo (no bom sentido) do médico mal humorado, mas simpático, que gostaríamos de ter ao nosso lado durante a vida.
Mesmo "feito para TV", "Joy" impressiona pela reconstrução de época, com figurinos, cenários e uma paleta de cores suaves que evocam o final dos anos 1960 e a década de 1970, o que nos permite uma imersão imediata naquela atmosfera. Mesmo que o filme busque um tom mais emocional e acessível, às vezes simplificando o debate científico e evitando confrontar as implicações mais complexas que a pesquisa trouxe à época, eu diria que "Joy" é um filme indispensável - uma celebração inspiradora do avanço científico e do espírito humano em busca de esperança e da inovação!
Simplesmente imperdível!
Algumas histórias mereciam ser contadas - essa, certamente, é uma delas e já te adianto: você vai se emocionar, mas não sem antes transitar por um turbilhão de sensações muito particulares. "Joy", dirigido por Ben Taylor (de "Sex Education"), é um filme realmente envolvente e inspirador que resgata um dos capítulos mais revolucionários (e controversos) da medicina moderna: o nascimento do primeiro "bebê de proveta" do mundo, Louise Joy Brown, em 1978. O filme mergulha na jornada de um grupo de pioneiros que enfrentaram imensa oposição social, religiosa e científica para realizar um avanço que transformaria a medicina reprodutiva. Assim como "Radioactive" ou "A Batalha da Correntes", "Joy" não é uma superprodução, mas uma experiência singular, que mistura a narrativa biográfica, com um toque de ciência e drama, destacando a luta pela inovação em um cenário marcado por ceticismo e resistência.
A trama acompanha a jovem enfermeira Jean Purdy (Thomasin McKenzie), o cientista Robert "Bob" Edwards (James Norton) e o cirurgião obstetra Patrick Steptoe (Bill Nighy), figuras centrais na busca pela fertilização in vitro (chamada de FIV). Em meio a críticas ferozes da mídia, resistência do establishment médico e condenações morais vindas da igreja e do estado, os três unem esforços para transformar o impossível em realidade. O nascimento de Louise Joy Brown, a primeira criança concebida fora do útero, torna-se o ápice dessa jornada, mas não sem antes revelar os desafios, sacrifícios e dilemas enfrentados pelos envolvidos. Confira o trailer e veja o que te espera:
Esse filme é um presente para Ben Taylor! Ele conduz a narrativa com uma abordagem equilibrada, combinando o rigor técnico dos procedimentos científicos com a humanidade dos personagens que ousaram desafiar o status quo. O diretor, sabendo das suas limitações de orçamento, opta por um tom mais intimista, mas que nunca perde de vista a importância histórica dos eventos retratados. Taylor vai pelo caminho de uma direção delicada e focada no fator humano, valorizando o impacto emocional do processo, tanto para os cientistas quanto para as pacientes que, no filme, representam a esperança de milhares (e milhares) de famílias. O roteiro de Jack Thorne (de "Extraordinário") é muito competente - seu recorte é inteligente, alternando entre os avanços científicos e as adversidades pessoais, sem atropelos. Seu texto traz diálogos que enfatizam o conflito entre progresso e a tradição - a ética médica e as implicações morais da FIV são discutidas em cenas que elevam a tensão, mas sem nunca perder a mão. O interessante é a forma como Thorne explora as dúvidas do público e da comunidade médica em uma distante década de 60 e 70; enquanto os protagonistas, obviamente, lutam para provar a validade de sua pesquisa. Veja, há uma crítica sutil ao conservadorismo institucional da época, que muitas vezes sacrificava o avanço da ciência em nome de crenças dogmáticas, mas saiba que esse não é o foco - a jornada que vale é a da inovação pelos olhos de quem quis mudar o mundo.
As performances do elenco são o coração do filme. McKenzie entrega uma atuação sensível e comovente, destacando a força e a dedicação de uma mulher que desempenhou um papel crucial, mas frequentemente ignorado na história da FIV - sua relação com a mãe e com a religião dão o tom daquela sociedade. Já o cientista Robert Edwards de Norton traz a paixão e o idealismo, equilibrando o brilho do visionário com os fardos que precisa carregar ao longo da pesquisa. E o cirurgião Patrick Steptoe do brilhante Bill Nighy traz um pragmatismo que contrasta com os ideais de Edwards, criando uma dinâmica envolvente entre os três protagonistas - ele é o estereótipo (no bom sentido) do médico mal humorado, mas simpático, que gostaríamos de ter ao nosso lado durante a vida.
Mesmo "feito para TV", "Joy" impressiona pela reconstrução de época, com figurinos, cenários e uma paleta de cores suaves que evocam o final dos anos 1960 e a década de 1970, o que nos permite uma imersão imediata naquela atmosfera. Mesmo que o filme busque um tom mais emocional e acessível, às vezes simplificando o debate científico e evitando confrontar as implicações mais complexas que a pesquisa trouxe à época, eu diria que "Joy" é um filme indispensável - uma celebração inspiradora do avanço científico e do espírito humano em busca de esperança e da inovação!
Simplesmente imperdível!
"Judy" é uma adaptação da peça teatral “End of the Rainbow” de Peter Quilte e mostra o último ano de vida de Judy Garland durante uma turnê de shows em Londres, no inverno de 1968. Com sérios problemas financeiros e sofrendo com os recentes divórcios, Judy se apoiava em remédios e álcool para lidar com a depressão e, principalmente, com a ausência dos filhos.
O filme é muito feliz ao buscar as razões e mostrar os reflexos que uma vida sem amor, sem infância e sob muita pressão pode causar em um ser humano - chega a ser cruel! De fato "Judy" não é uma novidade e muitas outras cinebiografias (como "Elis") e documentários (como "Amy") se apoiam no mesmo tema e entregam o mesmo final, mas é impossível não se emocionar com o excelente trabalho que Renée Zellweger faz no filme - visceral eu diria! Ela está irreconhecível no papel da protagonista, o que resultou nas duas indicações que o filme teve ao Oscar 2020: Melhor Atriz e Melhor Maquiagem e Penteado!
