Desde o primeiro trailer de "Areia Movediça" algo me chamou muito a atenção, embora o "mistério" desse o tom daquela narrativa. Uma minissérie original sueca, produzida pela Netflix, com 6 episódios de 40 minutos cada, baseada em um best-seller, certamente viria com muito potencial!!! O livro de autor Malin Persson Giolito foi publicado em mais de 20 países e foi eleito o melhor romance nórdico de crimes de 2016. Depois de tudo que eu vi e li sobre a minissérie, eu só precisava confirmar se minhas expectativas iriam se comprovar e, posso te garantir: de fato, a história é muito interessante, envolvente e misteriosa! Típico projeto que tem tudo para agradar, mas as pessoas ainda precisam descobrir a enorme qualidade da produção sueca e tudo que envolve essa história.
Então vamos lá: a história é contada em duas linhas temporais diferentes. No presente Maja Norberg, uma jovem e linda estudante pré-vestibular, é acusada de matar seus colegas de escola à tiros, em plena sala de aula. No passado recente, vemos a mesma personagem envolvida com os estudos, se relacionando com a família e com os amigos da melhor forma possível, até que conhece o jovem Sebastian Fagerman - um garoto educado, bem nascido e apaixonado por ela. A primeira dúvida que surge é: como uma jovem tão educada e amorosa foi capaz de matar seus colegas de classe com tanto sangue frio?
Olha, é impossível não se envolver com a história logo de cara, pois "Areia Movediça" trás elementos de dois outros grandes sucessos da Netflix "The Sinner" e "13 Reasons Why"!!! A minissérie transita muito bem no universo dos jovens ao mesmo tempo que trás o mistério da transformação humana e as razões que nos fariam cometer loucuras. Me lembrou quando assisti "Breaking Bad" pela primeira vez - não entendia como um cara como Walter White poderia se transformar em um assassino (ou um traficante) como Heisenberg. Se "Areia Movediça" não tem a genialidade (e profundidade) de "Breaking Bad", merece elogios pela coragem de tocar em assuntos delicados como tiroteio nas escolas, estupro, relacionamento abusivo em vários níveis e o uso de drogas. Tenha em mente que, como o bom cinema sueco exige, é preciso ter estômago!
A Produção é excelente. As locações na Suécia e na França são incríveis. A minissérie é muito bem fotografada, muito bem dirigida e os atores que interpretam a Maja Norberg e o Sebastian Fagerman, respectivamente Hanna Ardéhn e Felix Sandman, dão um verdadeiro show: a maneira como eles vão se desconstruindo durante os episódios vale o "ingresso"! Em muitos momentos o diretor Per-Olav Sørensen usa de técnicas documentais para humanizar ainda mais as situações. Com as câmeras mais soltas e um trabalho genial com o zoom, o diretor trás uma realidade muito interessante para essa ficção que nos faz refletir se aquilo tudo não foi baseado em fatos reais... Poderia!!!
"Areia Movediça" é um ótima surpresa que ainda não caiu nas graças da audiência por puro desconhecimento, pois é impossível não se relacionar com todas as situações que o roteiro propõe!!! Vale muito o play!!!!
Desde o primeiro trailer de "Areia Movediça" algo me chamou muito a atenção, embora o "mistério" desse o tom daquela narrativa. Uma minissérie original sueca, produzida pela Netflix, com 6 episódios de 40 minutos cada, baseada em um best-seller, certamente viria com muito potencial!!! O livro de autor Malin Persson Giolito foi publicado em mais de 20 países e foi eleito o melhor romance nórdico de crimes de 2016. Depois de tudo que eu vi e li sobre a minissérie, eu só precisava confirmar se minhas expectativas iriam se comprovar e, posso te garantir: de fato, a história é muito interessante, envolvente e misteriosa! Típico projeto que tem tudo para agradar, mas as pessoas ainda precisam descobrir a enorme qualidade da produção sueca e tudo que envolve essa história.
Então vamos lá: a história é contada em duas linhas temporais diferentes. No presente Maja Norberg, uma jovem e linda estudante pré-vestibular, é acusada de matar seus colegas de escola à tiros, em plena sala de aula. No passado recente, vemos a mesma personagem envolvida com os estudos, se relacionando com a família e com os amigos da melhor forma possível, até que conhece o jovem Sebastian Fagerman - um garoto educado, bem nascido e apaixonado por ela. A primeira dúvida que surge é: como uma jovem tão educada e amorosa foi capaz de matar seus colegas de classe com tanto sangue frio?
Olha, é impossível não se envolver com a história logo de cara, pois "Areia Movediça" trás elementos de dois outros grandes sucessos da Netflix "The Sinner" e "13 Reasons Why"!!! A minissérie transita muito bem no universo dos jovens ao mesmo tempo que trás o mistério da transformação humana e as razões que nos fariam cometer loucuras. Me lembrou quando assisti "Breaking Bad" pela primeira vez - não entendia como um cara como Walter White poderia se transformar em um assassino (ou um traficante) como Heisenberg. Se "Areia Movediça" não tem a genialidade (e profundidade) de "Breaking Bad", merece elogios pela coragem de tocar em assuntos delicados como tiroteio nas escolas, estupro, relacionamento abusivo em vários níveis e o uso de drogas. Tenha em mente que, como o bom cinema sueco exige, é preciso ter estômago!
A Produção é excelente. As locações na Suécia e na França são incríveis. A minissérie é muito bem fotografada, muito bem dirigida e os atores que interpretam a Maja Norberg e o Sebastian Fagerman, respectivamente Hanna Ardéhn e Felix Sandman, dão um verdadeiro show: a maneira como eles vão se desconstruindo durante os episódios vale o "ingresso"! Em muitos momentos o diretor Per-Olav Sørensen usa de técnicas documentais para humanizar ainda mais as situações. Com as câmeras mais soltas e um trabalho genial com o zoom, o diretor trás uma realidade muito interessante para essa ficção que nos faz refletir se aquilo tudo não foi baseado em fatos reais... Poderia!!!
"Areia Movediça" é um ótima surpresa que ainda não caiu nas graças da audiência por puro desconhecimento, pois é impossível não se relacionar com todas as situações que o roteiro propõe!!! Vale muito o play!!!!
"Argentina, 1985" é, essencialmente, mais um filme de tribunal, porém com dois elementos que fazem toda a diferença na forma como experienciamos a história: primeiro, Ricardo Darín é o protagonista (em uma das melhores performances da sua carreira) e depois, claro, por se basear em um fato histórico marcante, (de certa forma) recente, duro de digerir e impressionante, dentro de seu contexto sócio-político!
A trama acompanha Julio Strassera (Ricardo Darín), Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani) e sua equipe de jovens juristas, heróis improváveis que travaram uma batalha de Davi e Golias na qual, sob ameaças constantes e contra todas as possibilidades, ousaram processar pela via civil o alto-escalão das Forças Armadas da Argentina, fortemente atuante durante a ditadura, uma das mais sangrentas da América do Sul, em uma verdadeira corrida contra o tempo para fazer justiça a todas as vítimas dos militares. Confira o trailer (em espanhol):
Aposta da Argentina para o Oscar 2023, "Argentina, 1985" é uma produção da Amazon Studios com direção de Santiago Mitre (de "A Cordilheira") - o filme é um olhar profundo e emocionante sobre um regime militar que torturou, perseguiu e matou civis sob um discurso autolegitimado de estar enfrentando “insurgentes”, “populistas”, “comunistas”, “subvertidos” – pessoas que, a critério dos militares, seriam contra o progresso do país. O interessante porém, é que o roteiro se apoia no drama que foi responsabilizar os culpados por todos esses crimes em um julgamento na esfera civil e não militar como queriam os oficiais. Esse choque jurídico carrega os mesmos fantasmas de repressão do período que todos querem esquecer e é essa dinâmica que eleva a tensão narrativa e nos provoca uma reflexão muito em alta no nosso país: o quão frágil pode ser uma democracia se não respeitarmos alguns direitos individuais do ser humano.
O roteiro do Mariano Llinás e do próprio Mitre faz algumas escolhas que podem causar algum desconforto para quem procura se aprofundar no tema - ele se apoia muito mais nos depoimentos das vítimas (com um grau de emoção e veracidade impressionantes) do que na construção de uma tese de acusação (mesmo flertando com algumas passagens que sugerem essa investigação). Essa escolha em particular, para uma audiência que não é tão familiarizada com os nomes dos envolvidos nos crimes, nos afasta da verdadeira dimensão que representou o julgamento - embora a conexão com os protagonistas seja imediata, em nenhum momento somos impactados com embates calorosos entre acusação e defesa como em "Os 7 de Chicago", por exemplo.
"Argentina, 1985" se aproveita tanto da química entre Darín e Lanzani, que nem nos damos conta de todos esses deslizes do roteiro - que, aliás, precisa muito da montagem para encaixar uma quantidade enorme de informações essenciais para a construção da história. Nada que estrague a ótima experiência de assistir um filme que foi muito competente em recriar toda uma atmosfera de incertezas e de descobrimentos que funciona como uma espécie de "ajuste de contas" pós-ditadura e que acaba expondo uma história importante, essencial e motivo de orgulho para o povo argentino.
Vale muito o seu play!
"Argentina, 1985" é, essencialmente, mais um filme de tribunal, porém com dois elementos que fazem toda a diferença na forma como experienciamos a história: primeiro, Ricardo Darín é o protagonista (em uma das melhores performances da sua carreira) e depois, claro, por se basear em um fato histórico marcante, (de certa forma) recente, duro de digerir e impressionante, dentro de seu contexto sócio-político!
A trama acompanha Julio Strassera (Ricardo Darín), Luis Moreno Ocampo (Peter Lanzani) e sua equipe de jovens juristas, heróis improváveis que travaram uma batalha de Davi e Golias na qual, sob ameaças constantes e contra todas as possibilidades, ousaram processar pela via civil o alto-escalão das Forças Armadas da Argentina, fortemente atuante durante a ditadura, uma das mais sangrentas da América do Sul, em uma verdadeira corrida contra o tempo para fazer justiça a todas as vítimas dos militares. Confira o trailer (em espanhol):
Aposta da Argentina para o Oscar 2023, "Argentina, 1985" é uma produção da Amazon Studios com direção de Santiago Mitre (de "A Cordilheira") - o filme é um olhar profundo e emocionante sobre um regime militar que torturou, perseguiu e matou civis sob um discurso autolegitimado de estar enfrentando “insurgentes”, “populistas”, “comunistas”, “subvertidos” – pessoas que, a critério dos militares, seriam contra o progresso do país. O interessante porém, é que o roteiro se apoia no drama que foi responsabilizar os culpados por todos esses crimes em um julgamento na esfera civil e não militar como queriam os oficiais. Esse choque jurídico carrega os mesmos fantasmas de repressão do período que todos querem esquecer e é essa dinâmica que eleva a tensão narrativa e nos provoca uma reflexão muito em alta no nosso país: o quão frágil pode ser uma democracia se não respeitarmos alguns direitos individuais do ser humano.
O roteiro do Mariano Llinás e do próprio Mitre faz algumas escolhas que podem causar algum desconforto para quem procura se aprofundar no tema - ele se apoia muito mais nos depoimentos das vítimas (com um grau de emoção e veracidade impressionantes) do que na construção de uma tese de acusação (mesmo flertando com algumas passagens que sugerem essa investigação). Essa escolha em particular, para uma audiência que não é tão familiarizada com os nomes dos envolvidos nos crimes, nos afasta da verdadeira dimensão que representou o julgamento - embora a conexão com os protagonistas seja imediata, em nenhum momento somos impactados com embates calorosos entre acusação e defesa como em "Os 7 de Chicago", por exemplo.
"Argentina, 1985" se aproveita tanto da química entre Darín e Lanzani, que nem nos damos conta de todos esses deslizes do roteiro - que, aliás, precisa muito da montagem para encaixar uma quantidade enorme de informações essenciais para a construção da história. Nada que estrague a ótima experiência de assistir um filme que foi muito competente em recriar toda uma atmosfera de incertezas e de descobrimentos que funciona como uma espécie de "ajuste de contas" pós-ditadura e que acaba expondo uma história importante, essencial e motivo de orgulho para o povo argentino.
Vale muito o seu play!
"As Flores Perdidas de Alice Hart" é daquelas minisséries que você se pergunta: por que não assisti isso antes? É sério, que espetáculo de roteiro! Lançada em 2023 pela Prime Video, "As Flores Perdidas de Alice Hart"é um drama profundo que transita pelas nuances do trauma e do luto em uma atmosfera de muito mistério, onde a busca pela cura em meio à beleza e ao simbolismo das flores transforma nossa jornada em uma experiência das mais envolventes e surpreendentes. Criada por Sarah Lambert e baseada no romance homônimo de Holly Ringland, a produção é dirigida por Glendyn Ivin (do excelente "Em Prantos") e apresenta uma narrativa que, assim como "Big Little Lies" e "Sharp Objects", parte dos fantasmas mais íntimos para explorar questões delicadas como violência doméstica, laços familiares e autodescoberta.
A história acompanha Alice Hart (interpretada por Alycia Debnam-Carey na fase adulta e por Alyla Browne na infância), uma jovem que perde os pais em um incêndio traumático. Depois da tragédia, Alice vai morar com sua avó June (Sigourney Weaver) em uma fazenda remota chamada Thornfield, onde flores nativas são cultivadas e utilizadas para expressar sentimentos que palavras não conseguem transmitir. Ao longo dos anos, Alice descobre segredos obscuros sobre sua família e enfrenta os próprios demônios enquanto busca um caminho para a cura e para uma liberdade emocional. Confira o trailer (em inglês):
Mesmo que soe cadenciada em um primeiro momento, a narrativa proposta pela Sarah Lambert é muito fiel ao espírito da obra de Ringland, equilibrando a exploração emocional com o mistério que envolve os segredos familiares da protagonista. O roteiro é construída de forma não linear, utilizando a quebra temporal para revelar gradualmente as conexões entre alguns personagens - é essa estrutura que nos mantém intrigados, enquanto somos provocados a olhar por diversas perspectivas na busca por uma compreensão mais profunda das motivações e escolhas que moldam a trajetória de Alice. É aqui que entra a direção de Glendyn Ivin - sua sensibilidade e habilidade para construir momentos de introspecção através de uma narrativa visualmente rica, é de se aplaudir de pé. Já no primeiro episódio, mesmo com momentos realmente impactantes, temos a exata noção de que estamos diante de um profissional capaz de traduzir sensações em uma certa poesia visual - algo como o saudoso Jean-Marc Vallée fazia com maestria.
A fotografia de "As Flores Perdidas de Alice Hart" também chama atenção. O trabalho do Sam Chiplin (parceiro de Ivin em "Em Prantos") captura a beleza das paisagens australianas e das flores que servem como metáfora para as emoções dos personagens, de uma forma magnifica. A diversidade da paleta de cores e toda iluminação são cuidadosamente trabalhadas, refletindo tanto a serenidade quanto a tensão que permeiam a história. As flores e seu simbolismo, sem dúvida, funcionam como um elemento narrativo poderoso, adicionando profundidade e significado para a jornada. Alycia Debnam-Carey sabe transformar essa atmosfera semiótica, sutil e poderosa, em energia para sua Alice - repare como ela transmite a complexidade de sua personagem na luta para superar o passado e encontrar seu próprio lugar no mundo. Sigourney Weaver também entrega uma performance que merece destaque - contida e intensa, ela vai revelando as camadas de uma mulher forte, mas que é cheia de falhas e que carrega o peso dos segredos e das decisões difíceis que já teve que tomar. A química entre as duas, aliás, é essencial para dar o tom do relacionamento conturbado entre avó e neta. E rapidamente cito Alyla Browne, a Alice na infância - que atuação sensível e comovente. Olho nessa garota!
"As Flores Perdidas de Alice Hart" não tem medo de confrontar a dor e a complexidade das relações familiares, explorando o peso do trauma e como ele pode ser transmitido de geração em geração. Embora muitas vezes densa demais, a narrativa também oferece momentos de esperança, mostrando que é possível encontrar um certo significado mesmo em meio à escuridão. Se seu ritmo pode soar lento e introspectivo demais, entenda que é essa escolha conceitual que traz a profundidade emocional que a história merece. O que eu quero dizer é que estamos diante de uma minissérie diferente, visualmente deslumbrante e emocionalmente profunda, que sabe explorar as obscuridades da vida, pontuando perfeitamente o valor da resiliência e da autodescoberta como forma de sobrevivência sem esquecer da importância da sororidade.
Imperdível!
"As Flores Perdidas de Alice Hart" é daquelas minisséries que você se pergunta: por que não assisti isso antes? É sério, que espetáculo de roteiro! Lançada em 2023 pela Prime Video, "As Flores Perdidas de Alice Hart"é um drama profundo que transita pelas nuances do trauma e do luto em uma atmosfera de muito mistério, onde a busca pela cura em meio à beleza e ao simbolismo das flores transforma nossa jornada em uma experiência das mais envolventes e surpreendentes. Criada por Sarah Lambert e baseada no romance homônimo de Holly Ringland, a produção é dirigida por Glendyn Ivin (do excelente "Em Prantos") e apresenta uma narrativa que, assim como "Big Little Lies" e "Sharp Objects", parte dos fantasmas mais íntimos para explorar questões delicadas como violência doméstica, laços familiares e autodescoberta.
