"Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" é uma excelente série documental da Netflix que coloca na linha do tempo as "causas" e "consequências" do 11 de setembro pelo ponto de vista de várias pessoas que de alguma forma estiveram (e estão) envolvidas com a relação entre os EUA e os grupos terroristas da Al-Qaeda e do Talibã. E aqui cabe uma primeira observação: o documentário é muito cuidadoso em apontar quem são os bandidos e quem são os mocinhos dessa história e ao assistir os cinco episódios, nossa sensação é que os mocinhos simplesmente não existem!
Como é de se imaginar, "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" acompanha os ataques terroristas lançados contra o World Trade Center pela Al-Qaeda em setembro de 2001, explorando desde as origens da organização terrorista na década de 1980, passando pela violenta resposta dos EUA no Oriente Médio depois dos ataques até os dias de hoje e o recente processo de desocupação das foças americanas no Afeganistão. Confira o trailer (em inglês):
Talvez "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" seja o documentário que melhor explica tudo que envolveu os ataques terroristas até hoje. Misturando muitas imagens de arquivo, gravações telefônicas, depoimentos de muitos personagens (uns bastante impactantes, inclusive), fotografias e documentos confidenciais, no fim da jornada é possível ter a exata noção de como o ser humano é um caso perdido! Desculpem a constatação, mas a forma como as peças vão se encaixando e as ações vão sendo discutidas, não raramente mostrando os dois lados da história, é de se perder a fé perante a humanidade - alguns depoimentos são tão sinceros, doloridos, além de editados de uma forma tão sensacional, que fica impossível não se emocionar e, claro, refletir sobre tudo.
O diretor Brian Knappenberger, do ótimo "Nobody Speak: Trials of the Free Press", criou uma dinâmica bastante interessante para contar a história do 11 de setembro. Knappenberger vai e volta no tempo de acordo com as ramificações que cada assunto vai abrindo. Veja, em um único documentários acompanhamos a relação da União Soviética com o Afeganistão, o nascimento da Al-Qaeda, os conflitos entre Bush e Saddam Hussein, os abusos que aconteceram em Guantánamo, o despreparo de alguns oficiais do exército americano para traçar estratégias de combate, os absurdos (e desvios) durante a criação de um novo exército afegão, como se deu a caçada a Osama Bin Laden, entre várias outras passagens marcantes da "Guerra contra o Terror" mesmo antes dela existir.
O bacana "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror"é que todos os assuntos abordados, embora sem tanta profundidade, são extremamente bem pontuados e explicados de uma forma didática até, porém muito fácil de acompanhar - cada assunto faz sentido no todo e isso nos causa uma agradável sensação de conhecimento de causa. Vale dizer que os cinco episódios podem ser destrinchados se buscarmos outros títulos para termos uma visão mais completa sobre os temas - "9/11: Inside the President's War Room" mostra os ataques pelos olhos do presidente Bush e de seu staff; "Vice"conta a história Dick Cheney, vice-presidente dos EUA e responsável pela invasão do Iraque, tendo como desculpa os ataques de 11 de setembro; "Segredos Oficiais" acompanha uma funcionária inglesa que recebeu ordens para que buscasse informações sobre membros do Conselho de Segurança da ONU que pudessem ser utilizados para chantagear seis países a votarem a favor da Guerra do Iraque; e assim por diante.
Como disse, são muitos filmes e séries sobre vários sub-temas que se conectam ao documentário "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" - então a partir desse competente overview vai ficar mais fácil decidir qual caminho seguir daqui para frente para se aprofundar nessas histórias que marcaram a humanidade.
Vale muito a pena, mesmo!!!
"Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" é uma excelente série documental da Netflix que coloca na linha do tempo as "causas" e "consequências" do 11 de setembro pelo ponto de vista de várias pessoas que de alguma forma estiveram (e estão) envolvidas com a relação entre os EUA e os grupos terroristas da Al-Qaeda e do Talibã. E aqui cabe uma primeira observação: o documentário é muito cuidadoso em apontar quem são os bandidos e quem são os mocinhos dessa história e ao assistir os cinco episódios, nossa sensação é que os mocinhos simplesmente não existem!
Como é de se imaginar, "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" acompanha os ataques terroristas lançados contra o World Trade Center pela Al-Qaeda em setembro de 2001, explorando desde as origens da organização terrorista na década de 1980, passando pela violenta resposta dos EUA no Oriente Médio depois dos ataques até os dias de hoje e o recente processo de desocupação das foças americanas no Afeganistão. Confira o trailer (em inglês):
Talvez "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" seja o documentário que melhor explica tudo que envolveu os ataques terroristas até hoje. Misturando muitas imagens de arquivo, gravações telefônicas, depoimentos de muitos personagens (uns bastante impactantes, inclusive), fotografias e documentos confidenciais, no fim da jornada é possível ter a exata noção de como o ser humano é um caso perdido! Desculpem a constatação, mas a forma como as peças vão se encaixando e as ações vão sendo discutidas, não raramente mostrando os dois lados da história, é de se perder a fé perante a humanidade - alguns depoimentos são tão sinceros, doloridos, além de editados de uma forma tão sensacional, que fica impossível não se emocionar e, claro, refletir sobre tudo.
O diretor Brian Knappenberger, do ótimo "Nobody Speak: Trials of the Free Press", criou uma dinâmica bastante interessante para contar a história do 11 de setembro. Knappenberger vai e volta no tempo de acordo com as ramificações que cada assunto vai abrindo. Veja, em um único documentários acompanhamos a relação da União Soviética com o Afeganistão, o nascimento da Al-Qaeda, os conflitos entre Bush e Saddam Hussein, os abusos que aconteceram em Guantánamo, o despreparo de alguns oficiais do exército americano para traçar estratégias de combate, os absurdos (e desvios) durante a criação de um novo exército afegão, como se deu a caçada a Osama Bin Laden, entre várias outras passagens marcantes da "Guerra contra o Terror" mesmo antes dela existir.
O bacana "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror"é que todos os assuntos abordados, embora sem tanta profundidade, são extremamente bem pontuados e explicados de uma forma didática até, porém muito fácil de acompanhar - cada assunto faz sentido no todo e isso nos causa uma agradável sensação de conhecimento de causa. Vale dizer que os cinco episódios podem ser destrinchados se buscarmos outros títulos para termos uma visão mais completa sobre os temas - "9/11: Inside the President's War Room" mostra os ataques pelos olhos do presidente Bush e de seu staff; "Vice"conta a história Dick Cheney, vice-presidente dos EUA e responsável pela invasão do Iraque, tendo como desculpa os ataques de 11 de setembro; "Segredos Oficiais" acompanha uma funcionária inglesa que recebeu ordens para que buscasse informações sobre membros do Conselho de Segurança da ONU que pudessem ser utilizados para chantagear seis países a votarem a favor da Guerra do Iraque; e assim por diante.
Como disse, são muitos filmes e séries sobre vários sub-temas que se conectam ao documentário "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" - então a partir desse competente overview vai ficar mais fácil decidir qual caminho seguir daqui para frente para se aprofundar nessas histórias que marcaram a humanidade.
Vale muito a pena, mesmo!!!
"11/9 - A Vida sob Ataque" é um documentário muito humano, sensível e ao mesmo tempo impactante, já que seu foco é exclusivamente contar a história do 11 de setembro pelos olhos de alguns novaiorquinos que de alguma forma presenciaram os ataques as Torres Gêmeas.
É de fato um relato único, comovente e vívido do dia que mudou o mundo moderno. "9/11 Life Under Attack" (no original) é um filme de 90 minutos da ITV que conta histórias nunca antes reveladas, criadas por meio de uma montagem de vários vídeos e áudios inéditos. Confira o trailer (em inglês):
Veja, o que você vai encontrar é o mais próximo do que uma pessoa conseguiu assistir durante os ataques em NY. O diretor Nigel Levy (o mesmo por trás de "Formula 1: Dirigir para Viver") reuniu dezenas de vídeos caseiros e construiu uma narrativa "minuto a minuto" dos atentados. Sem nenhum depoimento, apenas apresentando os personagens com legendas, áudios das rádios locais, dos controladores de voo, de telefonemas vindos das Torres e dos aviões, Levy ilustra toda a tensão e incredulidade que as testemunhas viveram naquela manhã.
Claro que muitas daquelas imagens nós já conhecemos, mas as histórias não - são tão pessoais quanto desesperadoras! É conjunto de narrativas em primeira pessoa (na maioria das vezes) que nos impacta de uma forma muito sentimental, pois não faz parte de uma reinterpretação dos fatos, de uma lembrança distante ou de uma visão confortável do que acontecia - tudo que vemos em "real time" talvez seja a melhor definição do caos e isso é impressionante!
Para quem gostou de "11/9: Dentro da Sala de Guerra do Presidente" e "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" esse é mais um documentário imperdível - pela originalidade e pelo testemunho cruel! Vale muito a pena, mesmo!
"11/9 - A Vida sob Ataque" é um documentário muito humano, sensível e ao mesmo tempo impactante, já que seu foco é exclusivamente contar a história do 11 de setembro pelos olhos de alguns novaiorquinos que de alguma forma presenciaram os ataques as Torres Gêmeas.
É de fato um relato único, comovente e vívido do dia que mudou o mundo moderno. "9/11 Life Under Attack" (no original) é um filme de 90 minutos da ITV que conta histórias nunca antes reveladas, criadas por meio de uma montagem de vários vídeos e áudios inéditos. Confira o trailer (em inglês):
Veja, o que você vai encontrar é o mais próximo do que uma pessoa conseguiu assistir durante os ataques em NY. O diretor Nigel Levy (o mesmo por trás de "Formula 1: Dirigir para Viver") reuniu dezenas de vídeos caseiros e construiu uma narrativa "minuto a minuto" dos atentados. Sem nenhum depoimento, apenas apresentando os personagens com legendas, áudios das rádios locais, dos controladores de voo, de telefonemas vindos das Torres e dos aviões, Levy ilustra toda a tensão e incredulidade que as testemunhas viveram naquela manhã.
Claro que muitas daquelas imagens nós já conhecemos, mas as histórias não - são tão pessoais quanto desesperadoras! É conjunto de narrativas em primeira pessoa (na maioria das vezes) que nos impacta de uma forma muito sentimental, pois não faz parte de uma reinterpretação dos fatos, de uma lembrança distante ou de uma visão confortável do que acontecia - tudo que vemos em "real time" talvez seja a melhor definição do caos e isso é impressionante!
Para quem gostou de "11/9: Dentro da Sala de Guerra do Presidente" e "Ponto de Virada: 11/9 e a Guerra ao Terror" esse é mais um documentário imperdível - pela originalidade e pelo testemunho cruel! Vale muito a pena, mesmo!
"9/11: Inside the President's War Room" (no original), documentário da BBC Films em parceria com a Apple, é simplesmente imperdível - pelas imagens dramáticas, pelos depoimentos de quem esteve ao lado do presidente Bush naquele dia e, principalmente, pela forma como a linha do tempo foi construída. Eu diria que esse documentário da AppleTV+ é um dos melhores do ano e certamente vai te colocar naquela atmosfera tão marcante de 20 anos atrás.
Em pouco mais de 90 minutos experimentamos os eventos de 11 de setembro de 2001 através dos olhos do presidente Bush e de seus assessores mais próximos, enquanto eles detalham pessoalmente alguns momentos cruciais e as principais decisões daquele dia histórico. O documentário cobre as primeiras 12 horas de terror e desinformação de uma forma avassaladora. Confira o trailer (em inglês):
O diferencial desse documentário com relação aos vários outros que já assisti, sem dúvida, diz respeito aos personagens que dão depoimentos: são entrevistas exclusivas com o presidente George W. Bush, com o vice Dick Cheney, com a conselheira de segurança nacional Condoleezza Rice, com o secretário de Estado Colin Powell, ente outros - inclusive profissionais da imprensa que cobriam a agenda do presidente na Flórida e que, indiretamente, viveram aquele dia histórico ao lado dele.
É muito interessante a proposta do diretor Adam Wishart em nos posicionar na linha do tempo em relação as (des)informações do staff do presidente em paralelo aos acontecimentos de Nova York e Washington, em tempo real. A forma como os personagens se dividem nas ações em resposta aos relatórios iniciais, primeiro descartando um acidente com um avião de pequeno porte e depois quando os ataques foram confirmados como uma atividade terrorista - as reações, a tensão, tudo está ali. É muito curioso como cada personagem assume uma posição hierárquica perante o caos e como algumas deficiências tecnológicas da época impactaram nas tomadas de decisões - a ordem para abater o United 93 é um ótimo exemplo e sem dúvida um dos momentos que mais embrulha o estômago.
"9/11: Inside the President's War Room" é uma aula de narrativa que equilibra perfeitamente entrevistas, cenas de arquivo e imagens inéditas dos ataques, incluindo uma quantidade enorme de fotos de dentro da própria "sala de guerra" do presidente (e de seu vice) que passou o dia entre o Air Force One e vários Bunkers, até chegar na Casa Branca para um pronunciamento emocionante e histórico.
Em tempo, se você gosta do assunto eu sugiro que você assista dois títulos antes de chegar no documentário (nessa ordem): "The Looming Tower" com Jeff Daniels (que inclusive é o narrador de "9/11: Inside the President's War Room") e depois "O Relatório"com Adam Driver - tenha certeza que a experiência será incrível pelo encaixe das narrativas e visões dos seus personagens.
Imperdível!
"9/11: Inside the President's War Room" (no original), documentário da BBC Films em parceria com a Apple, é simplesmente imperdível - pelas imagens dramáticas, pelos depoimentos de quem esteve ao lado do presidente Bush naquele dia e, principalmente, pela forma como a linha do tempo foi construída. Eu diria que esse documentário da AppleTV+ é um dos melhores do ano e certamente vai te colocar naquela atmosfera tão marcante de 20 anos atrás.
Em pouco mais de 90 minutos experimentamos os eventos de 11 de setembro de 2001 através dos olhos do presidente Bush e de seus assessores mais próximos, enquanto eles detalham pessoalmente alguns momentos cruciais e as principais decisões daquele dia histórico. O documentário cobre as primeiras 12 horas de terror e desinformação de uma forma avassaladora. Confira o trailer (em inglês):
O diferencial desse documentário com relação aos vários outros que já assisti, sem dúvida, diz respeito aos personagens que dão depoimentos: são entrevistas exclusivas com o presidente George W. Bush, com o vice Dick Cheney, com a conselheira de segurança nacional Condoleezza Rice, com o secretário de Estado Colin Powell, ente outros - inclusive profissionais da imprensa que cobriam a agenda do presidente na Flórida e que, indiretamente, viveram aquele dia histórico ao lado dele.
É muito interessante a proposta do diretor Adam Wishart em nos posicionar na linha do tempo em relação as (des)informações do staff do presidente em paralelo aos acontecimentos de Nova York e Washington, em tempo real. A forma como os personagens se dividem nas ações em resposta aos relatórios iniciais, primeiro descartando um acidente com um avião de pequeno porte e depois quando os ataques foram confirmados como uma atividade terrorista - as reações, a tensão, tudo está ali. É muito curioso como cada personagem assume uma posição hierárquica perante o caos e como algumas deficiências tecnológicas da época impactaram nas tomadas de decisões - a ordem para abater o United 93 é um ótimo exemplo e sem dúvida um dos momentos que mais embrulha o estômago.
"9/11: Inside the President's War Room" é uma aula de narrativa que equilibra perfeitamente entrevistas, cenas de arquivo e imagens inéditas dos ataques, incluindo uma quantidade enorme de fotos de dentro da própria "sala de guerra" do presidente (e de seu vice) que passou o dia entre o Air Force One e vários Bunkers, até chegar na Casa Branca para um pronunciamento emocionante e histórico.
Em tempo, se você gosta do assunto eu sugiro que você assista dois títulos antes de chegar no documentário (nessa ordem): "The Looming Tower" com Jeff Daniels (que inclusive é o narrador de "9/11: Inside the President's War Room") e depois "O Relatório"com Adam Driver - tenha certeza que a experiência será incrível pelo encaixe das narrativas e visões dos seus personagens.
Imperdível!
"1408" tem uma narrativa datada - tanto na sua "forma" quanto no seu "conteúdo". Obviamente que isso, por si só, não seria suficiente para definir o filme dirigido pelo sueco Mikael Hafstrom (de "O Ritual") como bom ou ruim, mas é inegável que o tom da trama e a maneira como ela foi construída visualmente estão mais para os anos 90 do que para as produções atuais. Agora, também é preciso contextualizar o momento em que o filme foi lançado: 2007 vivia o fenômeno de "Lost" onde mais impactante que as respostas, eram as perguntas que ajudavam a desenvolver uma narrativa ao mesmo tempo surreal e empolgante.
Mesmo "1408" sendo classificado como um suspense psicológico, posso te garantir que para quem gosta do estilo "Lost", ele é entretenimento puro. Baseado em um conto de mesmo nome do mestre do horror, Stephen King, o filme acompanha Mike Enslin (John Cusack), um escritor cético que se especializa em escrever sobre lugares teoricamente mal-assombrados, até que ele decide investigar o quarto 1408 do Hotel Dolphin em NY - um quarto que tem uma reputação sombria e uma alta taxa de mortalidade entre seus hóspedes. Confira o trailer (em inglês):
Embora "1408" tenha bons momentos de tensão, ele vacila ao entregar uma narrativa pouco coesa e nada consistente. O que eu quero dizer é que mesmo com uma premissa bem desenvolvida, seu desenvolvimento acaba deixando a trama previsível e nada profunda emocionalmente. O roteiro, co-escrito por Matt Greenberg, Scott Alexander e Larry Karaszewski, é bastante fiel ao conto original de King, mas ao adicionar alguns elementos para tornar a história mais cinematográfica, o filme acaba pendendo para o entretenimento deixando o horror um pouco de lado (o que pode gerar alguma decepção).