Já na primeira cena do filme temos a real noção da grandiosidade que foi a carreira Judy Garland. O diretor Rupert Goold, de "A História Verdadeira" de 2015, usa de um movimento de câmera bastante inventivo para nos mostrar o contraponto entre a maneira como Judy via sua vida e o que realmente representava sua carreira logo após ganhar o papel de Dorothy em "‘O Mágico de Oz" de 1939. O salto temporal para mais de 30 anos depois mostra o resultado dessa magnitude e é aí que Renée Zellweger chama o filme para ela - esse é o tipo do papel que todo atriz sonha em fazer, pois se trata de uma personagem complexa, afogada pelos fantasmas do passado e sem nenhuma noção da realidade. É um turbilhão de emoções, de fraquezas e de sentimentos que se dissolvem em um único momento: no prazer de ser quem é e de fazer o que quer, aproveitando de um talento muito (mas muito) acima da média - aliás, o roteiro constrói muito bem essa realidade quando o executivo da MGM diz que existiam meninas tão lindas quanto Judy em qualquer lugar dos Estados Unidos, mas com uma voz igual...
A fotografia de Ole Bratt Birkeland (The Crown) é belíssima e aproveita muito bem o trabalho do departamento de arte com cenários luxuosos e um figurino cheio de extravagâncias - mas, detalhe: sem nunca sair fora do tom! O filme trabalha muito bem o colorido do showbiz com a monocromática tristeza de Judy e isso gera uma angústia enorme em quem assiste, pois nunca sabemos quando uma vai se sobrepor a outra - é como se estivéssemos sempre tensos observando uma bomba prestes à explodir. Judy Garland era uma bomba relógio, para o bem e para o mal! É possível observar no roteiro de Tom Edge (também de "The Crown") elementos extremamente teatrais como quando os fãs de Judy ajudam ela a cantar em um dos shows, mas isso não estraga a experiência de quem assiste, pois a Renée Zellweger nos convida a mergulhar naquela história que nem nos incomodamos com a forma, apenas nos emocionamos com o conteúdo!
"Judy" é um filme que já vimos, mas que servirá para sacramentar o renascimento de Zellweger - uma atriz que teve grandes momentos com o "Diário de Bridget Jones", com "Chicago" e o seu ápice com "Cold Mountain" (que, inclusive, lhe rendeu o Oscar de atriz coadjuvante em 2004). Mesmo exagerada e muitas vezes caricata, sua expressão corporal é impressionante - ela se contorce em sua dor íntima ao mesmo tempo em que se impõe na força de quem ainda tem um talento absurdo, mesmo insegura, mesmo infeliz! Renée Zellweger é tão favorita quanto Joaquin Phoenix com "Coringa" e é a principal razão para assistir "Judy"!
Up-date: "Judy" ganhou em uma categoria no Oscar 2020: Melhor Atriz!
"Judy" é uma adaptação da peça teatral “End of the Rainbow” de Peter Quilte e mostra o último ano de vida de Judy Garland durante uma turnê de shows em Londres, no inverno de 1968. Com sérios problemas financeiros e sofrendo com os recentes divórcios, Judy se apoiava em remédios e álcool para lidar com a depressão e, principalmente, com a ausência dos filhos.
O filme é muito feliz ao buscar as razões e mostrar os reflexos que uma vida sem amor, sem infância e sob muita pressão pode causar em um ser humano - chega a ser cruel! De fato "Judy" não é uma novidade e muitas outras cinebiografias (como "Elis") e documentários (como "Amy") se apoiam no mesmo tema e entregam o mesmo final, mas é impossível não se emocionar com o excelente trabalho que Renée Zellweger faz no filme - visceral eu diria! Ela está irreconhecível no papel da protagonista, o que resultou nas duas indicações que o filme teve ao Oscar 2020: Melhor Atriz e Melhor Maquiagem e Penteado!
Já na primeira cena do filme temos a real noção da grandiosidade que foi a carreira Judy Garland. O diretor Rupert Goold, de "A História Verdadeira" de 2015, usa de um movimento de câmera bastante inventivo para nos mostrar o contraponto entre a maneira como Judy via sua vida e o que realmente representava sua carreira logo após ganhar o papel de Dorothy em "‘O Mágico de Oz" de 1939. O salto temporal para mais de 30 anos depois mostra o resultado dessa magnitude e é aí que Renée Zellweger chama o filme para ela - esse é o tipo do papel que todo atriz sonha em fazer, pois se trata de uma personagem complexa, afogada pelos fantasmas do passado e sem nenhuma noção da realidade. É um turbilhão de emoções, de fraquezas e de sentimentos que se dissolvem em um único momento: no prazer de ser quem é e de fazer o que quer, aproveitando de um talento muito (mas muito) acima da média - aliás, o roteiro constrói muito bem essa realidade quando o executivo da MGM diz que existiam meninas tão lindas quanto Judy em qualquer lugar dos Estados Unidos, mas com uma voz igual...
A fotografia de Ole Bratt Birkeland (The Crown) é belíssima e aproveita muito bem o trabalho do departamento de arte com cenários luxuosos e um figurino cheio de extravagâncias - mas, detalhe: sem nunca sair fora do tom! O filme trabalha muito bem o colorido do showbiz com a monocromática tristeza de Judy e isso gera uma angústia enorme em quem assiste, pois nunca sabemos quando uma vai se sobrepor a outra - é como se estivéssemos sempre tensos observando uma bomba prestes à explodir. Judy Garland era uma bomba relógio, para o bem e para o mal! É possível observar no roteiro de Tom Edge (também de "The Crown") elementos extremamente teatrais como quando os fãs de Judy ajudam ela a cantar em um dos shows, mas isso não estraga a experiência de quem assiste, pois a Renée Zellweger nos convida a mergulhar naquela história que nem nos incomodamos com a forma, apenas nos emocionamos com o conteúdo!
