"I May Destroy You" é aquele típico fenômeno que não conseguimos explicar a razão pela qual ainda não está sendo aplaudida de pé por todo mundo, como rapidamente aconteceu com Chernobyl, por exemplo. A série é desconfortante, pesada, profunda e muito provocadora; mas em nenhum momento precisa agredir para alcançar o seu objetivo - ou melhor, talvez uma ou outra cena, para uma audiência mais conservadora, possa chocar pela naturalidade, mas nunca pela falta de propósito ao trazer inúmeros assuntos tão delicados (e importantes)!
Arabella Essiedu (Michaela Coel) é uma jovem escritora que foi descoberta no Twitter e que acaba de ser contratada por uma editora de vanguarda para escrever seu livro. Após passar uma breve temporada na Itália trabalhando na obra, Anabella retorna para Londres e acaba sofrendo um bloqueio criativo. Pressionada por um cronograma super apertado, ela decide sair para relaxar com os amigos e, uma hora depois, voltar para frente do seu laptop e finalizar o trabalho. Acontece que essa noite marca a vida de Anabella para sempre, já que ela acorda em sua casa e não se lembra exatamente o que aconteceu, apenas alguns flashes deixam a entender que ela foi drogada e abusada sexualmente! Confira o trailer:
De fato, você não vai encontrar uma série leve, mas pode ter a mais absoluta certeza que ela não vai te poupar de várias reflexões e, da maneira mais inteligente que um roteiro pode entregar, te colocar em uma posição de vulnerabilidade intelectual ao expôr o que o ser humano tem de bom e de ruim, sem ao menos ser capaz de definir a linha tênue que justifique essa diferença. A série fala sobre consentimento sexual e racismo, claro, mas ela vai muito além e graças a uma construção de personagem impecável é possível entender que nem tudo é tão racional ou fácil de se explicar. Posso dizer que através das inúmeras camadas que vamos conhecendo, tanto de Anabella quanto dos seus dois melhores amigos, Terry (Weruche Opia) e Kwame (Paapa Essiedu), é possível perceber que antes de tudo somos imperfeitos, mas que nem por isso seremos absolvidos de algumas atitudes ou posturas perante o outro! Olha, vale muito seu play, now!
"I may destroy you" é uma co-produção entre BBC e da HBO criada pela própria Michaela Coel. Coel é uma atriz versátil que fez muito sucesso como comediante, mas que também foi capaz de entregar personagens dramáticos com a mesma competência. Na série, ela traz para discussão várias releituras auto-biográficas o que, naturalmente, causam um incômodo ainda maior. Os episódios de 30 minutos são cirurgicamente precisos, embora a narrativa gire entorno do que realmente aconteceu na noite em que Anabella saiu com os amigos e que, possivelmente, foi abusada, outros elementos ajudam a construir uma história de personagens. Não por acaso existem quebras na linha do tempo, mas todas elas servem para encaixar uma ou outra peça desse enorme quebra-cabeça que forma a personalidade da protagonista. Ao discutir amizade, influência nas redes sociais, relacionamentos, masculinidade, machismo, feminismo, raça, gênero, carreira, arte e muito mais, usando sempre um tom bastante existencialista, "I may destroy you" se coloca em um patamar que poucas vezes encontramos em uma série - talvez seja uma espécie de amadurecimento (se é que é possível) de "Euphoria", também da HBO.
Muito bem dirigida por Sam Miller (Luther), mas com a própria Michaela Coel como co-diretora (em 9 dos 12 episódios da temporada), fica fácil perceber como o conceito visual é de uma elegância estética impressionante, mas que nunca alivia no conteúdo. Eu te convido a reparar no 9º episódio quando a psicóloga de Anabella desenha em um simples pedaço de papel, uma explicação extremamente profunda de como, nos dias de hoje, é difícil abraçar a nossa essência em relação a performance que somos obrigados a ter em um mundo de espetáculos como nas redes sociais. É incrível a delicadeza como essa cena foi dirigida e o impacto que ela nos causa - um excelente exemplo de como direção e roteiro estão 100% alinhados!
Embora a série tenha uma conclusão bastante satisfatória, fica claro que existe assunto para uma segunda temporada, porém nenhuma posição, tanto da HBO quanto da BBC, foi confirmada. Portanto, eu sugiro que você aproveite muito, cada um dos episódios de "I may destroy you", pois a série é de fato imperdível - com uma trilha sonora sensacional e performances incríveis de todo elenco. Eu sou capaz de apostar que ela vem muito forte na temporada de premiações de 2021.
Tudo é bom, mas nada do que vemos ali é fácil! Vale muito a pena! Mesmo!
"I May Destroy You" é aquele típico fenômeno que não conseguimos explicar a razão pela qual ainda não está sendo aplaudida de pé por todo mundo, como rapidamente aconteceu com Chernobyl, por exemplo. A série é desconfortante, pesada, profunda e muito provocadora; mas em nenhum momento precisa agredir para alcançar o seu objetivo - ou melhor, talvez uma ou outra cena, para uma audiência mais conservadora, possa chocar pela naturalidade, mas nunca pela falta de propósito ao trazer inúmeros assuntos tão delicados (e importantes)!
Arabella Essiedu (Michaela Coel) é uma jovem escritora que foi descoberta no Twitter e que acaba de ser contratada por uma editora de vanguarda para escrever seu livro. Após passar uma breve temporada na Itália trabalhando na obra, Anabella retorna para Londres e acaba sofrendo um bloqueio criativo. Pressionada por um cronograma super apertado, ela decide sair para relaxar com os amigos e, uma hora depois, voltar para frente do seu laptop e finalizar o trabalho. Acontece que essa noite marca a vida de Anabella para sempre, já que ela acorda em sua casa e não se lembra exatamente o que aconteceu, apenas alguns flashes deixam a entender que ela foi drogada e abusada sexualmente! Confira o trailer:
De fato, você não vai encontrar uma série leve, mas pode ter a mais absoluta certeza que ela não vai te poupar de várias reflexões e, da maneira mais inteligente que um roteiro pode entregar, te colocar em uma posição de vulnerabilidade intelectual ao expôr o que o ser humano tem de bom e de ruim, sem ao menos ser capaz de definir a linha tênue que justifique essa diferença. A série fala sobre consentimento sexual e racismo, claro, mas ela vai muito além e graças a uma construção de personagem impecável é possível entender que nem tudo é tão racional ou fácil de se explicar. Posso dizer que através das inúmeras camadas que vamos conhecendo, tanto de Anabella quanto dos seus dois melhores amigos, Terry (Weruche Opia) e Kwame (Paapa Essiedu), é possível perceber que antes de tudo somos imperfeitos, mas que nem por isso seremos absolvidos de algumas atitudes ou posturas perante o outro! Olha, vale muito seu play, now!
"I may destroy you" é uma co-produção entre BBC e da HBO criada pela própria Michaela Coel. Coel é uma atriz versátil que fez muito sucesso como comediante, mas que também foi capaz de entregar personagens dramáticos com a mesma competência. Na série, ela traz para discussão várias releituras auto-biográficas o que, naturalmente, causam um incômodo ainda maior. Os episódios de 30 minutos são cirurgicamente precisos, embora a narrativa gire entorno do que realmente aconteceu na noite em que Anabella saiu com os amigos e que, possivelmente, foi abusada, outros elementos ajudam a construir uma história de personagens. Não por acaso existem quebras na linha do tempo, mas todas elas servem para encaixar uma ou outra peça desse enorme quebra-cabeça que forma a personalidade da protagonista. Ao discutir amizade, influência nas redes sociais, relacionamentos, masculinidade, machismo, feminismo, raça, gênero, carreira, arte e muito mais, usando sempre um tom bastante existencialista, "I may destroy you" se coloca em um patamar que poucas vezes encontramos em uma série - talvez seja uma espécie de amadurecimento (se é que é possível) de "Euphoria", também da HBO.
Muito bem dirigida por Sam Miller (Luther), mas com a própria Michaela Coel como co-diretora (em 9 dos 12 episódios da temporada), fica fácil perceber como o conceito visual é de uma elegância estética impressionante, mas que nunca alivia no conteúdo. Eu te convido a reparar no 9º episódio quando a psicóloga de Anabella desenha em um simples pedaço de papel, uma explicação extremamente profunda de como, nos dias de hoje, é difícil abraçar a nossa essência em relação a performance que somos obrigados a ter em um mundo de espetáculos como nas redes sociais. É incrível a delicadeza como essa cena foi dirigida e o impacto que ela nos causa - um excelente exemplo de como direção e roteiro estão 100% alinhados!
Embora a série tenha uma conclusão bastante satisfatória, fica claro que existe assunto para uma segunda temporada, porém nenhuma posição, tanto da HBO quanto da BBC, foi confirmada. Portanto, eu sugiro que você aproveite muito, cada um dos episódios de "I may destroy you", pois a série é de fato imperdível - com uma trilha sonora sensacional e performances incríveis de todo elenco. Eu sou capaz de apostar que ela vem muito forte na temporada de premiações de 2021.
Tudo é bom, mas nada do que vemos ali é fácil! Vale muito a pena! Mesmo!
"Inacreditável" é o tipo de história que só te surpreende com o passar dos episódios, então, se você for assistir, sugiro que você leia todo esse review antes para entender como funciona a estrutura da minissérie.
Com 8 episódios de 45 minutos de média, "Inacreditável" pode não agradar logo de cara, até porque a estratégia de lançamento não foi, na verdade, 100% honesta! A Netflix apresentou o projeto como uma minissérie que acompanharia a história de uma jovem chamada Marie Adler (Kaitlyn Dever) que, ao relatar um suposto estupro, é desacreditada pela polícia de seu estado, gerando uma série de complicações na sua vida por muito tempo. De fato essa trama está em "Inacreditável", mas ela é só o ponto de partida para um arco muito maior: o trabalho de investigação das detetives Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette) para encontrar um estuprador serial! Na realidade, são duas linhas temporais distintas, uma em 2008, mostrando o reflexo das escolhas de Adler após seus depoimentos para a polícia e outra em 2011, acompanhando o complicado trabalho de duas detetives de regiões diferentes, caçando o mesmo criminoso.
É preciso dizer que, à partir do momento que você entende o conceito narrativo da série, tudo se encaixa e a experiência melhora muito, mas isso não é imediato - eu diria que durante o terceiro episódio, a estrutura vai ficando mais clara e a história começa a fazer mais sentido e é aí que vem aquela ótima sensação de que valeu muito a pena ter dado o play!
Baseada na reportagem “An unbelivable story of rape” (Uma inacreditável história de estupro), escrita por T. Christian Miller e Ken Armstrong em 2015 - que inclusive lhes rendeu prêmio Pulitzer - o roteiro de "Inacreditável" acaba sendo muito inteligente em separar as histórias em duas linhas temporais distintas que se unem no final (isso não é spoiler, isso é óbvio). Em 2008, ficamos com o caso "mal contado" de Marie - e realmente é difícil cravar o que realmente aconteceu com ela. Mas isso não importa, porque o foco dessa linha é mostrar os reflexos que o frágil sistema policial (e jurídico) dos EUA, podem causar em pessoas que sofrem estupro. Quando Marie é forçada a contar sua experiência várias vezes, para diferentes detetives, que a cada versão vão ficando mais hostis, céticos e menos inclinados a acreditar nela, ela resolve assumir que inventou a história com medo do que poderia acontecer caso nada fosse comprovado. Ela inventou mesmo ou foi realmente atacada? - o grande valor do roteiro é brincar com nossa imaginação e nos forçar ao julgamento, então se permita. O fato é que depois disso as coisas só pioram para ela, provocando sensações muito parecidas com as que sentimos assistindo "Olhos que condenam"! Paralelamente, já três anos mais tarde (é preciso ficar atento nas legendas), somos apresentados à duas investigadoras que não se conhecem por trabalhar em delegacias diferentes, mas que investigam crimes muito semelhantes de estupro, e que nos fazem lembrar do depoimento de Marie. Essa linha trás elementos de gênero policial muito mais próximos de "Manhunt: Unabomber" por exemplo. É de se elogiar a química entre as duas protagonistas femininas da minissérie: a investigadora Duvall é mais reservada e calculista, enquanto a experiente Rasmussen é uma bomba relógio de emoções.
Admito que, para mim, 6 episódios seriam capazes de contar a mesma história sem tanta enrolação, mas é justificável quando o maior objetivo de uma série policial é criar a tensão até se descobrir quem é o criminoso - e aqui dou mais um ponto para o roteiro: ele não rouba no jogo! A sequência de fatos é coerente, real e angustiante, apresenta possibilidades, mas também as descarta rapidamente sem causar nenhum ruído na história - tudo fica redondo, mesmo quando o plot principal parece escapar. O fato de ser basado em fatos reais ajuda muito nesse desenvolvimento e os roteiristas foram inteligentes em usar essas "derrapadas" à favor da trama.
"Inacreditável" não é uma história fácil e imagino que deve ter um peso ainda maior para as mulheres, pois a violência é velada e as vítimas são pessoas comuns da comunidade - sem nenhum tipo de estereótipo! Dói como ser humano, claro, mas ao olhar para lado e ver sua filha brincando vem um sentimento ainda mais forte. É revoltante como a sociedade (no geral) lida com o assunto e quem sofre acaba sendo a que mais é questionada. É a que tem que provar, é a que precisa ser coerente no discurso mesmo estando destroçada por dentro... olha, é preciso ter estômago! Mais dois destaques antes de finalizar: Kaitlyn Dever, como Marie acertou no tom, na forma, no silêncio - ela sofre com os olhos, é possível sentir sua dor! E os episódios 5 e 7 merecem atenção, eles valem a minissérie - ótimos diálogos e interpretações dignas de prêmio! Não perca tempo... play!!!!
"Inacreditável" é o tipo de história que só te surpreende com o passar dos episódios, então, se você for assistir, sugiro que você leia todo esse review antes para entender como funciona a estrutura da minissérie.
Com 8 episódios de 45 minutos de média, "Inacreditável" pode não agradar logo de cara, até porque a estratégia de lançamento não foi, na verdade, 100% honesta! A Netflix apresentou o projeto como uma minissérie que acompanharia a história de uma jovem chamada Marie Adler (Kaitlyn Dever) que, ao relatar um suposto estupro, é desacreditada pela polícia de seu estado, gerando uma série de complicações na sua vida por muito tempo. De fato essa trama está em "Inacreditável", mas ela é só o ponto de partida para um arco muito maior: o trabalho de investigação das detetives Karen Duvall (Merritt Wever) e Grace Rasmussen (Toni Collette) para encontrar um estuprador serial! Na realidade, são duas linhas temporais distintas, uma em 2008, mostrando o reflexo das escolhas de Adler após seus depoimentos para a polícia e outra em 2011, acompanhando o complicado trabalho de duas detetives de regiões diferentes, caçando o mesmo criminoso.
É preciso dizer que, à partir do momento que você entende o conceito narrativo da série, tudo se encaixa e a experiência melhora muito, mas isso não é imediato - eu diria que durante o terceiro episódio, a estrutura vai ficando mais clara e a história começa a fazer mais sentido e é aí que vem aquela ótima sensação de que valeu muito a pena ter dado o play!
Baseada na reportagem “An unbelivable story of rape” (Uma inacreditável história de estupro), escrita por T. Christian Miller e Ken Armstrong em 2015 - que inclusive lhes rendeu prêmio Pulitzer - o roteiro de "Inacreditável" acaba sendo muito inteligente em separar as histórias em duas linhas temporais distintas que se unem no final (isso não é spoiler, isso é óbvio). Em 2008, ficamos com o caso "mal contado" de Marie - e realmente é difícil cravar o que realmente aconteceu com ela. Mas isso não importa, porque o foco dessa linha é mostrar os reflexos que o frágil sistema policial (e jurídico) dos EUA, podem causar em pessoas que sofrem estupro. Quando Marie é forçada a contar sua experiência várias vezes, para diferentes detetives, que a cada versão vão ficando mais hostis, céticos e menos inclinados a acreditar nela, ela resolve assumir que inventou a história com medo do que poderia acontecer caso nada fosse comprovado. Ela inventou mesmo ou foi realmente atacada? - o grande valor do roteiro é brincar com nossa imaginação e nos forçar ao julgamento, então se permita. O fato é que depois disso as coisas só pioram para ela, provocando sensações muito parecidas com as que sentimos assistindo "Olhos que condenam"! Paralelamente, já três anos mais tarde (é preciso ficar atento nas legendas), somos apresentados à duas investigadoras que não se conhecem por trabalhar em delegacias diferentes, mas que investigam crimes muito semelhantes de estupro, e que nos fazem lembrar do depoimento de Marie. Essa linha trás elementos de gênero policial muito mais próximos de "Manhunt: Unabomber" por exemplo. É de se elogiar a química entre as duas protagonistas femininas da minissérie: a investigadora Duvall é mais reservada e calculista, enquanto a experiente Rasmussen é uma bomba relógio de emoções.
Admito que, para mim, 6 episódios seriam capazes de contar a mesma história sem tanta enrolação, mas é justificável quando o maior objetivo de uma série policial é criar a tensão até se descobrir quem é o criminoso - e aqui dou mais um ponto para o roteiro: ele não rouba no jogo! A sequência de fatos é coerente, real e angustiante, apresenta possibilidades, mas também as descarta rapidamente sem causar nenhum ruído na história - tudo fica redondo, mesmo quando o plot principal parece escapar. O fato de ser basado em fatos reais ajuda muito nesse desenvolvimento e os roteiristas foram inteligentes em usar essas "derrapadas" à favor da trama.
"Inacreditável" não é uma história fácil e imagino que deve ter um peso ainda maior para as mulheres, pois a violência é velada e as vítimas são pessoas comuns da comunidade - sem nenhum tipo de estereótipo! Dói como ser humano, claro, mas ao olhar para lado e ver sua filha brincando vem um sentimento ainda mais forte. É revoltante como a sociedade (no geral) lida com o assunto e quem sofre acaba sendo a que mais é questionada. É a que tem que provar, é a que precisa ser coerente no discurso mesmo estando destroçada por dentro... olha, é preciso ter estômago! Mais dois destaques antes de finalizar: Kaitlyn Dever, como Marie acertou no tom, na forma, no silêncio - ela sofre com os olhos, é possível sentir sua dor! E os episódios 5 e 7 merecem atenção, eles valem a minissérie - ótimos diálogos e interpretações dignas de prêmio! Não perca tempo... play!!!!
"Jeffrey Epstein: Poder e Perversão" é mais uma daquelas histórias, como a que vimos em "Deixando Neverland" (da HBO), que nos embrulha o estômago a cada minuto ou a cada descoberta. Como comentamos em um artigo no nosso blog no começo de 2020, chamado: "Jeffrey Epstein, guardem esse nome", a Netflix seguiu a tendência e resolveu produzir um documentário dividido em quatro episódios sobre os detalhes mais secretos do esquema de pirâmide sexual com menores de Epstein, que envolviam poderosos políticos, empresários, acadêmicos e até celebridades. O livro de James Patterson “Filthy Rich: The Shocking True Story of Jeffrey Epstein” serviu como base para o desenvolvimento da minissérie onde nos deparamos com o lado mais sombrio de um ser humano que acreditava que, com sua fortuna, sairia ileso de qualquer situação que o comprometesse (e ele não era o único!). Confira o trailer:
Se no documentário da HBO o incômodo vinha dos depoimentos impressionantes dos jovens abusados por uma celebridade tão importante como Michael Jackson, já em "Jeffrey Epstein: Poder e Perversão", vemos claramente o mindset de impunidade que o dinheiro, o poder e a influência causam no ser humano e as marcas que deixam nas suas vítimas. O mais interessante desse roteiro da dupla John Connolly e Tom Malloy, é a forma como a história vai se construindo através de uma narrativa não linear - um conceito que vimos recentemente em outra produção da Netflix: "Arremesso Final" e que funcionou muito bem em uma jornada tão carregada de drama como essa. O "vai e volta" dos fatos vai nos situando em uma linha do tempo cheia de recortes e fatos isolados que, juntos, vão nos corroendo com uma força absurda - são tantos detalhes que fica impossível não reconstruir as cenas de abuso e perversão mentalmente - e isso é extremamente cruel. Imaginar crianças de 12, 14 anos, compradas com duzentos dólares, sendo abusadas por Epstein com tanta recorrência, chega parecer mentira. E não era!