Habilmente dirigido por Hafstrom e com escolhas conceituais propositadamente cheias de clichês, o filme se apoia em uma trilha sonora das mais interessantes e na competente edição de Peter Boyle (indicado ao Oscar por "As Horas") para criar uma dinâmica bastante eficaz que aumenta a densidade do drama sem esquecer do incômodo que é navegar por águas desconhecidas. Nesse sentido a performance de Cusack é excepcional, pois ele captura a determinação de Enslin para desmascarar os mitos sobrenaturais, mas também a vulnerabilidade que ele começa a sentir quando é confrontado com as verdadeiras forças sobrenaturais do quarto.
Em resumo, "1408" tem mais coisas boas do que ruins - é um divertido filme de suspense com fortes elementos de drama psicológico que consegue nos manter curiosos do começo ao fim. Para muitos críticos, aliás, esse é um dos melhores filmes baseados nas obras de Stephen King já produzidos - eu discordo, mas entendo e respeito quem pensa assim. Para outros, esse é mais um filme "Sessão da Tarde" que diverte muito mais do que assusta - é aqui que assino embaixo. Porém, também é preciso dizer, que em ambos os casos, alinhadas as expectativas, eu diria que vale a experiência desde que fique claro que não estamos diante de um filme inesquecível, mas de uma obra que cumpre muito bem o seu papel.
"1408" tem uma narrativa datada - tanto na sua "forma" quanto no seu "conteúdo". Obviamente que isso, por si só, não seria suficiente para definir o filme dirigido pelo sueco Mikael Hafstrom (de "O Ritual") como bom ou ruim, mas é inegável que o tom da trama e a maneira como ela foi construída visualmente estão mais para os anos 90 do que para as produções atuais. Agora, também é preciso contextualizar o momento em que o filme foi lançado: 2007 vivia o fenômeno de "Lost" onde mais impactante que as respostas, eram as perguntas que ajudavam a desenvolver uma narrativa ao mesmo tempo surreal e empolgante.
Mesmo "1408" sendo classificado como um suspense psicológico, posso te garantir que para quem gosta do estilo "Lost", ele é entretenimento puro. Baseado em um conto de mesmo nome do mestre do horror, Stephen King, o filme acompanha Mike Enslin (John Cusack), um escritor cético que se especializa em escrever sobre lugares teoricamente mal-assombrados, até que ele decide investigar o quarto 1408 do Hotel Dolphin em NY - um quarto que tem uma reputação sombria e uma alta taxa de mortalidade entre seus hóspedes. Confira o trailer (em inglês):
Embora "1408" tenha bons momentos de tensão, ele vacila ao entregar uma narrativa pouco coesa e nada consistente. O que eu quero dizer é que mesmo com uma premissa bem desenvolvida, seu desenvolvimento acaba deixando a trama previsível e nada profunda emocionalmente. O roteiro, co-escrito por Matt Greenberg, Scott Alexander e Larry Karaszewski, é bastante fiel ao conto original de King, mas ao adicionar alguns elementos para tornar a história mais cinematográfica, o filme acaba pendendo para o entretenimento deixando o horror um pouco de lado (o que pode gerar alguma decepção).
Habilmente dirigido por Hafstrom e com escolhas conceituais propositadamente cheias de clichês, o filme se apoia em uma trilha sonora das mais interessantes e na competente edição de Peter Boyle (indicado ao Oscar por "As Horas") para criar uma dinâmica bastante eficaz que aumenta a densidade do drama sem esquecer do incômodo que é navegar por águas desconhecidas. Nesse sentido a performance de Cusack é excepcional, pois ele captura a determinação de Enslin para desmascarar os mitos sobrenaturais, mas também a vulnerabilidade que ele começa a sentir quando é confrontado com as verdadeiras forças sobrenaturais do quarto.
Em resumo, "1408" tem mais coisas boas do que ruins - é um divertido filme de suspense com fortes elementos de drama psicológico que consegue nos manter curiosos do começo ao fim. Para muitos críticos, aliás, esse é um dos melhores filmes baseados nas obras de Stephen King já produzidos - eu discordo, mas entendo e respeito quem pensa assim. Para outros, esse é mais um filme "Sessão da Tarde" que diverte muito mais do que assusta - é aqui que assino embaixo. Porém, também é preciso dizer, que em ambos os casos, alinhadas as expectativas, eu diria que vale a experiência desde que fique claro que não estamos diante de um filme inesquecível, mas de uma obra que cumpre muito bem o seu papel.
"É preciso olhar por nossas crianças!"
Mais uma vez eu inicio um review com esse aviso já que, depois do play, você vai encontrar uma narrativa bastante interessante sobre o que de fato aconteceu com Patricia Aguilar, uma jovem espanhola de 18 anos, que permaneceu refém de uma seita no Peru, entre 2016 e 2018, depois de ficar dois anos trocando mensagens com um falso guru espiritual pela internet. Em 3 episódios extremamente dinâmicos, "548 Dias: Capturadas por uma Seita‘" vai te provocar profundas reflexões sobre o valor de uma relação mais próxima e aberta entre pais e filhos. E reparem: o golaço do documentário escrito e dirigido pela dupla Olmo Figueredo e José Ortuño é justamente o de mostrar os dois lados da história: o dos pais e o da filha. Olha, eu diria que essa é uma saga perturbadora, mas igualmente essencial!
Como dá para imaginar, a minissérie conta a história real de Patricia Aguilar que foge de casa assim que chega à maioridade. A família fica dias sem notícias até que recebe um sinal de vida mais preocupante que seu silêncio: a garota parece estar fora de si, sendo controlada por outra pessoa. Patricia fora manipulada desde os 16 anos por Félix Steven Manrique, conhecido como "Príncipe Gurdjieff", um autointitulado guru que a convenceu ir encontra-lo no Peru. Ao longo dos episódios, a família Aguilar narra com muita honestidade e dor, os longos meses de angústia até recuperar a filha, além de mostrar o primeiro depoimento da própria Patrícia contando a sua versão da história. Confira o trailer:
A partir de um conceito corajoso que mistura depoimentos dos envolvidos nos caso, conversas gravadas dos celulares, reconstituições de passagens importantes da história, animação em estilo japonês e até imagens de arquivo da própria policia peruana, "548 Dias: Capturadas por uma Seita‘" dá uma verdadeira aula de como construir uma narrativa com uma linha temporal complexa pelo tempo a ser retratado, mas ao mesmo tempo humana e honesta, que se preocupa em não esconder as falhas dentro de uma relação familiar que parecia ser tão saudável, do mesmo jeito que explora os perigos escondidos atrás de uma tela de computador e que, infelizmente, não podemos controlar.
Chega ser revoltante a maneira como o roteiro desvenda toda a operação online da seita e como seu idealizador agia de forma coercitiva e manipuladora. Manrique se baseava em ensinamentos espirituais e filosóficos distorcidos, com fortes elementos de manipulação psicológica e lavagem cerebral para recrutar sua vitimas - normalmente mulheres mais jovens em total estado de vulnerabilidade emocional. Mais impressionante até, é como essas vitimas se submetiam aos desejos do falso guru e como ele sempre foi capaz de controlar a situação fazendo com que suas "esposas" acreditassem que ele, de fato, era um ser iluminado e especial. Sem dar spoiler, mas tem uma cena onde uma de suas vitimas, mesmo depois de todos os abusos que sofreu, ainda demonstra carinho e respeito por Manrique.
Certamente "548 días: Captada por una Secta" (no original) vai mexer com suas emoções e julgamentos, mas talvez, mais importante que a dura jornada da família Aguilar em si, seja a mensagem que fica durante os créditos: atenção para os perigos das seitas e o poder que líderes carismáticos podem ter sobre os seguidores vulneráveis! A minissérie sabe exatamente seu lugar como ferramenta de informação e denúncia e, sem cair na morosidade dos jornalismo tradicional, expõe um fluxo de acontecimentos que se mistura ao entretenimento, mas que não esquece do elemento humano. Olmo Figueredo e José Ortuño sabem o valor do drama, mostram a dor de quem fica e de quem vai, mas fazem questão de deixar claro que, nos dias de hoje, ninguém está imune a uma experiência terrível como essa.
Por tudo isso, vale muito o seu play!
"É preciso olhar por nossas crianças!"
Mais uma vez eu inicio um review com esse aviso já que, depois do play, você vai encontrar uma narrativa bastante interessante sobre o que de fato aconteceu com Patricia Aguilar, uma jovem espanhola de 18 anos, que permaneceu refém de uma seita no Peru, entre 2016 e 2018, depois de ficar dois anos trocando mensagens com um falso guru espiritual pela internet. Em 3 episódios extremamente dinâmicos, "548 Dias: Capturadas por uma Seita‘" vai te provocar profundas reflexões sobre o valor de uma relação mais próxima e aberta entre pais e filhos. E reparem: o golaço do documentário escrito e dirigido pela dupla Olmo Figueredo e José Ortuño é justamente o de mostrar os dois lados da história: o dos pais e o da filha. Olha, eu diria que essa é uma saga perturbadora, mas igualmente essencial!
Como dá para imaginar, a minissérie conta a história real de Patricia Aguilar que foge de casa assim que chega à maioridade. A família fica dias sem notícias até que recebe um sinal de vida mais preocupante que seu silêncio: a garota parece estar fora de si, sendo controlada por outra pessoa. Patricia fora manipulada desde os 16 anos por Félix Steven Manrique, conhecido como "Príncipe Gurdjieff", um autointitulado guru que a convenceu ir encontra-lo no Peru. Ao longo dos episódios, a família Aguilar narra com muita honestidade e dor, os longos meses de angústia até recuperar a filha, além de mostrar o primeiro depoimento da própria Patrícia contando a sua versão da história. Confira o trailer:
A partir de um conceito corajoso que mistura depoimentos dos envolvidos nos caso, conversas gravadas dos celulares, reconstituições de passagens importantes da história, animação em estilo japonês e até imagens de arquivo da própria policia peruana, "548 Dias: Capturadas por uma Seita‘" dá uma verdadeira aula de como construir uma narrativa com uma linha temporal complexa pelo tempo a ser retratado, mas ao mesmo tempo humana e honesta, que se preocupa em não esconder as falhas dentro de uma relação familiar que parecia ser tão saudável, do mesmo jeito que explora os perigos escondidos atrás de uma tela de computador e que, infelizmente, não podemos controlar.
Chega ser revoltante a maneira como o roteiro desvenda toda a operação online da seita e como seu idealizador agia de forma coercitiva e manipuladora. Manrique se baseava em ensinamentos espirituais e filosóficos distorcidos, com fortes elementos de manipulação psicológica e lavagem cerebral para recrutar sua vitimas - normalmente mulheres mais jovens em total estado de vulnerabilidade emocional. Mais impressionante até, é como essas vitimas se submetiam aos desejos do falso guru e como ele sempre foi capaz de controlar a situação fazendo com que suas "esposas" acreditassem que ele, de fato, era um ser iluminado e especial. Sem dar spoiler, mas tem uma cena onde uma de suas vitimas, mesmo depois de todos os abusos que sofreu, ainda demonstra carinho e respeito por Manrique.
Certamente "548 días: Captada por una Secta" (no original) vai mexer com suas emoções e julgamentos, mas talvez, mais importante que a dura jornada da família Aguilar em si, seja a mensagem que fica durante os créditos: atenção para os perigos das seitas e o poder que líderes carismáticos podem ter sobre os seguidores vulneráveis! A minissérie sabe exatamente seu lugar como ferramenta de informação e denúncia e, sem cair na morosidade dos jornalismo tradicional, expõe um fluxo de acontecimentos que se mistura ao entretenimento, mas que não esquece do elemento humano. Olmo Figueredo e José Ortuño sabem o valor do drama, mostram a dor de quem fica e de quem vai, mas fazem questão de deixar claro que, nos dias de hoje, ninguém está imune a uma experiência terrível como essa.
Por tudo isso, vale muito o seu play!
Finalmente "7 Dias em Entebbe", novo filme do brasileiro José Padilha que estreou em Berlin, está disponível no streaming! Antes de mais nada é preciso dizer que o filme foi muito criticado pelo fato do Padilha ter "humanizado" os terroristas e ter focado em relações pouco usuais quando o assunto é o sequestro de um avião cheio de civis que serviriam de moeda de troca para presos políticos. Sinceramente isso não interferiu em absolutamente nada na minha experiência ao assistir o filme - talvez até pelo fato de eu não conhecer muito da história e muito menos estar inserido nesse tipo de discussão.
Em julho de 1976, um voo da Air France que partiu de Tel-Aviv à Paris é sequestrado e forçado a pousar em Entebbe, na Uganda. Os passageiros judeus são mantidos reféns para que seja negociada a liberação dos terroristas e anarquistas palestinos presos em Israel, na Alemanha e na Suécia. Sob pressão, o governo israelita decide organizar uma operação de resgate, atacar o campo de pouso e soltar os reféns. Confira o trailer:
Independente do tipo de abordagem, o que me interessou foi o filme em si e nisso ele é irretocável. Tecnicamente perfeito! A fotografia do Lula Carvalho está linda, com planos muito bem construídos e um movimento de câmera que me agrada muito, equilibrando muito bem o estilo de direção do Padilha com o que a história pedia em cada cena. Aliás, o Padilha vai muito bem (óbvio) e mesmo trazendo uma ou outra referência dos seus antigos trabalhos, não se apoia em muletas que já foram motivo de muitas criticas recentes como aquele voice over de "Narcos" e do "Mecanismo", por exemplo - embora eu nunca tenha achado que era "mais do mesmo" e sim o estilo que ele gosta de imprimir como conceito narrativo e ponto final - escolha puramente pessoal do Diretor!
Eu realmente gostei do filme, trouxe uma sensação muito parecida de quando assisti "Argo", e a construção do roteiro proposta pelo Gregory Burke(de "71: Esquecido em Belfast") fazendo sempre um contraponto com os ensaios de uma companhia de ballet trouxe uma certa poesia para o filme, encaixou muito bem como alivio dramático e fez do trabalho do desenho de som, da mixagem e da trilha sonora um dos pontos mais interessantes do filme! Reparem como tudo se encaixa perfeitamente e nos convidam a refletir sobre tudo o que está acontecendo em Uganda!
Olha, é um filme com a marca do Padilha e ainda bem! Na minha opinião, um dos melhores de 2018!
Finalmente "7 Dias em Entebbe", novo filme do brasileiro José Padilha que estreou em Berlin, está disponível no streaming! Antes de mais nada é preciso dizer que o filme foi muito criticado pelo fato do Padilha ter "humanizado" os terroristas e ter focado em relações pouco usuais quando o assunto é o sequestro de um avião cheio de civis que serviriam de moeda de troca para presos políticos. Sinceramente isso não interferiu em absolutamente nada na minha experiência ao assistir o filme - talvez até pelo fato de eu não conhecer muito da história e muito menos estar inserido nesse tipo de discussão.
Em julho de 1976, um voo da Air France que partiu de Tel-Aviv à Paris é sequestrado e forçado a pousar em Entebbe, na Uganda. Os passageiros judeus são mantidos reféns para que seja negociada a liberação dos terroristas e anarquistas palestinos presos em Israel, na Alemanha e na Suécia. Sob pressão, o governo israelita decide organizar uma operação de resgate, atacar o campo de pouso e soltar os reféns. Confira o trailer:
Independente do tipo de abordagem, o que me interessou foi o filme em si e nisso ele é irretocável. Tecnicamente perfeito! A fotografia do Lula Carvalho está linda, com planos muito bem construídos e um movimento de câmera que me agrada muito, equilibrando muito bem o estilo de direção do Padilha com o que a história pedia em cada cena. Aliás, o Padilha vai muito bem (óbvio) e mesmo trazendo uma ou outra referência dos seus antigos trabalhos, não se apoia em muletas que já foram motivo de muitas criticas recentes como aquele voice over de "Narcos" e do "Mecanismo", por exemplo - embora eu nunca tenha achado que era "mais do mesmo" e sim o estilo que ele gosta de imprimir como conceito narrativo e ponto final - escolha puramente pessoal do Diretor!
Eu realmente gostei do filme, trouxe uma sensação muito parecida de quando assisti "Argo", e a construção do roteiro proposta pelo Gregory Burke(de "71: Esquecido em Belfast") fazendo sempre um contraponto com os ensaios de uma companhia de ballet trouxe uma certa poesia para o filme, encaixou muito bem como alivio dramático e fez do trabalho do desenho de som, da mixagem e da trilha sonora um dos pontos mais interessantes do filme! Reparem como tudo se encaixa perfeitamente e nos convidam a refletir sobre tudo o que está acontecendo em Uganda!
Olha, é um filme com a marca do Padilha e ainda bem! Na minha opinião, um dos melhores de 2018!
O que mais me chamou a atenção em "A Bruxa", sem dúvida, foi a atmosfera densa e opressiva criada pelo talentoso Robert Eggers (de "O Farol") ao longo da narrativa - ela é tão cativante quanto envolvente. Existe uma abordagem realista e muito detalhada da vida no período e no local em que se passa a história: algo em torno do século XVII, na Nova Inglaterra. Essa atenção meticulosa aos detalhes que vai do figurino aos diálogos em inglês arcaico, contribui para uma imersão impressionante que o roteiro faz questão de potencializar ao explorar nuances do paganismo e de uma paranoia religiosa naturalmente impactante.