"Judy" é um filme que já vimos, mas que servirá para sacramentar o renascimento de Zellweger - uma atriz que teve grandes momentos com o "Diário de Bridget Jones", com "Chicago" e o seu ápice com "Cold Mountain" (que, inclusive, lhe rendeu o Oscar de atriz coadjuvante em 2004). Mesmo exagerada e muitas vezes caricata, sua expressão corporal é impressionante - ela se contorce em sua dor íntima ao mesmo tempo em que se impõe na força de quem ainda tem um talento absurdo, mesmo insegura, mesmo infeliz! Renée Zellweger é tão favorita quanto Joaquin Phoenix com "Coringa" e é a principal razão para assistir "Judy"!
Up-date: "Judy" ganhou em uma categoria no Oscar 2020: Melhor Atriz!
"Julieta" é um filme de Pedro Almodóvar e isso, por si só, já nos prepara pelo que vem pela frente. Porém, Almodóvar vem surpreendendo - se não pela forma, pelo conteúdo. É impressionante como sua identidade como diretor está em cada frame, mas cada vez mais com um certo tom inventivo, agora carregando no drama e na densidade, saindo completamente da sua zona de conforto como roteirista - e vem funcionando.
A premissa é incrivelmente simples, já que o filme acompanha Julieta (Adriana Ugarte e depois Emma Suárez) que, ao longo de três décadas, tenta descobrir por que Antía (Priscilla Delgado e depois Blanca Parés), sua única filha, se afastou dela inesperadamente. Quando Julieta estava prestes a se mudar de Madrid para Portugal, um encontro inesperado a fez mudar de ideia e reviver sua relação como mãe. Ainda na Espanha, ela então começa a escrever uma carta para Antía, contando sua história e como se deu o relacionamento com os homens de sua vida. Confira o trailer:
Baseado em três contos do livro "Fugitiva", da vencedora do Prêmio Nobel Alice Munro, Almodóvar entrega seu talento na construção de uma personagem complexa, cheia de camadas e brilhantemente interpretado pela Emma Suárez - trabalho que lhe garantiu o prêmio Goya (o Oscar Espanhol em 2017). O interessante da performance de Suárez é que sua essência vai muito de encontro ao trabalho que Antônio Banderas teve em "Dor e Glória", onde ambosdesconstroem o personagem para encontrar no passado um sentido para lidar com o presente. Esse mergulho nostálgico, mas doloroso, está em cada detalhe - inclusive na escolha narrativa e na transição lírica que o diretor faz, aproximando o amargo da vida e suas profundas marcas de expressão já nascendo em um rosto jovem e se apoderando da sua versão mais madura.
O roteiro é, de fato, muito inteligente ao juntar as pontas soltas de uma história de vida com uma elegância impressionante. A quebra da linha temporal cria uma dinâmica interessante, conceitualmente pontuada por uma trilha sonora sombria (até over) - quase que antecipando os acontecimentos, mas adicionando sensações e sentimentos que vão da angústia até a culpa, do mistério ao óbvio, mesmo antes de entendermos exatamente o que está acontecendo e para onde a história vai nos guiar - é incrível como Almodóvar tem a capacidade de entregar as situações sem aquela pressa usual e ao mesmo tempo nos provocar curiosidade sem que percamos a paciência.
"Julieta" é na sua essência um filme de relações familiares. Um recorte de sentimentos (bons e ruins) que precisam ser revisitados para que a vida siga seu caminho natural. É um processo de amadurecimento do diretor que troca a ousadia de antes por uma serenidade profunda - sem perder o elemento provocativo das composições visuais e de suas mensagens mais poéticas e abstratas. É um "Almodóvar" - do tipo que o filme poderia ser uma pintura, mas que nos toca profundamente e que encontra na genialidade do diretor uma razão coerente para sua filmografia cada vez mais interiorizada, seja na figura de Julieta, da sua filha ou até do seu pai que repete justamente o mesmo ciclo que ela viveu.
Vale a pena para quem acompanha a carreira do diretor e para quem gosta da profundidade das relações e de como elas nos impactam.
"Julieta" é um filme de Pedro Almodóvar e isso, por si só, já nos prepara pelo que vem pela frente. Porém, Almodóvar vem surpreendendo - se não pela forma, pelo conteúdo. É impressionante como sua identidade como diretor está em cada frame, mas cada vez mais com um certo tom inventivo, agora carregando no drama e na densidade, saindo completamente da sua zona de conforto como roteirista - e vem funcionando.
A premissa é incrivelmente simples, já que o filme acompanha Julieta (Adriana Ugarte e depois Emma Suárez) que, ao longo de três décadas, tenta descobrir por que Antía (Priscilla Delgado e depois Blanca Parés), sua única filha, se afastou dela inesperadamente. Quando Julieta estava prestes a se mudar de Madrid para Portugal, um encontro inesperado a fez mudar de ideia e reviver sua relação como mãe. Ainda na Espanha, ela então começa a escrever uma carta para Antía, contando sua história e como se deu o relacionamento com os homens de sua vida. Confira o trailer:
Baseado em três contos do livro "Fugitiva", da vencedora do Prêmio Nobel Alice Munro, Almodóvar entrega seu talento na construção de uma personagem complexa, cheia de camadas e brilhantemente interpretado pela Emma Suárez - trabalho que lhe garantiu o prêmio Goya (o Oscar Espanhol em 2017). O interessante da performance de Suárez é que sua essência vai muito de encontro ao trabalho que Antônio Banderas teve em "Dor e Glória", onde ambosdesconstroem o personagem para encontrar no passado um sentido para lidar com o presente. Esse mergulho nostálgico, mas doloroso, está em cada detalhe - inclusive na escolha narrativa e na transição lírica que o diretor faz, aproximando o amargo da vida e suas profundas marcas de expressão já nascendo em um rosto jovem e se apoderando da sua versão mais madura.
O roteiro é, de fato, muito inteligente ao juntar as pontas soltas de uma história de vida com uma elegância impressionante. A quebra da linha temporal cria uma dinâmica interessante, conceitualmente pontuada por uma trilha sonora sombria (até over) - quase que antecipando os acontecimentos, mas adicionando sensações e sentimentos que vão da angústia até a culpa, do mistério ao óbvio, mesmo antes de entendermos exatamente o que está acontecendo e para onde a história vai nos guiar - é incrível como Almodóvar tem a capacidade de entregar as situações sem aquela pressa usual e ao mesmo tempo nos provocar curiosidade sem que percamos a paciência.