Não contente, a sequência de depoimentos chocantes sobre a época em que eram abusadas, contadas pelas próprias vítimas, com um nível de clareza e sinceridade absurdas (muitas vezes admitindo os próprios erros e excessos), o documentários ainda desvenda a forma maquiavélica como tudo era arquitetado, como as garotas eram aliciadas e a razão pela qual Epstein não temia ser pego. Se nos três primeiros episódios temos a impressão que se tratava de um fetiche doentio de Epstein, no último descobrimos que o problema era muito maior, amplo e tão sério que deve ter tirado o sono de muita gente grande! A exposição dessa história impressionante envolve desde presidentes americanos até um membro da realeza britânica - e além de deixar claro (mas sem tantas provas, isso é um fato) que a perversão não era exclusividade de Epstein, muito do poder que ele tinha se baseava em uma moeda de troca muito peculiar!
O documentário é muito cuidadoso ao mostrar (ou pelo menos tentar mostrar) todos os lados da história, mesmo que muitos deles apenas por legendas, mas é preciso elogiar o poder que a edição trouxe para o projeto: com muitas cenas de noticiários e inúmeras entrevistas com personagens envolvidos na investigação, dando voz até para defesa de Epstein, cria-se uma dinâmica tão envolvente que vai nos provocando, nos mal-tratando, mas que nos mantém ligados até o final e com aquele desejo insuportável que justiça seja feita!
"Jeffrey Epstein: Poder e Perversão" é uma minissérie que vale muito a pena, mas que não é tão fácil de digerir ou suportar (principalmente para aqueles que já tem filhos).
"Jeffrey Epstein: Poder e Perversão" é mais uma daquelas histórias, como a que vimos em "Deixando Neverland" (da HBO), que nos embrulha o estômago a cada minuto ou a cada descoberta. Como comentamos em um artigo no nosso blog no começo de 2020, chamado: "Jeffrey Epstein, guardem esse nome", a Netflix seguiu a tendência e resolveu produzir um documentário dividido em quatro episódios sobre os detalhes mais secretos do esquema de pirâmide sexual com menores de Epstein, que envolviam poderosos políticos, empresários, acadêmicos e até celebridades. O livro de James Patterson “Filthy Rich: The Shocking True Story of Jeffrey Epstein” serviu como base para o desenvolvimento da minissérie onde nos deparamos com o lado mais sombrio de um ser humano que acreditava que, com sua fortuna, sairia ileso de qualquer situação que o comprometesse (e ele não era o único!). Confira o trailer:
Se no documentário da HBO o incômodo vinha dos depoimentos impressionantes dos jovens abusados por uma celebridade tão importante como Michael Jackson, já em "Jeffrey Epstein: Poder e Perversão", vemos claramente o mindset de impunidade que o dinheiro, o poder e a influência causam no ser humano e as marcas que deixam nas suas vítimas. O mais interessante desse roteiro da dupla John Connolly e Tom Malloy, é a forma como a história vai se construindo através de uma narrativa não linear - um conceito que vimos recentemente em outra produção da Netflix: "Arremesso Final" e que funcionou muito bem em uma jornada tão carregada de drama como essa. O "vai e volta" dos fatos vai nos situando em uma linha do tempo cheia de recortes e fatos isolados que, juntos, vão nos corroendo com uma força absurda - são tantos detalhes que fica impossível não reconstruir as cenas de abuso e perversão mentalmente - e isso é extremamente cruel. Imaginar crianças de 12, 14 anos, compradas com duzentos dólares, sendo abusadas por Epstein com tanta recorrência, chega parecer mentira. E não era!
Não contente, a sequência de depoimentos chocantes sobre a época em que eram abusadas, contadas pelas próprias vítimas, com um nível de clareza e sinceridade absurdas (muitas vezes admitindo os próprios erros e excessos), o documentários ainda desvenda a forma maquiavélica como tudo era arquitetado, como as garotas eram aliciadas e a razão pela qual Epstein não temia ser pego. Se nos três primeiros episódios temos a impressão que se tratava de um fetiche doentio de Epstein, no último descobrimos que o problema era muito maior, amplo e tão sério que deve ter tirado o sono de muita gente grande! A exposição dessa história impressionante envolve desde presidentes americanos até um membro da realeza britânica - e além de deixar claro (mas sem tantas provas, isso é um fato) que a perversão não era exclusividade de Epstein, muito do poder que ele tinha se baseava em uma moeda de troca muito peculiar!
O documentário é muito cuidadoso ao mostrar (ou pelo menos tentar mostrar) todos os lados da história, mesmo que muitos deles apenas por legendas, mas é preciso elogiar o poder que a edição trouxe para o projeto: com muitas cenas de noticiários e inúmeras entrevistas com personagens envolvidos na investigação, dando voz até para defesa de Epstein, cria-se uma dinâmica tão envolvente que vai nos provocando, nos mal-tratando, mas que nos mantém ligados até o final e com aquele desejo insuportável que justiça seja feita!
"Jeffrey Epstein: Poder e Perversão" é uma minissérie que vale muito a pena, mas que não é tão fácil de digerir ou suportar (principalmente para aqueles que já tem filhos).
Você vai se surpreender com a potência de “Jogo Justo” - principalmente por trazer elementos bastante particulares de obras como “A Assistente” e “Industry”. Embora tenha sido vendido como uma espécie de thriller erótico pela Netflix, o filme vai muito além ao equilibrar aquela atmosfera de excessos dos bancos de investimento de Wall Street (daí a referência de “Industry”) com um drama angustiante pela sua psicologia e pela discussão relevante sobre o machismo e as várias formas de abuso (talvez um pouco mais explícito, mas igualmente competente, como vimos em “A Assistente”). Com um excelente roteiro e uma inspirada direção de Chloe Domon (de “Ballers”), o filme se alimenta de uma tensão crescente, quase insuportável, para expor uma triste realidade que realmente mexe com nossa percepção sobre o ser humano.
Basicamente, o filme acompanha o jovem casal Emily (Phoebe Dynevor) e Luke (Alden Ehrenreich), que trabalha em um banco de investimentos e que acabam embarcando em um romance proibido que vai contra as regras da organização. O segredo parece tornar as coisas ainda mais intensas até que Emily é promovida inesperadamente para uma posição que Luke almejava e aí, já viu. Confira o trailer:
Ë impressionante como acompanhar o colapso de um relacionamento diante da ebulição de egos, poder e pressões sociais e profissionais, mexe com a gente. “Jogo Justo” sabe exatamente como construir uma dinâmica envolvente que, pouca a pouco, é tirada de nós em uma desconstrução narrativa digna de aplausos - tirando algumas leves derrapadas no terceiro ato, eu diria que o roteiro merece mais do que elogios!
Domon é inteligente com explorar a sensibilidade do olhar e do silêncio ao mesmo tempo em que seu texto é mais bruto, direto, provocador. Não por acaso você vai escutar que Emily deve ter tido relações sexuais com o chefe para conseguir a promoção ou até que ela nunca será respeitada porque parece um cupcake indo para o trabalho, no entanto é na forma como Dynevor e Ehrenreich se relacionam com essas situações que somos tocados - é quase como se eles não soubessem decodificar suas falhas, dada a naturalidade desse tipo de posicionamento machista (para quem diz e para quem escuta). E o legal é que o roteiro também expõe a insegurança de Emily ao lidar com essa atmosfera, mesmo quando ela vai contra seus princípios para fazer parte de tudo aquilo e assim se sentir “inserida”.
Um ponto muito interessante e que vale citar é o fato de que “Fair Play” (no original) fez um certo barulho no Festival de Sundance em 2023 - gerando, inclusive, comparações com “Psicopata Americano” destaque no mesmo festival em 2000. Tão diferentes quanto semelhantes, ambos os filmes desafiam nossa compreensão sobre o ser humana ao ser provocado intimamente. O fato é que aqui temos mais uma história densa sobre a colisão caótica entre o poder e o ego, em uma era tão socialmente sensível ao lugar de fala sobre disparidade de gêneros. Com uma direção que sabe da capacidade interpretativa de sua audiência, ela deixa espaço para uma discussão coerente sem precisar levantar bandeiras à toa - é por isso que eu diria que esse filme já pode ser considerado um dos melhores dramas psicológicos recentes. Finalmente temos um excepcional filme de gênero que vale cada centavo dos míseros US$20 milhões pagos em direitos pela Netflix.
Imperdível.
Você vai se surpreender com a potência de “Jogo Justo” - principalmente por trazer elementos bastante particulares de obras como “A Assistente” e “Industry”. Embora tenha sido vendido como uma espécie de thriller erótico pela Netflix, o filme vai muito além ao equilibrar aquela atmosfera de excessos dos bancos de investimento de Wall Street (daí a referência de “Industry”) com um drama angustiante pela sua psicologia e pela discussão relevante sobre o machismo e as várias formas de abuso (talvez um pouco mais explícito, mas igualmente competente, como vimos em “A Assistente”). Com um excelente roteiro e uma inspirada direção de Chloe Domon (de “Ballers”), o filme se alimenta de uma tensão crescente, quase insuportável, para expor uma triste realidade que realmente mexe com nossa percepção sobre o ser humano.
Basicamente, o filme acompanha o jovem casal Emily (Phoebe Dynevor) e Luke (Alden Ehrenreich), que trabalha em um banco de investimentos e que acabam embarcando em um romance proibido que vai contra as regras da organização. O segredo parece tornar as coisas ainda mais intensas até que Emily é promovida inesperadamente para uma posição que Luke almejava e aí, já viu. Confira o trailer:
Ë impressionante como acompanhar o colapso de um relacionamento diante da ebulição de egos, poder e pressões sociais e profissionais, mexe com a gente. “Jogo Justo” sabe exatamente como construir uma dinâmica envolvente que, pouca a pouco, é tirada de nós em uma desconstrução narrativa digna de aplausos - tirando algumas leves derrapadas no terceiro ato, eu diria que o roteiro merece mais do que elogios!
Domon é inteligente com explorar a sensibilidade do olhar e do silêncio ao mesmo tempo em que seu texto é mais bruto, direto, provocador. Não por acaso você vai escutar que Emily deve ter tido relações sexuais com o chefe para conseguir a promoção ou até que ela nunca será respeitada porque parece um cupcake indo para o trabalho, no entanto é na forma como Dynevor e Ehrenreich se relacionam com essas situações que somos tocados - é quase como se eles não soubessem decodificar suas falhas, dada a naturalidade desse tipo de posicionamento machista (para quem diz e para quem escuta). E o legal é que o roteiro também expõe a insegurança de Emily ao lidar com essa atmosfera, mesmo quando ela vai contra seus princípios para fazer parte de tudo aquilo e assim se sentir “inserida”.
Um ponto muito interessante e que vale citar é o fato de que “Fair Play” (no original) fez um certo barulho no Festival de Sundance em 2023 - gerando, inclusive, comparações com “Psicopata Americano” destaque no mesmo festival em 2000. Tão diferentes quanto semelhantes, ambos os filmes desafiam nossa compreensão sobre o ser humana ao ser provocado intimamente. O fato é que aqui temos mais uma história densa sobre a colisão caótica entre o poder e o ego, em uma era tão socialmente sensível ao lugar de fala sobre disparidade de gêneros. Com uma direção que sabe da capacidade interpretativa de sua audiência, ela deixa espaço para uma discussão coerente sem precisar levantar bandeiras à toa - é por isso que eu diria que esse filme já pode ser considerado um dos melhores dramas psicológicos recentes. Finalmente temos um excepcional filme de gênero que vale cada centavo dos míseros US$20 milhões pagos em direitos pela Netflix.
Imperdível.
"Lorena" é uma minissérie documental da Prime Vídeo das mais curiosas - primeiro por se tratar de uma história incomum e segundo por ser um recorte infeliz de parte de uma sociedade americana que merece (ou não) ser estudada. Desde o inicio do documentário já nos deparamos com o circo que foi criado em cima de um fato muito sério, que teve como causa episódios de violência doméstica e como resultado uma lesão corporal das mais graves. O grande problema, no entanto, foi a espetacularização do caso e graças a isso, as consequências foram as mais cruéis para todos os envolvidos.
Em 1993, as manchetes de todo mundo divulgavam, vorazmente, a história da jovem imigrante Lorena Bobbitt que cortou o órgão genital de seu marido, John Wayne Bobbitt, um ex-fuzileiro da marinha americana. O assunto, que dominou a imprensa ao longo de todo o ano, e que virou motivo piada por muito tempo, trazia o "bizarro" como seu fator mais instigante, mas escondia uma dolorosa experiência de sofrimento fisico e psicológico contínuo ao longo de quatro anos de uma relação completamente abusiva. Confira o trailer (em inglês):
Dividida em quatro episódios de uma hora, a minissérie produzida por Jordan Peele (vencedor do Oscar por "Corra!") tenta corrigir os erros cometidos pela mídia nos anos 90, entender as motivações de Lorena para atacar John Wayne e ainda posicionar os dois lados da história de uma forma que a própria audiência tire suas conclusões - e te garanto: é impossível não julgar as atitudes dos dois personagens a cada nova informação! Obviamente, o documentário traça uma linha do tempo baseada não apenas em como o crime se tornou alvo de tabloides mundiais (com um significado cultural bem mais forte nos Estados Unidos), mas de como essa narrativa foi contada de uma forma completamente unilateral. Mesmo respeitando as limitações da época do crime, "Lorena" busca outros olhares, interpretações e acaba pontuando, da sua forma, como a sociedade lidou com tudo isso da pior maneira possível. Vale lembrar que quando o caso veio à tona, todos lembravam do membro decepado do rapaz, mas poucos comentavam sobre a moça que foi agredida e estuprada.
A minissérie é muito competente em montar um denso e complexo mapa de conexões onde nomes, locais, circunstâncias e contextos são interligados de maneira muito simples e inteligente, nos dando uma percepção bastante clara e completa sobre o caso. São depoimentos de médicos, cirurgiões, enfermeiros, socorristas, advogados, familiares, amigos e até de membros do júri, que se conectam com uma quantidade enorme (e relevante) de imagens de arquivo - aliás, em um dos episódios temos acesso aos trechos mais importantes do testemunho da própria Lorena em seu julgamento, que na época foi transmitido ao vivo pela "Court TV", e olha, são impressionantes! Sem cortes, sem trilha, apenas as palavras de uma mulher que mal consegue se comunicar, relatando como foi violentada e estuprada pelo marido - é de embrulhar o estômago e muito difícil de assistir.
Dirigida pelo talentoso Joshua Rofé, a minissérie acerta em cheio ao mostrar diversos olhares de uma mesma história sem ter a pretensão (pelo menos descaradamente) de nomear um vilão ou um mocinho. O fato é que "Lorena" explica como o senso comum preferiu se apegar ao que existe de mais superficial sobre o assunto, buscando um debate ignorante sobre violência em troca de uma audiência alta, enquanto as consequências desse silêncio serviram apenas para dar continuidade a um problema que está longe de ser extinto!
Vale muito o seu play!
"Lorena" é uma minissérie documental da Prime Vídeo das mais curiosas - primeiro por se tratar de uma história incomum e segundo por ser um recorte infeliz de parte de uma sociedade americana que merece (ou não) ser estudada. Desde o inicio do documentário já nos deparamos com o circo que foi criado em cima de um fato muito sério, que teve como causa episódios de violência doméstica e como resultado uma lesão corporal das mais graves. O grande problema, no entanto, foi a espetacularização do caso e graças a isso, as consequências foram as mais cruéis para todos os envolvidos.
Em 1993, as manchetes de todo mundo divulgavam, vorazmente, a história da jovem imigrante Lorena Bobbitt que cortou o órgão genital de seu marido, John Wayne Bobbitt, um ex-fuzileiro da marinha americana. O assunto, que dominou a imprensa ao longo de todo o ano, e que virou motivo piada por muito tempo, trazia o "bizarro" como seu fator mais instigante, mas escondia uma dolorosa experiência de sofrimento fisico e psicológico contínuo ao longo de quatro anos de uma relação completamente abusiva. Confira o trailer (em inglês):
Dividida em quatro episódios de uma hora, a minissérie produzida por Jordan Peele (vencedor do Oscar por "Corra!") tenta corrigir os erros cometidos pela mídia nos anos 90, entender as motivações de Lorena para atacar John Wayne e ainda posicionar os dois lados da história de uma forma que a própria audiência tire suas conclusões - e te garanto: é impossível não julgar as atitudes dos dois personagens a cada nova informação! Obviamente, o documentário traça uma linha do tempo baseada não apenas em como o crime se tornou alvo de tabloides mundiais (com um significado cultural bem mais forte nos Estados Unidos), mas de como essa narrativa foi contada de uma forma completamente unilateral. Mesmo respeitando as limitações da época do crime, "Lorena" busca outros olhares, interpretações e acaba pontuando, da sua forma, como a sociedade lidou com tudo isso da pior maneira possível. Vale lembrar que quando o caso veio à tona, todos lembravam do membro decepado do rapaz, mas poucos comentavam sobre a moça que foi agredida e estuprada.
A minissérie é muito competente em montar um denso e complexo mapa de conexões onde nomes, locais, circunstâncias e contextos são interligados de maneira muito simples e inteligente, nos dando uma percepção bastante clara e completa sobre o caso. São depoimentos de médicos, cirurgiões, enfermeiros, socorristas, advogados, familiares, amigos e até de membros do júri, que se conectam com uma quantidade enorme (e relevante) de imagens de arquivo - aliás, em um dos episódios temos acesso aos trechos mais importantes do testemunho da própria Lorena em seu julgamento, que na época foi transmitido ao vivo pela "Court TV", e olha, são impressionantes! Sem cortes, sem trilha, apenas as palavras de uma mulher que mal consegue se comunicar, relatando como foi violentada e estuprada pelo marido - é de embrulhar o estômago e muito difícil de assistir.
Dirigida pelo talentoso Joshua Rofé, a minissérie acerta em cheio ao mostrar diversos olhares de uma mesma história sem ter a pretensão (pelo menos descaradamente) de nomear um vilão ou um mocinho. O fato é que "Lorena" explica como o senso comum preferiu se apegar ao que existe de mais superficial sobre o assunto, buscando um debate ignorante sobre violência em troca de uma audiência alta, enquanto as consequências desse silêncio serviram apenas para dar continuidade a um problema que está longe de ser extinto!
