Se você leu o livro que deu origem ao filme "A Mulher na Janela", provavelmente você vai se decepcionar! Se você não leu, você tem 50% de chance de gostar e te explico a razão: o filme tem uma dinâmica narrativa muito particular dos anos 90 e inicio dos anos 2000, uma época onde nossas referências eram bem mais limitadas do que temos hoje, com isso nosso nível de percepção da história era menos rigoroso, o que nos proporcionava ótimos momentos de entretenimento com o gênero, como em "Quarto do Pânico", "A Mão Que Balança o Berço" ou "Medo". Dito isso, esse suspense psicológico da Netflix com Amy Adams e Julianne Moore, vai te divertir mas não empolgar como deveria!
“A Mulher na Janela” é uma adaptação do livro homônimo de A.J. Finn que acompanha Anna Fox (Adams), uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia (um tipo de transtorno de ansiedade em que a pessoa tem medo e evita lugares ou situações que podem causar pânico). Confinada em casa e a base da combinação entre remédios e álcool, ela começa a observar pela sua janela a vida aparentemente perfeita dos vizinhos que acabaram de se mudar para o prédio da frente. Um dia, ela acaba sendo testemunha de um crime violento e isso vira sua vida de cabeça para baixo. Confira o trailer:
Desde seu anúncio, "A Mulher na Janela" vinha sendo aguardado com muitas expectativas. A premissa "HBO" do filme se justificava pelos nomes envolvidos no projeto: Tracy Letts no roteiro (de "Killer Joe - Matador de Aluguel" e "Álbum de Família"), Joe Wright diretor de “O Destino de Uma Nação“ e um elenco incrível com Amy Adams, Julianne Moore, Gary Oldman e Brian Tyree Henry. Pois bem, o fato é que esses talentos todos até funcionam no primeiro ato, criando um clima de suspense, drama e mistério dos melhores, mas que acaba não se sustentando até o final. O segundo ato é mediano e a conclusão muito apressada. Ok, mas isso faz o filme ser ruim? Depende da sua expectativa - como entretenimento é ótimo, você vai se sentir angustiado, provocado pelo mistério e ainda tomar alguns sustos; mas quando os créditos subirem sua mente não estará explodindo!
Veja, a personagem Anna Fox é alcóolatra, viciada em remédios, tem um trauma familiar, é agorafóbica e sofre de alucinações - um personagem complexo e cheio de camadas que funciona nas mão de Adams, mas que se desperdiça no filme pela necessidade de entregar toda a jornada em pouco mais de 90 minutos. Seria uma excelente minissérie, tem muito mistério e personagens orbitais que teriam muito a acrescentar na dinâmica narrativa e na construção de uma trama consistente, além da própria protagonista - basta lembrar de "The Undoing".
O fato é que “A Mulher na Janela” sofre com a expectativa criada, com os nomes envolvidos e com o sucesso do livro. Agora, se você um dia entrou na locadora só para alugar "Invasão de Privacidade", "Dormindo com o Inimigo", "Mulher Solteira Procura"; certamente você vai se divertir com o play!
Se você leu o livro que deu origem ao filme "A Mulher na Janela", provavelmente você vai se decepcionar! Se você não leu, você tem 50% de chance de gostar e te explico a razão: o filme tem uma dinâmica narrativa muito particular dos anos 90 e inicio dos anos 2000, uma época onde nossas referências eram bem mais limitadas do que temos hoje, com isso nosso nível de percepção da história era menos rigoroso, o que nos proporcionava ótimos momentos de entretenimento com o gênero, como em "Quarto do Pânico", "A Mão Que Balança o Berço" ou "Medo". Dito isso, esse suspense psicológico da Netflix com Amy Adams e Julianne Moore, vai te divertir mas não empolgar como deveria!
“A Mulher na Janela” é uma adaptação do livro homônimo de A.J. Finn que acompanha Anna Fox (Adams), uma psicóloga infantil que sofre de agorafobia (um tipo de transtorno de ansiedade em que a pessoa tem medo e evita lugares ou situações que podem causar pânico). Confinada em casa e a base da combinação entre remédios e álcool, ela começa a observar pela sua janela a vida aparentemente perfeita dos vizinhos que acabaram de se mudar para o prédio da frente. Um dia, ela acaba sendo testemunha de um crime violento e isso vira sua vida de cabeça para baixo. Confira o trailer:
Desde seu anúncio, "A Mulher na Janela" vinha sendo aguardado com muitas expectativas. A premissa "HBO" do filme se justificava pelos nomes envolvidos no projeto: Tracy Letts no roteiro (de "Killer Joe - Matador de Aluguel" e "Álbum de Família"), Joe Wright diretor de “O Destino de Uma Nação“ e um elenco incrível com Amy Adams, Julianne Moore, Gary Oldman e Brian Tyree Henry. Pois bem, o fato é que esses talentos todos até funcionam no primeiro ato, criando um clima de suspense, drama e mistério dos melhores, mas que acaba não se sustentando até o final. O segundo ato é mediano e a conclusão muito apressada. Ok, mas isso faz o filme ser ruim? Depende da sua expectativa - como entretenimento é ótimo, você vai se sentir angustiado, provocado pelo mistério e ainda tomar alguns sustos; mas quando os créditos subirem sua mente não estará explodindo!
Veja, a personagem Anna Fox é alcóolatra, viciada em remédios, tem um trauma familiar, é agorafóbica e sofre de alucinações - um personagem complexo e cheio de camadas que funciona nas mão de Adams, mas que se desperdiça no filme pela necessidade de entregar toda a jornada em pouco mais de 90 minutos. Seria uma excelente minissérie, tem muito mistério e personagens orbitais que teriam muito a acrescentar na dinâmica narrativa e na construção de uma trama consistente, além da própria protagonista - basta lembrar de "The Undoing".
O fato é que “A Mulher na Janela” sofre com a expectativa criada, com os nomes envolvidos e com o sucesso do livro. Agora, se você um dia entrou na locadora só para alugar "Invasão de Privacidade", "Dormindo com o Inimigo", "Mulher Solteira Procura"; certamente você vai se divertir com o play!
Angustiante e com uma trama muito bem construída - e tudo isso muito bem envolvido em um conceito estético realmente belíssimo! "A Mulher na Parede" é mesmo surpreendente! Criada por Joe Murtagh e produzida pela BBC, essa é mais uma minissérie de suspense psicológico que explora os limites entre o trauma e a memória, sempre pautada em muito mistério. Ambientada em uma pequena cidade irlandesa, "A Mulher na Parede"se destaca pela intensidade emocional de sua protagonista e pela atmosfera sombria e envolvente que permeia cada episódio. A produção combina um mistério intrigante com uma crítica social real sobre os abusos cometidos em instituições religiosas na Irlanda, especificamente em torno das chamadas Magdalene Laundries, onde mulheres (geralmente solteiras grávidas, prostitutas ou pessoas vistas de alguma forma como moralmente degradadas) eram mantidas em condições desumanas por décadas com o único objetivo de "dar a luz"!
A trama de "The Woman in the Wall" (no original) gira em torno de Lorna Brady (Ruth Wilson), uma mulher assombrada por eventos de seu passado relacionados ao tempo que passou em uma determinada instituição religiosa. Lorna, que sofre de episódios de amnésia e sonambulismo, acorda um dia para descobrir um cadáver em sua casa, mas não tem ideia de como ele foi parar lá. À medida que tenta desvendar o mistério, Lorna precisa enfrentar os fantasmas do passado, descobrir a verdade sobre sua relação com o convento e as mulheres que desapareceram de lá. É nesse contexto que conhecemos o detetive Colman Akande (Daryl McCormack), que investiga o caso e revela segredos que vão muito além de um crime comum. Confira o trailer:
Murtagh (de "Gangs of London") constrói uma narrativa rica em tensão. A minissérie é sombria em tom e estética, com uma direção que utiliza habilmente os cenários da pequena cidade irlandesa para criar uma sensação de isolamento e claustrofobia impressionante. A atmosfera opressiva escolhida pelas diretoras Harry Wootliff (de "Only You") e Rachna Suri (de "O Filho Bastardo do Diabo") reflete perfeitamente o estado mental de Lorna, além de remeter à sensação de desespero e perda de controle das mulheres que passaram pelas Magdalene Laundries - a minissérie é habilidosa em retratar como o passado pode assombrar o presente, e como instituições que deveriam cuidar das pessoas mais vulneráveis acabaram causando traumas ainda mais profundos. Essa crítica social de "A Mulher na Parede" é até sutil, mas poderosa. Veja, as Magdalene Laundries são retratadas como o cerne do mistério e também como um símbolo dos abusos institucionais sofridos por mulheres marginalizadas na sociedade irlandesa e embora o foco da trama esteja no suspense e na investigação, a crítica a essas instituições é clara.
Ruth Wilson, mais uma vez, dá um show em "A Mulher na Parede". Sua performance é repleta de camadas, oscilando entre vulnerabilidade e determinação com muita habilidade. Wilson retrata com sensibilidade o trauma psicológico de sua personagem, enquanto o mistério do corpo encontrado em sua casa funciona como uma metáfora para o peso das memórias reprimidas e os abusos sofridos em algum momento de sua vida. Lorna é sim uma figura trágica, mas também resiliente, e Wilson consegue transitar entres esses pólos de forma convincente, nos levando em uma jornada emocional de fato intensa. Daryl McCormack, o detetive Colman Akande, também merece destaque - ele traz uma dinâmica interessante para a narrativa através de sua interação com Lorna. É um misto de empatia e desconfiança, onde as descobertas que ele faz ao longo dos episódios acabam revelando que o mistério central é apenas a ponta do iceberg.
Uma infinidade de tons frios e sombrios intensificam esse aspecto mais melancólico e opressor da narrativa, enquanto as cenas externas capturam a beleza austera da paisagem irlandesa. A cidade pequena e isolada funciona quase como um personagem adicional, com seus segredos escondidos em cada esquina, ecoando a própria mente fragmentada de Lorna. Obviamente que esse mood visual reforça a atmosfera de mistério e tensão da narrativa, no entanto, por ser menos intrusiva, essa cadência pode afastar parte da audiência. A profundidade psicológica da trama e o foco em traumas pessoais podem parecer mais importantes que mistério central em certos episódios, no entanto, tudo é tão bem amarrado e os personagens são tão bem desenvolvidos que esse forte subtexto emocional em nada atrapalha nossa experiência, muito pelo contrário: assim que entendemos a proposta de Joe Murtagh é difícil parar de assistir!
Resumindo, "A Mulher na Parede" é uma reflexão poderosa sobre o passado e seus ecos no presente, fantasiada de investigação criminal, que vale muito o seu play!
Angustiante e com uma trama muito bem construída - e tudo isso muito bem envolvido em um conceito estético realmente belíssimo! "A Mulher na Parede" é mesmo surpreendente! Criada por Joe Murtagh e produzida pela BBC, essa é mais uma minissérie de suspense psicológico que explora os limites entre o trauma e a memória, sempre pautada em muito mistério. Ambientada em uma pequena cidade irlandesa, "A Mulher na Parede"se destaca pela intensidade emocional de sua protagonista e pela atmosfera sombria e envolvente que permeia cada episódio. A produção combina um mistério intrigante com uma crítica social real sobre os abusos cometidos em instituições religiosas na Irlanda, especificamente em torno das chamadas Magdalene Laundries, onde mulheres (geralmente solteiras grávidas, prostitutas ou pessoas vistas de alguma forma como moralmente degradadas) eram mantidas em condições desumanas por décadas com o único objetivo de "dar a luz"!
A trama de "The Woman in the Wall" (no original) gira em torno de Lorna Brady (Ruth Wilson), uma mulher assombrada por eventos de seu passado relacionados ao tempo que passou em uma determinada instituição religiosa. Lorna, que sofre de episódios de amnésia e sonambulismo, acorda um dia para descobrir um cadáver em sua casa, mas não tem ideia de como ele foi parar lá. À medida que tenta desvendar o mistério, Lorna precisa enfrentar os fantasmas do passado, descobrir a verdade sobre sua relação com o convento e as mulheres que desapareceram de lá. É nesse contexto que conhecemos o detetive Colman Akande (Daryl McCormack), que investiga o caso e revela segredos que vão muito além de um crime comum. Confira o trailer:
Murtagh (de "Gangs of London") constrói uma narrativa rica em tensão. A minissérie é sombria em tom e estética, com uma direção que utiliza habilmente os cenários da pequena cidade irlandesa para criar uma sensação de isolamento e claustrofobia impressionante. A atmosfera opressiva escolhida pelas diretoras Harry Wootliff (de "Only You") e Rachna Suri (de "O Filho Bastardo do Diabo") reflete perfeitamente o estado mental de Lorna, além de remeter à sensação de desespero e perda de controle das mulheres que passaram pelas Magdalene Laundries - a minissérie é habilidosa em retratar como o passado pode assombrar o presente, e como instituições que deveriam cuidar das pessoas mais vulneráveis acabaram causando traumas ainda mais profundos. Essa crítica social de "A Mulher na Parede" é até sutil, mas poderosa. Veja, as Magdalene Laundries são retratadas como o cerne do mistério e também como um símbolo dos abusos institucionais sofridos por mulheres marginalizadas na sociedade irlandesa e embora o foco da trama esteja no suspense e na investigação, a crítica a essas instituições é clara.
Ruth Wilson, mais uma vez, dá um show em "A Mulher na Parede". Sua performance é repleta de camadas, oscilando entre vulnerabilidade e determinação com muita habilidade. Wilson retrata com sensibilidade o trauma psicológico de sua personagem, enquanto o mistério do corpo encontrado em sua casa funciona como uma metáfora para o peso das memórias reprimidas e os abusos sofridos em algum momento de sua vida. Lorna é sim uma figura trágica, mas também resiliente, e Wilson consegue transitar entres esses pólos de forma convincente, nos levando em uma jornada emocional de fato intensa. Daryl McCormack, o detetive Colman Akande, também merece destaque - ele traz uma dinâmica interessante para a narrativa através de sua interação com Lorna. É um misto de empatia e desconfiança, onde as descobertas que ele faz ao longo dos episódios acabam revelando que o mistério central é apenas a ponta do iceberg.
Uma infinidade de tons frios e sombrios intensificam esse aspecto mais melancólico e opressor da narrativa, enquanto as cenas externas capturam a beleza austera da paisagem irlandesa. A cidade pequena e isolada funciona quase como um personagem adicional, com seus segredos escondidos em cada esquina, ecoando a própria mente fragmentada de Lorna. Obviamente que esse mood visual reforça a atmosfera de mistério e tensão da narrativa, no entanto, por ser menos intrusiva, essa cadência pode afastar parte da audiência. A profundidade psicológica da trama e o foco em traumas pessoais podem parecer mais importantes que mistério central em certos episódios, no entanto, tudo é tão bem amarrado e os personagens são tão bem desenvolvidos que esse forte subtexto emocional em nada atrapalha nossa experiência, muito pelo contrário: assim que entendemos a proposta de Joe Murtagh é difícil parar de assistir!
Resumindo, "A Mulher na Parede" é uma reflexão poderosa sobre o passado e seus ecos no presente, fantasiada de investigação criminal, que vale muito o seu play!
Desde a sua estreia nos cinemas, "A Mulher Rei" vem colecionando elogios do público e da crítica por evidenciar o poder da mulher ao assumir o protagonismo de sua história sem esquecer do entretenimento de excelente qualidade. Em uma narrativa que mistura vários elementos de "Pantera Negra" com "Vikings", o filme dirigido pela Gina Prince-Bythewood (de "The Old Guard") estabelece uma dinâmica tão interessante que praticamente nos impede de tirar os olhos da tela. Com uma trama consistente, personagens complexos e com conexões realmente emocionantes, além de sequências de ação muito bem coreografadas, "A Mulher Rei" surpreende tanto pela qualidade quanto pela maturidade e justifica a enorme quantidade prêmios que conquistou pelos Festivais ao redor do globo e as duas indicações ao BAFTA 2023 - Melhor Direção e Melhor Atriz.
Na trama acompanhamos Nanisca (Viola Davis) uma comandante do exército do Reino de Daomé, um dos locais mais poderosos da África nos séculos XVIII e XIX. Durante o período, esse grupo de elite era composto apenas por mulheres que, juntas, combateram seus colonizadores, tribos rivais e todos aqueles que tentaram escravizar seu povo e destruir suas terras. Conhecidas como Agojie, esse grupo foi criado por conta da população masculina que sofria com a violência da guerra e com a frequente comercialização de escravos pelo Império Oyo. Quando um novo inimigo decide destruir seu modo de vida, Nanisca precisa treinar a próxima geração de guerreiras para um sangrento combate que está por vir. Confira o trailer:
A habilidade de Gina Prince-Bythewood em equilibrar ação e emoção ao longo do filme, impressiona - dadas as devidas proporções e respeitando um subgênero mais, digamos, "realista", lembra muito "O Predador: A Caçada". A direção é bastante cuidadosa, com sequências de ação realmente empolgantes, mas também com momentos de introspecção que permitem aos personagens explorar suas motivações e desenvolver relacionamentos, de fato, significativos - essa construção de camadas mais profundas é o que dá certa "alma" ao filme. Aliás, é aí que Prince-Bythewood brilha, ao demonstrar a mesma maestria em criar um ritmo adequado para a narrativa, mantendo a história realmente envolvente do início ao fim.
O roteiro escrito pela Dana Stevens (criadora de uma série que eu adorava chamada "What About Brian" e roteirista de "Paternidade") e pela Maria Bello (de "Treta" da Netflix) proporciona momentos de tirar o fôlego ao mesmo tempo em que traz para discussão temas como propósito e a luta pela justiça, explorando questões filosóficas e éticas de uma maneira bastante interessante. Obviamente que o elenco só potencializa o texto, e nesse ponto Viola Davis toma conta do jogo - ela entrega uma performance emocionalmente complexa, capaz de capturar a dor de uma mulher marcada pelo passado com a mesma vibração e determinação de uma guerreira que parece imortal. A jovem Thuso Mbedu (que vive Nawi) também merece elogios - reparem como ela transita entre a altivez e a coragem sempre com um certo toque melancolia.
Resumindo, "A Mulher Rei" se destaca como um filme que vai além das convenções do gênero de ação, oferecendo uma abordagem envolvente e relevante culturalmente. Sob a direção de Prince-Bythewood, o filme encontra exatamente o valor de suas sequências de ação poderosas com os momentos de profundidade emocional de seus personagens, resultando em uma experiência cinematográfica das mais cativantes - eu diria que é uma prova da força do cinema em proporcionar um entretenimento impactante e reflexões tão significativas.