A história acompanha Alice Hart (interpretada por Alycia Debnam-Carey na fase adulta e por Alyla Browne na infância), uma jovem que perde os pais em um incêndio traumático. Depois da tragédia, Alice vai morar com sua avó June (Sigourney Weaver) em uma fazenda remota chamada Thornfield, onde flores nativas são cultivadas e utilizadas para expressar sentimentos que palavras não conseguem transmitir. Ao longo dos anos, Alice descobre segredos obscuros sobre sua família e enfrenta os próprios demônios enquanto busca um caminho para a cura e para uma liberdade emocional. Confira o trailer (em inglês):
Mesmo que soe cadenciada em um primeiro momento, a narrativa proposta pela Sarah Lambert é muito fiel ao espírito da obra de Ringland, equilibrando a exploração emocional com o mistério que envolve os segredos familiares da protagonista. O roteiro é construída de forma não linear, utilizando a quebra temporal para revelar gradualmente as conexões entre alguns personagens - é essa estrutura que nos mantém intrigados, enquanto somos provocados a olhar por diversas perspectivas na busca por uma compreensão mais profunda das motivações e escolhas que moldam a trajetória de Alice. É aqui que entra a direção de Glendyn Ivin - sua sensibilidade e habilidade para construir momentos de introspecção através de uma narrativa visualmente rica, é de se aplaudir de pé. Já no primeiro episódio, mesmo com momentos realmente impactantes, temos a exata noção de que estamos diante de um profissional capaz de traduzir sensações em uma certa poesia visual - algo como o saudoso Jean-Marc Vallée fazia com maestria.
A fotografia de "As Flores Perdidas de Alice Hart" também chama atenção. O trabalho do Sam Chiplin (parceiro de Ivin em "Em Prantos") captura a beleza das paisagens australianas e das flores que servem como metáfora para as emoções dos personagens, de uma forma magnifica. A diversidade da paleta de cores e toda iluminação são cuidadosamente trabalhadas, refletindo tanto a serenidade quanto a tensão que permeiam a história. As flores e seu simbolismo, sem dúvida, funcionam como um elemento narrativo poderoso, adicionando profundidade e significado para a jornada. Alycia Debnam-Carey sabe transformar essa atmosfera semiótica, sutil e poderosa, em energia para sua Alice - repare como ela transmite a complexidade de sua personagem na luta para superar o passado e encontrar seu próprio lugar no mundo. Sigourney Weaver também entrega uma performance que merece destaque - contida e intensa, ela vai revelando as camadas de uma mulher forte, mas que é cheia de falhas e que carrega o peso dos segredos e das decisões difíceis que já teve que tomar. A química entre as duas, aliás, é essencial para dar o tom do relacionamento conturbado entre avó e neta. E rapidamente cito Alyla Browne, a Alice na infância - que atuação sensível e comovente. Olho nessa garota!
"As Flores Perdidas de Alice Hart" não tem medo de confrontar a dor e a complexidade das relações familiares, explorando o peso do trauma e como ele pode ser transmitido de geração em geração. Embora muitas vezes densa demais, a narrativa também oferece momentos de esperança, mostrando que é possível encontrar um certo significado mesmo em meio à escuridão. Se seu ritmo pode soar lento e introspectivo demais, entenda que é essa escolha conceitual que traz a profundidade emocional que a história merece. O que eu quero dizer é que estamos diante de uma minissérie diferente, visualmente deslumbrante e emocionalmente profunda, que sabe explorar as obscuridades da vida, pontuando perfeitamente o valor da resiliência e da autodescoberta como forma de sobrevivência sem esquecer da importância da sororidade.
Imperdível!
Uma das maiores discussões assim que saíram os indicados para o Oscar de 2020 foi a ausência de Jennifer Lopez pelo seu trabalho em "As Golpistas"! Após assistir ao filme, fica claro que Lopez tinha total condição de estar entre as cinco, seu trabalho realmente merece elogios e ela carrega o filme nas costas, mas é um fato que ela deu um pouco de azar pelo alto nível da temporada - eu mesmo posso citar pelo menos mais uma ou duas atrizes que também mereciam estar entre as indicadas: caso da Awkwafina e da Lupita Nyong'o, por exemplo.
Pois bem, disse tudo isso para afirmar que "As Golpistas" se apoia muito na qualidade do seu elenco e como o próprio nome do filme sugere, as personagens tem importância vital perante a história, repare: são strippers que esquematizavam golpes sobre seus clientes cheios da grana, na maioria vindo de Wall Street, que se beneficiavam da situação de crise que assolava o país e, na visão delas, não sofreriam ao perder um pouco de dinheiro em uma noitada de "diversão". Confira o trailer:
Baseado no artigo da New York Magazine "The Hustlers at Scores", assinado pela jornalista Jessica Pressler, e fielmente adaptado pela roteirista Lorene Scafaria, "Hustlers" (título original) entrega quase duas horas de uma trama, se não original, muito bem construída. A apresentação dos fatos segue uma estrutura narrativa que quebra a linha do tempo, mas não confunde quem assiste graças a algumas inserções gráficas que indicam um período especifico da história. A partir dos relatos de Destiny (Constance Wu) para Elizabeth (Julia Stiles), vamos conhecendo cada uma das personagens e os motivos que as colocaram nos crimes.
Muito bem dirigido pela própria Lorene Scafaria, o filme nos transporta para o "submundo" de Wall Street pelos olhos femininos - e isso talvez seja o maior mérito da obra! Quando essa perspectiva ganha força, automaticamente criamos empatia com as personagens e, por incrível que pareça, não as julgamos. É preciso dizer, porém, que o filme oscila um pouco até o meio do segundo ato quando Ramona (Jennifer Lopez) assume a liderança do próprio negócio e cria uma equipe de garotas golpistas para drogar seus clientes e estourar os limites de seus cartões de crédito. O próprio ritmo da direção e da montagem ganha mais vida e parece que a história flui melhor a partir daí.
"As Golpistas" é um ótimo entretenimento, bem despretensioso e muito fácil de se divertir. Com uma trilha sonora sensacional, o empoderamento feminino ganha um ritmo de "vingança" que não agride quem assiste, mas nos enche de curiosidade para saber onde tudo aquilo vai dar - "A Grande Jogada", filme do Diretor e Roteirista Aaron Sorkin tem muito disso!
Vale seu play!
Uma das maiores discussões assim que saíram os indicados para o Oscar de 2020 foi a ausência de Jennifer Lopez pelo seu trabalho em "As Golpistas"! Após assistir ao filme, fica claro que Lopez tinha total condição de estar entre as cinco, seu trabalho realmente merece elogios e ela carrega o filme nas costas, mas é um fato que ela deu um pouco de azar pelo alto nível da temporada - eu mesmo posso citar pelo menos mais uma ou duas atrizes que também mereciam estar entre as indicadas: caso da Awkwafina e da Lupita Nyong'o, por exemplo.
Pois bem, disse tudo isso para afirmar que "As Golpistas" se apoia muito na qualidade do seu elenco e como o próprio nome do filme sugere, as personagens tem importância vital perante a história, repare: são strippers que esquematizavam golpes sobre seus clientes cheios da grana, na maioria vindo de Wall Street, que se beneficiavam da situação de crise que assolava o país e, na visão delas, não sofreriam ao perder um pouco de dinheiro em uma noitada de "diversão". Confira o trailer:
Baseado no artigo da New York Magazine "The Hustlers at Scores", assinado pela jornalista Jessica Pressler, e fielmente adaptado pela roteirista Lorene Scafaria, "Hustlers" (título original) entrega quase duas horas de uma trama, se não original, muito bem construída. A apresentação dos fatos segue uma estrutura narrativa que quebra a linha do tempo, mas não confunde quem assiste graças a algumas inserções gráficas que indicam um período especifico da história. A partir dos relatos de Destiny (Constance Wu) para Elizabeth (Julia Stiles), vamos conhecendo cada uma das personagens e os motivos que as colocaram nos crimes.
Muito bem dirigido pela própria Lorene Scafaria, o filme nos transporta para o "submundo" de Wall Street pelos olhos femininos - e isso talvez seja o maior mérito da obra! Quando essa perspectiva ganha força, automaticamente criamos empatia com as personagens e, por incrível que pareça, não as julgamos. É preciso dizer, porém, que o filme oscila um pouco até o meio do segundo ato quando Ramona (Jennifer Lopez) assume a liderança do próprio negócio e cria uma equipe de garotas golpistas para drogar seus clientes e estourar os limites de seus cartões de crédito. O próprio ritmo da direção e da montagem ganha mais vida e parece que a história flui melhor a partir daí.
"As Golpistas" é um ótimo entretenimento, bem despretensioso e muito fácil de se divertir. Com uma trilha sonora sensacional, o empoderamento feminino ganha um ritmo de "vingança" que não agride quem assiste, mas nos enche de curiosidade para saber onde tudo aquilo vai dar - "A Grande Jogada", filme do Diretor e Roteirista Aaron Sorkin tem muito disso!
Vale seu play!
A adolescência é a fase mais complicada e difícil na vida de uma pessoa. Nesta época passamos por um turbilhão de mudanças - psicológicas, hormonais, sociais e comportamentais - que irão moldar o nosso caráter e definir o nosso lugar no mundo! “As Vantagens de Ser Invisível" aborda este universo de maneira simples e, ao mesmo tempo, profunda. Lida, principalmente, com dois problemas muito sérios que afligem a juventude: a depressão e o suicídio. Apesar dos temas pesados, há uma leveza na condução do enredo que torna a experiência de acompanhar a história muito prazerosa.
A trama é ambientada nos anos 90 e apresenta muitas referências literárias e musicais da época, o que garante um charme especial à produção. O protagonista é Charlie (Logan Lerman), um jovem retraído que possui bastante dificuldade em fazer novas amizades. Tudo muda, quando ele conhece dois veteranos, a descolada Sam (Emma Watson) e seu meio-irmão Patrick (Ezra Miller), que o ajudam a viver novas experiências. Embora esteja feliz nessa nova fase, Charlie possui traumas do passado que o impedem de seguir a sua vida de maneira plena e saudável. Confira o trailer:
Dirigido por Stephen Chbosky (de "Extraordinário"), fica fácil perceber a razão de todos os personagens serem bastante reais e cativantes - a ponto de você se identificar com as suas histórias e questões emocionais. E o enredo vai mais longe, apresentando ainda outros temas importantes, como virgindade, drogas, violência contra a mulher, bullying, assédio de menores e homofobia. Destaco ainda o excelente roteiro (do próprio Chbosky) e o ótimo trabalho do elenco jovem, em especial da atriz Emma Watson que está não menos que perfeita!
Por fim, preciso confessar que The Perks of Being a Wallflower (no original) foi uma surpresa muito agradável. Gostei tanto, que a produção entra fácil numa lista com as melhores produções sobre os dramas da juventude. Portanto, recomendo que não deixem de assistir, principalmente se você gosta deste universo teen, mas está cansado de produções que retratam os jovens de maneira rasa e sem conteúdo.
Aliás, “As Vantagens de Ser Invisível" recebeu mais de 50 indicações e recebeu inúmeros prêmios em festivais de cinema como "Film Independent Spirit Awards", "Hollywood Film Awards" e até no "People's Choice Awards" de 2013.
Vale muito o seu play!
Escrito por Lucio Tannure - uma parceria @dicas_pra_maratonar
A adolescência é a fase mais complicada e difícil na vida de uma pessoa. Nesta época passamos por um turbilhão de mudanças - psicológicas, hormonais, sociais e comportamentais - que irão moldar o nosso caráter e definir o nosso lugar no mundo! “As Vantagens de Ser Invisível" aborda este universo de maneira simples e, ao mesmo tempo, profunda. Lida, principalmente, com dois problemas muito sérios que afligem a juventude: a depressão e o suicídio. Apesar dos temas pesados, há uma leveza na condução do enredo que torna a experiência de acompanhar a história muito prazerosa.
A trama é ambientada nos anos 90 e apresenta muitas referências literárias e musicais da época, o que garante um charme especial à produção. O protagonista é Charlie (Logan Lerman), um jovem retraído que possui bastante dificuldade em fazer novas amizades. Tudo muda, quando ele conhece dois veteranos, a descolada Sam (Emma Watson) e seu meio-irmão Patrick (Ezra Miller), que o ajudam a viver novas experiências. Embora esteja feliz nessa nova fase, Charlie possui traumas do passado que o impedem de seguir a sua vida de maneira plena e saudável. Confira o trailer:
Dirigido por Stephen Chbosky (de "Extraordinário"), fica fácil perceber a razão de todos os personagens serem bastante reais e cativantes - a ponto de você se identificar com as suas histórias e questões emocionais. E o enredo vai mais longe, apresentando ainda outros temas importantes, como virgindade, drogas, violência contra a mulher, bullying, assédio de menores e homofobia. Destaco ainda o excelente roteiro (do próprio Chbosky) e o ótimo trabalho do elenco jovem, em especial da atriz Emma Watson que está não menos que perfeita!
Por fim, preciso confessar que The Perks of Being a Wallflower (no original) foi uma surpresa muito agradável. Gostei tanto, que a produção entra fácil numa lista com as melhores produções sobre os dramas da juventude. Portanto, recomendo que não deixem de assistir, principalmente se você gosta deste universo teen, mas está cansado de produções que retratam os jovens de maneira rasa e sem conteúdo.
Aliás, “As Vantagens de Ser Invisível" recebeu mais de 50 indicações e recebeu inúmeros prêmios em festivais de cinema como "Film Independent Spirit Awards", "Hollywood Film Awards" e até no "People's Choice Awards" de 2013.
Vale muito o seu play!
Escrito por Lucio Tannure - uma parceria @dicas_pra_maratonar
A Minissérie "Assédio" foi lançada exclusivamente para o Globoplay em uma tentativa da Globo de entrar com mais força na briga contra a Netflix e se tornar relevante também no streaming - e com projetos como esse, tem tudo para conseguir: "Assédio" conta a história do médico Abdelmassih, aquele mesmo que estuprou 37 pacientes e que foi condenado a mais de 100 anos de prisão (e depois liberado para cumprir prisão domiciliar). O que eu tenho para dizer é que a minissérie está linda.
Dirigida pela Amora Mautner, "Assédio" tem um conceito estético muito bem definido e uma personalidade que se não vê muito por aí na TV aberta. Com muitas referências conceituais de "House of Cards"- do estilo da trilha incidental aos movimentos de câmera lineares, muita coisa chama atenção: a fotografia é diferente, mais escura, com pontos de luz pontuando só no que interessa da cena e uma cor mais esverdeada que traz uma frieza interessante para os ambientes (embora, as vezes, até se pesa um pouco a mão).
No primeiro episódio, no prólogo, a "janela de projeção" mais cinematográfica e aquela música tema criam um clima incrível que se sustenta durante todo o episódio, extremamente bem dirigido - uma pena que não mantiveram aquela janela (barras maiores que deixariam o projeto mais elegante, mas ok, seria um risco para um público ainda mais acostumado com as novelas do que com um cinema autoral). Até as cenas mais delicadas com alguma violência sexual, estão lindamente bem realizadas. O roteiro começa muito bem, mas lá pelo quarto episódio perde um pouco de força; mas mesmo assim incomoda demais! A história é muito forte, o personagem belamente interpretado pelo Calloni é um doente, maníaco, maluco - e cruel. Cenas fortes, impactantes, mas nada é gratuito, muito pelo contrário, tudo faz sentido e dá voz a quem antes ficava calada, com medo. É muito duro imaginar que se trata de uma história real! Mesmo!!!
A verdade é que a Globo mostra que não entra na onda do streaming para fazer número ou backup de catálogo, entra com a mesma capacidade técnica e criativa que vemos na TV com a liberdade que um serviço mais "prime" oferece - não tem como dar errado! Co-produção Globo/Globoplay/O2 entrega um resultado de altíssimo nível!!!
Vale muito seu play!
A Minissérie "Assédio" foi lançada exclusivamente para o Globoplay em uma tentativa da Globo de entrar com mais força na briga contra a Netflix e se tornar relevante também no streaming - e com projetos como esse, tem tudo para conseguir: "Assédio" conta a história do médico Abdelmassih, aquele mesmo que estuprou 37 pacientes e que foi condenado a mais de 100 anos de prisão (e depois liberado para cumprir prisão domiciliar). O que eu tenho para dizer é que a minissérie está linda.
Dirigida pela Amora Mautner, "Assédio" tem um conceito estético muito bem definido e uma personalidade que se não vê muito por aí na TV aberta. Com muitas referências conceituais de "House of Cards"- do estilo da trilha incidental aos movimentos de câmera lineares, muita coisa chama atenção: a fotografia é diferente, mais escura, com pontos de luz pontuando só no que interessa da cena e uma cor mais esverdeada que traz uma frieza interessante para os ambientes (embora, as vezes, até se pesa um pouco a mão).
