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Não olhe para cima

"Não olhe para cima" não é, e talvez nunca será, um filme unânime, longe disso; já que o conceito narrativo foi construído de uma forma muito inteligente (e peculiar) a partir de uma sátira que obviamente extrapola no tom, mas esconde em um roteiro irônico (e acreditem, sutil) as nuances de viver em uma época onde "ser" e "estar" se confundem a cada clique (ou arraste para o lado) perante a mediocridade e o egoísmo do ser-humano.

A premissa é simples, mas nada simplista: dois astrônomos renomados, porém pouco conhecidos das organizações governamentais dos EUA, Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), tentam alertar a humanidade sobre a aproximação de um cometa que acabaram de descobrir e que está prestes a destruir a Terra. Obviamente que eles são desacreditados pela presidente americana, mesmo com todas as evidências comprovadas cientificamente, então ambos resolvem fazer uma espécie de  tour midiática para tentar mobilizar o maior número de pessoas e assim provocar o governo a encontrar uma solução antes que seja tarde. Confira o trailer:

Costumo dizer que você é as referências que você têm, e "Não olhe para cima" constrói uma trama que eleva essa afirmação para outro patamar - algumas sacadas são muito engraçadas, mas podem passar despercebidas por várias pessoas se não estiverem atentas. Muito bem dirigido e roteirizado pelo Adam Mckay (o cara por trás de "Succession", "A Grande Aposta", "Vice", entre outros inúmeros sucessos), o filme usa da semiótica para posicionar a audiência em um universo tão absurdo quanto real. Se dentro da trama os personagens mantém um tom naturalista de interpretação, a cada palavra pronunciada, suas mensagens chegam carregadas de ironias - e a conexão com esse tipo de texto só fará sentido se o mesmo for bem interpretado, entendido e digerido; caso contrário será o "absurdo!" que se sobressairá.

Tecnicamente o filme vai muito bem - as inserções gráficas, a câmera nervosa e a edição moderna, marca registrada de Mckay, criam uma dinâmica impressionante - conectados (vale sempre lembrar), nem vemos os mais de 120 minutos passar. Tanto DiCaprio quanto Lawrence brilham, mas impossível não destacar o trabalho de Meryl Streep como a negacionista e completamente fora da realidade, Presidente Orlean, e do seu filho, ou melhor, "assessor", Jason Orlean (Jonah Hill) - os textos de ambos são tão constrangedores que não por acaso lembraremos de Roman Roy.

Em "Não olhe para cima" não existe o menor espaço para um diálogo inteligente, um pensamento crítico ou discussões aprofundadas sobre algo que está cientificamente comprovado - fica tudo para quem assiste (e juro que estou falando apenas do filme e não do Brasil em época de pandemia). Acaba sendo uma aula de marketing de percepção que se ajusta completamente a uma agenda onde a prioridade é lucrar com suas decisões, nunca quem vai sofrer com elas - eu diria até, que é a ficção mais real dos últimos tempos, com um tempero agridoce do saudoso Monty Python. São tantas (e tantas) críticas fantasiadas de "exagero" que fica difícil tirar o sorriso amarelo do rosto ou a lembrança de uma realidade recente que gostaríamos que fosse apenas um filme da Netflix.

Vale muito seu play!

Assista Agora

"Não olhe para cima" não é, e talvez nunca será, um filme unânime, longe disso; já que o conceito narrativo foi construído de uma forma muito inteligente (e peculiar) a partir de uma sátira que obviamente extrapola no tom, mas esconde em um roteiro irônico (e acreditem, sutil) as nuances de viver em uma época onde "ser" e "estar" se confundem a cada clique (ou arraste para o lado) perante a mediocridade e o egoísmo do ser-humano.

A premissa é simples, mas nada simplista: dois astrônomos renomados, porém pouco conhecidos das organizações governamentais dos EUA, Dr. Randall Mindy (Leonardo DiCaprio) e Kate Dibiasky (Jennifer Lawrence), tentam alertar a humanidade sobre a aproximação de um cometa que acabaram de descobrir e que está prestes a destruir a Terra. Obviamente que eles são desacreditados pela presidente americana, mesmo com todas as evidências comprovadas cientificamente, então ambos resolvem fazer uma espécie de  tour midiática para tentar mobilizar o maior número de pessoas e assim provocar o governo a encontrar uma solução antes que seja tarde. Confira o trailer:

Costumo dizer que você é as referências que você têm, e "Não olhe para cima" constrói uma trama que eleva essa afirmação para outro patamar - algumas sacadas são muito engraçadas, mas podem passar despercebidas por várias pessoas se não estiverem atentas. Muito bem dirigido e roteirizado pelo Adam Mckay (o cara por trás de "Succession", "A Grande Aposta", "Vice", entre outros inúmeros sucessos), o filme usa da semiótica para posicionar a audiência em um universo tão absurdo quanto real. Se dentro da trama os personagens mantém um tom naturalista de interpretação, a cada palavra pronunciada, suas mensagens chegam carregadas de ironias - e a conexão com esse tipo de texto só fará sentido se o mesmo for bem interpretado, entendido e digerido; caso contrário será o "absurdo!" que se sobressairá.

Tecnicamente o filme vai muito bem - as inserções gráficas, a câmera nervosa e a edição moderna, marca registrada de Mckay, criam uma dinâmica impressionante - conectados (vale sempre lembrar), nem vemos os mais de 120 minutos passar. Tanto DiCaprio quanto Lawrence brilham, mas impossível não destacar o trabalho de Meryl Streep como a negacionista e completamente fora da realidade, Presidente Orlean, e do seu filho, ou melhor, "assessor", Jason Orlean (Jonah Hill) - os textos de ambos são tão constrangedores que não por acaso lembraremos de Roman Roy.

Em "Não olhe para cima" não existe o menor espaço para um diálogo inteligente, um pensamento crítico ou discussões aprofundadas sobre algo que está cientificamente comprovado - fica tudo para quem assiste (e juro que estou falando apenas do filme e não do Brasil em época de pandemia). Acaba sendo uma aula de marketing de percepção que se ajusta completamente a uma agenda onde a prioridade é lucrar com suas decisões, nunca quem vai sofrer com elas - eu diria até, que é a ficção mais real dos últimos tempos, com um tempero agridoce do saudoso Monty Python. São tantas (e tantas) críticas fantasiadas de "exagero" que fica difícil tirar o sorriso amarelo do rosto ou a lembrança de uma realidade recente que gostaríamos que fosse apenas um filme da Netflix.

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Ninguém Quer

Uma série divertida, inteligente, gostosa de assistir! "Ninguém Quer" poderia facilmente cair nos clichês clássicos da comédia romântica moderna, mas evita atalhos ao construir uma jornada deliciosa onde dois protagonistas, com visões de mundo radicalmente diferentes, fazem o básico para que qualquer relação dê certo: conversam sobre seus sentimentos sem medo de expor suas inseguranças, e conforme vão se conhecendo, vão se apaixonando ainda mais - consequentemente, a audiência também! "Nobody Wants This" (no original), criada por Erin Foster para a Netflix, é sim uma comédia romântica, mas que sabe fazer do drama um gatilho para suas intervenções mais sarcásticas e com isso navegar pelas complexidades dos relacionamentos com uma abordagem mais espirituosa e provocadora, sem nunca pesar na mão.

A trama segue o encontro inesperado entre Noah Roklov (Adam Brody) e Joanne (Kristen Bell), que rapidamente se transforma em um relacionamento tão cheio de desafios quanto de descobertas. Noah é um rabino progressista que tenta conciliar sua vida espiritual com as demandas da comunidade que lidera, enquanto Joanne é uma personalidade extravagante cuja visão cínica sobre o amor e a religião colide constantemente com as crenças de Noah. A dinâmica entre eles, embora improvável, gera momentos cômicos de um lado e profundamente tocantes do outro, e a medida que ambos enfrentam seus próprios preconceitos e fantasmas do passado, tudo ganha ainda mais graça. Confira o trailer:

Ao apresentar uma inusitada conexão entre um rabino, líder espiritual introspectivo e idealista, e uma mulher irreverente, barulhenta e agnóstica, conhecida por um podcast de sucesso que fala abertamente sobre sexo e relacionamentos, a série nem precisa se esforçar para se beneficiar de uma combinação certeira de humor ácido, diálogos afiados e reflexões sobre fé, amor e identidade. Erin Foster, de fato, cria um roteiro que equilibra habilmente esse tipo de humor com uma certa reflexão sem ser maçante. Os diálogos são rápidos e repletos de sarcasmo, mas também há espaço para momentos mais suaves com um toque emocional que nos atingem sem dó - repare como os personagens analisam suas escolhas e questionam o que realmente desejam na vida, da mesma forma como em algum momento já fizemos algo parecido. 

Kristen Bell brilha como Joanne, trazendo uma energia vibrante e caótica que contrasta perfeitamente com o personagem meticuloso e ponderado de Adam Brody. Bell entrega uma performance que mistura irreverência com uma vulnerabilidade surpreendente, revelando as camadas emocionais por trás de uma fachada auto-suficiente. Brody, por sua vez, captura a complexidade de Noah, equilibrando seu idealismo e respeito pelas tradições familiares com dúvidas e inseguranças que tornam o personagem profundamente humano. E a química entre os dois, olha, é surpreendente - essa relação cheia de atrito e humor é o coração pulsante da série. Ah, Justine Lupe, a Morgan, irmã de Joanne, também brilha - ela é um ótimo contraponto para as dúvidas e surtos da irmã, eu diria até que ela é aquele tipo de conselheira que fala as verdades necessárias mesmo quando a gente não quer ouvir. Sabe?

"Ninguém Quer" enfatiza a intimidade e as nuances de um relacionamento que reflete mundos opostos de forma leve. Obviamente que aquele retrato é muito mais idealizado do que a vida como ela é, no entanto esse tom talvez seja a razão que vai fazer com que aqueles fãs de um bom romance não desgrudem da tela ou percam aquele sorrisinho no rosto. Importante, com o fim da primeira temporada daria pra encerrar a história e todo mundo ficaria feliz, mas, considerando o seu sucesso em poucos dias após a estreia, a Netflix já encomendou mais histórias de Joanne e Noah, só espero que a qualidade não diminua!

Vale muito o seu play!

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Uma série divertida, inteligente, gostosa de assistir! "Ninguém Quer" poderia facilmente cair nos clichês clássicos da comédia romântica moderna, mas evita atalhos ao construir uma jornada deliciosa onde dois protagonistas, com visões de mundo radicalmente diferentes, fazem o básico para que qualquer relação dê certo: conversam sobre seus sentimentos sem medo de expor suas inseguranças, e conforme vão se conhecendo, vão se apaixonando ainda mais - consequentemente, a audiência também! "Nobody Wants This" (no original), criada por Erin Foster para a Netflix, é sim uma comédia romântica, mas que sabe fazer do drama um gatilho para suas intervenções mais sarcásticas e com isso navegar pelas complexidades dos relacionamentos com uma abordagem mais espirituosa e provocadora, sem nunca pesar na mão.

A trama segue o encontro inesperado entre Noah Roklov (Adam Brody) e Joanne (Kristen Bell), que rapidamente se transforma em um relacionamento tão cheio de desafios quanto de descobertas. Noah é um rabino progressista que tenta conciliar sua vida espiritual com as demandas da comunidade que lidera, enquanto Joanne é uma personalidade extravagante cuja visão cínica sobre o amor e a religião colide constantemente com as crenças de Noah. A dinâmica entre eles, embora improvável, gera momentos cômicos de um lado e profundamente tocantes do outro, e a medida que ambos enfrentam seus próprios preconceitos e fantasmas do passado, tudo ganha ainda mais graça. Confira o trailer:

Ao apresentar uma inusitada conexão entre um rabino, líder espiritual introspectivo e idealista, e uma mulher irreverente, barulhenta e agnóstica, conhecida por um podcast de sucesso que fala abertamente sobre sexo e relacionamentos, a série nem precisa se esforçar para se beneficiar de uma combinação certeira de humor ácido, diálogos afiados e reflexões sobre fé, amor e identidade. Erin Foster, de fato, cria um roteiro que equilibra habilmente esse tipo de humor com uma certa reflexão sem ser maçante. Os diálogos são rápidos e repletos de sarcasmo, mas também há espaço para momentos mais suaves com um toque emocional que nos atingem sem dó - repare como os personagens analisam suas escolhas e questionam o que realmente desejam na vida, da mesma forma como em algum momento já fizemos algo parecido. 

Kristen Bell brilha como Joanne, trazendo uma energia vibrante e caótica que contrasta perfeitamente com o personagem meticuloso e ponderado de Adam Brody. Bell entrega uma performance que mistura irreverência com uma vulnerabilidade surpreendente, revelando as camadas emocionais por trás de uma fachada auto-suficiente. Brody, por sua vez, captura a complexidade de Noah, equilibrando seu idealismo e respeito pelas tradições familiares com dúvidas e inseguranças que tornam o personagem profundamente humano. E a química entre os dois, olha, é surpreendente - essa relação cheia de atrito e humor é o coração pulsante da série. Ah, Justine Lupe, a Morgan, irmã de Joanne, também brilha - ela é um ótimo contraponto para as dúvidas e surtos da irmã, eu diria até que ela é aquele tipo de conselheira que fala as verdades necessárias mesmo quando a gente não quer ouvir. Sabe?

"Ninguém Quer" enfatiza a intimidade e as nuances de um relacionamento que reflete mundos opostos de forma leve. Obviamente que aquele retrato é muito mais idealizado do que a vida como ela é, no entanto esse tom talvez seja a razão que vai fazer com que aqueles fãs de um bom romance não desgrudem da tela ou percam aquele sorrisinho no rosto. Importante, com o fim da primeira temporada daria pra encerrar a história e todo mundo ficaria feliz, mas, considerando o seu sucesso em poucos dias após a estreia, a Netflix já encomendou mais histórias de Joanne e Noah, só espero que a qualidade não diminua!

Vale muito o seu play!

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No Ritmo do Coração

"CODA", que no Brasil ganhou o sugestivo título "No Ritmo do Coração", é uma graça - uma mistura de "Nasce uma Estrela" com "Juno" ou "Lady Bird". O fato é que o filme da diretora Sian Heder é uma delicia de assistir, equilibrando perfeitamente o drama da protagonista com todo aquele universo que ela está inserida - o que me deixa muito tranquilo em afirmar que "CODA" é mesmo um filme sobre "empatia"!

Nele acompanhamos a história de Ruby (Emilia Jones), uma jovem que mora com sua família em uma cidade pesqueira no norte dos Estados Unidos. Todas as manhãs, antes de ir para a escola, ela embarca com seu pai Frank (Troy Kotsur) e seu irmão Leo (Daniel Durant) para ajudá-los na pescaria do dia - o que já seria uma grande responsabilidade não fosse um agravante - ela é a única pessoa da família que não é surda. Dividida entre sua paixão, a música, e a necessidade de ajudar sua família a se comunicar com o mundo, Ruby precisa decidir quais os caminhos deve seguir assim que acabar o seu último ano do Ensino Médio. Confira o trailer:

CODA significa "children of deaf adults" ou "filha de adultos surdos" em uma tradução livre - é esse "detalhe" que transforma a premissa simples daquela clássica trama de amadurecimento, protagonizada por uma adolescente que se vê dividida entre as obrigações familiares e a vontade de seguir seus próprios sonhos, em um um filme único e muito sensível.

Também roteirizado por Sian Heder (que se baseou no filme francês "A Família Bélier", de 2014), "No Ritmo do Coração" usa de uma narrativa bastante leve para discutir a importância da inclusão e a relação que os surdos tem com o mundo - e aqui cabe um comentário: a dinâmica familiar entre Ruby, seu pai Frank, seu irmão Leo e sua mãe Jackie (Marlee Matlin) é muito divertida, o que nos ajuda a criar uma conexão imediata com todos e a entender os limites e dificuldades de se comunicar quando o outro, muitas vezes, não está disposto a lidar com as diferenças.

Embora o filme não tenha nenhuma inovação narrativa ou visual tão impactante, mesmo se apropriando do silêncio e das legendas para facilitar o entendimento quando a linguagem de sinais é a única ferramenta de comunicação, a cena em que Ruby se apresenta no coral da escola é simplesmente fantástica - é nela que temos a exata sensação do problema que o filme se propõe a discutir! O elenco é um show à parte: Emilia Jones, mostra todo o seu carisma e talento ao criar uma adolescente apaixonante, mas que sobe de patamar ao assumir toda a potência vocal que personagem pede - eu diria que é nível indicação para o Oscar de "Melhor Atriz". Já Kotsur, Matlin e Durant, todos surdos na vida real, entregam atuações cheias de detalhes e simpatia - e mesmo em cenas que exigem mais do drama, funcionam cirurgicamente como alívios cômicos com todo respeito que lhes são de direito, mostrando assim várias camadas de seus personagem. Te desafio a não se emocionar com eles - Kotsur ou (e) Matlin mereceriam uma indicação de ator/atriz coadjuvante tranquilamente.

"CODA - No Ritmo do Coração" é um filme levemente açucarado e previsível - feito para nos fazer rir e chorar, além de aquecer nossa alma e nosso coração, e tudo bem, porque falo isso sem demérito algum, já que traz uma honestidade para sua trama que o coloca naquela prateleira de um dos melhores filmes do ano de 2021.

Vale muito a pena! 