Vale muito seu play!
Desde a sua estreia nos cinemas, "A Mulher Rei" vem colecionando elogios do público e da crítica por evidenciar o poder da mulher ao assumir o protagonismo de sua história sem esquecer do entretenimento de excelente qualidade. Em uma narrativa que mistura vários elementos de "Pantera Negra" com "Vikings", o filme dirigido pela Gina Prince-Bythewood (de "The Old Guard") estabelece uma dinâmica tão interessante que praticamente nos impede de tirar os olhos da tela. Com uma trama consistente, personagens complexos e com conexões realmente emocionantes, além de sequências de ação muito bem coreografadas, "A Mulher Rei" surpreende tanto pela qualidade quanto pela maturidade e justifica a enorme quantidade prêmios que conquistou pelos Festivais ao redor do globo e as duas indicações ao BAFTA 2023 - Melhor Direção e Melhor Atriz.
Na trama acompanhamos Nanisca (Viola Davis) uma comandante do exército do Reino de Daomé, um dos locais mais poderosos da África nos séculos XVIII e XIX. Durante o período, esse grupo de elite era composto apenas por mulheres que, juntas, combateram seus colonizadores, tribos rivais e todos aqueles que tentaram escravizar seu povo e destruir suas terras. Conhecidas como Agojie, esse grupo foi criado por conta da população masculina que sofria com a violência da guerra e com a frequente comercialização de escravos pelo Império Oyo. Quando um novo inimigo decide destruir seu modo de vida, Nanisca precisa treinar a próxima geração de guerreiras para um sangrento combate que está por vir. Confira o trailer:
A habilidade de Gina Prince-Bythewood em equilibrar ação e emoção ao longo do filme, impressiona - dadas as devidas proporções e respeitando um subgênero mais, digamos, "realista", lembra muito "O Predador: A Caçada". A direção é bastante cuidadosa, com sequências de ação realmente empolgantes, mas também com momentos de introspecção que permitem aos personagens explorar suas motivações e desenvolver relacionamentos, de fato, significativos - essa construção de camadas mais profundas é o que dá certa "alma" ao filme. Aliás, é aí que Prince-Bythewood brilha, ao demonstrar a mesma maestria em criar um ritmo adequado para a narrativa, mantendo a história realmente envolvente do início ao fim.
O roteiro escrito pela Dana Stevens (criadora de uma série que eu adorava chamada "What About Brian" e roteirista de "Paternidade") e pela Maria Bello (de "Treta" da Netflix) proporciona momentos de tirar o fôlego ao mesmo tempo em que traz para discussão temas como propósito e a luta pela justiça, explorando questões filosóficas e éticas de uma maneira bastante interessante. Obviamente que o elenco só potencializa o texto, e nesse ponto Viola Davis toma conta do jogo - ela entrega uma performance emocionalmente complexa, capaz de capturar a dor de uma mulher marcada pelo passado com a mesma vibração e determinação de uma guerreira que parece imortal. A jovem Thuso Mbedu (que vive Nawi) também merece elogios - reparem como ela transita entre a altivez e a coragem sempre com um certo toque melancolia.
Resumindo, "A Mulher Rei" se destaca como um filme que vai além das convenções do gênero de ação, oferecendo uma abordagem envolvente e relevante culturalmente. Sob a direção de Prince-Bythewood, o filme encontra exatamente o valor de suas sequências de ação poderosas com os momentos de profundidade emocional de seus personagens, resultando em uma experiência cinematográfica das mais cativantes - eu diria que é uma prova da força do cinema em proporcionar um entretenimento impactante e reflexões tão significativas.
Vale muito seu play!
"A pé ele não vai longe" é, na verdade, um recorte biográfico do cartunista americano John Callahan - o que transforma a obra em um "filme de personagem" que usa e abusa da capacidade de Joaquin Phoenix para contar uma história cheia de camadas, conduzida por um diretor talentoso como Gus Van Sant (de "Gênio Indomável"), mas com uma narrativa truncada, fragmentada e difícil de se conectar (principalmente para nós brasileiros que não conhecemos o personagem). Por outro lado, o roteiro é muito feliz em mostrar a transformação de uma figura perdida na vida em uma referência artística para uma geração, que usou do humor e da ironia para discutir temas sensíveis como o racismo, a sexualidade e a deficiência física. Na linha do "ame ou odeie", esse é mais um daqueles filmes onde o personagem se confunde com a própria história!
Na trajetória difícil para a sobriedade, após um acidente que mudou sua vida, John Callahan (Joaquin Phoenix) descobre o poder curativo da arte, permitindo que suas mãos lesionadas criem desenhos arrojados, hilários e muitas vezes polêmicos, proporcionando para ele fama e uma nova perspectiva de futuro. Confira o trailer:
Inicialmente a montagem do próprio Gus Van Sant pode causar um certo estranhamento, já que a quebra de linearidade temporal é dinâmica e se repete de maneira extremamente orgânica a todo momento. Esse conceito narrativo, inclusive, ajuda a criar um universo bastante particular já que os personagens parecem estereotipados, sempre um tom acima - John Callahan, por exemplo, parece uma caricatura de si mesmo com seu cabelo laranja e um figurino setentista cheio de cores e estampas; ou até Donnie Green (Jonah Hill), uma espécie de padrinho e tutor emocional de Callahan, com sua caracterização quase divina, um tom de voz manso, mesmo quando faz discursos mais críticos, equilibrando uma certa passividade com uma agressividade cheia de contradições. O fato é que funciona como alegoria, mas nos dá uma sensação de distanciamento da realidade.
Um detalhe que me soou bastante interessante diz respeito ao posicionamento do roteiro em assumir uma postura neutra quanto a defender ou acusar Callahan de seus excessos - e aqui não falo apenas do álcool. A personalidade complexa do protagonista nos provoca toda hora, já que em muitos momentos o enxergamos como um gênio, em outros como um frustrado e pessimista; em várias passagens ele é grosseiro, mas pontualmente é também encantador - a verdade é que o julgamento (e não serão poucos) está nas nossas mãos como audiência. Reparem na cena em que Callahan conversa com uma especialista sobre sexo para pessoas paraplégicas e depois em como ele se relaciona com Annu (Rooney Mara).
Apesar das cenas tristes, naturalmente previstas devido ao drama da paralisia, o tom de "A pé ele não vai longe" é relativamente leve. Temos algumas cenas bem divertidas de superação, como a luta de Callahan para cumprir seu tratamento de "12 passos para a sobriedade", e outras extremamente emotivas como o discurso de Donnie Green ou a conversa, anos depois, entre o protagonista e o homem que causou seu acidente. Eu diria, com a maior tranquilidade, que mesmo tentando escapar do "piegas", Van Sant não deixa de entregar um belo filme sobre o verdadeiro valor da vida, mas com aquele toque bastante autoral.
Vale seu play!
"A pé ele não vai longe" é, na verdade, um recorte biográfico do cartunista americano John Callahan - o que transforma a obra em um "filme de personagem" que usa e abusa da capacidade de Joaquin Phoenix para contar uma história cheia de camadas, conduzida por um diretor talentoso como Gus Van Sant (de "Gênio Indomável"), mas com uma narrativa truncada, fragmentada e difícil de se conectar (principalmente para nós brasileiros que não conhecemos o personagem). Por outro lado, o roteiro é muito feliz em mostrar a transformação de uma figura perdida na vida em uma referência artística para uma geração, que usou do humor e da ironia para discutir temas sensíveis como o racismo, a sexualidade e a deficiência física. Na linha do "ame ou odeie", esse é mais um daqueles filmes onde o personagem se confunde com a própria história!
Na trajetória difícil para a sobriedade, após um acidente que mudou sua vida, John Callahan (Joaquin Phoenix) descobre o poder curativo da arte, permitindo que suas mãos lesionadas criem desenhos arrojados, hilários e muitas vezes polêmicos, proporcionando para ele fama e uma nova perspectiva de futuro. Confira o trailer:
Inicialmente a montagem do próprio Gus Van Sant pode causar um certo estranhamento, já que a quebra de linearidade temporal é dinâmica e se repete de maneira extremamente orgânica a todo momento. Esse conceito narrativo, inclusive, ajuda a criar um universo bastante particular já que os personagens parecem estereotipados, sempre um tom acima - John Callahan, por exemplo, parece uma caricatura de si mesmo com seu cabelo laranja e um figurino setentista cheio de cores e estampas; ou até Donnie Green (Jonah Hill), uma espécie de padrinho e tutor emocional de Callahan, com sua caracterização quase divina, um tom de voz manso, mesmo quando faz discursos mais críticos, equilibrando uma certa passividade com uma agressividade cheia de contradições. O fato é que funciona como alegoria, mas nos dá uma sensação de distanciamento da realidade.
Um detalhe que me soou bastante interessante diz respeito ao posicionamento do roteiro em assumir uma postura neutra quanto a defender ou acusar Callahan de seus excessos - e aqui não falo apenas do álcool. A personalidade complexa do protagonista nos provoca toda hora, já que em muitos momentos o enxergamos como um gênio, em outros como um frustrado e pessimista; em várias passagens ele é grosseiro, mas pontualmente é também encantador - a verdade é que o julgamento (e não serão poucos) está nas nossas mãos como audiência. Reparem na cena em que Callahan conversa com uma especialista sobre sexo para pessoas paraplégicas e depois em como ele se relaciona com Annu (Rooney Mara).
Apesar das cenas tristes, naturalmente previstas devido ao drama da paralisia, o tom de "A pé ele não vai longe" é relativamente leve. Temos algumas cenas bem divertidas de superação, como a luta de Callahan para cumprir seu tratamento de "12 passos para a sobriedade", e outras extremamente emotivas como o discurso de Donnie Green ou a conversa, anos depois, entre o protagonista e o homem que causou seu acidente. Eu diria, com a maior tranquilidade, que mesmo tentando escapar do "piegas", Van Sant não deixa de entregar um belo filme sobre o verdadeiro valor da vida, mas com aquele toque bastante autoral.
Vale seu play!
Se você ainda não assistiu, assista! Se você já assistiu, posso te garantir: nos dias de hoje, nossa percepção sobre a história da criação do Facebook é completamente diferente daquela que tínhamos em 2010 quando o filme foi lançado. Indicado em 8 categorias no Oscar de 2011, "A Rede Social" foi uma das produções mais premiadas daquela temporada em festivais importantes ao redor do planeta, com cerca de 175 vitórias e mais de 180 indicações - um verdadeiro fenômeno! A questão é que "o filme do Facebook" foi construído em cima do livro, "Bilionários por Acaso" do Bem Mezrich, em uma época que ainda não estávamos familiarizados com termos como Startup, Equity, Venture Capital e até, podemos dizer, com o enorme potencial que uma rede social viria a ter para gerar lucros. Te garanto que todos esses detalhes ganham uma outra dimensão no segundo "play", por isso mereceu uma análise mais atual!
Em uma noite de outono em 2003, Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), um jovem desenvolvedor de Harvard, senta na frente de seu computador e irritado com o término de um relacionamento, começa a trabalhar em uma nova ideia. Apenas seis anos e 500 milhões de amigos mais tarde, Zuckerberg se torna o mais jovem bilionário da história graças ao sucesso de sua nova rede social: o Facebook. Esse sucesso, no entanto, acaba gerando muita dor de cabeça para ele, já que muitas pessoas envolvidas na criação do Facebook passam a cobrar de Zuckerberg os créditos e, talvez o mais impressionante, valores astronômicos referente a uma porcentagem dos investimentos feitos até ali na plataforma. Confira o trailer:
Dirigido pelo genial David Fincher e com um roteiro primoroso (vencedor do Oscar) do Aaron Sorkin, "A Rede Social" é extremamente competente ao retratar os bastidores do surgimento da Rede Social que mudou a maneira como nós nos relacionamos com a internet, pelos olhos de seu criador. Obviamente que atribuir esse status ao Mark Zuckerberg (brilhantemente interpretado pelo Eisenberg) e esquecer do brasileiro Eduardo Saverin (com um show do Andrew Garfield) e talvez (um pouco menos) dos irmãos Winklevoss (Armie Hammer), pode soar um pouco injusto, mas é inegável que a construção narrativa do filme deixa claro que o embate psicológico dessa jornada, de fato, merecia ser contada - e aqui cabe uma observação: o plot principal não tem nada a ver com tecnologia, mas sim com as relações estabelecidas durante a criação e o desenvolvimento do projeto.
Muito bem editado pelo Kirk Baxter e pelo Angus Wall (ambos vencedores do Oscar também por "The Girl with the Dragon Tattoo"), o filme é tão dinâmico quanto a forma como Mark Zuckerberg vai conectando suas ideias - para aqueles que se apoiam na legenda para entender os diálogos, se preparem, pois a leitura exige rapidez. Com a quebra da linha temporal, Fincher retratar pontos-chaves de uma complexa e turbulenta história real sem nos dar a sensação de que faltou algo. Talvez, com o streaming e se "A Rede Social" fosse uma minissérie, seu sucesso seria ainda mais estrondoso - basta reparar em tantas produções com a mesma temática que vieram depois: de Google Earth até Spotify, passando pelo Uber, pela Theranos e pelo WeWork.
A beleza de assistir filmes como "A Rede Social", aqui por muito mérito de Fincher e Sorkin, está justamente na possibilidade de olhar para o novo pela perspectiva de quem esteve lá desde o princípio, sem necessariamente ter que mergulhar em um documentário denso ou mais cadenciado. Quando Fincher se propôs a contar essa história, ele tinha em mente nos permitir olhar para um fato e, dadas as informações, julgar algumas atitudes - ou pelo menos a de entender a razão delas. Quando ouvimos que o sucesso de uma startup está na forma como seu fundador constrói uma solução de um problema em um mercado enorme, nem nos damos conta que muita coisa acontece por acaso, dentro de um contexto nem tão brilhante assim, onde é necessário ligar alguns pontos e que para isso crescer, alguém precisa acreditar (e investir). Talvez hoje, isso fique mais claro para a audiência e, para mim, esse filme foi como abrir uma janela de possibilidades onde perceber que a disrupção tem um custo e quem nem todos estão dispostos a pagar, faz parte do jogo!
Vale muito seu play!
Up-date: "A Rede Social" ganhou em três das oito indicações no Oscar 2011: Melhor Edição, e Melhor Música e Melhor Roteiro Adaptado!
Se você ainda não assistiu, assista! Se você já assistiu, posso te garantir: nos dias de hoje, nossa percepção sobre a história da criação do Facebook é completamente diferente daquela que tínhamos em 2010 quando o filme foi lançado. Indicado em 8 categorias no Oscar de 2011, "A Rede Social" foi uma das produções mais premiadas daquela temporada em festivais importantes ao redor do planeta, com cerca de 175 vitórias e mais de 180 indicações - um verdadeiro fenômeno! A questão é que "o filme do Facebook" foi construído em cima do livro, "Bilionários por Acaso" do Bem Mezrich, em uma época que ainda não estávamos familiarizados com termos como Startup, Equity, Venture Capital e até, podemos dizer, com o enorme potencial que uma rede social viria a ter para gerar lucros. Te garanto que todos esses detalhes ganham uma outra dimensão no segundo "play", por isso mereceu uma análise mais atual!
Em uma noite de outono em 2003, Mark Zuckerberg (Jesse Eisenberg), um jovem desenvolvedor de Harvard, senta na frente de seu computador e irritado com o término de um relacionamento, começa a trabalhar em uma nova ideia. Apenas seis anos e 500 milhões de amigos mais tarde, Zuckerberg se torna o mais jovem bilionário da história graças ao sucesso de sua nova rede social: o Facebook. Esse sucesso, no entanto, acaba gerando muita dor de cabeça para ele, já que muitas pessoas envolvidas na criação do Facebook passam a cobrar de Zuckerberg os créditos e, talvez o mais impressionante, valores astronômicos referente a uma porcentagem dos investimentos feitos até ali na plataforma. Confira o trailer:
Dirigido pelo genial David Fincher e com um roteiro primoroso (vencedor do Oscar) do Aaron Sorkin, "A Rede Social" é extremamente competente ao retratar os bastidores do surgimento da Rede Social que mudou a maneira como nós nos relacionamos com a internet, pelos olhos de seu criador. Obviamente que atribuir esse status ao Mark Zuckerberg (brilhantemente interpretado pelo Eisenberg) e esquecer do brasileiro Eduardo Saverin (com um show do Andrew Garfield) e talvez (um pouco menos) dos irmãos Winklevoss (Armie Hammer), pode soar um pouco injusto, mas é inegável que a construção narrativa do filme deixa claro que o embate psicológico dessa jornada, de fato, merecia ser contada - e aqui cabe uma observação: o plot principal não tem nada a ver com tecnologia, mas sim com as relações estabelecidas durante a criação e o desenvolvimento do projeto.
Muito bem editado pelo Kirk Baxter e pelo Angus Wall (ambos vencedores do Oscar também por "The Girl with the Dragon Tattoo"), o filme é tão dinâmico quanto a forma como Mark Zuckerberg vai conectando suas ideias - para aqueles que se apoiam na legenda para entender os diálogos, se preparem, pois a leitura exige rapidez. Com a quebra da linha temporal, Fincher retratar pontos-chaves de uma complexa e turbulenta história real sem nos dar a sensação de que faltou algo. Talvez, com o streaming e se "A Rede Social" fosse uma minissérie, seu sucesso seria ainda mais estrondoso - basta reparar em tantas produções com a mesma temática que vieram depois: de Google Earth até Spotify, passando pelo Uber, pela Theranos e pelo WeWork.
A beleza de assistir filmes como "A Rede Social", aqui por muito mérito de Fincher e Sorkin, está justamente na possibilidade de olhar para o novo pela perspectiva de quem esteve lá desde o princípio, sem necessariamente ter que mergulhar em um documentário denso ou mais cadenciado. Quando Fincher se propôs a contar essa história, ele tinha em mente nos permitir olhar para um fato e, dadas as informações, julgar algumas atitudes - ou pelo menos a de entender a razão delas. Quando ouvimos que o sucesso de uma startup está na forma como seu fundador constrói uma solução de um problema em um mercado enorme, nem nos damos conta que muita coisa acontece por acaso, dentro de um contexto nem tão brilhante assim, onde é necessário ligar alguns pontos e que para isso crescer, alguém precisa acreditar (e investir). Talvez hoje, isso fique mais claro para a audiência e, para mim, esse filme foi como abrir uma janela de possibilidades onde perceber que a disrupção tem um custo e quem nem todos estão dispostos a pagar, faz parte do jogo!