No primeiro episódio, no prólogo, a "janela de projeção" mais cinematográfica e aquela música tema criam um clima incrível que se sustenta durante todo o episódio, extremamente bem dirigido - uma pena que não mantiveram aquela janela (barras maiores que deixariam o projeto mais elegante, mas ok, seria um risco para um público ainda mais acostumado com as novelas do que com um cinema autoral). Até as cenas mais delicadas com alguma violência sexual, estão lindamente bem realizadas. O roteiro começa muito bem, mas lá pelo quarto episódio perde um pouco de força; mas mesmo assim incomoda demais! A história é muito forte, o personagem belamente interpretado pelo Calloni é um doente, maníaco, maluco - e cruel. Cenas fortes, impactantes, mas nada é gratuito, muito pelo contrário, tudo faz sentido e dá voz a quem antes ficava calada, com medo. É muito duro imaginar que se trata de uma história real! Mesmo!!!
A verdade é que a Globo mostra que não entra na onda do streaming para fazer número ou backup de catálogo, entra com a mesma capacidade técnica e criativa que vemos na TV com a liberdade que um serviço mais "prime" oferece - não tem como dar errado! Co-produção Globo/Globoplay/O2 entrega um resultado de altíssimo nível!!!
Vale muito seu play!
"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!
O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:
"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.
Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").
Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também).
"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.
Vale muito a pena!
Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção!
"Ataque dos Cães" é um filme essencialmente sobre vingança e que tem como seu maior mérito criar um clima de tensão permanente, onde em minuto algum sabemos exatamente o que vai acontecer ou qual será o gatilho para que todas aquelas relações desmoronem - e aqui cabe meu primeiro elogio: é impressionante como a diretora (e roteirista) Jane Campion, vencedora do Oscar por "O Piano", consegue manter essa sensação de angústia durante toda trama, sem perder o controle, mesmo com uma narrativa completamente cadenciada e reflexiva pelo ponto de vista de quatro personagens-chave. É, de fato, incrível!
O filme conta a história de Phil (Benedict Cumberbatch) e George (Jesse Plemons), dois irmãos, ricos e proprietários da maior fazenda de Montana em plena década de 1920. Enquanto o primeiro é brilhante, mas cruel, o segundo é a gentileza em pessoa. Tão diferentes, a relação de cumplicidade entre os dois vai do céu ao inferno quando George se casa secretamente com uma viúva local, Rose (Kirsten Dunst), e ainda resolve cuidar do seu filho Peter (Kodi Smit-McPhee), um jovem introspectivo e profundamente marcado pelo suicídio do pai. Invejoso, inseguro e solitário, Phil tenta de todas as formas fazer com que essa relação não se sustente dentro do seu ambiente, fazendo com que suas atitudes machistas e seu comportamento rústico vá minando, pouco a pouco, a tranquilidade de Rose e de Peter. Confira o trailer:
"The Power of the Dog" é o livro que originou "Ataque dos Cães". Ele foi lançado em 1967 pelo autor Thomas Savage - que é uma referência dentro do gênero literário de Faroeste e que teve inúmeras obras publicadas entre 1944 e 1988. Pois bem, o desafio dessa adaptação de Campion era justamente o de trazer para a tela uma proposta muito mais intimista do que estamos acostumados assistir no gênero e isso era considerado um risco - é por essa razão que todas as tentativas de adaptar o livro para o cinema falharam até aqui.
Com o sinal verde da Netflix, que aposta (e com razão) no reconhecimento da Academia no Oscar de 2022, Campion montou um verdadeiro dream team para surpreender aqueles não buscariam em um "faroeste", um drama de relações tão profundo como esse. Obviamente que todos os elementos visuais que o gênero pede estão impecáveis no filme: de uma fotografia maravilhosa da diretora Ari Wegner (de "Lady Macbeth") ao cenário primoroso de Grant Major (de "Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei"), passando pelos lindos figurinos de Kirsty Cameron (de "Oeste sem Lei") e, claro, pela trilha sonora marcante e essencial para o conceito narrativo funcionar, de Jonny Greenwood (indicado ao Oscar por "Trama Fantasma").
Jane Campion tem como característica um cuidado quase patológico com os detalhes para que seus filmes se tornem uma experiência totalmente sensorial. Em "Ataque dos Cães" ela alinha o artístico e o técnico perfeitamente, praticamente quebrando qualquer barreira que separe esses elementos, trazendo para o nosso olhar, enquadramentos de objetos, mãos e reações, de uma forma tão orgânica que chegamos a sentir arrepios com sua precisão. Reparem que, por mais discretos ou mesmo secretos que sejam, nenhum detalhe escapa e o desenho de som (apoiado na trilha sonora) só potencializa essa percepção de que tudo faz sentido, mesmo que quase nunca seja explicado (as revistas de fisiculturismo que Peter encontra é um ótimo exemplo disso e, certamente, o final também).
"Ataque dos Cães" pode colocar Benedict Cumberbatch em uma prateleira de ainda mais destaque, embora todo o elenco principal seja vital para isso - e não me surpreenderia se todos eles ganharem muitas indicações na próxima temporada de premiações, inclusive no Oscar. Acontece que o veredito, depois de mais de duas horas de filme, vai muito além do que imaginamos como trama, já que precisamos de alguns minutos para processar tudo que assistimos. Se a discussão sobre as relações de poder e a repressão dos desejos mais íntimos são categorizados como uma visão de masculinidade problemática enraizada na sociedade, pode ter certeza que o contraponto também está lá e será percebido naquele último suspiro antes dos créditos.
Vale muito a pena!
Up-date: "Ataque dos Cães" foi indicado em doze categorias no Oscar 2022, mas levou apenas como Melhor Direção!
"Atypical" é uma série pequena, mas muito bem estruturada. Ela conta a história de uma família onde o filho mais velho é autista. O interessante (e acho que o mérito maior da série) é que ela aborda temas bem pesados, atitudes e consequências delicadas, mas equilibra essa narrativa com certa leveza - na linha de "Extraordinário"! Ela mostra o problema, pontua com uma trilha excelente, mas depois não fica fazendo drama com assunto, pois cada um dos personagens lidam com suas atitudes de uma forma bem particular e adulta. Confira o trailer:
O protagonista de "Atypical", Sam (Keir Gilchrist) é um típico adolescente americano que está no ensino médio e passando por todos os dilemas da idade - com o diferencial de ser autista! Ao redor dele, além dos estereótipos clássicos que estamos acostumados a encontrar em séries desse tipo, está uma família um pouco confusa e amigos que desconsideram as reais necessidades de Sam. O interessante do roteiro é perceber algumas peculiaridades que, mesmo elevando um pouco o tom das relações, nos aproximam de uma realidade dramática e legítima. Vejam os personagens da mãe (Jennifer Jason Leigh) e do pai (Michael Rapaport) de Sam: eles caminham em jornadas completamente opostas, mesmo tendo o filho como referência - reparem e não se preocupem, o julgamento é justamente proposta pelo texto; mesmo que por empatia!
Outra personagem que merece destaque é a irmã Casey (Brigette Lundy-Paine) - mesmo que pareça um pouco ignorante de início, ela sabe lidar com Sam como poucas, com o silêncio ou até na gritaria, porém ela personifica seu amor através da compreensão, deixando de lado as relações de uma adolescente que vive os mesmos dilemas do irmão, só que em outra dimensão! O fato é que o roteiro trabalha muito bem essa dualidade, com a simplicidade do dia a dia e o desajuste de uma situação bem particular.
"Atypical" tem uma trama básica sobre problemas familiares que nos conquista logo de cara - é um ótimo exemplo de um bom drama fantasiado de comédia, que de boba não tem nada! O roteiro não se apoia na pieguice, ele questiona as atitudes de todos os personagens de maneira descontraída e mostra que ser normal é a missão mais complicada de todas, para todos!
Vale muito a pena!
"Atypical" é uma série pequena, mas muito bem estruturada. Ela conta a história de uma família onde o filho mais velho é autista. O interessante (e acho que o mérito maior da série) é que ela aborda temas bem pesados, atitudes e consequências delicadas, mas equilibra essa narrativa com certa leveza - na linha de "Extraordinário"! Ela mostra o problema, pontua com uma trilha excelente, mas depois não fica fazendo drama com assunto, pois cada um dos personagens lidam com suas atitudes de uma forma bem particular e adulta. Confira o trailer:
O protagonista de "Atypical", Sam (Keir Gilchrist) é um típico adolescente americano que está no ensino médio e passando por todos os dilemas da idade - com o diferencial de ser autista! Ao redor dele, além dos estereótipos clássicos que estamos acostumados a encontrar em séries desse tipo, está uma família um pouco confusa e amigos que desconsideram as reais necessidades de Sam. O interessante do roteiro é perceber algumas peculiaridades que, mesmo elevando um pouco o tom das relações, nos aproximam de uma realidade dramática e legítima. Vejam os personagens da mãe (Jennifer Jason Leigh) e do pai (Michael Rapaport) de Sam: eles caminham em jornadas completamente opostas, mesmo tendo o filho como referência - reparem e não se preocupem, o julgamento é justamente proposta pelo texto; mesmo que por empatia!
Outra personagem que merece destaque é a irmã Casey (Brigette Lundy-Paine) - mesmo que pareça um pouco ignorante de início, ela sabe lidar com Sam como poucas, com o silêncio ou até na gritaria, porém ela personifica seu amor através da compreensão, deixando de lado as relações de uma adolescente que vive os mesmos dilemas do irmão, só que em outra dimensão! O fato é que o roteiro trabalha muito bem essa dualidade, com a simplicidade do dia a dia e o desajuste de uma situação bem particular.
"Atypical" tem uma trama básica sobre problemas familiares que nos conquista logo de cara - é um ótimo exemplo de um bom drama fantasiado de comédia, que de boba não tem nada! O roteiro não se apoia na pieguice, ele questiona as atitudes de todos os personagens de maneira descontraída e mostra que ser normal é a missão mais complicada de todas, para todos!
Vale muito a pena!
"Bad Monkey" não tem o escracho de "Only Murders in the Building", muito menos a seriedade de "True Detective", no entanto essa série da AppleTV+ transita muito bem entre o conceito narrativo das duas - talvez mais para o lado dramático, eu diria. A verdade é que "Bad Monkey" chegou chancelada pela a assinatura de Bill Lawrence, responsável por nada menos que "Ted Lasso", "Scrubs" e "Falando a Real", ou seja, um dos showrunners mais bem-sucedidos da comédia contemporânea. Baseada no livro homônimo de Carl Hiaasen, a série combina um elegante (quase britânico) humor ácido com um drama policial mais tradicional, além de uma leve pitada de sátira social, para criar uma narrativa realmente envolvente ambientada na Flórida - um território já naturalmente caótico e propício para histórias que bebem na fonte do absurdo e do realismo mais cínico. O interessante aqui é que a série equilibra o mistério e a comicidade com uma trama que vai além do convencional, explorando o submundo dos golpes imobiliários e da corrupção em um dos estados mais pitorescos dos EUA.
"Bad Monkey" acompanha Andrew Yancy (Vince Vaughn), um ex-detetive rebaixado a inspetor de saúde pública após um incidente desastroso na polícia de Miami. Cansado de inspecionar restaurantes e determinado a recuperar sua posição, ele encontra a oportunidade perfeita quando um braço humano aparece misteriosamente na costa da Flórida. Convencido de que o caso esconde algo muito maior, Yancy inicia uma investigação informal que o leva para um labirinto de esquemas fraudulentos, corrupção, magnatas inescrupulosos e, claro, para o macaco travesso que dá nome à série. Confira o trailer (em inglês):
Sem dúvida que o tom leve da série é um de seus maiores trunfos. "Bad Monkey" captura perfeitamente a essência do romance de Carl Hiaasen, conhecido por seu humor afiado e personagens bem excêntricos. Bill Lawrence se aproveita dessa excelente matéria-prima para imprimir sua identidade narrativa, transformando um enredo policial envolvente em uma jornada cheia de diálogos rápidos, situações absurdas e reviravoltas inteligentes - mesmo exigindo uma certa abstração da realidade, é verdade. O roteiro não apenas mantém a audiência intrigada com o mistério central, como também cria ótimas camadas ao se aprofundar nos personagens secundários, cada um contribuindo para a construção de um universo insano e de certa forma satírico. Reparem como o narrador faz toda a diferença - ele pontua o tom da trama de forma esplendorosa.
Vince Vaughn lidera o elenco com um carisma natural e um timing cômico preciso - para muitos, esse é seu melhor trabalho em muito tempo. Seu Andrew Yancy é um protagonista típico de histórias noir contemporâneas: falho, persistente e irresistivelmente sarcástico - quase um Hank Moody da Costa Leste. Ao seu redor, encontramos um elenco de apoio que brilha com performances de fato marcantes - e aqui eu incluo o "bad monkey", que, apesar de ser um coadjuvante bastante peculiar, se torna uma peça fundamental para a trama. A série também conta com participações de atores renomados como John Ortiz e Tom Nowicki, o que reforça a qualidade da produção e a capacidade de Lawrence em atrair talentos para seus projetos, digamos, pouco convencionais.
Visualmente, Bad Monkey faz um ótimo trabalho ao capturar o lado ensolarado da Flórida, mas também aquela perspectiva mais sombria. A fotografia destaca as paisagens exuberantes e a decadência daquele universo com a mesma competência - e é impressionante como essa dicotomia cria uma atmosfera nostálgica e provocadora. O desenho de produção reforça e mood mais excêntrico, com cenários que transitam entre o kitsch e o luxuoso, refletindo bem os contrastes que a história tanto explora. A realidade é que "Bad Monkey" se destaca por sua habilidade de misturar gêneros sem perder o ritmo. A série não se limita a ser apenas uma comédia pastelão ou um angustiante drama policial, mas sim um híbrido bem dosado que alterna entre momentos de tensão, críticas sociais afiadas e cenas muito divertidas. Bill Lawrence demonstra, mais uma vez, seu talento para criar narrativas cativantes, construídas sobre personagens profundos e situações imprevisíveis que nos impedem de parar de assistir.
Vale muito o seu play!
"Bad Monkey" não tem o escracho de "Only Murders in the Building", muito menos a seriedade de "True Detective", no entanto essa série da AppleTV+ transita muito bem entre o conceito narrativo das duas - talvez mais para o lado dramático, eu diria. A verdade é que "Bad Monkey" chegou chancelada pela a assinatura de Bill Lawrence, responsável por nada menos que "Ted Lasso", "Scrubs" e "Falando a Real", ou seja, um dos showrunners mais bem-sucedidos da comédia contemporânea. Baseada no livro homônimo de Carl Hiaasen, a série combina um elegante (quase britânico) humor ácido com um drama policial mais tradicional, além de uma leve pitada de sátira social, para criar uma narrativa realmente envolvente ambientada na Flórida - um território já naturalmente caótico e propício para histórias que bebem na fonte do absurdo e do realismo mais cínico. O interessante aqui é que a série equilibra o mistério e a comicidade com uma trama que vai além do convencional, explorando o submundo dos golpes imobiliários e da corrupção em um dos estados mais pitorescos dos EUA.
"Bad Monkey" acompanha Andrew Yancy (Vince Vaughn), um ex-detetive rebaixado a inspetor de saúde pública após um incidente desastroso na polícia de Miami. Cansado de inspecionar restaurantes e determinado a recuperar sua posição, ele encontra a oportunidade perfeita quando um braço humano aparece misteriosamente na costa da Flórida. Convencido de que o caso esconde algo muito maior, Yancy inicia uma investigação informal que o leva para um labirinto de esquemas fraudulentos, corrupção, magnatas inescrupulosos e, claro, para o macaco travesso que dá nome à série. Confira o trailer (em inglês):
Sem dúvida que o tom leve da série é um de seus maiores trunfos. "Bad Monkey" captura perfeitamente a essência do romance de Carl Hiaasen, conhecido por seu humor afiado e personagens bem excêntricos. Bill Lawrence se aproveita dessa excelente matéria-prima para imprimir sua identidade narrativa, transformando um enredo policial envolvente em uma jornada cheia de diálogos rápidos, situações absurdas e reviravoltas inteligentes - mesmo exigindo uma certa abstração da realidade, é verdade. O roteiro não apenas mantém a audiência intrigada com o mistério central, como também cria ótimas camadas ao se aprofundar nos personagens secundários, cada um contribuindo para a construção de um universo insano e de certa forma satírico. Reparem como o narrador faz toda a diferença - ele pontua o tom da trama de forma esplendorosa.
Vince Vaughn lidera o elenco com um carisma natural e um timing cômico preciso - para muitos, esse é seu melhor trabalho em muito tempo. Seu Andrew Yancy é um protagonista típico de histórias noir contemporâneas: falho, persistente e irresistivelmente sarcástico - quase um Hank Moody da Costa Leste. Ao seu redor, encontramos um elenco de apoio que brilha com performances de fato marcantes - e aqui eu incluo o "bad monkey", que, apesar de ser um coadjuvante bastante peculiar, se torna uma peça fundamental para a trama. A série também conta com participações de atores renomados como John Ortiz e Tom Nowicki, o que reforça a qualidade da produção e a capacidade de Lawrence em atrair talentos para seus projetos, digamos, pouco convencionais.