"Julieta" é na sua essência um filme de relações familiares. Um recorte de sentimentos (bons e ruins) que precisam ser revisitados para que a vida siga seu caminho natural. É um processo de amadurecimento do diretor que troca a ousadia de antes por uma serenidade profunda - sem perder o elemento provocativo das composições visuais e de suas mensagens mais poéticas e abstratas. É um "Almodóvar" - do tipo que o filme poderia ser uma pintura, mas que nos toca profundamente e que encontra na genialidade do diretor uma razão coerente para sua filmografia cada vez mais interiorizada, seja na figura de Julieta, da sua filha ou até do seu pai que repete justamente o mesmo ciclo que ela viveu.
Vale a pena para quem acompanha a carreira do diretor e para quem gosta da profundidade das relações e de como elas nos impactam.
Essa era uma história que merecia ser contada - e o interessante é que o protagonista não é exatamente um personagem que já conhecemos ou admiramos pela sua obra ou conquistas, embora essa percepção esteja completamente errada já que seu nome está diretamente ligado a dois fenômenos do esporte mundial: Venus e Serena Williams.
Motivado por uma visão clara do futuro brilhante de suas talentosas filhas e empregando métodos próprios e nada convencionais de treinamento, Richard (Will Smith) cria um plano detalhado para levar Venus e Serena Williams, das ruas de Compton, na Califórnia, para as quadras de todo o mundo, como lendas vivas do tênis. Profundamente comovente, o filme retrata a importância da família, da perseverança, do trabalho duro e da fé inabalável como instrumentos para alcançar o que para muitos parecia impossível e assim transformar para sempre a história de um esporte considerado até ali, branco e elitista. Confira o trailer:
Obviamente que assistimos esse excelente filme com aquela confortável sensação de que tudo vai dar certo no final, pois já conhecemos (mesmo que muitos superficialmente) a história de sucesso e o que vieram a representar Venus e Serena para o esporte mundial. Portanto, "King Richard" (que no Brasil ganhou o sugestivo e dispensável subtítulo de "Criando Campeãs") se trata de um filme sobre o que representou "a jornada" e não necessariamente "as conquistas"! O interessante, e um dos grandes acertos do roteiro, foi que o filme transformou essa jornada em um recorte bastante claro e importante de onde a trama poderia nos levar (e aqui assunto não é o esporte): o fato de termos duas personagens com um futuro brilhante pela frente, em momento algum impediu que o personagem título brilhasse - o foco é realmente o homem que nunca deixou de acreditar, de lutar, que errava tentando acertar e que, em muitos momentos, convivia com o medo de falhar como pai. Essa construção de camadas do personagem, brilhantemente interpretado por Smith, foi um verdadeiro golaço do roteirista estreante Zach Baylin (que vai assinar "Creed III" e que pode até surpreender como um dos indicados no próximo Oscar por esse trabalho).
Além de Will Smith, todo o elenco está impecável - é praticamente impossível não se apaixonar e depois torcer muito para as meninas tamanho é o carisma que a dinâmica familiar dos Williams traz. Saniyya Sidney como Venus e Demi Singleton como Serena são (e estão) incríveis, além, é claro, de mais um belíssimo trabalho da Aunjanue Ellis como Oracene 'Brandy' Williams. Existe um certo equilíbrio entre a leveza e a profundidade em diálogos que não fogem, em nenhum momento, de discussões duras (e delicadas) sobre racismo e desigualdade social - e esse mérito, sem dúvida, deve ser creditado aos atores.
Veja, o recente "O Quinto Set" também trabalha com muito cuidado e sensibilidade os dramas vividos pelos atletas e suas relações familiares fora das quadras (até com um tom mais independente da narrativa), mas talvez se distancie de "King Richard" por se tratar de uma obra de ficção - mesmo sendo cruelmente realista. Porém, também é preciso que se diga que o conceito visual da produção francesa, especialmente nos embates dentro das quadras, são infinitamente superiores ao que vemos aqui sob o comando do diretor Reinaldo Marcus Green. Essa talvez seja a única lacuna que "King Richard – Criando Campeãs" não conseguiu preencher - funciona bem no drama, mas perde no impacto visual da ação.
Cheio de curiosidades sobre os bastidores do tênis, o filme vai dialogar da mesma forma com aqueles que acompanham (e conhecem) o esporte e com outros que apenas se identificam com histórias de superação. Existe muita emoção na narrativa, algumas frases de efeito e um pouco de romantismo perante a jornada, mas te garanto: tudo isso funciona perfeitamente e só soma para a deliciosa experiência que é acompanhar a história de Richard e de Venus - o que deixa um enorme desafio pela frente: quem será capaz e quando a história de Serena será contada - porque o sarrafo agora está bem alto!
Vale cada segundo!
Up-date: "King Richard" foi indicado em seis categorias no Oscar 2022, ganhando em Melhor Ator.
Essa era uma história que merecia ser contada - e o interessante é que o protagonista não é exatamente um personagem que já conhecemos ou admiramos pela sua obra ou conquistas, embora essa percepção esteja completamente errada já que seu nome está diretamente ligado a dois fenômenos do esporte mundial: Venus e Serena Williams.