Vale muito seu play!
Up-date: "A Rede Social" ganhou em três das oito indicações no Oscar 2011: Melhor Edição, e Melhor Música e Melhor Roteiro Adaptado!
"A Terapia" (que ganhou o egocêntrico subtítulo de "por Sebastian Fitzek" atestando ser uma adaptação do seu best-seller) é uma espécie de drama psicológico bem anos 90, mas com aquele toque inconfundível de Harlan Coben - que nesse caso entrega seis episódios de entretenimento puro, com muito mistério e algum suspense, mas que vai exigir uma boa dose de abstração da realidade para embarcar na proposta do autor. Criada pelo Alexander M. Rümelin (de "Transporter: The Series"), essa produção alemã é muito bem realizada e de fato nos prende por uma série de gatilhos narrativos que parte de um caso de desaparecimento chocante que vai ganhando força com uma série de desdobramentos inesperados, nos provocando algumas boas horas de suposições e teorias até sermos surpreendidos por seu desfecho - mas atenção: muitas das soluções apresentadas durante a história você já viu em algum lugar, então não espere algo absurdamente inovador; o que vale aqui é a diversão!
"A Terapia" segue a jornada do renomado psicoterapeuta Viktor Larenz (Stephan Kampwirth) cuja vida é abalada quando sua filha Jose (Helena Zengel) desaparece misteriosamente. Consumido pela culpa e pela dor, Larenz decide se isolar em uma ilha, onde um encontro inesperado com a misteriosa Anna Spiegel (Emma Bading) desencadeia vários eventos perturbadores e à medida que alguns segredos são desvendados, a linha entre a realidade e imaginação se torna cada vez mais tênue. Confira o trailer (em alemão):
Olhar para "A Terapia, por Sebastian Fitzek" e não se impressionar com a maneira como sua narrativa desafia nossas expectativas como audiência, soa improvável desde o primeiro episódio - para não dizer desde o trailer (mesmo sem entender uma única palavra em alemão). Sim, esse é o mood que nos acompanha durante quase 6 horas em uma trama repleta de reviravoltas imprevisíveis que nos convida constantemente a questionar aquela realidade que o protagonista está inserido - olha, é uma sensação meio "Lost", meio "O Sexto Sentido", para ficar apenas nos clássicos do mistério.
A direção de arte e a fotografia são realmente de tirar o fôlego, criando uma composição entre "forma" e "conteúdo" bastante envolvente. Dirigida por Thor Freudenthal (de ""Carnival Row") e Iván Sáinz-Pardo (do premiadíssimo curta-metragem "Simones Labyrinth"), a minissérie é um primor estético com cenas cuidadosamente elaboradas para refletir toda a tensão psicológica que permeia a história. Minha única crítica diz respeito as performances dos atores. Tirando Stephan Kampwirth e Helena Zengel (a garotinha apaixonante de "Relatos do Mundo" que agora cresceu) que entregam convincentes e complexos personagens, todo o elenco de apoio é bem mediano, eu diria até estereotipados demais. A trilha sonora e a edição de som até que ajudam a minimizar a limitação de parte do elenco, complementando uma atmosfera sombria que eleva nossa experiência, mas em alguns momentos você sente a falta de alma, sabe?
A verdade é que "A Terapia" é muito mais uma jornada intensa e misteriosa, que desafia e cativa, do que uma obra-prima narrativa como "Dark", por exemplo. A sua estrutura, habilmente construída por Fitzek em seu livro, é bem adaptada para as telas, mantendo a proposta envolvente do quebra-cabeça psicológico que nos prende do início ao fim, combinando elementos técnicos excepcionais com performances medianas, mas que entregam uma ótima experiência - especialmente a partir do terceiro episódio quando entendemos o caminho que estamos percorrendo. Para os amantes do drama psicológico, investigativo, com certo suspense e uma pitada de sobrenatural, esse é um "play" que vale embarcar.
"A Terapia" (que ganhou o egocêntrico subtítulo de "por Sebastian Fitzek" atestando ser uma adaptação do seu best-seller) é uma espécie de drama psicológico bem anos 90, mas com aquele toque inconfundível de Harlan Coben - que nesse caso entrega seis episódios de entretenimento puro, com muito mistério e algum suspense, mas que vai exigir uma boa dose de abstração da realidade para embarcar na proposta do autor. Criada pelo Alexander M. Rümelin (de "Transporter: The Series"), essa produção alemã é muito bem realizada e de fato nos prende por uma série de gatilhos narrativos que parte de um caso de desaparecimento chocante que vai ganhando força com uma série de desdobramentos inesperados, nos provocando algumas boas horas de suposições e teorias até sermos surpreendidos por seu desfecho - mas atenção: muitas das soluções apresentadas durante a história você já viu em algum lugar, então não espere algo absurdamente inovador; o que vale aqui é a diversão!
"A Terapia" segue a jornada do renomado psicoterapeuta Viktor Larenz (Stephan Kampwirth) cuja vida é abalada quando sua filha Jose (Helena Zengel) desaparece misteriosamente. Consumido pela culpa e pela dor, Larenz decide se isolar em uma ilha, onde um encontro inesperado com a misteriosa Anna Spiegel (Emma Bading) desencadeia vários eventos perturbadores e à medida que alguns segredos são desvendados, a linha entre a realidade e imaginação se torna cada vez mais tênue. Confira o trailer (em alemão):
Olhar para "A Terapia, por Sebastian Fitzek" e não se impressionar com a maneira como sua narrativa desafia nossas expectativas como audiência, soa improvável desde o primeiro episódio - para não dizer desde o trailer (mesmo sem entender uma única palavra em alemão). Sim, esse é o mood que nos acompanha durante quase 6 horas em uma trama repleta de reviravoltas imprevisíveis que nos convida constantemente a questionar aquela realidade que o protagonista está inserido - olha, é uma sensação meio "Lost", meio "O Sexto Sentido", para ficar apenas nos clássicos do mistério.
A direção de arte e a fotografia são realmente de tirar o fôlego, criando uma composição entre "forma" e "conteúdo" bastante envolvente. Dirigida por Thor Freudenthal (de ""Carnival Row") e Iván Sáinz-Pardo (do premiadíssimo curta-metragem "Simones Labyrinth"), a minissérie é um primor estético com cenas cuidadosamente elaboradas para refletir toda a tensão psicológica que permeia a história. Minha única crítica diz respeito as performances dos atores. Tirando Stephan Kampwirth e Helena Zengel (a garotinha apaixonante de "Relatos do Mundo" que agora cresceu) que entregam convincentes e complexos personagens, todo o elenco de apoio é bem mediano, eu diria até estereotipados demais. A trilha sonora e a edição de som até que ajudam a minimizar a limitação de parte do elenco, complementando uma atmosfera sombria que eleva nossa experiência, mas em alguns momentos você sente a falta de alma, sabe?
A verdade é que "A Terapia" é muito mais uma jornada intensa e misteriosa, que desafia e cativa, do que uma obra-prima narrativa como "Dark", por exemplo. A sua estrutura, habilmente construída por Fitzek em seu livro, é bem adaptada para as telas, mantendo a proposta envolvente do quebra-cabeça psicológico que nos prende do início ao fim, combinando elementos técnicos excepcionais com performances medianas, mas que entregam uma ótima experiência - especialmente a partir do terceiro episódio quando entendemos o caminho que estamos percorrendo. Para os amantes do drama psicológico, investigativo, com certo suspense e uma pitada de sobrenatural, esse é um "play" que vale embarcar.
"A última coisa que ele queria" chegou no catálogo da Netflix com algumas credenciais importantes: tinha no seu comando uma diretora extremamente competente, Dee Rees (de Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi); um elenco com nomes de muito peso como: Anne Hathaway, Ben Affleck e Willem Dafoe; e para finalizar, era baseado em um livro que, mesmo sem tanta projeção, parecia servir como uma excelente premissa para um ótimo filme de ação com elementos dramáticos, políticos, históricos e até jornalísticos - um pouco na linha de "Argo"!
Confira o trailer:
Mesmo com tudo isso a favor, o filme tem problemas sérios de roteiro - são muitos detalhes (históricos, inclusive) que não dá tempo de desenvolver, explicar e até organizar dentro de um arco consistente: a história de uma repórter, Elena McMahon (Anne Hathaway), que investiga uma conspiração politica envolvendo contrabando de armas e que, por acaso, acaba se envolvendo nessas negociações em uma América Central marcada pela guerra miliciana; merecia, pelo menos, mais umas duas ou três horas! O filme não é ruim, mas eu tenho que admitir que esperava mais - talvez se fosse mesmo uma minissérie, teríamos um excelente entretenimento disponível, como é um filme, o resultado ficou apenas mediano!
É de se imaginar que no livro de Joan Didion, a história de "A última coisa que ele queria" avance com mais naturalidade e as peças do quebra-cabeça não sejam tão aleatórias, pois certamente existe uma coerência dramática na construção das motivações da protagonista. Nessa adaptação, o roteiro se perde com alguns elementos que para o filme não fazem o menor sentido. A relação de Elena McMahon com sua filha e a citação do seu câncer de mama criam o drama, mas não se justificam - experimente tirar todas essas cenas e reparem se faz (ou não) alguma diferença no resultado final! É claro que, com mais tempo, esses dramas seriam essenciais para a construção da personagem - mais ou menos como a bipolaridade e a tensão sexual serviam de gatilhos para Carrie Mathison (Claire Danes) em "Homeland". As relações estabelecidas com seu pai Dick (Willem Dafoe) e com o Treat Morrison (Ben Affleck) são superficiais, baseado em motivações sem questionamentos ou preocupações - Treat Morrison, por exemplo, parece o "Mestre do Magos": ele aparece (e some) em todos os lugares do planeta como em um passe de mágica!
Quando o filme começa com Elena McMahon cobrindo o conflito militar de El Salvador em 1982 e depois questionando o governo americano sobre uma possível relação com grupos milicianos da região, temos a impressão que tudo vai funcionar bem, porém quando o drama do seu pai é inserido na trama e uma série de personagens começam a surgir na história sem nenhuma explicação, ficamos apenas com a tensão que a personagem está vivendo por estar em um ambiente completamente inóspito, onde a chance de tudo acabar mal é muito grande - e aí temos o alivio dramático com o excelente trabalho de Hathaway. A direção consegue construir esse clima (tirando a última cena de Elena McMahon que foi pessimamente realizada), a fotografia do Bobby Bukowski não compromete (mas também não empolga), o desenho de produção é bem interessante na reconstrução dos anos 80 caribenho, mas o roteiro não acompanha - parece que faltaram cenas que contassem melhor a história! Embora o final tenha um certo valor, percebemos claramente um descompasso entre um primeiro ato interessante, um segundo ato fraco e um terceiro bem confuso e corrido.
"A última coisa que ele queria" deixa um gostinho de que poderia ser melhor - mas não nesse formato! Quem gosta de tramas politicas com aquele tempero investigativo vai se divertir mais do que aqueles que buscam apenas um bom entretenimento, mas ambos não vão terminar o filme com aquela sensação maravilhosa de ter assistido algo incrível!
"A última coisa que ele queria" chegou no catálogo da Netflix com algumas credenciais importantes: tinha no seu comando uma diretora extremamente competente, Dee Rees (de Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi); um elenco com nomes de muito peso como: Anne Hathaway, Ben Affleck e Willem Dafoe; e para finalizar, era baseado em um livro que, mesmo sem tanta projeção, parecia servir como uma excelente premissa para um ótimo filme de ação com elementos dramáticos, políticos, históricos e até jornalísticos - um pouco na linha de "Argo"!
Confira o trailer:
Mesmo com tudo isso a favor, o filme tem problemas sérios de roteiro - são muitos detalhes (históricos, inclusive) que não dá tempo de desenvolver, explicar e até organizar dentro de um arco consistente: a história de uma repórter, Elena McMahon (Anne Hathaway), que investiga uma conspiração politica envolvendo contrabando de armas e que, por acaso, acaba se envolvendo nessas negociações em uma América Central marcada pela guerra miliciana; merecia, pelo menos, mais umas duas ou três horas! O filme não é ruim, mas eu tenho que admitir que esperava mais - talvez se fosse mesmo uma minissérie, teríamos um excelente entretenimento disponível, como é um filme, o resultado ficou apenas mediano!
É de se imaginar que no livro de Joan Didion, a história de "A última coisa que ele queria" avance com mais naturalidade e as peças do quebra-cabeça não sejam tão aleatórias, pois certamente existe uma coerência dramática na construção das motivações da protagonista. Nessa adaptação, o roteiro se perde com alguns elementos que para o filme não fazem o menor sentido. A relação de Elena McMahon com sua filha e a citação do seu câncer de mama criam o drama, mas não se justificam - experimente tirar todas essas cenas e reparem se faz (ou não) alguma diferença no resultado final! É claro que, com mais tempo, esses dramas seriam essenciais para a construção da personagem - mais ou menos como a bipolaridade e a tensão sexual serviam de gatilhos para Carrie Mathison (Claire Danes) em "Homeland". As relações estabelecidas com seu pai Dick (Willem Dafoe) e com o Treat Morrison (Ben Affleck) são superficiais, baseado em motivações sem questionamentos ou preocupações - Treat Morrison, por exemplo, parece o "Mestre do Magos": ele aparece (e some) em todos os lugares do planeta como em um passe de mágica!
Quando o filme começa com Elena McMahon cobrindo o conflito militar de El Salvador em 1982 e depois questionando o governo americano sobre uma possível relação com grupos milicianos da região, temos a impressão que tudo vai funcionar bem, porém quando o drama do seu pai é inserido na trama e uma série de personagens começam a surgir na história sem nenhuma explicação, ficamos apenas com a tensão que a personagem está vivendo por estar em um ambiente completamente inóspito, onde a chance de tudo acabar mal é muito grande - e aí temos o alivio dramático com o excelente trabalho de Hathaway. A direção consegue construir esse clima (tirando a última cena de Elena McMahon que foi pessimamente realizada), a fotografia do Bobby Bukowski não compromete (mas também não empolga), o desenho de produção é bem interessante na reconstrução dos anos 80 caribenho, mas o roteiro não acompanha - parece que faltaram cenas que contassem melhor a história! Embora o final tenha um certo valor, percebemos claramente um descompasso entre um primeiro ato interessante, um segundo ato fraco e um terceiro bem confuso e corrido.
"A última coisa que ele queria" deixa um gostinho de que poderia ser melhor - mas não nesse formato! Quem gosta de tramas politicas com aquele tempero investigativo vai se divertir mais do que aqueles que buscam apenas um bom entretenimento, mas ambos não vão terminar o filme com aquela sensação maravilhosa de ter assistido algo incrível!
Que filme bacana - sensível e complexo ao mesmo tempo! Na verdade, "A Verdadeira Dor" é muito interessante por ter na sua essência uma mistura de referências de obras bem estruturadas narrativamente como "Sideways" e "Era uma vez um sonho". Esse segundo longa-metragem dirigido e roteirizado por Jesse Eisenberg (o primeiro foi "Quando Você Terminar de Salvar o Mundo"), é uma experiência cinematográfica que aposta nas nuances emocionais e nas dificuldades das relações familiares, entregando uma história marcada por sutilezas e desconfortos que realmente vai te provocar - tanto pelo lado da empatia quanto da reflexão.
Com uma narrativa estruturada em torno da viagem dos primos David (Eisenberg) e Benji (Kieran Culkin) à Polônia, para homenagear a avó recém-falecida, o filme gradualmente transforma o que deveria ser um momento solene em uma profunda jornada emocional. A trama revela, aos poucos, questões mal resolvidas e ressentimentos acumulados ao longo dos anos entre os protagonistas, usando o peso histórico do Holocausto como pano de fundo para ampliar ainda mais a carga dramática e simbólica das situações vividas por eles. Confira o trailer:
Para começar é preciso elogiar a direção de Eisenberg - ela é madura e muito segura. Eisenberg conduz a história com paciência e atenção aos detalhes, sempre no tom certo e nunca se apegando em atalhos que possam, de alguma forma, nos manipular emocionalmente - e olha que o pano de fundo é bem trágico. Aqui é importante mencionar que o filme, em muitos aspectos, ecoa uma estrutura semelhante a outras obras sobre viagens familiares mais introspectivas, onde personagens buscam autoconhecimento em terras estrangeiras. Ao optar por um realismo cru, quase documental, Eisenberg elimina qualquer elemento cômico fácil ou carismático em favor de uma exploração inteligente do desconforto emocional e embora essa abordagem corajosa possa afastar parte da audiência que busca um entretenimento mais leve, é justamente ela que oferece uma experiência única, sensorial eu diria, além de sincera e desafiadora para quem deseja mergulhar nas entranhas das relações humanas.
Em termos de atuação,"A Verdadeira Dor"apresenta performances fortes, especialmente de Kieran Culkin - vencedor do Oscar pelo personagem. Seu Benji é construído como um indivíduo provocativo, sarcástico e emocionalmente instável - um prato cheio para Culkin brilhar como alguém que desafia as convenções sociais sem medo de soar inconveniente. Repare como ele se torna facilmente memorável ao se destacar em meio a personagens secundários deliberadamente discretos e pouco carismáticos, propositalmente apagados pelo diretor. Eisenberg, que por outro lado, adota uma abordagem mais contida e racional para o seu David, cria um contraponto eficiente e necessário à energia explosiva do primo, permitindo que a audiência observe claramente as diferenças monstruosas entre ambos. Um detalhe visual particularmente eficaz para explicar essa relação é a escolha cromática dos figurinos dos protagonistas, que mudam sutilmente ao longo da narrativa, sugerindo uma troca simbólica de perspectivas ou uma influência mútua entre eles. Esse pequeno, porém relevante detalhe de composição visual, é um exemplo de como Eisenberg, como diretor, trabalha suas cenas com atenção aos menores elementos, enriquecendo a jornada de quem assiste.
A fotografia de Benjamin Loeb (de "Pieces of a Woman") destaca as raras cenas noturnas exibindo um rico jogo de cores saturadas e composições que simbolizam um verdadeiro labirinto psicológico que transita entre a solidão e a inveja - cada personagem, aliás, com seus respectivos gatilhos. É lindo de ver e de sentir, especialmente quando, quebrando nossas expectativas, a narrativa nos traz para as sequências diurnas bruscamente, apostando em uma abordagem naturalista e lindamente emoldurada com as belíssimas locações na Polônia - que enfatiza o vazio e a banalidade dos conflitos cotidianos durante uma viagem escapista. Outro aspecto interessante do filme é a utilização da música de Chopin como elemento dramático para estabelecer um toque de melancolia que dialoga diretamente com o estado emocional dos personagens - é impressionante como a trilha sonora cumpre seu papel de oferecer uma base lírica que amplifica o impacto das cenas.