Visualmente, Bad Monkey faz um ótimo trabalho ao capturar o lado ensolarado da Flórida, mas também aquela perspectiva mais sombria. A fotografia destaca as paisagens exuberantes e a decadência daquele universo com a mesma competência - e é impressionante como essa dicotomia cria uma atmosfera nostálgica e provocadora. O desenho de produção reforça e mood mais excêntrico, com cenários que transitam entre o kitsch e o luxuoso, refletindo bem os contrastes que a história tanto explora. A realidade é que "Bad Monkey" se destaca por sua habilidade de misturar gêneros sem perder o ritmo. A série não se limita a ser apenas uma comédia pastelão ou um angustiante drama policial, mas sim um híbrido bem dosado que alterna entre momentos de tensão, críticas sociais afiadas e cenas muito divertidas. Bill Lawrence demonstra, mais uma vez, seu talento para criar narrativas cativantes, construídas sobre personagens profundos e situações imprevisíveis que nos impedem de parar de assistir.
Vale muito o seu play!
"Bar Doce Lar" (ou de "The Tender Bar" no original) é o belíssimo novo filme dirigido por George Clooney que trata, com muita sensibilidade, as marcas que a ausência de um pai pode deixar no seu filho - mesmo que esse espaço seja preenchido com muito amor, atenção e dedicação pela mãe e por outra referência masculina. Para quem gosta de filmes sobre relações familiares, reflexivos e nada superficiais, "Bar Doce Lar" é um convite para quase 120 minutos de uma história interessante, cheia de camadas, mas principalmente, contada com honestidade e sem romantismo.
Baseado no livro de memórias de sucesso deJ. R. Moehringer, "Bar Doce Lar" segue um aspirante a escritor (Tye Sheridan) na busca pelos seus sonhos profissionais enquanto precisa lidar com sua insegurança perante uma vida que insiste em dificultar as coisas para ele. A partir de uma relação carinhosa (e de muito significado) com seu tio Charlie (Ben Affleck), J.R. se conecta com um mundo novo, cheio de possibilidades, de personagens e de histórias, onde ele aprende o real significado do amadurecimento e entende que para crescer será preciso enfrentar as angustias e as decepções sob uma outra perspectiva. Confira o trailer em inglês:
Talvez "Bar Doce Lar" não seja tão impactante quanto "Era uma vez um sonho" ou "O Castelo de Vidro", mas os elementos narrativos que guiam esses dois outros filmes imperdíveis, são basicamente os mesmos aqui. Isso traz uma certa sensação de falta de originalidade, mas ao mesmo tempo nos coloca diante de outra história que tende a nos provocar um olhar para dentro e discutir um assunto tão sensível como as dores que a ausência pode nos causar.
Clooney, em seu oitavo trabalho na direção, foi muito feliz em trabalhar as dualidades da história de uma forma quase imperceptível, mas completamente analítica do ponto de vista psicológico do protagonista. Vamos citar alguns signos para que você se atente e reflita durante o filme: quando criança J.R. se relaciona com o pai ausente apenas pelo rádio, chegando a nomina-lo como "A Voz", ao mesmo tempo, ele tem enorme dificuldade de se expressar pela fala, se apoiando na escrita para construir sua relação com o mundo. Sua mãe (Lily Rabe) sofre por ter que voltar a viver com os pais, mas J.R. não vê a menor dificuldade em chamar aquele ambiente caótico (pelo número de pessoas que moram ali) de lar. A história discute a ausência, enquanto J.R. insiste em dizer que gosta de estar com pessoas. Enquanto estuda em YALE onde adquire conhecimento acadêmico, o protagonista percebe que é no Bar do Tio, o "The Dickens", que ele realmente aprende a enfrentar as dificuldades da vida, e por aí vai...
O roteiro de William Monahan (vencedor do Oscar em 2006 com "Os Infiltrados") teve a difícil tarefa de adaptar uma longa biografia, mas foi cirúrgico em focar no processo de reencontro do protagonista com sua história de vida, mesmo que para isso tivesse que enfrentar seu maior fantasma: a já citada "ausência". Essa escolha conceitual, de fato, deixa o filme lento, bastante cadenciado, pontuando algumas passagens de forma até superficial para priorizar como isso refletiu no desafio interno de J. R. Moehringer e assim entender como essas situações serviram de combustível para ele encontrar seu caminho.
Veja, "Bar Doce Lar" não é um entretenimento usual, mas também não é um filme difícil ou denso demais como o assunto parece sugerir. Existe um tom de leveza, até por uma identificação imediata com o protagonista, nos dois períodos de sua vida (interpretados por Daniel Ranieri e depois por Tye Sheridan), e sua simpática relação com o tio Charlie de Affleck - mostrando mais uma vez que quando está com vontade, ele realmente é um ótimo ator (e que pode surpreender com uma indicação ao Oscar). Essas performances trazem para história uma certa atmosfera de nostalgia e isso nos ajuda a embarcar nas descobertas de J.R., transformando uma história de vida como muitas que conhecemos em uma jornada sensível, emocionante e muito honesta.
Vale seu play!
"Bar Doce Lar" (ou de "The Tender Bar" no original) é o belíssimo novo filme dirigido por George Clooney que trata, com muita sensibilidade, as marcas que a ausência de um pai pode deixar no seu filho - mesmo que esse espaço seja preenchido com muito amor, atenção e dedicação pela mãe e por outra referência masculina. Para quem gosta de filmes sobre relações familiares, reflexivos e nada superficiais, "Bar Doce Lar" é um convite para quase 120 minutos de uma história interessante, cheia de camadas, mas principalmente, contada com honestidade e sem romantismo.
Baseado no livro de memórias de sucesso deJ. R. Moehringer, "Bar Doce Lar" segue um aspirante a escritor (Tye Sheridan) na busca pelos seus sonhos profissionais enquanto precisa lidar com sua insegurança perante uma vida que insiste em dificultar as coisas para ele. A partir de uma relação carinhosa (e de muito significado) com seu tio Charlie (Ben Affleck), J.R. se conecta com um mundo novo, cheio de possibilidades, de personagens e de histórias, onde ele aprende o real significado do amadurecimento e entende que para crescer será preciso enfrentar as angustias e as decepções sob uma outra perspectiva. Confira o trailer em inglês:
Talvez "Bar Doce Lar" não seja tão impactante quanto "Era uma vez um sonho" ou "O Castelo de Vidro", mas os elementos narrativos que guiam esses dois outros filmes imperdíveis, são basicamente os mesmos aqui. Isso traz uma certa sensação de falta de originalidade, mas ao mesmo tempo nos coloca diante de outra história que tende a nos provocar um olhar para dentro e discutir um assunto tão sensível como as dores que a ausência pode nos causar.
Clooney, em seu oitavo trabalho na direção, foi muito feliz em trabalhar as dualidades da história de uma forma quase imperceptível, mas completamente analítica do ponto de vista psicológico do protagonista. Vamos citar alguns signos para que você se atente e reflita durante o filme: quando criança J.R. se relaciona com o pai ausente apenas pelo rádio, chegando a nomina-lo como "A Voz", ao mesmo tempo, ele tem enorme dificuldade de se expressar pela fala, se apoiando na escrita para construir sua relação com o mundo. Sua mãe (Lily Rabe) sofre por ter que voltar a viver com os pais, mas J.R. não vê a menor dificuldade em chamar aquele ambiente caótico (pelo número de pessoas que moram ali) de lar. A história discute a ausência, enquanto J.R. insiste em dizer que gosta de estar com pessoas. Enquanto estuda em YALE onde adquire conhecimento acadêmico, o protagonista percebe que é no Bar do Tio, o "The Dickens", que ele realmente aprende a enfrentar as dificuldades da vida, e por aí vai...
O roteiro de William Monahan (vencedor do Oscar em 2006 com "Os Infiltrados") teve a difícil tarefa de adaptar uma longa biografia, mas foi cirúrgico em focar no processo de reencontro do protagonista com sua história de vida, mesmo que para isso tivesse que enfrentar seu maior fantasma: a já citada "ausência". Essa escolha conceitual, de fato, deixa o filme lento, bastante cadenciado, pontuando algumas passagens de forma até superficial para priorizar como isso refletiu no desafio interno de J. R. Moehringer e assim entender como essas situações serviram de combustível para ele encontrar seu caminho.
Veja, "Bar Doce Lar" não é um entretenimento usual, mas também não é um filme difícil ou denso demais como o assunto parece sugerir. Existe um tom de leveza, até por uma identificação imediata com o protagonista, nos dois períodos de sua vida (interpretados por Daniel Ranieri e depois por Tye Sheridan), e sua simpática relação com o tio Charlie de Affleck - mostrando mais uma vez que quando está com vontade, ele realmente é um ótimo ator (e que pode surpreender com uma indicação ao Oscar). Essas performances trazem para história uma certa atmosfera de nostalgia e isso nos ajuda a embarcar nas descobertas de J.R., transformando uma história de vida como muitas que conhecemos em uma jornada sensível, emocionante e muito honesta.
Vale seu play!
Se você é fã de true crime (mas fã mesmo), você vai se amarrar em "Baseado Numa História Real" - não por ser mais uma trama do gênero, mas pela forma como a narrativa brinca com os elementos dramáticos tão característicos para construir mistérios que vem conquistando uma audiência absurda nos últimos anos. "Baseado Numa História Real" está para o true crime, da mesma forma que Silicon Valley está para o universo de startups. Lançada em 2023 pelo Peacock e aqui distribuída pelo Globoplay, a série criada por Craig Rosenberg (de, nada menos que, "The Boys"), combina a leveza da sátira com a densidade do suspense para explorar a obsessão contemporânea com crimes reais e a cultura dos podcasts sobre o assunto. Com uma abordagem que mescla humor ácido (um tanto sombrio em vários momentos), mistério e crítica social, "Baseado Numa História Real" questiona o fascínio que o público tem por histórias de crimes violentos, enquanto cria uma jornada envolvente e, por vezes, desconcertante.
A trama gira em torno de Ava (Kaley Cuoco) e Nathan (Chris Messina), um casal de Los Angeles que, ao enfrentar dificuldades financeiras, vê uma oportunidade lucrativa quando descobrem que alguém próximo a eles pode ser um assassino em série. Em vez de denunciar o criminoso, eles decidem criar um podcast de crime real, capitalizando o fascínio público por esse tipo de conteúdo. Ao longo dos 8 episódios, o casal se vê envolvido em uma série de eventos cada vez mais perigosos e fora de controle, enquanto tentam equilibrar suas vidas pessoais e o desejo de sucesso na mídia. Confira o trailer:
Uma das forças de "Baseado Numa História Real", sem dúvida, é a forma como a série satiriza a obsessão moderna por crimes reais - menos pastelão de que "Only Murders in the Building"e menos criativa que "Depois da Festa", no entanto igualmente divertida e possivelmente mais equilibrada do que as duas. Se criação de podcasts e séries documentais sobre assassinatos se tornou um fenômeno da cultura pop, a série de Craig Rosenberg captura muito bem a ironia dessa obsessão ao questionar o quanto as pessoas estão dispostas a explorar o sofrimento real em nome do entretenimento (e, óbvio, do dinheiro). Ava e Nathan, longe de serem heróis tradicionais, se tornam cúmplices morais na exploração de uma tragédia para seus próprios ganhos, o que faz a audiência refletir sobre a linha tênue entre a curiosidade e a hipocrisia.
A série se destaca também pelo tom sarcástico, mesmo quando lida com temas perturbadores ou cenas visualmente impactantes. O humor negro do roteiro permeia os diálogos e as situações absurdas em que Ava e Nathan se metem - o que ajuda nesse equilíbrio entre o suspense crescente e os momentos mais leves da história. Essa mistura de comédia e tensão, aliás, é uma das marcas registradas da narrativa de Rosenberg, basta lembrar de "The Boys, porém, aqui, com episódios mais curtos e uma trama que avança rapidamente, a narrativa precisa ser realmente eficaz para manter o engajamento. Repleta de reviravoltas inesperadas que, embora por vezes exageradas, mantêm o tom cômico e satírico, a série usa e abusa de um ar de imprevisibilidade que funciona demais! Kaley Cuoco parece se reinventar mais uma vez - ela oferece uma atuação divertida e cheia de camadas. Repare como ela é competente ao criar uma mulher desesperada para revitalizar sua vida e seu casamento, ao mesmo tempo em que se vê fascinada pela possibilidade de sucesso financeiro com o podcast. E aí a química com Chris Messina se faz valer - é o marido cético e pragmático que, apesar de inicialmente hesitante, acaba sendo atraído pela ideia da mulher amada, o que cria uma dinâmica interessante entre o casal.
Já pelo título, a crítica que "Baseado Numa História Real" faz ao consumo desenfreado de histórias de crimes reais, levanta questões sobre a moralidade de transformar a brutalidade em entretenimento e a forma como o público, muitas vezes, se desconecta da realidade por trás dessas histórias. Os protagonistas que inicialmente começam o podcast como uma solução para seus problemas, rapidamente percebem que estão em um caminho perigoso e que pode ter consequências reais - esse "comentário" sobre a desumanização do trágico na cultura moderna dá à série uma profundidade surpreendente, fazendo com que "as entrelinhas" cheguem muito além de um comédia superficial.
Vale a pena conferir!
Se você é fã de true crime (mas fã mesmo), você vai se amarrar em "Baseado Numa História Real" - não por ser mais uma trama do gênero, mas pela forma como a narrativa brinca com os elementos dramáticos tão característicos para construir mistérios que vem conquistando uma audiência absurda nos últimos anos. "Baseado Numa História Real" está para o true crime, da mesma forma que Silicon Valley está para o universo de startups. Lançada em 2023 pelo Peacock e aqui distribuída pelo Globoplay, a série criada por Craig Rosenberg (de, nada menos que, "The Boys"), combina a leveza da sátira com a densidade do suspense para explorar a obsessão contemporânea com crimes reais e a cultura dos podcasts sobre o assunto. Com uma abordagem que mescla humor ácido (um tanto sombrio em vários momentos), mistério e crítica social, "Baseado Numa História Real" questiona o fascínio que o público tem por histórias de crimes violentos, enquanto cria uma jornada envolvente e, por vezes, desconcertante.
A trama gira em torno de Ava (Kaley Cuoco) e Nathan (Chris Messina), um casal de Los Angeles que, ao enfrentar dificuldades financeiras, vê uma oportunidade lucrativa quando descobrem que alguém próximo a eles pode ser um assassino em série. Em vez de denunciar o criminoso, eles decidem criar um podcast de crime real, capitalizando o fascínio público por esse tipo de conteúdo. Ao longo dos 8 episódios, o casal se vê envolvido em uma série de eventos cada vez mais perigosos e fora de controle, enquanto tentam equilibrar suas vidas pessoais e o desejo de sucesso na mídia. Confira o trailer:
Uma das forças de "Baseado Numa História Real", sem dúvida, é a forma como a série satiriza a obsessão moderna por crimes reais - menos pastelão de que "Only Murders in the Building"e menos criativa que "Depois da Festa", no entanto igualmente divertida e possivelmente mais equilibrada do que as duas. Se criação de podcasts e séries documentais sobre assassinatos se tornou um fenômeno da cultura pop, a série de Craig Rosenberg captura muito bem a ironia dessa obsessão ao questionar o quanto as pessoas estão dispostas a explorar o sofrimento real em nome do entretenimento (e, óbvio, do dinheiro). Ava e Nathan, longe de serem heróis tradicionais, se tornam cúmplices morais na exploração de uma tragédia para seus próprios ganhos, o que faz a audiência refletir sobre a linha tênue entre a curiosidade e a hipocrisia.
A série se destaca também pelo tom sarcástico, mesmo quando lida com temas perturbadores ou cenas visualmente impactantes. O humor negro do roteiro permeia os diálogos e as situações absurdas em que Ava e Nathan se metem - o que ajuda nesse equilíbrio entre o suspense crescente e os momentos mais leves da história. Essa mistura de comédia e tensão, aliás, é uma das marcas registradas da narrativa de Rosenberg, basta lembrar de "The Boys, porém, aqui, com episódios mais curtos e uma trama que avança rapidamente, a narrativa precisa ser realmente eficaz para manter o engajamento. Repleta de reviravoltas inesperadas que, embora por vezes exageradas, mantêm o tom cômico e satírico, a série usa e abusa de um ar de imprevisibilidade que funciona demais! Kaley Cuoco parece se reinventar mais uma vez - ela oferece uma atuação divertida e cheia de camadas. Repare como ela é competente ao criar uma mulher desesperada para revitalizar sua vida e seu casamento, ao mesmo tempo em que se vê fascinada pela possibilidade de sucesso financeiro com o podcast. E aí a química com Chris Messina se faz valer - é o marido cético e pragmático que, apesar de inicialmente hesitante, acaba sendo atraído pela ideia da mulher amada, o que cria uma dinâmica interessante entre o casal.