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Se você lembra de "Desperate Housewives" com certo saudosismo, você vai se perguntar por qual razão ainda não assistiu a excelente "Mal de Família" da AppleTV+! "Bad Sisters", no original, é uma adaptação da cultuada série belga "Clan", criada por Malin-Sarah Gozin (de "Tabula Rasa"), que combina drama familiar e suspense com muito humor negro, em uma narrativa irresistível e que olha, é muito bem executada - não por acaso recebeu quatro indicações ao Emmy 2023 e venceu o BAFTA do mesmo ano como a Melhor Série Dramática do Reino Unido. Desenvolvida por Brett Baer e Dave Finkel (ambos de "30 Rock") e pela atriz Sharon Horgan, essa série apresenta uma visão divertida e sombria das complexidades dos laços familiares, levando a audiência por um mistério cheio de reviravoltas e personagens memoráveis. Com um tom que transita por produções como "Big Little Lies" e "Fleabag" (isso mesmo, por mais confuso que possa parecer), "Mal de Família" se destaca por seu equilíbrio entre o drama, o emocional e o cômico, explorando a tensão entre amor e os limites da moralidade.
A trama segue as cinco irmãs Garvey: Eva (Sharon Horgan), Grace (Anne-Marie Duff), Ursula (Eva Birthistle), Bibi (Sarah Greene) e Becka (Eve Hewson), que compartilham uma relação próxima, mas cheia de conflitos. Quando Grace se casa com John Paul (Claes Bang), um homem manipulador e emocionalmente abusivo, as irmãs rapidamente se unem em torno de um plano chocante: livrar-se dele de uma vez por todas. A narrativa alterna entre o presente, onde uma investigação de uma empresa de seguros tenta desvendar o que aconteceu com John Paul, e os eventos passados que levaram à sua morte, mantendo um certo suspense enquanto revela, pouco a pouco, as motivações e os segredos de cada uma das irmãs. Confira o trailer (em inglês):
Sharon Horgan, que também atua como produtora executiva, traz sua conhecida assinatura carregada de humor ácido e profundidade emocional. O roteiro é muito afiado e extremamente bem estruturado, combinando momentos de comédia com passagens impactantes e genuinamente emocionantes. Cada episódio sabe construir a tensão ao mesmo tempo que explora as dinâmicas familiares das irmãs Garvey, permitindo um entendimento mais amplo ao ponto de simpatizarmos com algumas decisões das protagonistas, mesmo quando elas cruzam a linha tênue entre o certo e o errado. A direção conceitualizada pela Dearbhla Walsh (de "The Handmaid's Tale"), enfatiza a beleza melancólica da Irlanda, com paisagens costeiras deslumbrantes e cenários que contrastam com a tensão crescente da narrativa. A fotografia do Tim Palmer (de "Line of Duty") brinca com a luz natural para destacar o ambiente, enquanto os enquadramentos capturam tanto a intimidade das relações familiares quanto o isolamento emocional de cada personagem - é como se ele, supostamente, quisesse deixar uma "Desperate Housewives" mais realista.
As performances de todo elenco são excepcionais. Sharon Horgan lidera o time com uma interpretação complexa e carismática - sua Eva, a irmã mais velha e protetora, é tão cheia de camadas que fica até difícil defini-la. Já Anne-Marie Duff oferece uma atuação comovente como Grace, cuja vulnerabilidade contrasta com a crueldade fria de seu marido, interpretado brilhantemente por Claes Bang - preste atenção em como a interação entre esses dois personagens quebra a expectativa que quem assiste. O drama da relação abusiva de Grace é muito visceral. Veja, o mistério central de "Mal de Família" é sustentado por um ritmo envolvente e uma montagem que equilibra as linhas temporais sem a menor confusão, com isso se abre espaço para uma atuação das protagonistas que potencializa as nuances de suas ações - é de se aplaudir de pé!
"Mal de Família" aborda temas importantes como o abuso emocional, a lealdade familiar e o peso das escolhas morais, sem perder de vista o entretenimento e a complexidade de seus personagens, no entanto a série nunca deixa de ser provocativa. A narrativa nos tira da zona de conforto com a mesma facilidade com que nos faz sorrir. Se em certos episódios a história parece se alongar ao enfatizar elementos cômicos ou subtramas que, embora divertidas, desviam do mistério principal, eu diria que são justamente essas escolhas que contribuem para a construção de um universo irônico na sua essência e profundamente sensível nos seus detalhes. Saiba que "Mal de Família" além de imperdível, é um dos melhores exemplos de como é possível adaptar (e expandir) uma narrativa internacional sem perder a criatividade e sua qualidade como obra fechada.
Vale muito o seu play!
Se você lembra de "Desperate Housewives" com certo saudosismo, você vai se perguntar por qual razão ainda não assistiu a excelente "Mal de Família" da AppleTV+! "Bad Sisters", no original, é uma adaptação da cultuada série belga "Clan", criada por Malin-Sarah Gozin (de "Tabula Rasa"), que combina drama familiar e suspense com muito humor negro, em uma narrativa irresistível e que olha, é muito bem executada - não por acaso recebeu quatro indicações ao Emmy 2023 e venceu o BAFTA do mesmo ano como a Melhor Série Dramática do Reino Unido. Desenvolvida por Brett Baer e Dave Finkel (ambos de "30 Rock") e pela atriz Sharon Horgan, essa série apresenta uma visão divertida e sombria das complexidades dos laços familiares, levando a audiência por um mistério cheio de reviravoltas e personagens memoráveis. Com um tom que transita por produções como "Big Little Lies" e "Fleabag" (isso mesmo, por mais confuso que possa parecer), "Mal de Família" se destaca por seu equilíbrio entre o drama, o emocional e o cômico, explorando a tensão entre amor e os limites da moralidade.
A trama segue as cinco irmãs Garvey: Eva (Sharon Horgan), Grace (Anne-Marie Duff), Ursula (Eva Birthistle), Bibi (Sarah Greene) e Becka (Eve Hewson), que compartilham uma relação próxima, mas cheia de conflitos. Quando Grace se casa com John Paul (Claes Bang), um homem manipulador e emocionalmente abusivo, as irmãs rapidamente se unem em torno de um plano chocante: livrar-se dele de uma vez por todas. A narrativa alterna entre o presente, onde uma investigação de uma empresa de seguros tenta desvendar o que aconteceu com John Paul, e os eventos passados que levaram à sua morte, mantendo um certo suspense enquanto revela, pouco a pouco, as motivações e os segredos de cada uma das irmãs. Confira o trailer (em inglês):
Sharon Horgan, que também atua como produtora executiva, traz sua conhecida assinatura carregada de humor ácido e profundidade emocional. O roteiro é muito afiado e extremamente bem estruturado, combinando momentos de comédia com passagens impactantes e genuinamente emocionantes. Cada episódio sabe construir a tensão ao mesmo tempo que explora as dinâmicas familiares das irmãs Garvey, permitindo um entendimento mais amplo ao ponto de simpatizarmos com algumas decisões das protagonistas, mesmo quando elas cruzam a linha tênue entre o certo e o errado. A direção conceitualizada pela Dearbhla Walsh (de "The Handmaid's Tale"), enfatiza a beleza melancólica da Irlanda, com paisagens costeiras deslumbrantes e cenários que contrastam com a tensão crescente da narrativa. A fotografia do Tim Palmer (de "Line of Duty") brinca com a luz natural para destacar o ambiente, enquanto os enquadramentos capturam tanto a intimidade das relações familiares quanto o isolamento emocional de cada personagem - é como se ele, supostamente, quisesse deixar uma "Desperate Housewives" mais realista.
As performances de todo elenco são excepcionais. Sharon Horgan lidera o time com uma interpretação complexa e carismática - sua Eva, a irmã mais velha e protetora, é tão cheia de camadas que fica até difícil defini-la. Já Anne-Marie Duff oferece uma atuação comovente como Grace, cuja vulnerabilidade contrasta com a crueldade fria de seu marido, interpretado brilhantemente por Claes Bang - preste atenção em como a interação entre esses dois personagens quebra a expectativa que quem assiste. O drama da relação abusiva de Grace é muito visceral. Veja, o mistério central de "Mal de Família" é sustentado por um ritmo envolvente e uma montagem que equilibra as linhas temporais sem a menor confusão, com isso se abre espaço para uma atuação das protagonistas que potencializa as nuances de suas ações - é de se aplaudir de pé!
"Mal de Família" aborda temas importantes como o abuso emocional, a lealdade familiar e o peso das escolhas morais, sem perder de vista o entretenimento e a complexidade de seus personagens, no entanto a série nunca deixa de ser provocativa. A narrativa nos tira da zona de conforto com a mesma facilidade com que nos faz sorrir. Se em certos episódios a história parece se alongar ao enfatizar elementos cômicos ou subtramas que, embora divertidas, desviam do mistério principal, eu diria que são justamente essas escolhas que contribuem para a construção de um universo irônico na sua essência e profundamente sensível nos seus detalhes. Saiba que "Mal de Família" além de imperdível, é um dos melhores exemplos de como é possível adaptar (e expandir) uma narrativa internacional sem perder a criatividade e sua qualidade como obra fechada.
Vale muito o seu play!
Talvez os mais jovens não tenham a exata noção do que representou o grupo "Menudo" como fenômeno cultural. Considerada a primeira "Boys Band" da história, os cinco jovens (jovens mesmo) de Porto Rico transformaram a maneira como adolescentes consumiam música no início dos anos 80, conquistando uma legião de fãs pelo mundo (principalmente na América Latina e nos EUA) muitas vezes comparado ao que foi a beatlemania - sim, eu sei que pode parecer exagero, mas como dito nesse excelente documentário da HBO: essa é a referência mais próxima do que foi o sucesso e a devoção por um grupo musical na época.
Dirigida por Angel Manuel Soto (de "Besouro Azul") e Kristofer Ríos (de "Imaginando Zootopia"), a minissérie de 4 episódios faz um resgate nostálgico da atmosfera dos anos 80 e acompanha a "boys band" em turnês, onde conhecem os fãs e divulgam o trabalho. Mas como toda história possui uma outra versão, o documentário também explora o lado sombrio enfrentado pelos integrantes em meio a tanto sucesso, incluindo episódios de abuso sexual, bullying, escândalos com drogas, péssimas condições de trabalho e os inúmeros casos de assédio moral que sofreram de Edgardo Díaz, o criador do grupo. Confira o trailer:
Na realidade o Menudo foi um verdadeiro playbook de entretenimento para um nicho completamente esquecido no final dos anos 70 e inicio dos anos 80. Na época, a "música" tinha apenas dois targets e completamente distintos: os adultos e as crianças. Os pré-adolescentes e adolescentes estavam esquecidos até que o empresário Edgardo Díaz resolveu inovar e apresentar para um público com sede de consumo, uma fórmula onde cinco garotos dançavam e cantavam em um grupo musical até completarem 16 anos, quanto então eram substituídos por outro integrante mais novo e assim repetindo um ciclo de sucesso por décadas - resultado: mais de 20 milhões de cópias vendidas de 32 álbuns produzidos.
O subtítulo "Sempre Jovens" faz uma alusão a esse, digamos, processo de renovação que contou com 32 integrantes ao longo dos anos. Explorando a história da banda, a minissérie cobre a ascensão e queda dos "Menudos" a partir de entrevistas com os jovens de várias formações (inclusive a original), além de amigos, familiares e fãs. Há também incontáveis e raras imagens de acervo que revelam em detalhes um extenso recorte da carreira do grupo e como isso impactou na vida de cada um deles. E aqui os diretores mudam um pouco o tom já que o roteiro passa a cobrir as polêmicas por trás do sucesso - algo que a esquecível minissérie da Prime Vídeo, "Sobe em minha moto", tentou fazer na ficção até fracassar fortemente.
O fato é que "Menudo: Sempre Jovens" tem dois momentos distintos dentro da narrativa: se nos dois primeiros episódios encontramos um documentário mais histórico do ponto de vista do negócio, do entretenimento (leve e contagiante) e dos impactos que o grupo teve para uma geração, algo como vimos em "Sandy & Junior: A História"; nos dois últimos o que temos é uma série de acusações e depoimentos que quebram completamente a magia construída inicialmente - é quando o conceito se aproxima de títulos como "Deixando Neverland" ou "Showbiz Kids", com um tom mais pesado e temas bastante delicados - cito a passagem do integrante Angelo Garcia contando que foi estuprado no quarto de um hotel, depois de receber álcool de um homem desconhecido, logo após completar 11 anos de idade. Terrível!
O Menudo arrastou multidões, vendeu milhões de discos ao redor do mundo e mudou a forma como a indústria enxergava um nicho bem especifico. Edgardo Díaz foi um visionário, enriqueceu, se tornou poderoso, mas também se perdeu dentro da própria vaidade e ambição. O grupo voou alto (principalmente com Robby, Charlie, Roy, Ray e Ricky), mas caiu de um forma triste e de certa cruel - chega a ser impactante por tudo que é contado por quem viveu aquele inferno. Dito isso, afirmo que "Menudo: Sempre Jovens" é uma viagem ao passado, mas que não deixará boas recordações como poderíamos imaginar.
Vale seu play!
Talvez os mais jovens não tenham a exata noção do que representou o grupo "Menudo" como fenômeno cultural. Considerada a primeira "Boys Band" da história, os cinco jovens (jovens mesmo) de Porto Rico transformaram a maneira como adolescentes consumiam música no início dos anos 80, conquistando uma legião de fãs pelo mundo (principalmente na América Latina e nos EUA) muitas vezes comparado ao que foi a beatlemania - sim, eu sei que pode parecer exagero, mas como dito nesse excelente documentário da HBO: essa é a referência mais próxima do que foi o sucesso e a devoção por um grupo musical na época.
Dirigida por Angel Manuel Soto (de "Besouro Azul") e Kristofer Ríos (de "Imaginando Zootopia"), a minissérie de 4 episódios faz um resgate nostálgico da atmosfera dos anos 80 e acompanha a "boys band" em turnês, onde conhecem os fãs e divulgam o trabalho. Mas como toda história possui uma outra versão, o documentário também explora o lado sombrio enfrentado pelos integrantes em meio a tanto sucesso, incluindo episódios de abuso sexual, bullying, escândalos com drogas, péssimas condições de trabalho e os inúmeros casos de assédio moral que sofreram de Edgardo Díaz, o criador do grupo. Confira o trailer:
Na realidade o Menudo foi um verdadeiro playbook de entretenimento para um nicho completamente esquecido no final dos anos 70 e inicio dos anos 80. Na época, a "música" tinha apenas dois targets e completamente distintos: os adultos e as crianças. Os pré-adolescentes e adolescentes estavam esquecidos até que o empresário Edgardo Díaz resolveu inovar e apresentar para um público com sede de consumo, uma fórmula onde cinco garotos dançavam e cantavam em um grupo musical até completarem 16 anos, quanto então eram substituídos por outro integrante mais novo e assim repetindo um ciclo de sucesso por décadas - resultado: mais de 20 milhões de cópias vendidas de 32 álbuns produzidos.
O subtítulo "Sempre Jovens" faz uma alusão a esse, digamos, processo de renovação que contou com 32 integrantes ao longo dos anos. Explorando a história da banda, a minissérie cobre a ascensão e queda dos "Menudos" a partir de entrevistas com os jovens de várias formações (inclusive a original), além de amigos, familiares e fãs. Há também incontáveis e raras imagens de acervo que revelam em detalhes um extenso recorte da carreira do grupo e como isso impactou na vida de cada um deles. E aqui os diretores mudam um pouco o tom já que o roteiro passa a cobrir as polêmicas por trás do sucesso - algo que a esquecível minissérie da Prime Vídeo, "Sobe em minha moto", tentou fazer na ficção até fracassar fortemente.
O fato é que "Menudo: Sempre Jovens" tem dois momentos distintos dentro da narrativa: se nos dois primeiros episódios encontramos um documentário mais histórico do ponto de vista do negócio, do entretenimento (leve e contagiante) e dos impactos que o grupo teve para uma geração, algo como vimos em "Sandy & Junior: A História"; nos dois últimos o que temos é uma série de acusações e depoimentos que quebram completamente a magia construída inicialmente - é quando o conceito se aproxima de títulos como "Deixando Neverland" ou "Showbiz Kids", com um tom mais pesado e temas bastante delicados - cito a passagem do integrante Angelo Garcia contando que foi estuprado no quarto de um hotel, depois de receber álcool de um homem desconhecido, logo após completar 11 anos de idade. Terrível!
O Menudo arrastou multidões, vendeu milhões de discos ao redor do mundo e mudou a forma como a indústria enxergava um nicho bem especifico. Edgardo Díaz foi um visionário, enriqueceu, se tornou poderoso, mas também se perdeu dentro da própria vaidade e ambição. O grupo voou alto (principalmente com Robby, Charlie, Roy, Ray e Ricky), mas caiu de um forma triste e de certa cruel - chega a ser impactante por tudo que é contado por quem viveu aquele inferno. Dito isso, afirmo que "Menudo: Sempre Jovens" é uma viagem ao passado, mas que não deixará boas recordações como poderíamos imaginar.
Vale seu play!
Olha, assistir "Mergulho" não será uma jornada das mais tranquilas - e se você conhece o documentário da Netflix, "Atleta A", você vai entender exatamente onde quero chegar. Embora essa co-produção Argentina/México, dirigida pela premiada Lucía Puenzo (de "XXY" e "Wakolda"), seja apenas um recorte de uma história real de abuso entre um treinador e suas atletas olímpicas, é impressionante como ela vai além do óbvio para pontuar, com muita sensibilidade, todas as marcas deixadas na protagonista - e, claro, como essa mesma protagonista revisita suas angustias do passado para tentar lidar com as dores do presente.
Na trama conhecemos Mariel (Karla Souza), uma atleta mexicana dos saltos ornamentais que tem sua última chance de conquistar uma medalha olímpica, dessa vez em Athenas, na Grécia. Só que às vésperas da competição, um escândalo envolvendo seu treinador (que comanda a vitoriosa equipe há mais de duas décadas) e uma jovem revelação da modalidade, acaba gerando lembranças terríveis do seu passado. Confira o trailer (em espanhol):
"La Caída" (no original) traz para discussão o caso verídico de um famoso escândalo na Federação Mexicana de Natação, quando os pais da atleta Luara Sánchez, então com 15 anos, denunciaram que o técnico Francisco Rueda estava abusando de sua filha. O interessante porém, é que no filme o foco não está em Luara (que recebeu o nome de Nadia e foi interpretada pela Dèja Ebergenyi), mas sim em uma personagem fictícia que engloba uma série de atletas reais que, infelizmente, também sofreram abusos durante as respectivas carreiras.
O roteiro foi muito inteligente ao equilibrar os fatos relacionados à Nadia com os fantasmas mais profundos e mais íntimos de inúmeras atletas personificadas em Mariel. Isso trouxe certa liberdade narrativa, já que fica claro que existe o trauma da protagonista, mas que na história priorizar o conflito constante com a verdade parece ser o melhor caminho: seja expondo as preocupações de uma mãe de uma adolescente, seja na luta de uma mulher para lidar com seu passado, mesmo que se sabotando e fazendo inúmeras besteiras no presente. Ao adicionarmos na trama a pressão de uma grande competição que se aproxima, ainda entra em cena um período de "medo" potencializado pelas lembranças escondidas, pelo descontrole emocional e pelo abuso psicológico de quem quer controlar a narrativa sempre, ou seja, a sensação é de que acionamos uma bomba relógio e estamos esperando ela explodir - "quando" é o que nos faz não tirar os olhos da tela.