Em "The Witch" (no original), uma família puritana é exilada de sua comunidade religiosa e se estabelece em uma fazenda isolada, à beira de uma floresta assombrada. Logo, eles começam a experimentar eventos sobrenaturais e perturbadores, culminando no desaparecimento misterioso de seu filho recém-nascido. Conforme a tensão aumenta e o medo se instala, a família se vê lutando contra forças obscuras e o mal que parece estar presente em seu meio. Confira o trailer:
"A Bruxa" chega chancelada por ser um dos filmes mais premiados na temporada de 2015. Seu conceito mais independente e autoral deu para Eggers o prêmio de um dos diretores mais promissores do ano por ser seu primeiro longa-metragem em Sundance - além do prêmio de "Melhor Filme" pelo júri, obviamente. É inegável que o filme se destaca por seus diferenciais técnicos e artísticos. A trilha sonora de Mark Korven é de arrepiar e contribui demais nessa construção sinistra que a fotografia do Jarin Blaschke (indicado ao Oscar com "O Farol") impõe visualmente com suas paisagens sombrias e enquadramentos precisos, que intensifica a sensação de claustrofobia e isolamento vivenciada pelos personagens. Aliás, as performances do elenco também merecem elogios - o destaque fica para Anya Taylor-Joy no papel da jovem Thomasin. Ela entrega uma interpretação poderosa, para não dizer visceral..
Existe um aspecto interessante na narrativa de "A Bruxa" - ela apresenta diversos elementos que podem passar despercebidos em uma primeira análise, mas que são fundamentais para a compreensão do filme (por isso que algumas pessoas não se conectam de cara). A história aborda temas sensíveis como fanatismo religioso, superstição e até repressão sexual - tudo de forma muito sutil, explorando o conflito entre a crença cega e a realidade de uma maneira muito inteligente. Reparem como os diálogos são carregados de simbolismos e referências históricas, o que exige uma atenção cuidadosa por parte da audiência, ou seja, não estamos diante de um filme fácil.
Se você está em busca de um filme que te desafia ao mesmo tempo em que te instiga, despertando emoções intensas (algumas não muito agradáveis), "A Bruxa" certamente é a escolha ideal, só não espere uma jornada usual ou uma perspectiva rasa, já que o drama é realmente potente e o suspense muito bem explorado!
Vale muito o seu play!
O que mais me chamou a atenção em "A Bruxa", sem dúvida, foi a atmosfera densa e opressiva criada pelo talentoso Robert Eggers (de "O Farol") ao longo da narrativa - ela é tão cativante quanto envolvente. Existe uma abordagem realista e muito detalhada da vida no período e no local em que se passa a história: algo em torno do século XVII, na Nova Inglaterra. Essa atenção meticulosa aos detalhes que vai do figurino aos diálogos em inglês arcaico, contribui para uma imersão impressionante que o roteiro faz questão de potencializar ao explorar nuances do paganismo e de uma paranoia religiosa naturalmente impactante.
Em "The Witch" (no original), uma família puritana é exilada de sua comunidade religiosa e se estabelece em uma fazenda isolada, à beira de uma floresta assombrada. Logo, eles começam a experimentar eventos sobrenaturais e perturbadores, culminando no desaparecimento misterioso de seu filho recém-nascido. Conforme a tensão aumenta e o medo se instala, a família se vê lutando contra forças obscuras e o mal que parece estar presente em seu meio. Confira o trailer:
"A Bruxa" chega chancelada por ser um dos filmes mais premiados na temporada de 2015. Seu conceito mais independente e autoral deu para Eggers o prêmio de um dos diretores mais promissores do ano por ser seu primeiro longa-metragem em Sundance - além do prêmio de "Melhor Filme" pelo júri, obviamente. É inegável que o filme se destaca por seus diferenciais técnicos e artísticos. A trilha sonora de Mark Korven é de arrepiar e contribui demais nessa construção sinistra que a fotografia do Jarin Blaschke (indicado ao Oscar com "O Farol") impõe visualmente com suas paisagens sombrias e enquadramentos precisos, que intensifica a sensação de claustrofobia e isolamento vivenciada pelos personagens. Aliás, as performances do elenco também merecem elogios - o destaque fica para Anya Taylor-Joy no papel da jovem Thomasin. Ela entrega uma interpretação poderosa, para não dizer visceral..
Existe um aspecto interessante na narrativa de "A Bruxa" - ela apresenta diversos elementos que podem passar despercebidos em uma primeira análise, mas que são fundamentais para a compreensão do filme (por isso que algumas pessoas não se conectam de cara). A história aborda temas sensíveis como fanatismo religioso, superstição e até repressão sexual - tudo de forma muito sutil, explorando o conflito entre a crença cega e a realidade de uma maneira muito inteligente. Reparem como os diálogos são carregados de simbolismos e referências históricas, o que exige uma atenção cuidadosa por parte da audiência, ou seja, não estamos diante de um filme fácil.
Se você está em busca de um filme que te desafia ao mesmo tempo em que te instiga, despertando emoções intensas (algumas não muito agradáveis), "A Bruxa" certamente é a escolha ideal, só não espere uma jornada usual ou uma perspectiva rasa, já que o drama é realmente potente e o suspense muito bem explorado!
Vale muito o seu play!
"A Cobra do Alabama" é mais um ótimo documentário da HBO que mistura depoimentos reais de quem, de alguma forma, esteve envolvido com o caso em 1991, com dramatizações de muito bom gosto, bem na linha True Crime que o Estúdio se especializou, mas sem necessariamente aquela obrigação de nos surpreender (o que pode ser um pouco frustrante, admito) - mas o fato é que a história por si só é tão bizarra que a sensação de que "nada mais é possível nos pegar de surpresa" nos acompanha durante toda a jornada, praticamente nos obrigando a ficar com os olhos grudados na tela até seu final.
"Alabama Snake" (no original) explora o supreedente caso que aconteceu em 4 de outubro de 1991, quando um crime violento foi relatado na pacata cidade de Scottsboro, Alabama. Glenn Summerford, um conhecido ministro pentecostal da comunidade, foi acusado de tentar assassinar sua esposa com uma cascavel - isso mesmo, com uma cobra! Confira o trailer (em inglês):
"A Cobra do Alabama" faz parte de um projeto especial da HBO onde cinco diretores diferentes produziram cinco documentários, definidos como fascinantes, sobre crimes reais, onde as histórias iam além das manchetes sensacionalistas dos casos, ou seja, a ideia era que os roteiros explorassem o componente humano e com isso tentassem equilibrar todos os aspectos dos crimes, mergulhando no universo íntimo dos criminosos, das vítimas e, eventualmente, dos sobreviventes - foi dessa antologia, aliás, que saiu o projeto do ganhador do Oscar, Alex Gibney (por "Taxi to the Dark Side" em 2007), chamado "Louco Não, Doido".
Aqui, Theo Love (do instigante "GameStop Contra Wall Street") se apropria de uma narrativa que tem como conceito não respeitar a linha temporal, ou seja, ele está sempre misturando o passado e o presente com o claro intuito de ir revelando os detalhes da investigação, as particularidades do caso e os perfis dos envolvidos, aos poucos, sem a preocupação de ir conectando as pontas, mas sim de lançar pistas para que ao longo dos 90 minutos de filme, a audiência construa sua própria tese. A excelente produção inclui entrevistas com pessoas que conheciam bem Summerford e que falam do seu histórico violento e sua redenção espiritual. Entre elas estão a própria Darlene Summerford que sobreviveu aos ataques; Marty, o filho do casal, e Doris, ex-mulher de Glenn - todos ajudam a construir o complexo cenário que levaria à aterrorizante e suposta tentativa de homicídio.
Aliás, uma figura importante no documentário é o historiador Dr. Thomas G. Burton, especialista em cultura, crenças e folclore das igrejas pentecostais - é ele que revela as praticas do curioso rito de adestramento de serpentes, por onde Deus julgaria o pecador através da picada do animal (oi?). Sim, eu sei que é insano, mas posso te garantir que esse é só um dos absurdos dessa história maluca. Se não excepcional, as entrevistas de Burton com Summerford fazem parte de um extenso material em vídeo e áudio que ajudaram a dar um aspecto bastante palpável ao tom mais misterioso de "A Cobra do Alabama" que foi brilhantemente editado pelo talentoso Andy McAllister - cineasta indicado ao SXSW Grand Jury Award pelo seu curta documental "The Pioneertown Palace".
Vale seu play!
"A Cobra do Alabama" é mais um ótimo documentário da HBO que mistura depoimentos reais de quem, de alguma forma, esteve envolvido com o caso em 1991, com dramatizações de muito bom gosto, bem na linha True Crime que o Estúdio se especializou, mas sem necessariamente aquela obrigação de nos surpreender (o que pode ser um pouco frustrante, admito) - mas o fato é que a história por si só é tão bizarra que a sensação de que "nada mais é possível nos pegar de surpresa" nos acompanha durante toda a jornada, praticamente nos obrigando a ficar com os olhos grudados na tela até seu final.
"Alabama Snake" (no original) explora o supreedente caso que aconteceu em 4 de outubro de 1991, quando um crime violento foi relatado na pacata cidade de Scottsboro, Alabama. Glenn Summerford, um conhecido ministro pentecostal da comunidade, foi acusado de tentar assassinar sua esposa com uma cascavel - isso mesmo, com uma cobra! Confira o trailer (em inglês):
"A Cobra do Alabama" faz parte de um projeto especial da HBO onde cinco diretores diferentes produziram cinco documentários, definidos como fascinantes, sobre crimes reais, onde as histórias iam além das manchetes sensacionalistas dos casos, ou seja, a ideia era que os roteiros explorassem o componente humano e com isso tentassem equilibrar todos os aspectos dos crimes, mergulhando no universo íntimo dos criminosos, das vítimas e, eventualmente, dos sobreviventes - foi dessa antologia, aliás, que saiu o projeto do ganhador do Oscar, Alex Gibney (por "Taxi to the Dark Side" em 2007), chamado "Louco Não, Doido".
Aqui, Theo Love (do instigante "GameStop Contra Wall Street") se apropria de uma narrativa que tem como conceito não respeitar a linha temporal, ou seja, ele está sempre misturando o passado e o presente com o claro intuito de ir revelando os detalhes da investigação, as particularidades do caso e os perfis dos envolvidos, aos poucos, sem a preocupação de ir conectando as pontas, mas sim de lançar pistas para que ao longo dos 90 minutos de filme, a audiência construa sua própria tese. A excelente produção inclui entrevistas com pessoas que conheciam bem Summerford e que falam do seu histórico violento e sua redenção espiritual. Entre elas estão a própria Darlene Summerford que sobreviveu aos ataques; Marty, o filho do casal, e Doris, ex-mulher de Glenn - todos ajudam a construir o complexo cenário que levaria à aterrorizante e suposta tentativa de homicídio.
Aliás, uma figura importante no documentário é o historiador Dr. Thomas G. Burton, especialista em cultura, crenças e folclore das igrejas pentecostais - é ele que revela as praticas do curioso rito de adestramento de serpentes, por onde Deus julgaria o pecador através da picada do animal (oi?). Sim, eu sei que é insano, mas posso te garantir que esse é só um dos absurdos dessa história maluca. Se não excepcional, as entrevistas de Burton com Summerford fazem parte de um extenso material em vídeo e áudio que ajudaram a dar um aspecto bastante palpável ao tom mais misterioso de "A Cobra do Alabama" que foi brilhantemente editado pelo talentoso Andy McAllister - cineasta indicado ao SXSW Grand Jury Award pelo seu curta documental "The Pioneertown Palace".
Vale seu play!
É inegável que desde seu anúncio, expectativas foram criadas em cima de "A Diplomata" como uma substituta natural de "House of Cards" pela perspectiva politica que a série traria para sua trama. De fato, ter Debora Cahn como criadora, trazendo toda sua expertise de "West Wing", potencializou essa premissa, no entanto, e até para alinharmos nossa expectativa, essa produção da Netflix está mais próxima da dinâmica de "Homeland" (também de Cahn) ou de "Scandal" - na forma e no conteúdo. Isso ruim? Não, muito pelo contrário, mas também não pode ser considerada uma produção "prime" como acompanhamos nos primórdios da Netflix.
Em meio a uma crise política de grandes proporções, graças a um ataque terrorista contra um porta-aviões britânico, Kate (Keri Russell) é designada pelo presidente americano para ser a representante dos EUA em Londres e assim tentar colocar panos quentes na tensão mundial enquanto uma delicada investigação acontece. Porém, esse novo posto de Kate é considerado largamente cerimonial e ela se sente inadequada para cumprir tal função, além de saber que as diferenças entre essa missão e sua personalidade podem afetar o seu casamento e ainda impactar o resto do mundo. Confira o trailer:
Não será preciso mais que alguns minutos para entender que Kate Wyler está anos luz de Frank e Claire Underwood - embora bem construída por Russel, a personagem não tem as nuances da dupla de "House of Cards", a profundidade dramática e muito menos o charme com aquele toque de ironia, muitas vezes requintada, de se comunicar. Isso impacta diretamente na forma como a direção conduz a série, e mais uma vez falando de requinte, faz falta um David Fincher. Por outro lado, "A Diplomata" acerta ao simplificar aquele universo complexo dos bastidores políticos, muitas vezes se apoiando em alívios cômicos bem inseridos, o que suaviza a narrativa e nos aproxima dos personagens sem a necessidade de julga-los a todo momento. Veja, nomes de cargos e suas dinâmicas de poder são condensados de uma forma que até os jargões políticos soam naturais, e toda aquela dinâmica de informações entre várias esferas de governo que nos deixavam de cabelo em pé em "House of Cards", na verdade, faz pouca ou nenhuma diferença no conflito central aqui - o que eu quero dizer, é que o entretenimento despretensioso impera, deixando as teorias de conspiração apenas como um bom e equilibrado recheio.
Outro ponto que merece ser observado está na maneira pela qual a série constrói um cenário plenamente reconhecível, porém sem se deixar datar por ele. Mais uma vez na linha de "Homeland" a história pega emprestado o contexto, se localiza, para só depois valorizar os pilares dramáticos de um mundo em crise onde a confiança na democracia está sempre colocada a prova. Os protagonistas, Kate e Hal (Rufus Sewell), funcionam como o elo de ligação entre a veracidade e o fantasioso - e até quando a tensão ganha força, o texto logo se apropria de um tom mais satírico para valorizar sua identidade. Imagine, isso só aconteceria em "House of Cards" se a Shonda Rhimes fosse sua criadora.
"A Diplomata" tem mesmo um ritmo frenético, com episódios dinâmicos e bem estruturados que nos permite diversão sem sofrimento. O roteiro sabe dosar a acidez de seus diálogos, com uma trama política envolvente e protagonistas divertidos - um verdadeiro mix de gêneros e estilos que vai se conectar com um público muito maior do que aqueles fãs de thrillers políticos mais sérios e densos. Com uma produção que merece elogios, belas locações e um requintado desenho de produção, a série tem tudo para cair nas graças da audiência e ganhar algumas temporadas - o que ela não pode, é ceder a tentação de querer ser algo que não nasceu para ser e você sabe do que eu estou falando!
Vale seu play!
É inegável que desde seu anúncio, expectativas foram criadas em cima de "A Diplomata" como uma substituta natural de "House of Cards" pela perspectiva politica que a série traria para sua trama. De fato, ter Debora Cahn como criadora, trazendo toda sua expertise de "West Wing", potencializou essa premissa, no entanto, e até para alinharmos nossa expectativa, essa produção da Netflix está mais próxima da dinâmica de "Homeland" (também de Cahn) ou de "Scandal" - na forma e no conteúdo. Isso ruim? Não, muito pelo contrário, mas também não pode ser considerada uma produção "prime" como acompanhamos nos primórdios da Netflix.
Em meio a uma crise política de grandes proporções, graças a um ataque terrorista contra um porta-aviões britânico, Kate (Keri Russell) é designada pelo presidente americano para ser a representante dos EUA em Londres e assim tentar colocar panos quentes na tensão mundial enquanto uma delicada investigação acontece. Porém, esse novo posto de Kate é considerado largamente cerimonial e ela se sente inadequada para cumprir tal função, além de saber que as diferenças entre essa missão e sua personalidade podem afetar o seu casamento e ainda impactar o resto do mundo. Confira o trailer:
Não será preciso mais que alguns minutos para entender que Kate Wyler está anos luz de Frank e Claire Underwood - embora bem construída por Russel, a personagem não tem as nuances da dupla de "House of Cards", a profundidade dramática e muito menos o charme com aquele toque de ironia, muitas vezes requintada, de se comunicar. Isso impacta diretamente na forma como a direção conduz a série, e mais uma vez falando de requinte, faz falta um David Fincher. Por outro lado, "A Diplomata" acerta ao simplificar aquele universo complexo dos bastidores políticos, muitas vezes se apoiando em alívios cômicos bem inseridos, o que suaviza a narrativa e nos aproxima dos personagens sem a necessidade de julga-los a todo momento. Veja, nomes de cargos e suas dinâmicas de poder são condensados de uma forma que até os jargões políticos soam naturais, e toda aquela dinâmica de informações entre várias esferas de governo que nos deixavam de cabelo em pé em "House of Cards", na verdade, faz pouca ou nenhuma diferença no conflito central aqui - o que eu quero dizer, é que o entretenimento despretensioso impera, deixando as teorias de conspiração apenas como um bom e equilibrado recheio.