Já pelo título, a crítica que "Baseado Numa História Real" faz ao consumo desenfreado de histórias de crimes reais, levanta questões sobre a moralidade de transformar a brutalidade em entretenimento e a forma como o público, muitas vezes, se desconecta da realidade por trás dessas histórias. Os protagonistas que inicialmente começam o podcast como uma solução para seus problemas, rapidamente percebem que estão em um caminho perigoso e que pode ter consequências reais - esse "comentário" sobre a desumanização do trágico na cultura moderna dá à série uma profundidade surpreendente, fazendo com que "as entrelinhas" cheguem muito além de um comédia superficial.
Vale a pena conferir!
Não por acaso esperei terminar as duas temporadas de "Big Little Lies" para fazer esse review. A série (que nasceu como minissérie em 2017 na HBO) é daquelas imperdíveis, pois equilibra muito bem uma ótima produção, uma excelente direção e uma trama inteligente - principalmente na temporada 1. Vale dizer, inclusive, que se você já assistiu a primeira temporada, fizemos um "primeiras impressões" sobre essa última e você pode ler aqui. Pois bem, para quem ainda não teve o prazer de assistir os 14 episódios disponíveis, vai uma rápida sinopse que vou me aprofundar um pouco mais abaixo: A série tem como ponto de partida um possível assassinado que ocorreu na pequena cidade de Monterrey, na Califórnia. Como toda cidade pequena, fofocas e comentários tomam conta do dia a dia da comunidade que é mostrado em retrospectiva (com um show de edição) pelo ponto de vista de quatro mulheres: Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman), Renata (Laura Dern) e Jane (Shailene Woodley). Tendo esse mistério como pano de fundo, "Big Little Lies" fala sobre conflitos de relacionamentos entre amigos, pares e filhos de uma forma muito direta. Ao mesmo tempo que expõe a fragilidade do ser humano com temas complexos como o de uma relação violenta e abusiva, também trata de casualidades como um desentendimento entre crianças na sala de aula. O fato é que Big Little Lies trás o que tem de melhor em entretenimento disponível e vale muito (mas muito) à pena! Confira o trailer:
O ritmo fragmentado, completamente não linear, cheio de cortes bruscos e flashes aparentemente sem sentido pode assustar num primeiro momento. É compreensível, pois o diretor Jean-Marc Vallée usa de uma técnica extremamente clipada para criar uma série de sensações e expectativas - o fato é que, de repente, já estamos vidrados e imersos naquela trama cheia de mistérios. Embora "Big Little Lies" tenha uma divisão narrativa bastante clara ente uma e outra temporada, o conceito estético se mantém como um dos maiores acertos da produção - é realmente lindo o trabalho de concepção de Vallée que a diretora Andrea Arnold mantém na segunda temporada. Se engana quem acredita que a série tem como objetivo falar apenas sobre um possível crime onde não sabemos nada sobre a vítima e sobre o assassino, isso é só o gatilho para focar em temas espinhosos e cotidianos. Sim, no final da primeira temporada descobrimos quem matou e quem é a vítima e isso seria suficiente para finalizar a obra, mas com tanto sucesso a HBO resolveu arriscar uma continuação e, digamos, se deu bem, mas com um "porém". A segunda temporada continua tratando dos mesmos temas espinhosos, mas com uma pequena (mas importante) falha na identidade narrativa - ela muda de sub-gênero sem mais nem menos. No inicio tudo leva a crer que o pano de fundo será a consequência do crime e sua investigação, mas lentamente vai se perdendo ao dar mais valor à uma disputa familiar do tribunal. São 4 ou 5 episódios alinhados àquela trama consistente da primeira temporada e outros 2 episódios perdidos pelo caminho. Que fique claro que isso não torna a série ruim, menos intrigante ou dispensável, muito pelo contrario, assistir Meryl Streep como Mary Louise Wright é um enorme prazer, mas não se pode negar que a série se mostrou de uma forma e a entrega não acompanhou a expectativa inicial. Digamos que fugiu do tema!
É óbvio que a primeira temporada de "Big Little Lies" é melhor, mas não achei ruim a segunda não. Começa muito bem, dá a impressão que vai decolar, mas aí caí no comum, no caricato do sonho americano e não surpreende, mas diverte! Já a relação entre as personagens e seus problemas íntimos e sociais continuam bem consistentes como na temporada anterior - eu diria que é isso que segura a série, embora as soluções sejam incrivelmente mais rápidas que o seu desenvolvimento. O destaque positivo, para mim, foi o enorme crescimento da personagem Renata (Laura Dern) e o negativo foi a falta de protagonismo da personagem Jane (Shailene Woodley). Madeline (Reese Witherspoon) e Celeste (Nicole Kidman) continuam interessantes. A quinta do grupo e que, naturalmente, ganhou um pouco mais de destaque nessa temporada, Bonnie (Zoë Kravitz) não se encaixou - é possível entender seu arco, tem um final interessante, mas não tem o menor carisma e o plot sobrenatural da relação com sua mãe é completamente dispensável!
Como disse acima, "Big Little Lies" é imperdível. Tem uma primeira temporada digna das dezenas de prêmios que ganhou, com uma trama muito bem amarrada e um final interessante. Já aquele famoso receio de transformar uma minissérie em série se confirma, faz com que BLL perca força e tenha que se apoiar exclusivamente no talento das protagonistas. Fica ruim? Não, mas se perde dentro dos seus próprios méritos - me trouxe um pouco da ressaca de "Bloodline". Vale a pena? Muito!
Não por acaso esperei terminar as duas temporadas de "Big Little Lies" para fazer esse review. A série (que nasceu como minissérie em 2017 na HBO) é daquelas imperdíveis, pois equilibra muito bem uma ótima produção, uma excelente direção e uma trama inteligente - principalmente na temporada 1. Vale dizer, inclusive, que se você já assistiu a primeira temporada, fizemos um "primeiras impressões" sobre essa última e você pode ler aqui. Pois bem, para quem ainda não teve o prazer de assistir os 14 episódios disponíveis, vai uma rápida sinopse que vou me aprofundar um pouco mais abaixo: A série tem como ponto de partida um possível assassinado que ocorreu na pequena cidade de Monterrey, na Califórnia. Como toda cidade pequena, fofocas e comentários tomam conta do dia a dia da comunidade que é mostrado em retrospectiva (com um show de edição) pelo ponto de vista de quatro mulheres: Madeline (Reese Witherspoon), Celeste (Nicole Kidman), Renata (Laura Dern) e Jane (Shailene Woodley). Tendo esse mistério como pano de fundo, "Big Little Lies" fala sobre conflitos de relacionamentos entre amigos, pares e filhos de uma forma muito direta. Ao mesmo tempo que expõe a fragilidade do ser humano com temas complexos como o de uma relação violenta e abusiva, também trata de casualidades como um desentendimento entre crianças na sala de aula. O fato é que Big Little Lies trás o que tem de melhor em entretenimento disponível e vale muito (mas muito) à pena! Confira o trailer:
O ritmo fragmentado, completamente não linear, cheio de cortes bruscos e flashes aparentemente sem sentido pode assustar num primeiro momento. É compreensível, pois o diretor Jean-Marc Vallée usa de uma técnica extremamente clipada para criar uma série de sensações e expectativas - o fato é que, de repente, já estamos vidrados e imersos naquela trama cheia de mistérios. Embora "Big Little Lies" tenha uma divisão narrativa bastante clara ente uma e outra temporada, o conceito estético se mantém como um dos maiores acertos da produção - é realmente lindo o trabalho de concepção de Vallée que a diretora Andrea Arnold mantém na segunda temporada. Se engana quem acredita que a série tem como objetivo falar apenas sobre um possível crime onde não sabemos nada sobre a vítima e sobre o assassino, isso é só o gatilho para focar em temas espinhosos e cotidianos. Sim, no final da primeira temporada descobrimos quem matou e quem é a vítima e isso seria suficiente para finalizar a obra, mas com tanto sucesso a HBO resolveu arriscar uma continuação e, digamos, se deu bem, mas com um "porém". A segunda temporada continua tratando dos mesmos temas espinhosos, mas com uma pequena (mas importante) falha na identidade narrativa - ela muda de sub-gênero sem mais nem menos. No inicio tudo leva a crer que o pano de fundo será a consequência do crime e sua investigação, mas lentamente vai se perdendo ao dar mais valor à uma disputa familiar do tribunal. São 4 ou 5 episódios alinhados àquela trama consistente da primeira temporada e outros 2 episódios perdidos pelo caminho. Que fique claro que isso não torna a série ruim, menos intrigante ou dispensável, muito pelo contrario, assistir Meryl Streep como Mary Louise Wright é um enorme prazer, mas não se pode negar que a série se mostrou de uma forma e a entrega não acompanhou a expectativa inicial. Digamos que fugiu do tema!
É óbvio que a primeira temporada de "Big Little Lies" é melhor, mas não achei ruim a segunda não. Começa muito bem, dá a impressão que vai decolar, mas aí caí no comum, no caricato do sonho americano e não surpreende, mas diverte! Já a relação entre as personagens e seus problemas íntimos e sociais continuam bem consistentes como na temporada anterior - eu diria que é isso que segura a série, embora as soluções sejam incrivelmente mais rápidas que o seu desenvolvimento. O destaque positivo, para mim, foi o enorme crescimento da personagem Renata (Laura Dern) e o negativo foi a falta de protagonismo da personagem Jane (Shailene Woodley). Madeline (Reese Witherspoon) e Celeste (Nicole Kidman) continuam interessantes. A quinta do grupo e que, naturalmente, ganhou um pouco mais de destaque nessa temporada, Bonnie (Zoë Kravitz) não se encaixou - é possível entender seu arco, tem um final interessante, mas não tem o menor carisma e o plot sobrenatural da relação com sua mãe é completamente dispensável!
Como disse acima, "Big Little Lies" é imperdível. Tem uma primeira temporada digna das dezenas de prêmios que ganhou, com uma trama muito bem amarrada e um final interessante. Já aquele famoso receio de transformar uma minissérie em série se confirma, faz com que BLL perca força e tenha que se apoiar exclusivamente no talento das protagonistas. Fica ruim? Não, mas se perde dentro dos seus próprios méritos - me trouxe um pouco da ressaca de "Bloodline". Vale a pena? Muito!
Se você assiste "Bird Box", suspense da Netflix, com a expectativa de levar um caminhão de sustos ou de se deparar com uma terrível criatura de outro mundo em alguma cena-chave do filme, você vai se decepcionar!!! "Bird Box" não é esse tipo suspense, ele mais esconde (ou sugere) do que mostra! Se inicialmente isso te parece um problema, te garanto que não é - o filme tem uma trama bem desenvolvida e uma edição que potencializa essa virtude, criando uma dinâmica bastante envolvente! Ah, mas eu também preciso mencionar que assisti o filme sem ler o livro, o que ajudou muito na minha experiência, porque eu não sabia quase nada sobre a história além do que vi no trailer.
Bom, eu gostei do filme! Depois que terminei de assistir, minha percepção foi que "Bird Box" tem o roteiro que o M. Night Shyamalan precisava quando dirigiu "Fim dos Tempos" em 2008, afinal a premissa é muito parecida: "O mistério por trás de um surto de suicídios de pessoas normais, sem nenhum motivo aparente!" A verdade é que "Bird Box" tem um roteiro muito mais redondo (escrito pelo excelente Eric Heisserer - o mesmo de "A Chegada") do que "The Happening" (título original), mas não tem a genialidade da direção do Shyamalan - embora a dinamarquesa Susanne Bier faça um trabalho bastante competente, fica impossível não pensar na capacidade que o M. Night Shyamalan tem de criar aquela tensão, a expectativa sobre o que um personagem vai encontrar no próximo movimento. Ele é mestre nisso!
"Bird Box" tem o mistério, tem essa tensão, mas o drama da protagonista parece se sobrepor ao próprio gênero. As escolhas artísticas de não mostrar o "monstro/extraterreste" colabora para isso - aliás, a solução apresentada pela diretora para desenhar o momento de tensão da aproximação dessa entidade malígna lembra muito a "Black Smoke" de Lost. Só como curiosidade, li uma entrevista com a diretora onde ela comentava sobre essas escolhas, e ela disse que, por pressão dos executivos da Netflix, ela chegou a filmar uma sequência onde o "monstro" aparece, porém ela precisou cortar a cena na montagem, pois "o resultado pareceu muito mais cômico do que assustador!"- Fez bem!!!!
"Bird Box" bebe na fonte do conceito narrativo de "Tubarão" do Spielberg - 43 anos depois, é melhor não mostrar do que mostrar uma porcaria! Com isso, Susanne Bier criou um drama psicológico mais convincente que um suspende clássico, o problema é que parte do público estava esperando um suspense mais, digamos, expositivo! Pessoalmente, eu fiquei feliz com o drama e o equilíbrio com o suspense em si, achei bem produzido, bem fotografado, os atores estão bem, mas o fato é que não dá para classificar "Bird Box" como imperdível - ele é um bom entretenimento, nada além disso! Vale a diversão, vale o play!
Se você assiste "Bird Box", suspense da Netflix, com a expectativa de levar um caminhão de sustos ou de se deparar com uma terrível criatura de outro mundo em alguma cena-chave do filme, você vai se decepcionar!!! "Bird Box" não é esse tipo suspense, ele mais esconde (ou sugere) do que mostra! Se inicialmente isso te parece um problema, te garanto que não é - o filme tem uma trama bem desenvolvida e uma edição que potencializa essa virtude, criando uma dinâmica bastante envolvente! Ah, mas eu também preciso mencionar que assisti o filme sem ler o livro, o que ajudou muito na minha experiência, porque eu não sabia quase nada sobre a história além do que vi no trailer.
Bom, eu gostei do filme! Depois que terminei de assistir, minha percepção foi que "Bird Box" tem o roteiro que o M. Night Shyamalan precisava quando dirigiu "Fim dos Tempos" em 2008, afinal a premissa é muito parecida: "O mistério por trás de um surto de suicídios de pessoas normais, sem nenhum motivo aparente!" A verdade é que "Bird Box" tem um roteiro muito mais redondo (escrito pelo excelente Eric Heisserer - o mesmo de "A Chegada") do que "The Happening" (título original), mas não tem a genialidade da direção do Shyamalan - embora a dinamarquesa Susanne Bier faça um trabalho bastante competente, fica impossível não pensar na capacidade que o M. Night Shyamalan tem de criar aquela tensão, a expectativa sobre o que um personagem vai encontrar no próximo movimento. Ele é mestre nisso!
"Bird Box" tem o mistério, tem essa tensão, mas o drama da protagonista parece se sobrepor ao próprio gênero. As escolhas artísticas de não mostrar o "monstro/extraterreste" colabora para isso - aliás, a solução apresentada pela diretora para desenhar o momento de tensão da aproximação dessa entidade malígna lembra muito a "Black Smoke" de Lost. Só como curiosidade, li uma entrevista com a diretora onde ela comentava sobre essas escolhas, e ela disse que, por pressão dos executivos da Netflix, ela chegou a filmar uma sequência onde o "monstro" aparece, porém ela precisou cortar a cena na montagem, pois "o resultado pareceu muito mais cômico do que assustador!"- Fez bem!!!!
"Bird Box" bebe na fonte do conceito narrativo de "Tubarão" do Spielberg - 43 anos depois, é melhor não mostrar do que mostrar uma porcaria! Com isso, Susanne Bier criou um drama psicológico mais convincente que um suspende clássico, o problema é que parte do público estava esperando um suspense mais, digamos, expositivo! Pessoalmente, eu fiquei feliz com o drama e o equilíbrio com o suspense em si, achei bem produzido, bem fotografado, os atores estão bem, mas o fato é que não dá para classificar "Bird Box" como imperdível - ele é um bom entretenimento, nada além disso! Vale a diversão, vale o play!
"Black Bird" é mais uma excelente minissérie de "true crime" que encontramos no streaming da Apple. Eu diria que ela não é excepcional como os títulos que estamos acostumados a encontrar na HBO, mas já é possível afirmar que a plataforma, essa sim, começa a despontar, ao lado do Star+, como uma ótima opção para quem gosta do gênero. Com seis episódios de uma hora e criação de Dennis Lehane, roteirista e romancista americano, autor de sucessos como "Sobre Meninos e Lobos" e "Ilha do Medo", além de produtor de "Outsider" (adaptação de Stephen King para HBO), "Black Bird" entrega o que promete ao mostrar a jornada real de transformação de James "Jimmy" Keene enquanto ajudava o FBI a evitar a soltura de Larry Hall, um forte suspeito de ser um serial killer.