Up-date: "CODA - No Ritmo do Coração" ganhou em três categorias no Oscar 2022: Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Filme!

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"CODA", que no Brasil ganhou o sugestivo título "No Ritmo do Coração", é uma graça - uma mistura de "Nasce uma Estrela" com "Juno" ou "Lady Bird". O fato é que o filme da diretora Sian Heder é uma delicia de assistir, equilibrando perfeitamente o drama da protagonista com todo aquele universo que ela está inserida - o que me deixa muito tranquilo em afirmar que "CODA" é mesmo um filme sobre "empatia"!

Nele acompanhamos a história de Ruby (Emilia Jones), uma jovem que mora com sua família em uma cidade pesqueira no norte dos Estados Unidos. Todas as manhãs, antes de ir para a escola, ela embarca com seu pai Frank (Troy Kotsur) e seu irmão Leo (Daniel Durant) para ajudá-los na pescaria do dia - o que já seria uma grande responsabilidade não fosse um agravante - ela é a única pessoa da família que não é surda. Dividida entre sua paixão, a música, e a necessidade de ajudar sua família a se comunicar com o mundo, Ruby precisa decidir quais os caminhos deve seguir assim que acabar o seu último ano do Ensino Médio. Confira o trailer:

CODA significa "children of deaf adults" ou "filha de adultos surdos" em uma tradução livre - é esse "detalhe" que transforma a premissa simples daquela clássica trama de amadurecimento, protagonizada por uma adolescente que se vê dividida entre as obrigações familiares e a vontade de seguir seus próprios sonhos, em um um filme único e muito sensível.

Também roteirizado por Sian Heder (que se baseou no filme francês "A Família Bélier", de 2014), "No Ritmo do Coração" usa de uma narrativa bastante leve para discutir a importância da inclusão e a relação que os surdos tem com o mundo - e aqui cabe um comentário: a dinâmica familiar entre Ruby, seu pai Frank, seu irmão Leo e sua mãe Jackie (Marlee Matlin) é muito divertida, o que nos ajuda a criar uma conexão imediata com todos e a entender os limites e dificuldades de se comunicar quando o outro, muitas vezes, não está disposto a lidar com as diferenças.

Embora o filme não tenha nenhuma inovação narrativa ou visual tão impactante, mesmo se apropriando do silêncio e das legendas para facilitar o entendimento quando a linguagem de sinais é a única ferramenta de comunicação, a cena em que Ruby se apresenta no coral da escola é simplesmente fantástica - é nela que temos a exata sensação do problema que o filme se propõe a discutir! O elenco é um show à parte: Emilia Jones, mostra todo o seu carisma e talento ao criar uma adolescente apaixonante, mas que sobe de patamar ao assumir toda a potência vocal que personagem pede - eu diria que é nível indicação para o Oscar de "Melhor Atriz". Já Kotsur, Matlin e Durant, todos surdos na vida real, entregam atuações cheias de detalhes e simpatia - e mesmo em cenas que exigem mais do drama, funcionam cirurgicamente como alívios cômicos com todo respeito que lhes são de direito, mostrando assim várias camadas de seus personagem. Te desafio a não se emocionar com eles - Kotsur ou (e) Matlin mereceriam uma indicação de ator/atriz coadjuvante tranquilamente.

"CODA - No Ritmo do Coração" é um filme levemente açucarado e previsível - feito para nos fazer rir e chorar, além de aquecer nossa alma e nosso coração, e tudo bem, porque falo isso sem demérito algum, já que traz uma honestidade para sua trama que o coloca naquela prateleira de um dos melhores filmes do ano de 2021.

Vale muito a pena! 

Up-date: "CODA - No Ritmo do Coração" ganhou em três categorias no Oscar 2022: Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Filme!

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Normandia Nua

"Normandia Nua" é daqueles filmes leves e divertidos com um leve toque de crítica social - nada que torne a narrativa reflexiva demais, mas que dá o seu recado. Essa produção francesa de 2018 dirigida pelo veterano e talentoso Philippe Le Guay (de "As Mulheres do Sexto Andar") traz um cinema francês diferente, com um tom mais próximo das dramédias argentinas como "Minha Obra-Prima" ou "O Cidadão Ilustre", ou seja, se você sabe do que eu estou falando, já deu para perceber que esse "play" vale a pena, né?

O filme acompanha Georges Balbuzard (François Cluzet), o prefeito da pequena cidade de Mêle sur Sarthe, na Normandia, onde os agricultores vêm sofrendo cada vez mais por conta de uma grave crise econômica. Quando o fotógrafo Blake Newman (Toby Jones), conhecido por deixar multidões nuas em suas obras, está passando pela região, Balbuzard enxerga nisso uma oportunidade perfeita para chamar atenção da grande mídia e salvar seu povo. Só falta convencer os cidadãos, digamos tradicionais, a tirarem a roupa. Confira o trailer:

Como já possível imaginar, "Normandia Nua" não se encaixa naquela prateleira de filmes profundos, com roteiros bem estruturados e mensagens impactantes - e isso tem o seu lado bom, e outro nem tanto. O fato de existir diversas narrativas correndo em paralelo faz com que muito do arco principal, a aceitação de ter um americano querendo deixar uma cidade inteira sem roupa, perca um pouco sua força - o que é um pecado, pois esse choque cultural poderia ter sido melhor aproveitado: vimos isso na série "Famoso na França", por exemplo. Por outro lado, toda a discussão sócio-político-econômica que pontua temas como o esvaziamento dos campos, a desestruturação da agricultura familiar e a destruição dos produtores nacionais em detrimento da concorrência estrangeira, é cirurgicamente inserida de maneira inteligente e sem pesar na mão - em nenhum momento somos mais impactados do que deveríamos sobre o assunto.

As outras tramas paralelas ajudam a compor a dinâmica da cidade pequena, portanto, propositalmente, elas são mais superficiais, mesmo que reflita no cotidiano daquele universo: temos o publicitário que se muda com a família de Paris para o vilarejo e mente insistentemente para si mesmo que agora é um homem feliz e realizado, o rapaz que retorna da capital para vender a antiga loja de fotografias herdada do pai e se apaixona por uma amiga da sua ex-namorada, temos também a história de um homem falido que se culpa por não ter mais os documentos de uma área que sempre foi a paixão da sua família e até a do açougueiro que casou com uma ex-miss da cidade e morre de ciúmes dela, ainda mais agora com a possibilidade de toda cidade ve-la "pelada".

"Normandia Nua" tem François Cluzet (uma espécie de Darin da França) mais uma vez dando um show, mas também tem um Toby Jones tão tímido quanto excêntrico em uma clara homenagem ao fotógrafo Spencer Tunick, conhecido como o “fotógrafo das multidões nuas”. Sem pretensão alguma de ser um filme inesquecível, "Normandie nue" (no original) é a escolha perfeita para um dia onde você só quer relaxar, assistir uma história agradável e ainda dar algumas boas risadas.

Vale a pena!

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"Normandia Nua" é daqueles filmes leves e divertidos com um leve toque de crítica social - nada que torne a narrativa reflexiva demais, mas que dá o seu recado. Essa produção francesa de 2018 dirigida pelo veterano e talentoso Philippe Le Guay (de "As Mulheres do Sexto Andar") traz um cinema francês diferente, com um tom mais próximo das dramédias argentinas como "Minha Obra-Prima" ou "O Cidadão Ilustre", ou seja, se você sabe do que eu estou falando, já deu para perceber que esse "play" vale a pena, né?

O filme acompanha Georges Balbuzard (François Cluzet), o prefeito da pequena cidade de Mêle sur Sarthe, na Normandia, onde os agricultores vêm sofrendo cada vez mais por conta de uma grave crise econômica. Quando o fotógrafo Blake Newman (Toby Jones), conhecido por deixar multidões nuas em suas obras, está passando pela região, Balbuzard enxerga nisso uma oportunidade perfeita para chamar atenção da grande mídia e salvar seu povo. Só falta convencer os cidadãos, digamos tradicionais, a tirarem a roupa. Confira o trailer:

Como já possível imaginar, "Normandia Nua" não se encaixa naquela prateleira de filmes profundos, com roteiros bem estruturados e mensagens impactantes - e isso tem o seu lado bom, e outro nem tanto. O fato de existir diversas narrativas correndo em paralelo faz com que muito do arco principal, a aceitação de ter um americano querendo deixar uma cidade inteira sem roupa, perca um pouco sua força - o que é um pecado, pois esse choque cultural poderia ter sido melhor aproveitado: vimos isso na série "Famoso na França", por exemplo. Por outro lado, toda a discussão sócio-político-econômica que pontua temas como o esvaziamento dos campos, a desestruturação da agricultura familiar e a destruição dos produtores nacionais em detrimento da concorrência estrangeira, é cirurgicamente inserida de maneira inteligente e sem pesar na mão - em nenhum momento somos mais impactados do que deveríamos sobre o assunto.

As outras tramas paralelas ajudam a compor a dinâmica da cidade pequena, portanto, propositalmente, elas são mais superficiais, mesmo que reflita no cotidiano daquele universo: temos o publicitário que se muda com a família de Paris para o vilarejo e mente insistentemente para si mesmo que agora é um homem feliz e realizado, o rapaz que retorna da capital para vender a antiga loja de fotografias herdada do pai e se apaixona por uma amiga da sua ex-namorada, temos também a história de um homem falido que se culpa por não ter mais os documentos de uma área que sempre foi a paixão da sua família e até a do açougueiro que casou com uma ex-miss da cidade e morre de ciúmes dela, ainda mais agora com a possibilidade de toda cidade ve-la "pelada".

"Normandia Nua" tem François Cluzet (uma espécie de Darin da França) mais uma vez dando um show, mas também tem um Toby Jones tão tímido quanto excêntrico em uma clara homenagem ao fotógrafo Spencer Tunick, conhecido como o “fotógrafo das multidões nuas”. Sem pretensão alguma de ser um filme inesquecível, "Normandie nue" (no original) é a escolha perfeita para um dia onde você só quer relaxar, assistir uma história agradável e ainda dar algumas boas risadas.

Vale a pena!

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Notas de Rebeldia

Notas de Rebeldia

A melhor forma de definir "Notas de Rebeldia" está justamente na relação do contraste cultural e na dualidade narrativa de outras duas séries que transitam pelo mesmo universo: "O Urso" e "Gotas Divinas". Se no primeiro existe um elemento mais underground do restaurante de bairro com uma forte conexão afetiva, aqui representada pelo brisket, pelas ribs e pelo pulled pork; o segundo naturalmente se apoia na tradição e na elegância do vinho, dos seus vinhedos e, pela perspectiva do desafio, da sua química - seja pelo aroma ou pelo sabor de um Chardonnay, de um Pinot Noir e até de um Merlot. Se você sabe exatamente do que eu estou falando, pode dar o play tranquilamente que sua diversão está garantida pelas próximas duas horas.

O filme do diretor Prentice Penny (indicado ao Emmy por "Insecure") acompanha a história de Elijah (Mamoudou Athie), um jovem afro-americano que vive entre o sonho de se tornar um grande sommelier e a obrigação de acompanhar o pai, Louis (Courtney B. Vance), na batalha diária que é manter uma churrascaria tradicional de Memphis e ainda se preparar para assumir o negócio da família quando chegar o momento. Confira o trailer:

O roteiro de "Uncorked" (no original), embora não seja um primor técnico, é muito inteligente e consistente ao abordar temas universais de aspirações pessoais, de tradições familiares e de autodescoberta, mas sem pender para nenhum dos lados da história afim de induzir a audiência. Naturalmente que a cisão cultural pela qual o protagonista precisa lidar não tem a profundidade e o número de camadas que encontramos em "O Urso", no entanto, o processo de transformação soa bastante honesto e nos cativa desde o primeiro ato. Os diálogos são bons, existem boas sacadas - o jogo de palavras que a família de Elijah faz quando ele diz que quer ser sommelier, é impagável. Minha única crítica, é que em certos momentos, o ritmo me parece diminuir demais e algumas subtramas poderiam ter sido melhor desenvolvidas para adicionar um pouco mais de profundidade - mas ok, essa é a proposta e o resultado final é muito bom.

A direção de Penny, também é muito boa - ele tem uma enorme capacidade de trabalhar com atores (vimos isso em "Insecure") e aqui não é diferente. Existe uma certa sensibilidade para focar na jornada emocional do protagonista sem parecer força a barra. Penny consegue criar uma atmosfera íntima, permitindo que a audiência mergulhe na vida de Elijah e nas questões que ele enfrenta ao tentar equilibrar as expectativas do pai e seus próprios sonhos. Embora em alguns momentos a direção possa parecer um tanto convencional, e de fato é, a abordagem mais sensível contribui demais para a autenticidade do filme e para a performance de Mamoudou Athie (esse ator é muito carismático, olho nele).

Capturando tanto a vibração da cidade de Memphis quanto a atmosfera clássica de Paris e dos vinhedos franceses, eu diria que "Notas de Rebeldia" é um filme que oferece uma jornada saborosa pela cultura gastronômica pelo viés da enologia. Enquanto humaniza a jornada conflitante entre tradição e ambição, o roteiro habilmente mistura o drama com leves toques de humor,  proporcionando um ótimo e despretensioso entretenimento que certamente vai mexer com seu paladar.

Vale muito o play!

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A melhor forma de definir "Notas de Rebeldia" está justamente na relação do contraste cultural e na dualidade narrativa de outras duas séries que transitam pelo mesmo universo: "O Urso" e "Gotas Divinas". Se no primeiro existe um elemento mais underground do restaurante de bairro com uma forte conexão afetiva, aqui representada pelo brisket, pelas ribs e pelo pulled pork; o segundo naturalmente se apoia na tradição e na elegância do vinho, dos seus vinhedos e, pela perspectiva do desafio, da sua química - seja pelo aroma ou pelo sabor de um Chardonnay, de um Pinot Noir e até de um Merlot. Se você sabe exatamente do que eu estou falando, pode dar o play tranquilamente que sua diversão está garantida pelas próximas duas horas.

O filme do diretor Prentice Penny (indicado ao Emmy por "Insecure") acompanha a história de Elijah (Mamoudou Athie), um jovem afro-americano que vive entre o sonho de se tornar um grande sommelier e a obrigação de acompanhar o pai, Louis (Courtney B. Vance), na batalha diária que é manter uma churrascaria tradicional de Memphis e ainda se preparar para assumir o negócio da família quando chegar o momento. Confira o trailer:

O roteiro de "Uncorked" (no original), embora não seja um primor técnico, é muito inteligente e consistente ao abordar temas universais de aspirações pessoais, de tradições familiares e de autodescoberta, mas sem pender para nenhum dos lados da história afim de induzir a audiência. Naturalmente que a cisão cultural pela qual o protagonista precisa lidar não tem a profundidade e o número de camadas que encontramos em "O Urso", no entanto, o processo de transformação soa bastante honesto e nos cativa desde o primeiro ato. Os diálogos são bons, existem boas sacadas - o jogo de palavras que a família de Elijah faz quando ele diz que quer ser sommelier, é impagável. Minha única crítica, é que em certos momentos, o ritmo me parece diminuir demais e algumas subtramas poderiam ter sido melhor desenvolvidas para adicionar um pouco mais de profundidade - mas ok, essa é a proposta e o resultado final é muito bom.

A direção de Penny, também é muito boa - ele tem uma enorme capacidade de trabalhar com atores (vimos isso em "Insecure") e aqui não é diferente. Existe uma certa sensibilidade para focar na jornada emocional do protagonista sem parecer força a barra. Penny consegue criar uma atmosfera íntima, permitindo que a audiência mergulhe na vida de Elijah e nas questões que ele enfrenta ao tentar equilibrar as expectativas do pai e seus próprios sonhos. Embora em alguns momentos a direção possa parecer um tanto convencional, e de fato é, a abordagem mais sensível contribui demais para a autenticidade do filme e para a performance de Mamoudou Athie (esse ator é muito carismático, olho nele).

Capturando tanto a vibração da cidade de Memphis quanto a atmosfera clássica de Paris e dos vinhedos franceses, eu diria que "Notas de Rebeldia" é um filme que oferece uma jornada saborosa pela cultura gastronômica pelo viés da enologia. Enquanto humaniza a jornada conflitante entre tradição e ambição, o roteiro habilmente mistura o drama com leves toques de humor,  proporcionando um ótimo e despretensioso entretenimento que certamente vai mexer com seu paladar.

Vale muito o play!

Assista Agora

Nuevo Orden

Se você gostou de "Parasita" e de "Expresso do Amanhã" você certamente vai gostar de "Nuevo Orden" - é possível dizer, inclusive, que se "Parasita" tivesse uma continuação, essa produção mexicana se encaixaria tranquilamente na temática e na forma como Bong Joon Ho trouxe para discussão a desigualdade social e os relacionamentos imersos nesse contexto, porém aqui com um certo toque distópico em uma atmosfera político-social como em "Expresso do Amanhã".