Como na história de Maggie Nichols, que teve seu sonho de disputar uma Olimpíada ceifado por uma Federação Americana hipócrita, mais preocupada com uma medalha de ouro do que com o respeito por suas ginastas, de 13 anos, que foram abusadas sistematicamente por Larry Nassar; "Mergulho" investiga, explora e expõe os fatos sem julgar a vitima - pelo olhar de quem se reconhece na dor e não necessariamente de quem está vivendo e acredita que aquilo tudo faz parte do seu amadurecimento como mulher. Aliás, a linha tênue entre duas percepções diferentes ganha ainda mais força quando descobrimos que, na vida real, Franciso Rueda foi mesmo banido do esporte, mas mesmo assim ainda se casou com Luara Sánchez anos depois do escândalo.
Vale muito o seu play!
Olha, assistir "Mergulho" não será uma jornada das mais tranquilas - e se você conhece o documentário da Netflix, "Atleta A", você vai entender exatamente onde quero chegar. Embora essa co-produção Argentina/México, dirigida pela premiada Lucía Puenzo (de "XXY" e "Wakolda"), seja apenas um recorte de uma história real de abuso entre um treinador e suas atletas olímpicas, é impressionante como ela vai além do óbvio para pontuar, com muita sensibilidade, todas as marcas deixadas na protagonista - e, claro, como essa mesma protagonista revisita suas angustias do passado para tentar lidar com as dores do presente.
Na trama conhecemos Mariel (Karla Souza), uma atleta mexicana dos saltos ornamentais que tem sua última chance de conquistar uma medalha olímpica, dessa vez em Athenas, na Grécia. Só que às vésperas da competição, um escândalo envolvendo seu treinador (que comanda a vitoriosa equipe há mais de duas décadas) e uma jovem revelação da modalidade, acaba gerando lembranças terríveis do seu passado. Confira o trailer (em espanhol):
"La Caída" (no original) traz para discussão o caso verídico de um famoso escândalo na Federação Mexicana de Natação, quando os pais da atleta Luara Sánchez, então com 15 anos, denunciaram que o técnico Francisco Rueda estava abusando de sua filha. O interessante porém, é que no filme o foco não está em Luara (que recebeu o nome de Nadia e foi interpretada pela Dèja Ebergenyi), mas sim em uma personagem fictícia que engloba uma série de atletas reais que, infelizmente, também sofreram abusos durante as respectivas carreiras.
O roteiro foi muito inteligente ao equilibrar os fatos relacionados à Nadia com os fantasmas mais profundos e mais íntimos de inúmeras atletas personificadas em Mariel. Isso trouxe certa liberdade narrativa, já que fica claro que existe o trauma da protagonista, mas que na história priorizar o conflito constante com a verdade parece ser o melhor caminho: seja expondo as preocupações de uma mãe de uma adolescente, seja na luta de uma mulher para lidar com seu passado, mesmo que se sabotando e fazendo inúmeras besteiras no presente. Ao adicionarmos na trama a pressão de uma grande competição que se aproxima, ainda entra em cena um período de "medo" potencializado pelas lembranças escondidas, pelo descontrole emocional e pelo abuso psicológico de quem quer controlar a narrativa sempre, ou seja, a sensação é de que acionamos uma bomba relógio e estamos esperando ela explodir - "quando" é o que nos faz não tirar os olhos da tela.
Como na história de Maggie Nichols, que teve seu sonho de disputar uma Olimpíada ceifado por uma Federação Americana hipócrita, mais preocupada com uma medalha de ouro do que com o respeito por suas ginastas, de 13 anos, que foram abusadas sistematicamente por Larry Nassar; "Mergulho" investiga, explora e expõe os fatos sem julgar a vitima - pelo olhar de quem se reconhece na dor e não necessariamente de quem está vivendo e acredita que aquilo tudo faz parte do seu amadurecimento como mulher. Aliás, a linha tênue entre duas percepções diferentes ganha ainda mais força quando descobrimos que, na vida real, Franciso Rueda foi mesmo banido do esporte, mas mesmo assim ainda se casou com Luara Sánchez anos depois do escândalo.
Vale muito o seu play!
Não deixe de assistir esse filme - tenho certeza que você vai se surpreender! O premiado diretor Hirokazu Koreeda, conhecido por explorar com delicadeza as complexidades das relações humanas em filmes como "Assunto de Família" e "Depois da Tempestade", retorna com "Monster" para entregar mais uma obra sensível e multifacetada que transcende o drama familiar para abordar temas importantes como a busca por uma identidade pela perspectiva da empatia - mesmo que inicialmente Koreeda nos guie por um caminho completamente oposto (o que aliás, é genial como proposta narrativa). "Monster", premiado em Cannes pelo seu roteiro em 2023, é um filme que nos convida a olhar para alguns eventos a partir do ponto de vista de três personagens, desafiando a ideia de uma única verdade. Inegavelmente provocador se tratando de uma produção japonesa, esse é um filme que encontra ecos de sua estrutura narrativa em obras como "Close" e "A Caça", ou seja, esteja preparado para uma jornada bastante desconfortável que vai, de fato, mexer com suas emoções.
A história começa em uma pequena cidade japonesa, quando Minato (Soya Kurokawa), um menino retraído e sensível, começa a agir de maneira estranha após um incidente na escola. Sua mãe, Saori (Sakura Ando), acredita que um professor, Hori (Eita Nagayama), é o responsável pela mudança de comportamento do filho, o que desencadeia uma série de eventos que gradualmente revelam os segredos e as verdades escondidas sob as aparências cotidianas de uma sociedade tão patriarcal. Confira o trailer:
Sem a menor dúvida, é a proposta narrativa, contada por diferentes olhares (de Saori, do professor Hori e de Minato), que nos move diante de uma trama que sabe brincar com nossa percepção e que vai nos colocando em determinados lugares que dificilmente temos condições de julgar. Cada um dos personagens vai adicionando camadas de nuances e de profundidade ao mistério central que, olha, nos tira do eixo de uma forma muito cruel, eu diria. Koreeda dirige o filme com sutileza e atenção aos detalhes, permitindo que nossas emoções fluam de maneira orgânica, acompanhando os fatos e se transformando a cada novo olhar. Ele utiliza a estrutura narrativa fragmentada para construir uma tensão emocional crescente, enquanto desvenda os eventos de maneira gradual, quase como um quebra-cabeça. O interessante é que o diretor faz escolhas visuais que reforçam essa complexidade, com enquadramentos que frequentemente isolam os personagens em ambientes amplos, sugerindo uma certa desconexão que permeiam suas vidas - é lindo de ver!
Yuji Sakamoto, o roteirista, complementa perfeitamente a abordagem de Koreeda, explorando questões delicadas como bullying, como luto, como a culpa e os desafios de entender e aceitar o outro. Obviamente que "Monster" é o tipo de filme que evita respostas fáceis ou resoluções apressadas, optando por deixar espaço para a interpretação da audiência e para as ambiguidades que tornam a história tão ressonante. Os diálogos são cuidadosamente escritos, muitas vezes revelando mais nas pausas e no silêncio do que necessariamente nas palavras ditas, capturando assim, as dinâmicas de tensão, de angustia, de insegurança, em subtextos realmente marcantes entre os personagens. Sakura Ando, como a mãe protetora de Minato , transmite uma vulnerabilidade comovente e poderosa, enquanto Eita Nagayama entrega uma atuação mais contida como o professor cuja vida é virada de cabeça para baixo pelas suspeitas e preconceitos dos outros. O jovem Soya Kurokawa, o Minato, é extraordinário - ele traz uma autenticidade rara para um papel que exige tanto sutileza quanto intensidade emocional. Seu desempenho é o núcleo emocional do filme, e sua evolução ao longo da narrativa é dolorosa e profundamente impactante (digna de muitos prêmios).
Antes de finalizar, peço que repare na belíssima trilha sonora composta pelo lendário Ryuichi Sakamoto (vencedor do Oscar por "O Último Imperador") - ela é delicada e evocativa, sublinhando as emoções dos personagens sem jamais dominar a narrativa. Suas composições adicionam um ar de melancolia mais poética que só evidencia a beleza do filme. Com tons suaves na sua forma e uma história potente em seu conteúdo, "Monster" é deliciosamente desafiador, ou seja, para aqueles que se identificam com um cinema mais autoral e independente, onde a ambiguidade dita as regras, pode dar o play, pois essa será uma experiência tão rica quanto recompensadora.
Imperdível!
Não deixe de assistir esse filme - tenho certeza que você vai se surpreender! O premiado diretor Hirokazu Koreeda, conhecido por explorar com delicadeza as complexidades das relações humanas em filmes como "Assunto de Família" e "Depois da Tempestade", retorna com "Monster" para entregar mais uma obra sensível e multifacetada que transcende o drama familiar para abordar temas importantes como a busca por uma identidade pela perspectiva da empatia - mesmo que inicialmente Koreeda nos guie por um caminho completamente oposto (o que aliás, é genial como proposta narrativa). "Monster", premiado em Cannes pelo seu roteiro em 2023, é um filme que nos convida a olhar para alguns eventos a partir do ponto de vista de três personagens, desafiando a ideia de uma única verdade. Inegavelmente provocador se tratando de uma produção japonesa, esse é um filme que encontra ecos de sua estrutura narrativa em obras como "Close" e "A Caça", ou seja, esteja preparado para uma jornada bastante desconfortável que vai, de fato, mexer com suas emoções.
A história começa em uma pequena cidade japonesa, quando Minato (Soya Kurokawa), um menino retraído e sensível, começa a agir de maneira estranha após um incidente na escola. Sua mãe, Saori (Sakura Ando), acredita que um professor, Hori (Eita Nagayama), é o responsável pela mudança de comportamento do filho, o que desencadeia uma série de eventos que gradualmente revelam os segredos e as verdades escondidas sob as aparências cotidianas de uma sociedade tão patriarcal. Confira o trailer:
Sem a menor dúvida, é a proposta narrativa, contada por diferentes olhares (de Saori, do professor Hori e de Minato), que nos move diante de uma trama que sabe brincar com nossa percepção e que vai nos colocando em determinados lugares que dificilmente temos condições de julgar. Cada um dos personagens vai adicionando camadas de nuances e de profundidade ao mistério central que, olha, nos tira do eixo de uma forma muito cruel, eu diria. Koreeda dirige o filme com sutileza e atenção aos detalhes, permitindo que nossas emoções fluam de maneira orgânica, acompanhando os fatos e se transformando a cada novo olhar. Ele utiliza a estrutura narrativa fragmentada para construir uma tensão emocional crescente, enquanto desvenda os eventos de maneira gradual, quase como um quebra-cabeça. O interessante é que o diretor faz escolhas visuais que reforçam essa complexidade, com enquadramentos que frequentemente isolam os personagens em ambientes amplos, sugerindo uma certa desconexão que permeiam suas vidas - é lindo de ver!
Yuji Sakamoto, o roteirista, complementa perfeitamente a abordagem de Koreeda, explorando questões delicadas como bullying, como luto, como a culpa e os desafios de entender e aceitar o outro. Obviamente que "Monster" é o tipo de filme que evita respostas fáceis ou resoluções apressadas, optando por deixar espaço para a interpretação da audiência e para as ambiguidades que tornam a história tão ressonante. Os diálogos são cuidadosamente escritos, muitas vezes revelando mais nas pausas e no silêncio do que necessariamente nas palavras ditas, capturando assim, as dinâmicas de tensão, de angustia, de insegurança, em subtextos realmente marcantes entre os personagens. Sakura Ando, como a mãe protetora de Minato , transmite uma vulnerabilidade comovente e poderosa, enquanto Eita Nagayama entrega uma atuação mais contida como o professor cuja vida é virada de cabeça para baixo pelas suspeitas e preconceitos dos outros. O jovem Soya Kurokawa, o Minato, é extraordinário - ele traz uma autenticidade rara para um papel que exige tanto sutileza quanto intensidade emocional. Seu desempenho é o núcleo emocional do filme, e sua evolução ao longo da narrativa é dolorosa e profundamente impactante (digna de muitos prêmios).
Antes de finalizar, peço que repare na belíssima trilha sonora composta pelo lendário Ryuichi Sakamoto (vencedor do Oscar por "O Último Imperador") - ela é delicada e evocativa, sublinhando as emoções dos personagens sem jamais dominar a narrativa. Suas composições adicionam um ar de melancolia mais poética que só evidencia a beleza do filme. Com tons suaves na sua forma e uma história potente em seu conteúdo, "Monster" é deliciosamente desafiador, ou seja, para aqueles que se identificam com um cinema mais autoral e independente, onde a ambiguidade dita as regras, pode dar o play, pois essa será uma experiência tão rica quanto recompensadora.
Imperdível!
Essa é o tipo de recomendação que não tem erro - se você gostou de "Dahmer: Um Canibal Americano", "O Paraíso e a Serpente" e "American Crime Story", é impossível você não gostar da segunda temporada da (queridinha) série antológica de Ryan Murphy, "Monstros: Irmãos Menendez". Essa leva de nove episódios foca no brutal assassinato de José e Kitty Menendez em 1989. A temporada mergulha profundamente nas complexidades desse caso de grande repercussão, que chocou os Estados Unidos e levantou debates sobre abuso, poder e as pressões dentro de uma família aparentemente perfeita. Tal como a primeira temporada da série, que abordou a história de Jeffrey Dahmer, esta nova abordagem de "Monstros" continua com o estilo característico de Ryan Murphy: visualmente impactante, intensa em sua trama e com uma narrativa que usa e abusa do drama psicológico.
Aqui história se passa em Beverly Hills, onde Lyle (Nicholas Alexander Chavez) e Erik Menendez (Cooper Koch) assassinaram seus pais, José (Javier Bardem) e Kitty Menendez (Chloë Sevigny), em sua própria casa. Inicialmente, o crime parecia ser um assassinato motivado por ganância, já que os jovens herdeiros gastaram vastas quantias de dinheiro após a morte de seus pais. No entanto, durante o julgamento, a defesa revelou uma nova camada da narrativa: os irmãos alegaram que os assassinatos foram uma reação aos anos de abuso físico, psicológico e sexual que teriam sofrido nas mãos de José Menendez. A temporada explora esses dois lados — o do sensacionalismo e o íntimo e sombrio do abuso dentro de uma família completamente disfuncional. Confira o trailer:
Obviamente que a força da segunda temporada de Monstros está na forma como Ryan Murphy e seu parceiro Ian Brennan (de "Halston") estruturam a narrativa - eles não economizam na densidade dos diálogos, no grafismo dos assassinatos e no exagero de seus cenários, figurinos, maquiagens e até das performances. Dito isso, fica fácil afirmar: "Monstros: Irmãos Menendez" é, sim, apelativa, mas funciona! Por outro lado, a série se esforça para não apresentar uma versão simplificada do caso e, em vez disso, sugere um estudo de personagens muitas vezes desconfortável. Os episódios são montados de forma que a audiência constantemente questione as motivações dos irmãos - ao melhor estilo Suzane Richthofen, os Menendez foram vítimas de uma situação insustentável ou assassinos friamente calculistas?
Essa temporada da série, como em muitas outras produções de Murphy, se move na direção da ambiguidade, deixando para quem assiste a reflexão sobre qual a verdade por trás dos acontecimentos. Murphy e Brennan fazem o que sabem de melhor: criar a atmosfera de tensão psicológica que permeia cada episódio - e aqui cabe um comentário: o episódio 5, chamado de "Apelido" e rodado em um único plano, com a câmera sem nunca sair da mesma posição, é algo a ser celebrado e aplaudido de pé. Embora seja notavelmente diferente do tom de "Dahmer", a estética visual dessa temporada é igualmente competente já que tem uma fotografia que não se intimida em mostrar o contraste entre o glamour de Beverly Hills e o horror silencioso dentro da mansão dos Menendez. O uso de sombras e tons escuros para simbolizar o trauma reprimido é uma assinatura estética de Murphy, que aqui é usada com a precisão que a narrativa pede.
Nicholas Alexander Chavez e Cooper Koch capturam com eficácia a complexidade emocional dos irmãos. Suas performances oscilam entre jovens traumatizados, tentando lidar com os horrores de suas infâncias, e figuras manipuladoras, cientes das repercussões de seus atos. Esse equilíbrio é fundamental para nos manter envolvidos na narrativa, uma vez que o caso real dos Menendez continua a ser um dos mais divisivos na história criminal americana. Repare na química entre os dois atores e como ela é crucial para retratar a relação entre os irmãos, que oscila entre cumplicidade, desespero e um profundo vínculo de dependência emocional.
Embora o caso Menendez seja chocante por si só, a tendência de Murphy em enfatizar o drama extremo pode, às vezes, parecer excessiva para quem busca uma análise mais equilibrada e factual dos eventos - mas nesse caso não tem jeito, esse é seu estilo e muito do que você vai ver na tela foi de fato potencializado em troca de um conflito mais evidente e uma dramatização mais impactante. Apesar dessa ressalva, posso te garantir que "Monstros: Irmãos Menendez" é um entretenimento de primeira - essencialmente se você for mesmo um fã de true crime. Eu diria até que essa temporada é um retrato profundo e angustiante de uma das famílias mais disfuncionais da história criminal dos EUA, que aborda não apenas os atos brutais de violência, mas também as causas subjacentes do trauma.
Se você está disposto a considerar questões morais complexas, enquanto a narrativa desafia noções simplistas de culpabilidade e justiça, pode dar o play sem o menor medo de errar!
Essa é o tipo de recomendação que não tem erro - se você gostou de "Dahmer: Um Canibal Americano", "O Paraíso e a Serpente" e "American Crime Story", é impossível você não gostar da segunda temporada da (queridinha) série antológica de Ryan Murphy, "Monstros: Irmãos Menendez". Essa leva de nove episódios foca no brutal assassinato de José e Kitty Menendez em 1989. A temporada mergulha profundamente nas complexidades desse caso de grande repercussão, que chocou os Estados Unidos e levantou debates sobre abuso, poder e as pressões dentro de uma família aparentemente perfeita. Tal como a primeira temporada da série, que abordou a história de Jeffrey Dahmer, esta nova abordagem de "Monstros" continua com o estilo característico de Ryan Murphy: visualmente impactante, intensa em sua trama e com uma narrativa que usa e abusa do drama psicológico.
Aqui história se passa em Beverly Hills, onde Lyle (Nicholas Alexander Chavez) e Erik Menendez (Cooper Koch) assassinaram seus pais, José (Javier Bardem) e Kitty Menendez (Chloë Sevigny), em sua própria casa. Inicialmente, o crime parecia ser um assassinato motivado por ganância, já que os jovens herdeiros gastaram vastas quantias de dinheiro após a morte de seus pais. No entanto, durante o julgamento, a defesa revelou uma nova camada da narrativa: os irmãos alegaram que os assassinatos foram uma reação aos anos de abuso físico, psicológico e sexual que teriam sofrido nas mãos de José Menendez. A temporada explora esses dois lados — o do sensacionalismo e o íntimo e sombrio do abuso dentro de uma família completamente disfuncional. Confira o trailer:
Obviamente que a força da segunda temporada de Monstros está na forma como Ryan Murphy e seu parceiro Ian Brennan (de "Halston") estruturam a narrativa - eles não economizam na densidade dos diálogos, no grafismo dos assassinatos e no exagero de seus cenários, figurinos, maquiagens e até das performances. Dito isso, fica fácil afirmar: "Monstros: Irmãos Menendez" é, sim, apelativa, mas funciona! Por outro lado, a série se esforça para não apresentar uma versão simplificada do caso e, em vez disso, sugere um estudo de personagens muitas vezes desconfortável. Os episódios são montados de forma que a audiência constantemente questione as motivações dos irmãos - ao melhor estilo Suzane Richthofen, os Menendez foram vítimas de uma situação insustentável ou assassinos friamente calculistas?