Outro ponto que merece ser observado está na maneira pela qual a série constrói um cenário plenamente reconhecível, porém sem se deixar datar por ele. Mais uma vez na linha de "Homeland" a história pega emprestado o contexto, se localiza, para só depois valorizar os pilares dramáticos de um mundo em crise onde a confiança na democracia está sempre colocada a prova. Os protagonistas, Kate e Hal (Rufus Sewell), funcionam como o elo de ligação entre a veracidade e o fantasioso - e até quando a tensão ganha força, o texto logo se apropria de um tom mais satírico para valorizar sua identidade. Imagine, isso só aconteceria em "House of Cards" se a Shonda Rhimes fosse sua criadora.
"A Diplomata" tem mesmo um ritmo frenético, com episódios dinâmicos e bem estruturados que nos permite diversão sem sofrimento. O roteiro sabe dosar a acidez de seus diálogos, com uma trama política envolvente e protagonistas divertidos - um verdadeiro mix de gêneros e estilos que vai se conectar com um público muito maior do que aqueles fãs de thrillers políticos mais sérios e densos. Com uma produção que merece elogios, belas locações e um requintado desenho de produção, a série tem tudo para cair nas graças da audiência e ganhar algumas temporadas - o que ela não pode, é ceder a tentação de querer ser algo que não nasceu para ser e você sabe do que eu estou falando!
Vale seu play!
Antes mais nada é preciso alinhar as expectativas: talvez a história de "A Ordem" seja até mais interessante que o filme em si, mas posso te adiantar, é impressionante como a narrativa acerta em cheio ao explorar a insanidade de um ser humano desprezível pautado pelo extremismo. Nesse sentido, poucos diretores têm o dom de transformar o desconforto em uma experiência cinematográfica tão impactante quanto Justin Kurzel. Depois de dissecar a mente de assassinos em "Snowtown" e "Nitram", o cineasta retorna ao submundo da violência ideológica com um competente "A Ordem" - baseado no livro "The Order: Inside America's Racist Underground", de Kevin Flynn e Gary Gerhardt. Se seus trabalhos anteriores já demonstravam uma obsessão pelo processo de radicalização e suas consequências mais devastadoras, aqui ele expande essa análise para o cenário político e social dos EUA, expondo como um movimento neonazista saiu das sombras e marcou a história real americana.
O filme mergulha na ascensão do grupo extremista The Order, que operou nos anos 1980, liderado por Robert Jay Mathews (Nicholas Hoult) e que foi responsável por crimes que transitaram entre assaltos a bancos até assassinatos políticos e atentados terroristas. O roteiro, que mistura elementos ficcionais com uma reconstituição fiel dos eventos documentados no livro, constrói uma atmosfera densa e angustiante pela perspectiva do agente do FBI, Terry Husk (Jude Law). Confira o trailer (em inglês):
Em vez de tratar seus personagens como meros vilões superficiais, Kurzel acerta demais ao estudar a personalidade de cada um deles como peças de um sistema corrompido pela paranoia, pelo ressentimento e pela necessidade de pertencimento - uma abordagem semelhante ao que Drew e John Erick Dowdle fizeram na excelente minissérie "Waco". Desde os primeiros minutos, Kurzel estabelece um tom opressivo que permanece constante ao longo da narrativa - conceito potencializado pelo fotógrafo Adam Arkapaw (seu parceiro em "Macbeth"). Repare como Arkapaw prioriza cores pouco saturadas com uma iluminação dura e planos bem construídos que nos remetem aos filmes de ação, mas sem esquecer a potência do drama íntimo daqueles personagens. É palpável o ambiente de desesperança de uma realidade brutal que assola aquelas comunidades do noroeste do EUA - o uso calculado de sombras e desfoques para isolar figuras em meio ao caos, com o diretor de fotografia frequentemente usando lentes de 50mm e 75mm, gera um efeito claustrofóbico muito interessante, aprisionando os personagens dentro de sua própria narrativa de ódio.
Enquanto o roteiro oferece momentos de introspecção e inquietação, a trilha sonora original de Jed Kurzel (de "Encounter") opta por uma abordagem minimalista, deixando o desenho de som e seus ruídos de ambiente assumirem um papel fundamental. O impacto das armas, o som abafado de uma discussão dentro de um carro, a estática de um rádio da polícia, ou seja, cada detalhe sonoro amplifica a sensação de estarmos à beira de um colapso iminente - a nossa percepção de desintegração social é angustiante. Veja, Justin Kurzel não está interessado na ação gratuita, ou seja, ele praticamente se desfaz de figuras unidimensionais de uma maneira extremamente orgânica - e todo esse cuidado conceitual, do desenho de produção ao trabalho da mixagem, reflete diretamente na performance do elenco. Tal qual Taylor Kitsch como David Koresh, Nicholas Hoult expõe a desconexão com a realidade de "Bob" Mathewscom uma precisão cirúrgica - aliás, evocando momentos que nos remetem a Edward Norton em "A Outra História Americana". Já Jude Law, como o agente do FBI obcecado em desmontar o grupo, entrega outra atuação perturbadora - ao ponto de trazer para cena aquela atmosfera de mal-estar emocional que encontramos em "True Detective" e em "Se7en".
Ao contrário de filmes que romantizam o universo do crime, "A Ordem" se esforça para destruir qualquer ilusão de grandiosidade ao "humanizar" figuras extremistas - com certo tato, é verdade, O roteiro de Zach Baylin (de "King Richard: Criando Campeãs") evita simplificações, mostrando como a radicalização se alimenta de ciclos de frustração, medo e manipulação. O filme não cai na armadilha de dar voz à retórica do ódio sem contraponto, mas também não se apressa em oferecer respostas fáceis. No final, "A Ordem" se apresenta mais do que um thriller sobre terrorismo doméstico (não espere muita ação), se colocando como um retrato brutal e necessário sobre como a ideologia supremacista continua a contaminar sociedades, muitas vezes sob novas roupagens. O filme vai além de sua estética impecável; ele provoca, incomoda e força a audiência a refletir - eu dia até que, mesmo como um golpe seco no estômago, "A Ordem" é uma obra necessária e impossível de ignorar.
Vale muito o seu play!
Antes mais nada é preciso alinhar as expectativas: talvez a história de "A Ordem" seja até mais interessante que o filme em si, mas posso te adiantar, é impressionante como a narrativa acerta em cheio ao explorar a insanidade de um ser humano desprezível pautado pelo extremismo. Nesse sentido, poucos diretores têm o dom de transformar o desconforto em uma experiência cinematográfica tão impactante quanto Justin Kurzel. Depois de dissecar a mente de assassinos em "Snowtown" e "Nitram", o cineasta retorna ao submundo da violência ideológica com um competente "A Ordem" - baseado no livro "The Order: Inside America's Racist Underground", de Kevin Flynn e Gary Gerhardt. Se seus trabalhos anteriores já demonstravam uma obsessão pelo processo de radicalização e suas consequências mais devastadoras, aqui ele expande essa análise para o cenário político e social dos EUA, expondo como um movimento neonazista saiu das sombras e marcou a história real americana.
O filme mergulha na ascensão do grupo extremista The Order, que operou nos anos 1980, liderado por Robert Jay Mathews (Nicholas Hoult) e que foi responsável por crimes que transitaram entre assaltos a bancos até assassinatos políticos e atentados terroristas. O roteiro, que mistura elementos ficcionais com uma reconstituição fiel dos eventos documentados no livro, constrói uma atmosfera densa e angustiante pela perspectiva do agente do FBI, Terry Husk (Jude Law). Confira o trailer (em inglês):
Em vez de tratar seus personagens como meros vilões superficiais, Kurzel acerta demais ao estudar a personalidade de cada um deles como peças de um sistema corrompido pela paranoia, pelo ressentimento e pela necessidade de pertencimento - uma abordagem semelhante ao que Drew e John Erick Dowdle fizeram na excelente minissérie "Waco". Desde os primeiros minutos, Kurzel estabelece um tom opressivo que permanece constante ao longo da narrativa - conceito potencializado pelo fotógrafo Adam Arkapaw (seu parceiro em "Macbeth"). Repare como Arkapaw prioriza cores pouco saturadas com uma iluminação dura e planos bem construídos que nos remetem aos filmes de ação, mas sem esquecer a potência do drama íntimo daqueles personagens. É palpável o ambiente de desesperança de uma realidade brutal que assola aquelas comunidades do noroeste do EUA - o uso calculado de sombras e desfoques para isolar figuras em meio ao caos, com o diretor de fotografia frequentemente usando lentes de 50mm e 75mm, gera um efeito claustrofóbico muito interessante, aprisionando os personagens dentro de sua própria narrativa de ódio.
Enquanto o roteiro oferece momentos de introspecção e inquietação, a trilha sonora original de Jed Kurzel (de "Encounter") opta por uma abordagem minimalista, deixando o desenho de som e seus ruídos de ambiente assumirem um papel fundamental. O impacto das armas, o som abafado de uma discussão dentro de um carro, a estática de um rádio da polícia, ou seja, cada detalhe sonoro amplifica a sensação de estarmos à beira de um colapso iminente - a nossa percepção de desintegração social é angustiante. Veja, Justin Kurzel não está interessado na ação gratuita, ou seja, ele praticamente se desfaz de figuras unidimensionais de uma maneira extremamente orgânica - e todo esse cuidado conceitual, do desenho de produção ao trabalho da mixagem, reflete diretamente na performance do elenco. Tal qual Taylor Kitsch como David Koresh, Nicholas Hoult expõe a desconexão com a realidade de "Bob" Mathewscom uma precisão cirúrgica - aliás, evocando momentos que nos remetem a Edward Norton em "A Outra História Americana". Já Jude Law, como o agente do FBI obcecado em desmontar o grupo, entrega outra atuação perturbadora - ao ponto de trazer para cena aquela atmosfera de mal-estar emocional que encontramos em "True Detective" e em "Se7en".
Ao contrário de filmes que romantizam o universo do crime, "A Ordem" se esforça para destruir qualquer ilusão de grandiosidade ao "humanizar" figuras extremistas - com certo tato, é verdade, O roteiro de Zach Baylin (de "King Richard: Criando Campeãs") evita simplificações, mostrando como a radicalização se alimenta de ciclos de frustração, medo e manipulação. O filme não cai na armadilha de dar voz à retórica do ódio sem contraponto, mas também não se apressa em oferecer respostas fáceis. No final, "A Ordem" se apresenta mais do que um thriller sobre terrorismo doméstico (não espere muita ação), se colocando como um retrato brutal e necessário sobre como a ideologia supremacista continua a contaminar sociedades, muitas vezes sob novas roupagens. O filme vai além de sua estética impecável; ele provoca, incomoda e força a audiência a refletir - eu dia até que, mesmo como um golpe seco no estômago, "A Ordem" é uma obra necessária e impossível de ignorar.
Vale muito o seu play!
Olha, "A Primeira Profecia" não é uma jornada das mais tranquilas! Visualmente impactante em vários momentos, o filme surpreende pela sua qualidade conceitual e pela forma como o roteiro se conecta com o clássico de 1977 sem se esquecer do novo. Pois bem, para quem não sabe, aqui temos um prequel que se propõe a explorar as origens do filme "A Profecia" (ou "The Omen") - com um enfoque na construção de um suspense mais realista e uma abordagem desenvolvida em cima de elementos psicológicos bastante atuais, a diretora Arkasha Stevenson (de "Legion") nos oferece, de fato, uma história surpreendentemente potente que busca expandir o universo da franquia, mergulhando nas raízes do mal e que posteriormente levaria ao nascimento de Damien.
A trama acompanha a jovem americana Margaret (Nell Tiger Free), que é enviada a Roma para viver a serviço da igreja. No local, ela se afeiçoa por Carlita (Nicole Sorace), uma jovem quieta e sozinha, que também mora no convento. Ao questionar o passado e a situação da garota para as outras irmãs da igreja, ela é alertada para se manter afastada. No entanto, antes de seguir o conselho, Margaret se depara com práticas obscuras que a faz questionar sua fé. Com a ajuda de um padre exonerado, Brennan (Ralph Ineson), ela acaba descobrindo uma conspiração tenebrosa, que por anos foi ocultada pela igreja local, e que tentava esconder o inevitável: a volta do mal encarnado, o chamado Anticristo. Confira o trailer:
Com o claro objetivo de oferecer para uma nova audiência aquele olhar mais profundo sobre os eventos que antecedem o terror que se desenrola em "A Profecia", "The First Omen" (no original) entrega uma mistura de suspense psicológico com elementos sobrenaturais de encher os olhos. O roteiro, escrito por Stevenson ao lado de Tim Smith e de Keith Thomas, equilibra perfeitamente aquela gramática cinematográfica mais lenta do mistério e do suspense com momentos de terror realmente viscerais. Ao explorar temas como a fé, o destino e o eterno conflito entre o bem e o mal, utilizando a história de Katherine como uma lente para examinar questões mais amplas, "A Primeira Profecia" se escora no original, prestando a reverência necessária, mas sem se tornar obrigatório qualquer conhecimento prévio.
Arkasha Stevenson, em sua estreia como diretora de longa-metragem, demonstra uma habilidade notável para criar essa atmosfera de crescente tensão e desconforto. A diretora utiliza uma abordagem visual estilizada, com uma paleta de cores sombria e uma cinematografia que enfatiza a claustrofobia e o isolamento. A direção de fotografia do Aaron Morton (de "A Morte do Demônio") é particularmente eficaz, utilizando luz e sombras para sugerir a presença de forças invisíveis e ameaçadoras. Aqui cabe um comentário: repare como o uso dos cenários e a atenção aos pequenos detalhes ajudam a construir uma sensação constante de inquietação - quando Margaret está trancada no quarto, por exemplo, a porta está cheia de marcas de unhas em um claro sinal de desespero. Nesse sentido,Nell Tiger Free merece elogios - no tom certo, ela é capaz de transmitir de forma eficaz toda a transformação de sua personagem, desde a incredulidade inicial até o reconhecimento inevitável do horror que a cerca. Sua performance é fundamentada em uma autenticidade emocional que ancora o filme, tornando Katherine uma protagonista cheia de camadas.
"A Primeira Profecia" não está isenta de críticas - o ritmo do filme pode soar deliberadamente lento para alguns, no entanto, o que mais incomoda é a previsibilidade do roteiro. Penso que faltou um pouco de sensibilidade ou talvez até um certo grau de experiência para Stevenson controlar melhor nossas expectativas. Mas isso impacta na nossa experiência? Não muito, desde que você embarque na proposta da diretora - especialmente se você conhece o filme original. Em suma, "A Primeira Profecia" é uma adição digna ao universo de "A Profecia", uma exploração rica das origens do mal que assombrou e conduziu a franquia durante anos. Tenho certeza que para os fãs do suspense, aqueles que gostam de tomar alguns sustos mesmo e de se sentir provocados visualmente, "A Primeira Profecia" vai valer muito o play!
Olha, "A Primeira Profecia" não é uma jornada das mais tranquilas! Visualmente impactante em vários momentos, o filme surpreende pela sua qualidade conceitual e pela forma como o roteiro se conecta com o clássico de 1977 sem se esquecer do novo. Pois bem, para quem não sabe, aqui temos um prequel que se propõe a explorar as origens do filme "A Profecia" (ou "The Omen") - com um enfoque na construção de um suspense mais realista e uma abordagem desenvolvida em cima de elementos psicológicos bastante atuais, a diretora Arkasha Stevenson (de "Legion") nos oferece, de fato, uma história surpreendentemente potente que busca expandir o universo da franquia, mergulhando nas raízes do mal e que posteriormente levaria ao nascimento de Damien.
A trama acompanha a jovem americana Margaret (Nell Tiger Free), que é enviada a Roma para viver a serviço da igreja. No local, ela se afeiçoa por Carlita (Nicole Sorace), uma jovem quieta e sozinha, que também mora no convento. Ao questionar o passado e a situação da garota para as outras irmãs da igreja, ela é alertada para se manter afastada. No entanto, antes de seguir o conselho, Margaret se depara com práticas obscuras que a faz questionar sua fé. Com a ajuda de um padre exonerado, Brennan (Ralph Ineson), ela acaba descobrindo uma conspiração tenebrosa, que por anos foi ocultada pela igreja local, e que tentava esconder o inevitável: a volta do mal encarnado, o chamado Anticristo. Confira o trailer:
Com o claro objetivo de oferecer para uma nova audiência aquele olhar mais profundo sobre os eventos que antecedem o terror que se desenrola em "A Profecia", "The First Omen" (no original) entrega uma mistura de suspense psicológico com elementos sobrenaturais de encher os olhos. O roteiro, escrito por Stevenson ao lado de Tim Smith e de Keith Thomas, equilibra perfeitamente aquela gramática cinematográfica mais lenta do mistério e do suspense com momentos de terror realmente viscerais. Ao explorar temas como a fé, o destino e o eterno conflito entre o bem e o mal, utilizando a história de Katherine como uma lente para examinar questões mais amplas, "A Primeira Profecia" se escora no original, prestando a reverência necessária, mas sem se tornar obrigatório qualquer conhecimento prévio.