Motivado por uma visão clara do futuro brilhante de suas talentosas filhas e empregando métodos próprios e nada convencionais de treinamento, Richard (Will Smith) cria um plano detalhado para levar Venus e Serena Williams, das ruas de Compton, na Califórnia, para as quadras de todo o mundo, como lendas vivas do tênis. Profundamente comovente, o filme retrata a importância da família, da perseverança, do trabalho duro e da fé inabalável como instrumentos para alcançar o que para muitos parecia impossível e assim transformar para sempre a história de um esporte considerado até ali, branco e elitista. Confira o trailer:
Obviamente que assistimos esse excelente filme com aquela confortável sensação de que tudo vai dar certo no final, pois já conhecemos (mesmo que muitos superficialmente) a história de sucesso e o que vieram a representar Venus e Serena para o esporte mundial. Portanto, "King Richard" (que no Brasil ganhou o sugestivo e dispensável subtítulo de "Criando Campeãs") se trata de um filme sobre o que representou "a jornada" e não necessariamente "as conquistas"! O interessante, e um dos grandes acertos do roteiro, foi que o filme transformou essa jornada em um recorte bastante claro e importante de onde a trama poderia nos levar (e aqui assunto não é o esporte): o fato de termos duas personagens com um futuro brilhante pela frente, em momento algum impediu que o personagem título brilhasse - o foco é realmente o homem que nunca deixou de acreditar, de lutar, que errava tentando acertar e que, em muitos momentos, convivia com o medo de falhar como pai. Essa construção de camadas do personagem, brilhantemente interpretado por Smith, foi um verdadeiro golaço do roteirista estreante Zach Baylin (que vai assinar "Creed III" e que pode até surpreender como um dos indicados no próximo Oscar por esse trabalho).
Além de Will Smith, todo o elenco está impecável - é praticamente impossível não se apaixonar e depois torcer muito para as meninas tamanho é o carisma que a dinâmica familiar dos Williams traz. Saniyya Sidney como Venus e Demi Singleton como Serena são (e estão) incríveis, além, é claro, de mais um belíssimo trabalho da Aunjanue Ellis como Oracene 'Brandy' Williams. Existe um certo equilíbrio entre a leveza e a profundidade em diálogos que não fogem, em nenhum momento, de discussões duras (e delicadas) sobre racismo e desigualdade social - e esse mérito, sem dúvida, deve ser creditado aos atores.
Veja, o recente "O Quinto Set" também trabalha com muito cuidado e sensibilidade os dramas vividos pelos atletas e suas relações familiares fora das quadras (até com um tom mais independente da narrativa), mas talvez se distancie de "King Richard" por se tratar de uma obra de ficção - mesmo sendo cruelmente realista. Porém, também é preciso que se diga que o conceito visual da produção francesa, especialmente nos embates dentro das quadras, são infinitamente superiores ao que vemos aqui sob o comando do diretor Reinaldo Marcus Green. Essa talvez seja a única lacuna que "King Richard – Criando Campeãs" não conseguiu preencher - funciona bem no drama, mas perde no impacto visual da ação.
Cheio de curiosidades sobre os bastidores do tênis, o filme vai dialogar da mesma forma com aqueles que acompanham (e conhecem) o esporte e com outros que apenas se identificam com histórias de superação. Existe muita emoção na narrativa, algumas frases de efeito e um pouco de romantismo perante a jornada, mas te garanto: tudo isso funciona perfeitamente e só soma para a deliciosa experiência que é acompanhar a história de Richard e de Venus - o que deixa um enorme desafio pela frente: quem será capaz e quando a história de Serena será contada - porque o sarrafo agora está bem alto!
Vale cada segundo!
Up-date: "King Richard" foi indicado em seis categorias no Oscar 2022, ganhando em Melhor Ator.
A vida é feita de escolhas e talvez o maior mérito do premiado "La La Land" seja, justamente, criar uma conexão entre os nossos sonhos e objetivos pessoais (e profissionais), com as renúncias que temos que fazer para alcança-los - mesmo que isso doa no coração, mesmo que não tenhamos a certeza que fizemos a escolha certa!
O filme nos conta a história de Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling), uma atriz no início de sua carreira e um pianista que deseja abrir sua própria casa de jazz, para salvar o gênero musical de uma cidade que idolatra tudo, mas não valoriza nada. Se conhecendo sob circunstâncias inusitadas, eles acabam se apaixonando e acompanhamos seu relacionamento e suas escolhas através das mudanças de estação do ano – de Inverno a Inverno. Confira o trailer:
Quem assiste a primeira cena do filme pode até ter um impressão errada do que virá pela frente, mas vale a reflexão: aqui estamos falando de uma impressionante sequência em uma rodovia de Los Angeles. São centenas de carros em um dos engarrafamentos normais da região, com cada pessoa isolada em seu mundo, escutando seu tipo de música. Aos poucos, elas começam a deixar os veículos e cantar - são os aspirantes a artistas que peregrinam do mundo todo em direção ao sonho de fazer sucesso em Hollywood. Tanto a coreografia quanto o movimento de câmera criam uma dinâmica cinematográfica que funciona muito mais como uma homenagem aos clássicos musicais de outros tempos do que como uma cena imprescindível para o entendimento da trama - mas e daí? É lindo, porém o filme não será sobre isso - pelo menos não em sua "forma"!
Durante mais de duas horas, você vai assistir uma ou outra intervenção musical (até mais durante o prólogo para estabelecer o conceito narrativo). O fato é que o drama vai tomando conta do filme, priorizando um "conteúdo" que rapidamente dialoga com a audiência, entregando uma história que todos nós já vivemos, independente da área que escolhemos atuar ou quem não escolhemos amar – o que é até irônico, pois ninguém, de fato, tem essa escolha. Por outro lado, a escolha do talentoso diretor Damien Chazelle (do elogiado e inesquecível "Whiplash") em trazer para o seu elenco Ryan Gosling e Emma Stone, foi essencial. Ela está está encantadora, especialmente porque percebemos seu esforço para cantar e dançar - essa metáfora proposital de Chazelle é genial, pois só vamos conseguir nossas maiores conquistas quando sairmos da zona de conforto e Stone, aliás, provou essa tese ganhando o Oscar de Melhor Atriz pelo papel em 2017! Gosling segue a mesma linha, ele mal canta, é duro dançando, mas convence muito como pianista e como personagem que traz muito da introspecção (mérito dele em todos os sentidos) de Dean de "Namorados para Sempre"(ou "Blue Valentine").