A recompensa de um filme essencialmente construído no silêncio entre os diálogos está na imersão profunda proposta pela narrativa de Eisenberg. Assim como em "Encontros e Desencontros" de Sofia Coppola, por exemplo, sua direção nos concede o tempo necessário para absorver e refletir sobre temas como luto e pertencimento. Em vez de oferecer respostas fáceis ou conclusões definitivas, o filme nos convida a encontrar, nas lacunas emocionais e nas perguntas não respondidas do roteiro, uma resposta pessoal — sobre como enxergamos a vida e sobre o que realmente merece nossa atenção diante das urgências cotidianas.
"A Verdadeira Dor" vale muito o seu play!
Que filme bacana - sensível e complexo ao mesmo tempo! Na verdade, "A Verdadeira Dor" é muito interessante por ter na sua essência uma mistura de referências de obras bem estruturadas narrativamente como "Sideways" e "Era uma vez um sonho". Esse segundo longa-metragem dirigido e roteirizado por Jesse Eisenberg (o primeiro foi "Quando Você Terminar de Salvar o Mundo"), é uma experiência cinematográfica que aposta nas nuances emocionais e nas dificuldades das relações familiares, entregando uma história marcada por sutilezas e desconfortos que realmente vai te provocar - tanto pelo lado da empatia quanto da reflexão.
Com uma narrativa estruturada em torno da viagem dos primos David (Eisenberg) e Benji (Kieran Culkin) à Polônia, para homenagear a avó recém-falecida, o filme gradualmente transforma o que deveria ser um momento solene em uma profunda jornada emocional. A trama revela, aos poucos, questões mal resolvidas e ressentimentos acumulados ao longo dos anos entre os protagonistas, usando o peso histórico do Holocausto como pano de fundo para ampliar ainda mais a carga dramática e simbólica das situações vividas por eles. Confira o trailer:
Para começar é preciso elogiar a direção de Eisenberg - ela é madura e muito segura. Eisenberg conduz a história com paciência e atenção aos detalhes, sempre no tom certo e nunca se apegando em atalhos que possam, de alguma forma, nos manipular emocionalmente - e olha que o pano de fundo é bem trágico. Aqui é importante mencionar que o filme, em muitos aspectos, ecoa uma estrutura semelhante a outras obras sobre viagens familiares mais introspectivas, onde personagens buscam autoconhecimento em terras estrangeiras. Ao optar por um realismo cru, quase documental, Eisenberg elimina qualquer elemento cômico fácil ou carismático em favor de uma exploração inteligente do desconforto emocional e embora essa abordagem corajosa possa afastar parte da audiência que busca um entretenimento mais leve, é justamente ela que oferece uma experiência única, sensorial eu diria, além de sincera e desafiadora para quem deseja mergulhar nas entranhas das relações humanas.
Em termos de atuação,"A Verdadeira Dor"apresenta performances fortes, especialmente de Kieran Culkin - vencedor do Oscar pelo personagem. Seu Benji é construído como um indivíduo provocativo, sarcástico e emocionalmente instável - um prato cheio para Culkin brilhar como alguém que desafia as convenções sociais sem medo de soar inconveniente. Repare como ele se torna facilmente memorável ao se destacar em meio a personagens secundários deliberadamente discretos e pouco carismáticos, propositalmente apagados pelo diretor. Eisenberg, que por outro lado, adota uma abordagem mais contida e racional para o seu David, cria um contraponto eficiente e necessário à energia explosiva do primo, permitindo que a audiência observe claramente as diferenças monstruosas entre ambos. Um detalhe visual particularmente eficaz para explicar essa relação é a escolha cromática dos figurinos dos protagonistas, que mudam sutilmente ao longo da narrativa, sugerindo uma troca simbólica de perspectivas ou uma influência mútua entre eles. Esse pequeno, porém relevante detalhe de composição visual, é um exemplo de como Eisenberg, como diretor, trabalha suas cenas com atenção aos menores elementos, enriquecendo a jornada de quem assiste.
A fotografia de Benjamin Loeb (de "Pieces of a Woman") destaca as raras cenas noturnas exibindo um rico jogo de cores saturadas e composições que simbolizam um verdadeiro labirinto psicológico que transita entre a solidão e a inveja - cada personagem, aliás, com seus respectivos gatilhos. É lindo de ver e de sentir, especialmente quando, quebrando nossas expectativas, a narrativa nos traz para as sequências diurnas bruscamente, apostando em uma abordagem naturalista e lindamente emoldurada com as belíssimas locações na Polônia - que enfatiza o vazio e a banalidade dos conflitos cotidianos durante uma viagem escapista. Outro aspecto interessante do filme é a utilização da música de Chopin como elemento dramático para estabelecer um toque de melancolia que dialoga diretamente com o estado emocional dos personagens - é impressionante como a trilha sonora cumpre seu papel de oferecer uma base lírica que amplifica o impacto das cenas.
A recompensa de um filme essencialmente construído no silêncio entre os diálogos está na imersão profunda proposta pela narrativa de Eisenberg. Assim como em "Encontros e Desencontros" de Sofia Coppola, por exemplo, sua direção nos concede o tempo necessário para absorver e refletir sobre temas como luto e pertencimento. Em vez de oferecer respostas fáceis ou conclusões definitivas, o filme nos convida a encontrar, nas lacunas emocionais e nas perguntas não respondidas do roteiro, uma resposta pessoal — sobre como enxergamos a vida e sobre o que realmente merece nossa atenção diante das urgências cotidianas.
"A Verdadeira Dor" vale muito o seu play!
Dos cinco melhores filmes do diretor M. Night Shyamalan (de "Sexto Sentido"), esse, sem dúvida, é o menos conhecido e comentado - e justamente por isso merece muito a sua atenção. Shyamalan é um craque, mas perdeu muito a mão - especialmente depois de "A Vila", no entanto, com a "A Visita" ele celebra o seu retorno as raízes mais independentes e de uma gramática cinematográfica que ele conhece como ninguém. Claro, o filme é um suspense psicológico na sua essência, com uma abordagem mais intimista, é verdade, e um tom mais despretensioso. Misturando elementos de horror, mistério e um humor negro bastante peculiar, Shyamalan constrói uma narrativa que entretém, mas também desconstrói convenções do gênero de forma criativa e até subversiva. O filme brinca com o formato de found footage para criar tensão e imersão, mas com a assinatura única de um diretor capaz de combinar reviravoltas com reflexões importantes sobre a dinâmica familiar e o medo do desconhecido.
A trama segue os irmãos Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould), que viajam para visitar os avós maternos, com quem nunca tiveram contato. Becca, uma aspirante a cineasta, decide documentar a viagem, mas a medida que os dias passam, comportamentos estranhos de seus avós (Deanna Dunagan e Peter McRobbie) começam a se intensificar, mergulhando os jovens em um mistério assustador que os força a confrontar seus medos mais profundos. Confira o ótimo trailer:
Sem a pressão de entregar mais um blockbuster de muito sucesso, Shyamalan escreve um roteiro mais enxuto, que mistura habilmente momentos de humor negro com o terror/suspense, se apropriando de diálogos que capturam a autenticidade da interação entre irmãos e as nuances das dinâmicas familiares entre personagens "desconehcidos". O diretor e roteirista, utiliza esses momentos mais leves para contrabalançar a crescente sensação de perigo que ele adora provocar na audiência, criando assim uma experiência que nos mantém constantemente envolvidos. Além disso, "A Visita" usa do subtexto para discutir temas como abandono, reconexão e os medos associados à velhice e à perda de controle.
Partindo dessa premissa, a escolha dofound footage, embora arriscada, é bem executada - o diretor parece se divertir com as linguagens que ele mesmo propõe e com isso acaba encontrando o equilíbrio perfeito entre o estilo mais documental com uma narrativa mais tradicional. A câmera de Shyamalan muitas vezes funciona como um elemento dramático, destacando a curiosidade infantil e a vulnerabilidade dos protagonistas enquanto os eventos ao redor deles se tornam cada vez mais perturbadores. Veja, Shyamalan domina essa linguagem, ele sabe explorar o ponto de vista dos personagens para criar uma atmosfera de tensão crescente. Com isso, as performances do elenco se toram fundamentais para o impacto emocional do filme. Olivia DeJonge traz inteligência e fragilidade para Becca, enquanto Ed Oxenbould oferece um alívio cômico natural como Tyler, pontuando os momentos de terror autêntico com um tipo de humor mais juvenil. Deanna Dunagan e Peter McRobbie contrabalanceiam esse tom - eles entregam atuações intensas e desconcertantes como os avós, Nana e Pop, alternando entre a afetuosidade e comportamentos profundamente inquietantes. Repare como essa dinâmica imposta por Shyamalan torna difícil a distinção entre a normalidade e a ameaça velada.
Outros dois pontos merecem sua atenção: design de som e trilha sonora. Eles desempenham papéis cruciais na criação dessa atmosfera de mistério do filme. Shyamalan usa o silêncio estratégico e sons ambientes para amplificar o desconforto e a claustrofobia dos protagonistas, enquanto os momentos mais intensos são pontuados por ruídos e sons diegéticos que acentuam a nossa imersão como audiência. O fato é que "A Visita" é amplamente eficaz em seu objetivo de nos tirar a tranquilidade, com uma narrativa habilmente conduzida para gerar o impacto da revelação final e mais uma vez provar que M. Night Shyamalan sabe manipular as expectativas como poucos!
Vale demais!
PS: "A Visita" foi considerado o Melhor Filme do gênero pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films dos EUA, em 2016.
Dos cinco melhores filmes do diretor M. Night Shyamalan (de "Sexto Sentido"), esse, sem dúvida, é o menos conhecido e comentado - e justamente por isso merece muito a sua atenção. Shyamalan é um craque, mas perdeu muito a mão - especialmente depois de "A Vila", no entanto, com a "A Visita" ele celebra o seu retorno as raízes mais independentes e de uma gramática cinematográfica que ele conhece como ninguém. Claro, o filme é um suspense psicológico na sua essência, com uma abordagem mais intimista, é verdade, e um tom mais despretensioso. Misturando elementos de horror, mistério e um humor negro bastante peculiar, Shyamalan constrói uma narrativa que entretém, mas também desconstrói convenções do gênero de forma criativa e até subversiva. O filme brinca com o formato de found footage para criar tensão e imersão, mas com a assinatura única de um diretor capaz de combinar reviravoltas com reflexões importantes sobre a dinâmica familiar e o medo do desconhecido.
A trama segue os irmãos Becca (Olivia DeJonge) e Tyler (Ed Oxenbould), que viajam para visitar os avós maternos, com quem nunca tiveram contato. Becca, uma aspirante a cineasta, decide documentar a viagem, mas a medida que os dias passam, comportamentos estranhos de seus avós (Deanna Dunagan e Peter McRobbie) começam a se intensificar, mergulhando os jovens em um mistério assustador que os força a confrontar seus medos mais profundos. Confira o ótimo trailer:
Sem a pressão de entregar mais um blockbuster de muito sucesso, Shyamalan escreve um roteiro mais enxuto, que mistura habilmente momentos de humor negro com o terror/suspense, se apropriando de diálogos que capturam a autenticidade da interação entre irmãos e as nuances das dinâmicas familiares entre personagens "desconehcidos". O diretor e roteirista, utiliza esses momentos mais leves para contrabalançar a crescente sensação de perigo que ele adora provocar na audiência, criando assim uma experiência que nos mantém constantemente envolvidos. Além disso, "A Visita" usa do subtexto para discutir temas como abandono, reconexão e os medos associados à velhice e à perda de controle.
Partindo dessa premissa, a escolha dofound footage, embora arriscada, é bem executada - o diretor parece se divertir com as linguagens que ele mesmo propõe e com isso acaba encontrando o equilíbrio perfeito entre o estilo mais documental com uma narrativa mais tradicional. A câmera de Shyamalan muitas vezes funciona como um elemento dramático, destacando a curiosidade infantil e a vulnerabilidade dos protagonistas enquanto os eventos ao redor deles se tornam cada vez mais perturbadores. Veja, Shyamalan domina essa linguagem, ele sabe explorar o ponto de vista dos personagens para criar uma atmosfera de tensão crescente. Com isso, as performances do elenco se toram fundamentais para o impacto emocional do filme. Olivia DeJonge traz inteligência e fragilidade para Becca, enquanto Ed Oxenbould oferece um alívio cômico natural como Tyler, pontuando os momentos de terror autêntico com um tipo de humor mais juvenil. Deanna Dunagan e Peter McRobbie contrabalanceiam esse tom - eles entregam atuações intensas e desconcertantes como os avós, Nana e Pop, alternando entre a afetuosidade e comportamentos profundamente inquietantes. Repare como essa dinâmica imposta por Shyamalan torna difícil a distinção entre a normalidade e a ameaça velada.
Outros dois pontos merecem sua atenção: design de som e trilha sonora. Eles desempenham papéis cruciais na criação dessa atmosfera de mistério do filme. Shyamalan usa o silêncio estratégico e sons ambientes para amplificar o desconforto e a claustrofobia dos protagonistas, enquanto os momentos mais intensos são pontuados por ruídos e sons diegéticos que acentuam a nossa imersão como audiência. O fato é que "A Visita" é amplamente eficaz em seu objetivo de nos tirar a tranquilidade, com uma narrativa habilmente conduzida para gerar o impacto da revelação final e mais uma vez provar que M. Night Shyamalan sabe manipular as expectativas como poucos!
Vale demais!
PS: "A Visita" foi considerado o Melhor Filme do gênero pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films dos EUA, em 2016.
Divertida e despretensiosa, essa é o tipo da série que você assiste um episódio aqui, outro ali, e sempre vai sair satisfeito - eu diria, inclusive, que essa produção da Apple TV+ transita muito bem entre um "White Lotus" com um "How I Met Your Mother". O fato é que "Acapulco" é uma série encantadora que mergulha em um atmosfera de nostalgia, cheia de humor e emoção (as vezes até melodramática demais), equilibrando uma estética colorida e vibrante com uma narrativa mais acessível e cativante. Inspirada no filme "Como se Tornar um Conquistador", de 2017, a série se apropria de elementos que nos remetem à uma comédia romântica leve com uma trama que traz para discussão temas como amadurecimento, sonhos e identidade, sem nunca esquecer da relação entre passado e presente como forma de potencializar a narrativa. Criada por Eduardo Cisneros (de "La Usurpadora"), Jason Shuman (de "Lakers: Hora de Vencer") e Austin Winsberg (de "Zoey e a Sua Fantástica Playlist"), "Acapulco" se destaca pelo mix de referências, sempre com muito respeito e bom humor, funcionando como uma certa homenagem à cultura mexicana, oferecendo um olhar distinto sobre o país, mesmo que recorrendo aos estereótipos sociais - e funcional!
A trama acompanha Máximo Gallardo (Enrique Arrizon), um jovem sonhador que em 1984, consegue seu emprego dos sonhos no luxuoso resort Las Colinas, na famosa cidade mexicana de Acapulco - retiro dos endinheirados da época. Lá, ele descobre que o glamour esconde desafios inesperados, incluindo clientes excêntricos, dinâmicas de poder e dilemas morais que testam sua ética e ambição. Enquanto isso, a história é contada pelo Máximo do presente (aqui vivido por Eugenio Derbez), um magnata que compartilha suas memórias com seu sobrinho Hugo (Raphael Alejandro), criando uma estrutura narrativa semelhante à outras sitcoms mais clássicas, mas com uma camada adicional de subjetividade, já que o narrador mais velho pode não ser completamente confiável. Confira o trailer original:
Visualmente, "Acapulco" é um espetáculo. A paleta de cores é viva, com destaque para o rosa berrante do hotel, os figurinos são chamativos e a fotografia sempre ensolarada, tudo isso nos transporta diretamente para os anos 80 com muita maestria. A trilha sonora, ponto alto da série, está repleta de clássicos, incluindo versões em espanhol de hits americanos que dificilmente não vai te roubar um sorriso - especialmente se você estiver nas faixa dos 40 anos (ou mais). Veja, todos esses detalhes conferem um tom nostálgico impressionante e reforçam a identidade única da série, criando uma fácil conexão com aquele cinema "sessão da tarde" que adorávamos assistir.
Além da estética envolvente, a série se destaca pelo tom positivo e otimista. Embora Máximo enfrente desafios e precise tomar decisões difíceis, "Acapulco" mantém um clima acolhedor e divertido, explorando o crescimento do protagonista sem perder a leveza de sua proposta. A narrativa é inteligente ao abordar questões de classe, pela perspectiva dos sonhos e sacrifícios, mas sempre com um olhar esperançoso e uma boa dose de humor. Já em termos de estrutura, "Acapulco" se desenvolve como uma série de episódios independentes, mas com arcos narrativos que evoluem ao longo das temporadas. Isso permite que a história se expanda organicamente, criando um universo rico e envolvente sem a necessidade de grandes reviravoltas dramáticas. O elenco também brilha, com personagens carismáticos que contribuem para a química da série - Enrique Arrizon traz energia e ingenuidade ao jovem Máximo, enquanto Derbez adiciona um toque de maturidade e humor na versão mais velha do personagem. Outros destaques incluem Fernando Carsa, como Memo, o melhor amigo de Máximo, e Damián Alcázar, como Don Pablo, o sábio (e de caráter duvidoso) mentor do protagonista.
Com um conceito acessível e um roteiro bem construído, "Acapulco" mereceria mais atenção - como "Ted Lasso", a série conquista pelo seu humor e pelo retrato afetuoso da cultura mexicana sem nunca pesar na mão - ou melhor, trazendo aquele toque mexicano de dramaturgia, mas sem tanto exagero dramático. No geral, "Acapulco" é um entretenimento leve e envolvente, ideal para quem busca uma jornada reconfortante, repleta de bom humor e de personagens apaixonantes - a capacidade da série em equilibrar essa narrativa, tornando a história de Máximo uma experiência cativante e visualmente encantadora, é de se elogiar.
Para quem gosta de histórias de crescimento pessoal com uma dose generosa de nostalgia, o play é obrigatório - e se dormir, dormiu!