Na trama, a desigualdade econômica e social, a luta de classes e a corrupção no México detonam uma revolução caótica, amoral e sem ética. Por trás desta "Nova Ordem" implementada por políticos e militares, até as emoções que motivaram a rebelião serão completamente censuradas. Confira o trailer (em espanhol):

A filmografia do cineasta Michel Franco (do excelente "Depois de Lucia") nos remete ao provocativo explícito, porém com um toque de semiótica que só aprofunda sua interpretação da realidade. Em "Nuevo Orden", Franco pontua didaticamente diferenças de posição e tratamento conforme as etnias dos personagens - os ricos são brancos (resquício da dominação europeia configurada como uma das tragédias históricas da América Latina), enquanto os pobres apresentam os traços do povo local, daqueles que viviam no território mexicano antes que ele fosse dominado por seus invasores. Dentro da imponente propriedade, o casamento de Marianne (Naian González Norvind) e Alan (Dario Yazbek Bernal) retrata essa diferença, ele é repleto de pompa e circunstância, enquanto do lado de fora, uma convulsão social acontece - porém aquela fortaleza parece intransponível, a realidade ali é outra, os convidados são inatingíveis, mas até quando?

Após um passeio por imagens fortes (realmente impactantes plasticamente) e créditos de apresentação belíssimos em sua simbologia (interprete como quiser, vale o exercício), a presença de uma tinta verde escorrendo pelas torneiras daquela mansão sinaliza que algo muito errado está prestes a acontecer (e aqui o seu ponto de vista vai te guiar por toda a experiência do filme até, propositalmente, te dar uma rasteira ideológica). Michel Franco é fantástico ao criar essa atmosfera de tensão, fantasiada de ostentação em um ambiente onde a alegria é quase utópica e o carinho é conseguido através do tamanho de um cheque - reparem em como os convidados presenteiam os noivos e como a família lida com esse "presente". Existe uma inquietude na condução da câmera ao longo desse cenário, enquanto o ambiente dos empregados parece mais controlado, até que esse conceito narrativo se transforma no segundo ato quando a "Nova Ordem" se aproveita do caos para se posicionar perante uma nova visão de "igualdade" brutal e violenta - esse trabalho de subversão do diretor de fotografia belga Yves Cape (de "Era uma segunda vez") é magistral.

O interessante do filme, porém, é justamente o que fez alguns críticos torcerem o nariz para a obra. Franco, ao contar essa história, não tem como objetivo principal levantar bandeiras politicas polarizadas determinando quem é o mocinho e quem é o bandido. Sim, ele tem o prazer em criticar os lados, mas em momento algum se sente confortável em defender seus personagens pelo viés sócio-antropológico já que entende que o mundo de hoje teve suas regras estabelecidas pela própria sociedade e quando essas mesmas regras são quebradas (mesmo que para alguns com base em boas intenções), elas não se sustentam e quem vence no final é justamente quem esteve do outro lado sempre, mas que soube manipular uma situação a seu favor - sim, você já viu isso na ficção e no seu país!

Complicado? Na teoria sim, mas o roteiro do próprio Franco se incumbe de colocar as peças no tabuleiro e conforme vão sendo movimentadas, essa ideia vai se construindo e nossa posição vai sendo, no mínimo, questionada. "Nuevo Orden" soa entretenimento, mas tem muito mais camadas se você estiver disposto a explorá-las e discuti-las assim que os créditos (espelhados, ops) subirem!

Vale muito o seu play! 

Assista Agora

Se você gostou de "Parasita" e de "Expresso do Amanhã" você certamente vai gostar de "Nuevo Orden" - é possível dizer, inclusive, que se "Parasita" tivesse uma continuação, essa produção mexicana se encaixaria tranquilamente na temática e na forma como Bong Joon Ho trouxe para discussão a desigualdade social e os relacionamentos imersos nesse contexto, porém aqui com um certo toque distópico em uma atmosfera político-social como em "Expresso do Amanhã".

Na trama, a desigualdade econômica e social, a luta de classes e a corrupção no México detonam uma revolução caótica, amoral e sem ética. Por trás desta "Nova Ordem" implementada por políticos e militares, até as emoções que motivaram a rebelião serão completamente censuradas. Confira o trailer (em espanhol):

A filmografia do cineasta Michel Franco (do excelente "Depois de Lucia") nos remete ao provocativo explícito, porém com um toque de semiótica que só aprofunda sua interpretação da realidade. Em "Nuevo Orden", Franco pontua didaticamente diferenças de posição e tratamento conforme as etnias dos personagens - os ricos são brancos (resquício da dominação europeia configurada como uma das tragédias históricas da América Latina), enquanto os pobres apresentam os traços do povo local, daqueles que viviam no território mexicano antes que ele fosse dominado por seus invasores. Dentro da imponente propriedade, o casamento de Marianne (Naian González Norvind) e Alan (Dario Yazbek Bernal) retrata essa diferença, ele é repleto de pompa e circunstância, enquanto do lado de fora, uma convulsão social acontece - porém aquela fortaleza parece intransponível, a realidade ali é outra, os convidados são inatingíveis, mas até quando?

Após um passeio por imagens fortes (realmente impactantes plasticamente) e créditos de apresentação belíssimos em sua simbologia (interprete como quiser, vale o exercício), a presença de uma tinta verde escorrendo pelas torneiras daquela mansão sinaliza que algo muito errado está prestes a acontecer (e aqui o seu ponto de vista vai te guiar por toda a experiência do filme até, propositalmente, te dar uma rasteira ideológica). Michel Franco é fantástico ao criar essa atmosfera de tensão, fantasiada de ostentação em um ambiente onde a alegria é quase utópica e o carinho é conseguido através do tamanho de um cheque - reparem em como os convidados presenteiam os noivos e como a família lida com esse "presente". Existe uma inquietude na condução da câmera ao longo desse cenário, enquanto o ambiente dos empregados parece mais controlado, até que esse conceito narrativo se transforma no segundo ato quando a "Nova Ordem" se aproveita do caos para se posicionar perante uma nova visão de "igualdade" brutal e violenta - esse trabalho de subversão do diretor de fotografia belga Yves Cape (de "Era uma segunda vez") é magistral.

O interessante do filme, porém, é justamente o que fez alguns críticos torcerem o nariz para a obra. Franco, ao contar essa história, não tem como objetivo principal levantar bandeiras politicas polarizadas determinando quem é o mocinho e quem é o bandido. Sim, ele tem o prazer em criticar os lados, mas em momento algum se sente confortável em defender seus personagens pelo viés sócio-antropológico já que entende que o mundo de hoje teve suas regras estabelecidas pela própria sociedade e quando essas mesmas regras são quebradas (mesmo que para alguns com base em boas intenções), elas não se sustentam e quem vence no final é justamente quem esteve do outro lado sempre, mas que soube manipular uma situação a seu favor - sim, você já viu isso na ficção e no seu país!

Complicado? Na teoria sim, mas o roteiro do próprio Franco se incumbe de colocar as peças no tabuleiro e conforme vão sendo movimentadas, essa ideia vai se construindo e nossa posição vai sendo, no mínimo, questionada. "Nuevo Orden" soa entretenimento, mas tem muito mais camadas se você estiver disposto a explorá-las e discuti-las assim que os créditos (espelhados, ops) subirem!

Vale muito o seu play! 

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O Cheiro do Ouro

Na linha de "Como Vender Drogas Online (Rápido)" e "Clark", para citar só dois exemplos de produções divertidas sobre "até onde a ganância pode nos levar", "O Cheiro do Ouro" chega com seu humor ácido, personagens cativantes e uma trama envolvente que te prende do início ao fim - eu diria que estamos diante de um ótimo entretenimento e só. Dirigido pelo estreante Jérémie Rozan e diferente das referências citadas, o filme não é baseado em uma história real, embora aborde com muita ironia questões relevantes sobre riqueza geracional e desigualdade social, especialmente em cidades pequenas onde o "sobrenome" vale mais do que tudo. A empresa fictícia Breuil & Sons é apresentada como um símbolo universalmente reconhecível de riqueza e poder, independentemente da sua origem ou das dificuldades que seu fundador passou (não é essa a pauta), justamente por isso que a relação entre "mocinho" e "bandido", "certo" ou "errado", movimenta a trama e inevitavelmente nos conecta com o personagem transgressor - ao ponto de torcermos pelo seu sucesso "custe o que custar". 

Daniel Sauveur (Raphaël Quenard) é um rapaz comum que trabalha em uma empresa de logística de perfumes de luxo, cercado por aromas inebriantes e preços exorbitantes. Cansado de sua vida medíocre e da exploração dos "Breuil", seus patrões, ele bola um plano audacioso: desviar perfumes caros para vender no mercado negro bem mais barato. Confira o trailer (em francês):

Mesmo fantasiada de um entretenimento despretensioso e divertido, "O Cheiro do Ouro" realmente constrói um universo bastante particular que nos remete muito ao estilo que Vince Gilligan adora imprimir em seus projetos: personagens cheios de camadas, diálogos afiados e aquela critica desconfortável sobre moralidade, narrado por quem tem os seus motivos para agir daquela forma. A direção de Rozan mostra que sabe bem disso e se apoia nessa premissa para, com uma tocada precisa e criativa, transformar uma história simples em algo dinâmico e apaixonante. Veja, ao levantar discussões sobre o papel dos negócios familiares em uma economia local sem outras oportunidades, o diretor mais uma vez brinca com a percepção (quase sempre fantasiosa) de que uma administração familiar só cria uma geração de “ricos preguiçosos” que dependem apenas da herança e de quem trabalha duro para eles para ganhar ainda mais dinheiro.

Dito isso, não espere uma trama que vai te arrancar gargalhadas, mas com certeza ela irá te fazer pensar sobre a razão daquilo tudo não ser uma série que justificaria explorar mais a fundo cada um daqueles personagens - seria incrível e com muito potencial. Ao nos convidar a refletir sobre temas como desigualdade social, ganância e o sonho de uma vida melhor, a jornada de Daniel nos leva a questionar os valores da sociedade moderna e como a busca por meios, digamos, "alternativos", nem parece tão ruim assim. Raphaël Quenard entrega uma performance interessante, imprimindo aquele carisma do jovem cheio de sonhos e disposto a tudo para ter uma vida mais digna - sim, o protagonista tem aquela sagacidade que adoramos acompanhar, mas sem esquecer do toque de melancolia de quem vive na linha tênue entre o sucesso e o fracasso. Essa ganância angustiante está lá e dita o ritmo da trama.

"O Cheiro do Ouro" é um filme que diverte pela sua simplicidade - nada soa rebuscado e é essa a proposta de Rozan que também escreveu o roteiro - sim, esse é mais um exemplo do "jeito Breaking Bad" de subverter os padrões morais da narrativa em pró do bom entretenimento. Funciona!

Vale o seu play!

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Na linha de "Como Vender Drogas Online (Rápido)" e "Clark", para citar só dois exemplos de produções divertidas sobre "até onde a ganância pode nos levar", "O Cheiro do Ouro" chega com seu humor ácido, personagens cativantes e uma trama envolvente que te prende do início ao fim - eu diria que estamos diante de um ótimo entretenimento e só. Dirigido pelo estreante Jérémie Rozan e diferente das referências citadas, o filme não é baseado em uma história real, embora aborde com muita ironia questões relevantes sobre riqueza geracional e desigualdade social, especialmente em cidades pequenas onde o "sobrenome" vale mais do que tudo. A empresa fictícia Breuil & Sons é apresentada como um símbolo universalmente reconhecível de riqueza e poder, independentemente da sua origem ou das dificuldades que seu fundador passou (não é essa a pauta), justamente por isso que a relação entre "mocinho" e "bandido", "certo" ou "errado", movimenta a trama e inevitavelmente nos conecta com o personagem transgressor - ao ponto de torcermos pelo seu sucesso "custe o que custar". 

Daniel Sauveur (Raphaël Quenard) é um rapaz comum que trabalha em uma empresa de logística de perfumes de luxo, cercado por aromas inebriantes e preços exorbitantes. Cansado de sua vida medíocre e da exploração dos "Breuil", seus patrões, ele bola um plano audacioso: desviar perfumes caros para vender no mercado negro bem mais barato. Confira o trailer (em francês):

Mesmo fantasiada de um entretenimento despretensioso e divertido, "O Cheiro do Ouro" realmente constrói um universo bastante particular que nos remete muito ao estilo que Vince Gilligan adora imprimir em seus projetos: personagens cheios de camadas, diálogos afiados e aquela critica desconfortável sobre moralidade, narrado por quem tem os seus motivos para agir daquela forma. A direção de Rozan mostra que sabe bem disso e se apoia nessa premissa para, com uma tocada precisa e criativa, transformar uma história simples em algo dinâmico e apaixonante. Veja, ao levantar discussões sobre o papel dos negócios familiares em uma economia local sem outras oportunidades, o diretor mais uma vez brinca com a percepção (quase sempre fantasiosa) de que uma administração familiar só cria uma geração de “ricos preguiçosos” que dependem apenas da herança e de quem trabalha duro para eles para ganhar ainda mais dinheiro.

Dito isso, não espere uma trama que vai te arrancar gargalhadas, mas com certeza ela irá te fazer pensar sobre a razão daquilo tudo não ser uma série que justificaria explorar mais a fundo cada um daqueles personagens - seria incrível e com muito potencial. Ao nos convidar a refletir sobre temas como desigualdade social, ganância e o sonho de uma vida melhor, a jornada de Daniel nos leva a questionar os valores da sociedade moderna e como a busca por meios, digamos, "alternativos", nem parece tão ruim assim. Raphaël Quenard entrega uma performance interessante, imprimindo aquele carisma do jovem cheio de sonhos e disposto a tudo para ter uma vida mais digna - sim, o protagonista tem aquela sagacidade que adoramos acompanhar, mas sem esquecer do toque de melancolia de quem vive na linha tênue entre o sucesso e o fracasso. Essa ganância angustiante está lá e dita o ritmo da trama.

"O Cheiro do Ouro" é um filme que diverte pela sua simplicidade - nada soa rebuscado e é essa a proposta de Rozan que também escreveu o roteiro - sim, esse é mais um exemplo do "jeito Breaking Bad" de subverter os padrões morais da narrativa em pró do bom entretenimento. Funciona!

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O Cidadão Ilustre

Mais um filme imperdível! Uma co-produção Argentina/Espanha, vencedor do Prêmio Goya (o Oscar Espanhol) em 2017 na categoria "Best Iberoamerican Film" e dirigido pela dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn. E, olha, em um país onde a qualidade cinematográfica já é referência, "O Cidadão Ilustre" foi o filme argentino mais assistido do ano! O filme é sensacional, na delicadeza de tocar em assuntos pesados à qualidade de uma interpretação irretocável - é possível sentir cada sensação do personagem, a cada situação que ele vive e sem passar do tom em nenhum momento - o monstro responsável por isso (não é o Darin...rs) é Oscar Martínez (o mesmo de "Toc Toc").

Martínez interpreta um premiado escritor argentino que vive fora do seu país desde muito jovem e em um determinado momento da sua vida, se sentindo sem muita motivação (e até com uma certa melancolia), ele recebe um convite de sua cidade natal para participar de algumas homenagens pelas suas mais recentes conquistas profissionais. Ao aceitar, ele precisa enfrentar tudo que deixou para trás há 40 anos e ao mesmo tempo recuperar sua essência para continuar contando boas histórias. Veja o Trailer:

Por essa curta sinopse, é fácil pensar que se trata de um drama pesado, triste, mas não, o mérito do filme é justamente esse - tratar esse vazio existencial com um humor inteligente e dramático ao mesmo tempo, e sem perder a mão. Tem um overacting estereotipado de alguns atores que são magistralmente inseridos em um contexto completamente non-sente. É perfeito!!!! Reparem no prefeito da cidade (Manuel Vicente - ele é a personificação desse conceito!!!

É realmente um grande roteiro, muito bem dirigido, muito bem produzido - eu só não gostei muito da câmera solta em alguns momentos quando os diretores apresentavam aquele universo da cidade natal, pois os enquadramentos traduziam a melancolia e a simplicidade do lugar por si só, não precisava de um movimento - aquilo poderia ser um quadro lindo, quase uma pintura (mas foi uma escolha criativa e é preciso respeitar).
Certamente um dos melhores filmes que assisti esse ano!

Dê o play e seja feliz, pois é um entretenimento de primeira qualidade!!!!

Assista Agora

Mais um filme imperdível! Uma co-produção Argentina/Espanha, vencedor do Prêmio Goya (o Oscar Espanhol) em 2017 na categoria "Best Iberoamerican Film" e dirigido pela dupla Gastón Duprat e Mariano Cohn. E, olha, em um país onde a qualidade cinematográfica já é referência, "O Cidadão Ilustre" foi o filme argentino mais assistido do ano! O filme é sensacional, na delicadeza de tocar em assuntos pesados à qualidade de uma interpretação irretocável - é possível sentir cada sensação do personagem, a cada situação que ele vive e sem passar do tom em nenhum momento - o monstro responsável por isso (não é o Darin...rs) é Oscar Martínez (o mesmo de "Toc Toc").

Martínez interpreta um premiado escritor argentino que vive fora do seu país desde muito jovem e em um determinado momento da sua vida, se sentindo sem muita motivação (e até com uma certa melancolia), ele recebe um convite de sua cidade natal para participar de algumas homenagens pelas suas mais recentes conquistas profissionais. Ao aceitar, ele precisa enfrentar tudo que deixou para trás há 40 anos e ao mesmo tempo recuperar sua essência para continuar contando boas histórias. Veja o Trailer:

Por essa curta sinopse, é fácil pensar que se trata de um drama pesado, triste, mas não, o mérito do filme é justamente esse - tratar esse vazio existencial com um humor inteligente e dramático ao mesmo tempo, e sem perder a mão. Tem um overacting estereotipado de alguns atores que são magistralmente inseridos em um contexto completamente non-sente. É perfeito!!!! Reparem no prefeito da cidade (Manuel Vicente - ele é a personificação desse conceito!!!