Essa temporada da série, como em muitas outras produções de Murphy, se move na direção da ambiguidade, deixando para quem assiste a reflexão sobre qual a verdade por trás dos acontecimentos. Murphy e Brennan fazem o que sabem de melhor: criar a atmosfera de tensão psicológica que permeia cada episódio - e aqui cabe um comentário: o episódio 5, chamado de "Apelido" e rodado em um único plano, com a câmera sem nunca sair da mesma posição, é algo a ser celebrado e aplaudido de pé. Embora seja notavelmente diferente do tom de "Dahmer", a estética visual dessa temporada é igualmente competente já que tem uma fotografia que não se intimida em mostrar o contraste entre o glamour de Beverly Hills e o horror silencioso dentro da mansão dos Menendez. O uso de sombras e tons escuros para simbolizar o trauma reprimido é uma assinatura estética de Murphy, que aqui é usada com a precisão que a narrativa pede.
Nicholas Alexander Chavez e Cooper Koch capturam com eficácia a complexidade emocional dos irmãos. Suas performances oscilam entre jovens traumatizados, tentando lidar com os horrores de suas infâncias, e figuras manipuladoras, cientes das repercussões de seus atos. Esse equilíbrio é fundamental para nos manter envolvidos na narrativa, uma vez que o caso real dos Menendez continua a ser um dos mais divisivos na história criminal americana. Repare na química entre os dois atores e como ela é crucial para retratar a relação entre os irmãos, que oscila entre cumplicidade, desespero e um profundo vínculo de dependência emocional.
Embora o caso Menendez seja chocante por si só, a tendência de Murphy em enfatizar o drama extremo pode, às vezes, parecer excessiva para quem busca uma análise mais equilibrada e factual dos eventos - mas nesse caso não tem jeito, esse é seu estilo e muito do que você vai ver na tela foi de fato potencializado em troca de um conflito mais evidente e uma dramatização mais impactante. Apesar dessa ressalva, posso te garantir que "Monstros: Irmãos Menendez" é um entretenimento de primeira - essencialmente se você for mesmo um fã de true crime. Eu diria até que essa temporada é um retrato profundo e angustiante de uma das famílias mais disfuncionais da história criminal dos EUA, que aborda não apenas os atos brutais de violência, mas também as causas subjacentes do trauma.
Se você está disposto a considerar questões morais complexas, enquanto a narrativa desafia noções simplistas de culpabilidade e justiça, pode dar o play sem o menor medo de errar!
"Nudes" vai te surpreender! Essa série antológica norueguesa que está disponível na Globoplay, é tão importante quanto impactante. Diferente de "Depois de Lucia" onde os reflexos das fotos (ou vídeos) vazados na internet se concentravam no ambiente em que a personagem estava inserida, tendo o bullying como principal elemento narrativo, aqui o mergulho é um pouco menos cruel, mas nem por isso fácil de digerir - as histórias giram em torno das consequências mais intimas de quem, de alguma forma, sofreu com o mesmo problema. Nessa primeira temporada, são 3 histórias contadas em 3 (ou 4) episódios sequenciais, que trazem um recorte de algumas situações em que a intimidade e a privacidade não foram respeitadas em uma era nada empática de redes sociais.
Ada (Anna Storeng Frøseth), Sofia (Lena Reinhardtsen) e Viktor (Tord Kinge) são três jovens de 14, 16 e 18 anos respectivamente, que moram em diferentes partes da Noruega, mas que acabam vivendo o mesmo drama: suas vidas se transformaram em um inferno graças a uma foto ou um vídeo íntimo que viralizou nas redes sociais. Confira o trailer (com legendas em inglês):
Todas as três histórias trazem um estilo visual muito parecido com as séries inglesas da BBC e um roteiro, se não tão profundo, honesto (no sentido verdadeiro da palavra) e muito pautado na realidade de uma geração: Sofia, de 16 anos, faz sexo com um jovem em uma festa, até que uma pessoa qualquer grava tudo escondido e depois espalha o vídeo para toda escola assistir - o conflito aqui é descobrir quem foi o responsável. Já Ada, de 14, conhece um garoto no Tinder e para apimentar a relação, troca nudes com ele, porém, pouco depois, uma outra pessoa entra em contato com ela dizendo que suas fotos foram compartilhadas em vários fóruns de pornografia. Ele pode ajuda-la, mas Ida terá que pagar por isso - a chantagem move a história nesse track. E finalmente Viktor, um rapaz de 18 anos, que é acusado de pornografia infantil por um vídeo que postou no Snapchat onde uma amiga de 17 anos fazia sexo com seu parceiro. Em uma tentativa de retirar as graves acusações, Viktor precisa entender que suas ações terão enormes consequências - nessa saga, a ideia é mostrar o outro lado, de quem fez a maldade, mesmo sem pensar na gravidade do problema.
Veja, "Nudes" não tem o propósito de exaltar a morbidez da juventude, mas sim de mostrar algumas formas de lidar com essa terrível exposição - mesmo que a duras penas, e com marcas profundas na vida de cada um dos protagonistas. Não existe nada de romantismo e muito menos uma jornada do herói - a série é dura, conectada com a realidade e muito direta em sua mensagem. O fato de cada episódio ter cerca de vinte minutos, gera uma fluidez na narrativa, mas não permite maiores discussões ou desenvolvimentos dos personagens. O elenco é ótimo e isso traz grande verossimilhança para as situações - destaque para Anna Storeng Frøseth como Ada.
É impossível não pensar que cada uma das histórias que assistimos pode estar acontecendo no exato momento e com milhares de adolescentes. A ideia de posicionar a audiência respeitando uma estrutura onde em um episódio temos a apresentação, em outro o drama que os personagens vivem e no último como aquilo foi resolvido; nos dá tempo para reflexões importantes - nos colocamos no lugar de cada uma das vitimas (e em um deles, no lugar de quem cometeu o crime). Sim, o julgamento é imediato, mas a série foi muito feliz em mostrar a imaturidade dos jovens, a inconsequência, a inocência... isso deixa tudo muito palpável e machuca.
Vale a pena para os pais com seus filhos adolescentes. Essa série tem muito a ensinar!
"Nudes" vai te surpreender! Essa série antológica norueguesa que está disponível na Globoplay, é tão importante quanto impactante. Diferente de "Depois de Lucia" onde os reflexos das fotos (ou vídeos) vazados na internet se concentravam no ambiente em que a personagem estava inserida, tendo o bullying como principal elemento narrativo, aqui o mergulho é um pouco menos cruel, mas nem por isso fácil de digerir - as histórias giram em torno das consequências mais intimas de quem, de alguma forma, sofreu com o mesmo problema. Nessa primeira temporada, são 3 histórias contadas em 3 (ou 4) episódios sequenciais, que trazem um recorte de algumas situações em que a intimidade e a privacidade não foram respeitadas em uma era nada empática de redes sociais.
Ada (Anna Storeng Frøseth), Sofia (Lena Reinhardtsen) e Viktor (Tord Kinge) são três jovens de 14, 16 e 18 anos respectivamente, que moram em diferentes partes da Noruega, mas que acabam vivendo o mesmo drama: suas vidas se transformaram em um inferno graças a uma foto ou um vídeo íntimo que viralizou nas redes sociais. Confira o trailer (com legendas em inglês):
Todas as três histórias trazem um estilo visual muito parecido com as séries inglesas da BBC e um roteiro, se não tão profundo, honesto (no sentido verdadeiro da palavra) e muito pautado na realidade de uma geração: Sofia, de 16 anos, faz sexo com um jovem em uma festa, até que uma pessoa qualquer grava tudo escondido e depois espalha o vídeo para toda escola assistir - o conflito aqui é descobrir quem foi o responsável. Já Ada, de 14, conhece um garoto no Tinder e para apimentar a relação, troca nudes com ele, porém, pouco depois, uma outra pessoa entra em contato com ela dizendo que suas fotos foram compartilhadas em vários fóruns de pornografia. Ele pode ajuda-la, mas Ida terá que pagar por isso - a chantagem move a história nesse track. E finalmente Viktor, um rapaz de 18 anos, que é acusado de pornografia infantil por um vídeo que postou no Snapchat onde uma amiga de 17 anos fazia sexo com seu parceiro. Em uma tentativa de retirar as graves acusações, Viktor precisa entender que suas ações terão enormes consequências - nessa saga, a ideia é mostrar o outro lado, de quem fez a maldade, mesmo sem pensar na gravidade do problema.
Veja, "Nudes" não tem o propósito de exaltar a morbidez da juventude, mas sim de mostrar algumas formas de lidar com essa terrível exposição - mesmo que a duras penas, e com marcas profundas na vida de cada um dos protagonistas. Não existe nada de romantismo e muito menos uma jornada do herói - a série é dura, conectada com a realidade e muito direta em sua mensagem. O fato de cada episódio ter cerca de vinte minutos, gera uma fluidez na narrativa, mas não permite maiores discussões ou desenvolvimentos dos personagens. O elenco é ótimo e isso traz grande verossimilhança para as situações - destaque para Anna Storeng Frøseth como Ada.
É impossível não pensar que cada uma das histórias que assistimos pode estar acontecendo no exato momento e com milhares de adolescentes. A ideia de posicionar a audiência respeitando uma estrutura onde em um episódio temos a apresentação, em outro o drama que os personagens vivem e no último como aquilo foi resolvido; nos dá tempo para reflexões importantes - nos colocamos no lugar de cada uma das vitimas (e em um deles, no lugar de quem cometeu o crime). Sim, o julgamento é imediato, mas a série foi muito feliz em mostrar a imaturidade dos jovens, a inconsequência, a inocência... isso deixa tudo muito palpável e machuca.
Vale a pena para os pais com seus filhos adolescentes. Essa série tem muito a ensinar!
É impossível não pensar nessa minissérie com aquele "selo HBO". Não que a produção da Netflix seja ruim, mas definitivamente não está na mesma prateleira. Dito isso, e alinhada as expectativas, posso adiantar que "O Caso Asunta" vai te surpreendente mais pela história real bizarra do que por qualquer outra coisa. "El Caso Asunta" (no original), criada por Ramón Campos e Gema R. Neira (do ótimo "Fariña") ao lado de e David Orea e Jon de la Cuesta, é um mergulho nos detalhes mais sórdidos de um crime real que chocou a Espanha em 2013. A minissérie retrata o caso da jovem Asunta Basterra Porto, uma menina de 12 anos encontrada morta em circunstâncias misteriosas, e o subsequente julgamento de seus pais adotivos, Rosario Porto e Alfonso Basterra, acusados de seu assassinato. Com uma narrativa intensa, sempre pontuada por uma abordagem quase documental, "O Caso Asunta" oferece uma visão interessante, minuciosa e inquietante de um dos casos mais perturbadores dos últimos tempos na Europa.
O casal Rosario (Candela Peña) e Alfonso Basterra (Tristán Ulloa) denuncia o desaparecimento de sua filha adotiva, Asunta, em uma delegacia de Santiago, na Espanha. No entanto, uma série de contradições, rapidamente, fazem com que as investigações apontem que os próprios pais sejam indiciados pelo crime. Como é possível imaginar, essa linha de investigação liderada pelo egocêntrico Juez Malvar (Javier Gutiérrez) transforma o caso em uma jornada de grande repercussão na mídia espanhola em 2013, e que acaba deixando muitas marcas. Confira o trailer (em espanhol):
Se você for um grande apreciador do gênero, facilmente você perceberá como a minissérie é estruturada para nos remeter ao estilo "true crime" de conduzir uma narrativa. Combinando imagens reais do caso com reconstituições dramatizadas dos bastidores da investigação, focando especialmente nos acusados, "O Caso Asunta" constrói um retrato abrangente dos eventos que levaram à morte de Asunta. A produção se esforça para ser fiel aos fatos conhecidos do caso, ao mesmo tempo em que explora as complexidades emocionais e psicológicas dos envolvidos, com um conceito visual que, de fato, cria uma experiência imersiva que nos prende e nos faz questionar as motivações e o comportamento dos personagens centrais a todo momento.
Carlos Sedes e Jacobo Martínez (ambos de "Fariña") fazem um bom trabalho na direção ao equilibrar a narrativa mais factual com o drama humano. Mesmo com um orçamento limitado, é perceptível ao longo dos episódios, que os diretores se esforçam para entregar um ritmo meticuloso, guiando a audiência pelos eventos que precederam e seguiram a tragédia. O uso de cortes reais e uma câmera "mais nervosa" confere certa autenticidade à narrativa, certamente potencializa a gravidade do caso e o impacto que teve na sociedade espanhola. Reparem como os tons frios e a iluminação das cenas sublinham a atmosfera inquietante da história de forma a maximizar o impacto emocional, com planos mais fechados que refletem a angústia e a confusão em torno da investigação e do julgamento pela perspectiva de quem mais sofreu com tudo isso.
Ao evitar um enfoque unilateral, "O Caso Asunta" permite que audiência considere múltiplas teorias e interpretações, mostrando a complexidade da investigação e toda incerteza que muitas vezes acompanham casos de grande notoriedade pública. Essa proposta aumenta o lado entretenimento da história e acaba cobrando um pouco mais do seu elenco. Tanto Peña quanto Ulloa trazem uma intensidade e ambiguidade que justificam a perplexidade do público e da mídia em relação à sua culpabilidade ou inocência dos pais de Asunta, mas olha, é na figura de Juez Malvar do premiado Javier Gutiérrez que a minissérie mexe mesmo com nossas sensações mais particulares - especialmente quando percebemos que o crime funciona muito mais como um fenômeno cultural e um reflexo das ansiedades sociais contemporâneas, do que como uma missão pela justiça e pelo respeito à vitima.
"O Caso Asunta" vale o seu play!
É impossível não pensar nessa minissérie com aquele "selo HBO". Não que a produção da Netflix seja ruim, mas definitivamente não está na mesma prateleira. Dito isso, e alinhada as expectativas, posso adiantar que "O Caso Asunta" vai te surpreendente mais pela história real bizarra do que por qualquer outra coisa. "El Caso Asunta" (no original), criada por Ramón Campos e Gema R. Neira (do ótimo "Fariña") ao lado de e David Orea e Jon de la Cuesta, é um mergulho nos detalhes mais sórdidos de um crime real que chocou a Espanha em 2013. A minissérie retrata o caso da jovem Asunta Basterra Porto, uma menina de 12 anos encontrada morta em circunstâncias misteriosas, e o subsequente julgamento de seus pais adotivos, Rosario Porto e Alfonso Basterra, acusados de seu assassinato. Com uma narrativa intensa, sempre pontuada por uma abordagem quase documental, "O Caso Asunta" oferece uma visão interessante, minuciosa e inquietante de um dos casos mais perturbadores dos últimos tempos na Europa.
O casal Rosario (Candela Peña) e Alfonso Basterra (Tristán Ulloa) denuncia o desaparecimento de sua filha adotiva, Asunta, em uma delegacia de Santiago, na Espanha. No entanto, uma série de contradições, rapidamente, fazem com que as investigações apontem que os próprios pais sejam indiciados pelo crime. Como é possível imaginar, essa linha de investigação liderada pelo egocêntrico Juez Malvar (Javier Gutiérrez) transforma o caso em uma jornada de grande repercussão na mídia espanhola em 2013, e que acaba deixando muitas marcas. Confira o trailer (em espanhol):
Se você for um grande apreciador do gênero, facilmente você perceberá como a minissérie é estruturada para nos remeter ao estilo "true crime" de conduzir uma narrativa. Combinando imagens reais do caso com reconstituições dramatizadas dos bastidores da investigação, focando especialmente nos acusados, "O Caso Asunta" constrói um retrato abrangente dos eventos que levaram à morte de Asunta. A produção se esforça para ser fiel aos fatos conhecidos do caso, ao mesmo tempo em que explora as complexidades emocionais e psicológicas dos envolvidos, com um conceito visual que, de fato, cria uma experiência imersiva que nos prende e nos faz questionar as motivações e o comportamento dos personagens centrais a todo momento.
Carlos Sedes e Jacobo Martínez (ambos de "Fariña") fazem um bom trabalho na direção ao equilibrar a narrativa mais factual com o drama humano. Mesmo com um orçamento limitado, é perceptível ao longo dos episódios, que os diretores se esforçam para entregar um ritmo meticuloso, guiando a audiência pelos eventos que precederam e seguiram a tragédia. O uso de cortes reais e uma câmera "mais nervosa" confere certa autenticidade à narrativa, certamente potencializa a gravidade do caso e o impacto que teve na sociedade espanhola. Reparem como os tons frios e a iluminação das cenas sublinham a atmosfera inquietante da história de forma a maximizar o impacto emocional, com planos mais fechados que refletem a angústia e a confusão em torno da investigação e do julgamento pela perspectiva de quem mais sofreu com tudo isso.
Ao evitar um enfoque unilateral, "O Caso Asunta" permite que audiência considere múltiplas teorias e interpretações, mostrando a complexidade da investigação e toda incerteza que muitas vezes acompanham casos de grande notoriedade pública. Essa proposta aumenta o lado entretenimento da história e acaba cobrando um pouco mais do seu elenco. Tanto Peña quanto Ulloa trazem uma intensidade e ambiguidade que justificam a perplexidade do público e da mídia em relação à sua culpabilidade ou inocência dos pais de Asunta, mas olha, é na figura de Juez Malvar do premiado Javier Gutiérrez que a minissérie mexe mesmo com nossas sensações mais particulares - especialmente quando percebemos que o crime funciona muito mais como um fenômeno cultural e um reflexo das ansiedades sociais contemporâneas, do que como uma missão pela justiça e pelo respeito à vitima.
"O Caso Asunta" vale o seu play!
"O diabo de cada dia" foi uma agradável surpresa e embora muita gente possa discordar, é um grande filme! Existe uma linha tênue entre violência e religiosidade, que veio se intensificando através dos anos e o filme soube trabalhar esses elementos dentro de um universo bem particular e, de fato, fez todo o sentido na jornada de cada um dos personagens.
Baseado no livro homônimo de Donald Ray Pollock, The Devil All the Time (mas que aqui no Brasil recebeu o título de "O mal nosso de cada dia"), o filme acompanha diversos personagens num canto esquecido de Ohio, nos EUA, entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, que, de alguma forma, foram impactados pelos efeitos da violência e/ou pela fé, como justificativa de suas escolhas ou do seu destino. Sim, eu sei que parece confuso ou filosófico demais, mas veja o trailer e tudo passará a fazer um pouco mais sentido:
Talvez o único comentário que se faça necessário é que o filme não é um suspense, não tem nenhum elemento sobrenatural e muito menos é superficial. O terror e a violência existem, mas é o ser humano e a forma como ele interpreta alguns dogmas, que fazem de "O diabo de cada dia" realmente assustador - eu diria que é o terror do cotidiano, da ignorância, do extremismo, mas tudo isso contado de um forma bastante inteligente e dinâmica - sem falar no ótimo trabalho de direção, desenho de produção e edição! Típico filme que se fosse uma série da HBO levaria todos os prêmios possíveis nas premiações - e isso é um baita elogio!