Divertida e despretensiosa, essa é o tipo da série que você assiste um episódio aqui, outro ali, e sempre vai sair satisfeito - eu diria, inclusive, que essa produção da Apple TV+ transita muito bem entre um "White Lotus" com um "How I Met Your Mother". O fato é que "Acapulco" é uma série encantadora que mergulha em um atmosfera de nostalgia, cheia de humor e emoção (as vezes até melodramática demais), equilibrando uma estética colorida e vibrante com uma narrativa mais acessível e cativante. Inspirada no filme "Como se Tornar um Conquistador", de 2017, a série se apropria de elementos que nos remetem à uma comédia romântica leve com uma trama que traz para discussão temas como amadurecimento, sonhos e identidade, sem nunca esquecer da relação entre passado e presente como forma de potencializar a narrativa. Criada por Eduardo Cisneros (de "La Usurpadora"), Jason Shuman (de "Lakers: Hora de Vencer") e Austin Winsberg (de "Zoey e a Sua Fantástica Playlist"), "Acapulco" se destaca pelo mix de referências, sempre com muito respeito e bom humor, funcionando como uma certa homenagem à cultura mexicana, oferecendo um olhar distinto sobre o país, mesmo que recorrendo aos estereótipos sociais - e funcional!
A trama acompanha Máximo Gallardo (Enrique Arrizon), um jovem sonhador que em 1984, consegue seu emprego dos sonhos no luxuoso resort Las Colinas, na famosa cidade mexicana de Acapulco - retiro dos endinheirados da época. Lá, ele descobre que o glamour esconde desafios inesperados, incluindo clientes excêntricos, dinâmicas de poder e dilemas morais que testam sua ética e ambição. Enquanto isso, a história é contada pelo Máximo do presente (aqui vivido por Eugenio Derbez), um magnata que compartilha suas memórias com seu sobrinho Hugo (Raphael Alejandro), criando uma estrutura narrativa semelhante à outras sitcoms mais clássicas, mas com uma camada adicional de subjetividade, já que o narrador mais velho pode não ser completamente confiável. Confira o trailer original:
Visualmente, "Acapulco" é um espetáculo. A paleta de cores é viva, com destaque para o rosa berrante do hotel, os figurinos são chamativos e a fotografia sempre ensolarada, tudo isso nos transporta diretamente para os anos 80 com muita maestria. A trilha sonora, ponto alto da série, está repleta de clássicos, incluindo versões em espanhol de hits americanos que dificilmente não vai te roubar um sorriso - especialmente se você estiver nas faixa dos 40 anos (ou mais). Veja, todos esses detalhes conferem um tom nostálgico impressionante e reforçam a identidade única da série, criando uma fácil conexão com aquele cinema "sessão da tarde" que adorávamos assistir.
Além da estética envolvente, a série se destaca pelo tom positivo e otimista. Embora Máximo enfrente desafios e precise tomar decisões difíceis, "Acapulco" mantém um clima acolhedor e divertido, explorando o crescimento do protagonista sem perder a leveza de sua proposta. A narrativa é inteligente ao abordar questões de classe, pela perspectiva dos sonhos e sacrifícios, mas sempre com um olhar esperançoso e uma boa dose de humor. Já em termos de estrutura, "Acapulco" se desenvolve como uma série de episódios independentes, mas com arcos narrativos que evoluem ao longo das temporadas. Isso permite que a história se expanda organicamente, criando um universo rico e envolvente sem a necessidade de grandes reviravoltas dramáticas. O elenco também brilha, com personagens carismáticos que contribuem para a química da série - Enrique Arrizon traz energia e ingenuidade ao jovem Máximo, enquanto Derbez adiciona um toque de maturidade e humor na versão mais velha do personagem. Outros destaques incluem Fernando Carsa, como Memo, o melhor amigo de Máximo, e Damián Alcázar, como Don Pablo, o sábio (e de caráter duvidoso) mentor do protagonista.
Com um conceito acessível e um roteiro bem construído, "Acapulco" mereceria mais atenção - como "Ted Lasso", a série conquista pelo seu humor e pelo retrato afetuoso da cultura mexicana sem nunca pesar na mão - ou melhor, trazendo aquele toque mexicano de dramaturgia, mas sem tanto exagero dramático. No geral, "Acapulco" é um entretenimento leve e envolvente, ideal para quem busca uma jornada reconfortante, repleta de bom humor e de personagens apaixonantes - a capacidade da série em equilibrar essa narrativa, tornando a história de Máximo uma experiência cativante e visualmente encantadora, é de se elogiar.
Para quem gosta de histórias de crescimento pessoal com uma dose generosa de nostalgia, o play é obrigatório - e se dormir, dormiu!
"Adoráveis Mulheres", novo projeto da diretora de "Lady Bird", Greta Gerwig, é uma graça! O filme é mais uma adaptação do livro homônimo de Louisa May Alcott e conta a história das irmãs March, quatro jovens americanas de personalidades completamente diferentes e que vivem em uma família cheia de valores e união.
O processo de amadurecimento de cada uma delas, sem a presença do pai que luta na Guerra Civil, é o fio narrativo dessa história que fala sobre a essência da vida e como a felicidade pode estar nos pequenos gestos, na simplicidade do dia a dia, na ingenuidade dos sonhos adolescentes e na esperança de uma plenitude eterna - e é isso que nos toca e até nos machuca, pois sabemos que a vida não é bem assim
Transitando do passado para o presente com muita delicadeza e inteligência, Gerwig entrega um filme com alma, que mexe com a gente, mas com muito respeito (como deve ser). Uma aula de sensibilidade para falar sobre saudade, que merece ser aplaudida. Prestem atenção nesse filme - tenho certeza que ele estará no Oscar 2020, inclusive na disputa de melhor filme (ou no mínimo de melhor roteiro adaptado).
"Adoráveis Mulheres" é um destes textos clássicos várias vezes adaptados para o cinema - a mais famosa, contou com Winona Ryder, Susan Sarandon, Christian Bale e Kirsten Dusnt e foi produzida em 1994. Essa versão, dirigida pela australiana Gillian Armstrong, foi indicada para o Oscar em três categorias: melhor atriz (Winona Ryder), figurino e música. Pelo que vimos, o filme de Greta Gerwig tem tudo para se tornar a versão mais premiada da obra, começando pelas atuações marcantes de Saoirse Ronan como Jo March e mais um excelente trabalho de Laura Dern como Marmee March - lembrando que Dern deve ser indicada como coadjuvante por "Cenas de um Casamento". Emma Watson, Florence Pugh e Eliza Scanlen também merecem destaque - foram interpretações honestíssimas, principalmente de Pugh! Timothée Chalamet (Me chame pelo seu nome) é outro que entrega um grande personagem! Tenho a impressão que Saoirse Ronan receberá sua quinta indicação e que Greta Gerwig representará as mulheres em duas categorias: melhor direção e roteiro adaptado!
A fotografia do francés Yorick Le Saux é maravilhosa e pontuada com um tons mais quentes (amarelados) no passado, transbordando alegria e com tons mais frios (azulados) no presente, o que trás uma sensação mais real, da dificuldade da vida, do amadurecimento forçado - aliás, é basicamente na troca de cor e de temperatura que entendemos essa dinâmica de "vai e vem" na linha do tempo - é muito delicado, demora algumas cenas para percebermos, mas depois flui tão naturalmente que fica fácil de acompanhar! A montagem também ajuda nessa organicidade, claro, e, para mim, mereceria uma indicação ao Oscar junto com Desenho de Produção e Figurino. Até entendo se isso não acontecer em todas as categorias, mas é importante deixar registrado que potencial para várias indicações teria! Todos esses elementos técnicos só colaboram na entrega de um filme belíssimo, bem dirigido, bem interpretado e lindo visualmente. A capacidade de Gerwig em nos transportar para a vida dessas quatro mulheres, estabelece uma relação de cumplicidade e empatia que dificilmente vemos nos filmes de hoje com tanta sensibilidade. De fato não é um filme complexo ou com reviravoltas surpreendentes, mas as mais de duas horas de história servem como convite à revisitar nosso passado, nossos laços e lembranças - e a linda trilha sonora só colabora nessa imersão - reparem!
"Adoráveis Mulheres" é um filme leve ao mesmo tempo em que é denso, otimista ao mesmo tempo em que é saudoso, lindo ao mesmo tempo em que é difícil de digerir! "Adoráveis Mulheres" é um grande filme, técnico e artístico, e tranquilamente merece sua audiência!
Up-date: "Adoráveis Mulheres" ganhou em uma categoria no Oscar 2020: Melhor Figurino!
"Adoráveis Mulheres", novo projeto da diretora de "Lady Bird", Greta Gerwig, é uma graça! O filme é mais uma adaptação do livro homônimo de Louisa May Alcott e conta a história das irmãs March, quatro jovens americanas de personalidades completamente diferentes e que vivem em uma família cheia de valores e união.
O processo de amadurecimento de cada uma delas, sem a presença do pai que luta na Guerra Civil, é o fio narrativo dessa história que fala sobre a essência da vida e como a felicidade pode estar nos pequenos gestos, na simplicidade do dia a dia, na ingenuidade dos sonhos adolescentes e na esperança de uma plenitude eterna - e é isso que nos toca e até nos machuca, pois sabemos que a vida não é bem assim
Transitando do passado para o presente com muita delicadeza e inteligência, Gerwig entrega um filme com alma, que mexe com a gente, mas com muito respeito (como deve ser). Uma aula de sensibilidade para falar sobre saudade, que merece ser aplaudida. Prestem atenção nesse filme - tenho certeza que ele estará no Oscar 2020, inclusive na disputa de melhor filme (ou no mínimo de melhor roteiro adaptado).
"Adoráveis Mulheres" é um destes textos clássicos várias vezes adaptados para o cinema - a mais famosa, contou com Winona Ryder, Susan Sarandon, Christian Bale e Kirsten Dusnt e foi produzida em 1994. Essa versão, dirigida pela australiana Gillian Armstrong, foi indicada para o Oscar em três categorias: melhor atriz (Winona Ryder), figurino e música. Pelo que vimos, o filme de Greta Gerwig tem tudo para se tornar a versão mais premiada da obra, começando pelas atuações marcantes de Saoirse Ronan como Jo March e mais um excelente trabalho de Laura Dern como Marmee March - lembrando que Dern deve ser indicada como coadjuvante por "Cenas de um Casamento". Emma Watson, Florence Pugh e Eliza Scanlen também merecem destaque - foram interpretações honestíssimas, principalmente de Pugh! Timothée Chalamet (Me chame pelo seu nome) é outro que entrega um grande personagem! Tenho a impressão que Saoirse Ronan receberá sua quinta indicação e que Greta Gerwig representará as mulheres em duas categorias: melhor direção e roteiro adaptado!
A fotografia do francés Yorick Le Saux é maravilhosa e pontuada com um tons mais quentes (amarelados) no passado, transbordando alegria e com tons mais frios (azulados) no presente, o que trás uma sensação mais real, da dificuldade da vida, do amadurecimento forçado - aliás, é basicamente na troca de cor e de temperatura que entendemos essa dinâmica de "vai e vem" na linha do tempo - é muito delicado, demora algumas cenas para percebermos, mas depois flui tão naturalmente que fica fácil de acompanhar! A montagem também ajuda nessa organicidade, claro, e, para mim, mereceria uma indicação ao Oscar junto com Desenho de Produção e Figurino. Até entendo se isso não acontecer em todas as categorias, mas é importante deixar registrado que potencial para várias indicações teria! Todos esses elementos técnicos só colaboram na entrega de um filme belíssimo, bem dirigido, bem interpretado e lindo visualmente. A capacidade de Gerwig em nos transportar para a vida dessas quatro mulheres, estabelece uma relação de cumplicidade e empatia que dificilmente vemos nos filmes de hoje com tanta sensibilidade. De fato não é um filme complexo ou com reviravoltas surpreendentes, mas as mais de duas horas de história servem como convite à revisitar nosso passado, nossos laços e lembranças - e a linda trilha sonora só colabora nessa imersão - reparem!
"Adoráveis Mulheres" é um filme leve ao mesmo tempo em que é denso, otimista ao mesmo tempo em que é saudoso, lindo ao mesmo tempo em que é difícil de digerir! "Adoráveis Mulheres" é um grande filme, técnico e artístico, e tranquilamente merece sua audiência!
Up-date: "Adoráveis Mulheres" ganhou em uma categoria no Oscar 2020: Melhor Figurino!
Diferente das duas primeiras (excelentes) temporadas da série antológica "American Crime Story", dessa vez a vítima central é o foco da narrativa. Aqui não se trata de algo impactante como o destino do suposto criminoso O.J. Simpson e dos embates de seus advogados no tribunal americano, muito menos de desvendar os fantasmas do assassino de Gianni Versace, Andrew Cunanan - a construção de "Impeachment" basicamente deixa de lado a intimidade do presidente Bill Clinton para dar voz ao curioso e improvável lado mais fraco da história: Monica Lewinsky e sua relação com uma companheira de trabalho, a sempre dissimulada Linda Tripp.
"American Crime Story: Impeachment" se baseia no livro "A Vast Conspiracy", de Jeffrey Toobin, e acompanha os bastidores dos fatos que envolveram Bill Clinton (Clive Owen) quando era o presidente dos EUA (entre 1995 a 1997), e sua relação com a estagiária Monica Lewinsky (Beanie Feldstein). Assim que o caso se tornou inconveniente para Clinton, Monica foi transferida para o Pentágono, onde conheceu Linda Tripp (Sarah Paulson), ex-funcionária da Casa Branca que virou sua confidente e que, por acaso, nutria um profundo desprezo pela família do presidente - estava armada a bomba relógio! Confira o trailer (em inglês):
Durante muitos anos, Monica Lewinsky foi tratada como a mulher que tentou destruir o casamento do homem mais poderoso do mundo, enquanto as mentiras do então presidente dos EUA eram ignoradas em favor de uma esposa fiel, que perdoou o marido mesmo depois de tantas histórias de traição, e abuso de poder, vir a público - fatos que lhe causaram uma enorme humilhação. Dito isso, o que é mais perceptível nessa temporada de American Crime Story, não é necessariamente o fato (ou a relação) envolvendo Monica e Bill, mas sim mostrar a perspectiva do elo mais fraco - com suas fragilidades de caráter, sim, mas também explorando a "sacanagem" que fizeram com ela (e aqui não estou falando da sua relação "amorosa").
E é ai que entra o grande destaque dessa temporada: Sarah Paulson, atriz que brilhou em "O Povo Contra O.J. Simpson", onde, inclusive, ganhou o Emmy por sua performance como Marcia Clark; retorna à franquia de uma forma simplesmente impecável! Irreconhecível como Linda Tripp, ex-servidora da Casa Branca, a atriz dá vida a uma figura marcante no caso por ter se aproximado de Monica apenas para se "vingar" dos Clinton e por ter gravado conversas telefônicas com Monica, onde ela estimulava a estagiária a dar detalhes de todos encontros com o presidente. O interessante porém, é que Paulson constrói uma personagem com tantas camadas, profundidade e nuances que, por si só, já mereceria ser chamada de protagonista de "Impeachment" - ela dá um verdadeiro show!
"Impeachment" foi considerada por muitos a temporada mais fraca de "American Crime Story"- eu discordo! Eu diria que essa temporada é a mais humana de todas e talvez por isso a menos espetacular como narrativa. Assistir "American Crime Story: Impeachment" é como ler um livro que encontra nos detalhes a força de sua trama, onde o envolvimento é diretamente proporcional ao nosso interesse pelo fato em si. Veja, aqui não estamos falando de mortes envolvendo um astro do futebol americano ou do assassinato de um maiores estilistas de todos os tempos, estamos falando de uma jovem como tantas outras que teimava em romantizar uma relação improvável, extremamente sexual, que pagou um preço caro por sua ingenuidade e que precisou lidar com uma mídia (e uma sociedade) hipócrita e cruel.
Vale seu play!
Diferente das duas primeiras (excelentes) temporadas da série antológica "American Crime Story", dessa vez a vítima central é o foco da narrativa. Aqui não se trata de algo impactante como o destino do suposto criminoso O.J. Simpson e dos embates de seus advogados no tribunal americano, muito menos de desvendar os fantasmas do assassino de Gianni Versace, Andrew Cunanan - a construção de "Impeachment" basicamente deixa de lado a intimidade do presidente Bill Clinton para dar voz ao curioso e improvável lado mais fraco da história: Monica Lewinsky e sua relação com uma companheira de trabalho, a sempre dissimulada Linda Tripp.
"American Crime Story: Impeachment" se baseia no livro "A Vast Conspiracy", de Jeffrey Toobin, e acompanha os bastidores dos fatos que envolveram Bill Clinton (Clive Owen) quando era o presidente dos EUA (entre 1995 a 1997), e sua relação com a estagiária Monica Lewinsky (Beanie Feldstein). Assim que o caso se tornou inconveniente para Clinton, Monica foi transferida para o Pentágono, onde conheceu Linda Tripp (Sarah Paulson), ex-funcionária da Casa Branca que virou sua confidente e que, por acaso, nutria um profundo desprezo pela família do presidente - estava armada a bomba relógio! Confira o trailer (em inglês):
Durante muitos anos, Monica Lewinsky foi tratada como a mulher que tentou destruir o casamento do homem mais poderoso do mundo, enquanto as mentiras do então presidente dos EUA eram ignoradas em favor de uma esposa fiel, que perdoou o marido mesmo depois de tantas histórias de traição, e abuso de poder, vir a público - fatos que lhe causaram uma enorme humilhação. Dito isso, o que é mais perceptível nessa temporada de American Crime Story, não é necessariamente o fato (ou a relação) envolvendo Monica e Bill, mas sim mostrar a perspectiva do elo mais fraco - com suas fragilidades de caráter, sim, mas também explorando a "sacanagem" que fizeram com ela (e aqui não estou falando da sua relação "amorosa").
E é ai que entra o grande destaque dessa temporada: Sarah Paulson, atriz que brilhou em "O Povo Contra O.J. Simpson", onde, inclusive, ganhou o Emmy por sua performance como Marcia Clark; retorna à franquia de uma forma simplesmente impecável! Irreconhecível como Linda Tripp, ex-servidora da Casa Branca, a atriz dá vida a uma figura marcante no caso por ter se aproximado de Monica apenas para se "vingar" dos Clinton e por ter gravado conversas telefônicas com Monica, onde ela estimulava a estagiária a dar detalhes de todos encontros com o presidente. O interessante porém, é que Paulson constrói uma personagem com tantas camadas, profundidade e nuances que, por si só, já mereceria ser chamada de protagonista de "Impeachment" - ela dá um verdadeiro show!