Arkasha Stevenson, em sua estreia como diretora de longa-metragem, demonstra uma habilidade notável para criar essa atmosfera de crescente tensão e desconforto. A diretora utiliza uma abordagem visual estilizada, com uma paleta de cores sombria e uma cinematografia que enfatiza a claustrofobia e o isolamento. A direção de fotografia do Aaron Morton (de "A Morte do Demônio") é particularmente eficaz, utilizando luz e sombras para sugerir a presença de forças invisíveis e ameaçadoras. Aqui cabe um comentário: repare como o uso dos cenários e a atenção aos pequenos detalhes ajudam a construir uma sensação constante de inquietação - quando Margaret está trancada no quarto, por exemplo, a porta está cheia de marcas de unhas em um claro sinal de desespero. Nesse sentido,Nell Tiger Free merece elogios - no tom certo, ela é capaz de transmitir de forma eficaz toda a transformação de sua personagem, desde a incredulidade inicial até o reconhecimento inevitável do horror que a cerca. Sua performance é fundamentada em uma autenticidade emocional que ancora o filme, tornando Katherine uma protagonista cheia de camadas.
"A Primeira Profecia" não está isenta de críticas - o ritmo do filme pode soar deliberadamente lento para alguns, no entanto, o que mais incomoda é a previsibilidade do roteiro. Penso que faltou um pouco de sensibilidade ou talvez até um certo grau de experiência para Stevenson controlar melhor nossas expectativas. Mas isso impacta na nossa experiência? Não muito, desde que você embarque na proposta da diretora - especialmente se você conhece o filme original. Em suma, "A Primeira Profecia" é uma adição digna ao universo de "A Profecia", uma exploração rica das origens do mal que assombrou e conduziu a franquia durante anos. Tenho certeza que para os fãs do suspense, aqueles que gostam de tomar alguns sustos mesmo e de se sentir provocados visualmente, "A Primeira Profecia" vai valer muito o play!
Se você não for magro, Deus não te aceitará! Sim, eu sei que pode parecer um absurdo essa afirmação, mas é a partir dessa premissa surreal que a história da líder religiosaGwen Shamblin é contada nessa minissérie de 5 episódios da HBO - e já te adianto: o que pode parecer um absurdo para você (e para mim), certamente faz muito sentido para milhares de pessoas e é justamente por isso que "A Queda: Deus, Avareza e o Culto de Gwen Shamblin" será uma das coisas mais surpreendentes que você vai assistir na vida.
Abrangendo anos de investigação e extensas entrevistas com ex-membros e outras pessoas afetadas pela Remnant Fellowship Churchou por um programa de emagrecimento religioso chamado Weigh Down, essa minissérie documental explora o legado da controversa guru e líder religiosa Gwen Shamblin, cuja vida teve um fim abrupto após a queda de seu avião em maio de 2021. Confira o trailer:
Muito bem conduzida pela mesma diretora do premiado "Polanski: Procurado e Desejado", Marina Zenovich, "A Queda" se apoia, basicamente, na figura tão particular de Gwen Shamblin, e do seu entorno (principalmente seu marido Joe Lara), para construir uma linha narrativa extremamente equilibrada e fluida que mistura assuntos que vão da religião ao sucesso profissional - e aqui é fácil analisar a estratégia de Shamblin e como a junção dos fatos que moldaram a sua vida faz, de fato, todo sentido no resultado final de sua jornada empreendedora, pois ela foi capaz que encontrar e trabalhar a vulnerabilidade de milhares de pessoas que buscavam uma certa paz no "corpo" e na "alma" sem dissociar as duas "dores"; tudo isso, claro, em uma região dos EUA marcada pelo fervor religioso.
"The Way Down: God, Greed and the Cult of Gwen Shamblin" (no original), inicialmente, teria apenas três episódios, porém em 29 de maio de 2021, depois que Zenovich já havia finalizado as filmagens, com todas as entrevistas captadas, e estava dando os toques finais para o lançamento da minissérie, Gwen Shamblin morreu tragicamente em uma queda de avião, no qual também faleceram seu marido e alguns outros líderes da congregação. Enquanto no primeiro momento os entrevistados ficaram preocupados com a repercussão de seus depoimentos, depois do acidente outras pessoas mudaram de ideia, decidiram participar do documentário e assim expor suas histórias, com isso a HBO reeditou o projeto, acrescentou mais uma hora e meia de conteúdo, dividido em dois episódios, e acabou entregando uma obra tão completa quando complexa - um verdadeiro estudo sobre os princípios "malucos" da Remnant Fellowship Church!
Revoltante em muitos aspectos (como as ações físicas que os líderes pregavam ser o melhor caminho para a educação das crianças) e emocionante em tantos outros (como a jornada solitária de Natasha Pavlovich contra Joe Lara pela guarda de sua filha), "A Queda: Deus, Avareza e o Culto de Gwen Shamblin" é mais um retrato da insanidade como condição humana que se apoia na fé para justificar uma série de barbaridades ao mesmo tempo em que o bolso de seus líderes vão ficando cada vez mais cheio.
Se prepare, não será uma jornada fácil e cuidado, pois os impactos que as histórias provocam não são nada confortáveis. Dito isso, como obra audiovisual e importância narrativa, vale muito o seu play!
PS: Recentemente a HBO Max anunciou que Sarah Paulson (de "American Horror Story") foi escalada para estrelar a versão roteirizada de "A Queda" - ela será Gwen Shamblin.
Se você não for magro, Deus não te aceitará! Sim, eu sei que pode parecer um absurdo essa afirmação, mas é a partir dessa premissa surreal que a história da líder religiosaGwen Shamblin é contada nessa minissérie de 5 episódios da HBO - e já te adianto: o que pode parecer um absurdo para você (e para mim), certamente faz muito sentido para milhares de pessoas e é justamente por isso que "A Queda: Deus, Avareza e o Culto de Gwen Shamblin" será uma das coisas mais surpreendentes que você vai assistir na vida.
Abrangendo anos de investigação e extensas entrevistas com ex-membros e outras pessoas afetadas pela Remnant Fellowship Churchou por um programa de emagrecimento religioso chamado Weigh Down, essa minissérie documental explora o legado da controversa guru e líder religiosa Gwen Shamblin, cuja vida teve um fim abrupto após a queda de seu avião em maio de 2021. Confira o trailer:
Muito bem conduzida pela mesma diretora do premiado "Polanski: Procurado e Desejado", Marina Zenovich, "A Queda" se apoia, basicamente, na figura tão particular de Gwen Shamblin, e do seu entorno (principalmente seu marido Joe Lara), para construir uma linha narrativa extremamente equilibrada e fluida que mistura assuntos que vão da religião ao sucesso profissional - e aqui é fácil analisar a estratégia de Shamblin e como a junção dos fatos que moldaram a sua vida faz, de fato, todo sentido no resultado final de sua jornada empreendedora, pois ela foi capaz que encontrar e trabalhar a vulnerabilidade de milhares de pessoas que buscavam uma certa paz no "corpo" e na "alma" sem dissociar as duas "dores"; tudo isso, claro, em uma região dos EUA marcada pelo fervor religioso.
"The Way Down: God, Greed and the Cult of Gwen Shamblin" (no original), inicialmente, teria apenas três episódios, porém em 29 de maio de 2021, depois que Zenovich já havia finalizado as filmagens, com todas as entrevistas captadas, e estava dando os toques finais para o lançamento da minissérie, Gwen Shamblin morreu tragicamente em uma queda de avião, no qual também faleceram seu marido e alguns outros líderes da congregação. Enquanto no primeiro momento os entrevistados ficaram preocupados com a repercussão de seus depoimentos, depois do acidente outras pessoas mudaram de ideia, decidiram participar do documentário e assim expor suas histórias, com isso a HBO reeditou o projeto, acrescentou mais uma hora e meia de conteúdo, dividido em dois episódios, e acabou entregando uma obra tão completa quando complexa - um verdadeiro estudo sobre os princípios "malucos" da Remnant Fellowship Church!
Revoltante em muitos aspectos (como as ações físicas que os líderes pregavam ser o melhor caminho para a educação das crianças) e emocionante em tantos outros (como a jornada solitária de Natasha Pavlovich contra Joe Lara pela guarda de sua filha), "A Queda: Deus, Avareza e o Culto de Gwen Shamblin" é mais um retrato da insanidade como condição humana que se apoia na fé para justificar uma série de barbaridades ao mesmo tempo em que o bolso de seus líderes vão ficando cada vez mais cheio.
Se prepare, não será uma jornada fácil e cuidado, pois os impactos que as histórias provocam não são nada confortáveis. Dito isso, como obra audiovisual e importância narrativa, vale muito o seu play!
PS: Recentemente a HBO Max anunciou que Sarah Paulson (de "American Horror Story") foi escalada para estrelar a versão roteirizada de "A Queda" - ela será Gwen Shamblin.
Que filme bacana - sensível e complexo ao mesmo tempo! Na verdade, "A Verdadeira Dor" é muito interessante por ter na sua essência uma mistura de referências de obras bem estruturadas narrativamente como "Sideways" e "Era uma vez um sonho". Esse segundo longa-metragem dirigido e roteirizado por Jesse Eisenberg (o primeiro foi "Quando Você Terminar de Salvar o Mundo"), é uma experiência cinematográfica que aposta nas nuances emocionais e nas dificuldades das relações familiares, entregando uma história marcada por sutilezas e desconfortos que realmente vai te provocar - tanto pelo lado da empatia quanto pelo da reflexão.
Com uma narrativa estruturada em torno da viagem dos primos David (Eisenberg) e Benji (Kieran Culkin) à Polônia, para homenagear a avó recém-falecida, o filme gradualmente transforma o que deveria ser um momento solene em uma profunda jornada emocional. A trama revela, aos poucos, questões mal resolvidas e ressentimentos acumulados ao longo dos anos entre os protagonistas, usando o peso histórico do Holocausto como pano de fundo para ampliar ainda mais a carga dramática e simbólica das situações vividas por eles. Confira o trailer:
Para começar é preciso elogiar a direção de Eisenberg - ela é madura e muito segura. Eisenberg conduz a história com paciência e atenção aos detalhes, sempre no tom certo e nunca se apegando em atalhos que possam, de alguma forma, nos manipular emocionalmente - e olha que o pano de fundo é bem trágico. Aqui é importante mencionar que o filme, em muitos aspectos, ecoa uma estrutura semelhante a outras obras sobre viagens familiares mais introspectivas, onde personagens buscam autoconhecimento em terras estrangeiras. Ao optar por um realismo cru, quase documental, Eisenberg elimina qualquer elemento cômico fácil ou carismático em favor de uma exploração inteligente do desconforto emocional e embora essa abordagem corajosa possa afastar parte da audiência que busca um entretenimento mais leve, é justamente ela que oferece uma experiência única, sensorial eu diria, além de sincera e desafiadora para quem deseja mergulhar nas entranhas das relações humanas.
Em termos de atuação,"A Verdadeira Dor"apresenta performances fortes, especialmente de Kieran Culkin - vencedor do Oscar pelo personagem. Seu Benji é construído como um indivíduo provocativo, sarcástico e emocionalmente instável - um prato cheio para Culkin brilhar como alguém que desafia as convenções sociais sem medo de soar inconveniente. Repare como ele se torna facilmente memorável ao se destacar em meio a personagens secundários deliberadamente discretos e pouco carismáticos, propositalmente apagados pelo diretor. Eisenberg, que por outro lado, adota uma abordagem mais contida e racional para o seu David, cria um contraponto eficiente e necessário à energia explosiva do primo, permitindo que a audiência observe claramente as diferenças monstruosas entre ambos. Um detalhe visual particularmente eficaz para explicar essa relação é a escolha cromática dos figurinos dos protagonistas, que mudam sutilmente ao longo da narrativa, sugerindo uma troca simbólica de perspectivas ou uma influência mútua entre eles. Esse pequeno, porém relevante detalhe de composição visual, é um exemplo de como Eisenberg, como diretor, trabalha suas cenas com atenção aos menores elementos, enriquecendo a jornada de quem assiste.
A fotografia de Benjamin Loeb (de "Pieces of a Woman") destaca as raras cenas noturnas exibindo um rico jogo de cores saturadas e composições que simbolizam um verdadeiro labirinto psicológico que transita entre a solidão e a inveja - cada personagem, aliás, com seus respectivos gatilhos. É lindo de ver e de sentir, especialmente quando, quebrando nossas expectativas, a narrativa nos traz para as sequências diurnas bruscamente, apostando em uma abordagem naturalista e lindamente emoldurada com as belíssimas locações na Polônia - que enfatiza o vazio e a banalidade dos conflitos cotidianos durante uma viagem escapista. Outro aspecto interessante do filme é a utilização da música de Chopin como elemento dramático para estabelecer um toque de melancolia que dialoga diretamente com o estado emocional dos personagens - é impressionante como a trilha sonora cumpre seu papel de oferecer uma base lírica que amplifica o impacto das cenas.
A recompensa perante um filme basicamente pautado pelo silêncio entre os diálogos, está na imersão proporcionada pelo conceito narrativo de Eisenberg. Como em "Encontros e Desencontros", por exemplo, sua direção nos oferece espaço suficiente para que possamos absorver e refletir sobre temas como luto e pertencimento, e que, o invés de entregar respostas fáceis ou conclusões claras, ainda possamos buscar nas questões abertas e nas provocações emocionais do roteiro, uma reposta íntima sobre como enxergamos a vida e como algumas prioridades banais precisam ser revistas.
"A Verdadeira Dor" vale muito o seu play!
Que filme bacana - sensível e complexo ao mesmo tempo! Na verdade, "A Verdadeira Dor" é muito interessante por ter na sua essência uma mistura de referências de obras bem estruturadas narrativamente como "Sideways" e "Era uma vez um sonho". Esse segundo longa-metragem dirigido e roteirizado por Jesse Eisenberg (o primeiro foi "Quando Você Terminar de Salvar o Mundo"), é uma experiência cinematográfica que aposta nas nuances emocionais e nas dificuldades das relações familiares, entregando uma história marcada por sutilezas e desconfortos que realmente vai te provocar - tanto pelo lado da empatia quanto pelo da reflexão.
Com uma narrativa estruturada em torno da viagem dos primos David (Eisenberg) e Benji (Kieran Culkin) à Polônia, para homenagear a avó recém-falecida, o filme gradualmente transforma o que deveria ser um momento solene em uma profunda jornada emocional. A trama revela, aos poucos, questões mal resolvidas e ressentimentos acumulados ao longo dos anos entre os protagonistas, usando o peso histórico do Holocausto como pano de fundo para ampliar ainda mais a carga dramática e simbólica das situações vividas por eles. Confira o trailer:
Para começar é preciso elogiar a direção de Eisenberg - ela é madura e muito segura. Eisenberg conduz a história com paciência e atenção aos detalhes, sempre no tom certo e nunca se apegando em atalhos que possam, de alguma forma, nos manipular emocionalmente - e olha que o pano de fundo é bem trágico. Aqui é importante mencionar que o filme, em muitos aspectos, ecoa uma estrutura semelhante a outras obras sobre viagens familiares mais introspectivas, onde personagens buscam autoconhecimento em terras estrangeiras. Ao optar por um realismo cru, quase documental, Eisenberg elimina qualquer elemento cômico fácil ou carismático em favor de uma exploração inteligente do desconforto emocional e embora essa abordagem corajosa possa afastar parte da audiência que busca um entretenimento mais leve, é justamente ela que oferece uma experiência única, sensorial eu diria, além de sincera e desafiadora para quem deseja mergulhar nas entranhas das relações humanas.
Em termos de atuação,"A Verdadeira Dor"apresenta performances fortes, especialmente de Kieran Culkin - vencedor do Oscar pelo personagem. Seu Benji é construído como um indivíduo provocativo, sarcástico e emocionalmente instável - um prato cheio para Culkin brilhar como alguém que desafia as convenções sociais sem medo de soar inconveniente. Repare como ele se torna facilmente memorável ao se destacar em meio a personagens secundários deliberadamente discretos e pouco carismáticos, propositalmente apagados pelo diretor. Eisenberg, que por outro lado, adota uma abordagem mais contida e racional para o seu David, cria um contraponto eficiente e necessário à energia explosiva do primo, permitindo que a audiência observe claramente as diferenças monstruosas entre ambos. Um detalhe visual particularmente eficaz para explicar essa relação é a escolha cromática dos figurinos dos protagonistas, que mudam sutilmente ao longo da narrativa, sugerindo uma troca simbólica de perspectivas ou uma influência mútua entre eles. Esse pequeno, porém relevante detalhe de composição visual, é um exemplo de como Eisenberg, como diretor, trabalha suas cenas com atenção aos menores elementos, enriquecendo a jornada de quem assiste.
A fotografia de Benjamin Loeb (de "Pieces of a Woman") destaca as raras cenas noturnas exibindo um rico jogo de cores saturadas e composições que simbolizam um verdadeiro labirinto psicológico que transita entre a solidão e a inveja - cada personagem, aliás, com seus respectivos gatilhos. É lindo de ver e de sentir, especialmente quando, quebrando nossas expectativas, a narrativa nos traz para as sequências diurnas bruscamente, apostando em uma abordagem naturalista e lindamente emoldurada com as belíssimas locações na Polônia - que enfatiza o vazio e a banalidade dos conflitos cotidianos durante uma viagem escapista. Outro aspecto interessante do filme é a utilização da música de Chopin como elemento dramático para estabelecer um toque de melancolia que dialoga diretamente com o estado emocional dos personagens - é impressionante como a trilha sonora cumpre seu papel de oferecer uma base lírica que amplifica o impacto das cenas.
A recompensa perante um filme basicamente pautado pelo silêncio entre os diálogos, está na imersão proporcionada pelo conceito narrativo de Eisenberg. Como em "Encontros e Desencontros", por exemplo, sua direção nos oferece espaço suficiente para que possamos absorver e refletir sobre temas como luto e pertencimento, e que, o invés de entregar respostas fáceis ou conclusões claras, ainda possamos buscar nas questões abertas e nas provocações emocionais do roteiro, uma reposta íntima sobre como enxergamos a vida e como algumas prioridades banais precisam ser revistas.