Tecnicamente perfeito e artisticamente impressionante, "La La Land" é um filme que vai exigir certa sensibilidade para entender o seu subtexto. Não que seja um filme complicado ou "cabeça" demais, mas é nítido que ao mesmo tempo que se posiciona como uma homenagem ao cinema e ao jazz, ele também traz uma mensagem otimista sobre perseguir seus sonhos, independente do seu preço. Como em "Tick, Tick... Boom!" estamos expostos aos tropeços, as lágrimas deixadas pelo caminho e as pessoas que o destino nos apresenta na hora errada. Com um astral bacana e até com certa leveza, esse incrível roteiro, também de Chazelle, nos mostra a realidade, mesmo que enquadrada na fantasia e nas cores de um belo musical.
Vale muito o seu play!
Up-date: "La La Land" foi indicado a ganhou em quatorze categorias no Oscar 2017. Levando em seis categorias - inclusive dando a Damien Chazelle a honra de ser o diretor mais jovem da história (até ali) a ganhar o prêmio!
A vida é feita de escolhas e talvez o maior mérito do premiado "La La Land" seja, justamente, criar uma conexão entre os nossos sonhos e objetivos pessoais (e profissionais), com as renúncias que temos que fazer para alcança-los - mesmo que isso doa no coração, mesmo que não tenhamos a certeza que fizemos a escolha certa!
O filme nos conta a história de Mia (Emma Stone) e Sebastian (Ryan Gosling), uma atriz no início de sua carreira e um pianista que deseja abrir sua própria casa de jazz, para salvar o gênero musical de uma cidade que idolatra tudo, mas não valoriza nada. Se conhecendo sob circunstâncias inusitadas, eles acabam se apaixonando e acompanhamos seu relacionamento e suas escolhas através das mudanças de estação do ano – de Inverno a Inverno. Confira o trailer:
Quem assiste a primeira cena do filme pode até ter um impressão errada do que virá pela frente, mas vale a reflexão: aqui estamos falando de uma impressionante sequência em uma rodovia de Los Angeles. São centenas de carros em um dos engarrafamentos normais da região, com cada pessoa isolada em seu mundo, escutando seu tipo de música. Aos poucos, elas começam a deixar os veículos e cantar - são os aspirantes a artistas que peregrinam do mundo todo em direção ao sonho de fazer sucesso em Hollywood. Tanto a coreografia quanto o movimento de câmera criam uma dinâmica cinematográfica que funciona muito mais como uma homenagem aos clássicos musicais de outros tempos do que como uma cena imprescindível para o entendimento da trama - mas e daí? É lindo, porém o filme não será sobre isso - pelo menos não em sua "forma"!
Durante mais de duas horas, você vai assistir uma ou outra intervenção musical (até mais durante o prólogo para estabelecer o conceito narrativo). O fato é que o drama vai tomando conta do filme, priorizando um "conteúdo" que rapidamente dialoga com a audiência, entregando uma história que todos nós já vivemos, independente da área que escolhemos atuar ou quem não escolhemos amar – o que é até irônico, pois ninguém, de fato, tem essa escolha. Por outro lado, a escolha do talentoso diretor Damien Chazelle (do elogiado e inesquecível "Whiplash") em trazer para o seu elenco Ryan Gosling e Emma Stone, foi essencial. Ela está está encantadora, especialmente porque percebemos seu esforço para cantar e dançar - essa metáfora proposital de Chazelle é genial, pois só vamos conseguir nossas maiores conquistas quando sairmos da zona de conforto e Stone, aliás, provou essa tese ganhando o Oscar de Melhor Atriz pelo papel em 2017! Gosling segue a mesma linha, ele mal canta, é duro dançando, mas convence muito como pianista e como personagem que traz muito da introspecção (mérito dele em todos os sentidos) de Dean de "Namorados para Sempre"(ou "Blue Valentine").
Tecnicamente perfeito e artisticamente impressionante, "La La Land" é um filme que vai exigir certa sensibilidade para entender o seu subtexto. Não que seja um filme complicado ou "cabeça" demais, mas é nítido que ao mesmo tempo que se posiciona como uma homenagem ao cinema e ao jazz, ele também traz uma mensagem otimista sobre perseguir seus sonhos, independente do seu preço. Como em "Tick, Tick... Boom!" estamos expostos aos tropeços, as lágrimas deixadas pelo caminho e as pessoas que o destino nos apresenta na hora errada. Com um astral bacana e até com certa leveza, esse incrível roteiro, também de Chazelle, nos mostra a realidade, mesmo que enquadrada na fantasia e nas cores de um belo musical.
Vale muito o seu play!
Up-date: "La La Land" foi indicado a ganhou em quatorze categorias no Oscar 2017. Levando em seis categorias - inclusive dando a Damien Chazelle a honra de ser o diretor mais jovem da história (até ali) a ganhar o prêmio!
"Lakers: Hora de Vencer" é simplesmente sensacional! Mesmo com alguns excessos conceituais, é inegável que a produção da HBO é um sopro de criatividade e autenticidade na construção de uma narrativa digna do tamanho da representatividade que o Lakers e seus personagens têm para o esporte americano e mundial. Mas a série é para o amante do basquete? Creio que não, mas para quem tem mais de 40 anos e um certo conhecimento sobre o esporte, a experiência será como poucas - além da nostalgia, um excelente entretenimento!
A série, basicamente, gira em torno do novo proprietário do Los Angeles Lakers, Jerry Buss (John C. Reilly) e toda a celebração pela escolha do então novato Earvin "Magic" Johnson (Quincy Isaiah). Além de Magic, outros jogadores icônicos fazem parte da formação, como o pivô Kareem Abdul-Jabbar (Solomon Hughes), que participaram do processo de reconstrução do time, transformando o Lakers em uma das franquias mais rentáveis e valiosas do esporte americano. Confira o trailer:
A produção de Adam McKay, Max Borenstein e Jim Hecht se apoia no livro "Showtime: Magic, Kareem, Riley, and the Los Angeles Lakers Dynasty of the 1980s", de Jeff Pearlman, para dramatizar a reformulação da franquia e a formação do time que se tornou referência na década de 1980 - os mais antigos ainda vão se lembrar do primeiro jogo, ainda no PC, "Lakers x Celtics", e que depois, em 1991, a Electronic Arts lançou com enorme sucesso para o Mega Drive (mas essa é uma outra história). O fato que conecta essas duas pontas é que se em 1979, o futuro da NBA parecia sombrio, sofrendo com a queda de audiência, graves problemas financeiros e as sempre presentes tensões de um Estados Unidos racista, e foi na ascensão do Lakers (de "Magic" Johnson) e sua rivalidade com o Boston Celtics (de Larry Bird) que ajudaram a mudar as coisas.