É realmente um grande roteiro, muito bem dirigido, muito bem produzido - eu só não gostei muito da câmera solta em alguns momentos quando os diretores apresentavam aquele universo da cidade natal, pois os enquadramentos traduziam a melancolia e a simplicidade do lugar por si só, não precisava de um movimento - aquilo poderia ser um quadro lindo, quase uma pintura (mas foi uma escolha criativa e é preciso respeitar).
Certamente um dos melhores filmes que assisti esse ano!

Dê o play e seja feliz, pois é um entretenimento de primeira qualidade!!!!

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O Conde

"O Conde" é simplesmente genial, no entanto não será uma jornada muito fácil já que sua narrativa cheia de simbolismo, ironia, sarcasmo e critica exige da audiência um certo conhecimento da história politica sangrenta do ditador Augusto Pinochet, no Chile, para que a experiência seja, de fato, marcante. Com uma habilidade impressionante, o diretor Pablo Larraín (de "Spencer"), resgata a figura de Pinochet emprestando um certo tom de fábula, com vários elementos fantásticos, capaz de transformar o conhecido genocida em um vampiro caricato, resignificando com muita inteligência a sua reconhecida sede por sangue. A capacidade de Larraín em revisitar o recente passado de seu país e recontar algumas passagens politicas tão marcantes quanto tristes, de uma forma quase nonsense, faz dessa produção da Netflix uma das melhores de 2023. Mas atenção: esse filme não deve agradar a todos, portanto sugiro uma leitura atenta antes do play!

O filme se passa em uma realidade alternativa que mostra Augusto Pinochet (Jaime Vadell) como um vampiro envelhecido e isolado em uma mansão abandonada. Após 250 anos se alimentando de sangue para sobreviver, ele está decidido a morrer de uma vez por todas. Frustrado pela forma como o povo chileno o reconhece, e cercado por uma família notavelmente oportunista, o vampiro já não vê nenhuma razão para continuar sua trajetória de conquistas pela vida eterna. Porém, quando tudo parece perdido, ele acaba descobrindo uma inspiração que lhe faz querer abandonar esses planos. Confira o trailer (com legendas em inglês):

Com um roteiro repleto de cinismo (daqueles que você ri de nervoso, mas aplaude mentalmente), Guillermo Calder (de "Neruda") ao lado do próprio Larraín, transitam entre o absurdo e a ignorância (obviamente sempre pontuada pela crítica irônica e respaldada pelos fatos) para contar a história do ditador Augusto Pinochet pelos seus próprios olhos - embora o filme seja narrado por uma personagem misteriosa que assim que é apresentada no terceiro ato, nos deixa de queixo caído. Para quem não sabe, Pinochet liderou um golpe de Estado em 1973, derrubando o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. e assumiu o poder como líder da junta militar e posteriormente se autoproclamou presidente do Chile. Seu governo, que durou de 1973 a 1990, foi marcado por repressão política, violações dos direitos humanos e políticas econômicas que bebiam na fonte da corrupção - o curioso, no entanto, é como o filme insere informações relevantes sobre os bastidores dessas histórias e como o personagem interpreta seu legado em meio a uma crise existencial (ele sofrendo por ser reconhecido como "ladrão", é impagável).

Toda essa qualidade do texto é lindamente emoldurada por uma fotografia digna de Oscar. O fotografo americano Edward Lachman (indicado ao Oscar por "Carol" e "Longe do Paraíso") se apropria do preto e branco para criar um tom sombrio e misterioso - é como se assistíssemos "Nosferatu". Todo o desenho de produção, habilmente, explora esse aspecto de velho e carcomido para falar do passado, mas sem deixar de criar paralelos  com o presente - as metáforas visuais são tão imponentes quanto as textuais e juntas, olha, é uma aula de cinema. Como diretor, Larraín é muito, mas muito, sagaz ao convidar a audiência a interpretar os eventos do filme e assim encontrar sentido com o que vimos ou vivemos na história recente do nosso país - fico imaginando como é rica essa experiência para um chileno, se para nós já é sensacional!

Outro ponto que merece destaque é a relação familiar de Augusto Pinochet, especialmente com sua mulher, Lucía Hiriart (Gloria Münchmeyer). Veja, embora essa relação tenha sido usada para criar uma imagem de estabilidade e moralidade, ela também foi marcada por acusações de corrupção e enriquecimento pessoal, que contribuíram para a controvérsia em torno de seu regime autoritário no Chile - a cena da freira Carmencita (Paula Luchsinger) entrevistando os cinco filhos do ditador e perguntando sobre algumas situações, digamos duvidosas, como aquela do caso Riggs, por exemplo, é muito engraçada. Quando embarcarmos nessa genialidade mais debochada de Larraín, nossa percepção muda de patamar!

"O Conde" talvez seja o "Roma" de Larraín - autoral, corajoso, bem executado tecnicamente, artisticamente impecável, e longe de ser um filme fácil e muito menos superficial. Toda essa linguagem mais satírica, misturada com uma bem equilibrada farsa política, não vai agradar aquela audiência que acha se tratar de um filme de terror sobre vampiros. Esquece! "O Conde" é muito mais do que isso e vale muito o seu play, principalmente se você tiver o cuidado de ler ou souber o que representou o governo Pinochet e como suas atitudes e discurso, além de hipócritas, foram fatais para aquele país.

Imperdível!

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"O Conde" é simplesmente genial, no entanto não será uma jornada muito fácil já que sua narrativa cheia de simbolismo, ironia, sarcasmo e critica exige da audiência um certo conhecimento da história politica sangrenta do ditador Augusto Pinochet, no Chile, para que a experiência seja, de fato, marcante. Com uma habilidade impressionante, o diretor Pablo Larraín (de "Spencer"), resgata a figura de Pinochet emprestando um certo tom de fábula, com vários elementos fantásticos, capaz de transformar o conhecido genocida em um vampiro caricato, resignificando com muita inteligência a sua reconhecida sede por sangue. A capacidade de Larraín em revisitar o recente passado de seu país e recontar algumas passagens politicas tão marcantes quanto tristes, de uma forma quase nonsense, faz dessa produção da Netflix uma das melhores de 2023. Mas atenção: esse filme não deve agradar a todos, portanto sugiro uma leitura atenta antes do play!

O filme se passa em uma realidade alternativa que mostra Augusto Pinochet (Jaime Vadell) como um vampiro envelhecido e isolado em uma mansão abandonada. Após 250 anos se alimentando de sangue para sobreviver, ele está decidido a morrer de uma vez por todas. Frustrado pela forma como o povo chileno o reconhece, e cercado por uma família notavelmente oportunista, o vampiro já não vê nenhuma razão para continuar sua trajetória de conquistas pela vida eterna. Porém, quando tudo parece perdido, ele acaba descobrindo uma inspiração que lhe faz querer abandonar esses planos. Confira o trailer (com legendas em inglês):

Com um roteiro repleto de cinismo (daqueles que você ri de nervoso, mas aplaude mentalmente), Guillermo Calder (de "Neruda") ao lado do próprio Larraín, transitam entre o absurdo e a ignorância (obviamente sempre pontuada pela crítica irônica e respaldada pelos fatos) para contar a história do ditador Augusto Pinochet pelos seus próprios olhos - embora o filme seja narrado por uma personagem misteriosa que assim que é apresentada no terceiro ato, nos deixa de queixo caído. Para quem não sabe, Pinochet liderou um golpe de Estado em 1973, derrubando o governo democraticamente eleito de Salvador Allende. e assumiu o poder como líder da junta militar e posteriormente se autoproclamou presidente do Chile. Seu governo, que durou de 1973 a 1990, foi marcado por repressão política, violações dos direitos humanos e políticas econômicas que bebiam na fonte da corrupção - o curioso, no entanto, é como o filme insere informações relevantes sobre os bastidores dessas histórias e como o personagem interpreta seu legado em meio a uma crise existencial (ele sofrendo por ser reconhecido como "ladrão", é impagável).

Toda essa qualidade do texto é lindamente emoldurada por uma fotografia digna de Oscar. O fotografo americano Edward Lachman (indicado ao Oscar por "Carol" e "Longe do Paraíso") se apropria do preto e branco para criar um tom sombrio e misterioso - é como se assistíssemos "Nosferatu". Todo o desenho de produção, habilmente, explora esse aspecto de velho e carcomido para falar do passado, mas sem deixar de criar paralelos  com o presente - as metáforas visuais são tão imponentes quanto as textuais e juntas, olha, é uma aula de cinema. Como diretor, Larraín é muito, mas muito, sagaz ao convidar a audiência a interpretar os eventos do filme e assim encontrar sentido com o que vimos ou vivemos na história recente do nosso país - fico imaginando como é rica essa experiência para um chileno, se para nós já é sensacional!

Outro ponto que merece destaque é a relação familiar de Augusto Pinochet, especialmente com sua mulher, Lucía Hiriart (Gloria Münchmeyer). Veja, embora essa relação tenha sido usada para criar uma imagem de estabilidade e moralidade, ela também foi marcada por acusações de corrupção e enriquecimento pessoal, que contribuíram para a controvérsia em torno de seu regime autoritário no Chile - a cena da freira Carmencita (Paula Luchsinger) entrevistando os cinco filhos do ditador e perguntando sobre algumas situações, digamos duvidosas, como aquela do caso Riggs, por exemplo, é muito engraçada. Quando embarcarmos nessa genialidade mais debochada de Larraín, nossa percepção muda de patamar!

"O Conde" talvez seja o "Roma" de Larraín - autoral, corajoso, bem executado tecnicamente, artisticamente impecável, e longe de ser um filme fácil e muito menos superficial. Toda essa linguagem mais satírica, misturada com uma bem equilibrada farsa política, não vai agradar aquela audiência que acha se tratar de um filme de terror sobre vampiros. Esquece! "O Conde" é muito mais do que isso e vale muito o seu play, principalmente se você tiver o cuidado de ler ou souber o que representou o governo Pinochet e como suas atitudes e discurso, além de hipócritas, foram fatais para aquele país.

Imperdível!

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O Consultor

"O Consultor" vai dividir opiniões - principalmente pelas expectativas que ele cria (de uma forma genial) e a entrega que ele faz no final (embora mostre enorme potencial para uma sequência)! Veja, talvez o maior mérito da série, e que de fato chama atenção desde o inicio, no final se transforma em sua maior fraqueza e a razão pela qual vai te fazer questionar sobre a qualidade da história: a série da Prime Vídeo bebe de muitas referências que colocam o sarrafo lá em cima. Não é preciso ir muito fundo para perceber elementos conceituais usados em verdadeiros sucessos, mesmo que em tons diferentes, como "The Office", "Mythic Quest", "Ruptura" e até como "O Advogado do Diabo"- o grande problema é que aqui, propositalmente, o arco principal deixa muito mais um suspense, um mistério, e por isso um certo incômodo, do que se propõe a entregar respostas, por menor que sejam, para que tenhamos uma leve sensação de estarmos no caminho certo.

A questão é: existe um caminho?

Contratado como consultor para resgatar a CompWare da falência após um evento traumático para a startup especializada em games para celular, Regus Patoff (Christopher Waltz) gradualmente começa a colocar seu particular estilo de gestão, mesmo que isso não tenha absolutamente nada a ver com a cultura criada e estabelecida pelo seu fundador, o jovem Sang (Brian Yoon), o que cria uma verdadeira atmosfera de tensão e insegurança perante todos os colaboradores da empresa. Confira o trailer:

Se olharmos por um determinado ponto de vista, "O Consultor" é muito mais uma aula sobre cultura corporativado que propriamente um mero entretenimento, mas calma: é possível se divertir com a série criada pelo Tony Basgallop (de "Servant"). Inspirado no romance homônimo de Bentley Little, de 2015, "O Consultor" é uma espécie de sátira sobre a péssima relação entre umcolaborador e uma nova liderança desalinhada com a cultura da empresa, que acaba questionando o queseríamos capazes de fazer para sobreviverem um ambiente corporativo que da noite para o dia passa a ser tão tóxico quando volátil. 

Christopher Waltz, de fato, constrói um protagonista brilhante, digno de prêmios! Mas a sensação é que, com o passar dos episódios, o "efeito Lost" parece fazer mais uma vitima, ou seja, mesmo com um personagem que nos provoca as mais diversas emoções, os mistérios inseridos no roteiro não entregam sequer uma resposta convincente - é como se todas as (interessantes) maluquices que vemos durante a temporada, simplesmente estão ali por estar. Diferente de "Ruptura" onde tudo parece ter algum sentido (mesmo que exija uma enorme suspensão da realidade), aqui as peças não se encaixam em nenhum momento - mesmo com um final conclusivo que, inclusive, coloca em dúvida a ideia de que uma continuidade para a história possa ter sido planejada. 

"O Consultor" aposta suas fichas na sobriedade claustrofóbica de uma palheta de cores frias que contrasta com os neons que praticamente saltam ao olhos da audiência, como se precisassem pontuar um universo entre o tradicional e o moderno que não sabe muito bem o tamanho de sua importância - esse aspecto mais dúbio, envolvido por uma trilha sonora precisa e equilibrada, dá o tom do que o roteiro sugere, mas falha em validar qualquer que fosse a teoria que naturalmente levantamos desde o inicio da temporada. Entretanto, ainda que como entretenimento exista gaps narrativos imensos, é possível afirmar que algo bom pode estar por vir - a dúvida é se a audiência terá paciência e se o próprio Basgallop terá liberdade criativa para provar que tudo um dia fará sentido. Veremos!

Assista Agora

"O Consultor" vai dividir opiniões - principalmente pelas expectativas que ele cria (de uma forma genial) e a entrega que ele faz no final (embora mostre enorme potencial para uma sequência)! Veja, talvez o maior mérito da série, e que de fato chama atenção desde o inicio, no final se transforma em sua maior fraqueza e a razão pela qual vai te fazer questionar sobre a qualidade da história: a série da Prime Vídeo bebe de muitas referências que colocam o sarrafo lá em cima. Não é preciso ir muito fundo para perceber elementos conceituais usados em verdadeiros sucessos, mesmo que em tons diferentes, como "The Office", "Mythic Quest", "Ruptura" e até como "O Advogado do Diabo"- o grande problema é que aqui, propositalmente, o arco principal deixa muito mais um suspense, um mistério, e por isso um certo incômodo, do que se propõe a entregar respostas, por menor que sejam, para que tenhamos uma leve sensação de estarmos no caminho certo.

A questão é: existe um caminho?

Contratado como consultor para resgatar a CompWare da falência após um evento traumático para a startup especializada em games para celular, Regus Patoff (Christopher Waltz) gradualmente começa a colocar seu particular estilo de gestão, mesmo que isso não tenha absolutamente nada a ver com a cultura criada e estabelecida pelo seu fundador, o jovem Sang (Brian Yoon), o que cria uma verdadeira atmosfera de tensão e insegurança perante todos os colaboradores da empresa. Confira o trailer:

Se olharmos por um determinado ponto de vista, "O Consultor" é muito mais uma aula sobre cultura corporativado que propriamente um mero entretenimento, mas calma: é possível se divertir com a série criada pelo Tony Basgallop (de "Servant"). Inspirado no romance homônimo de Bentley Little, de 2015, "O Consultor" é uma espécie de sátira sobre a péssima relação entre umcolaborador e uma nova liderança desalinhada com a cultura da empresa, que acaba questionando o queseríamos capazes de fazer para sobreviverem um ambiente corporativo que da noite para o dia passa a ser tão tóxico quando volátil. 

Christopher Waltz, de fato, constrói um protagonista brilhante, digno de prêmios! Mas a sensação é que, com o passar dos episódios, o "efeito Lost" parece fazer mais uma vitima, ou seja, mesmo com um personagem que nos provoca as mais diversas emoções, os mistérios inseridos no roteiro não entregam sequer uma resposta convincente - é como se todas as (interessantes) maluquices que vemos durante a temporada, simplesmente estão ali por estar. Diferente de "Ruptura" onde tudo parece ter algum sentido (mesmo que exija uma enorme suspensão da realidade), aqui as peças não se encaixam em nenhum momento - mesmo com um final conclusivo que, inclusive, coloca em dúvida a ideia de que uma continuidade para a história possa ter sido planejada. 

"O Consultor" aposta suas fichas na sobriedade claustrofóbica de uma palheta de cores frias que contrasta com os neons que praticamente saltam ao olhos da audiência, como se precisassem pontuar um universo entre o tradicional e o moderno que não sabe muito bem o tamanho de sua importância - esse aspecto mais dúbio, envolvido por uma trilha sonora precisa e equilibrada, dá o tom do que o roteiro sugere, mas falha em validar qualquer que fosse a teoria que naturalmente levantamos desde o inicio da temporada. Entretanto, ainda que como entretenimento exista gaps narrativos imensos, é possível afirmar que algo bom pode estar por vir - a dúvida é se a audiência terá paciência e se o próprio Basgallop terá liberdade criativa para provar que tudo um dia fará sentido. Veremos!