"A Verdadeira Dor" vale muito o seu play!
"Alias Grace" é uma minissérie do Netflix que conta a história de uma empregada doméstica (Sarah Gadon), imigrante da Irland, ,que foi condenada à prisão perpétua após ser acusada de ter planejado a morte de seu patrão Thomas Kinnear (Paul Gross) e de sua superior na casa em que trabalhava. Grace afirma não ter lembrança do assassinato, mas os fatos são irrefutáveis. Uma década depois, o Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft) tenta ajudar Grace a recordar seu passado e finalmente esclarecer o crime. O bacana (e surpreendente) é que a história foi inspirada em um caso real que aconteceu no século XIX. Confira o trailer:
Tecnicamente a série é impecável. A direção de Arte é muito detalhista e junto com uma Fotografia precisa (principalmente nos movimentos de câmera em primeira pessoa) dita um tom muito interessante para série e sem ser piegas.
Já aviso: não é uma série fácil. Ela parece lenta, um pouco arrastada com tantas narrações em Off, mas o roteiro é cheio de detalhes e muito (mas muito) bem construído. São seis episódios de uma história sem muitas reviravoltas, mas que surpreende pela coerência dos fatos sem a pretenção de esconder seu arco principal - que instiga pelas inúmeras possibilidades (ou razões) conforme vai se aproximando do final. Vale muito a pena pela produção, pela atuação da Sarah Gadon (olho nela) e pelo roteiro excelente!!!
Vale muito a pena!
PS: A história é baseada no romance da Margaret Atwood, a mesma da premiada "The Handmaid’s Tale
"Alias Grace" é uma minissérie do Netflix que conta a história de uma empregada doméstica (Sarah Gadon), imigrante da Irland, ,que foi condenada à prisão perpétua após ser acusada de ter planejado a morte de seu patrão Thomas Kinnear (Paul Gross) e de sua superior na casa em que trabalhava. Grace afirma não ter lembrança do assassinato, mas os fatos são irrefutáveis. Uma década depois, o Dr. Simon Jordan (Edward Holcroft) tenta ajudar Grace a recordar seu passado e finalmente esclarecer o crime. O bacana (e surpreendente) é que a história foi inspirada em um caso real que aconteceu no século XIX. Confira o trailer:
Tecnicamente a série é impecável. A direção de Arte é muito detalhista e junto com uma Fotografia precisa (principalmente nos movimentos de câmera em primeira pessoa) dita um tom muito interessante para série e sem ser piegas.
Já aviso: não é uma série fácil. Ela parece lenta, um pouco arrastada com tantas narrações em Off, mas o roteiro é cheio de detalhes e muito (mas muito) bem construído. São seis episódios de uma história sem muitas reviravoltas, mas que surpreende pela coerência dos fatos sem a pretenção de esconder seu arco principal - que instiga pelas inúmeras possibilidades (ou razões) conforme vai se aproximando do final. Vale muito a pena pela produção, pela atuação da Sarah Gadon (olho nela) e pelo roteiro excelente!!!
Vale muito a pena!
PS: A história é baseada no romance da Margaret Atwood, a mesma da premiada "The Handmaid’s Tale
Certamente "Batem à Porta" não tem a profundidade de "Mãe!", da mesma forma que M. Night Shyamalan não tem a genialidade de Darren Aronofsky. No entanto, é muito provável que se você gostou de um dos filmes, você também gostará do outro - e o inverso será verdadeiro. Veja, é inegável a força da identidade de um diretor como Shyamalan, seu nome virou sinônimo de reviravoltas narrativas e atmosferas de suspense carregadas de tensão psicológica - ele, de fato, domina essa gramática como poucos e seus filmes sempre vão dividir opiniões. Em "Batem à Porta", adaptação do livro "The Cabin at the End of the World" de Paul Tremblay, isso não será diferente já que o cineasta, mais uma vez, se apropria de uma premissa inquietante para construir um thriller verdadeiramente claustrofóbico, que sabe explorar dilemas morais, elementos de fanatismo e, principalmente, sabe construir a sensação de medo perante o desconhecido, mas evita a ação gratuita - apenas para citar sua cinematografia, é como se Shyamalan revisitasse "Sinais" e "Fim dos Tempos" para se inspirar e buscar o equilíbrio em pró do entretenimento. O resultado, é preciso que se diga, não é (e nem será) inesquecível, mas merece demais a sua atenção pela forma cheia de simbolismos como a narrativa cria um conflito que transita entre uma ameaça que pode estar tanto do mundo exterior quanto do íntimo dos personagens - o que desafia nossa percepção ao mesmo tempo que provoca muita reflexão.
A trama de "Knock at the Cabin", no original, acompanha o casal Eric (Jonathan Groff) e Andrew (Ben Aldridge), que viajam com a filha adotiva, Wen (Kristen Cui), para uma cabana isolada no meio da floresta. A tranquilidade da viagem é abruptamente interrompida quando quatro estranhos invadem o local e os fazem reféns. O líder do grupo, Leonard (Dave Bautista), afirma que a família precisa tomar uma decisão impensável: sacrificar um de seus membros para evitar um possível apocalipse. Confira o trailer e sinta o clima:
O maior mérito de "Batem à Porta" é, à medida que a tensão cresce, como o filme brinca com nossa percepção - especialmente ao manter a dúvida sobre a veracidade da profecia ou se tudo não passa de uma ilusão coletiva alimentada pelo extremismo religioso dos invasores. Justamente por isso, Shyamalan adota um ritmo mais contido durante a narrativa, evitando o espetáculo e apostando muito mais em uma abordagem intimista e opressiva do que no impacto visual - esse é um dos pontos que pode, mas não deveria, decepcionar parta da audiência. A fotografia do genial Jarin Blaschke (de "O Farol" e "Nosferatu" ) cumpre seu papel ao reforçar essa sensação de angústia por usar e abusar de planos fechados e de um jogo de luz e sombra que intensifica o suspense da história. O uso de close-ups extremos contribui para uma atmosfera sufocante, colocando a audiência no centro do desespero dos personagens - especialmente quando Shyamalan sugere mais do que mostra. Repare como a ausência de grandes sequências de ação mantém o foco na psicologia dos envolvidos, transformando "Batem à Porta" em um exercício de tensão contínua dos mais bem sucedidos.
Dave Bautista entrega uma performance surpreendente, fugindo dos papéis caricatos que se acostumou para aqui interpretar um personagem complexo, que equilibra uma certa doçura com lapsos de ameaça - tudo a partir de nuances impressionantes. Jonathan Groff e Ben Aldridge também se destacam, transmitindo com intensidade o desespero e o ceticismo de seus personagens, enquanto a jovem Kristen Cui, em sua estreia no cinema, adiciona um componente emocional essencial, representando a inocência e o amor incondicional diante do caos. Seguindo essa linha de raciocínio, aliás, minha única critica ao filme diz respeito ao desenvolvimento de alguns dos personagens coadjuvantes - suas histórias poderiam ser mais interessantes, impactantes até, se a lógica de conexão de Redmond (Rupert Grint) com os protagonistas fosse a mesma entre todos (vocês vão entender assim que os créditos subirem).
Pois bem, embora a premissa de "Batem à Porta" seja intrigante e o suspense funcione na maior parte do tempo, Shyamalan opta por uma resolução mais clara e direta do que no livro de Paul Tremblay - que mantém uma ambiguidade mais marcante. Isso pode frustrar aqueles que esperam um encerramento mais enigmático, porém a decisão do diretor de suavizar alguns elementos da obra original, que naturalmente dilui parte do impacto emocional e filosófico da história, deixa a experiência mais próxima do entretenimento do que daquele peso perturbador de assistir "Mãe!", por exemplo.
Saiba que o filme é eficiente ao explorar questões sobre fé, sacrifício e sobre o poder das crenças diante do absurdo, dito isso, não tenho a menor dúvida que "Batem à Porta" foi subestimado, mas que muitos vão se envolver e se empatizar com o drama de daquela família diante de uma decisão que pode mudar os rumos da humanidade. Vale seu play!
Certamente "Batem à Porta" não tem a profundidade de "Mãe!", da mesma forma que M. Night Shyamalan não tem a genialidade de Darren Aronofsky. No entanto, é muito provável que se você gostou de um dos filmes, você também gostará do outro - e o inverso será verdadeiro. Veja, é inegável a força da identidade de um diretor como Shyamalan, seu nome virou sinônimo de reviravoltas narrativas e atmosferas de suspense carregadas de tensão psicológica - ele, de fato, domina essa gramática como poucos e seus filmes sempre vão dividir opiniões. Em "Batem à Porta", adaptação do livro "The Cabin at the End of the World" de Paul Tremblay, isso não será diferente já que o cineasta, mais uma vez, se apropria de uma premissa inquietante para construir um thriller verdadeiramente claustrofóbico, que sabe explorar dilemas morais, elementos de fanatismo e, principalmente, sabe construir a sensação de medo perante o desconhecido, mas evita a ação gratuita - apenas para citar sua cinematografia, é como se Shyamalan revisitasse "Sinais" e "Fim dos Tempos" para se inspirar e buscar o equilíbrio em pró do entretenimento. O resultado, é preciso que se diga, não é (e nem será) inesquecível, mas merece demais a sua atenção pela forma cheia de simbolismos como a narrativa cria um conflito que transita entre uma ameaça que pode estar tanto do mundo exterior quanto do íntimo dos personagens - o que desafia nossa percepção ao mesmo tempo que provoca muita reflexão.
A trama de "Knock at the Cabin", no original, acompanha o casal Eric (Jonathan Groff) e Andrew (Ben Aldridge), que viajam com a filha adotiva, Wen (Kristen Cui), para uma cabana isolada no meio da floresta. A tranquilidade da viagem é abruptamente interrompida quando quatro estranhos invadem o local e os fazem reféns. O líder do grupo, Leonard (Dave Bautista), afirma que a família precisa tomar uma decisão impensável: sacrificar um de seus membros para evitar um possível apocalipse. Confira o trailer e sinta o clima:
O maior mérito de "Batem à Porta" é, à medida que a tensão cresce, como o filme brinca com nossa percepção - especialmente ao manter a dúvida sobre a veracidade da profecia ou se tudo não passa de uma ilusão coletiva alimentada pelo extremismo religioso dos invasores. Justamente por isso, Shyamalan adota um ritmo mais contido durante a narrativa, evitando o espetáculo e apostando muito mais em uma abordagem intimista e opressiva do que no impacto visual - esse é um dos pontos que pode, mas não deveria, decepcionar parta da audiência. A fotografia do genial Jarin Blaschke (de "O Farol" e "Nosferatu" ) cumpre seu papel ao reforçar essa sensação de angústia por usar e abusar de planos fechados e de um jogo de luz e sombra que intensifica o suspense da história. O uso de close-ups extremos contribui para uma atmosfera sufocante, colocando a audiência no centro do desespero dos personagens - especialmente quando Shyamalan sugere mais do que mostra. Repare como a ausência de grandes sequências de ação mantém o foco na psicologia dos envolvidos, transformando "Batem à Porta" em um exercício de tensão contínua dos mais bem sucedidos.
Dave Bautista entrega uma performance surpreendente, fugindo dos papéis caricatos que se acostumou para aqui interpretar um personagem complexo, que equilibra uma certa doçura com lapsos de ameaça - tudo a partir de nuances impressionantes. Jonathan Groff e Ben Aldridge também se destacam, transmitindo com intensidade o desespero e o ceticismo de seus personagens, enquanto a jovem Kristen Cui, em sua estreia no cinema, adiciona um componente emocional essencial, representando a inocência e o amor incondicional diante do caos. Seguindo essa linha de raciocínio, aliás, minha única critica ao filme diz respeito ao desenvolvimento de alguns dos personagens coadjuvantes - suas histórias poderiam ser mais interessantes, impactantes até, se a lógica de conexão de Redmond (Rupert Grint) com os protagonistas fosse a mesma entre todos (vocês vão entender assim que os créditos subirem).
Pois bem, embora a premissa de "Batem à Porta" seja intrigante e o suspense funcione na maior parte do tempo, Shyamalan opta por uma resolução mais clara e direta do que no livro de Paul Tremblay - que mantém uma ambiguidade mais marcante. Isso pode frustrar aqueles que esperam um encerramento mais enigmático, porém a decisão do diretor de suavizar alguns elementos da obra original, que naturalmente dilui parte do impacto emocional e filosófico da história, deixa a experiência mais próxima do entretenimento do que daquele peso perturbador de assistir "Mãe!", por exemplo.
Saiba que o filme é eficiente ao explorar questões sobre fé, sacrifício e sobre o poder das crenças diante do absurdo, dito isso, não tenho a menor dúvida que "Batem à Porta" foi subestimado, mas que muitos vão se envolver e se empatizar com o drama de daquela família diante de uma decisão que pode mudar os rumos da humanidade. Vale seu play!
Antes de mais nada é preciso dizer que "Califado" é surpreendente e muito em breve deve cair no gosto de muitos assinantes da Netflix. Essa série sueca de 8 episódios é muito original, se não pelo tema, pela forma como retrata o terrorismo ao nos colocar dentro do extremismo devastador do Estado Islâmico!
"Califado" acompanha três personagens-chaves, não por acaso, mulheres: Pervin (Gizem Erdogan) é uma sueca que mora na Síria e que vive o terror de viver com o marido Husam (Amed Bozan), jihadista do Estado Islâmico. Já Fatima (Aliette Opheim) é uma policial sueca que faz parte de um departamento que monitora atividades do Oriente Médio, muitas delas terroristas. E por fim, Sulle (Nora Rios), uma adolescente de 15 anos, adepta da religião muçulmana, que acredita que o governo sueco é contra sua crença e que a luta extremista do E.I. é 100% legítima! Embora as três histórias pareçam completamente distintas, elas começam a se interligar (e esse é um dos pontos altos da série) quando surge a suspeita que um possível ataque terrorista está sendo orquestrado a partir da Síria e que o alvo é a Suécia. Confira o trailer (dublado):
O maior mérito da série é o nível de tensão que ela vai criando - quase como uma bola de neve, eu diria. O roteiro é muito feliz ao construir uma complexa rede entre os personagens e fatos isolados que parecem sem conexão, nos provocando a não acreditar em tudo que assistimos - mais ou menos como "Homeland" fez em suas primeiras temporadas, porém com o agravante de nos mostrar um universo pouco confortável, cheio de dogmas e costumes difíceis de digerir (um sentimento muito próximo da experiência de assistir "Nada Ortodoxa")! Olha, "Califado" é uma série excelente, mas é pesada, tem cenas fortes e mexe com um assunto que mesmo parecendo muito distante, nos soa muito familiar!
O fanatismo e a irracionalidade são elementos narrativos certeiros para séries desse gênero e "Califado" bebe muito na mesma fonte de referências que vai de "24 horas" à, já citada,"Homeland". Justamente por isso, essa produção sueca se apoia em um nível de qualidade de produção excelente e na tradição nórdica de séries de investigação para entregar um drama focado nos personagens e não no terrorismo em si! A própria trama da personagem que investiga a denúncia do possível ataque e que supostamente seria a protagonista (Fatima), não tem a força dramática que as histórias de Sulle (e de sua família) e, principalmente, de Pervin - que, na minha opinião, rouba essa primeira temporada pra ela! Pervin vive em um ambiente claustrofóbico, onde o nível de tensão e o medo da morte é absurdo. O reflexo da sua jornada nos atinge a cada episódio e, por incrível que pareça, nos distancia de quem deveria ser a heroína - criando até uma certa antipatia por ela. Já Sulle funciona como ponto de reflexão, empatia e identificação para quem se coloca no lugar de seus pais - aqui a discussão ganha profundidade e, te garanto, é difícil encontrar as respostas!
O diretor Goran Kapetanovic é muito criativo na sua forma de contar a história - com uma câmera mais solta, nervosa até, temos a real impressão de sempre estarmos seguindo algum personagem e é incrível como o sentimento de insegurança e angústia toma conta de nós quando os perdemos de vista, mesmo com a câmera ainda se movimentando, meio perdida, até que nos encontramos com eles novamente - e quando isso acontece não gostamos muito do que vemos! Outro ponto que vale reparar é como Kapetanovic escolhe o que vai mostrar e mesmo quando ele só sugere, já sentimos exatamente a tensão que a cena pede - e isso acontece muito, reparem! A fotografia do diretor Jonas Alarik segue muito a escola nórdica de enquadramento, porém sem aquele look gélido, azulado, frio, e sim trazendo o marrom, o calor, cheio de contrastes de Raqqa, na Síria, intercalando planos extremamente fechados com panorâmicas belíssimas. As cenas em Estocolmo seguem a mesma lógica, sempre com a preocupação de mostrar o que é real, sem maquiagem - e isso ajuda a contar a história de uma forma muito interessante. Me lembrou um filme alemão sensacional e que eu indico de olhos fechados, chamado "Em Pedaços".
"Califado" é uma ótima surpresa e um entretenimento de altíssima qualidade para quem gosta de séries de investigação, terrorismo e dramas pessoais. O roteiro nos prende do começo ao fim e, mesmo tendo um ou outro deslize, justifica a quantidade de elogios que a série vem recebendo da crítica. Agora é esperar o anuncio da segunda temporada!
Vale seu play sem o menor medo de errar!