"Impeachment" foi considerada por muitos a temporada mais fraca de "American Crime Story"- eu discordo! Eu diria que essa temporada é a mais humana de todas e talvez por isso a menos espetacular como narrativa. Assistir "American Crime Story: Impeachment" é como ler um livro que encontra nos detalhes a força de sua trama, onde o envolvimento é diretamente proporcional ao nosso interesse pelo fato em si. Veja, aqui não estamos falando de mortes envolvendo um astro do futebol americano ou do assassinato de um maiores estilistas de todos os tempos, estamos falando de uma jovem como tantas outras que teimava em romantizar uma relação improvável, extremamente sexual, que pagou um preço caro por sua ingenuidade e que precisou lidar com uma mídia (e uma sociedade) hipócrita e cruel.
Vale seu play!
"Amor e Morte" é a "versão HBO" da igualmente competente "Candy"- talvez um pouco menos estereotipada e sensivelmente mais profunda na construção das camadas dos personagens. Essa versão lançada em 2023, foi criada por David E. Kelley ("Acima de Qualquer Suspeita") e dirigida por Lesli Linka Glatter ("Homeland") e Clark Johnson (de "Seven Seconds"), ou seja, um time que definitivamente sabe o que está fazendo quando o assunto é construir tensão. Baseada em uma história real e adaptado do livro "Evidence of Love: A True Story of Passion and Death in the Suburbs", a minissérie mergulha nas profundezas da psique de Candy, explorando sua obsessão a partir de uma traição - eu diria que a trama faz um recorte muito interessante sobre escuridão que pode se esconder sob a superfície de vidas aparentemente comuns. Com uma narrativa que combina romance, investigação, suspense (psicológico) e até um toque de drama de tribunal, "Amor e Morte" oferece uma experiência, de fato, envolvente e emocionalmente complexa. Para os fãs de dramas criminais baseados em fatos reais, impossível não dar um play!
"Amor e Morte" é a "versão HBO" da igualmente competente "Candy"- talvez um pouco menos estereotipada e sensivelmente mais profunda na construção das camadas dos personagens. Essa versão lançada em 2023, foi criada por David E. Kelley ("Acima de Qualquer Suspeita") e dirigida por Lesli Linka Glatter ("Homeland") e Clark Johnson (de "Seven Seconds"), ou seja, um time que definitivamente sabe o que está fazendo quando o assunto é construir tensão. Baseada em uma história real e adaptado do livro "Evidence of Love: A True Story of Passion and Death in the Suburbs", a minissérie mergulha nas profundezas da psique de Candy, explorando sua obsessão a partir de uma traição - eu diria que a trama faz um recorte muito interessante sobre escuridão que pode se esconder sob a superfície de vidas aparentemente comuns. Com uma narrativa que combina romance, investigação, suspense (psicológico) e até um toque de drama de tribunal, "Amor e Morte" oferece uma experiência, de fato, envolvente e emocionalmente complexa. Para os fãs de dramas criminais baseados em fatos reais, impossível não dar um play!
“Amor e Outras Drogas” é uma ótima comédia romântica para ver, dar muitas risadas e até se emocionar! Eu diria até que o filme poderia ser, tranquilamente, um longo episódio de “Modern Love” da Prime Video - até a personagem Maggie de Hathaway, lembra o papel que a atriz interpretou na série, aquela que transitava de mulher radiante de felicidade para uma pessoa deprimida.
Aqui, Jamie Randall (Jake Gyllenhaal) é um "pegador" do tipo que perde a conta do número de mulheres com quem já transou. Após ser demitido do cargo de vendedor em uma loja de eletrodomésticos por ter seduzido uma das funcionárias, ele passa a trabalhar num grande laboratório da indústria farmacêutica. Como representante comercial, sua função é abordar médicos e convencê-los a prescrever os produtos da empresa para seus pacientes. Em uma dessas visitas, ele conhece Maggie Murdock (Anne Hathaway), uma jovem de 26 anos que sofre de mal de Parkinson. Inicialmente, Jamie fica atraído pela beleza física e por ter sido dispensado por ela, mas aos poucos descobre que existe algo mais forte. Maggie, por sua vez, também sente o mesmo, mas não quer levar o caso adiante por causa de sua condição. Confira o trailer (em inglês):
Um dos pontos altos do filme, sem dúvida, é o elenco. O ator Jake Gyllenhaal está perfeito, com seu charme e desenvoltura. - é impressionante a química que ele tem em cena ao lado de Anne Hathaway, que também está ótima. O filme se passa nos anos 90, então pode esperar inúmeras cenas com os dois embalados por uma trilha sonora cheia de músicas viciantes.
A direção de Edward Zwick (“Diamante de Sangue”) é competente ao mesclar comédia, romance e drama de forma fluída e leve. A fotografia de Steven Fierberg (de "Emily em Paris") também impressiona pela sensibilidade - algo pouco comum em filmes do gênero. Fierberg transida perfeitamente entre os planos mais abertos para estabelecer a dinâmica quase caótica do relacionamento dos personagens com o close-ups das passagens mais introspectivas e sentimentais que seguem - sua lente é capaz de captar perfeitamente o sentimento que o diretor provoca em seus atores e que, inegavelmente, nos toca de uma forma impressionante.
Escrita por Charles Randolph, Edward Zwick e Marshall Herskovitz e baseado no livro de Jamie Reidy, “Amor e Outras Drogas” tem um início cheio de momentos cômicos e muito romance, mas também vai te fazer refletir sobre alguns temas bem relevantes. E prepare-se para se comover com essa história que vai muito além de uma trama água com açúcar que possa parecer.
Vale muito a pena!
Escrito por Mark Hewes - uma parceria @indiqueipraver
“Amor e Outras Drogas” é uma ótima comédia romântica para ver, dar muitas risadas e até se emocionar! Eu diria até que o filme poderia ser, tranquilamente, um longo episódio de “Modern Love” da Prime Video - até a personagem Maggie de Hathaway, lembra o papel que a atriz interpretou na série, aquela que transitava de mulher radiante de felicidade para uma pessoa deprimida.
Aqui, Jamie Randall (Jake Gyllenhaal) é um "pegador" do tipo que perde a conta do número de mulheres com quem já transou. Após ser demitido do cargo de vendedor em uma loja de eletrodomésticos por ter seduzido uma das funcionárias, ele passa a trabalhar num grande laboratório da indústria farmacêutica. Como representante comercial, sua função é abordar médicos e convencê-los a prescrever os produtos da empresa para seus pacientes. Em uma dessas visitas, ele conhece Maggie Murdock (Anne Hathaway), uma jovem de 26 anos que sofre de mal de Parkinson. Inicialmente, Jamie fica atraído pela beleza física e por ter sido dispensado por ela, mas aos poucos descobre que existe algo mais forte. Maggie, por sua vez, também sente o mesmo, mas não quer levar o caso adiante por causa de sua condição. Confira o trailer (em inglês):
Um dos pontos altos do filme, sem dúvida, é o elenco. O ator Jake Gyllenhaal está perfeito, com seu charme e desenvoltura. - é impressionante a química que ele tem em cena ao lado de Anne Hathaway, que também está ótima. O filme se passa nos anos 90, então pode esperar inúmeras cenas com os dois embalados por uma trilha sonora cheia de músicas viciantes.
A direção de Edward Zwick (“Diamante de Sangue”) é competente ao mesclar comédia, romance e drama de forma fluída e leve. A fotografia de Steven Fierberg (de "Emily em Paris") também impressiona pela sensibilidade - algo pouco comum em filmes do gênero. Fierberg transida perfeitamente entre os planos mais abertos para estabelecer a dinâmica quase caótica do relacionamento dos personagens com o close-ups das passagens mais introspectivas e sentimentais que seguem - sua lente é capaz de captar perfeitamente o sentimento que o diretor provoca em seus atores e que, inegavelmente, nos toca de uma forma impressionante.
Escrita por Charles Randolph, Edward Zwick e Marshall Herskovitz e baseado no livro de Jamie Reidy, “Amor e Outras Drogas” tem um início cheio de momentos cômicos e muito romance, mas também vai te fazer refletir sobre alguns temas bem relevantes. E prepare-se para se comover com essa história que vai muito além de uma trama água com açúcar que possa parecer.
Vale muito a pena!
Escrito por Mark Hewes - uma parceria @indiqueipraver
"Amor Platônico" vai te surpreender - especialmente se você gostou de séries como "Easy" ou "Love", ambas da Netflix. Eu diria, inclusive, que a série criada pela Francesca Delbanco (de "Amigos da Faculdade") e pelo Nicholas Stoller (de "Mais que Amigos") é a junção do que existe de melhor dessas duas referências. A produção original da AppleTV+ com a Sony nos conquista pela inteligência e sensibilidade com que equilibra o humor ácido com o drama real, trazendo para a história personagens cheios de camadas, que carregam suas inúmeras falhas, mas que nem por isso deixam de ser cativantes; além de uma abordagem extremamente honesta e complexa das relações interpessoais, especialmente entre homem e mulher, mas pela perspectiva (dúbia) da amizade.
"Platonic" (no original), basicamente, gira em torno de Will (Seth Rogen) e Sylvia (Rose Byrne), amigos de longa data que se reencontram após o divórcio de Will. Apesar do respeito mútuo, existe uma química inegável entre eles, o que transforma essa afetuosa relação em algo mais desafiador do que todos podiam imaginar, confrontando-os com seus próprios medos, inseguranças e expectativas de uma vida adulta que teima em complicar as coisas. Confira o trailer (em inglês):
Em um primeiro olhar fica claro que "Amor Platônico" se destaca pela forma com que o roteiro tece sua narrativa - existe uma dinâmica carregada de humor non senseque nos envolve. Veja, o humor ácido e perspicaz que encontramos no texto muito bem desenvolvido por Delbanco e Stoller funciona perfeitamente ao abordar os momentos de profunda sensibilidade que seus personagens estão vivendo - mesmo as situações soando absurdas, existe um toque de realismo que nos provoca alguma identificação e empatia. Ao explorar as nuances das relações humanas com essa leveza, a série sobe de patamar - ela não se contenta com soluções fáceis ou clichês, quebrando nossas expectativas ao mesmo tempo que nos convida para refletir sobre as diversas formas de amor e sobre a natureza de certa forma complexa da amizade entre o homem e a mulher.
Assuntos como: problemas no trabalho, desconfianças nos relacionamentos, o próximo passo dentro de um casamento de longa data, as idas e vindas conflituosas por problemas que surgem aos montes na vida adulta, o ciúmes fantasiado de segurança, enfim, vários pontos tão próximos de nós que aqui são uma espécie de plano de fundo para situações pela qual Will e Sylvia precisam passar - o interessante é que o fato dos personagens estarem na meia idade só potencializa tais discussões. Tanto Delbanco quanto Stoller também se dividem na direção dos episódios, deixando com que Seth Rogen e Rose Byrne entreguem o que têm de melhor. A química entre os dois atores é invejável e essencial para que nos apaixonemos pela proposta da série - mesmo que inicialmente pareça bobinha demais. A trilha sonora também merece destaque: as músicas da abertura dão o exato tom do que vem pela frente nos dez episódios da temporada.
"Amor Platônico" tem uma atmosfera positiva e acolhedora - é uma delicia de assistir. Seu conceito narrativo não busca grandiosidade, mas tenta (e quase sempre consegue) se aprofundar na dinâmica natural entre os personagens em pouco mais de trinta minutos por episódio - não será raro você se pegar refletindo sobre uma passagem que acabou de assistir ou de fazer algum paralelo com suas próprias histórias mais íntimas. Aqui realmente temos uma série inteligente, divertida e até emocionante; um retrato honesto sobre relacionamentos modernos que merece demais sua atenção!
Imperdível!
"Amor Platônico" vai te surpreender - especialmente se você gostou de séries como "Easy" ou "Love", ambas da Netflix. Eu diria, inclusive, que a série criada pela Francesca Delbanco (de "Amigos da Faculdade") e pelo Nicholas Stoller (de "Mais que Amigos") é a junção do que existe de melhor dessas duas referências. A produção original da AppleTV+ com a Sony nos conquista pela inteligência e sensibilidade com que equilibra o humor ácido com o drama real, trazendo para a história personagens cheios de camadas, que carregam suas inúmeras falhas, mas que nem por isso deixam de ser cativantes; além de uma abordagem extremamente honesta e complexa das relações interpessoais, especialmente entre homem e mulher, mas pela perspectiva (dúbia) da amizade.
"Platonic" (no original), basicamente, gira em torno de Will (Seth Rogen) e Sylvia (Rose Byrne), amigos de longa data que se reencontram após o divórcio de Will. Apesar do respeito mútuo, existe uma química inegável entre eles, o que transforma essa afetuosa relação em algo mais desafiador do que todos podiam imaginar, confrontando-os com seus próprios medos, inseguranças e expectativas de uma vida adulta que teima em complicar as coisas. Confira o trailer (em inglês):
Em um primeiro olhar fica claro que "Amor Platônico" se destaca pela forma com que o roteiro tece sua narrativa - existe uma dinâmica carregada de humor non senseque nos envolve. Veja, o humor ácido e perspicaz que encontramos no texto muito bem desenvolvido por Delbanco e Stoller funciona perfeitamente ao abordar os momentos de profunda sensibilidade que seus personagens estão vivendo - mesmo as situações soando absurdas, existe um toque de realismo que nos provoca alguma identificação e empatia. Ao explorar as nuances das relações humanas com essa leveza, a série sobe de patamar - ela não se contenta com soluções fáceis ou clichês, quebrando nossas expectativas ao mesmo tempo que nos convida para refletir sobre as diversas formas de amor e sobre a natureza de certa forma complexa da amizade entre o homem e a mulher.
Assuntos como: problemas no trabalho, desconfianças nos relacionamentos, o próximo passo dentro de um casamento de longa data, as idas e vindas conflituosas por problemas que surgem aos montes na vida adulta, o ciúmes fantasiado de segurança, enfim, vários pontos tão próximos de nós que aqui são uma espécie de plano de fundo para situações pela qual Will e Sylvia precisam passar - o interessante é que o fato dos personagens estarem na meia idade só potencializa tais discussões. Tanto Delbanco quanto Stoller também se dividem na direção dos episódios, deixando com que Seth Rogen e Rose Byrne entreguem o que têm de melhor. A química entre os dois atores é invejável e essencial para que nos apaixonemos pela proposta da série - mesmo que inicialmente pareça bobinha demais. A trilha sonora também merece destaque: as músicas da abertura dão o exato tom do que vem pela frente nos dez episódios da temporada.
"Amor Platônico" tem uma atmosfera positiva e acolhedora - é uma delicia de assistir. Seu conceito narrativo não busca grandiosidade, mas tenta (e quase sempre consegue) se aprofundar na dinâmica natural entre os personagens em pouco mais de trinta minutos por episódio - não será raro você se pegar refletindo sobre uma passagem que acabou de assistir ou de fazer algum paralelo com suas próprias histórias mais íntimas. Aqui realmente temos uma série inteligente, divertida e até emocionante; um retrato honesto sobre relacionamentos modernos que merece demais sua atenção!
Imperdível!
"Amor, Drogas e Nova York" é um soco no estômago! Esse drama é tão intenso e visceral quanto "Eu, Christiane F." sem a menor dúvida - o que justifica meu aviso: só assista o filme se estiver preparado para enfrentar uma realidade quase documental de tão perturbadora! O filme dirigido pelos irmãos Safdie (Jóias Brutas) acompanha a relação doentia entre Harley (Arielle Holmes) e Ilya (Caleb Landry Jones), dois jovens "sem teto" que vivem em Nova York perambulando de um lado para o outro em busca de alguns trocados para poder comprar e consumir heroína.
Pesado? Então saiba que "Amor, Drogas e Nova York" é baseado no livro autobiográfico (Mad Love in New York City) de Arielle Holmes - isso mesmo, a atriz que interpreta a protagonista, revive em cena os eventos mais marcantes de uma época da sua vida em que flertava com a morte a cada instante! Isso pode até explicar o trabalho sensacional de Holmes, mas, sinceramente, os irmãos Safdie dão uma aula de direção ao nos colocar ao lado dos personagens como poucas vezes vemos - vou analisar mais a fundo esse trabalho abaixo, mas adianto: é impressionante! Se você, como eu, gostou de "Euphoria" da HBO, não deixe de dar o play, mas saiba que estamos falando uma obra alguns degraus acima, não apenas na forma, mas também no conteúdo!
O roteiro de "Amor, Drogas e Nova York" trás a dor de uma personagem perdida, dependente e, principalmente, solitária. Embora a relação com a heroína seja o ponto mais marcante ou até impactante para quem assiste, o filme tem um mood de solidão que incomoda na alma. Ter Nova York como cenário só potencializa essa sensação e a forma como algumas situações são enquadradas trazem um realismo absurdo - não raro, os personagens discutem, gritam, se agridem no meio da rua, completamente alterados pela droga, e as pessoas ao redor se relacionam com aquela cena de uma forma muito natural (ou pelo menos tentando ser muito natural). Reparem! O sofrimento dos personagens (de todos) é outro ponto crucial no filme: ele está estampado em olhos completamente perdidos e os diretores fazem questão de amplificar essa percepção com lentes bem fechadas, 85mm, em closes belíssimos, mas muito cruéis! A câmera mais solta, ajuda na sensação de desordem, de caos, e a fotografia do americano Sean Price Williams, vencedor no Tribeca Film Festival de 2016 com "Contemporary Color", tem o mérito dessa organicidade.
Ver a forma como Harley está inserida no meio do tráfico, em um universo de mendicância, de pequenos furtos, de pouco dinheiro e de nomadismo, impressiona até aquele que parece estar mais preparado - chega a ser cruel (e vemos isso todos os dias e nem nos damos conta no que está por trás daquela condição). Nesse cenário desolador ainda tem o "amor" entre os protagonistas, pautado no abuso psicológico e fisico, e isso, meu amigo, é só a ponta do iceberg para completar a escolha de não romantizar aquela situação e muito menos as escolhas absurdas que eles próprios fazem, em todo momento! O mérito de tanto impacto visual imposto pelos irmãos Safdie só tem sentido pelo sensacional trabalho do elenco e aí eu tenho que reforçar: todos os atores, sejam eles os mais desconhecidos, estão impecáveis. Além de Arielle Holmes e Caleb Landry Jones, eu ainda destaco, Buddy Duress (Mike) e Necro (Skully).