O ano é 1996, quando o charmoso traficante e ex-astro de futebol do colegial Jimmy Keene (Taron Egerton) é sentenciado a 10 anos de prisão após uma operação do FBI, que além das drogas descobriu uma quantidade considerável de armas ilegais. Para se livrar da pena, Keene recebe uma proposta arriscada das autoridades: ele precisa ser transferido para uma prisão de segurança máxima, se aproximar de Larry Hall (Paul Walter Hauser), e assim conseguir uma confissão a fim de que o maníaco ligado ao desaparecimento de várias garotas, seja mantido preso, e os corpos das vítimas, encontrados. Confira o trailer:
A história sobre essa medida drástica do FBI para tentar anular um recurso de defesa de Hall que estava prestes a conseguir uma liberdade condicional por falta de provas que realmente ligasse o seu nome aos crimes, foi contada no livro "In with the Devil: A Fallen Hero, a Serial Killer, and a Dangerous Bargain for Redemption" em que o verdadeiro Keene escreveu ao lado de Hillel Levin, porém é na adaptação de Lehane que a trama ganha ares de mistério e tensão ao estabelecer elementos investigativos fora da prisão, por parte da dupla Brian Miller (Greg Kinnear) e Lauren McCauley (Sepideh Moafi), e um forte drama psicológico de dentro da prisão, graças aos embates bem estruturados entre Keene e Hall.
O problema, no entanto, é que Lehane escorrega ao colocar mais sub-tramas, ao melhor estilo "Oz", que não se sustentam - ou melhor, que não são tão bem exploradas quanto a linha narrativa principal. Os plots do protagonista com o policial corrupto e com o mafioso "dono do pedaço", são tão frágeis quanto as cenas que exploram a relação com seu pai Jim Keene (o saudoso e quase irreconhecível Ray Liotta). Veja, não que essas sub-tramas sejam ruins, elas só não são exploradas como deveriam (ou poderiam) se a minissérie tivesse mais dois episódios, por exemplo - existe uma simplicidade na construção do roteiro, que se permite um ou outro retrocesso temporal (alguns até poéticos como o visto no episódio 5) para desenvolver ou explicar algumas camadas dos personagens, mas que nunca se aprofundam.
A direção de Michäel R. Roskam, Jim McKay e Joe Chappelle também escorrega, mas não compromete (a cena da rebelião é ruim, o resto fica bem na média). Já as performances de Taron Egerton e principalmente de Paul Walter Hauser merecem elogios - Hauser, aliás, merece ser lembrado em premiações. Seu personagem fala manso, é cheio de tiques, aproveita bem o silêncio, mas ao mesmo tempo é macabro, violento no olhar, sádico no leve sorriso. Com isso, é muito fácil concluir que "Black Bird" é uma obra de dois excelentes atores disputando um jogo de persuasão e ironia, onde o texto e a direção encontram o seu ápice na simplicidade e na dinâmica dos episódios que parecem voar.
Vale seu play!
"Black Bird" é mais uma excelente minissérie de "true crime" que encontramos no streaming da Apple. Eu diria que ela não é excepcional como os títulos que estamos acostumados a encontrar na HBO, mas já é possível afirmar que a plataforma, essa sim, começa a despontar, ao lado do Star+, como uma ótima opção para quem gosta do gênero. Com seis episódios de uma hora e criação de Dennis Lehane, roteirista e romancista americano, autor de sucessos como "Sobre Meninos e Lobos" e "Ilha do Medo", além de produtor de "Outsider" (adaptação de Stephen King para HBO), "Black Bird" entrega o que promete ao mostrar a jornada real de transformação de James "Jimmy" Keene enquanto ajudava o FBI a evitar a soltura de Larry Hall, um forte suspeito de ser um serial killer.
O ano é 1996, quando o charmoso traficante e ex-astro de futebol do colegial Jimmy Keene (Taron Egerton) é sentenciado a 10 anos de prisão após uma operação do FBI, que além das drogas descobriu uma quantidade considerável de armas ilegais. Para se livrar da pena, Keene recebe uma proposta arriscada das autoridades: ele precisa ser transferido para uma prisão de segurança máxima, se aproximar de Larry Hall (Paul Walter Hauser), e assim conseguir uma confissão a fim de que o maníaco ligado ao desaparecimento de várias garotas, seja mantido preso, e os corpos das vítimas, encontrados. Confira o trailer:
A história sobre essa medida drástica do FBI para tentar anular um recurso de defesa de Hall que estava prestes a conseguir uma liberdade condicional por falta de provas que realmente ligasse o seu nome aos crimes, foi contada no livro "In with the Devil: A Fallen Hero, a Serial Killer, and a Dangerous Bargain for Redemption" em que o verdadeiro Keene escreveu ao lado de Hillel Levin, porém é na adaptação de Lehane que a trama ganha ares de mistério e tensão ao estabelecer elementos investigativos fora da prisão, por parte da dupla Brian Miller (Greg Kinnear) e Lauren McCauley (Sepideh Moafi), e um forte drama psicológico de dentro da prisão, graças aos embates bem estruturados entre Keene e Hall.
O problema, no entanto, é que Lehane escorrega ao colocar mais sub-tramas, ao melhor estilo "Oz", que não se sustentam - ou melhor, que não são tão bem exploradas quanto a linha narrativa principal. Os plots do protagonista com o policial corrupto e com o mafioso "dono do pedaço", são tão frágeis quanto as cenas que exploram a relação com seu pai Jim Keene (o saudoso e quase irreconhecível Ray Liotta). Veja, não que essas sub-tramas sejam ruins, elas só não são exploradas como deveriam (ou poderiam) se a minissérie tivesse mais dois episódios, por exemplo - existe uma simplicidade na construção do roteiro, que se permite um ou outro retrocesso temporal (alguns até poéticos como o visto no episódio 5) para desenvolver ou explicar algumas camadas dos personagens, mas que nunca se aprofundam.
A direção de Michäel R. Roskam, Jim McKay e Joe Chappelle também escorrega, mas não compromete (a cena da rebelião é ruim, o resto fica bem na média). Já as performances de Taron Egerton e principalmente de Paul Walter Hauser merecem elogios - Hauser, aliás, merece ser lembrado em premiações. Seu personagem fala manso, é cheio de tiques, aproveita bem o silêncio, mas ao mesmo tempo é macabro, violento no olhar, sádico no leve sorriso. Com isso, é muito fácil concluir que "Black Bird" é uma obra de dois excelentes atores disputando um jogo de persuasão e ironia, onde o texto e a direção encontram o seu ápice na simplicidade e na dinâmica dos episódios que parecem voar.
Vale seu play!
"Blind" é um grande filme, mas você só vai perceber isso depois que conseguir digerir sua proposta e, em retrospectiva, encaixar uma série de detalhes que a principio pareciam até uma certa loucura do roteirista ou um experimento cinematográfico para um público bem alternativo e amante da arte independente! Vai por mim: tudo fará muito sentido e a genialidade da dinâmica narrativa de "Blind" é justamente a de brincar com nossas percepções, como se não conseguíssemos enxergar as várias pistas que o diretor Eskil Vogt vai nos dando - e não estou sendo redundante.
Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) é uma linda mulher que perdeu a visão já adulta. Aparentemente deprimida com a nova condição, ela resolve ficar isolada em sua própria casa, onde se sente mais segura. Seu grande parceiro nesta difícil adaptação é o marido, Morten (Henrik Rafaelsen). Porém, com o passar dos dias, presa em um cotidiano monocromático, suas lembranças de um mundo que ela conheceu vão desaparecendo gradativamente, é quando ela percebe que o maior perigo está dentro de si mesma. Confira o trailer:
"Blind" fala sobre a solidão e os reflexos que ela pode causar no nosso comportamento - principalmente se essa solidão for uma escolha, mesmo que inconsciente, para se proteger de uma nova condição. O impacto que ela causa no outro é tão profundo quanto reflexivo e talvez esse premiado filme norueguês pareça confuso demais para quem não está disposto a embarcar em uma narrativa bastante particular - e aqui não basta estar apenas disposto, será preciso ter paciência até que as coisas façam sentido! O filme não é "uma viagem" , ele é uma representação clara de como nossa mente pode nos derrubar a qualquer momento e isso se extende para quem está assistindo. Olha, filme tão difícil, quanto genial! Vale muito a pena!
"Blind" foi premiado como Melhor Roteiro no Festival de Sundance, nos EUA, em 2014; foi exibido com sucesso e também premiado no Festival de Berlim com o "Label Europa Cinema", além de acumular mais de uma dezena de indicações e troféus em festivais ao redor do mundo! Com essa chancela, "Blind" se permite sair do óbvio desde o seu roteiro até sua direção e quem amarra tudo isso é uma montagem sensacional. Toda estranheza incomoda visualmente e é com uma edição bem orgânica que a narrativa subverte o conceito espacial e temporal, fazendo nossa cabeça quase explodir!
É muito interessante como o mundo de Ingrid é exatamente o mesmo de quem assiste ao filme - existe uma linha muito tênue entre realidade e imaginação e seguindo essa lógica, o diretor Eskil Vogt, nos convida para brincar - não foi uma vez que pausei e voltei o filme para tentar entender o que tinha acontecido ou se foi uma distração momentânea que tinha me confundido. O bacana é que a história vai se desenvolvendo sem a menor pressa, mesmo correndo o risco de perder audiência, tudo acontece no seu devido tempo e quando nos damos conta do que realmente está acontecendo já caminhamos para o final - ao melhor estilo "Sexto Sentido", mas sem a necessidade de provar que tudo foi minuciosamente pensado.
Algumas cenas podem parecer exageradas, colocadas para chocar, mas não, tudo tem seu propósito e, justamente por isso, nosso pré-conceito trabalha sem filtro e no final das contas, nunca acerta. Criticamos, sentimos asco, julgamos e até sofremos pelo outro, mas esquecemos que, como na vida, toda história tem dois lados e nem sempre teremos acesso a eles. "Blind" funciona no detalhe, não se esqueça, pois essa percepção mudará sua experiência ao assistir as filme.
Vale muito a pena!
"Blind" é um grande filme, mas você só vai perceber isso depois que conseguir digerir sua proposta e, em retrospectiva, encaixar uma série de detalhes que a principio pareciam até uma certa loucura do roteirista ou um experimento cinematográfico para um público bem alternativo e amante da arte independente! Vai por mim: tudo fará muito sentido e a genialidade da dinâmica narrativa de "Blind" é justamente a de brincar com nossas percepções, como se não conseguíssemos enxergar as várias pistas que o diretor Eskil Vogt vai nos dando - e não estou sendo redundante.
Ingrid (Ellen Dorrit Petersen) é uma linda mulher que perdeu a visão já adulta. Aparentemente deprimida com a nova condição, ela resolve ficar isolada em sua própria casa, onde se sente mais segura. Seu grande parceiro nesta difícil adaptação é o marido, Morten (Henrik Rafaelsen). Porém, com o passar dos dias, presa em um cotidiano monocromático, suas lembranças de um mundo que ela conheceu vão desaparecendo gradativamente, é quando ela percebe que o maior perigo está dentro de si mesma. Confira o trailer:
"Blind" fala sobre a solidão e os reflexos que ela pode causar no nosso comportamento - principalmente se essa solidão for uma escolha, mesmo que inconsciente, para se proteger de uma nova condição. O impacto que ela causa no outro é tão profundo quanto reflexivo e talvez esse premiado filme norueguês pareça confuso demais para quem não está disposto a embarcar em uma narrativa bastante particular - e aqui não basta estar apenas disposto, será preciso ter paciência até que as coisas façam sentido! O filme não é "uma viagem" , ele é uma representação clara de como nossa mente pode nos derrubar a qualquer momento e isso se extende para quem está assistindo. Olha, filme tão difícil, quanto genial! Vale muito a pena!
"Blind" foi premiado como Melhor Roteiro no Festival de Sundance, nos EUA, em 2014; foi exibido com sucesso e também premiado no Festival de Berlim com o "Label Europa Cinema", além de acumular mais de uma dezena de indicações e troféus em festivais ao redor do mundo! Com essa chancela, "Blind" se permite sair do óbvio desde o seu roteiro até sua direção e quem amarra tudo isso é uma montagem sensacional. Toda estranheza incomoda visualmente e é com uma edição bem orgânica que a narrativa subverte o conceito espacial e temporal, fazendo nossa cabeça quase explodir!
É muito interessante como o mundo de Ingrid é exatamente o mesmo de quem assiste ao filme - existe uma linha muito tênue entre realidade e imaginação e seguindo essa lógica, o diretor Eskil Vogt, nos convida para brincar - não foi uma vez que pausei e voltei o filme para tentar entender o que tinha acontecido ou se foi uma distração momentânea que tinha me confundido. O bacana é que a história vai se desenvolvendo sem a menor pressa, mesmo correndo o risco de perder audiência, tudo acontece no seu devido tempo e quando nos damos conta do que realmente está acontecendo já caminhamos para o final - ao melhor estilo "Sexto Sentido", mas sem a necessidade de provar que tudo foi minuciosamente pensado.
Algumas cenas podem parecer exageradas, colocadas para chocar, mas não, tudo tem seu propósito e, justamente por isso, nosso pré-conceito trabalha sem filtro e no final das contas, nunca acerta. Criticamos, sentimos asco, julgamos e até sofremos pelo outro, mas esquecemos que, como na vida, toda história tem dois lados e nem sempre teremos acesso a eles. "Blind" funciona no detalhe, não se esqueça, pois essa percepção mudará sua experiência ao assistir as filme.
Vale muito a pena!
Quando em 2014, assisti o premiado filme austríaco "Goodnight Mommy", dos diretores Severin Fiala e Veronika Franz (de o "Chalé"), eu simplesmente o coloquei entre os melhores suspenses (psicológicos) de todos os tempos.Obviamente que ao sair a notícia de que um remake americano estava sendo produzido apenas 8 anos depois do sucesso do original, me enchi de desconfianças. Pois bem, essa nova versão dirigida pelo Matt Sobel (de "Vingança Sabor Cereja") é tão boa e surpreendente quanto!
Os irmãos gêmeos Elias e Lukas (Cameron e Nicholas Crovetti) vão passar uma temporada na casa de sua mãe (Naomi Watts) quando são surpreendidos pelas bandagens que cobrem seu rosto após um procedimento cirúrgico. Conforme o comportamento dela fica cada vez mais irreconhecível, os gêmeos passam a desconfiar de que ela seja uma impostora, despontando em uma montanha-russa de chantagens emocionais e jogos de manipulação para descobrir a verdade. Porém a verdade está além dessa desconexão com a realidade, servindo apenas de prenúncio para eventos que vão marcar a vida da família para sempre. Confira o trailer:
Quando foi lançado durante o Festival de Veneza de 2014, a versão austríaca de "Boa Noite, Mamãe" chamou muita atenção pela força dramática de uma história relativamente simples, interessante e perturbadora, que conseguia entregar uma série de reviravoltas que realmente faziam muito sentido se olhássemos em retrospectiva - conceito que havia ganhado outras proporções, alguns anos antes, com o inesquecível "Sexto Sentido" de M. "Night " Shyamalan. Pois bem, essa nova versão segue o mesmo conceito narrativo se apropriando da mesma história, mas trocando o ar mais independente e autoral do original, por uma dinâmica mais hollywoodiana de produção - o que, já adianto, funcionou perfeitamente.
O roteiro do estreante Kyle Warren praticamente repete a proposta de Franz e Fialla, inserindo um ou outro toque de horror, mas sempre se apoiando na construção daquele clima angustiante e crescente de paranoia. Ao focar a narrativa na percepção de duas crianças, é natural que a dúvida sobre o que de fato está acontecendo impacte também a audiência. Ao inserir um certo descontrole emocional da "mãe", a tensão já existente na premissa, ganha outros elementos que refletem imediatamente no fator claustrofóbico da "convivência", provocando sensações ainda mais desconfortáveis para quem assiste pela primeira vez o filme (sim, sua experiência com essa versão depende do quanto você conhece sobre a versão original).
Além do talento dos irmãos Crovetti (que já haviam chamado atenção em "Big Little Lies") é preciso que se elogie o trabalho de Watts. Ela é, sem dúvidas, o grande ganho da nova versão - sua capacidade como atriz permite que mesmo com diversos obstáculos que poderiam impedir que seu talento fosse aproveitado, já que a audiência não vê seu rosto em boa parte do filme, ela brilhe (e muito). Watts carrega no olhar uma dramaticidade que não me surpreenderia fosse reconhecida no Oscar - e não é só isso, sua expressão corporal, tom e range de interpretação estão simplesmente incríveis!
‘Boa Noite, Mamãe’ é um tiro certeiro para quem gosta de filmes de suspense que se propõem a surpreender no final. Sua narrativa é extremamente envolvente e construída para ser inquietante - as boas atuações do elenco principal, uma trilha sonora que pontua as intenções do clima sugerido pelo diretor e, lógico, as claras referências de "A Pele Que Habito" combinadas com a segurança de um roteiro que já foi testado e que funcionou bem, só ratificam a ideia da Amazon de trazer para o mainstream uma obra que até pouco tempo estava limitada ao cinema de nicho. Ponto para a era do streaming, ponto para quem apostou nesse remake!
Vale muitíssimo o seu play!