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O Faz Nada

Impossível não olhar Buenos Aires com um certo ar de romantismo e desejo depois de assistir aos cinco episódios dessa excelente (e despretensiosa) minissérie do Star+, "O Faz Nada". Ao melhor estilo Woody Allen de construir uma narrativa cinematográfica se apropriando de fortes elementos da crônica, com personagens complexos (e por isso charmosos), um cenário deslumbrante e um tema que normalmente se mistura entre o cotidiano e o imaginário, essa obra dos geniais Gastón Duprat e Mariano Cohn, ambos de "Cidadão Ilustre" e não por acaso sua maior referência conceitual, é uma divertida e sensível jornada pela gastronomia portenha pela perspectiva de quem é apaixonado pelos detalhes - para o bem e para o mal!

Na história, o bon vivant e icônico crítico gastronômico, Manuel Tamayo Prats (Luis Brandoni), mal tem recursos para manter seu estilo de vida abastado, mas nem por isso deixa de se aproveitar do respeito que adquiriu nos tempos áureos para viver e comer muito bem. Mal humorado e patologicamente sincero, Prats se vê em uma situação inédita quando precisa contratar uma jovem paraguaia, Antonia (Majo Cabrera), para substituir Celsa (María Rosa Fugazot) - uma antiga empregada que cuidou dele por mais de 40 anos, mas que "do nada" acaba de morrer. Confira o trailer (em espanhol):

Logo de cara, a presença de Robert De Niro já coloca nossa expectava em outro patamar. De Niro, com um certo ar "proposital" de superioridade, é basicamente o narrador dessa história que não sabemos exatamente onde vai nos levar. Suas aparições são cirurgias, misteriosas e cheias de elegância - como se estivesse nos preparando para uma epifania dramática matadora. De fato é isso que acontece, talvez sem tanto impacto narrativo, mas sem dúvida repleto de sentimento - e é ai que as conexões fazem sentido, já que a minissérie fala de arte de cultura, de gastronomia, mas são as relações de amizade que realmente tocam nossa alma.

O roteiro de Duprat e Cohn, ao lado do talentoso Emanuel Diez (de "A Extorsão"), sabe exatamente como equilibrar o drama com o cômico, ao mesmo tempo que se mostra extremamente capaz de discutir as nuances das relações humanas com muita honestidade (que personificado por Prats, soa até exagerado) e sensibilidade, sem nunca esquecer da ironia e do humor inteligente. A direção sabe que essa sagacidade e acidez criam laços improváveis entre a audiência e o protagonista - eles fizeram exatamente isso no premiado "Cidadão Ilustre", Marc Forster repetiu a fórmula em "O Pior Vizinho do Mundo" eChuck Lorre fechou com chave de ouro em "O Método Kominsky". Mas para tudo funcionar como se deve, esse protagonista tem que roubar a cena e é justamente o que Brandoni faz - não à toa, o seu Manuel Tamayo Prats sempre tem uma resposta na ponta da língua que contraria, provoca ou simplesmente debocha de alguém, com inteligência e crueldade (nunca uma sem a outra), nos causando até uma certa "inveja".

"Nada" (no original) sabe nos conquistar ao retratar a forma única de levar a vida de um senhor que já não espera muito da vida, mas que teima em não deixar de aproveita-la. As insinuações são excelentes (especialmente quando se trata da relação homem e mulher), mas é na qualidade do texto e na construção de uma atmosfera que celebra o amor de seus criadores pela cidade, pela gastronomia e pela ironia bem colocada, que a minissérie realmente decola. Como não poderia deixar de ser, essa brincadeira cosmopolita meio "woodyallenana" de Duprat e Cohn, é tão apaixonante e cheia de camadas que se dá o direito de trocar o tango pelo jazz, que mesmo mais casual traz leveza para as cenas, e até colocar no mesmo nível de importância o famoso bife de chorizo a cavalo com o conceito da gastronomia chinesa do Wen, Zhao e Wogh. Interessante, não? 

Pois é! Eu diria, imperdível!

Assista Agora

Impossível não olhar Buenos Aires com um certo ar de romantismo e desejo depois de assistir aos cinco episódios dessa excelente (e despretensiosa) minissérie do Star+, "O Faz Nada". Ao melhor estilo Woody Allen de construir uma narrativa cinematográfica se apropriando de fortes elementos da crônica, com personagens complexos (e por isso charmosos), um cenário deslumbrante e um tema que normalmente se mistura entre o cotidiano e o imaginário, essa obra dos geniais Gastón Duprat e Mariano Cohn, ambos de "Cidadão Ilustre" e não por acaso sua maior referência conceitual, é uma divertida e sensível jornada pela gastronomia portenha pela perspectiva de quem é apaixonado pelos detalhes - para o bem e para o mal!

Na história, o bon vivant e icônico crítico gastronômico, Manuel Tamayo Prats (Luis Brandoni), mal tem recursos para manter seu estilo de vida abastado, mas nem por isso deixa de se aproveitar do respeito que adquiriu nos tempos áureos para viver e comer muito bem. Mal humorado e patologicamente sincero, Prats se vê em uma situação inédita quando precisa contratar uma jovem paraguaia, Antonia (Majo Cabrera), para substituir Celsa (María Rosa Fugazot) - uma antiga empregada que cuidou dele por mais de 40 anos, mas que "do nada" acaba de morrer. Confira o trailer (em espanhol):

Logo de cara, a presença de Robert De Niro já coloca nossa expectava em outro patamar. De Niro, com um certo ar "proposital" de superioridade, é basicamente o narrador dessa história que não sabemos exatamente onde vai nos levar. Suas aparições são cirurgias, misteriosas e cheias de elegância - como se estivesse nos preparando para uma epifania dramática matadora. De fato é isso que acontece, talvez sem tanto impacto narrativo, mas sem dúvida repleto de sentimento - e é ai que as conexões fazem sentido, já que a minissérie fala de arte de cultura, de gastronomia, mas são as relações de amizade que realmente tocam nossa alma.

O roteiro de Duprat e Cohn, ao lado do talentoso Emanuel Diez (de "A Extorsão"), sabe exatamente como equilibrar o drama com o cômico, ao mesmo tempo que se mostra extremamente capaz de discutir as nuances das relações humanas com muita honestidade (que personificado por Prats, soa até exagerado) e sensibilidade, sem nunca esquecer da ironia e do humor inteligente. A direção sabe que essa sagacidade e acidez criam laços improváveis entre a audiência e o protagonista - eles fizeram exatamente isso no premiado "Cidadão Ilustre", Marc Forster repetiu a fórmula em "O Pior Vizinho do Mundo" eChuck Lorre fechou com chave de ouro em "O Método Kominsky". Mas para tudo funcionar como se deve, esse protagonista tem que roubar a cena e é justamente o que Brandoni faz - não à toa, o seu Manuel Tamayo Prats sempre tem uma resposta na ponta da língua que contraria, provoca ou simplesmente debocha de alguém, com inteligência e crueldade (nunca uma sem a outra), nos causando até uma certa "inveja".

"Nada" (no original) sabe nos conquistar ao retratar a forma única de levar a vida de um senhor que já não espera muito da vida, mas que teima em não deixar de aproveita-la. As insinuações são excelentes (especialmente quando se trata da relação homem e mulher), mas é na qualidade do texto e na construção de uma atmosfera que celebra o amor de seus criadores pela cidade, pela gastronomia e pela ironia bem colocada, que a minissérie realmente decola. Como não poderia deixar de ser, essa brincadeira cosmopolita meio "woodyallenana" de Duprat e Cohn, é tão apaixonante e cheia de camadas que se dá o direito de trocar o tango pelo jazz, que mesmo mais casual traz leveza para as cenas, e até colocar no mesmo nível de importância o famoso bife de chorizo a cavalo com o conceito da gastronomia chinesa do Wen, Zhao e Wogh. Interessante, não? 

Pois é! Eu diria, imperdível!

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O Juíz

Assista esse filme -  especialmente se você se identifica com tramas que transitam entre a força de um drama de tribunal e a sensibilidade de um drama de relações, nesse caso, familiar, com aquele toque de humor, ironia e acidez quase uma comédia britânica. Diante de uma trama que tenta (e evidentemente consegue) se levar a sério, o filme do diretor David Dobkin, que fez carreira entre os vídeos musicais de bandas como Maroon 5 e as comédias despretensiosas como "Penetras Bons de Bico", "O Juiz" apresenta um excelente resultado no que tange aos aspectos narrativos, mesmo que a obra em si não seja algo, digamos, tão inovador. Não é à toa que o filme recebeu diversas indicações em importantes premiações, incluindo uma nomeação ao Oscar de 2015 pela performance magistral de Robert Duvall como ator coadjuvante.

Na trama, um advogado de sucesso, Hank Palmer (Robert Downey Jr.), precisa retornar para a pacata cidadezinha onde nasceu assim que recebe a notícia da morte de sua mãe. Lá, no entanto, ele reencontra seu pai, Joseph Palmer (Duvall), o juiz da cidade e uma espécie de bastião moral perante a comunidade, depois de décadas de um difícil rompimento familiar. Tudo muda de figura quando Hank se vê em uma situação inusitada: seu pai é acusado de um assassinato e ele é a única opção para livrá-lo da prisão. Confira o trailer:

Só pelo trailer você já consegue sentir o moodque vai te acompanhar por mais de duas horas de uma emocionante jornada e acredite, você vai se surpreender ainda mais! Partindo de um princípio básico: "o reencontro forçado entre pai e filho que vai revelando segredos do passado e que desencadeiam uma narrativa intensa, onde a busca pela verdade colide com as emoções profundas de uma família dividida", "O Juiz" não só te prende como te provoca inúmeras reflexões, especialmente se alguma relação familiar anda estremecida.

O conceito narrativo de Dobkin que praticamente nos força olhar para o passado, está incrivelmente alinhada com a fotografia de Janusz Kaminski, vencedor do Oscar "só" por "A Lista de Schindler" e "O Resgate do Soldado Ryan" - ele captura a essência da cidade pequena de Carlinville de maneira sublime, transmitindo visualmente a tensão e a nostalgia que permeiam o retorno de Hank. A escolha assertiva de planos e enquadramentos contribui para a construção de uma atmosfera tão imersiva que intensifica nossa conexão emocional com os personagens e a história em si, como poucas vezes você vai encontrar no gênero. Sem exageros.

Já o desempenho do elenco é outro elemento que coloca "O Juiz" em um patamar superior - certamente construído para chegar ao Oscar. Robert Downey Jr. entrega uma atuação excepcional, transcendendo as expectativas ao retratar a complexidade e a vulnerabilidade de Hank Palmer. A química entre Downey Jr. com seu parceiro Robert Duvall é palpável, proporcionando momentos de pura intensidade emocional - chega ser um absurdo ele também não ter recebido sua indicação em 2015. 

Se Dobkin conduz a história com tanta maestria, equilibrando habilmente os aspectos jurídicos com as complexidades familiares em uma jornada emocional cheia de camadas, posso garantir que é na narrativa intrincada, que oferece reflexões profundas sobre a natureza humana, que está o maior desafio - é impressionante como ela nos faz questionar nossas próprias convicções e preconceitos sem pedir licença. Dito isso, é quase impossível não recomendar "O Juiz" de olhos fechados por essa experiência que vai além das barreiras didáticas de uma disputa de tribunal e que mergulha no cerne da condição humana nos presenteando com um entretenimento de primeiríssima qualidade!

Imperdível!

Assista Agora

Assista esse filme -  especialmente se você se identifica com tramas que transitam entre a força de um drama de tribunal e a sensibilidade de um drama de relações, nesse caso, familiar, com aquele toque de humor, ironia e acidez quase uma comédia britânica. Diante de uma trama que tenta (e evidentemente consegue) se levar a sério, o filme do diretor David Dobkin, que fez carreira entre os vídeos musicais de bandas como Maroon 5 e as comédias despretensiosas como "Penetras Bons de Bico", "O Juiz" apresenta um excelente resultado no que tange aos aspectos narrativos, mesmo que a obra em si não seja algo, digamos, tão inovador. Não é à toa que o filme recebeu diversas indicações em importantes premiações, incluindo uma nomeação ao Oscar de 2015 pela performance magistral de Robert Duvall como ator coadjuvante.

Na trama, um advogado de sucesso, Hank Palmer (Robert Downey Jr.), precisa retornar para a pacata cidadezinha onde nasceu assim que recebe a notícia da morte de sua mãe. Lá, no entanto, ele reencontra seu pai, Joseph Palmer (Duvall), o juiz da cidade e uma espécie de bastião moral perante a comunidade, depois de décadas de um difícil rompimento familiar. Tudo muda de figura quando Hank se vê em uma situação inusitada: seu pai é acusado de um assassinato e ele é a única opção para livrá-lo da prisão. Confira o trailer:

Só pelo trailer você já consegue sentir o moodque vai te acompanhar por mais de duas horas de uma emocionante jornada e acredite, você vai se surpreender ainda mais! Partindo de um princípio básico: "o reencontro forçado entre pai e filho que vai revelando segredos do passado e que desencadeiam uma narrativa intensa, onde a busca pela verdade colide com as emoções profundas de uma família dividida", "O Juiz" não só te prende como te provoca inúmeras reflexões, especialmente se alguma relação familiar anda estremecida.

O conceito narrativo de Dobkin que praticamente nos força olhar para o passado, está incrivelmente alinhada com a fotografia de Janusz Kaminski, vencedor do Oscar "só" por "A Lista de Schindler" e "O Resgate do Soldado Ryan" - ele captura a essência da cidade pequena de Carlinville de maneira sublime, transmitindo visualmente a tensão e a nostalgia que permeiam o retorno de Hank. A escolha assertiva de planos e enquadramentos contribui para a construção de uma atmosfera tão imersiva que intensifica nossa conexão emocional com os personagens e a história em si, como poucas vezes você vai encontrar no gênero. Sem exageros.

Já o desempenho do elenco é outro elemento que coloca "O Juiz" em um patamar superior - certamente construído para chegar ao Oscar. Robert Downey Jr. entrega uma atuação excepcional, transcendendo as expectativas ao retratar a complexidade e a vulnerabilidade de Hank Palmer. A química entre Downey Jr. com seu parceiro Robert Duvall é palpável, proporcionando momentos de pura intensidade emocional - chega ser um absurdo ele também não ter recebido sua indicação em 2015. 

Se Dobkin conduz a história com tanta maestria, equilibrando habilmente os aspectos jurídicos com as complexidades familiares em uma jornada emocional cheia de camadas, posso garantir que é na narrativa intrincada, que oferece reflexões profundas sobre a natureza humana, que está o maior desafio - é impressionante como ela nos faz questionar nossas próprias convicções e preconceitos sem pedir licença. Dito isso, é quase impossível não recomendar "O Juiz" de olhos fechados por essa experiência que vai além das barreiras didáticas de uma disputa de tribunal e que mergulha no cerne da condição humana nos presenteando com um entretenimento de primeiríssima qualidade!

Imperdível!

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O Julgamento de Paris

No vasto cenário da sétima arte, poucas temáticas têm o poder de cativar a imaginação e o paladar do público como o universo dos vinhos. Nesse contexto, o filme 'O Julgamento de Paris' se ergue como um verdadeiro 'achado' dentro dos infindáveis catálogos dos serviços de streaming atualmente. Mesmo que, à primeira vista, o filme dirigido por Randall Miller (da série 'Jack & Jill') soe datado, e até superficial, é impressionante como a narrativa sutilmente complexa é capaz de entrelaçar a cultura do vinho com a busca pelo reconhecimento e superação pessoal - algo similar ao que vimos em "Notas de Rebeldia". 

"O Julgamento de Paris" é baseado em fatos reais, e retrata os primeiros tempos da indústria do vinho em Napa Valley nos anos 70, e que culminou com a participação das vinícola californiana Chateau Montelena na competição internacional de melhor vinho em 1976, em Paris - evento que acabou colocando a região no mapa dos melhores produtores de vinho do planeta. Confira o trailer:

Lançado em 2008, "O Julgamento de Paris" trouxe para o grande público uma história das mais interessantes, mas que poucas pessoas conheciam. O evento que eternizou a degustação cega que redefiniu a hierarquia dos vinhos e desafiou as convenções estabelecidas pela França é, de fato, algo muito marcante; no entanto alguns outros temas discutidos no roteiro nos remetem aos desafios de empreender, de inovar e de ter resiliência. É claro que o universo onde a história acontece está longe das jornadas disruptivas e tecnológicas de séries como "Som na Faixa" ou  "Super Pumped: A Batalha Pela Uber", mas eu diria que o DNA, o conceito básico, estão ali e vale a pena um olhar mais critico sobre esse aspecto.

O ponto alto está na história, muito bem contada, inclusive; mas é inegável que seus personagens, em alguns momentos até estereotipados para dar um tom mais leve no que poderia ser uma drama muito mais impactante, são cruciais para nosso envolvimento - o que poderia ser uma trama apenas para os apreciadores e conhecedores de vinho, se transforma em algo mais universal, onde encontramos muito mais camadas que vão dos desejos e ambições até os anseios e arrependimentos de uma forma muito humana. Reparem como o roteiro explora as relações interpessoais ao mesmo tempo que viajamos pelas deslumbrantes paisagens das vinhas de Napa, com muita naturalidade.

A fotografia do Mike Ozier (de "Tudo por um Sonho") é realmente um espetáculo por si só. Com um conceito visual que nos remete ao cinema dos anos 70, com o aspecto mais granulado da imagem e uma saturação bem proeminente, ele é capaz de capturar a elegância das vinhas banhadas pelo sol, as cores ricas das adegas e a intensidade das expressões dos personagens, com a mesma maestria - cada cena parece meticulosamente pensada por Ozier e Miller para destacar tanto as interações humanas quanto os elementos sensoriais associados ao vinho.