"Amor, Drogas e Nova York" venceu o prêmio da crítica no Festival de Veneza em 2014 e, mesmo cruel, teve o mérito de trazer um assunto delicado, mas sem maquiagem, que choca ao mesmo tempo em que emociona. Como se não existisse a necessidade de explicar a razão pela qual tudo aquilo está acontecendo, a verdade é que aquilo é a verdade e por isso incomoda tanto. É um belíssimo filme, embora não seja para todos, eu diria que é imperdível se você gostar de uma pegada mais independente, com um nível técnico e artístico acima da média!
"Amor, Drogas e Nova York" é um soco no estômago! Esse drama é tão intenso e visceral quanto "Eu, Christiane F." sem a menor dúvida - o que justifica meu aviso: só assista o filme se estiver preparado para enfrentar uma realidade quase documental de tão perturbadora! O filme dirigido pelos irmãos Safdie (Jóias Brutas) acompanha a relação doentia entre Harley (Arielle Holmes) e Ilya (Caleb Landry Jones), dois jovens "sem teto" que vivem em Nova York perambulando de um lado para o outro em busca de alguns trocados para poder comprar e consumir heroína.
Pesado? Então saiba que "Amor, Drogas e Nova York" é baseado no livro autobiográfico (Mad Love in New York City) de Arielle Holmes - isso mesmo, a atriz que interpreta a protagonista, revive em cena os eventos mais marcantes de uma época da sua vida em que flertava com a morte a cada instante! Isso pode até explicar o trabalho sensacional de Holmes, mas, sinceramente, os irmãos Safdie dão uma aula de direção ao nos colocar ao lado dos personagens como poucas vezes vemos - vou analisar mais a fundo esse trabalho abaixo, mas adianto: é impressionante! Se você, como eu, gostou de "Euphoria" da HBO, não deixe de dar o play, mas saiba que estamos falando uma obra alguns degraus acima, não apenas na forma, mas também no conteúdo!
O roteiro de "Amor, Drogas e Nova York" trás a dor de uma personagem perdida, dependente e, principalmente, solitária. Embora a relação com a heroína seja o ponto mais marcante ou até impactante para quem assiste, o filme tem um mood de solidão que incomoda na alma. Ter Nova York como cenário só potencializa essa sensação e a forma como algumas situações são enquadradas trazem um realismo absurdo - não raro, os personagens discutem, gritam, se agridem no meio da rua, completamente alterados pela droga, e as pessoas ao redor se relacionam com aquela cena de uma forma muito natural (ou pelo menos tentando ser muito natural). Reparem! O sofrimento dos personagens (de todos) é outro ponto crucial no filme: ele está estampado em olhos completamente perdidos e os diretores fazem questão de amplificar essa percepção com lentes bem fechadas, 85mm, em closes belíssimos, mas muito cruéis! A câmera mais solta, ajuda na sensação de desordem, de caos, e a fotografia do americano Sean Price Williams, vencedor no Tribeca Film Festival de 2016 com "Contemporary Color", tem o mérito dessa organicidade.
Ver a forma como Harley está inserida no meio do tráfico, em um universo de mendicância, de pequenos furtos, de pouco dinheiro e de nomadismo, impressiona até aquele que parece estar mais preparado - chega a ser cruel (e vemos isso todos os dias e nem nos damos conta no que está por trás daquela condição). Nesse cenário desolador ainda tem o "amor" entre os protagonistas, pautado no abuso psicológico e fisico, e isso, meu amigo, é só a ponta do iceberg para completar a escolha de não romantizar aquela situação e muito menos as escolhas absurdas que eles próprios fazem, em todo momento! O mérito de tanto impacto visual imposto pelos irmãos Safdie só tem sentido pelo sensacional trabalho do elenco e aí eu tenho que reforçar: todos os atores, sejam eles os mais desconhecidos, estão impecáveis. Além de Arielle Holmes e Caleb Landry Jones, eu ainda destaco, Buddy Duress (Mike) e Necro (Skully).
"Amor, Drogas e Nova York" venceu o prêmio da crítica no Festival de Veneza em 2014 e, mesmo cruel, teve o mérito de trazer um assunto delicado, mas sem maquiagem, que choca ao mesmo tempo em que emociona. Como se não existisse a necessidade de explicar a razão pela qual tudo aquilo está acontecendo, a verdade é que aquilo é a verdade e por isso incomoda tanto. É um belíssimo filme, embora não seja para todos, eu diria que é imperdível se você gostar de uma pegada mais independente, com um nível técnico e artístico acima da média!
"Amor, Sublime Amor" é uma verdadeira declaração de amor de um dos maiores diretores de todos os tempos, Steven Spielberg, ao clássico "West Side Story" e ao cinema cantado dos anos 50. Definido pelo próprio diretor como “um sonho de criança”, o filme é uma adaptação do musical de Arthur Laurents, Leonard Bernstein e Stephen Sondheim e um remake da premiada produção de 1961 comandada por Robert Wise e Jerome Robbins. Perceba como essa trágica história de amor se confunde com as artes, ao melhor estilo "Romeu & Julieta", tirando o diretor de sua zona de conforto e o colocando para se divertir - e é isso que o filme representa: uma divertida e emocionante versão de Spielberg para um clássico musical que recebeu 7 indicações para o Oscar 2022!
Na trama acompanhamos uma história de amor à primeira vista, que acontece quando o jovem Tony (Ansel Elgort) vê Maria (Rachel Zegler) em um baile do ensino médio em 1957, na cidade de Nova York. Seu romance florescente ajuda a alimentar o fogo entre duas gangues adolescentes rivais que disputam o controle das ruas do Upper West Side: os Jets (formada por americanos brancos de terceira geração de imigrantes europeus) e os Sharks (de imigrantes porto-riquenhos de primeira geração). Confira o trailer:
Desde a divulgação do primeiro teaser do filme já dava para se ter a exata noção do espetáculo visual que seria "Amor, Sublime Amor"! O que Spielberg faz ao lado do seu parceiro, o diretor de fotografia, Janusz Kaminski, é uma aula de cinematografia - um verdadeiro baile que mistura movimentos de câmera tradicionais com outros extremamente criativos (e inventivos) em uma verdadeira festa de cores e texturas em um cenário que remete ao palco de um teatro com a amplitude de um estúdio de cinema, com muita luz, fumaça e poesia - puxa, como tem poesia em casa sequência desse filme!
Com base no roteiro de Tony Kushner (de "Munique" e "Lincoln") o diretor moderniza a narrativa ao dar um contexto ainda mais realista da rivalidade entre as gangues dos anos 50, apresentando elas como vítimas de um sistema que os quer longe de uma Manhattan que se moderniza. A sensibilidade crítica do diretor é completamente perceptível já no primeiro plano sequência do filme, que passeia pelo silêncio do caos até ganhar vida com a música envolvente de Leonard Bernstein. Aliás, o elenco é um show a parte - e quando escrevo "show" não é um exagero, já que as performances musicais são de cair o queixo. Destaque para a incrível Rita Moreno, queno novo filme faz as vezes do personagem Doc do original, e que interpreta Valentina, uma senhora que por essência está entre as duas gangues, por ser porto-riquenha, mas ter casado com um americano - ouvi-la cantando “Somewhere”, cheia de emoção, vale o filme! Ariana DeBose (a Anita), indicada ao Oscar de coadjuvante, também merece todos os elogios!
O fato é que "Amor, Sublime Amor" é um espetáculo - no significado mais contundente da palavra. O filme tem uma qualidade técnica e artística que, sem dúvida, o coloca em outro patamar. Para quem gosta dos musicais da Broadway, a produção é o equilíbrio perfeito entre cinema e o teatro, respeitando suas peculiaridades como manifestação artística, mas também não esquecendo das suas virtudes únicas - mais ou menos como fez Tom Hooper com "Les Miserables". Com seus 75 anos, Spielberg mostra que tem muita lenha para queimar, e que é capaz de transformar aquele seu toque mágico (que marcou sua carreira) em uma ferramenta essencial quando o assunto é visitar um clássico que parecia intocável, mas que na verdade, na opinião de muitos, acabou superando o original!
Vale muito seu play!
Up-date: "Amor, Sublime Amor" ganhou em uma categoria no Oscar 2022: Melhor Atriz Coadjuvante!
"Amor, Sublime Amor" é uma verdadeira declaração de amor de um dos maiores diretores de todos os tempos, Steven Spielberg, ao clássico "West Side Story" e ao cinema cantado dos anos 50. Definido pelo próprio diretor como “um sonho de criança”, o filme é uma adaptação do musical de Arthur Laurents, Leonard Bernstein e Stephen Sondheim e um remake da premiada produção de 1961 comandada por Robert Wise e Jerome Robbins. Perceba como essa trágica história de amor se confunde com as artes, ao melhor estilo "Romeu & Julieta", tirando o diretor de sua zona de conforto e o colocando para se divertir - e é isso que o filme representa: uma divertida e emocionante versão de Spielberg para um clássico musical que recebeu 7 indicações para o Oscar 2022!
Na trama acompanhamos uma história de amor à primeira vista, que acontece quando o jovem Tony (Ansel Elgort) vê Maria (Rachel Zegler) em um baile do ensino médio em 1957, na cidade de Nova York. Seu romance florescente ajuda a alimentar o fogo entre duas gangues adolescentes rivais que disputam o controle das ruas do Upper West Side: os Jets (formada por americanos brancos de terceira geração de imigrantes europeus) e os Sharks (de imigrantes porto-riquenhos de primeira geração). Confira o trailer:
Desde a divulgação do primeiro teaser do filme já dava para se ter a exata noção do espetáculo visual que seria "Amor, Sublime Amor"! O que Spielberg faz ao lado do seu parceiro, o diretor de fotografia, Janusz Kaminski, é uma aula de cinematografia - um verdadeiro baile que mistura movimentos de câmera tradicionais com outros extremamente criativos (e inventivos) em uma verdadeira festa de cores e texturas em um cenário que remete ao palco de um teatro com a amplitude de um estúdio de cinema, com muita luz, fumaça e poesia - puxa, como tem poesia em casa sequência desse filme!
Com base no roteiro de Tony Kushner (de "Munique" e "Lincoln") o diretor moderniza a narrativa ao dar um contexto ainda mais realista da rivalidade entre as gangues dos anos 50, apresentando elas como vítimas de um sistema que os quer longe de uma Manhattan que se moderniza. A sensibilidade crítica do diretor é completamente perceptível já no primeiro plano sequência do filme, que passeia pelo silêncio do caos até ganhar vida com a música envolvente de Leonard Bernstein. Aliás, o elenco é um show a parte - e quando escrevo "show" não é um exagero, já que as performances musicais são de cair o queixo. Destaque para a incrível Rita Moreno, queno novo filme faz as vezes do personagem Doc do original, e que interpreta Valentina, uma senhora que por essência está entre as duas gangues, por ser porto-riquenha, mas ter casado com um americano - ouvi-la cantando “Somewhere”, cheia de emoção, vale o filme! Ariana DeBose (a Anita), indicada ao Oscar de coadjuvante, também merece todos os elogios!
O fato é que "Amor, Sublime Amor" é um espetáculo - no significado mais contundente da palavra. O filme tem uma qualidade técnica e artística que, sem dúvida, o coloca em outro patamar. Para quem gosta dos musicais da Broadway, a produção é o equilíbrio perfeito entre cinema e o teatro, respeitando suas peculiaridades como manifestação artística, mas também não esquecendo das suas virtudes únicas - mais ou menos como fez Tom Hooper com "Les Miserables". Com seus 75 anos, Spielberg mostra que tem muita lenha para queimar, e que é capaz de transformar aquele seu toque mágico (que marcou sua carreira) em uma ferramenta essencial quando o assunto é visitar um clássico que parecia intocável, mas que na verdade, na opinião de muitos, acabou superando o original!
Vale muito seu play!
Up-date: "Amor, Sublime Amor" ganhou em uma categoria no Oscar 2022: Melhor Atriz Coadjuvante!
Do mesmo diretor de "Joy: O Nome do Sucesso"e "Trapaça", o premiadíssimo David O. Russell, "Amsterdam" fatalmente vai entrar naquela prateleira do "ame ou odeie" - a própria bilheteria do filme provou essa tese. Bem na linha de Wes Anderson (de "O Grande Hotel Budapeste" e "A Crônica Francesa") com um leve toque de "Entre Facas e Segredos" a história tranquilamente poderia ter sido tirada da obra de Agatha Christie ou de um conto de Sherlock Holmes, porém (e aí que está a divisão do público) com uma narração mais cadenciada, muitas vezes até cansativa, onde os detalhes estéticos se sobrepõem à trama (que curiosamente foi baseada em fatos reais) - é como se estivéssemos lendo um livro do Jô Soares (O Xangô de Baker Street ) que era cheio de descrições contextuais, mas ainda assim com uma história com certa criatividade.
"Amsterdam" acompanha a jornada de três amigos que se conheceram durante a Primeira Guerra Mundial. Eles são Burt Berendsen (Christian Bale), um médico que perdeu o olho em combate; seu amigo advogado Harold Woodman (John David Washington); e uma excêntrica artista/enfermeira Valerie Voze (Margot Robbie). Após retornarem do campo de batalha, o trio passa um período se divertindo em Amsterdam, mas acabam se separando, apenas para se reunirem muitos anos depois no meio de um assassinato em plena década de 30, em que Burt e Harold são suspeitos. Os amigos, então, se unem para limpar seus nomes, enquanto tentam desvendar uma conspiração gigantesca. Confira o trailer:
Inegavelmente que o que mais chama atenção inicialmente é a qualidade da produção no que diz respeito ao departamento de arte - do desenho de produção, passando pelo figurino e maquiagem, "Amsterdam" brilha no quesito técnico e artístico extremamente alinhado com a fotografia do (sempre ele) Emmanuel Lubezki (vencedor de três Oscars, sendo o último deles por "O Regresso"). Logo depois, no entanto, o que vemos brilhar é o elenco - e aqui cabe uma observação importante: os protagonistas e os coadjuvantes são tão importantes quanto todo elenco de apoio que é recheado de convidados que vão de Taylor Swift até Robert De Niro.
O que teria tudo para fazer o filme brilhar, na verdade acaba escondendo um roteiro que soa um pouco confuso e uma edição (de Jay Cassidy) com soluções que várias vezes mais atrapalham do que nos conecta com a história - os flashbacks contextualizam, mas ao mesmo tempo quebram o ritmo. Além disso, o conceito narrativo que O. Russell propõe causa um certo estranhamento - demora para entendermos sua intenção (muitas delas, inclusive, criadas para funcionar como alivio cômico onde não precisava). É preciso dizer, no entanto, que a sensação de "caos" existe e ao embarcarmos na jornada, atentos a proposta, vemos que tudo isso faz sentido.
Após duas horas de filme, temos a exata noção que "Amsterdam" aproveita da sua excentricidade para discutir elementos políticos de uma época onde o fascismo começava a imperar. Mesmo que com essa caricatura visual na sua forma, é de se perceber o propósito politico de O. Russell no seu conteúdo até quando soa dispensável - o personagem de Chris Rock é um bom exemplo: ele aparece, faz um comentário sobre racismo e/ou supremacia branca e depois desaparece na mesma velocidade. O fato é que o filme transita entre a conspiração e a espionagem, mas com sua base enraizada na sátira política, quase pastelão, com aquele leve toque de drama de relação mais emocional. Confuso? Sim, mas como entretenimento é inegável o seu charme!
Do mesmo diretor de "Joy: O Nome do Sucesso"e "Trapaça", o premiadíssimo David O. Russell, "Amsterdam" fatalmente vai entrar naquela prateleira do "ame ou odeie" - a própria bilheteria do filme provou essa tese. Bem na linha de Wes Anderson (de "O Grande Hotel Budapeste" e "A Crônica Francesa") com um leve toque de "Entre Facas e Segredos" a história tranquilamente poderia ter sido tirada da obra de Agatha Christie ou de um conto de Sherlock Holmes, porém (e aí que está a divisão do público) com uma narração mais cadenciada, muitas vezes até cansativa, onde os detalhes estéticos se sobrepõem à trama (que curiosamente foi baseada em fatos reais) - é como se estivéssemos lendo um livro do Jô Soares (O Xangô de Baker Street ) que era cheio de descrições contextuais, mas ainda assim com uma história com certa criatividade.
"Amsterdam" acompanha a jornada de três amigos que se conheceram durante a Primeira Guerra Mundial. Eles são Burt Berendsen (Christian Bale), um médico que perdeu o olho em combate; seu amigo advogado Harold Woodman (John David Washington); e uma excêntrica artista/enfermeira Valerie Voze (Margot Robbie). Após retornarem do campo de batalha, o trio passa um período se divertindo em Amsterdam, mas acabam se separando, apenas para se reunirem muitos anos depois no meio de um assassinato em plena década de 30, em que Burt e Harold são suspeitos. Os amigos, então, se unem para limpar seus nomes, enquanto tentam desvendar uma conspiração gigantesca. Confira o trailer:
Inegavelmente que o que mais chama atenção inicialmente é a qualidade da produção no que diz respeito ao departamento de arte - do desenho de produção, passando pelo figurino e maquiagem, "Amsterdam" brilha no quesito técnico e artístico extremamente alinhado com a fotografia do (sempre ele) Emmanuel Lubezki (vencedor de três Oscars, sendo o último deles por "O Regresso"). Logo depois, no entanto, o que vemos brilhar é o elenco - e aqui cabe uma observação importante: os protagonistas e os coadjuvantes são tão importantes quanto todo elenco de apoio que é recheado de convidados que vão de Taylor Swift até Robert De Niro.
O que teria tudo para fazer o filme brilhar, na verdade acaba escondendo um roteiro que soa um pouco confuso e uma edição (de Jay Cassidy) com soluções que várias vezes mais atrapalham do que nos conecta com a história - os flashbacks contextualizam, mas ao mesmo tempo quebram o ritmo. Além disso, o conceito narrativo que O. Russell propõe causa um certo estranhamento - demora para entendermos sua intenção (muitas delas, inclusive, criadas para funcionar como alivio cômico onde não precisava). É preciso dizer, no entanto, que a sensação de "caos" existe e ao embarcarmos na jornada, atentos a proposta, vemos que tudo isso faz sentido.
Após duas horas de filme, temos a exata noção que "Amsterdam" aproveita da sua excentricidade para discutir elementos políticos de uma época onde o fascismo começava a imperar. Mesmo que com essa caricatura visual na sua forma, é de se perceber o propósito politico de O. Russell no seu conteúdo até quando soa dispensável - o personagem de Chris Rock é um bom exemplo: ele aparece, faz um comentário sobre racismo e/ou supremacia branca e depois desaparece na mesma velocidade. O fato é que o filme transita entre a conspiração e a espionagem, mas com sua base enraizada na sátira política, quase pastelão, com aquele leve toque de drama de relação mais emocional. Confuso? Sim, mas como entretenimento é inegável o seu charme!