Quase documental, e McKay adora construir seu conceito narrativo e visual misturando as duas linguagens, a série tem uma fluidez que poucas vezes encontrei em uma adaptação de uma história real e que tem um recorte bastante extenso de tempo. Só para se ter uma ideia, a temporada da NBA tem 82 jogos e se vemos 5 durante os 10 episódios, é muito - o mais incrível, é que a ação em quadra não faz a menor falta porque o foco da história não está no que acontecia durante os jogos, mas sim nas pessoas que faziam o esporte funcionar - as interações nos bastidores são incríveis. Veja, a série da HBO consegue apoiar todo seu drama nas particularidades de seus personagens e nas performances de um elenco primoroso, de forma que a ausência de um foco narrativo (seja na quadra, no negócio, ou na vida pessoal dos atletas) se torna irrelevante para o entendimento daquele universo e das peculiaridades de uma linha temporal muito bem planejada no roteiro.
John C. Reilly está impecável (separa o Emmy, é sério!). Os estreantes Quincy Isaiah e Solomon Hughes parecem veteranos - a química entre eles transcende a interpretação e acaba na quadra como se fossem, na verdade, dois jogadores profissionais de basquete. Acertar na representação dessas duas figuras tão emblemáticas para o esporte era essencial para que todo o argumento da série funcionasse - e não por acaso ela terá mais temporadas (ainda bem!). Dito isso, é simples indicar "Lakers: Hora de Vencer" se você gostou de "Arremesso Final" da Netflix - mesmo que o gênero seja outro, a jornada é basicamente a mesma, com personagens complexos, momentos de tensão esportiva, de decisões complicadas e de relatos repletos de curiosidade e emoção!
Vale muito a pena!
"Lakers: Hora de Vencer" é simplesmente sensacional! Mesmo com alguns excessos conceituais, é inegável que a produção da HBO é um sopro de criatividade e autenticidade na construção de uma narrativa digna do tamanho da representatividade que o Lakers e seus personagens têm para o esporte americano e mundial. Mas a série é para o amante do basquete? Creio que não, mas para quem tem mais de 40 anos e um certo conhecimento sobre o esporte, a experiência será como poucas - além da nostalgia, um excelente entretenimento!
A série, basicamente, gira em torno do novo proprietário do Los Angeles Lakers, Jerry Buss (John C. Reilly) e toda a celebração pela escolha do então novato Earvin "Magic" Johnson (Quincy Isaiah). Além de Magic, outros jogadores icônicos fazem parte da formação, como o pivô Kareem Abdul-Jabbar (Solomon Hughes), que participaram do processo de reconstrução do time, transformando o Lakers em uma das franquias mais rentáveis e valiosas do esporte americano. Confira o trailer:
A produção de Adam McKay, Max Borenstein e Jim Hecht se apoia no livro "Showtime: Magic, Kareem, Riley, and the Los Angeles Lakers Dynasty of the 1980s", de Jeff Pearlman, para dramatizar a reformulação da franquia e a formação do time que se tornou referência na década de 1980 - os mais antigos ainda vão se lembrar do primeiro jogo, ainda no PC, "Lakers x Celtics", e que depois, em 1991, a Electronic Arts lançou com enorme sucesso para o Mega Drive (mas essa é uma outra história). O fato que conecta essas duas pontas é que se em 1979, o futuro da NBA parecia sombrio, sofrendo com a queda de audiência, graves problemas financeiros e as sempre presentes tensões de um Estados Unidos racista, e foi na ascensão do Lakers (de "Magic" Johnson) e sua rivalidade com o Boston Celtics (de Larry Bird) que ajudaram a mudar as coisas.
Quase documental, e McKay adora construir seu conceito narrativo e visual misturando as duas linguagens, a série tem uma fluidez que poucas vezes encontrei em uma adaptação de uma história real e que tem um recorte bastante extenso de tempo. Só para se ter uma ideia, a temporada da NBA tem 82 jogos e se vemos 5 durante os 10 episódios, é muito - o mais incrível, é que a ação em quadra não faz a menor falta porque o foco da história não está no que acontecia durante os jogos, mas sim nas pessoas que faziam o esporte funcionar - as interações nos bastidores são incríveis. Veja, a série da HBO consegue apoiar todo seu drama nas particularidades de seus personagens e nas performances de um elenco primoroso, de forma que a ausência de um foco narrativo (seja na quadra, no negócio, ou na vida pessoal dos atletas) se torna irrelevante para o entendimento daquele universo e das peculiaridades de uma linha temporal muito bem planejada no roteiro.
John C. Reilly está impecável (separa o Emmy, é sério!). Os estreantes Quincy Isaiah e Solomon Hughes parecem veteranos - a química entre eles transcende a interpretação e acaba na quadra como se fossem, na verdade, dois jogadores profissionais de basquete. Acertar na representação dessas duas figuras tão emblemáticas para o esporte era essencial para que todo o argumento da série funcionasse - e não por acaso ela terá mais temporadas (ainda bem!). Dito isso, é simples indicar "Lakers: Hora de Vencer" se você gostou de "Arremesso Final" da Netflix - mesmo que o gênero seja outro, a jornada é basicamente a mesma, com personagens complexos, momentos de tensão esportiva, de decisões complicadas e de relatos repletos de curiosidade e emoção!
Vale muito a pena!
"Lance" é um dos melhores documentários sobre um atleta que já assisti - pela coragem do protagonista (mesmo que possa soar oportunista), o ex-ciclista Lance Armstrong, e pela capacidade da diretora Marina Zenovich em construir uma narrativa completa, isenta, dinâmica e muito impactante. Mais ou menos como assistimos em "Tiger" da HBO.