Resumindo, "Bottle Shock" (no original) é uma celebração da paixão e do poder transformador que o cinema pode exercer sobre sua audiência ao retratar a convergência entre o vinho e uma boa história. A obra tem uma capacidade muito interessante de nos transportar para um universo repleto de sabores, aromas e aspirações, tornando a experiência de assistir o filme em algo único e, obviamente, enriquecedora. Se você acha que estou exagerando, assim que subirem os créditos, eu duvido que você não vá até o google para pesquisar o preço de um Chateau Montelena Chardonnay!

Vale muito o seu play!

PS: Apenas uma observação, a versão disponível na Prime Vídeo, infelizmente, não tem a opção de som original com legendas - apenas dublado.

Assista Agora

No vasto cenário da sétima arte, poucas temáticas têm o poder de cativar a imaginação e o paladar do público como o universo dos vinhos. Nesse contexto, o filme 'O Julgamento de Paris' se ergue como um verdadeiro 'achado' dentro dos infindáveis catálogos dos serviços de streaming atualmente. Mesmo que, à primeira vista, o filme dirigido por Randall Miller (da série 'Jack & Jill') soe datado, e até superficial, é impressionante como a narrativa sutilmente complexa é capaz de entrelaçar a cultura do vinho com a busca pelo reconhecimento e superação pessoal - algo similar ao que vimos em "Notas de Rebeldia". 

"O Julgamento de Paris" é baseado em fatos reais, e retrata os primeiros tempos da indústria do vinho em Napa Valley nos anos 70, e que culminou com a participação das vinícola californiana Chateau Montelena na competição internacional de melhor vinho em 1976, em Paris - evento que acabou colocando a região no mapa dos melhores produtores de vinho do planeta. Confira o trailer:

Lançado em 2008, "O Julgamento de Paris" trouxe para o grande público uma história das mais interessantes, mas que poucas pessoas conheciam. O evento que eternizou a degustação cega que redefiniu a hierarquia dos vinhos e desafiou as convenções estabelecidas pela França é, de fato, algo muito marcante; no entanto alguns outros temas discutidos no roteiro nos remetem aos desafios de empreender, de inovar e de ter resiliência. É claro que o universo onde a história acontece está longe das jornadas disruptivas e tecnológicas de séries como "Som na Faixa" ou  "Super Pumped: A Batalha Pela Uber", mas eu diria que o DNA, o conceito básico, estão ali e vale a pena um olhar mais critico sobre esse aspecto.

O ponto alto está na história, muito bem contada, inclusive; mas é inegável que seus personagens, em alguns momentos até estereotipados para dar um tom mais leve no que poderia ser uma drama muito mais impactante, são cruciais para nosso envolvimento - o que poderia ser uma trama apenas para os apreciadores e conhecedores de vinho, se transforma em algo mais universal, onde encontramos muito mais camadas que vão dos desejos e ambições até os anseios e arrependimentos de uma forma muito humana. Reparem como o roteiro explora as relações interpessoais ao mesmo tempo que viajamos pelas deslumbrantes paisagens das vinhas de Napa, com muita naturalidade.

A fotografia do Mike Ozier (de "Tudo por um Sonho") é realmente um espetáculo por si só. Com um conceito visual que nos remete ao cinema dos anos 70, com o aspecto mais granulado da imagem e uma saturação bem proeminente, ele é capaz de capturar a elegância das vinhas banhadas pelo sol, as cores ricas das adegas e a intensidade das expressões dos personagens, com a mesma maestria - cada cena parece meticulosamente pensada por Ozier e Miller para destacar tanto as interações humanas quanto os elementos sensoriais associados ao vinho.

Resumindo, "Bottle Shock" (no original) é uma celebração da paixão e do poder transformador que o cinema pode exercer sobre sua audiência ao retratar a convergência entre o vinho e uma boa história. A obra tem uma capacidade muito interessante de nos transportar para um universo repleto de sabores, aromas e aspirações, tornando a experiência de assistir o filme em algo único e, obviamente, enriquecedora. Se você acha que estou exagerando, assim que subirem os créditos, eu duvido que você não vá até o google para pesquisar o preço de um Chateau Montelena Chardonnay!

Vale muito o seu play!

PS: Apenas uma observação, a versão disponível na Prime Vídeo, infelizmente, não tem a opção de som original com legendas - apenas dublado.

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O melhor está por vir

"O melhor está por vir" é um filme francês surpreendente, pois equilibra muito bem dois gêneros que, ao mesmo tempo tão diferentes, se completam: a comédia e o drama. Reparem na história: após descobrir por engano que seu melhor amigo, César (Patrick Bruel), está com câncer e que tem apenas três meses de vida, Arthur (Fabrice Luchini) precisa contar esse duro diagnóstico, porém ele acaba se atrapalhando e deixa a entender que quem está doente é ele e não César. A partir daí eles resolvem deixar os problemas do cotidiano para trás, recuperar o tempo perdido e viver o pouco tempo que lhes restam juntos, da melhor maneira possível!

Olha, o filme é realmente uma graça! Embora a premissa possa parecer batida, dolorida e até indicar uma história cheia de sofrimento fantasiado de nostalgia, "O melhor está por vir" é justamente o contrário, ele é leve, divertido, inteligente e muito sensível para transitar entre o amor e a dor, entre a vida e a morte, sem pegar atalhos! Confesso que fui pego de surpresa, não sabia muito sobre o filme  e posso garantir que a experiência não poderia ter sido melhor.

O roteiro, dos também diretores, Matthieu Delaporte e Alexandre De La Patellière, fala de amizade, claro, mas fala muito sobre o valor e a importância do perdão - para o outro e para si mesmo! É muito inteligente a maneira como o texto pontua algumas das situações de vida desses dois amigos de infância, com personalidades tão diferentes, que precisaram lidar com as consequências de algo que não saiu tão bem como planejado. Arthur tem uma personalidade difícil, sofre com o fim do seu casamento e com a dificuldade de se relacionar com a filha pré-adolescente. Já César é um fracassado profissional, que deve muito dinheiro, mas não abre mão da boa vida. O roteiro dá uma aula de estrutura, tudo é muito bem definido e perceptível: o primeiro ato funciona como apresentação dos personagens, a origem da amizade entre eles e suas particularidades emocionais. O conflito também é naturalmente construído e ainda fortalece a diferença e o estilo de vida de cada um, agora adultos , mas sempre pontuando um elo em comum: a forte amizade! O segundo ato, nos trás muitas referências de  “Antes de Partir” com Jack Nicholson e Morgan Freeman, mas mesmo assim só faz aumentar nossa empatia com os personagens e nos divertir com as situações que eles estão passando juntos durante a jornada. E para finalizar, no terceiro ato, uma entrega sem ser excessivamente dramática, com uma mensagem completamente alinhada à tudo que foi construído durante a narrativa e o melhor: uma sensação de missão cumprida absurda - é lindo, emocionante e verdadeiro!

Se no inicio temos a sensação que "O melhor está por vir" é uma comédia "estilo pastelão" com atuações acima do tom, em seguida já percebemos algo mais suave, com mais pausas, olhares e uma química impressionante entre os dois atores que se sustenta até o final, onde a comédia, naturalmente, dá lugar ao drama - mas tudo, absolutamente tudo, sem perder a alma e a sutileza do texto - para mim, grande mérito de uma direção extremamente competente, técnica e segura de onde queria chegar! Uma menção importante: a fotografia do Guillaume Schiffman (indicado ao Oscar pelo "O Artista") é maravilhosa - vemos uma Paris pelos olhos de parisienses e isso faz toda a diferença - parece que estamos ouvindo uma história de quem realmente viveu tudo aquilo! É lindo!

Pode se preparar, "O melhor está por vir", vai mexer com seu coração, mas de uma forma leve, sem muito drama e com muita sinceridade e sutileza.

Vale muito a pena!

Assista Agora

"O melhor está por vir" é um filme francês surpreendente, pois equilibra muito bem dois gêneros que, ao mesmo tempo tão diferentes, se completam: a comédia e o drama. Reparem na história: após descobrir por engano que seu melhor amigo, César (Patrick Bruel), está com câncer e que tem apenas três meses de vida, Arthur (Fabrice Luchini) precisa contar esse duro diagnóstico, porém ele acaba se atrapalhando e deixa a entender que quem está doente é ele e não César. A partir daí eles resolvem deixar os problemas do cotidiano para trás, recuperar o tempo perdido e viver o pouco tempo que lhes restam juntos, da melhor maneira possível!

Olha, o filme é realmente uma graça! Embora a premissa possa parecer batida, dolorida e até indicar uma história cheia de sofrimento fantasiado de nostalgia, "O melhor está por vir" é justamente o contrário, ele é leve, divertido, inteligente e muito sensível para transitar entre o amor e a dor, entre a vida e a morte, sem pegar atalhos! Confesso que fui pego de surpresa, não sabia muito sobre o filme  e posso garantir que a experiência não poderia ter sido melhor.

O roteiro, dos também diretores, Matthieu Delaporte e Alexandre De La Patellière, fala de amizade, claro, mas fala muito sobre o valor e a importância do perdão - para o outro e para si mesmo! É muito inteligente a maneira como o texto pontua algumas das situações de vida desses dois amigos de infância, com personalidades tão diferentes, que precisaram lidar com as consequências de algo que não saiu tão bem como planejado. Arthur tem uma personalidade difícil, sofre com o fim do seu casamento e com a dificuldade de se relacionar com a filha pré-adolescente. Já César é um fracassado profissional, que deve muito dinheiro, mas não abre mão da boa vida. O roteiro dá uma aula de estrutura, tudo é muito bem definido e perceptível: o primeiro ato funciona como apresentação dos personagens, a origem da amizade entre eles e suas particularidades emocionais. O conflito também é naturalmente construído e ainda fortalece a diferença e o estilo de vida de cada um, agora adultos , mas sempre pontuando um elo em comum: a forte amizade! O segundo ato, nos trás muitas referências de  “Antes de Partir” com Jack Nicholson e Morgan Freeman, mas mesmo assim só faz aumentar nossa empatia com os personagens e nos divertir com as situações que eles estão passando juntos durante a jornada. E para finalizar, no terceiro ato, uma entrega sem ser excessivamente dramática, com uma mensagem completamente alinhada à tudo que foi construído durante a narrativa e o melhor: uma sensação de missão cumprida absurda - é lindo, emocionante e verdadeiro!

Se no inicio temos a sensação que "O melhor está por vir" é uma comédia "estilo pastelão" com atuações acima do tom, em seguida já percebemos algo mais suave, com mais pausas, olhares e uma química impressionante entre os dois atores que se sustenta até o final, onde a comédia, naturalmente, dá lugar ao drama - mas tudo, absolutamente tudo, sem perder a alma e a sutileza do texto - para mim, grande mérito de uma direção extremamente competente, técnica e segura de onde queria chegar! Uma menção importante: a fotografia do Guillaume Schiffman (indicado ao Oscar pelo "O Artista") é maravilhosa - vemos uma Paris pelos olhos de parisienses e isso faz toda a diferença - parece que estamos ouvindo uma história de quem realmente viveu tudo aquilo! É lindo!

Pode se preparar, "O melhor está por vir", vai mexer com seu coração, mas de uma forma leve, sem muito drama e com muita sinceridade e sutileza.

Vale muito a pena!

Assista Agora

O Melhor Infarto da Minha Vida

Como normalmente acontece com a dramaturgia argentina, especialmente nas comédias, nem todos vão amar essa minissérie de seis episódios que está no Disney+. No entanto, para aqueles dispostos a embarcar em uma jornada envolvente e cheia de ironias, especialmente por sua abordagem mais humana e muito sincera sobre as pequenas tragédias do cotidiano, eu diria que "O Melhor Infarto da Minha Vida" é um tiro mais do que certeiro - pode apostar que será uma agradável surpresa! Antes do play, saiba que Hernán Casciari é um nome conhecido na literatura daquele país por sua escrita bem-humorada e quase sempre autobiográfica - foi a partir do material original de Casciari que o roteirista Lucas Figueroa (de "Viral") captura sua essência para adaptar uma inusitada experiência de quase-morte do escritor e assim entregar uma comédia com um olhar afiado sobre a vida, sobre o destino e sobre uma segunda chance. Na linha de obras como "After Life" de Ricky Gervais ou até da inesquecível "O Método Kominsky", ambas séries que misturam humor com muita reflexão, Figueroa desenvolve uma narrativa tão divertida quanto melancólica, mas sempre apaixonante.

Na trama acompanhamos Ariel (Alan Sabbagh), um "escritor fantasma" que leva um estilo de vida caótico e sem grandes perspectivas, até que um certo dia ele sofre um infarto fulminante. É justamente esse episódio que obriga Ariel a encarar sua própria mortalidade e a repensar a maneira como tem levado sua vida nos últimos anos. Enquanto se recupera, ele passa a ver o mundo de uma forma diferente e que, inevitavelmente, acaba transformando aqueles ao seu redor. Confia o trailer (em espanhol):

A diretora Mariana Wainstein até que acerta ao manter o tom agridoce que marca os textos de Casciari, equilibrando os momentos mais cômicos com uma sensibilidade emocional dos subtextos que dá uma interessante profundidade para a narrativa. Sua direção se destaca pelo uso inteligente de planos fechados que enfatizam os momentos de vulnerabilidade de Ariel, contrastando com uma paleta de cores mais acolhedora, que reforça o lado esperançoso da história - essa dicotomia visual, muito usada na cinematografia argentina, sem a menor sobra de dúvida, traz um charme extra para a minissérie. Nesse sentido, o roteiro, escrito por Figueroa em colaboração com Maria Zanetti e com a própria Wainstein, trabalha bem o conceito de renascimento pessoal, explorando como um evento traumático pode redefinir nossas prioridades, com leveza e uma certa despretensão.

Ao olhar para o elenco, encontramos Alan Sabbagh - o ator carrega a minissérie com uma atuação carismática, transitando com naturalidade entre o sarcasmo e a fragilidade de seu personagem, sem nunca escolher os caminhos mais fáceis. Sabbagh tem uma boa dinâmica com Olivia Molina, que interpreta Concha, e com Rogelio Gracia, que vive Javier - figuras essenciais na jornada do protagonista ao ponto de criar um retrato sincero de um homem em busca de um novo sentido para sua existência.

"O Melhor Infarto da Minha Vida" é, de fato, uma experiência enxuta e bem estruturada - daquelas que matamos em uma tarde, sem tempo para enrolações. A minissérie consegue ser leve e impactante com muita elegância, convidando a audiência a rir das ironias da vida enquanto reflete sobre a importância de estar presente no "agora". Aqui, não temos um drama convencional e tampouco uma história que se propõe a trazer grandes respostas filosóficas, muito pelo contrário, "O Melhor Infarto da Minha Vida" acerta mesmo ao construir um protagonista realista e falho enquanto torna sua jornada de redescoberta uma experiência realmente autêntica e marcante - para todos.

Se você gosta de narrativas que exploram o humor dentro de um contexto de tragédia, vale muito a pena dar uma chance para "O Melhor Infarto da Minha Vida"!

Assista Agora

Como normalmente acontece com a dramaturgia argentina, especialmente nas comédias, nem todos vão amar essa minissérie de seis episódios que está no Disney+. No entanto, para aqueles dispostos a embarcar em uma jornada envolvente e cheia de ironias, especialmente por sua abordagem mais humana e muito sincera sobre as pequenas tragédias do cotidiano, eu diria que "O Melhor Infarto da Minha Vida" é um tiro mais do que certeiro - pode apostar que será uma agradável surpresa! Antes do play, saiba que Hernán Casciari é um nome conhecido na literatura daquele país por sua escrita bem-humorada e quase sempre autobiográfica - foi a partir do material original de Casciari que o roteirista Lucas Figueroa (de "Viral") captura sua essência para adaptar uma inusitada experiência de quase-morte do escritor e assim entregar uma comédia com um olhar afiado sobre a vida, sobre o destino e sobre uma segunda chance. Na linha de obras como "After Life" de Ricky Gervais ou até da inesquecível "O Método Kominsky", ambas séries que misturam humor com muita reflexão, Figueroa desenvolve uma narrativa tão divertida quanto melancólica, mas sempre apaixonante.

Na trama acompanhamos Ariel (Alan Sabbagh), um "escritor fantasma" que leva um estilo de vida caótico e sem grandes perspectivas, até que um certo dia ele sofre um infarto fulminante. É justamente esse episódio que obriga Ariel a encarar sua própria mortalidade e a repensar a maneira como tem levado sua vida nos últimos anos. Enquanto se recupera, ele passa a ver o mundo de uma forma diferente e que, inevitavelmente, acaba transformando aqueles ao seu redor. Confia o trailer (em espanhol):

A diretora Mariana Wainstein até que acerta ao manter o tom agridoce que marca os textos de Casciari, equilibrando os momentos mais cômicos com uma sensibilidade emocional dos subtextos que dá uma interessante profundidade para a narrativa. Sua direção se destaca pelo uso inteligente de planos fechados que enfatizam os momentos de vulnerabilidade de Ariel, contrastando com uma paleta de cores mais acolhedora, que reforça o lado esperançoso da história - essa dicotomia visual, muito usada na cinematografia argentina, sem a menor sobra de dúvida, traz um charme extra para a minissérie. Nesse sentido, o roteiro, escrito por Figueroa em colaboração com Maria Zanetti e com a própria Wainstein, trabalha bem o conceito de renascimento pessoal, explorando como um evento traumático pode redefinir nossas prioridades, com leveza e uma certa despretensão.