Antes de mais nada é preciso dizer que "Califado" é surpreendente e muito em breve deve cair no gosto de muitos assinantes da Netflix. Essa série sueca de 8 episódios é muito original, se não pelo tema, pela forma como retrata o terrorismo ao nos colocar dentro do extremismo devastador do Estado Islâmico!
"Califado" acompanha três personagens-chaves, não por acaso, mulheres: Pervin (Gizem Erdogan) é uma sueca que mora na Síria e que vive o terror de viver com o marido Husam (Amed Bozan), jihadista do Estado Islâmico. Já Fatima (Aliette Opheim) é uma policial sueca que faz parte de um departamento que monitora atividades do Oriente Médio, muitas delas terroristas. E por fim, Sulle (Nora Rios), uma adolescente de 15 anos, adepta da religião muçulmana, que acredita que o governo sueco é contra sua crença e que a luta extremista do E.I. é 100% legítima! Embora as três histórias pareçam completamente distintas, elas começam a se interligar (e esse é um dos pontos altos da série) quando surge a suspeita que um possível ataque terrorista está sendo orquestrado a partir da Síria e que o alvo é a Suécia. Confira o trailer (dublado):
O maior mérito da série é o nível de tensão que ela vai criando - quase como uma bola de neve, eu diria. O roteiro é muito feliz ao construir uma complexa rede entre os personagens e fatos isolados que parecem sem conexão, nos provocando a não acreditar em tudo que assistimos - mais ou menos como "Homeland" fez em suas primeiras temporadas, porém com o agravante de nos mostrar um universo pouco confortável, cheio de dogmas e costumes difíceis de digerir (um sentimento muito próximo da experiência de assistir "Nada Ortodoxa")! Olha, "Califado" é uma série excelente, mas é pesada, tem cenas fortes e mexe com um assunto que mesmo parecendo muito distante, nos soa muito familiar!
O fanatismo e a irracionalidade são elementos narrativos certeiros para séries desse gênero e "Califado" bebe muito na mesma fonte de referências que vai de "24 horas" à, já citada,"Homeland". Justamente por isso, essa produção sueca se apoia em um nível de qualidade de produção excelente e na tradição nórdica de séries de investigação para entregar um drama focado nos personagens e não no terrorismo em si! A própria trama da personagem que investiga a denúncia do possível ataque e que supostamente seria a protagonista (Fatima), não tem a força dramática que as histórias de Sulle (e de sua família) e, principalmente, de Pervin - que, na minha opinião, rouba essa primeira temporada pra ela! Pervin vive em um ambiente claustrofóbico, onde o nível de tensão e o medo da morte é absurdo. O reflexo da sua jornada nos atinge a cada episódio e, por incrível que pareça, nos distancia de quem deveria ser a heroína - criando até uma certa antipatia por ela. Já Sulle funciona como ponto de reflexão, empatia e identificação para quem se coloca no lugar de seus pais - aqui a discussão ganha profundidade e, te garanto, é difícil encontrar as respostas!
O diretor Goran Kapetanovic é muito criativo na sua forma de contar a história - com uma câmera mais solta, nervosa até, temos a real impressão de sempre estarmos seguindo algum personagem e é incrível como o sentimento de insegurança e angústia toma conta de nós quando os perdemos de vista, mesmo com a câmera ainda se movimentando, meio perdida, até que nos encontramos com eles novamente - e quando isso acontece não gostamos muito do que vemos! Outro ponto que vale reparar é como Kapetanovic escolhe o que vai mostrar e mesmo quando ele só sugere, já sentimos exatamente a tensão que a cena pede - e isso acontece muito, reparem! A fotografia do diretor Jonas Alarik segue muito a escola nórdica de enquadramento, porém sem aquele look gélido, azulado, frio, e sim trazendo o marrom, o calor, cheio de contrastes de Raqqa, na Síria, intercalando planos extremamente fechados com panorâmicas belíssimas. As cenas em Estocolmo seguem a mesma lógica, sempre com a preocupação de mostrar o que é real, sem maquiagem - e isso ajuda a contar a história de uma forma muito interessante. Me lembrou um filme alemão sensacional e que eu indico de olhos fechados, chamado "Em Pedaços".
"Califado" é uma ótima surpresa e um entretenimento de altíssima qualidade para quem gosta de séries de investigação, terrorismo e dramas pessoais. O roteiro nos prende do começo ao fim e, mesmo tendo um ou outro deslize, justifica a quantidade de elogios que a série vem recebendo da crítica. Agora é esperar o anuncio da segunda temporada!
Vale seu play sem o menor medo de errar!
"Conclave" é um verdadeiro "House of Cards" do Vaticano - e isso é um baita elogio! Dirigido pelo talentoso Edward Berger (de "Nada de Novo no Front") e roteirizado por Peter Straughan (indicado ao Oscar pelo "O Espião Que Sabia Demais"), o filme adapta o romance de Robert Harris para um verdadeiro thriller político e religioso que mergulha nos segredos e conspirações de um dos processos mais misteriosos e influentes do mundo: a escolha de um novo Papa. O filme combina elementos de suspense psicológico, com um drama verdadeiramente humano e questionamentos éticos e morais que nos tiram do sério. É impressionante como a narrativa é capaz de revelar o impacto do poder perante a fé em contextos de grande tensão, onde o ego parece guiar não só as ações como também as palavras - por mais absurdas que sejam. Assim como o inesquecível "O Nome da Rosa", "Conclave" sabe muito bem equilibrar uma dinâmica intensa com reflexões profundas, oferecendo um retrato fascinante de um sistema fechado e impregnado de tradições milenares.
A trama é centrada no Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes), encarregado de supervisionar o conclave que será responsável por eleger o novo Papa após a morte súbita do pontífice. No entanto, à medida que os cardeais se reúnem na Capela Sistina, segredos pessoais, alianças políticas e revelações surpreendentes começam a emergir, colocando em risco não apenas a integridade do processo, mas também a estabilidade da Igreja Católica. Enquanto Lawrence tenta manter a ordem, ele é forçado a enfrentar suas próprias dúvidas de fé e moralidade, criando uma tensão permanente que se reflete em cada decisão do conclave. Confira o trailer:
Edward Berger, mais uma vez, imprime sua marca ao transformar o claustrofóbico ambiente do Vaticano em um palco de intrigas e reviravoltas. Sua direção é precisa ao utilizar planos muito bem pensados - dos abertos e com uma iluminação extremamente dramática para capturar a opulência e a austeridade daquele cenário, como dos fechados onde o silêncio ou os sussurros dos cardeais ao fundo criam uma atmosfera de constante atenção que contrasta com os momentos de introspecção e dúvida do protagonista em meio ao seu caos emocional. A abordagem de Berger, aliás, é cuidadosa nesse sentido, já que o diretor busca de todas as formas manter o equilíbrio entre o realismo e o simbolismo, sem nunca perder o foco nos personagens ou até de desrespeita-los. O roteiro de Peter Straughan adapta o romance de Robert Harris com precisão e inteligência, preservando a complexidade dos temas com diálogos incisivos e cheios de subtexto, refletindo as batalhas internas e externas dos cardeais enquanto navegam pela dicotomia do poder e da espiritualidade. A trama é hábil em revelar os segredos de cada um dos personagens gradualmente, mantendo o suspense enquanto aprofunda as questões delicadas que sustentam a história - porém, também é preciso que se diga, existe uma certa previsibilidade narrativa, mas que acaba quebrando nossa expectativa com outras revelações, de fato, surpreendentes.
Ralph Fiennes entrega a complexidade de um homem dividido entre sua devoção à Igreja e as verdades desconfortáveis que emergem durante o conclave. Sua performance transmite uma mistura de autoridade, vulnerabilidade e inquietação, tornando seu Cardeal Lawrence um protagonista fascinante e nitidamente humano. O elenco de coadjuvantes é outro golaço do filme - composto por intérpretes talentosos como Stanley Tucci, John Lithgow e Sergio Castellitto, ele traz credibilidade e nuances para personagens tão particulares e influentes que não se surpreenda se você desejar que "Conclave" seja uma minissérie.
Tecnicamente, não posso deixar de citar, "Conclave" é impecável. A fotografia do Stéphane Fontaine (de "Capitão Fantástico") é luxuosa, aproveitando o excepcional trabalho de Desenho de Produção que reconstrói a arquitetura e a arte do Vaticano para criar um ambiente visualmente deslumbrante, mas também carregado de opressão e ostentação. O uso das sombras e de uma iluminação recortada reflete a dualidade entre a santidade e a corrupção que permeia a narrativa, enquanto a trilha sonora e o desenho de som, evocativa ao extremo, adiciona um peso emocional aos momentos de maior tensão e introspecção - dignos de Oscar.
"Conclave", na sua essência, é um ótimo drama politico, mais elegante e introspectivo do que estamos acostumados, é verdade; que explora o poder, a fé e a moralidade em um dos contextos mais fascinantes da humanidade. Com uma direção refinada de Edward Berger, um roteiro inteligente de Peter Straughan e atuações marcantes lideradas por Ralph Fiennes, o filme é uma experiência cinematográfica rica, provocativa e marcante, que certamente vai dar muito o que falar no Oscar 2025!
Imperdível!
Up-date: "Conclave" ganhou na categoria Melhor Roteiro Adaptado no Oscar 2025!
"Conclave" é um verdadeiro "House of Cards" do Vaticano - e isso é um baita elogio! Dirigido pelo talentoso Edward Berger (de "Nada de Novo no Front") e roteirizado por Peter Straughan (indicado ao Oscar pelo "O Espião Que Sabia Demais"), o filme adapta o romance de Robert Harris para um verdadeiro thriller político e religioso que mergulha nos segredos e conspirações de um dos processos mais misteriosos e influentes do mundo: a escolha de um novo Papa. O filme combina elementos de suspense psicológico, com um drama verdadeiramente humano e questionamentos éticos e morais que nos tiram do sério. É impressionante como a narrativa é capaz de revelar o impacto do poder perante a fé em contextos de grande tensão, onde o ego parece guiar não só as ações como também as palavras - por mais absurdas que sejam. Assim como o inesquecível "O Nome da Rosa", "Conclave" sabe muito bem equilibrar uma dinâmica intensa com reflexões profundas, oferecendo um retrato fascinante de um sistema fechado e impregnado de tradições milenares.
A trama é centrada no Cardeal Lawrence (Ralph Fiennes), encarregado de supervisionar o conclave que será responsável por eleger o novo Papa após a morte súbita do pontífice. No entanto, à medida que os cardeais se reúnem na Capela Sistina, segredos pessoais, alianças políticas e revelações surpreendentes começam a emergir, colocando em risco não apenas a integridade do processo, mas também a estabilidade da Igreja Católica. Enquanto Lawrence tenta manter a ordem, ele é forçado a enfrentar suas próprias dúvidas de fé e moralidade, criando uma tensão permanente que se reflete em cada decisão do conclave. Confira o trailer:
Edward Berger, mais uma vez, imprime sua marca ao transformar o claustrofóbico ambiente do Vaticano em um palco de intrigas e reviravoltas. Sua direção é precisa ao utilizar planos muito bem pensados - dos abertos e com uma iluminação extremamente dramática para capturar a opulência e a austeridade daquele cenário, como dos fechados onde o silêncio ou os sussurros dos cardeais ao fundo criam uma atmosfera de constante atenção que contrasta com os momentos de introspecção e dúvida do protagonista em meio ao seu caos emocional. A abordagem de Berger, aliás, é cuidadosa nesse sentido, já que o diretor busca de todas as formas manter o equilíbrio entre o realismo e o simbolismo, sem nunca perder o foco nos personagens ou até de desrespeita-los. O roteiro de Peter Straughan adapta o romance de Robert Harris com precisão e inteligência, preservando a complexidade dos temas com diálogos incisivos e cheios de subtexto, refletindo as batalhas internas e externas dos cardeais enquanto navegam pela dicotomia do poder e da espiritualidade. A trama é hábil em revelar os segredos de cada um dos personagens gradualmente, mantendo o suspense enquanto aprofunda as questões delicadas que sustentam a história - porém, também é preciso que se diga, existe uma certa previsibilidade narrativa, mas que acaba quebrando nossa expectativa com outras revelações, de fato, surpreendentes.
Ralph Fiennes entrega a complexidade de um homem dividido entre sua devoção à Igreja e as verdades desconfortáveis que emergem durante o conclave. Sua performance transmite uma mistura de autoridade, vulnerabilidade e inquietação, tornando seu Cardeal Lawrence um protagonista fascinante e nitidamente humano. O elenco de coadjuvantes é outro golaço do filme - composto por intérpretes talentosos como Stanley Tucci, John Lithgow e Sergio Castellitto, ele traz credibilidade e nuances para personagens tão particulares e influentes que não se surpreenda se você desejar que "Conclave" seja uma minissérie.
Tecnicamente, não posso deixar de citar, "Conclave" é impecável. A fotografia do Stéphane Fontaine (de "Capitão Fantástico") é luxuosa, aproveitando o excepcional trabalho de Desenho de Produção que reconstrói a arquitetura e a arte do Vaticano para criar um ambiente visualmente deslumbrante, mas também carregado de opressão e ostentação. O uso das sombras e de uma iluminação recortada reflete a dualidade entre a santidade e a corrupção que permeia a narrativa, enquanto a trilha sonora e o desenho de som, evocativa ao extremo, adiciona um peso emocional aos momentos de maior tensão e introspecção - dignos de Oscar.
"Conclave", na sua essência, é um ótimo drama politico, mais elegante e introspectivo do que estamos acostumados, é verdade; que explora o poder, a fé e a moralidade em um dos contextos mais fascinantes da humanidade. Com uma direção refinada de Edward Berger, um roteiro inteligente de Peter Straughan e atuações marcantes lideradas por Ralph Fiennes, o filme é uma experiência cinematográfica rica, provocativa e marcante, que certamente vai dar muito o que falar no Oscar 2025!
Imperdível!
Up-date: "Conclave" ganhou na categoria Melhor Roteiro Adaptado no Oscar 2025!
Antes de mais nada é preciso dizer que "Dois Papas" é mais um grande filme que a Netflix lança esse ano e que, com a mais absoluta certeza, disputará algumas categorias no Oscar 2020! O filme de pouco mais de duas horas tem basicamente dois atores em cena - Jonathan Pryce (o High Sparrow de Game of Thrones) eAnthony Hopkins (que dispensa apresentações). O trabalho desses dois atores é uma coisa que merece ser estudada - eles estão perfeitos como Bento XVI e Francisco, respectivamente. Depois da morte do Papa João Paulo II e da escolha de Bento XVI, a Igreja Católica passa a sofrer com escândalos de pedofilia e corrupção, o que leva o Cardeal Jorge Bergoglio (Francisco) querer se aposentar, porém para que isso se concretize é necessário a assinatura com a aceitação do Papa. Acontece que Bento XVI possui uma maneira completamente diferente de enxergar os dogmas da igreja e Bergoglio foi um dos seus mais ferrenhos críticos. A declarada oposição de ideias entre os protagonistas, gera uma condição muito interessante (e que deveria ser replicada nesse mundo polarizado que vivemos): de uma forma muito orgânica, surge uma aproximação fraternal (e até espiritual) entre eles, a partir do "simples" exercício de ouvir o que o outro tem a dizer (e a pedir)! É interessante perceber a forma como o roteiro nos mostra os momentos de fraquezas, de dúvidas, de falhas e de receio durante a vida dos dois personagens e como isso, de alguma forma, influenciaria nas decisões que eles estavam prestes a tomar! Olha, nessa época de natal, eu diria que esse filme é imperdível! Assistam com toda a família porque vale muito a pena!
Acho que mais do que uma obra "baseada em fatos reais", o maior acerto do filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles é o estudo de personalidade que o roteirista Anthony McCarten (A Teoria de Tudo) nos apresenta. O filme acaba criando uma certa dependência nos dois protagonistas, mas ao mesmo tempo resgata o que há de mais humano no processo de auto-conhecimento e de reflexão que ambos precisam passar para se perdoarem e seguirem adiante. É lindo de assistir!
O roteiro equilibra tão bem assuntos espinhosos, pontos de vista diferentes e ideais completamente contraditórios, mas com respeito, inteligência e até humor - a cena durante os créditos dos dois papas (um argentino e outro alemão) assistindo a final da Copa de 2014 no Brasil é impagável! Meirelles foi muito feliz ao deixar os dois atores "soltos" para dialogarem e aproveitarem a organicidade que o texto sugeria. As pausas, os olhares, os tímidos sorrisos, o receito de ir além, o respeito mútuo, a humildade e o reconhecimento, nossa, tudo está lá e é tão perceptível e dinâmico que nem vemos o tempo passar - até nos momentos mais delicados quando o assunto fica realmente mais pesado, como a lembrança da ditadura argentina ou a discussão sobre pedofilia na igreja, o filme elabora tão bem as idéias e fica tão alinhado com as escolhas conceituais da direção do brasileiro e, claro do fotógrafo e parceiro, César Charlone, que impressiona! A troca da janela de exibição de 16:9 para a antiga 4:3, o preto e branco, a câmera mais nervosa e até a inserção de cenas reais, de noticiários e reportagens da época - tudo isso trás uma veracidade que mexe com a gente! Reparem em como o conceito visual ajuda a contar a história e transforma um simples artifício em uma experiência imersiva bastante intensa - é como se estivemos revivendo toda aquela dor junto com os personagens!