Um dos pontos altos "O diabo de cada dia" é o seu roteiro! Por se tratar de uma adaptação, muito se especula sobre a qualidade ou sobre a fidelidade em relação ao livro. Pois bem, aqui já saímos tendo o escritor da obra ao lado dos roteiristas, Antonio e Paulo Campos, e isso fica muito claro pelas escolhas narrativas que encontramos no filme - o próprio Donald Ray Pollock é o narrador, o que dá o tom certo para a história.
Por se tratar de quatro histórias que vão se encontrando até fechar um grande ciclo, algumas resoluções acabam levando para um epílogo um pouco óbvio, mas isso não atrapalha em nada nossa experiência, já que é impossível saber qual será, exatamente, o fim de cada um dos personagens - e posso garantir que somos surpreendidos no encerramento de quase todas essas sub-tramas que servem como peças de um enorme quebra-cabeça. Veja, no primeiro ato conhecemos Willard Russell (Bill Skarsgard), um atormentado veterano de guerra, que sobreviveu à segunda guerra. Ele não consegue salvar sua jovem esposa, Charlotte (Haley Bennett), de um câncer, mesmo com toda sua fé e devoção. Já Carl (Jason Clarke) e Sandy Henderson (Riley Keough), se conhecem na mesma época que Russel e sua esposa, porém acabam se transformando em um casal de assassinos em série graças ao fetiche de Carl em fotografar Sandy com outros homens. No segundo ato, seguimos Arvin Russell (Tom Holland), órfão de Willard e Charlotte, que cresceu para ser um homem bom, mas que começa a demonstrar comportamentos violentos quando passa a desconfiar que o novo líder religioso da cidade, Preston Teagardin (Robert Pattinson) está abusando de sua irmã adotiva Lenora (Eliza Scanlen), filha da primeira vítima de Carl e Sandy.
Entendeu a dinâmica? E esse foi só um exemplo de como as histórias vão se cruzando. Existem outras sub-tramas que mereciam, inclusive, mais tempo de desenvolvimento - por isso aquele comentário sobre quanto seria bacana se "O diabo de cada dia" fosse uma minissérie! Com relação a produção, eu só posso elogiar: a reconstrução de época, desde as escolhas das locações até todo o trabalho de arte, está impecável - digno de prêmios. A fotografia do inglês Lol Crawley (The OA) é muito bonita e junto com a direção de Campos, fazem fluir a história sem muita inventividade, mas com ótimas escolhas de enquadramentos, extremamente alinhados com um elenco do mais alto nível - destaques para Bill Skarsgard, Tom Holland e Robert Pattinson!
"O diabo de cada dia" é tecnicamente competente para retratar um drama perturbador, com cenas violentas e histórias de embrulhar o estômago. O realismo que vemos na narrativa é completamente necessário e atual - principalmente se interpretarmos algumas passagens de uma maneira mais alegórica. Ele nos provoca uma dura reflexão: por que dois conceitos tão antagônicos como "religião" e "violência" andam tão próximos, sempre? Nós até sabemos a resposta, claro, mas as escolhas do filme vão nos conduzindo para a certeza de que o ser humano tem uma capacidade impressionante de deturpar conceitos em função das suas próprias escolhas, do seu ego ou até das expectativas de uma interpretação que apenas ele acredita que esteja sempre correta, custe o que custar!
"O diabo de cada dia" foi uma agradável surpresa e embora muita gente possa discordar, é um grande filme! Existe uma linha tênue entre violência e religiosidade, que veio se intensificando através dos anos e o filme soube trabalhar esses elementos dentro de um universo bem particular e, de fato, fez todo o sentido na jornada de cada um dos personagens.
Baseado no livro homônimo de Donald Ray Pollock, The Devil All the Time (mas que aqui no Brasil recebeu o título de "O mal nosso de cada dia"), o filme acompanha diversos personagens num canto esquecido de Ohio, nos EUA, entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã, que, de alguma forma, foram impactados pelos efeitos da violência e/ou pela fé, como justificativa de suas escolhas ou do seu destino. Sim, eu sei que parece confuso ou filosófico demais, mas veja o trailer e tudo passará a fazer um pouco mais sentido:
Talvez o único comentário que se faça necessário é que o filme não é um suspense, não tem nenhum elemento sobrenatural e muito menos é superficial. O terror e a violência existem, mas é o ser humano e a forma como ele interpreta alguns dogmas, que fazem de "O diabo de cada dia" realmente assustador - eu diria que é o terror do cotidiano, da ignorância, do extremismo, mas tudo isso contado de um forma bastante inteligente e dinâmica - sem falar no ótimo trabalho de direção, desenho de produção e edição! Típico filme que se fosse uma série da HBO levaria todos os prêmios possíveis nas premiações - e isso é um baita elogio!
Um dos pontos altos "O diabo de cada dia" é o seu roteiro! Por se tratar de uma adaptação, muito se especula sobre a qualidade ou sobre a fidelidade em relação ao livro. Pois bem, aqui já saímos tendo o escritor da obra ao lado dos roteiristas, Antonio e Paulo Campos, e isso fica muito claro pelas escolhas narrativas que encontramos no filme - o próprio Donald Ray Pollock é o narrador, o que dá o tom certo para a história.
Por se tratar de quatro histórias que vão se encontrando até fechar um grande ciclo, algumas resoluções acabam levando para um epílogo um pouco óbvio, mas isso não atrapalha em nada nossa experiência, já que é impossível saber qual será, exatamente, o fim de cada um dos personagens - e posso garantir que somos surpreendidos no encerramento de quase todas essas sub-tramas que servem como peças de um enorme quebra-cabeça. Veja, no primeiro ato conhecemos Willard Russell (Bill Skarsgard), um atormentado veterano de guerra, que sobreviveu à segunda guerra. Ele não consegue salvar sua jovem esposa, Charlotte (Haley Bennett), de um câncer, mesmo com toda sua fé e devoção. Já Carl (Jason Clarke) e Sandy Henderson (Riley Keough), se conhecem na mesma época que Russel e sua esposa, porém acabam se transformando em um casal de assassinos em série graças ao fetiche de Carl em fotografar Sandy com outros homens. No segundo ato, seguimos Arvin Russell (Tom Holland), órfão de Willard e Charlotte, que cresceu para ser um homem bom, mas que começa a demonstrar comportamentos violentos quando passa a desconfiar que o novo líder religioso da cidade, Preston Teagardin (Robert Pattinson) está abusando de sua irmã adotiva Lenora (Eliza Scanlen), filha da primeira vítima de Carl e Sandy.
Entendeu a dinâmica? E esse foi só um exemplo de como as histórias vão se cruzando. Existem outras sub-tramas que mereciam, inclusive, mais tempo de desenvolvimento - por isso aquele comentário sobre quanto seria bacana se "O diabo de cada dia" fosse uma minissérie! Com relação a produção, eu só posso elogiar: a reconstrução de época, desde as escolhas das locações até todo o trabalho de arte, está impecável - digno de prêmios. A fotografia do inglês Lol Crawley (The OA) é muito bonita e junto com a direção de Campos, fazem fluir a história sem muita inventividade, mas com ótimas escolhas de enquadramentos, extremamente alinhados com um elenco do mais alto nível - destaques para Bill Skarsgard, Tom Holland e Robert Pattinson!
"O diabo de cada dia" é tecnicamente competente para retratar um drama perturbador, com cenas violentas e histórias de embrulhar o estômago. O realismo que vemos na narrativa é completamente necessário e atual - principalmente se interpretarmos algumas passagens de uma maneira mais alegórica. Ele nos provoca uma dura reflexão: por que dois conceitos tão antagônicos como "religião" e "violência" andam tão próximos, sempre? Nós até sabemos a resposta, claro, mas as escolhas do filme vão nos conduzindo para a certeza de que o ser humano tem uma capacidade impressionante de deturpar conceitos em função das suas próprias escolhas, do seu ego ou até das expectativas de uma interpretação que apenas ele acredita que esteja sempre correta, custe o que custar!
Antes de mais nada é preciso dizer que "O Escândalo" é um filme difícil de digerir - é preciso ter estômago e, certamente, vai tocar mais em algumas pessoas do que em outras, mas posso garantir: é um grande filme! Ele é baseado na história real sobre as denúncias de assédio sexual contra o então presidente e fundador da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow).
A história é contada pelo ponto de vista de três personagens-chaves: Megyn Kelly (Charlize Theron), Gretchen Carlson (Nicole Kidman) - âncoras do canal; e Kayla Pospisil (Margot Robbie) uma produtora, personagem criada para o filme, que representa (e até com um certo estereótipo) várias outras funcionárias da emissora que também sofreram algum tipo de assédio de Ailes. O fato é que tudo caminhava bem até que Gretchen Carlson, cansada dos seguidos ataques de assédio moral, resolve forçar sua demissão para iniciar um processo contra as várias investidas que sofreu de Roger Ailes no passado. Embora fosse um tiro no escuro, afinal Roger Ailes sempre foi um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos, várias mulheres começam a se pronunciar contra o executivo, fortalecendo a iniciativa de Gretchen - mas faltava alguém de dentro da Fox News para dar o "tiro de misericórdia" e é aí que o Megyn Kelly e Kayla Pospisil ganham força no drama e o filme deslancha!
O ponto forte do filme está no elenco: Charlize Theron é uma grande atriz e está perfeita como Megyn Kelly - é impressionante como as duas estão parecidas, o que só fortalece a chance de "O Escândalo" ganhar o Oscar na categoria "Cabelo/Maquiagem". Margot Robbie também está impecável e por mais que possa parecer que ela é a personificação do estereótipo da mulher bonita/ingênua/oportunista, seu trabalho vai muito além: ela transita por cada uma dessas características de uma forma muito introspectiva, causando uma enorme confusão na sua cabeça, porém quando tudo começa a fazer sentido, seus olhos falam mais do que qualquer diálogo que o roteirista pudesse ter escrito para explicar o que passa com uma mulher assediada daquela forma - é lindo de ver! Nicole Kidman também está incrível, mas o pouco tempo de tela prejudicou sua caminha até o Oscar - se a dúvida ficou entre ela e Margot Robbie, ficaria impossível tirar a chance da segunda! John Lithgow também está ótimo como Roger Ailes - um pecado ele não ter tido a chance de disputar os maiores prêmios da temporada. Merecia!
O roteiro do Charles Randolph (vencedor do Oscar por "A Grande Aposta") é bom, mas pode parecer confuso para quem não conhece dos bastidores da politica americana. Embora o prólogo nos ajude entender a dinâmica sócio-politica da Fox News, as quebras narrativas da linha temporal dificultam o entendimento logo de cara. Além disso, o roteiro trás alguns elementos sem a menor conceitualização dramática: a quebra da quarta parede e a exposição do pensamento funcionam bem, mas são usadas poucas vezes, parecendo ser muito mais uma solução pontual do que uma característica marcante da escrita! A direção do Jay Roach é ótima, embora tenha lido muitas críticas sobre suas escolhas - disseram, inclusive, que ele copiou o estilo de Adam McKay depois dos sucessos de "Vice"e a "Grande Aposta". Outro elemento que incomodou alguns críticos foi o tom que ele imprimiu no filme, parecendo menos preocupado com a seriedade das denúncias e mais em justificar as atitudes erradas de Ailes - a cena onde Kayla Pospisil vai até a sala de Roger Ailes pela primeira vez é o exemplo que justifica essa tese. Eu discordo!
"O Escândalo" foi indicado em 3 categorias do Oscar 2020 e, sinceramente, "Cabelo/Maquiagem" é sua única chance real. Margot Robbie e Charlize Theron, embora com excelentes performances, não tem chance pelo nível das concorrentes diretas pelo prêmio, porém isso não diminui em nada a qualidade e a importância delas no filme. "O Escândalo" funciona como entretenimento, mas é muito mais valoroso pela exposição de uma história que perecia ser tão usual nos corredores da Fox News e de vários outras lugares onde o poder parece estar acima de tudo!
Up-date: "O Escândalo" ganhou em uma categoria no Oscar 2020: Melhor Cabelo e Maquiagem!
Antes de mais nada é preciso dizer que "O Escândalo" é um filme difícil de digerir - é preciso ter estômago e, certamente, vai tocar mais em algumas pessoas do que em outras, mas posso garantir: é um grande filme! Ele é baseado na história real sobre as denúncias de assédio sexual contra o então presidente e fundador da Fox News, Roger Ailes (John Lithgow).
A história é contada pelo ponto de vista de três personagens-chaves: Megyn Kelly (Charlize Theron), Gretchen Carlson (Nicole Kidman) - âncoras do canal; e Kayla Pospisil (Margot Robbie) uma produtora, personagem criada para o filme, que representa (e até com um certo estereótipo) várias outras funcionárias da emissora que também sofreram algum tipo de assédio de Ailes. O fato é que tudo caminhava bem até que Gretchen Carlson, cansada dos seguidos ataques de assédio moral, resolve forçar sua demissão para iniciar um processo contra as várias investidas que sofreu de Roger Ailes no passado. Embora fosse um tiro no escuro, afinal Roger Ailes sempre foi um dos homens mais poderosos dos Estados Unidos, várias mulheres começam a se pronunciar contra o executivo, fortalecendo a iniciativa de Gretchen - mas faltava alguém de dentro da Fox News para dar o "tiro de misericórdia" e é aí que o Megyn Kelly e Kayla Pospisil ganham força no drama e o filme deslancha!
O ponto forte do filme está no elenco: Charlize Theron é uma grande atriz e está perfeita como Megyn Kelly - é impressionante como as duas estão parecidas, o que só fortalece a chance de "O Escândalo" ganhar o Oscar na categoria "Cabelo/Maquiagem". Margot Robbie também está impecável e por mais que possa parecer que ela é a personificação do estereótipo da mulher bonita/ingênua/oportunista, seu trabalho vai muito além: ela transita por cada uma dessas características de uma forma muito introspectiva, causando uma enorme confusão na sua cabeça, porém quando tudo começa a fazer sentido, seus olhos falam mais do que qualquer diálogo que o roteirista pudesse ter escrito para explicar o que passa com uma mulher assediada daquela forma - é lindo de ver! Nicole Kidman também está incrível, mas o pouco tempo de tela prejudicou sua caminha até o Oscar - se a dúvida ficou entre ela e Margot Robbie, ficaria impossível tirar a chance da segunda! John Lithgow também está ótimo como Roger Ailes - um pecado ele não ter tido a chance de disputar os maiores prêmios da temporada. Merecia!
O roteiro do Charles Randolph (vencedor do Oscar por "A Grande Aposta") é bom, mas pode parecer confuso para quem não conhece dos bastidores da politica americana. Embora o prólogo nos ajude entender a dinâmica sócio-politica da Fox News, as quebras narrativas da linha temporal dificultam o entendimento logo de cara. Além disso, o roteiro trás alguns elementos sem a menor conceitualização dramática: a quebra da quarta parede e a exposição do pensamento funcionam bem, mas são usadas poucas vezes, parecendo ser muito mais uma solução pontual do que uma característica marcante da escrita! A direção do Jay Roach é ótima, embora tenha lido muitas críticas sobre suas escolhas - disseram, inclusive, que ele copiou o estilo de Adam McKay depois dos sucessos de "Vice"e a "Grande Aposta". Outro elemento que incomodou alguns críticos foi o tom que ele imprimiu no filme, parecendo menos preocupado com a seriedade das denúncias e mais em justificar as atitudes erradas de Ailes - a cena onde Kayla Pospisil vai até a sala de Roger Ailes pela primeira vez é o exemplo que justifica essa tese. Eu discordo!
"O Escândalo" foi indicado em 3 categorias do Oscar 2020 e, sinceramente, "Cabelo/Maquiagem" é sua única chance real. Margot Robbie e Charlize Theron, embora com excelentes performances, não tem chance pelo nível das concorrentes diretas pelo prêmio, porém isso não diminui em nada a qualidade e a importância delas no filme. "O Escândalo" funciona como entretenimento, mas é muito mais valoroso pela exposição de uma história que perecia ser tão usual nos corredores da Fox News e de vários outras lugares onde o poder parece estar acima de tudo!
Up-date: "O Escândalo" ganhou em uma categoria no Oscar 2020: Melhor Cabelo e Maquiagem!
No universo dos documentários que revelam os bastidores da indústria do entretenimento como "Showbiz Kids" e até o polêmico "Deixando Neverland", "O Escândalo de Randall Emmett" surge como uma peça intrigante que expõe os segredos por trás de um dos mais notórios e recentes escândalos de Hollywood - se nem tanto aqui no Brasil, sem sombra de dúvidas nos EUA, por ter seus dois protagonistas entre as estrelas do famoso reality da Bravo,"Vanderpump Rules". Produzido pela ABC News Studios e pelo LA Times para o Hulu, o filme captura a essência do escândalo a partir de uma construção bastante consistente do perfil de Emmett, um famoso produtor de filmes B, e da forma como ele se relacionava com as pessoas que o rodeavam.
Baseado no artigo intitulado "The Man Who Played Hollywood: Inside Randall Emmett’s Crumbling Empire" do L.A. Times, o documentário faz um recorte muito interessante da investigação sobre muitas das acusações chocantes contra Randall Emmett, que incluem alegações de discriminação racial, abusos psicológicos e comportamentos questionáveis no set (um deles, inclusive, contra o ator Bruce Willis já doente). Também são apresentadas entrevistas com Lala Kent, celebridade "Vanderpump" e ex-noiva do produtor. Ela fala sobre seu tumultuado relacionamento e como soube das acusações e supostas traições de Emmett ainda com uma filha recém-nascida. Confira o trailer (em inglês):
Apenas para contextualizar, "Vanderpump Rules" é um famoso spin-off de "The Real Housewives of Beverly Hills", onde uma de suas protagonistas, Lisa Vanderpump, mentora talentos que buscam conquistar e construir suas carreiras no mundo da gastronomia. Bem ao estilo "real-life", o reality-show revela os bastidores do restaurante SUR, em West Hollywood: o dia-a-dia e os dramas dos jovens e belos funcionários de Lisa - entre eles, a bela Lala Kent. No entanto, "O Escândalo de Randall Emmett" vai um pouco além, já que o roteiro pontua a jornada de sucesso de Emmett, um dos produtores de "O Irlandês" da Netflix, em meio a muitas denúncias de abuso moral, até sua derrocada quando seu ego ajudou a destruir uma carreira sólida ao aceitar participar do mesmo reality que sua noiva.
A narrativa do documentário é, de fato, muito bem orquestrada até para quem não está familiarizado com essa doentia indústria das celebridades nos EUA. O que para aquela audiência pode parecer uma extensão curiosa do reality-show, para nós é mais um ótimo raio-x dos bastidores do cinema de Hollywood. A partir dos relatos da Amy Kaufman e da Meg James, autoras do artigo do Times, vamos conhecendo os detalhes da história de Emmett de forma meticulosa - são entrevistas com pessoas-chave do escândalo, entre elas Lisa e Easton Burningham, mãe e irmão de Lala, além de pelo menos três assistentes do produtor que até hoje sofrem de ansiedade crônica graças a forma como eram tratados. Imagens de arquivo e algumas reconstituições, dão o exato tom do terror que era estar próximo de Emmet - reparem como a trama tem um ar de suspense e como a estrutura cronológica contribui muito para mergulharmos nessa obscura atmosfera.