Quando em 2014, assisti o premiado filme austríaco "Goodnight Mommy", dos diretores Severin Fiala e Veronika Franz (de o "Chalé"), eu simplesmente o coloquei entre os melhores suspenses (psicológicos) de todos os tempos.Obviamente que ao sair a notícia de que um remake americano estava sendo produzido apenas 8 anos depois do sucesso do original, me enchi de desconfianças. Pois bem, essa nova versão dirigida pelo Matt Sobel (de "Vingança Sabor Cereja") é tão boa e surpreendente quanto!
Os irmãos gêmeos Elias e Lukas (Cameron e Nicholas Crovetti) vão passar uma temporada na casa de sua mãe (Naomi Watts) quando são surpreendidos pelas bandagens que cobrem seu rosto após um procedimento cirúrgico. Conforme o comportamento dela fica cada vez mais irreconhecível, os gêmeos passam a desconfiar de que ela seja uma impostora, despontando em uma montanha-russa de chantagens emocionais e jogos de manipulação para descobrir a verdade. Porém a verdade está além dessa desconexão com a realidade, servindo apenas de prenúncio para eventos que vão marcar a vida da família para sempre. Confira o trailer:
Quando foi lançado durante o Festival de Veneza de 2014, a versão austríaca de "Boa Noite, Mamãe" chamou muita atenção pela força dramática de uma história relativamente simples, interessante e perturbadora, que conseguia entregar uma série de reviravoltas que realmente faziam muito sentido se olhássemos em retrospectiva - conceito que havia ganhado outras proporções, alguns anos antes, com o inesquecível "Sexto Sentido" de M. "Night " Shyamalan. Pois bem, essa nova versão segue o mesmo conceito narrativo se apropriando da mesma história, mas trocando o ar mais independente e autoral do original, por uma dinâmica mais hollywoodiana de produção - o que, já adianto, funcionou perfeitamente.
O roteiro do estreante Kyle Warren praticamente repete a proposta de Franz e Fialla, inserindo um ou outro toque de horror, mas sempre se apoiando na construção daquele clima angustiante e crescente de paranoia. Ao focar a narrativa na percepção de duas crianças, é natural que a dúvida sobre o que de fato está acontecendo impacte também a audiência. Ao inserir um certo descontrole emocional da "mãe", a tensão já existente na premissa, ganha outros elementos que refletem imediatamente no fator claustrofóbico da "convivência", provocando sensações ainda mais desconfortáveis para quem assiste pela primeira vez o filme (sim, sua experiência com essa versão depende do quanto você conhece sobre a versão original).
Além do talento dos irmãos Crovetti (que já haviam chamado atenção em "Big Little Lies") é preciso que se elogie o trabalho de Watts. Ela é, sem dúvidas, o grande ganho da nova versão - sua capacidade como atriz permite que mesmo com diversos obstáculos que poderiam impedir que seu talento fosse aproveitado, já que a audiência não vê seu rosto em boa parte do filme, ela brilhe (e muito). Watts carrega no olhar uma dramaticidade que não me surpreenderia fosse reconhecida no Oscar - e não é só isso, sua expressão corporal, tom e range de interpretação estão simplesmente incríveis!
‘Boa Noite, Mamãe’ é um tiro certeiro para quem gosta de filmes de suspense que se propõem a surpreender no final. Sua narrativa é extremamente envolvente e construída para ser inquietante - as boas atuações do elenco principal, uma trilha sonora que pontua as intenções do clima sugerido pelo diretor e, lógico, as claras referências de "A Pele Que Habito" combinadas com a segurança de um roteiro que já foi testado e que funcionou bem, só ratificam a ideia da Amazon de trazer para o mainstream uma obra que até pouco tempo estava limitada ao cinema de nicho. Ponto para a era do streaming, ponto para quem apostou nesse remake!
Vale muitíssimo o seu play!
"Brian Banks" (que no Brasil ganhou o expositivo subtítulo de "Um Sonho Interrompido") é o tipo do filme que desde a primeira cena temos a exata sensação de já conhecermos a história. Mesmo baseado em um caso real, de fato, a trama não tem nada de original, mas nem por isso deixa de ser uma jornada interessante - o filme dirigido pelo Tom Shadyac (do inesquecível "Patch Adams, o Amor é Contagioso") cumpre muito bem o seu papel como entretenimento, sua história é tão revoltante quanto envolvente, mas o tom é leve, gostoso de assistir.
Brian Banks (Aldis Hodge) é um astro de futebol americano universitário que vê seu sonho de jogar na NFL ser interrompido ao ser acusado por um crime que não cometeu. Mesmo com a ausência de provas, Banks é mal orientado e por isso acaba condenado a dez anos de prisão. Já em liberdade condicional, ele tenta retomar sua vida, provar sua inocência e, claro, ir atrás de seus sonhos como esportista. Confira o trailer (em inglês):
A escolha do roteiro escrito pelo Doug Atchison (de "Um Crime Racial") em retratar a triste realidade que um ex-presidiário enfrenta no dia a dia, especialmente sendo negro, funciona apenas como gatilho para nos conectarmos imediatamente ao protagonista. Aqui não temos dúvida que ele é mesmo inocente, que ele é mais uma vítima de racismo, de um sistema corrompido e de uma condenação absurda. O drama não está no crime, mas em como isso deixa marcas em quem foi injustiçado. É por isso que ao discutir esses temas, o filme não pesa na mão - o tom de esperança é tão latente que temos certeza que tudo vai dar certo no final. Isso pode até ser um problema para alguns, mas a ideia é justamente mostrar que a percepção do "copo meio cheio", muitas vezes é o que nos motiva a continuar enfrentando as dificuldades da vida.
Sim, o filme tem um pezinho no "espiritual" de "O Segredo - Ouse Sonhar"ao mesmo tempo em que traz elementos narrativos mais dramáticos dos filmes de tribunal como em "Luta por Justiça" - Morgan Freeman e Greg Kinnear são as personificações dessa dualidade narrativa. Tanto de um lado quanto de outro, você vai se deparar com uma série de clichês, mas a tendência é que isso não te incomode (pelo menos não muito). Veja, quando o protagonista está na pior, na solitária de uma prisão, e surge uma luz (literalmente) dando força para que ele continue acreditando que tudo vai melhorar, tendemos a desacreditar no poder transformador do ser humano como ferramenta de auto-superação, por outro lado nos faz refletir sobre aquelas passagens bem íntimas e solitárias que não podemos (ou sabemos) explicar com tanta exatidão - talvez nesse contexto, como linguagem cinematográfica, o filme até vacile um pouco na sua "forma", mas, sinceramente, no "conteúdo" em si, toda essa alegoria faz muito mais sentido.
"Brian Banks: Um Sonho Interrompido" tenta se equilibrar ao mostrar uma versão "pé no chão" da história com aquela leve inclinação para a "auto-ajuda", no entanto o resultado surpreende pela honestidade com que o roteiro expõe esses lados. Se a produção foge do embate filosófico, certamente ela defende sua versão dos fatos e com isso mergulhamos cada vez mais na dor do protagonista sem se sentir na obrigação de acreditar em tudo que vemos na tela - isso é entretenimento!
Em tempo, o filme tem o futebol americanos como pano bem de fundo - então não espere nenhuma relação mais próxima com o esporte que o fato do protagonista ter tido seu sonho de criança interrompido.
Vale seu play!
"Brian Banks" (que no Brasil ganhou o expositivo subtítulo de "Um Sonho Interrompido") é o tipo do filme que desde a primeira cena temos a exata sensação de já conhecermos a história. Mesmo baseado em um caso real, de fato, a trama não tem nada de original, mas nem por isso deixa de ser uma jornada interessante - o filme dirigido pelo Tom Shadyac (do inesquecível "Patch Adams, o Amor é Contagioso") cumpre muito bem o seu papel como entretenimento, sua história é tão revoltante quanto envolvente, mas o tom é leve, gostoso de assistir.
Brian Banks (Aldis Hodge) é um astro de futebol americano universitário que vê seu sonho de jogar na NFL ser interrompido ao ser acusado por um crime que não cometeu. Mesmo com a ausência de provas, Banks é mal orientado e por isso acaba condenado a dez anos de prisão. Já em liberdade condicional, ele tenta retomar sua vida, provar sua inocência e, claro, ir atrás de seus sonhos como esportista. Confira o trailer (em inglês):
A escolha do roteiro escrito pelo Doug Atchison (de "Um Crime Racial") em retratar a triste realidade que um ex-presidiário enfrenta no dia a dia, especialmente sendo negro, funciona apenas como gatilho para nos conectarmos imediatamente ao protagonista. Aqui não temos dúvida que ele é mesmo inocente, que ele é mais uma vítima de racismo, de um sistema corrompido e de uma condenação absurda. O drama não está no crime, mas em como isso deixa marcas em quem foi injustiçado. É por isso que ao discutir esses temas, o filme não pesa na mão - o tom de esperança é tão latente que temos certeza que tudo vai dar certo no final. Isso pode até ser um problema para alguns, mas a ideia é justamente mostrar que a percepção do "copo meio cheio", muitas vezes é o que nos motiva a continuar enfrentando as dificuldades da vida.
Sim, o filme tem um pezinho no "espiritual" de "O Segredo - Ouse Sonhar"ao mesmo tempo em que traz elementos narrativos mais dramáticos dos filmes de tribunal como em "Luta por Justiça" - Morgan Freeman e Greg Kinnear são as personificações dessa dualidade narrativa. Tanto de um lado quanto de outro, você vai se deparar com uma série de clichês, mas a tendência é que isso não te incomode (pelo menos não muito). Veja, quando o protagonista está na pior, na solitária de uma prisão, e surge uma luz (literalmente) dando força para que ele continue acreditando que tudo vai melhorar, tendemos a desacreditar no poder transformador do ser humano como ferramenta de auto-superação, por outro lado nos faz refletir sobre aquelas passagens bem íntimas e solitárias que não podemos (ou sabemos) explicar com tanta exatidão - talvez nesse contexto, como linguagem cinematográfica, o filme até vacile um pouco na sua "forma", mas, sinceramente, no "conteúdo" em si, toda essa alegoria faz muito mais sentido.
"Brian Banks: Um Sonho Interrompido" tenta se equilibrar ao mostrar uma versão "pé no chão" da história com aquela leve inclinação para a "auto-ajuda", no entanto o resultado surpreende pela honestidade com que o roteiro expõe esses lados. Se a produção foge do embate filosófico, certamente ela defende sua versão dos fatos e com isso mergulhamos cada vez mais na dor do protagonista sem se sentir na obrigação de acreditar em tudo que vemos na tela - isso é entretenimento!
Em tempo, o filme tem o futebol americanos como pano bem de fundo - então não espere nenhuma relação mais próxima com o esporte que o fato do protagonista ter tido seu sonho de criança interrompido.
Vale seu play!
"C.B. Strike" é entretenimento puro - especialmente se você gostou da famosa série antológica, também da BBC, "Sherlock". Por mais surpreendente que possa parecer, "C.B. Strike" é uma adaptação da série de livros escritos por J.K. Rowling (ela mesmo) sob o pseudônimo de Robert Galbraith, que traz para a televisão histórias do charmoso detetive Cormoran Strike, e de sua assistente Robin Ellacott, em casos extremamente envolventes que mesclam mistério, thriller psicológico e drama pessoal. Criada por Tom Edge (de "The Crown") e Ben Richards (de "The Tunnel") essa série, posso te garanatir, é uma das melhores adaptações contemporâneas do gênero policial noir - mas com um tom mais realista e menos estilizado.
A narrativa, como já é possível imaginar, segue Cormoran Strike (Tom Burke), um ex-soldado que perdeu parte da perna em uma explosão no Afeganistão e que agora trabalha como detetive particular em Londres. Desorganizado, endividado e lidando com um trauma mal resolvido, ele sobrevive resolvendo casos passageiros até que um crime bastante complexo, o assassinato da modelo Lula Landry (Elarica Johnson), o coloca sob os holofotes. Nesse contexto que conhecemos Robin Ellacott (Holliday Grainger), uma assistente temporária que logo demonstra um talento nato para investigações, criando assim uma das melhores dinâmicas entre investigadores da atualidade. Confira o trailer (em inglês):
"C.B. Strike", de fato, se destaca pela estrutura narrativa divertida e muito fiel aos livros. Aqui, cada temporada adapta um caso específico da obra original - desde "O Chamado do Cuco", que mergulha no suposto suicídio de uma supermodelo, até "Sangue Revolto", um caso sombrio que leva a dupla a investigar um culto realmente perigoso. Com roteiros bem construídos, a adaptação foi muito feliz ao manter a complexidade das investigações, com detalhes muito precisos dos romances, mas sem perder a fluidez necessários para uma jornada na tela - a série não é ágil, é verdade, mas ela está longe de ser lenta. O sucesso foi imediato, proporcionando, até agora, cinco temporadas com dois a quatro episódios cada, totalizando 19 - sendo 16 escritos por Tom Edge.
Já a equipe de direção, liderada por Susan Tully (de "Crossing Lines"), aposta em um realismo cru, utilizando Londres não apenas como pano de fundo, mas como um personagem vivo que amplifica a atmosfera mais crônica de tensão e mistério. Diferente de "Sherlock", que estiliza a cidade para criar um ambiente quase fantasioso, "C.B. Strike" mantém os pés no chão, apresentando uma capital britânica sombria, úmida e cheia de becos estreitos que reforçam a sensação de perigo. E aqui cabe um elogio: a fotografia estruturada por Hubert Taczanowski (não por acaso de "The Missing") reforça a estética mais noir da série, brincando com as sombras e os contrastes para enfatizar os momentos de maior mistério, enquanto a trilha sonora discreta, mas eficaz, contribui para o peso do tom, só que sem se sobrepor ao drama, permitindo que a tensão seja construída da forma mais natural possível.
Tom Burke e Holliday Grainger são o grande trunfo da série. Burke incorpora Strike com a dose certa de exaustão e inteligência, mas sem cair nos clichês do detetive cínico e autodestrutivo. Ele é falho, mas extremamente perspicaz, e a série explora bem suas fraquezas sem transformá-las em mero artifício dramático. Já Grainger traz força e sensibilidade para sua personagem, cuja evolução ao longo das cinco temporadas a torna tão essencial para as investigações quanto o próprio Strike. Veja "C.B. Strike" valoriza os diálogos, a construção do mistério e o desenvolvimento dos personagens, o que pode parecer mais cadenciada para quem espera uma abordagem eletrizante. No entanto, essa escolha conceitual permite um aprofundamento maior nos casos e nas relações interpessoais, sem pressa, tornando a série uma experiência mais interessante para os fãs do gênero, ou seja, para quem gosta de histórias de detetives e de investigações meticulosas, sem nunca fugir do propósito do divertimento, essa é série que você estava esperando!
Divirta-se!
"C.B. Strike" é entretenimento puro - especialmente se você gostou da famosa série antológica, também da BBC, "Sherlock". Por mais surpreendente que possa parecer, "C.B. Strike" é uma adaptação da série de livros escritos por J.K. Rowling (ela mesmo) sob o pseudônimo de Robert Galbraith, que traz para a televisão histórias do charmoso detetive Cormoran Strike, e de sua assistente Robin Ellacott, em casos extremamente envolventes que mesclam mistério, thriller psicológico e drama pessoal. Criada por Tom Edge (de "The Crown") e Ben Richards (de "The Tunnel") essa série, posso te garanatir, é uma das melhores adaptações contemporâneas do gênero policial noir - mas com um tom mais realista e menos estilizado.
A narrativa, como já é possível imaginar, segue Cormoran Strike (Tom Burke), um ex-soldado que perdeu parte da perna em uma explosão no Afeganistão e que agora trabalha como detetive particular em Londres. Desorganizado, endividado e lidando com um trauma mal resolvido, ele sobrevive resolvendo casos passageiros até que um crime bastante complexo, o assassinato da modelo Lula Landry (Elarica Johnson), o coloca sob os holofotes. Nesse contexto que conhecemos Robin Ellacott (Holliday Grainger), uma assistente temporária que logo demonstra um talento nato para investigações, criando assim uma das melhores dinâmicas entre investigadores da atualidade. Confira o trailer (em inglês):
"C.B. Strike", de fato, se destaca pela estrutura narrativa divertida e muito fiel aos livros. Aqui, cada temporada adapta um caso específico da obra original - desde "O Chamado do Cuco", que mergulha no suposto suicídio de uma supermodelo, até "Sangue Revolto", um caso sombrio que leva a dupla a investigar um culto realmente perigoso. Com roteiros bem construídos, a adaptação foi muito feliz ao manter a complexidade das investigações, com detalhes muito precisos dos romances, mas sem perder a fluidez necessários para uma jornada na tela - a série não é ágil, é verdade, mas ela está longe de ser lenta. O sucesso foi imediato, proporcionando, até agora, cinco temporadas com dois a quatro episódios cada, totalizando 19 - sendo 16 escritos por Tom Edge.