"Lance" é um crônica fascinante, reveladora e abrangente sobre um dos mais inspiradores, e também infames, atletas de todos os tempos. Através de extensas entrevistas e conversas com Lance Armstrong, essa minissérie em dois episódios produzida pela ESPN conta a jornada completa de ascensão e queda do maior ciclista da história - pelo menos até ele admitir o uso de substâncias proibidas que aumentavam sua performance nas competições. Confira o trailer (em inglês):
Lance Armstrong era daqueles raros atletas onde seu nome se confundia com o esporte que praticava - algo como Jordan para o basquete, Pelé para o Futebol, Tiger Woods para o Golfe e Ayrton Senna para a Fórmula 1. Armstrong era sinônimo de ciclismo - afinal ele foi o único atleta da história a vencer o Tour de France sete vezes! A grande questão é que Armstrong também é considerado a maior farsa do esporte - talvez ao lado de Ben Johnson, e justamente pelo mesmo problema: o doping!
Armstrong saiu da posição de fenômeno para chegar ao fundo do poço em 48 horas, depois de uma denúncia de um outro ciclista americano (que também havia sido pego do doping) e uma longa investigação sobre o uso de uma droga chamada EPO em competições de ciclismo, principalmente na Europa - essa droga, aliás, quando usada em doses adequadas, não aparecia nos testes. O que se dá a entender que todos trapaceavam, uns melhores que outros, mas todos!
Enquanto Armstrong dá a sua versão para diferentes passagens da sua carreira, Zenovich mescla esses depoimentos com as falas de ex-companheiros de equipe, rivais, jornalistas, familiares, empresários e amigos íntimos, além de inúmeras imagens de arquivo que servem para ilustrar três pontos de vista da mesma história. O interessante é que, por mais que Armstrong pareça estar sendo sincero hoje, ele não tem a menor credibilidade de fala - talvez o único momento que não deixa nenhuma dúvida sobre seu sentimento é quando ele conta sobre a visita que fez ao alemão Jan Ulrich, seu grande rival no esporte. De fato emocionante.
Diferente do que eu li por aí, "Lance" não me pareceu uma tentativa de ressignificar o valor de Armstrong como ser humano. Muito pelo contrário, achei que o documentário não alivia em nenhuma passagem da vida do atleta - inclusive quando superou o câncer, criou a sua Fundação para apoiar pessoas com a doença e depois ainda foi duramente acusado de usar dessa sua luta como escudo para minimizar suas falhas de caráter. Agora vale uma observação: você estará julgando cada uma das palavras de Armstrong, das suas atitudes e da sua postura - é impossível não fazer isso. Mas tenha certeza de uma coisa: o veredito final sobre tudo que você vai ouvir ele falar, vai variar de pessoa para pessoa - o que torna a experiência de assistir "Lance" ainda mais sensacional.
Se você gostou de "Last Dance", "Tiger" e até "Schumacher", esse documentário é imperdível!
"Lance" é um dos melhores documentários sobre um atleta que já assisti - pela coragem do protagonista (mesmo que possa soar oportunista), o ex-ciclista Lance Armstrong, e pela capacidade da diretora Marina Zenovich em construir uma narrativa completa, isenta, dinâmica e muito impactante. Mais ou menos como assistimos em "Tiger" da HBO.
"Lance" é um crônica fascinante, reveladora e abrangente sobre um dos mais inspiradores, e também infames, atletas de todos os tempos. Através de extensas entrevistas e conversas com Lance Armstrong, essa minissérie em dois episódios produzida pela ESPN conta a jornada completa de ascensão e queda do maior ciclista da história - pelo menos até ele admitir o uso de substâncias proibidas que aumentavam sua performance nas competições. Confira o trailer (em inglês):
Lance Armstrong era daqueles raros atletas onde seu nome se confundia com o esporte que praticava - algo como Jordan para o basquete, Pelé para o Futebol, Tiger Woods para o Golfe e Ayrton Senna para a Fórmula 1. Armstrong era sinônimo de ciclismo - afinal ele foi o único atleta da história a vencer o Tour de France sete vezes! A grande questão é que Armstrong também é considerado a maior farsa do esporte - talvez ao lado de Ben Johnson, e justamente pelo mesmo problema: o doping!
Armstrong saiu da posição de fenômeno para chegar ao fundo do poço em 48 horas, depois de uma denúncia de um outro ciclista americano (que também havia sido pego do doping) e uma longa investigação sobre o uso de uma droga chamada EPO em competições de ciclismo, principalmente na Europa - essa droga, aliás, quando usada em doses adequadas, não aparecia nos testes. O que se dá a entender que todos trapaceavam, uns melhores que outros, mas todos!
Enquanto Armstrong dá a sua versão para diferentes passagens da sua carreira, Zenovich mescla esses depoimentos com as falas de ex-companheiros de equipe, rivais, jornalistas, familiares, empresários e amigos íntimos, além de inúmeras imagens de arquivo que servem para ilustrar três pontos de vista da mesma história. O interessante é que, por mais que Armstrong pareça estar sendo sincero hoje, ele não tem a menor credibilidade de fala - talvez o único momento que não deixa nenhuma dúvida sobre seu sentimento é quando ele conta sobre a visita que fez ao alemão Jan Ulrich, seu grande rival no esporte. De fato emocionante.
Diferente do que eu li por aí, "Lance" não me pareceu uma tentativa de ressignificar o valor de Armstrong como ser humano. Muito pelo contrário, achei que o documentário não alivia em nenhuma passagem da vida do atleta - inclusive quando superou o câncer, criou a sua Fundação para apoiar pessoas com a doença e depois ainda foi duramente acusado de usar dessa sua luta como escudo para minimizar suas falhas de caráter. Agora vale uma observação: você estará julgando cada uma das palavras de Armstrong, das suas atitudes e da sua postura - é impossível não fazer isso. Mas tenha certeza de uma coisa: o veredito final sobre tudo que você vai ouvir ele falar, vai variar de pessoa para pessoa - o que torna a experiência de assistir "Lance" ainda mais sensacional.
Se você gostou de "Last Dance", "Tiger" e até "Schumacher", esse documentário é imperdível!