Ao adentrar nos aspectos emocionais da história, o documentário não se limita em relatar os acontecimentos, mas também explora as consequências pessoais e profissionais dos fatos - a empatia gerada por essas histórias, sem dúvida, humaniza a narrativa e a torna parte vital da nossa experiência como audiência. Talvez seja isso, inclusive, que faz com que "O Escândalo de Randall Emmett" transcenda seu propósito de documentar um evento isolado, abrindo espaço para uma discussão mais ampla sobre ética na indústria do entretenimento. Não tenha dúvidas que mais uma vez, você vai questionar o sistema desse mercado tão pautado no ego e no poder, que possibilitam escândalos como esse, e a refletir sobre as implicações sociais e culturais do caso.
Vale muito o seu play!
No universo dos documentários que revelam os bastidores da indústria do entretenimento como "Showbiz Kids" e até o polêmico "Deixando Neverland", "O Escândalo de Randall Emmett" surge como uma peça intrigante que expõe os segredos por trás de um dos mais notórios e recentes escândalos de Hollywood - se nem tanto aqui no Brasil, sem sombra de dúvidas nos EUA, por ter seus dois protagonistas entre as estrelas do famoso reality da Bravo,"Vanderpump Rules". Produzido pela ABC News Studios e pelo LA Times para o Hulu, o filme captura a essência do escândalo a partir de uma construção bastante consistente do perfil de Emmett, um famoso produtor de filmes B, e da forma como ele se relacionava com as pessoas que o rodeavam.
Baseado no artigo intitulado "The Man Who Played Hollywood: Inside Randall Emmett’s Crumbling Empire" do L.A. Times, o documentário faz um recorte muito interessante da investigação sobre muitas das acusações chocantes contra Randall Emmett, que incluem alegações de discriminação racial, abusos psicológicos e comportamentos questionáveis no set (um deles, inclusive, contra o ator Bruce Willis já doente). Também são apresentadas entrevistas com Lala Kent, celebridade "Vanderpump" e ex-noiva do produtor. Ela fala sobre seu tumultuado relacionamento e como soube das acusações e supostas traições de Emmett ainda com uma filha recém-nascida. Confira o trailer (em inglês):
Apenas para contextualizar, "Vanderpump Rules" é um famoso spin-off de "The Real Housewives of Beverly Hills", onde uma de suas protagonistas, Lisa Vanderpump, mentora talentos que buscam conquistar e construir suas carreiras no mundo da gastronomia. Bem ao estilo "real-life", o reality-show revela os bastidores do restaurante SUR, em West Hollywood: o dia-a-dia e os dramas dos jovens e belos funcionários de Lisa - entre eles, a bela Lala Kent. No entanto, "O Escândalo de Randall Emmett" vai um pouco além, já que o roteiro pontua a jornada de sucesso de Emmett, um dos produtores de "O Irlandês" da Netflix, em meio a muitas denúncias de abuso moral, até sua derrocada quando seu ego ajudou a destruir uma carreira sólida ao aceitar participar do mesmo reality que sua noiva.
A narrativa do documentário é, de fato, muito bem orquestrada até para quem não está familiarizado com essa doentia indústria das celebridades nos EUA. O que para aquela audiência pode parecer uma extensão curiosa do reality-show, para nós é mais um ótimo raio-x dos bastidores do cinema de Hollywood. A partir dos relatos da Amy Kaufman e da Meg James, autoras do artigo do Times, vamos conhecendo os detalhes da história de Emmett de forma meticulosa - são entrevistas com pessoas-chave do escândalo, entre elas Lisa e Easton Burningham, mãe e irmão de Lala, além de pelo menos três assistentes do produtor que até hoje sofrem de ansiedade crônica graças a forma como eram tratados. Imagens de arquivo e algumas reconstituições, dão o exato tom do terror que era estar próximo de Emmet - reparem como a trama tem um ar de suspense e como a estrutura cronológica contribui muito para mergulharmos nessa obscura atmosfera.
Ao adentrar nos aspectos emocionais da história, o documentário não se limita em relatar os acontecimentos, mas também explora as consequências pessoais e profissionais dos fatos - a empatia gerada por essas histórias, sem dúvida, humaniza a narrativa e a torna parte vital da nossa experiência como audiência. Talvez seja isso, inclusive, que faz com que "O Escândalo de Randall Emmett" transcenda seu propósito de documentar um evento isolado, abrindo espaço para uma discussão mais ampla sobre ética na indústria do entretenimento. Não tenha dúvidas que mais uma vez, você vai questionar o sistema desse mercado tão pautado no ego e no poder, que possibilitam escândalos como esse, e a refletir sobre as implicações sociais e culturais do caso.
Vale muito o seu play!
O adjetivo "idiota" foi redefinido em "O Homem mais odiado da Internet" - e não falo apenas do personagem, mas também de todos que viam nele um herói! Dito isso, prepara-se para uma jornada completamente indigesta, cruel e revoltante! Essa minissérie de 3 episódios da Netflix expõe, de fato, uma das figuras mais desprezíveis que você vai conhecer na sua vida - e ver ele se dar muito mal, será a força motivadora que vai te fazer suportar essa história absurda!
Hunter Moore ganhou fama por se considerar um profissional especializado em arruinar a vida dos outros graças a um site que ele criou chamado "IsAnyoneUp", focado em fotos de mulheres nuas sem o consentimento das vítimas e ainda indicando seus respectivos perfis nas redes sociais. O mais mórbido, porém, é que, com a popularidade do site, Hunter conquistou milhares de seguidores fiéis, em especial por fortalecer misoginia e todo tipo de discurso de ódio em seu fórum. Além da busca de uma mãe para que Hunter fosse punido por seus crimes, a minissérie expõe o ponto de vista de várias vítimas que tiveram sua intimidade exposta e por isso sua vida transformada completamente.
Dirigida pelo praticamente estreante Rob Miller, "O Homem mais odiado da Internet" surpreende pela qualidade técnica e artística que além de criar uma linha do tempo extremamente cuidadosa para que a audiência tenha a exata noção do que aconteceu com algumas das vitimas do "IsAnyoneUp", ainda denuncia um verdadeiro submundo de depravação virtual e desmascara o que há de mais nojento na internet.
Miller foi muito inteligente ao construir um perfil do Hunter Moore a partir de suas próprias atitudes e declarações - essa escolha é provocativa já que naturalmente exalta nossas emoções não pelo olhar da vitima, mas pela perspectiva de alguém que um dia poderia ter sido sua vitima. Já ao detalhar os bastidores da saga de Charlotte Laws, que foi até às últimas consequências para impedir que outras mulheres fossem expostas como sua filha, o diretor usa da empatia imediata como gatilho para criar nossa conexão com a jornada e nos manter grudados na tela - como disse acima, a cada nova aparição de Moore temos mais vontade de vê-lo se dar mal (para manter a educação) - aqui é preciso mencionar o excelente trabalho do montador Jules Cornell (indicado ao Emmy em 2019 por "Deixando Neverland").
O fato é que no decorrer das quase três horas de documentário, acompanhamos a ascensão de Moore, que alcançou veículos de imprensa do nível de "The Rolling Stones", "Village Voice" e "Vice", até sua queda que envolveu o coletivo hacker "Anonymous" e uma grandiosa investigação do FBI - tudo graças à Laws. Mais do que uma caçada ao criminoso, "O Homem mais odiado da Internet" é um retrato de uma sociedade doentia, basta pensar que o site de Moore tinha mais 100 milhões de acessos em 2012, e que mesmo com muito mérito, parece ter chegado alguns anos atrasado.
PS: a título de curiosidade, Charlotte Laws ajudou a implementar legislações sobre o tema em mais de 40 estados nos EUA.
Vale muito o seu play!
O adjetivo "idiota" foi redefinido em "O Homem mais odiado da Internet" - e não falo apenas do personagem, mas também de todos que viam nele um herói! Dito isso, prepara-se para uma jornada completamente indigesta, cruel e revoltante! Essa minissérie de 3 episódios da Netflix expõe, de fato, uma das figuras mais desprezíveis que você vai conhecer na sua vida - e ver ele se dar muito mal, será a força motivadora que vai te fazer suportar essa história absurda!
Hunter Moore ganhou fama por se considerar um profissional especializado em arruinar a vida dos outros graças a um site que ele criou chamado "IsAnyoneUp", focado em fotos de mulheres nuas sem o consentimento das vítimas e ainda indicando seus respectivos perfis nas redes sociais. O mais mórbido, porém, é que, com a popularidade do site, Hunter conquistou milhares de seguidores fiéis, em especial por fortalecer misoginia e todo tipo de discurso de ódio em seu fórum. Além da busca de uma mãe para que Hunter fosse punido por seus crimes, a minissérie expõe o ponto de vista de várias vítimas que tiveram sua intimidade exposta e por isso sua vida transformada completamente.
Dirigida pelo praticamente estreante Rob Miller, "O Homem mais odiado da Internet" surpreende pela qualidade técnica e artística que além de criar uma linha do tempo extremamente cuidadosa para que a audiência tenha a exata noção do que aconteceu com algumas das vitimas do "IsAnyoneUp", ainda denuncia um verdadeiro submundo de depravação virtual e desmascara o que há de mais nojento na internet.
Miller foi muito inteligente ao construir um perfil do Hunter Moore a partir de suas próprias atitudes e declarações - essa escolha é provocativa já que naturalmente exalta nossas emoções não pelo olhar da vitima, mas pela perspectiva de alguém que um dia poderia ter sido sua vitima. Já ao detalhar os bastidores da saga de Charlotte Laws, que foi até às últimas consequências para impedir que outras mulheres fossem expostas como sua filha, o diretor usa da empatia imediata como gatilho para criar nossa conexão com a jornada e nos manter grudados na tela - como disse acima, a cada nova aparição de Moore temos mais vontade de vê-lo se dar mal (para manter a educação) - aqui é preciso mencionar o excelente trabalho do montador Jules Cornell (indicado ao Emmy em 2019 por "Deixando Neverland").
O fato é que no decorrer das quase três horas de documentário, acompanhamos a ascensão de Moore, que alcançou veículos de imprensa do nível de "The Rolling Stones", "Village Voice" e "Vice", até sua queda que envolveu o coletivo hacker "Anonymous" e uma grandiosa investigação do FBI - tudo graças à Laws. Mais do que uma caçada ao criminoso, "O Homem mais odiado da Internet" é um retrato de uma sociedade doentia, basta pensar que o site de Moore tinha mais 100 milhões de acessos em 2012, e que mesmo com muito mérito, parece ter chegado alguns anos atrasado.
PS: a título de curiosidade, Charlotte Laws ajudou a implementar legislações sobre o tema em mais de 40 estados nos EUA.
Vale muito o seu play!
Ame ou odeie! Sem dúvida essa será a sensação de assistir "O Lagosta", dirigido por Yorgos Lanthimos (de "A Favorita"). Embora seja assumidamente um drama distópico, o tom non-sentede sua narrativa extrapola e desafia as convenções do cinema contemporâneo que estamos acostumados. Lanthimos sabe exatamente como mergulhar sua audiência nesse mundo absurdo e sombrio, onde as relações humanas são exploradas de forma provocativa e muitas vezes perturbadora - reparem como a performance dos atores só aumenta o desconforto que a própria situação, por si só, já representa. Mais uma vez, o diretor demonstra uma habilidade magistral em criar uma atmosfera única, combinando um pontual humor negro, cheio de simbolismos, com o surrealismo prático - ao ponto de desprezar a lógica e renegar os padrões estabelecidos de ordem moral e social para criticar a superficialidade das conexões emocionais de maneira brilhante. Olha, você pode até não gostar de proposta de Lanthimos, mas nunca poderá negar que se trata de uma experiência cinematográfica verdadeiramente original e muito reflexiva.
A trama de "O Lagosta" se passa em um futuro distópico, onde os solteiros são obrigados a encontrar um parceiro dentro de um prazo estipulado. Caso contrário, são transformados em um animal de sua escolha e soltos na floresta. Após perder a esposa, o protagonista, David (Colin Farrell), decide se refugiar em um hotel peculiar, onde os hóspedes têm a oportunidade de encontrar um novo amor. No entanto, o que parece ser uma simples busca por companhia revela-se uma jornada existencial surreal. Condira o trailer (em inglês):
Mais atual do que nunca, "O Lagosta" é uma obra de arte que transcende o ordinário ao fazer um retrato dos relacionamentos em uma sociedade que não tolera o meio-termo, ou seja, onde o extremismo faz parte do dia a dia auto-destrutivo daquele universo. E é justamente nesse ponto que a direção de Lanthimos soa magistral, já que ele potencializa essa atmosfera de estranheza e alienação permeando toda a narrativa com metáforas muito inteligentes - reparem na forma como os hóspedes do hotel se relacionam entre si, todos da mesma forma, vestidos iguais, seguindo as mesmas regras rígidas e, principalmente, sabendo que o tempo é seu pior inimigo nesse objetivo de encontrar um grande amor e assim não virar, por exemplo, uma lagosta.
O roteiro, co-escrito por Lanthimos e Efthymis Filippou, chegou a ser indicado ao Oscar em 2017 por sua originalidade acima da média. Seu texto é uma mistura perspicaz de comédia, drama e sátira social que usa de uma linguagem peculiar e de diálogos absurdos para acrescentar uma camada extra de estranheza e humor capaz de desafiar nossas expectativas a cada nova sequência - algo entre "O Ensaio sobre a Cegueira" e "Parasita". A fotografia do Thimios Bakatakis (de "O Chalé") segue o mesmo conceito desolador da narrativa e dentro daqueles cenários minimalistas, clean ao extremo, contribui ainda mais para a construção de um gélido mundo distópico, onde as regras sociais são tão distorcidas quanto a solidão como uma forma de ameaça constante.
O elenco, é preciso ressaltar, entrega performances excepcionais, com destaque para Colin Farrell, Rachel Weisz e Olivia Colman. Farrell incorpora brilhantemente a angústia e a vulnerabilidade de seu personagem, enquanto Weisz e Colman trazem uma profundidade emocional cativante às suas interpretações - a química entre eles é tão palpável que adiciona uma complexidade para as relações que de fato nos faz refletir sobre temas como identidade, amor e liberdade de escolha. "The Lobster" (no original) realmente desafia e fascina em igual medida, então se você está em busca de uma experiência verdadeiramente única e provocativa, não ignore essa recomendação - mas saiba que você está prestes a navegar por um oceano pouquíssimo explorado no cinema comercial!
Vale seu play!
Ame ou odeie! Sem dúvida essa será a sensação de assistir "O Lagosta", dirigido por Yorgos Lanthimos (de "A Favorita"). Embora seja assumidamente um drama distópico, o tom non-sentede sua narrativa extrapola e desafia as convenções do cinema contemporâneo que estamos acostumados. Lanthimos sabe exatamente como mergulhar sua audiência nesse mundo absurdo e sombrio, onde as relações humanas são exploradas de forma provocativa e muitas vezes perturbadora - reparem como a performance dos atores só aumenta o desconforto que a própria situação, por si só, já representa. Mais uma vez, o diretor demonstra uma habilidade magistral em criar uma atmosfera única, combinando um pontual humor negro, cheio de simbolismos, com o surrealismo prático - ao ponto de desprezar a lógica e renegar os padrões estabelecidos de ordem moral e social para criticar a superficialidade das conexões emocionais de maneira brilhante. Olha, você pode até não gostar de proposta de Lanthimos, mas nunca poderá negar que se trata de uma experiência cinematográfica verdadeiramente original e muito reflexiva.
A trama de "O Lagosta" se passa em um futuro distópico, onde os solteiros são obrigados a encontrar um parceiro dentro de um prazo estipulado. Caso contrário, são transformados em um animal de sua escolha e soltos na floresta. Após perder a esposa, o protagonista, David (Colin Farrell), decide se refugiar em um hotel peculiar, onde os hóspedes têm a oportunidade de encontrar um novo amor. No entanto, o que parece ser uma simples busca por companhia revela-se uma jornada existencial surreal. Condira o trailer (em inglês):
Mais atual do que nunca, "O Lagosta" é uma obra de arte que transcende o ordinário ao fazer um retrato dos relacionamentos em uma sociedade que não tolera o meio-termo, ou seja, onde o extremismo faz parte do dia a dia auto-destrutivo daquele universo. E é justamente nesse ponto que a direção de Lanthimos soa magistral, já que ele potencializa essa atmosfera de estranheza e alienação permeando toda a narrativa com metáforas muito inteligentes - reparem na forma como os hóspedes do hotel se relacionam entre si, todos da mesma forma, vestidos iguais, seguindo as mesmas regras rígidas e, principalmente, sabendo que o tempo é seu pior inimigo nesse objetivo de encontrar um grande amor e assim não virar, por exemplo, uma lagosta.
O roteiro, co-escrito por Lanthimos e Efthymis Filippou, chegou a ser indicado ao Oscar em 2017 por sua originalidade acima da média. Seu texto é uma mistura perspicaz de comédia, drama e sátira social que usa de uma linguagem peculiar e de diálogos absurdos para acrescentar uma camada extra de estranheza e humor capaz de desafiar nossas expectativas a cada nova sequência - algo entre "O Ensaio sobre a Cegueira" e "Parasita". A fotografia do Thimios Bakatakis (de "O Chalé") segue o mesmo conceito desolador da narrativa e dentro daqueles cenários minimalistas, clean ao extremo, contribui ainda mais para a construção de um gélido mundo distópico, onde as regras sociais são tão distorcidas quanto a solidão como uma forma de ameaça constante.
O elenco, é preciso ressaltar, entrega performances excepcionais, com destaque para Colin Farrell, Rachel Weisz e Olivia Colman. Farrell incorpora brilhantemente a angústia e a vulnerabilidade de seu personagem, enquanto Weisz e Colman trazem uma profundidade emocional cativante às suas interpretações - a química entre eles é tão palpável que adiciona uma complexidade para as relações que de fato nos faz refletir sobre temas como identidade, amor e liberdade de escolha. "The Lobster" (no original) realmente desafia e fascina em igual medida, então se você está em busca de uma experiência verdadeiramente única e provocativa, não ignore essa recomendação - mas saiba que você está prestes a navegar por um oceano pouquíssimo explorado no cinema comercial!
Vale seu play!
"O Paraíso e a Serpente" é uma coprodução da BBC One com a Netflix e poderia ser tranqüilamente uma temporada de "American Crime Story" - e isso é uma grande elogio, pois considero a produção, que tem Ryan Murphy no comando uma das melhores séries antológicas já produzidas. Em "O Paraíso e a Serpente" temos exatamente a mesma fórmula, limitada em 8 episódios como uma minissérie, baseada em fatos reais e tendo como pano de fundo um (ou vários crimes) que chamaram a atenção da mídia na época.
Na história conhecemos Charles Sobhraj (Tahar Rahim), um assassino em série e golpista que fingia ser um comprador e vendedor de pedras preciosas que atuava em vários países da Ásia, como Tailândia e Índia, e tinha como principais alvos jovens e sonhadores viajantes, no auge dos anos 70. Charles tinha o dom de manipular facilmente as pessoas, conquistar sua confiança, inclusive de sua namorada, a canadense Marie-Andrée Leclerc (Jenna Coleman), e com todo o seu talento, drogava suas vitimas, roubava todo dinheiro e seus documentos para depois falsificar sua identidade, e por fim assassinava cruelmente cada um deles para não deixar rastros, enquanto enriquecia as custas desses crimes. Confira o trailer:
"O Paraíso e a Serpente" é surpreendentemente boa, mas tem alguns pontos que precisam ser levantados. O primeiro, sem dúvida, é a edição: o conceito narrativo da minissérie é 100% não linear, ou seja, a todo momento, os acontecimentos do passado, presente e até do futuro são exibidos a partir de uma animação que simula o painel de uma aeroporto com a data, local e a informação de "X anos antes" e "Y meses depois". De fato, essa escolha cria um certo desgaste, mas depois que entendemos que o artifício não serve apenas para estabelecer o tempo e o espaço de uma ação e sim para servir como referência para as peças de um quebra-cabeça que vão se unindo e mostrando os diversos pontos de vista para uma mesma passagem da história, tudo passa a fazer muito mais sentido.