Já a equipe de direção, liderada por Susan Tully (de "Crossing Lines"), aposta em um realismo cru, utilizando Londres não apenas como pano de fundo, mas como um personagem vivo que amplifica a atmosfera mais crônica de tensão e mistério. Diferente de "Sherlock", que estiliza a cidade para criar um ambiente quase fantasioso, "C.B. Strike" mantém os pés no chão, apresentando uma capital britânica sombria, úmida e cheia de becos estreitos que reforçam a sensação de perigo. E aqui cabe um elogio: a fotografia estruturada por Hubert Taczanowski (não por acaso de "The Missing") reforça a estética mais noir da série, brincando com as sombras e os contrastes para enfatizar os momentos de maior mistério, enquanto a trilha sonora discreta, mas eficaz, contribui para o peso do tom, só que sem se sobrepor ao drama, permitindo que a tensão seja construída da forma mais natural possível.
Tom Burke e Holliday Grainger são o grande trunfo da série. Burke incorpora Strike com a dose certa de exaustão e inteligência, mas sem cair nos clichês do detetive cínico e autodestrutivo. Ele é falho, mas extremamente perspicaz, e a série explora bem suas fraquezas sem transformá-las em mero artifício dramático. Já Grainger traz força e sensibilidade para sua personagem, cuja evolução ao longo das cinco temporadas a torna tão essencial para as investigações quanto o próprio Strike. Veja "C.B. Strike" valoriza os diálogos, a construção do mistério e o desenvolvimento dos personagens, o que pode parecer mais cadenciada para quem espera uma abordagem eletrizante. No entanto, essa escolha conceitual permite um aprofundamento maior nos casos e nas relações interpessoais, sem pressa, tornando a série uma experiência mais interessante para os fãs do gênero, ou seja, para quem gosta de histórias de detetives e de investigações meticulosas, sem nunca fugir do propósito do divertimento, essa é série que você estava esperando!
Divirta-se!
"Cadáver" (ou Kadaver, no seu título original) é um filme norueguês que vem chamando muito a atenção dos assinantes da Netflix por apresentar uma história criativa bem ao estilo "Sleep No More" - espetáculo que trás uma interessante proposta narrativa conhecida como teatro de imersão. Vale ressaltar que essa é, provavelmente, a experiência teatral mais original em muito tempo, de Nova York, onde você não senta para assistir a peça, pois não existe palco para se ter platéia; se você quer saber a história, é preciso acompanhar os atores pelos corredores e cômodos de um hotel, vivenciar as cenas, mesmo que mascarados para diferenciar público de personagens.
Pois bem, esse suspense psicológico da Netflix mostra uma cidade arrasada por uma catástrofe nuclear, onde as pessoas não tem o que comer e, literalmente, estão morrendo de fome e de frio pelas ruas. Escondidos em uma casa, a ex-atriz Leo (Gitte Witt) tenta sobreviver como pode com sua filha de dez anos, Alice (Tuva Olivia Remman), e com seu marido, Jacob (Thomas Gullestad). É nessa realidade devastadora, mas relativizada pelo lúdico da relação mãe e filha, que surge um fio de esperança quando o dono de um hotel de luxo da cidade convida alguns moradores para um misterioso jantar que culminará, justamente, em um bizarro espetáculo de teatro imersivo! Confira o trailer:
Talvez "Cadáver" não tenha o impacto visual para chocar ou até uma profundidade narrativa como o "O Poço", porém é preciso dizer que o diretor e roteirista Jarand Herdal (Everywhen) teve o grande mérito de criar uma constante tensão se apoiando muito mais no medo do desconhecido do que nos sustos que poderíamos levar durante o filme e isso, propositalmente, nos remete ao estilo de entretenimento que temos ao assistir um teatro imersivo: o fato de Herdal manipular nossa curiosidade ao mesmo tempo que manipula as sensações de insegurança dos protagonistas nos coloca dentro daquela realidade!
Saiba que não se trata de algo tão marcante, mas mesmo assim vale muito a pena se você se interessa pelo estilo do filme, por se tratar de uma escola cinematográfica completamente diferente do que estamos acostumados e, claro, por nos provocar a entender o que de fato está acontecendo ali.
Quando entendemos que a maior referência de "Cadáver" vem da obra de Lewis Carroll e é praticamente uma versão macabra de "Alice no País das Maravilhas", tudo passa a fazer um pouco mais de sentido. Veja: Alice é uma linda menina loira, seu bicho de pelúcia é um coelho, o convite para o chá na verdade é um banquete que antecede o espetáculo, Mathias é um anfitrião maluco como o chapeleiro, o cenário é repleto de espelhos, buracos e formas, e o tempo se torna questão de sobrevivência para tentar encontrar o caminho de volta para casa. Reparem: não é por acaso que, na chegada da família ao hotel, Mathias diz, encantado com a pequena Alice:Você deixa eu te mostrar o meu País das Maravilhas?”
Marcante como a versão de Tim Burton para o clássico de Carroll, "Cadáver" trás a bela fotografia de Jallo Faber que mostra diferentes ambientes, separados como universos, a partir de uma predominância azulada e fria para o mundo exterior, pontuada com o vermelho do figurino de Alice, e uma linha mais amarelada, quente, quase "kubrickiana" dentro do hotel. Aliás, o cenário é quase um copy/paste de "O Iluminado" - repleto de corredores longos e escuros, quadros de animais (na maioria das vezes, mortos) e um mobilia pesada, vitoriana.
Se visualmente o filme chama atenção é no roteiro que ele vacila: Herdal pesa na mão ao focar na busca desesperada de uma mãe por sua filha e esquece de tudo que está acontecendo a sua volta. Não que isso não carregue um drama natural, mas é que quase nada é revelado durante os dois primeiros atos e, de repente, tudo é despejado no terceiro para finalizar o arco principal e os secundários, sem muitas explicações e com motivações bem previsíveis, eu diria.
É fato que a história não tem um ritmo tão marcante quanto "Us" do Jordan Peele, por exemplo, mas é impossível negar que ela não te prenda! Por tudo isso vale a recomendação e a promessa de um entretenimento de qualidade, mas que não vai ser inesquecível (como poderia)!
"Cadáver" (ou Kadaver, no seu título original) é um filme norueguês que vem chamando muito a atenção dos assinantes da Netflix por apresentar uma história criativa bem ao estilo "Sleep No More" - espetáculo que trás uma interessante proposta narrativa conhecida como teatro de imersão. Vale ressaltar que essa é, provavelmente, a experiência teatral mais original em muito tempo, de Nova York, onde você não senta para assistir a peça, pois não existe palco para se ter platéia; se você quer saber a história, é preciso acompanhar os atores pelos corredores e cômodos de um hotel, vivenciar as cenas, mesmo que mascarados para diferenciar público de personagens.
Pois bem, esse suspense psicológico da Netflix mostra uma cidade arrasada por uma catástrofe nuclear, onde as pessoas não tem o que comer e, literalmente, estão morrendo de fome e de frio pelas ruas. Escondidos em uma casa, a ex-atriz Leo (Gitte Witt) tenta sobreviver como pode com sua filha de dez anos, Alice (Tuva Olivia Remman), e com seu marido, Jacob (Thomas Gullestad). É nessa realidade devastadora, mas relativizada pelo lúdico da relação mãe e filha, que surge um fio de esperança quando o dono de um hotel de luxo da cidade convida alguns moradores para um misterioso jantar que culminará, justamente, em um bizarro espetáculo de teatro imersivo! Confira o trailer:
Talvez "Cadáver" não tenha o impacto visual para chocar ou até uma profundidade narrativa como o "O Poço", porém é preciso dizer que o diretor e roteirista Jarand Herdal (Everywhen) teve o grande mérito de criar uma constante tensão se apoiando muito mais no medo do desconhecido do que nos sustos que poderíamos levar durante o filme e isso, propositalmente, nos remete ao estilo de entretenimento que temos ao assistir um teatro imersivo: o fato de Herdal manipular nossa curiosidade ao mesmo tempo que manipula as sensações de insegurança dos protagonistas nos coloca dentro daquela realidade!
Saiba que não se trata de algo tão marcante, mas mesmo assim vale muito a pena se você se interessa pelo estilo do filme, por se tratar de uma escola cinematográfica completamente diferente do que estamos acostumados e, claro, por nos provocar a entender o que de fato está acontecendo ali.
Quando entendemos que a maior referência de "Cadáver" vem da obra de Lewis Carroll e é praticamente uma versão macabra de "Alice no País das Maravilhas", tudo passa a fazer um pouco mais de sentido. Veja: Alice é uma linda menina loira, seu bicho de pelúcia é um coelho, o convite para o chá na verdade é um banquete que antecede o espetáculo, Mathias é um anfitrião maluco como o chapeleiro, o cenário é repleto de espelhos, buracos e formas, e o tempo se torna questão de sobrevivência para tentar encontrar o caminho de volta para casa. Reparem: não é por acaso que, na chegada da família ao hotel, Mathias diz, encantado com a pequena Alice:Você deixa eu te mostrar o meu País das Maravilhas?”
Marcante como a versão de Tim Burton para o clássico de Carroll, "Cadáver" trás a bela fotografia de Jallo Faber que mostra diferentes ambientes, separados como universos, a partir de uma predominância azulada e fria para o mundo exterior, pontuada com o vermelho do figurino de Alice, e uma linha mais amarelada, quente, quase "kubrickiana" dentro do hotel. Aliás, o cenário é quase um copy/paste de "O Iluminado" - repleto de corredores longos e escuros, quadros de animais (na maioria das vezes, mortos) e um mobilia pesada, vitoriana.
Se visualmente o filme chama atenção é no roteiro que ele vacila: Herdal pesa na mão ao focar na busca desesperada de uma mãe por sua filha e esquece de tudo que está acontecendo a sua volta. Não que isso não carregue um drama natural, mas é que quase nada é revelado durante os dois primeiros atos e, de repente, tudo é despejado no terceiro para finalizar o arco principal e os secundários, sem muitas explicações e com motivações bem previsíveis, eu diria.
É fato que a história não tem um ritmo tão marcante quanto "Us" do Jordan Peele, por exemplo, mas é impossível negar que ela não te prenda! Por tudo isso vale a recomendação e a promessa de um entretenimento de qualidade, mas que não vai ser inesquecível (como poderia)!
Se você está procurando um filme leve que vai melhorar o seu astral, daqueles que você assiste com um leve sorriso no rosto e que, de fato, te toca a alma; "Campeões" é a escolha certa. Versão americana do filme espanhol vencedor do prêmio Goya em 2019, "Campeões" é realmente um filme imperdível, que conquista corações e desafia o preconceito de uma forma muito sensível e bem humorada. Ao abordar as dificuldades impregnadas na sociedade quando o assunto é a inclusão de pessoas com deficiência, o diretor Bobby Farrelly (de "Quem Vai Ficar com Mary?") acaba encontrando o exato equilíbrio entre o drama e a comédia de uma maneira muito realista, emocionante e totalmente humana. Mesmo que soe se apoiar em alguns clichês, algo que a versão original não tem, Farrelly mostra que é possível entregar uma mensagem dura e direta sem precisar impactar visualmente a audiência. Tenha certeza que estamos diante de um filme delicioso de assistir!
Aqui Woody Harrelson protagoniza uma hilária e comovente história sobre um ex-técnico de basquete da liga secundária americana, chamado Marcus, que, após uma série de vacilos, é ordenado pelo tribunal a gerenciar de forma voluntária um time de jovens jogadores com algum tipo de deficiência intelectual. Ao perceber que, apesar de suas dúvidas e dificuldades, ele e o time podem ir muito mais longe do que todos jamais imaginaram, se inicia uma linda jornada de superação e auto-conhecimento. Confira o trailer:
Antes de mais nada, saiba que esse filme não é sobre basquete - "Campeões" é sobre pessoas! Baseado no brilhante roteiro de Javier Fesser e David Marqués, esse inteligente e bem estruturado filme sabe muito bem como alternar momentos de humor (daqueles que o texto só amplifica o poder da situação) com cenas de profunda emoção ao som de uma trilha sonora belíssima e muito bem trabalhada para nos provocar sensações bastante particulares. Farrelly demonstra sensibilidade e competência ao conduzir a história, criando uma atmosfera acolhedora e inspiradora de fácil conexão. Eu diria que é impossível não se apaixonar pelo time dos "Friends" e por sua jornada!
Não é preciso mais do que duas cenas para entender como "Campeões" se destaca pela performance impecável do elenco. Harrelson, mais uma vez, parece se divertir em cena, entregando um personagem complexo e em constante transformação - sem nunca pesar na mão. Já o time de atores com deficiência, como Kevin Iannucci e James Day Keith, brilham em seus papeis, mostrando um talento impressionante e um carisma que olha, vai deixar muita gente de queixo caído. Reparem como a química entre os membros do time é tão contagiante que temos a exata sensação de que aquela história é mais do que uma ficção - essa relação que o diretor conseguiu construir, contribui demais para a veracidade da história. A fotografia do indicado ao Emmy por por "Still - Ainda Sou Michael J. Fox", C. Kim Miles, é vibrante e imersiva - o que ratifica a leveza da trama ao mesmo tempo em que documenta a realidade de cada personagem.
A grande verdade, aliás, é que "Champions" (no original) além de impecável tecnicamente, tem todos os elementos artísticos que chancelam o filme como "imperdível". Para todos que acreditam no poder transformador da inclusão, temos uma história simples e envolvente que vai te fazer rir, chorar e, principalmente, te fazer refletir sobre a importância da empatia e do respeito perante as diferenças. Olha, na linha de "Extraordinário" (mas com um certo "upgrade" narrativo), o filme é mesmo um verdadeiro triunfo que nos convida a celebrar a beleza real da diversidade na prática!
Golaço, ou melhor "cestaça"!
Se você está procurando um filme leve que vai melhorar o seu astral, daqueles que você assiste com um leve sorriso no rosto e que, de fato, te toca a alma; "Campeões" é a escolha certa. Versão americana do filme espanhol vencedor do prêmio Goya em 2019, "Campeões" é realmente um filme imperdível, que conquista corações e desafia o preconceito de uma forma muito sensível e bem humorada. Ao abordar as dificuldades impregnadas na sociedade quando o assunto é a inclusão de pessoas com deficiência, o diretor Bobby Farrelly (de "Quem Vai Ficar com Mary?") acaba encontrando o exato equilíbrio entre o drama e a comédia de uma maneira muito realista, emocionante e totalmente humana. Mesmo que soe se apoiar em alguns clichês, algo que a versão original não tem, Farrelly mostra que é possível entregar uma mensagem dura e direta sem precisar impactar visualmente a audiência. Tenha certeza que estamos diante de um filme delicioso de assistir!
Aqui Woody Harrelson protagoniza uma hilária e comovente história sobre um ex-técnico de basquete da liga secundária americana, chamado Marcus, que, após uma série de vacilos, é ordenado pelo tribunal a gerenciar de forma voluntária um time de jovens jogadores com algum tipo de deficiência intelectual. Ao perceber que, apesar de suas dúvidas e dificuldades, ele e o time podem ir muito mais longe do que todos jamais imaginaram, se inicia uma linda jornada de superação e auto-conhecimento. Confira o trailer:
Antes de mais nada, saiba que esse filme não é sobre basquete - "Campeões" é sobre pessoas! Baseado no brilhante roteiro de Javier Fesser e David Marqués, esse inteligente e bem estruturado filme sabe muito bem como alternar momentos de humor (daqueles que o texto só amplifica o poder da situação) com cenas de profunda emoção ao som de uma trilha sonora belíssima e muito bem trabalhada para nos provocar sensações bastante particulares. Farrelly demonstra sensibilidade e competência ao conduzir a história, criando uma atmosfera acolhedora e inspiradora de fácil conexão. Eu diria que é impossível não se apaixonar pelo time dos "Friends" e por sua jornada!
Não é preciso mais do que duas cenas para entender como "Campeões" se destaca pela performance impecável do elenco. Harrelson, mais uma vez, parece se divertir em cena, entregando um personagem complexo e em constante transformação - sem nunca pesar na mão. Já o time de atores com deficiência, como Kevin Iannucci e James Day Keith, brilham em seus papeis, mostrando um talento impressionante e um carisma que olha, vai deixar muita gente de queixo caído. Reparem como a química entre os membros do time é tão contagiante que temos a exata sensação de que aquela história é mais do que uma ficção - essa relação que o diretor conseguiu construir, contribui demais para a veracidade da história. A fotografia do indicado ao Emmy por por "Still - Ainda Sou Michael J. Fox", C. Kim Miles, é vibrante e imersiva - o que ratifica a leveza da trama ao mesmo tempo em que documenta a realidade de cada personagem.
A grande verdade, aliás, é que "Champions" (no original) além de impecável tecnicamente, tem todos os elementos artísticos que chancelam o filme como "imperdível". Para todos que acreditam no poder transformador da inclusão, temos uma história simples e envolvente que vai te fazer rir, chorar e, principalmente, te fazer refletir sobre a importância da empatia e do respeito perante as diferenças. Olha, na linha de "Extraordinário" (mas com um certo "upgrade" narrativo), o filme é mesmo um verdadeiro triunfo que nos convida a celebrar a beleza real da diversidade na prática!
Golaço, ou melhor "cestaça"!