Ao olhar para o elenco, encontramos Alan Sabbagh - o ator carrega a minissérie com uma atuação carismática, transitando com naturalidade entre o sarcasmo e a fragilidade de seu personagem, sem nunca escolher os caminhos mais fáceis. Sabbagh tem uma boa dinâmica com Olivia Molina, que interpreta Concha, e com Rogelio Gracia, que vive Javier - figuras essenciais na jornada do protagonista ao ponto de criar um retrato sincero de um homem em busca de um novo sentido para sua existência.

"O Melhor Infarto da Minha Vida" é, de fato, uma experiência enxuta e bem estruturada - daquelas que matamos em uma tarde, sem tempo para enrolações. A minissérie consegue ser leve e impactante com muita elegância, convidando a audiência a rir das ironias da vida enquanto reflete sobre a importância de estar presente no "agora". Aqui, não temos um drama convencional e tampouco uma história que se propõe a trazer grandes respostas filosóficas, muito pelo contrário, "O Melhor Infarto da Minha Vida" acerta mesmo ao construir um protagonista realista e falho enquanto torna sua jornada de redescoberta uma experiência realmente autêntica e marcante - para todos.

Se você gosta de narrativas que exploram o humor dentro de um contexto de tragédia, vale muito a pena dar uma chance para "O Melhor Infarto da Minha Vida"!

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O Método Kominsky

Embora estivesse na minha lista desde o lançamento, eu comecei assistir "O Método Kominsky" apenas após as premiações do Globo de Ouro de 2019, onde a série levou "Melhor Comédia ou Musical" e "Melhor Ator" com o Michael Douglas. Olha, de cara eu posso te dizer que a série não é para qualquer um; ela tem um humor bem peculiar, muito ácido - quase inglês!!! A narrativa também não é tão dinâmica, pois o texto exige muitas pausas, reflexões - o silêncio diz muito nessa série!!! A verdade é que quem não estiver realmente disposto a mergulhar nesse universo (tão particular e reflexivo), não vai se divertir.

Dois grandes amigos, acima dos 70 anos: um respeitado Professor de Teatro (por isso a referência do título) e seu agente precisam lidar com os reflexos da idade e a relação com mundo em que vivem. E como todo senhor "bem" humorado, é no mal humor dessa intimidade verdadeira que estão as pérolas dessa série. Michael Douglas (como Sandy Kominsky) e Alan Arkin (como Norman) estão simplesmente perfeitos - aliás, merecidíssimo o prêmio de melhor ator para Douglas e a indicação de ator coadjuvante para Arkin!!! Os dois são a série e dão um show!!!

Eu não sabia absolutamente nada sobre a série e logo depois da primeira cena, já me arrependi de não ter assistido antes - ela é sensacional!!! Enganasse quem assiste com o intuito de encontrar uma comédia tipo "Two and a half man", por exemplo (que é do mesmo produtor - Chuck Lorre, por isso a comparação) - é completamente diferente, pois mesmo parecendo estereotipados, os personagens são muito humanos e isso trás para a tela uma complexidade muito bem trabalhada nas situações que esses dois amigos vivem! A série fala de amizade, de relações entre pessoas e com o amadurecimento como ser humano. Fala sobre envelhecer, sobre perder a vitalidade. Fala sobre as novas gerações, suas diferenças, peculiaridades. Mas principalmente, fala sobre o que projetamos para nossa vida em alguns anos! São muito sensíveis essas discussões no roteiro, tudo está muito escondido entre um comentário (que pode até soar engraçado) e uma piada (que nem sempre nos faz rir e sim refletir). Existe um leveza na dor de lidar com o tempo e isso é magnífico!

O Método Kominsky é daquelas séries que você não quer acabe. O fato de termos 8 episódios de 30 minutos ajuda na experiência, pois não cansa viver cada um daqueles minutos. O mal humor tem seu charme (vide Dr. House) e o desprendimento de lidar com ele de uma forma leve, trás muita coisa boa para essa comédia cheia de drama (e de verdade). Se você tem mais de 35 anos, fez teatro na adolescência, tem aqueles amigos de uma vida inteira, faz um favor pra você: não deixe de assistir! Se não se enquadra na lista anterior, mas está disposto a encarar como bom humor o que vem por aí, também aproveite, porque vale o play! 

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Embora estivesse na minha lista desde o lançamento, eu comecei assistir "O Método Kominsky" apenas após as premiações do Globo de Ouro de 2019, onde a série levou "Melhor Comédia ou Musical" e "Melhor Ator" com o Michael Douglas. Olha, de cara eu posso te dizer que a série não é para qualquer um; ela tem um humor bem peculiar, muito ácido - quase inglês!!! A narrativa também não é tão dinâmica, pois o texto exige muitas pausas, reflexões - o silêncio diz muito nessa série!!! A verdade é que quem não estiver realmente disposto a mergulhar nesse universo (tão particular e reflexivo), não vai se divertir.

Dois grandes amigos, acima dos 70 anos: um respeitado Professor de Teatro (por isso a referência do título) e seu agente precisam lidar com os reflexos da idade e a relação com mundo em que vivem. E como todo senhor "bem" humorado, é no mal humor dessa intimidade verdadeira que estão as pérolas dessa série. Michael Douglas (como Sandy Kominsky) e Alan Arkin (como Norman) estão simplesmente perfeitos - aliás, merecidíssimo o prêmio de melhor ator para Douglas e a indicação de ator coadjuvante para Arkin!!! Os dois são a série e dão um show!!!

Eu não sabia absolutamente nada sobre a série e logo depois da primeira cena, já me arrependi de não ter assistido antes - ela é sensacional!!! Enganasse quem assiste com o intuito de encontrar uma comédia tipo "Two and a half man", por exemplo (que é do mesmo produtor - Chuck Lorre, por isso a comparação) - é completamente diferente, pois mesmo parecendo estereotipados, os personagens são muito humanos e isso trás para a tela uma complexidade muito bem trabalhada nas situações que esses dois amigos vivem! A série fala de amizade, de relações entre pessoas e com o amadurecimento como ser humano. Fala sobre envelhecer, sobre perder a vitalidade. Fala sobre as novas gerações, suas diferenças, peculiaridades. Mas principalmente, fala sobre o que projetamos para nossa vida em alguns anos! São muito sensíveis essas discussões no roteiro, tudo está muito escondido entre um comentário (que pode até soar engraçado) e uma piada (que nem sempre nos faz rir e sim refletir). Existe um leveza na dor de lidar com o tempo e isso é magnífico!

O Método Kominsky é daquelas séries que você não quer acabe. O fato de termos 8 episódios de 30 minutos ajuda na experiência, pois não cansa viver cada um daqueles minutos. O mal humor tem seu charme (vide Dr. House) e o desprendimento de lidar com ele de uma forma leve, trás muita coisa boa para essa comédia cheia de drama (e de verdade). Se você tem mais de 35 anos, fez teatro na adolescência, tem aqueles amigos de uma vida inteira, faz um favor pra você: não deixe de assistir! Se não se enquadra na lista anterior, mas está disposto a encarar como bom humor o que vem por aí, também aproveite, porque vale o play! 

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O Museu

Esse é mais um projeto dos criativos Mariano Cohn, Andrés Duprat e Gastón Duprat - e se você não sabe de quem eu estou falando, volte três casas e assista os imperdíveis: "O Cidadão Ilustre", "Meu Querido Zelador" e "O Faz Nada"! Olha, é impressionante como esse trio (um dos mais criativos do cinema argentino em muito tempo) tem uma capacidade absurda de criar personagens complexos e ao mesmo tempo apaixonantes - em todos os seus projetos, nada é o que parece e nem por isso o roteiro se apoia em esteriótipos para soar engraçado. Na verdade, e me contradizendo, os estereótipos até estão lá, mas mais humanizados, cheios de camadas, na linha tênue entre o ame ou odeie ou entre o mocinho e o bandido - simplesmente genial! Em "O Museu", mais uma vez, seu protagonista, o impagável Antonio Dumas (brilhantemente interpretado pelo Oscar Martínez), brilha e traz consigo a interessante premissa de discutir (e criticar) o papel da arte na superficial sociedade contemporânea.

Basicamente, "Bellas Artes" (no original) acompanha o dia a dia de Antonio Dumas, um renomado e cínico curador, que acaba de assumir a direção do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri. A partir dessa premissa aparentemente simples, essa série de seis episódios tece uma narrativa inteligente e multifacetada, explorando temas sensíveis como a mercantilização da arte, a superficialidade da elite cultural, a banalização da cultura woke e a busca por um significado em um mundo cada vez mais caótico. Confira o trailer:

Pautada pelo humor ácido e cirúrgico,"O Museu" nos apresenta a um universo peculiar, onde obras de arte desafiam as convenções e provocam questionamentos sobre o que realmente é arte - obviamente que sempre carregada de muita crítica e alguns apontamentos bem politicamente incorretos (ainda bem). É através do olhar aguçado de Antonio Dumas que somos confrontados com algumas das instalações mais bizarras, performances excêntricas e conceitos pseudo-abstratos que desafiam nossa percepção do belo. Com uma dinâmica narrativa das mais agradáveis, a série nos leva além das aparências ao buscar um significado mais profundo nas obras, questionando os valores e as crenças que permeiam o mundo na atualidade, sem perder a classe, o respeito ou a piada - não necessariamente nessa ordem.

Oscar Martínez (o protagonista de "O Cidadão Ilustre"), mais uma vez entrega uma performance magistral como Antonio Dumas, capturando com perfeição toda a arrogância, o egocentrismo, o cinismo e até um descompasso geracional do seu personagem com muita verdade. Veja, aqui não se trata de levantar bandeiras ou de diminuir algumas lutas, mas de discutir todas essas agendas por outras perspectivas ao ponto de refletirmos sobre algumas "verdades absolutas" que não se sustentam (ou pelo menos, não deveriam). Ao lado de Martínez, encontramos um elenco talentoso, incluindo um impagável Fernando Albizu e uma divertida Aixa Villagrán - mesmo sem tanto tempo de tela, eles a ajudam a construir um Antonio Duma bem mais palpável. Aqui a direção dos Duprat e de Cohn ganha força - utilizando de uma gramática cinematográfica já conhecida desde seus outros projetos, o trio basicamente recria a mesma atmosfera divertida e constrangedora que já virou uma identidade e que nos coloca na frente da tela com a certeza de que vamos encontrar um ótimo entretenimento.

A verdade é que "O Museu" é uma obra de arte em si mesma, desde que você se conecte com o humor mais ácido e provocador de seus criadores. Eu diria até que a série é um convite para uma jornada intelectual única que vai te fazer pensar ao mesmo tempo em que vai te desafiar a rever suas percepções sobre a arte em um mundo transformado, conectado e superficial, mas com um toque de cinismo divertidíssimo!

Vale muito o seu play!

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Esse é mais um projeto dos criativos Mariano Cohn, Andrés Duprat e Gastón Duprat - e se você não sabe de quem eu estou falando, volte três casas e assista os imperdíveis: "O Cidadão Ilustre", "Meu Querido Zelador" e "O Faz Nada"! Olha, é impressionante como esse trio (um dos mais criativos do cinema argentino em muito tempo) tem uma capacidade absurda de criar personagens complexos e ao mesmo tempo apaixonantes - em todos os seus projetos, nada é o que parece e nem por isso o roteiro se apoia em esteriótipos para soar engraçado. Na verdade, e me contradizendo, os estereótipos até estão lá, mas mais humanizados, cheios de camadas, na linha tênue entre o ame ou odeie ou entre o mocinho e o bandido - simplesmente genial! Em "O Museu", mais uma vez, seu protagonista, o impagável Antonio Dumas (brilhantemente interpretado pelo Oscar Martínez), brilha e traz consigo a interessante premissa de discutir (e criticar) o papel da arte na superficial sociedade contemporânea.

Basicamente, "Bellas Artes" (no original) acompanha o dia a dia de Antonio Dumas, um renomado e cínico curador, que acaba de assumir a direção do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofía, em Madri. A partir dessa premissa aparentemente simples, essa série de seis episódios tece uma narrativa inteligente e multifacetada, explorando temas sensíveis como a mercantilização da arte, a superficialidade da elite cultural, a banalização da cultura woke e a busca por um significado em um mundo cada vez mais caótico. Confira o trailer:

Pautada pelo humor ácido e cirúrgico,"O Museu" nos apresenta a um universo peculiar, onde obras de arte desafiam as convenções e provocam questionamentos sobre o que realmente é arte - obviamente que sempre carregada de muita crítica e alguns apontamentos bem politicamente incorretos (ainda bem). É através do olhar aguçado de Antonio Dumas que somos confrontados com algumas das instalações mais bizarras, performances excêntricas e conceitos pseudo-abstratos que desafiam nossa percepção do belo. Com uma dinâmica narrativa das mais agradáveis, a série nos leva além das aparências ao buscar um significado mais profundo nas obras, questionando os valores e as crenças que permeiam o mundo na atualidade, sem perder a classe, o respeito ou a piada - não necessariamente nessa ordem.

Oscar Martínez (o protagonista de "O Cidadão Ilustre"), mais uma vez entrega uma performance magistral como Antonio Dumas, capturando com perfeição toda a arrogância, o egocentrismo, o cinismo e até um descompasso geracional do seu personagem com muita verdade. Veja, aqui não se trata de levantar bandeiras ou de diminuir algumas lutas, mas de discutir todas essas agendas por outras perspectivas ao ponto de refletirmos sobre algumas "verdades absolutas" que não se sustentam (ou pelo menos, não deveriam). Ao lado de Martínez, encontramos um elenco talentoso, incluindo um impagável Fernando Albizu e uma divertida Aixa Villagrán - mesmo sem tanto tempo de tela, eles a ajudam a construir um Antonio Duma bem mais palpável. Aqui a direção dos Duprat e de Cohn ganha força - utilizando de uma gramática cinematográfica já conhecida desde seus outros projetos, o trio basicamente recria a mesma atmosfera divertida e constrangedora que já virou uma identidade e que nos coloca na frente da tela com a certeza de que vamos encontrar um ótimo entretenimento.

A verdade é que "O Museu" é uma obra de arte em si mesma, desde que você se conecte com o humor mais ácido e provocador de seus criadores. Eu diria até que a série é um convite para uma jornada intelectual única que vai te fazer pensar ao mesmo tempo em que vai te desafiar a rever suas percepções sobre a arte em um mundo transformado, conectado e superficial, mas com um toque de cinismo divertidíssimo!

Vale muito o seu play!

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O Pior Vizinho do Mundo

Assistam esse filme - é sério!

Mesmo que essa jornada seja daquelas de apertar o coração, é bem provável que ao subirem os créditos, a sensação seja a melhor possível. Eu diria, inclusive, que "O Pior Vizinho do Mundo" tem muito do que fez nos apaixonarmos por "O Método Kominsky" - do mal humor do protagonista à sua maneira de lidar com um mundo que parece não servir mais para nada por estar repleto de idiotas (palavras do protagonista, não minhas...rs). Dirigido pelo alemão Marc Forster (de "Em Busca da Terra do Nunca"), "A Man Called Otto" (no original) é básico em muitos sentidos, mas sem dúvida alguma se aproveita da presença de Tom Hanks e da sua enorme capacidade como ator, para criar um ponto de conexão com a audiência que torna impossível não torcer por ele e por sua felicidade. É clichê dos grandes, eu sei - mas funciona demais aqui!

Otto Anderson (Hanks), é um viúvo, mal-humorado e cheio de hábitos, na sua maioria ranzinzas. Quando um jovem e atrapalhado casal, com suas duas filhas pequenas, chegam no bairro, Otto começa a perceber nos pequenos gestos de sua vizinha Marisol (Mariana Treviño), uma nova forma de olhar para a vida, o que leva para uma amizade improvável e que, por outro lado, coloca seu mundo (todo organizadinho) de cabeça para baixo. Confira o trailer:

Inspirado no livro de Fredrik Beckman, o roteiro de "O Pior Vizinho do Mundo" não surpreende ao seguir um padrão linear de narrativa (o que torna sua trama bastante previsível) onde os eventos se desenrolam de maneira conveniente para o desenvolvimento emocional do protagonista - veja, isso não é um problema se ficar claro desde a primeira cena, que estamos falando de um filme essencialmente de ator. Hanks, como não poderia deixar de ser, leva o filme nas costas e naturalmente vai entregando algumas peças que ao olharmos para o todo, um pouco mais a frente, fazem muito sentido - embora fique claro que essa sempre foi a zona de conforto do filme. Isso faz do filme ruim? Não, pelo contrário, apenas estabelece a proposta do diretor de priorizar a complexidade do ser humano, e de seus sentimentos, ao invés de uma espetacularização superficial de uma condição que merece ser discutida com mais profundidade. 

Com a anuência do roteirista David Magee (do live-action de "A Pequena Sereia"), Forster abre mão do desenvolvimento dos personagens secundários para não tirar o foco do processo de transformação de Otto. Esses personagens têm certa importância, se relacionam com o protagonista no presente (alguns até no passado - nos flashbacks que ajudam a explicar alguns fatos), têm impacto na vida dele, mas são pouco explorados - eles acabam sendo retratados de maneira mais passageira, com características estereotipadas e unidimensionais, servindo como equilíbrio entre o drama e a comédia. Reparem no arco de Anita (Juanita Jennings) e Reuben (Peter Lawson Jones); eles são a personificação da dualidade desse conceito - a passagem onde Otto critica os carros de Reuben é impagável, mas o seu significado intimo vai além da escolha de uma marca de automóvel.