A trilha sonora é outro elemento que merece destaque - existe uma variação de ritmos e tons que vão pontuando a aproximação dos dois personagens de acordo com a liberdade que ambos vão conquistando - a cena do piano e dos dois dançando tango ao se despedirem, é isso: o elo de respeito que foi construído a partir do momento que ambos se permitiram conhecer outros olhares, outros gostos, outra forma de ver a vida. Puxa, são tantos detalhes, tanto cuidado que, para mim, é uma aula de cinema - mais uma vez, reparem na cena em que Francisco impede os seguranças de interferirem no passeio que Bento XVI faz em um dos salões no Vaticano em meio aos turistas, ele diz algo assim: deixe, ele esta feliz! É tão humana a relação que foi construída que muitas vezes nem nos damos conta que são dois atores conversando por quase duas horas de filme. Uma sugestão que pode enriquecer a experiência de acompanhar "Dois Papas" - assistam a minissérie italiana "Pode me chamar de Francisco", ela se aprofunda na história da ditadura e como realmente tudo aconteceu - essa parte pode ter parecido um pouco confusa ou superficial no filme, mas na minissérie fica tudo muito claro (e tem na Netflix).
"Dois Papas" é daqueles filmes que nos enchem de amor ao assistir, que quebra alguns pré-conceitos e que nos fazem acreditar que mesmo com nossa falhas (inerentes ao ser humano e isso é dito no filme) é possível enxergar o mundo de uma outra forma e trabalhar para sua constante evolução. Não se surpreendam se Jonathan Pryce e Anthony Hopkins forem indicados para o Oscar, junto com Melhor Filme (talvez), Melhor Roteiro (certeza) e Melhor Fotografia (quem sabe). Grande filme, merece seu play já!
Antes de mais nada é preciso dizer que "Dois Papas" é mais um grande filme que a Netflix lança esse ano e que, com a mais absoluta certeza, disputará algumas categorias no Oscar 2020! O filme de pouco mais de duas horas tem basicamente dois atores em cena - Jonathan Pryce (o High Sparrow de Game of Thrones) eAnthony Hopkins (que dispensa apresentações). O trabalho desses dois atores é uma coisa que merece ser estudada - eles estão perfeitos como Bento XVI e Francisco, respectivamente. Depois da morte do Papa João Paulo II e da escolha de Bento XVI, a Igreja Católica passa a sofrer com escândalos de pedofilia e corrupção, o que leva o Cardeal Jorge Bergoglio (Francisco) querer se aposentar, porém para que isso se concretize é necessário a assinatura com a aceitação do Papa. Acontece que Bento XVI possui uma maneira completamente diferente de enxergar os dogmas da igreja e Bergoglio foi um dos seus mais ferrenhos críticos. A declarada oposição de ideias entre os protagonistas, gera uma condição muito interessante (e que deveria ser replicada nesse mundo polarizado que vivemos): de uma forma muito orgânica, surge uma aproximação fraternal (e até espiritual) entre eles, a partir do "simples" exercício de ouvir o que o outro tem a dizer (e a pedir)! É interessante perceber a forma como o roteiro nos mostra os momentos de fraquezas, de dúvidas, de falhas e de receio durante a vida dos dois personagens e como isso, de alguma forma, influenciaria nas decisões que eles estavam prestes a tomar! Olha, nessa época de natal, eu diria que esse filme é imperdível! Assistam com toda a família porque vale muito a pena!
Acho que mais do que uma obra "baseada em fatos reais", o maior acerto do filme dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles é o estudo de personalidade que o roteirista Anthony McCarten (A Teoria de Tudo) nos apresenta. O filme acaba criando uma certa dependência nos dois protagonistas, mas ao mesmo tempo resgata o que há de mais humano no processo de auto-conhecimento e de reflexão que ambos precisam passar para se perdoarem e seguirem adiante. É lindo de assistir!
O roteiro equilibra tão bem assuntos espinhosos, pontos de vista diferentes e ideais completamente contraditórios, mas com respeito, inteligência e até humor - a cena durante os créditos dos dois papas (um argentino e outro alemão) assistindo a final da Copa de 2014 no Brasil é impagável! Meirelles foi muito feliz ao deixar os dois atores "soltos" para dialogarem e aproveitarem a organicidade que o texto sugeria. As pausas, os olhares, os tímidos sorrisos, o receito de ir além, o respeito mútuo, a humildade e o reconhecimento, nossa, tudo está lá e é tão perceptível e dinâmico que nem vemos o tempo passar - até nos momentos mais delicados quando o assunto fica realmente mais pesado, como a lembrança da ditadura argentina ou a discussão sobre pedofilia na igreja, o filme elabora tão bem as idéias e fica tão alinhado com as escolhas conceituais da direção do brasileiro e, claro do fotógrafo e parceiro, César Charlone, que impressiona! A troca da janela de exibição de 16:9 para a antiga 4:3, o preto e branco, a câmera mais nervosa e até a inserção de cenas reais, de noticiários e reportagens da época - tudo isso trás uma veracidade que mexe com a gente! Reparem em como o conceito visual ajuda a contar a história e transforma um simples artifício em uma experiência imersiva bastante intensa - é como se estivemos revivendo toda aquela dor junto com os personagens!
A trilha sonora é outro elemento que merece destaque - existe uma variação de ritmos e tons que vão pontuando a aproximação dos dois personagens de acordo com a liberdade que ambos vão conquistando - a cena do piano e dos dois dançando tango ao se despedirem, é isso: o elo de respeito que foi construído a partir do momento que ambos se permitiram conhecer outros olhares, outros gostos, outra forma de ver a vida. Puxa, são tantos detalhes, tanto cuidado que, para mim, é uma aula de cinema - mais uma vez, reparem na cena em que Francisco impede os seguranças de interferirem no passeio que Bento XVI faz em um dos salões no Vaticano em meio aos turistas, ele diz algo assim: deixe, ele esta feliz! É tão humana a relação que foi construída que muitas vezes nem nos damos conta que são dois atores conversando por quase duas horas de filme. Uma sugestão que pode enriquecer a experiência de acompanhar "Dois Papas" - assistam a minissérie italiana "Pode me chamar de Francisco", ela se aprofunda na história da ditadura e como realmente tudo aconteceu - essa parte pode ter parecido um pouco confusa ou superficial no filme, mas na minissérie fica tudo muito claro (e tem na Netflix).
"Dois Papas" é daqueles filmes que nos enchem de amor ao assistir, que quebra alguns pré-conceitos e que nos fazem acreditar que mesmo com nossa falhas (inerentes ao ser humano e isso é dito no filme) é possível enxergar o mundo de uma outra forma e trabalhar para sua constante evolução. Não se surpreendam se Jonathan Pryce e Anthony Hopkins forem indicados para o Oscar, junto com Melhor Filme (talvez), Melhor Roteiro (certeza) e Melhor Fotografia (quem sabe). Grande filme, merece seu play já!
"Em Defesa de Cristo" me pareceu ser mais um caso de um livro infinitamente melhor que o filme - não que ele seja ruim, mas é que a história é muito (mas, muito) boa.
Lee Strobel (Mike Vogel), é um jornalista conservador e linha dura, vivendo os melhores dias de sua carreira: uma premiada reportagem acaba de lhe render uma promoção como editor jurídico no jornal Chicago Tribune. Mas, seu casamento não vai muito bem. Sua esposa, Leslie (Erika Christensen), se converteu à fé cristã indo contra tudo que Lee pensava, como um ateu convicto, a respeito da religião. Utilizando sua vasta experiência sobre leis e usando o jornalismo como ponto de partida, Lee começa uma jornada para rebater os argumentos do cristianismo e assim salvar seu casamento. Investigando a maior história de sua carreira, Lee se vê cara a cara com fatos inesperados que podem mudar tudo que ele acredita ser verdade. Confira o trailer:
Tecnicamente o roteiro não está à altura que uma história dessas merece: Brian Bird nos apresenta uma resolução um pouco mais superficial e uma trama paralela que poderia ser melhor desenvolvida, se algumas camadas fossem exploradas - existe um embate intimo do protagonista que chama a atenção como gatilho, mas que parece não sair do lugar. Agora, mesmo com algumas inconsistências, eu não deixaria de assistir o filme - na verdade, eu gostei, só que é impossível não imaginar uma história tão potente como essa na mão de alguém com mais força na escrita e até na direção. Aliás, a direção do Jon Gunn ("De Coração Partido") é apenas protocolar - imagine se Denis Villeneuve (de "A Chegada") ou até o DarrenAronofsky (de "Cisne Negro") estivessem no projeto, olha, seria outro patamar!
De fato "The Case for Christ" (título original) é um filme bom, mas que transita pela mediocridade em vários aspectos e momentos - eu diria que é uma boa "Sessão da Tarde" que vai entreter, instigar, provocar, mas que não vai te marcar para sempre! É aquela diversão param sábado chuvoso!
Vale a pena nessas condições!
"Em Defesa de Cristo" me pareceu ser mais um caso de um livro infinitamente melhor que o filme - não que ele seja ruim, mas é que a história é muito (mas, muito) boa.
Lee Strobel (Mike Vogel), é um jornalista conservador e linha dura, vivendo os melhores dias de sua carreira: uma premiada reportagem acaba de lhe render uma promoção como editor jurídico no jornal Chicago Tribune. Mas, seu casamento não vai muito bem. Sua esposa, Leslie (Erika Christensen), se converteu à fé cristã indo contra tudo que Lee pensava, como um ateu convicto, a respeito da religião. Utilizando sua vasta experiência sobre leis e usando o jornalismo como ponto de partida, Lee começa uma jornada para rebater os argumentos do cristianismo e assim salvar seu casamento. Investigando a maior história de sua carreira, Lee se vê cara a cara com fatos inesperados que podem mudar tudo que ele acredita ser verdade. Confira o trailer:
Tecnicamente o roteiro não está à altura que uma história dessas merece: Brian Bird nos apresenta uma resolução um pouco mais superficial e uma trama paralela que poderia ser melhor desenvolvida, se algumas camadas fossem exploradas - existe um embate intimo do protagonista que chama a atenção como gatilho, mas que parece não sair do lugar. Agora, mesmo com algumas inconsistências, eu não deixaria de assistir o filme - na verdade, eu gostei, só que é impossível não imaginar uma história tão potente como essa na mão de alguém com mais força na escrita e até na direção. Aliás, a direção do Jon Gunn ("De Coração Partido") é apenas protocolar - imagine se Denis Villeneuve (de "A Chegada") ou até o DarrenAronofsky (de "Cisne Negro") estivessem no projeto, olha, seria outro patamar!
De fato "The Case for Christ" (título original) é um filme bom, mas que transita pela mediocridade em vários aspectos e momentos - eu diria que é uma boa "Sessão da Tarde" que vai entreter, instigar, provocar, mas que não vai te marcar para sempre! É aquela diversão param sábado chuvoso!
Vale a pena nessas condições!
"Em Nome do Céu" é uma produção do FX que aqui no Brasil está disponível no Star+, porém, para quem gosta e acompanha séries de investigação, é impossível não associar essa minissérie ao grande sucesso que foi "True Detective" - especialmente na sua primeira temporada. A estrutura narrativa é bem similar, cadenciada e cheia de camadas da mesma forma, além, obviamente, de ter dois elementos que conectam diretamente as duas histórias: o fanatismo religioso e o confronto íntimo dos protagonistas.
Baseado no livro homônimo de Jon Krakauer e criado por Dustin Lance Black (vencedor do Oscar por "Milk"), acompanhamos a história verídica de um crime macabro que ocorreu em uma comunidade mórmon em Utah, EUA, em 1984, onde uma mulher e sua filha foram brutalmente assassinadas dentro de casa, com a atrocidade tendo ligação com o fundamentalismo religioso e sua doutrina de “expiação por sangue”. O detetive Jeb Pyre (Andrew Garfield) investiga o caso ao mesmo tempo que precisa lidar com os reflexos de suas descobertas diante dos questionamentos de sua própria fé. Confira o trailer (em inglês):
Contextualizando o universo em que a história está inserida, por mais cruéis que sejam os detalhes do crime, mais assustador para cidadãos daquela comunidade é saber que um de seus membros (e não um forasteiro) foi o autor de tamanha atrocidade. Entre tantos homens e mulheres de fé que ali circulam, devotos de Joseph Smith e da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, aceitar que existe um criminoso entre os seus, parece absurdo. Isso ganha ainda mais dramaticidade quando tudo leva a crer que foi uma interpretação extremista dos valores mórmons que motivou o assassinato de duas fiéis - e é aí que surge um gatilho narrativo que nos acompanha por toda a jornada e que nos provoca inúmeras reflexões: qual o verdadeiro poder da hipocrisia?
"Em Nome do Céu" até ensaia um mistério mais forense em seu início, porém não é esse o caminho que o roteiro de Black resolve seguir - aqui não se trata de quem matou, e sim por qual razão! Mas não é só isso, pois seguindo a obra original de Krakauer, a minissérie adiciona uma linha temporal para estabelecer paralelos entre o passado, com a origem da religião Mórmon de Smith e de seus dissidentes, e o presente (de 1984), com a investigação dos assassinatos. Além disso, existe uma supervalorização dos dogmas religiosos em boa parte dos diálogos, o que, para nós, dificulta a compreensão e atravanca a narrativa - muitos vão se incomodar com o conceito, porém depois que acostumados, é inegável que essa camada coloca a trama em outro patamar.
Depois de sete episódios, com performances que merecem elogios, principalmente de Andrew Garfield (indicado ao Emmy pelo personagem) e Wyatt Russell (como Dan Lafferty), a impressão que fica é que não era preciso ter ido tão longe na construção do mindset dos Lafferty para entender a razão do crime e muito menos por que os criminosos foram capazes de tamanha brutalidade - nesse ponto, faltou um pouco de coragem ao roteiro que facilmente poderia ter se tornado muito mais impactante e memorável - eu diria que tinha espaço para algo bem ao estilo de "Seven".
Dito isso, é fácil imaginar que "Em Nome do Céu" não agradará a todos por sua "forma", mas também pelo seu "conteúdo"; por outro lado é impossível não elogiar a qualidade técnica e artística da produção, com uma edição muito criativa que realmente ajuda a trama sair do lugar comum.
Vale o seu play, mas não espere uma jornada simples e muito menos usual.
"Em Nome do Céu" é uma produção do FX que aqui no Brasil está disponível no Star+, porém, para quem gosta e acompanha séries de investigação, é impossível não associar essa minissérie ao grande sucesso que foi "True Detective" - especialmente na sua primeira temporada. A estrutura narrativa é bem similar, cadenciada e cheia de camadas da mesma forma, além, obviamente, de ter dois elementos que conectam diretamente as duas histórias: o fanatismo religioso e o confronto íntimo dos protagonistas.
Baseado no livro homônimo de Jon Krakauer e criado por Dustin Lance Black (vencedor do Oscar por "Milk"), acompanhamos a história verídica de um crime macabro que ocorreu em uma comunidade mórmon em Utah, EUA, em 1984, onde uma mulher e sua filha foram brutalmente assassinadas dentro de casa, com a atrocidade tendo ligação com o fundamentalismo religioso e sua doutrina de “expiação por sangue”. O detetive Jeb Pyre (Andrew Garfield) investiga o caso ao mesmo tempo que precisa lidar com os reflexos de suas descobertas diante dos questionamentos de sua própria fé. Confira o trailer (em inglês):
Contextualizando o universo em que a história está inserida, por mais cruéis que sejam os detalhes do crime, mais assustador para cidadãos daquela comunidade é saber que um de seus membros (e não um forasteiro) foi o autor de tamanha atrocidade. Entre tantos homens e mulheres de fé que ali circulam, devotos de Joseph Smith e da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, aceitar que existe um criminoso entre os seus, parece absurdo. Isso ganha ainda mais dramaticidade quando tudo leva a crer que foi uma interpretação extremista dos valores mórmons que motivou o assassinato de duas fiéis - e é aí que surge um gatilho narrativo que nos acompanha por toda a jornada e que nos provoca inúmeras reflexões: qual o verdadeiro poder da hipocrisia?
"Em Nome do Céu" até ensaia um mistério mais forense em seu início, porém não é esse o caminho que o roteiro de Black resolve seguir - aqui não se trata de quem matou, e sim por qual razão! Mas não é só isso, pois seguindo a obra original de Krakauer, a minissérie adiciona uma linha temporal para estabelecer paralelos entre o passado, com a origem da religião Mórmon de Smith e de seus dissidentes, e o presente (de 1984), com a investigação dos assassinatos. Além disso, existe uma supervalorização dos dogmas religiosos em boa parte dos diálogos, o que, para nós, dificulta a compreensão e atravanca a narrativa - muitos vão se incomodar com o conceito, porém depois que acostumados, é inegável que essa camada coloca a trama em outro patamar.
Depois de sete episódios, com performances que merecem elogios, principalmente de Andrew Garfield (indicado ao Emmy pelo personagem) e Wyatt Russell (como Dan Lafferty), a impressão que fica é que não era preciso ter ido tão longe na construção do mindset dos Lafferty para entender a razão do crime e muito menos por que os criminosos foram capazes de tamanha brutalidade - nesse ponto, faltou um pouco de coragem ao roteiro que facilmente poderia ter se tornado muito mais impactante e memorável - eu diria que tinha espaço para algo bem ao estilo de "Seven".
Dito isso, é fácil imaginar que "Em Nome do Céu" não agradará a todos por sua "forma", mas também pelo seu "conteúdo"; por outro lado é impossível não elogiar a qualidade técnica e artística da produção, com uma edição muito criativa que realmente ajuda a trama sair do lugar comum.
Vale o seu play, mas não espere uma jornada simples e muito menos usual.