Outro ponto que pode incomodar um pouco, mas com o tempo nos acostumamos e entendemos perfeitamente, diz respeito ao conceito visual e estético escolhido pelos diretores Hans Herbots e Tom Shankland. Nos colocar imersos no mood da época para entendermos toda a atmosfera da região e da cultura oriental não é tarefa fácil, sendo assim os diretores misturam cenas reais para indicar o local de uma determinada passagem do roteiro, com um desenho de produção que, as vezes, pode parecer fora do tom - a maquiagem e o cabelo de Tahar Rahim é um bom exemplo dessa escorregada, mas contrasta com um ótimo figurino e cenários bem produzidos. Um artificio que também é proposital é o uso de zoom in e zoom out para estabelecer a tensão emocional de uma cena - muito comum nos filmes da época, essa gramática cinematográfica é muito bem utilizada aqui e, mesmo causando um pouco de incomodo inicialmente, está 100% alinhada com o estilo imposto na narrativa.
"The Serpent" (no original) tem o mérito de nos apresentar a impressionante história de um criminoso que aterrorizou turistas ocidentais na Ásia por muito tempo e que dava um baile nas autoridades do mundo inteiro. É, sem dúvida alguma, uma minissérie que vai te impactar pela crueldade e tensão pela qual muitos personagens passam com o protagonista, te assustar em alguns momentos, te prender em outros, mas não vai deixar de ser um ótimo e divertido entretenimento.
A verdade é que se você gosta do estilo "true crime", mesmo não sendo um documentário, pode dar o play seguramente!
"O Paraíso e a Serpente" é uma coprodução da BBC One com a Netflix e poderia ser tranqüilamente uma temporada de "American Crime Story" - e isso é uma grande elogio, pois considero a produção, que tem Ryan Murphy no comando uma das melhores séries antológicas já produzidas. Em "O Paraíso e a Serpente" temos exatamente a mesma fórmula, limitada em 8 episódios como uma minissérie, baseada em fatos reais e tendo como pano de fundo um (ou vários crimes) que chamaram a atenção da mídia na época.
Na história conhecemos Charles Sobhraj (Tahar Rahim), um assassino em série e golpista que fingia ser um comprador e vendedor de pedras preciosas que atuava em vários países da Ásia, como Tailândia e Índia, e tinha como principais alvos jovens e sonhadores viajantes, no auge dos anos 70. Charles tinha o dom de manipular facilmente as pessoas, conquistar sua confiança, inclusive de sua namorada, a canadense Marie-Andrée Leclerc (Jenna Coleman), e com todo o seu talento, drogava suas vitimas, roubava todo dinheiro e seus documentos para depois falsificar sua identidade, e por fim assassinava cruelmente cada um deles para não deixar rastros, enquanto enriquecia as custas desses crimes. Confira o trailer:
"O Paraíso e a Serpente" é surpreendentemente boa, mas tem alguns pontos que precisam ser levantados. O primeiro, sem dúvida, é a edição: o conceito narrativo da minissérie é 100% não linear, ou seja, a todo momento, os acontecimentos do passado, presente e até do futuro são exibidos a partir de uma animação que simula o painel de uma aeroporto com a data, local e a informação de "X anos antes" e "Y meses depois". De fato, essa escolha cria um certo desgaste, mas depois que entendemos que o artifício não serve apenas para estabelecer o tempo e o espaço de uma ação e sim para servir como referência para as peças de um quebra-cabeça que vão se unindo e mostrando os diversos pontos de vista para uma mesma passagem da história, tudo passa a fazer muito mais sentido.
Outro ponto que pode incomodar um pouco, mas com o tempo nos acostumamos e entendemos perfeitamente, diz respeito ao conceito visual e estético escolhido pelos diretores Hans Herbots e Tom Shankland. Nos colocar imersos no mood da época para entendermos toda a atmosfera da região e da cultura oriental não é tarefa fácil, sendo assim os diretores misturam cenas reais para indicar o local de uma determinada passagem do roteiro, com um desenho de produção que, as vezes, pode parecer fora do tom - a maquiagem e o cabelo de Tahar Rahim é um bom exemplo dessa escorregada, mas contrasta com um ótimo figurino e cenários bem produzidos. Um artificio que também é proposital é o uso de zoom in e zoom out para estabelecer a tensão emocional de uma cena - muito comum nos filmes da época, essa gramática cinematográfica é muito bem utilizada aqui e, mesmo causando um pouco de incomodo inicialmente, está 100% alinhada com o estilo imposto na narrativa.
"The Serpent" (no original) tem o mérito de nos apresentar a impressionante história de um criminoso que aterrorizou turistas ocidentais na Ásia por muito tempo e que dava um baile nas autoridades do mundo inteiro. É, sem dúvida alguma, uma minissérie que vai te impactar pela crueldade e tensão pela qual muitos personagens passam com o protagonista, te assustar em alguns momentos, te prender em outros, mas não vai deixar de ser um ótimo e divertido entretenimento.
A verdade é que se você gosta do estilo "true crime", mesmo não sendo um documentário, pode dar o play seguramente!
"Pam & Tommy" é um retrato do que viria a ser o mundo das subcelebridades alguns anos depois, embora a sua própria história já seja o suficiente para entender o tamanho da hipocrisia que a sociedade custa em esconder ao mesmo tempo em que a exposição é seu maior ativo - e aqui é impossível não julgar alguns dos personagens da minissérie pelo simples fato de que sabemos exatamente o que aconteceu depois. Claro que é preciso colocar na balança o contexto da época, alguma ingenuidade (será?) e o impacto que aquele sex-tape teve devido o inicio da internet, mas também não se pode esquecer que do outro lado da tela estavam personagens controversos, com seus defeitos e qualidades - e é isso que a trama tenta nos mostrar: a história que não conhecemos!
Baseada em uma história real, "Pam & Tommy" segue o turbulento relacionamento de Pamela Anderson (Lily James), atriz conhecida por seu trabalho na série Baywatch e já um sex-symbol, com Tommy Lee (Sebastian Stan), baterista da decadente banda Mötley Crüe. Em 1996, o casal estampou tablóides do mundo inteiro com um vídeo de sua lua de mel que acabou roubada e distribuída para o público pelo ex-ator pornô Michael Morrison (Nick Offerman) e seu amigo Rand Gauthier (Seth Rogen). Confira o trailer:
Inicialmente "Pam & Tommy" usa de um tom mais descontraído, para não dizer pastelão, para estabelecer a personalidade de todos os personagens masculinos da história - essa escolha conceitual impacta diretamente na performance dos atores e mesmo com o over-acting muito presente, tanto Seth Rogen quanto Sebastian Stan vão bem. Quando as dores e fantasmas de Pamela Anderson começam a ganhar mais destaque após o terceiro episódio, o tom muda um pouquinho e Lily James brilha demais - o problema é que de um lado temos o espalhafatoso e do outro um mergulho profundo na alma feminina. Em muitos momentos o choque dessas duas linhas não se conversam e parece que a minissérie perde sua identidade ou, pior, busca o caminho mais fácil para tentar alcançar seus objetivos.
Veja, "Pam & Tommy"é, narrativamente, muito eficiente e tem uma produção com estilo, cuidadosa e muito bem concebida. O ótimo elenco e boas direções justificam os elogios que recebeu, minha critica é que falta unidade conceitual - um problema quando se tem vários diretores em um mesmo projeto. Os episódios funcionam perfeitamente quando pensado individualmente, mas como conjunto da obra, oscila. Essa dinâmica acaba tornando a narrativa maniqueísta demais com Tommy representando o inferno e Pam o angelical, quando na verdade eles são muito mais do que isso. Essa unidimensionalidade não deixa irmos além na experiência - a audiência que Pamela Anderson precisou passar em seu processo contra a Penthouse é um bom exemplo: poxa, ela sofre, escuta o que pior uma mulher pode escutar e logo depois diz para a senhora que vai limpar a sala de reunião "Desculpe pela bagunça que fizemos”"; não dá!
Após 8 episódios, o sentimento é que "Pam & Tommy" é um ótimo entretenimento, muito bacana de assistir, mas poderia ter sido um pouco mais corajosa e menos preocupada em estereotipar seus personagens - é nesse momento que conceitos narrativos interferem na nossa experiência. Vai funcionar mais para alguns do que para outros e acho que, sinceramente, vale muito o seu play; só não dá para carimbar a obra como algo excepcional.
Boa para maratonar, para reviver uma época especial para muitos e para curtir uma trilha sonora sensacional!
"Pam & Tommy" é um retrato do que viria a ser o mundo das subcelebridades alguns anos depois, embora a sua própria história já seja o suficiente para entender o tamanho da hipocrisia que a sociedade custa em esconder ao mesmo tempo em que a exposição é seu maior ativo - e aqui é impossível não julgar alguns dos personagens da minissérie pelo simples fato de que sabemos exatamente o que aconteceu depois. Claro que é preciso colocar na balança o contexto da época, alguma ingenuidade (será?) e o impacto que aquele sex-tape teve devido o inicio da internet, mas também não se pode esquecer que do outro lado da tela estavam personagens controversos, com seus defeitos e qualidades - e é isso que a trama tenta nos mostrar: a história que não conhecemos!
Baseada em uma história real, "Pam & Tommy" segue o turbulento relacionamento de Pamela Anderson (Lily James), atriz conhecida por seu trabalho na série Baywatch e já um sex-symbol, com Tommy Lee (Sebastian Stan), baterista da decadente banda Mötley Crüe. Em 1996, o casal estampou tablóides do mundo inteiro com um vídeo de sua lua de mel que acabou roubada e distribuída para o público pelo ex-ator pornô Michael Morrison (Nick Offerman) e seu amigo Rand Gauthier (Seth Rogen). Confira o trailer:
Inicialmente "Pam & Tommy" usa de um tom mais descontraído, para não dizer pastelão, para estabelecer a personalidade de todos os personagens masculinos da história - essa escolha conceitual impacta diretamente na performance dos atores e mesmo com o over-acting muito presente, tanto Seth Rogen quanto Sebastian Stan vão bem. Quando as dores e fantasmas de Pamela Anderson começam a ganhar mais destaque após o terceiro episódio, o tom muda um pouquinho e Lily James brilha demais - o problema é que de um lado temos o espalhafatoso e do outro um mergulho profundo na alma feminina. Em muitos momentos o choque dessas duas linhas não se conversam e parece que a minissérie perde sua identidade ou, pior, busca o caminho mais fácil para tentar alcançar seus objetivos.
Veja, "Pam & Tommy"é, narrativamente, muito eficiente e tem uma produção com estilo, cuidadosa e muito bem concebida. O ótimo elenco e boas direções justificam os elogios que recebeu, minha critica é que falta unidade conceitual - um problema quando se tem vários diretores em um mesmo projeto. Os episódios funcionam perfeitamente quando pensado individualmente, mas como conjunto da obra, oscila. Essa dinâmica acaba tornando a narrativa maniqueísta demais com Tommy representando o inferno e Pam o angelical, quando na verdade eles são muito mais do que isso. Essa unidimensionalidade não deixa irmos além na experiência - a audiência que Pamela Anderson precisou passar em seu processo contra a Penthouse é um bom exemplo: poxa, ela sofre, escuta o que pior uma mulher pode escutar e logo depois diz para a senhora que vai limpar a sala de reunião "Desculpe pela bagunça que fizemos”"; não dá!
Após 8 episódios, o sentimento é que "Pam & Tommy" é um ótimo entretenimento, muito bacana de assistir, mas poderia ter sido um pouco mais corajosa e menos preocupada em estereotipar seus personagens - é nesse momento que conceitos narrativos interferem na nossa experiência. Vai funcionar mais para alguns do que para outros e acho que, sinceramente, vale muito o seu play; só não dá para carimbar a obra como algo excepcional.
Boa para maratonar, para reviver uma época especial para muitos e para curtir uma trilha sonora sensacional!
É inegável a fragilidade do documentário da Netflix, "Pamela Anderson - Uma História de Amor". Por outro lado, com um pouco menos de olhar crítico, é perceptível seu magnetismo, onde, ao final de quase 120 minutos de filme, vemos o reflexo de uma mulher em busca de redenção sem ao menos se dar conta que seus maiores fantasmas apontam justamente para suas próprias escolhas - escolhas essas que a protagonista faz questão de dizer não se arrepender de ter feito, diga-se de passagem. A história é bem interessante (dolorida para ela) e a personagem é de fato marcante (se você tem mais que 40 anos vai saber do que estou falando), mas nem a soma desses dois elementos essenciais para uma boa narrativa, chega a nos provocar mais do que 20 minutos de empatia - embora o esforço para isso seja tremendo!
"Pamela, A Love Story" (no original) não é um documentário ruim, longe disso, mas talvez a forma como alguns assuntos foram abordados possa dar essa impressão errada. A história de vida que retrata a ascensão à fama e uma quebra de privacidade marcante, de uma vida pessoal turbulenta, bem como seu casamento com Tommy Lee, sua sex tape vazada, os fracassos como atriz e ainda sua ambígua relação com a mídia, fazem do documentário uma curiosa jornada pela intimidade da mulher, Pamela Anderson. Confira o trailer (em inglês):
Se pegarmos o documentário da HBO, "Tina", e compararmos com "Pamela Anderson - Uma História de Amor", encontramos inúmeras semelhanças narrativas - na forma e no conteúdo. O diferencial, e aí já é preciso uma certa reflexão, diz respeito ao que cada uma das personagens representou para sua arte. Obviamente que a comparação é mais teórica do que prática (eu diria até injusta), mas o enredo, repare, aponta para as mesmas lacunas emocionais: uma infância dura, sem muita referência afetiva, relacionamentos tóxicos por todos os lados, fracassos, sucessos, muito sensacionalismo e, claro, uma busca pelo auto-perdão. Indo um pouco mais longe, ambos documentários têm um importante e cruel fio condutor: o amor (ou a falta que ele faz).
O diretor Ryan White (do excelente "Boa Noite Oppy") usa e abusa dos depoimentos de Pamela para construir a imagem de uma mulher frágil, em certos momentos até infantil, o que de alguma forma (para quem conhece um pouco mais da vida da atriz) soa hipocrisia. Ela mesmo tenta se desvencilhar da imagem de vítima, mas com as narrações em off de passagens escritas por ela em seu diário, fica mais difícil. No entanto, uma característica nos chama atenção: a capacidade que Pamela Anderson tem de rir de si mesma é impressionante - e sempre foi assim. É perceptível seu constrangimento ao enfrentar as piadas mais infames e machistas dos Late Show's dos anos 80/90, mas ela se sai bem - já atualmente, quando em uma situação realmente mais desconfortável, ela simplesmente sai de cena.
Para quem assistiu a ótima minissérie do Star+ (no caso, do Hulu), "Pam & Tommy", e gostou; "Pamela Anderson - Uma História de Amor" é quase um complemento obrigatório que possibilita um mergulho mais profundo e real na intimidade de Anderson. A construção apoteótica do mito vs. a mulher que só queria uma família ao lado do amor de sua vida, está ali; o que nos resta é entender se seu ponto de vista, de fato, condiz com uma realidade que ela mesmo semeou, plantou e colheu - difícil dizer, mas o exercício, ao assistir o filme, é dos melhores. Ah, e não deixe de ver os créditos, ele conecta muitos pontos - vai por mim!
Vale seu play!
É inegável a fragilidade do documentário da Netflix, "Pamela Anderson - Uma História de Amor". Por outro lado, com um pouco menos de olhar crítico, é perceptível seu magnetismo, onde, ao final de quase 120 minutos de filme, vemos o reflexo de uma mulher em busca de redenção sem ao menos se dar conta que seus maiores fantasmas apontam justamente para suas próprias escolhas - escolhas essas que a protagonista faz questão de dizer não se arrepender de ter feito, diga-se de passagem. A história é bem interessante (dolorida para ela) e a personagem é de fato marcante (se você tem mais que 40 anos vai saber do que estou falando), mas nem a soma desses dois elementos essenciais para uma boa narrativa, chega a nos provocar mais do que 20 minutos de empatia - embora o esforço para isso seja tremendo!
"Pamela, A Love Story" (no original) não é um documentário ruim, longe disso, mas talvez a forma como alguns assuntos foram abordados possa dar essa impressão errada. A história de vida que retrata a ascensão à fama e uma quebra de privacidade marcante, de uma vida pessoal turbulenta, bem como seu casamento com Tommy Lee, sua sex tape vazada, os fracassos como atriz e ainda sua ambígua relação com a mídia, fazem do documentário uma curiosa jornada pela intimidade da mulher, Pamela Anderson. Confira o trailer (em inglês):
Se pegarmos o documentário da HBO, "Tina", e compararmos com "Pamela Anderson - Uma História de Amor", encontramos inúmeras semelhanças narrativas - na forma e no conteúdo. O diferencial, e aí já é preciso uma certa reflexão, diz respeito ao que cada uma das personagens representou para sua arte. Obviamente que a comparação é mais teórica do que prática (eu diria até injusta), mas o enredo, repare, aponta para as mesmas lacunas emocionais: uma infância dura, sem muita referência afetiva, relacionamentos tóxicos por todos os lados, fracassos, sucessos, muito sensacionalismo e, claro, uma busca pelo auto-perdão. Indo um pouco mais longe, ambos documentários têm um importante e cruel fio condutor: o amor (ou a falta que ele faz).
O diretor Ryan White (do excelente "Boa Noite Oppy") usa e abusa dos depoimentos de Pamela para construir a imagem de uma mulher frágil, em certos momentos até infantil, o que de alguma forma (para quem conhece um pouco mais da vida da atriz) soa hipocrisia. Ela mesmo tenta se desvencilhar da imagem de vítima, mas com as narrações em off de passagens escritas por ela em seu diário, fica mais difícil. No entanto, uma característica nos chama atenção: a capacidade que Pamela Anderson tem de rir de si mesma é impressionante - e sempre foi assim. É perceptível seu constrangimento ao enfrentar as piadas mais infames e machistas dos Late Show's dos anos 80/90, mas ela se sai bem - já atualmente, quando em uma situação realmente mais desconfortável, ela simplesmente sai de cena.
Para quem assistiu a ótima minissérie do Star+ (no caso, do Hulu), "Pam & Tommy", e gostou; "Pamela Anderson - Uma História de Amor" é quase um complemento obrigatório que possibilita um mergulho mais profundo e real na intimidade de Anderson. A construção apoteótica do mito vs. a mulher que só queria uma família ao lado do amor de sua vida, está ali; o que nos resta é entender se seu ponto de vista, de fato, condiz com uma realidade que ela mesmo semeou, plantou e colheu - difícil dizer, mas o exercício, ao assistir o filme, é dos melhores. Ah, e não deixe de ver os créditos, ele conecta muitos pontos - vai por mim!
Vale seu play!