"Anatomia de um Escândalo" é uma espécie de "The Undoing" da Netflix - e não por acaso também adaptado por David E. Kelley a partir do livro homônimo de Sarah Vaughan. Pois bem, mesmo tendo o DNA de Kelley é preciso deixar bem claro que a produção não carrega o "selo HBO" e isso pode ser sentido em sua forma, mas não no conteúdo, ou seja, se para você tudo que escrevi até aqui fez sentido, provavelmente você nem vai precisar ler a análise inteira para ter a certeza que seu entretenimento está garantido! "Anatomia de um Escândalo" foi lançada em 2022 trazendo o melhor do drama jurídico ao explorar as nuances de como o poder pode gerar privilégios nocivos a partir da sensação "natural" de impunidade nos bastidores da política - aqui, britânica. A minissérie de Kelly conta com a colaboração precisa de Melissa James Gibson (de "House of Cards") para traduzir as complexidades de um caso de abuso sexual envolvendo um político influente, expondo as fissuras nas instituições que frequentemente protegem os poderosos. Esteja preparado para uma narrativa envolvente, capaz de entregar uma experiência que equilibra perfeitamente o entretenimento com o drama pessoal e a crítica social.
James Whitehouse (Rupert Friend) é um político carismático e bem-sucedido que, após ser acusado de estuprar uma colega de trabalho, Olivia Lytton (Naomi Scott), se vê no centro de um escândalo midiático. Ao seu lado está sua esposa, Sophie (Sienna Miller), que enfrenta a difícil tarefa de reconciliar sua lealdade ao marido com as crescentes suspeitas sobre seu comportamento e integridade. Enquanto a narrativa se desenrola, vemos o caso sendo disputado no tribunal pela promotora Kate Woodcroft (Michelle Dockery), que busca justiça em meio ao que parece ser uma batalha desigual de um homem protegido por seu status contra uma mulher aparentemente desacreditada por muitos. Confira o trailer:
1 + 1 nem sempre é 2, pelo menos pela perspectiva de quem interpreta uma situação estando nela e "Anatomia de um Escândalo" é muito inteligente em criar essa atmosfera de dúvidas com muita sabedoria - através do seu roteiro, de sua montagem e de sua direção. Ao lado das montadoras Liana Del Giudice (de "Marcella") e Mary Finlay (de "A Cor do Poder"), a diretora S.J. Clarkson (de "Succession") trabalha os flashbacks e os cortes rápidos (e desconexos) para fortalecer o conceito de narrativa fragmentada que gradualmente revela os segredos e as motivações dos personagens ao mesmo tempo em que sugere um forte senso de desorientação. Repare como as cenas de tribunal são intensas, capturando a pressão e o drama de um julgamento onde as questões de consentimento são colocadas em primeiro plano, mas é no recorte pontual das situações, com o uso de ângulos e lentes que distorcem a percepção do espaço, que encontramos o colapso de verdades que antes pareciam absolutas - isso é muito bacana.
O roteiro, de fato, é eficiente em construir uma narrativa que se equilibra o suspense com o drama mais psicológico. Kelley e Gibson exploram de forma hábil os dilemas morais e as complexidades de um escândalo sexual no meio político, mostrando o privilégio de maneira crítica e como isso molda a percepção da verdade ao ponto de influenciar os desfechos judiciais, e mais do que isso, ainda destacam o impacto devastador não apenas sobre as vítimas, mas também sobre as pessoas que cercam o acusado. Sophie, por exemplo, é uma mulher que vê seu mundo desmoronar ao questionar tudo o que sabia sobre o marido e sobre seu casamento - a performance de Sienna Miller é cheia de camadas, capturando a dor e a confusão de uma esposa que é forçada a confrontar a realidade que sempre tentou ignorar. Sua evolução ao longo da minissérie é convincente, pois ela passa de uma figura passiva e protetora para alguém que precisa lidar com as duras verdades sobre o homem com quem escolheu compartilhar sua vida. Rupert Friend entrega uma atuação sólida, interpretando esse homem que, apesar de seu charme e aparente vulnerabilidade, carrega um tom de arrogância e frieza. E Michelle Dockery, o que dizer? Ela consegue equilibrar a frieza profissional e o envolvimento emocional, tornando sua performance um dos pilares da minissérie, mas saiba que o charme da sua personagem está mesmo é no subtexto - pontuado pela hipocrisia no primeiro momento e na dura auto-avaliação mais a frente!
Obviamente que "Anatomia de um Escândalo" sofre com os clichês típicos de dramas jurídicos e escândalos políticos, podendo se tornar até previsível, mas para os amantes do gênero eu posso garantir que a minissérie é bastante eficaz em proporcionar um ótimo e rápido entretenimento (são apenas 6 episódios) ao mesmo tempo que provoca boas discussões sobre os mecanismos que sustentam os privilégios de poucos e sobre a realidade por trás dos escândalos que frequentemente vemos na tv. Para pensar sem esquecer de se divertir!
Vale o seu play!
"Anatomia de um Escândalo" é uma espécie de "The Undoing" da Netflix - e não por acaso também adaptado por David E. Kelley a partir do livro homônimo de Sarah Vaughan. Pois bem, mesmo tendo o DNA de Kelley é preciso deixar bem claro que a produção não carrega o "selo HBO" e isso pode ser sentido em sua forma, mas não no conteúdo, ou seja, se para você tudo que escrevi até aqui fez sentido, provavelmente você nem vai precisar ler a análise inteira para ter a certeza que seu entretenimento está garantido! "Anatomia de um Escândalo" foi lançada em 2022 trazendo o melhor do drama jurídico ao explorar as nuances de como o poder pode gerar privilégios nocivos a partir da sensação "natural" de impunidade nos bastidores da política - aqui, britânica. A minissérie de Kelly conta com a colaboração precisa de Melissa James Gibson (de "House of Cards") para traduzir as complexidades de um caso de abuso sexual envolvendo um político influente, expondo as fissuras nas instituições que frequentemente protegem os poderosos. Esteja preparado para uma narrativa envolvente, capaz de entregar uma experiência que equilibra perfeitamente o entretenimento com o drama pessoal e a crítica social.
James Whitehouse (Rupert Friend) é um político carismático e bem-sucedido que, após ser acusado de estuprar uma colega de trabalho, Olivia Lytton (Naomi Scott), se vê no centro de um escândalo midiático. Ao seu lado está sua esposa, Sophie (Sienna Miller), que enfrenta a difícil tarefa de reconciliar sua lealdade ao marido com as crescentes suspeitas sobre seu comportamento e integridade. Enquanto a narrativa se desenrola, vemos o caso sendo disputado no tribunal pela promotora Kate Woodcroft (Michelle Dockery), que busca justiça em meio ao que parece ser uma batalha desigual de um homem protegido por seu status contra uma mulher aparentemente desacreditada por muitos. Confira o trailer:
1 + 1 nem sempre é 2, pelo menos pela perspectiva de quem interpreta uma situação estando nela e "Anatomia de um Escândalo" é muito inteligente em criar essa atmosfera de dúvidas com muita sabedoria - através do seu roteiro, de sua montagem e de sua direção. Ao lado das montadoras Liana Del Giudice (de "Marcella") e Mary Finlay (de "A Cor do Poder"), a diretora S.J. Clarkson (de "Succession") trabalha os flashbacks e os cortes rápidos (e desconexos) para fortalecer o conceito de narrativa fragmentada que gradualmente revela os segredos e as motivações dos personagens ao mesmo tempo em que sugere um forte senso de desorientação. Repare como as cenas de tribunal são intensas, capturando a pressão e o drama de um julgamento onde as questões de consentimento são colocadas em primeiro plano, mas é no recorte pontual das situações, com o uso de ângulos e lentes que distorcem a percepção do espaço, que encontramos o colapso de verdades que antes pareciam absolutas - isso é muito bacana.
O roteiro, de fato, é eficiente em construir uma narrativa que se equilibra o suspense com o drama mais psicológico. Kelley e Gibson exploram de forma hábil os dilemas morais e as complexidades de um escândalo sexual no meio político, mostrando o privilégio de maneira crítica e como isso molda a percepção da verdade ao ponto de influenciar os desfechos judiciais, e mais do que isso, ainda destacam o impacto devastador não apenas sobre as vítimas, mas também sobre as pessoas que cercam o acusado. Sophie, por exemplo, é uma mulher que vê seu mundo desmoronar ao questionar tudo o que sabia sobre o marido e sobre seu casamento - a performance de Sienna Miller é cheia de camadas, capturando a dor e a confusão de uma esposa que é forçada a confrontar a realidade que sempre tentou ignorar. Sua evolução ao longo da minissérie é convincente, pois ela passa de uma figura passiva e protetora para alguém que precisa lidar com as duras verdades sobre o homem com quem escolheu compartilhar sua vida. Rupert Friend entrega uma atuação sólida, interpretando esse homem que, apesar de seu charme e aparente vulnerabilidade, carrega um tom de arrogância e frieza. E Michelle Dockery, o que dizer? Ela consegue equilibrar a frieza profissional e o envolvimento emocional, tornando sua performance um dos pilares da minissérie, mas saiba que o charme da sua personagem está mesmo é no subtexto - pontuado pela hipocrisia no primeiro momento e na dura auto-avaliação mais a frente!
Obviamente que "Anatomia de um Escândalo" sofre com os clichês típicos de dramas jurídicos e escândalos políticos, podendo se tornar até previsível, mas para os amantes do gênero eu posso garantir que a minissérie é bastante eficaz em proporcionar um ótimo e rápido entretenimento (são apenas 6 episódios) ao mesmo tempo que provoca boas discussões sobre os mecanismos que sustentam os privilégios de poucos e sobre a realidade por trás dos escândalos que frequentemente vemos na tv. Para pensar sem esquecer de se divertir!
Vale o seu play!
Uma série criminal nórdica raiz e simplesmente viciante, assim é "Aqueles que Matam"! "Den som Dræber" (um original Viaplay) mergulha fundo nas complexidades da mente humana, trazendo uma abordagem sombria e visceral ao universo das investigações criminais. Criada por Ina Bruhn, essa série dinamarquesa se diferencia pelo formato antológico, onde cada temporada apresenta um novo caso, novos personagens e uma narrativa que vai muito além da tradicional caçada policial. Aqui, o crime é apenas o ponto de partida para uma jornada que confronta tanto o passado dos criminosos quanto os limites éticos e emocionais dos investigadores que os perseguem - nesse sentido, aliás, a série traz muitos dos conceitos narrativos de "The Killing" e de "True Detective", ou seja, se você gostou das referências, nem perca seu tempo lendo toda essa análise, vá direto para o play! Com uma atmosfera pesada e realista, a série está em sintonia com o que há de mais denso no suspense criminal nórdico,onde a tensão recorrente e a construção de personagens são tão protagonistas quanto o próprio mistério.
A trama de cada temporada é centrada em investigações complexas, onde os crimes e suas motivações são explorados de maneira quase cirúrgica, revelando nuances que deixam claro o quanto a mente humana pode ser um campo de batalha brutal e enigmático. No primeiro ano, por exemplo, acompanhamos o dedicado, mas complicado, detetive Jan Michelsen (Kenneth M. Christensen) investigando o desaparecimento de uma jovem que ele acredita estar relacionado a um caso semelhante de dez anos atrás. Quando o corpo de uma das jovens é encontrado, ele recorre à especialista em assassinos em série, Louise Bergstein (Natalie Madueño), para ajuda-lo na busca pela solução do mistério. Confira o trailer original:
O mais interessante de "Aqueles que Matam" é que em vez de se contentar com o “quem matou”, a série está mais interessada no “por que” e no “como”, usando o crime como um espelho para temas mais profundos como culpa e trauma, sempre pela perspectiva da linha tênue entre a sanidade e a obsessão. O foco na psicologia dos personagens, principalmente dos assassinos e dos próprios investigadores, adiciona uma camada de desconforto e introspecção que desafia a audiência a acompanhar de perto os conflitos que surgem ao longo dos episódios. O roteiro é extremamente preciso ao construir essas camadas emocionais, entregando diálogos que revelam e questionam ao mesmo tempo, mantendo um ritmo que oscila entre o suspenso e o reflexivo sem perder força.
A direção de fotografia modulada na primeira temporada pelo Eric Kress (de "Halo") merece destaque por sua capacidade de intensificar a tensão da trama com um visual pautado nos tons frios e nos ambientes cheios de desolação. Os enquadramentos das paisagens urbanas e rurais, quase sempre opressivas, se apropriam desse conceito para criar um clima de isolamento e de melancolia que é essencial na experiência da série. A escolha dos contrastes, das luzes e sombras, é cuidadosa, reforçando a sensação de que não há escapismo ali – apenas o confronto constante com as zonas mais sombrias da alma humana. Cada protagonista, seja detetive, psicólogo criminal ou consultor, traz consigo ao longo das temporadas um peso emocional que não é facilmente desvendado. As atuações são contidas, mas impactantes, explorando as reações silenciosas e o desgaste que os casos impõem a esses profissionais. Natalie Madueño e Simon Sears, por exemplo, entregam performances marcantes, construindo personagens humanos que carregam suas próprias feridas, tornando-os críveis e cativantes.
A estrutura introspectiva de "Aqueles que Matam", com foco no desenvolvimento psicológico e na tensão moral, pode parecer lenta em certos momentos, exigindo certa paciência e atenção, mas te garanto: vale a pena embarcar na proposta da série. E sim, existe uma certa densidade que impacta de verdade, especialmente nas temporadas que abordam temas mais sombrios como abuso, traumas de infância e violência doméstica, no entanto, é essa mesma intensidade que dá à série um caráter único. O fato é que "Aqueles que Matam" entrega uma narrativa que desafia e desconstrói o gênero criminal, mostrando que o verdadeiro horror nem sempre está no ato violento, mas nas motivações e nas consequências que ele carrega para todos os envolvidos. Para quem busca uma série que vai além do mistério e se aventura no território da psique humana, você está a um play de muitas horas de um excelente entretenimento!
Vale demais!
Uma série criminal nórdica raiz e simplesmente viciante, assim é "Aqueles que Matam"! "Den som Dræber" (um original Viaplay) mergulha fundo nas complexidades da mente humana, trazendo uma abordagem sombria e visceral ao universo das investigações criminais. Criada por Ina Bruhn, essa série dinamarquesa se diferencia pelo formato antológico, onde cada temporada apresenta um novo caso, novos personagens e uma narrativa que vai muito além da tradicional caçada policial. Aqui, o crime é apenas o ponto de partida para uma jornada que confronta tanto o passado dos criminosos quanto os limites éticos e emocionais dos investigadores que os perseguem - nesse sentido, aliás, a série traz muitos dos conceitos narrativos de "The Killing" e de "True Detective", ou seja, se você gostou das referências, nem perca seu tempo lendo toda essa análise, vá direto para o play! Com uma atmosfera pesada e realista, a série está em sintonia com o que há de mais denso no suspense criminal nórdico,onde a tensão recorrente e a construção de personagens são tão protagonistas quanto o próprio mistério.
A trama de cada temporada é centrada em investigações complexas, onde os crimes e suas motivações são explorados de maneira quase cirúrgica, revelando nuances que deixam claro o quanto a mente humana pode ser um campo de batalha brutal e enigmático. No primeiro ano, por exemplo, acompanhamos o dedicado, mas complicado, detetive Jan Michelsen (Kenneth M. Christensen) investigando o desaparecimento de uma jovem que ele acredita estar relacionado a um caso semelhante de dez anos atrás. Quando o corpo de uma das jovens é encontrado, ele recorre à especialista em assassinos em série, Louise Bergstein (Natalie Madueño), para ajuda-lo na busca pela solução do mistério. Confira o trailer original:
O mais interessante de "Aqueles que Matam" é que em vez de se contentar com o “quem matou”, a série está mais interessada no “por que” e no “como”, usando o crime como um espelho para temas mais profundos como culpa e trauma, sempre pela perspectiva da linha tênue entre a sanidade e a obsessão. O foco na psicologia dos personagens, principalmente dos assassinos e dos próprios investigadores, adiciona uma camada de desconforto e introspecção que desafia a audiência a acompanhar de perto os conflitos que surgem ao longo dos episódios. O roteiro é extremamente preciso ao construir essas camadas emocionais, entregando diálogos que revelam e questionam ao mesmo tempo, mantendo um ritmo que oscila entre o suspenso e o reflexivo sem perder força.
A direção de fotografia modulada na primeira temporada pelo Eric Kress (de "Halo") merece destaque por sua capacidade de intensificar a tensão da trama com um visual pautado nos tons frios e nos ambientes cheios de desolação. Os enquadramentos das paisagens urbanas e rurais, quase sempre opressivas, se apropriam desse conceito para criar um clima de isolamento e de melancolia que é essencial na experiência da série. A escolha dos contrastes, das luzes e sombras, é cuidadosa, reforçando a sensação de que não há escapismo ali – apenas o confronto constante com as zonas mais sombrias da alma humana. Cada protagonista, seja detetive, psicólogo criminal ou consultor, traz consigo ao longo das temporadas um peso emocional que não é facilmente desvendado. As atuações são contidas, mas impactantes, explorando as reações silenciosas e o desgaste que os casos impõem a esses profissionais. Natalie Madueño e Simon Sears, por exemplo, entregam performances marcantes, construindo personagens humanos que carregam suas próprias feridas, tornando-os críveis e cativantes.
A estrutura introspectiva de "Aqueles que Matam", com foco no desenvolvimento psicológico e na tensão moral, pode parecer lenta em certos momentos, exigindo certa paciência e atenção, mas te garanto: vale a pena embarcar na proposta da série. E sim, existe uma certa densidade que impacta de verdade, especialmente nas temporadas que abordam temas mais sombrios como abuso, traumas de infância e violência doméstica, no entanto, é essa mesma intensidade que dá à série um caráter único. O fato é que "Aqueles que Matam" entrega uma narrativa que desafia e desconstrói o gênero criminal, mostrando que o verdadeiro horror nem sempre está no ato violento, mas nas motivações e nas consequências que ele carrega para todos os envolvidos. Para quem busca uma série que vai além do mistério e se aventura no território da psique humana, você está a um play de muitas horas de um excelente entretenimento!
Vale demais!