Por mais desconfortável que possa ser acompanhar Otto tentando o tirar sua vida, a forma como essas cenas são retratadas no filme, acreditem,  trazem até uma certa comicidade para o assunto, onde suas falhas acabam mostrando muito mais um lado otimista do que o peso do ato em si - definir "O Pior Vizinho do Mundo" como uma dramédia clássica ajuda muito a entender esse conceito. Essa dualidade, que em muitos momentos define o jogo narrativo proposto por Magee e Forster dão o tom e entregam uma mensagem de mais empatia, de redenção e de aceitação sobre a importância das relações humanas (verdadeiras). A história de Otto se mistura com a de alguém que conhecemos e por isso acaba oferecendo ótimas reflexões sobre o envelhecimento, sobre a solidão e, principalmente, sobre a busca por um ressignificado na vida. 

Dito tudo isso, minha recomendação é a seguinte: dê o play e seja feliz!

Assista Agora

Assistam esse filme - é sério!

Mesmo que essa jornada seja daquelas de apertar o coração, é bem provável que ao subirem os créditos, a sensação seja a melhor possível. Eu diria, inclusive, que "O Pior Vizinho do Mundo" tem muito do que fez nos apaixonarmos por "O Método Kominsky" - do mal humor do protagonista à sua maneira de lidar com um mundo que parece não servir mais para nada por estar repleto de idiotas (palavras do protagonista, não minhas...rs). Dirigido pelo alemão Marc Forster (de "Em Busca da Terra do Nunca"), "A Man Called Otto" (no original) é básico em muitos sentidos, mas sem dúvida alguma se aproveita da presença de Tom Hanks e da sua enorme capacidade como ator, para criar um ponto de conexão com a audiência que torna impossível não torcer por ele e por sua felicidade. É clichê dos grandes, eu sei - mas funciona demais aqui!

Otto Anderson (Hanks), é um viúvo, mal-humorado e cheio de hábitos, na sua maioria ranzinzas. Quando um jovem e atrapalhado casal, com suas duas filhas pequenas, chegam no bairro, Otto começa a perceber nos pequenos gestos de sua vizinha Marisol (Mariana Treviño), uma nova forma de olhar para a vida, o que leva para uma amizade improvável e que, por outro lado, coloca seu mundo (todo organizadinho) de cabeça para baixo. Confira o trailer:

Inspirado no livro de Fredrik Beckman, o roteiro de "O Pior Vizinho do Mundo" não surpreende ao seguir um padrão linear de narrativa (o que torna sua trama bastante previsível) onde os eventos se desenrolam de maneira conveniente para o desenvolvimento emocional do protagonista - veja, isso não é um problema se ficar claro desde a primeira cena, que estamos falando de um filme essencialmente de ator. Hanks, como não poderia deixar de ser, leva o filme nas costas e naturalmente vai entregando algumas peças que ao olharmos para o todo, um pouco mais a frente, fazem muito sentido - embora fique claro que essa sempre foi a zona de conforto do filme. Isso faz do filme ruim? Não, pelo contrário, apenas estabelece a proposta do diretor de priorizar a complexidade do ser humano, e de seus sentimentos, ao invés de uma espetacularização superficial de uma condição que merece ser discutida com mais profundidade. 

Com a anuência do roteirista David Magee (do live-action de "A Pequena Sereia"), Forster abre mão do desenvolvimento dos personagens secundários para não tirar o foco do processo de transformação de Otto. Esses personagens têm certa importância, se relacionam com o protagonista no presente (alguns até no passado - nos flashbacks que ajudam a explicar alguns fatos), têm impacto na vida dele, mas são pouco explorados - eles acabam sendo retratados de maneira mais passageira, com características estereotipadas e unidimensionais, servindo como equilíbrio entre o drama e a comédia. Reparem no arco de Anita (Juanita Jennings) e Reuben (Peter Lawson Jones); eles são a personificação da dualidade desse conceito - a passagem onde Otto critica os carros de Reuben é impagável, mas o seu significado intimo vai além da escolha de uma marca de automóvel.

Por mais desconfortável que possa ser acompanhar Otto tentando o tirar sua vida, a forma como essas cenas são retratadas no filme, acreditem,  trazem até uma certa comicidade para o assunto, onde suas falhas acabam mostrando muito mais um lado otimista do que o peso do ato em si - definir "O Pior Vizinho do Mundo" como uma dramédia clássica ajuda muito a entender esse conceito. Essa dualidade, que em muitos momentos define o jogo narrativo proposto por Magee e Forster dão o tom e entregam uma mensagem de mais empatia, de redenção e de aceitação sobre a importância das relações humanas (verdadeiras). A história de Otto se mistura com a de alguém que conhecemos e por isso acaba oferecendo ótimas reflexões sobre o envelhecimento, sobre a solidão e, principalmente, sobre a busca por um ressignificado na vida. 

Dito tudo isso, minha recomendação é a seguinte: dê o play e seja feliz!

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O que os homens falam

"O que os homens falam" é excelente! Esse premiado filme espanhol é simplesmente delicioso de assistir, desde que goste daquelas histórias sobre relações tão particulares do Woody Allen e que praticamente se tornaram um subgênero da dramédia com produções como "Easy" da Netflix ou "Modern Love"da própria Prime Vídeo. 

Seguindo a estrutura de "Relatos Selvagens", aqui temos oito homens que enfrentam a crise de meia-idade divididos em cinco episódios independentes. E. (Eduardo Fernandez) é aquele homem que se acha um fracassado, ele acaba de perder tudo (inclusive a mulher) e volta a morar na casa da mãe com seus 45 anos; ele se encontra casualmente com um amigo de longa data, J. (Eduardo Sbaraglia), que venceu profissionalmente na vida, conquistando tudo que sempre desejou, mas que sofre de ansiedade e depressão. Já S. (Javier Camara) tenta retomar o casamento dois anos após o divórcio, enquanto G. (Ricardo Darín) confessa para o conhecido L. (Luis Tosar) que desconfia que sua esposa está traindo ele. P. (Eduardo Noriega) é um jovem que tenta seduzir uma colega durante uma festa de trabalho, mas acaba sendo surpreendido por ela. E para finalizar, conhecemos A. (Alberto San Juan) e M. (Jordi Mollà) dois grandes amigos que têm seus segredos íntimos revelados pelas mulheres quando estão a caminho de uma festa de aniversário. Confira o trailer (em espanhol):

Os dois elementos que mais chamam atenção logo a primeira vista e que merece todos os elogios possíveis são: o roteiro e o trabalho do elenco. Ao partirmos do princípio que o filme se apropria de um estilo de crônicas sobre o universo masculino, formatadas para serem facilmente digeridas pela audiência e equilibrando o drama da situação com a leveza do diálogo, fica muito claro a importância de um texto inteligente e da performance dos atores - é impressionante como as histórias são próximas de uma realidade que "já ouvimos falar". Basicamente, "O que os homens falam" são como esquetes teatrais, elas seguem um ritmo próprio e a composição dos temas discutidos são parecidos, mas são as ironias que dão o toque final - eu diria, aliás, que essas ironias são recheadas de uma honestidade brutal, e isso é incrível. 

É preciso dizer que "Una pistola en cada mano" (título original) transita muito bem entre a angústia de uma situação com a necessidade de não expor os sentimentos - tão particular do gênero masculino. Essa sutileza dramática eleva conversas que aparentemente são banais, mas que carregam muitos sentimentos e inseguranças! Não esperem conclusões filosóficas ao final de cada história, não é essa a intenção do roteiro e muito menos do diretor Cesc Gay - o que precisa ser dito, é dito e pronto; o segredo (e a beleza desse tipo de narrativa) é o que fazemos com toda informação que nos é dada e como refletimos ao projetarmos a mesma situação em nossa vida.

"O que os homens falam" é um filme que poderia ser uma temporada de "Easy" facilmente (ou de duas séries inglesas com o mesmo tema: "Dates" e "True Love" que infelizmente não chamaram tanta atenção até aqui). Vale muito a pena, é um entretenimento inteligente, com um toque de provocação e curiosidade feminina - prato cheio para o julgamento, mas sensata ao desconstruir o esteriótipo do macho alpha!

Pode dar o play sem receio!

Assista Agora

"O que os homens falam" é excelente! Esse premiado filme espanhol é simplesmente delicioso de assistir, desde que goste daquelas histórias sobre relações tão particulares do Woody Allen e que praticamente se tornaram um subgênero da dramédia com produções como "Easy" da Netflix ou "Modern Love"da própria Prime Vídeo. 

Seguindo a estrutura de "Relatos Selvagens", aqui temos oito homens que enfrentam a crise de meia-idade divididos em cinco episódios independentes. E. (Eduardo Fernandez) é aquele homem que se acha um fracassado, ele acaba de perder tudo (inclusive a mulher) e volta a morar na casa da mãe com seus 45 anos; ele se encontra casualmente com um amigo de longa data, J. (Eduardo Sbaraglia), que venceu profissionalmente na vida, conquistando tudo que sempre desejou, mas que sofre de ansiedade e depressão. Já S. (Javier Camara) tenta retomar o casamento dois anos após o divórcio, enquanto G. (Ricardo Darín) confessa para o conhecido L. (Luis Tosar) que desconfia que sua esposa está traindo ele. P. (Eduardo Noriega) é um jovem que tenta seduzir uma colega durante uma festa de trabalho, mas acaba sendo surpreendido por ela. E para finalizar, conhecemos A. (Alberto San Juan) e M. (Jordi Mollà) dois grandes amigos que têm seus segredos íntimos revelados pelas mulheres quando estão a caminho de uma festa de aniversário. Confira o trailer (em espanhol):

Os dois elementos que mais chamam atenção logo a primeira vista e que merece todos os elogios possíveis são: o roteiro e o trabalho do elenco. Ao partirmos do princípio que o filme se apropria de um estilo de crônicas sobre o universo masculino, formatadas para serem facilmente digeridas pela audiência e equilibrando o drama da situação com a leveza do diálogo, fica muito claro a importância de um texto inteligente e da performance dos atores - é impressionante como as histórias são próximas de uma realidade que "já ouvimos falar". Basicamente, "O que os homens falam" são como esquetes teatrais, elas seguem um ritmo próprio e a composição dos temas discutidos são parecidos, mas são as ironias que dão o toque final - eu diria, aliás, que essas ironias são recheadas de uma honestidade brutal, e isso é incrível. 

É preciso dizer que "Una pistola en cada mano" (título original) transita muito bem entre a angústia de uma situação com a necessidade de não expor os sentimentos - tão particular do gênero masculino. Essa sutileza dramática eleva conversas que aparentemente são banais, mas que carregam muitos sentimentos e inseguranças! Não esperem conclusões filosóficas ao final de cada história, não é essa a intenção do roteiro e muito menos do diretor Cesc Gay - o que precisa ser dito, é dito e pronto; o segredo (e a beleza desse tipo de narrativa) é o que fazemos com toda informação que nos é dada e como refletimos ao projetarmos a mesma situação em nossa vida.

"O que os homens falam" é um filme que poderia ser uma temporada de "Easy" facilmente (ou de duas séries inglesas com o mesmo tema: "Dates" e "True Love" que infelizmente não chamaram tanta atenção até aqui). Vale muito a pena, é um entretenimento inteligente, com um toque de provocação e curiosidade feminina - prato cheio para o julgamento, mas sensata ao desconstruir o esteriótipo do macho alpha!

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O Tigre Branco

"O Tigre Branco" é uma espécie de "Cidade de Deus" da Índia. Ok, talvez sem a mesma genialidade da direção do Fernando Meirelles ou até do roteiro do Bráulio Mantovani, mas é um fato que a produção da Netflix entrega uma jornada tão dinâmica e surpreendente quanto. Muito bem produzida e com um protagonista que dá uma aula de interpretação, Adarsh Gourav, o filme á uma agradável surpresa e merece muito nossa atenção!

O filme é uma adaptação de um livro de muito sucesso escrito por Aravind Adiga, e narra a trajetória de Balram (Adarsh Gourav), um jovem indiano que nasceu no meio da miséria em um vilarejo distante da capital e que foi ensinado desde pequeno que seu destino era escolher um grande marajá para servir até o fim da sua vida com muita lealdade. Trabalhando como motorista para o filho de um magnata da região, Balram começa, aos poucos, sentir na pele a desigualdade entre a sua casta e a dos afortunados, e com isso entende o ritmo que dita os rumos do capitalismo em seu país. Quando se dá conta de que é só mais uma galinha dentro de um enorme galinheiro que sabe que será abatida e nem por isso tenta fugir (uma metáfora cruel que o acompanha durante sua saga), o jovem muda seus conceitos e atitudes para buscar o topo que lhe foi sempre renegado e assim se tornar um grande empresário do país. Confira o trailer:

Como em "Cidade de Deus", a história não respeita a linha temporal convencional e é narrada por Balram a partir do seu ponto de vista, enquanto escreve um email para o primeiro-ministro chinês que estará de passagem pela Índia para reuniões com empresários locais. Além de um texto crítico, mas muito bem equilibrado com um humor ácido e inteligente, o premiado diretor americano Ramin Bahrani (de Fahrenheit 451) entrega com a mesma competência a construção de um conto de fadas moderno bem leve na primeira metade com a desconstrução de um mito carregado de drama e angústia na segunda. A fotografia de Paolo Carnera (de Suburra), além de posicionar a narrativa na linha do tempo, com as cenas no presente em cores mais frias e no passado com cores mais quentes, ele também capta maravilhosamente bem os contrastes sociais da Índia e como os personagens se relacionam de formas completamente diferentes com esse abismo - lembrou muito o trabalho do Kyung-pyo Hong em "Parasita", se não na simbologia, pelo menos na intenção!

"O Tigre Branco" tenta nos mostrar que os fins justificam os meios, desde que feito com o coração e sirva de transformação para quem será capaz de olhar para o outro com mais humanidade. Mesmo apoiado na figura do anti-herói, é fácil compreender suas motivações e entender que tudo não passa de uma reação perante um mundo cruel e inegavelmente real! Como em "Cidade Deus", o certo é relativo, mas o errado é uma certeza tão sistemática que uma história que tinha tudo para ser uma jornada de superação e resiliência se torna uma desconfortável, e nada sutil, versão da realidade! Vale muito a pena!

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"O Tigre Branco" é uma espécie de "Cidade de Deus" da Índia. Ok, talvez sem a mesma genialidade da direção do Fernando Meirelles ou até do roteiro do Bráulio Mantovani, mas é um fato que a produção da Netflix entrega uma jornada tão dinâmica e surpreendente quanto. Muito bem produzida e com um protagonista que dá uma aula de interpretação, Adarsh Gourav, o filme á uma agradável surpresa e merece muito nossa atenção!

O filme é uma adaptação de um livro de muito sucesso escrito por Aravind Adiga, e narra a trajetória de Balram (Adarsh Gourav), um jovem indiano que nasceu no meio da miséria em um vilarejo distante da capital e que foi ensinado desde pequeno que seu destino era escolher um grande marajá para servir até o fim da sua vida com muita lealdade. Trabalhando como motorista para o filho de um magnata da região, Balram começa, aos poucos, sentir na pele a desigualdade entre a sua casta e a dos afortunados, e com isso entende o ritmo que dita os rumos do capitalismo em seu país. Quando se dá conta de que é só mais uma galinha dentro de um enorme galinheiro que sabe que será abatida e nem por isso tenta fugir (uma metáfora cruel que o acompanha durante sua saga), o jovem muda seus conceitos e atitudes para buscar o topo que lhe foi sempre renegado e assim se tornar um grande empresário do país. Confira o trailer:

Como em "Cidade de Deus", a história não respeita a linha temporal convencional e é narrada por Balram a partir do seu ponto de vista, enquanto escreve um email para o primeiro-ministro chinês que estará de passagem pela Índia para reuniões com empresários locais. Além de um texto crítico, mas muito bem equilibrado com um humor ácido e inteligente, o premiado diretor americano Ramin Bahrani (de Fahrenheit 451) entrega com a mesma competência a construção de um conto de fadas moderno bem leve na primeira metade com a desconstrução de um mito carregado de drama e angústia na segunda. A fotografia de Paolo Carnera (de Suburra), além de posicionar a narrativa na linha do tempo, com as cenas no presente em cores mais frias e no passado com cores mais quentes, ele também capta maravilhosamente bem os contrastes sociais da Índia e como os personagens se relacionam de formas completamente diferentes com esse abismo - lembrou muito o trabalho do Kyung-pyo Hong em "Parasita", se não na simbologia, pelo menos na intenção!

"O Tigre Branco" tenta nos mostrar que os fins justificam os meios, desde que feito com o coração e sirva de transformação para quem será capaz de olhar para o outro com mais humanidade. Mesmo apoiado na figura do anti-herói, é fácil compreender suas motivações e entender que tudo não passa de uma reação perante um mundo cruel e inegavelmente real! Como em "Cidade Deus", o certo é relativo, mas o errado é uma certeza tão sistemática que uma história que tinha tudo para ser uma jornada de superação e resiliência se torna uma desconfortável, e nada sutil, versão da realidade! Vale muito a pena!

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