"Cherry - Inocência Perdida", novo filme dos irmão Russo para o AppleTV+, vem dividindo opiniões graças a quantidade enorme de elementos que os diretores Anthony e Joe escolheram para compor, tanto o conceito visual como o narrativo. Eu, pessoalmente, gostei muito do filme - especialmente do trabalho do Tom Holland que desde "O diabo de cada dia"vem se mostrando cada vez mais maduro e consciente do seu talento.
O fato é que "Cherry" não é linear como obra, sua cadência varia muito entre os "capítulos" (cinco no total + prólogo e epílogo) que pontuam a jornada do protagonista e, talvez por isso, tenha encontrado ainda mais resistência - acho até que se o filme tivesse poucas intervenções gráficas e vinte minutos a menos, tirando um epílogo completamente dispensável, a percepção pudesse até ser outra - e aqui estou falando de percepção mesmo, porque o filme está longe de ser ruim como vou explicar abaixo.
Holland é Cherry (algo como "cabaço" - em um jogo de palavras também usado para definir alguém fraco de cabeça e de postura perante a vida) é um jovem americano que se alista no Exército depois que sua namorada resolve estudar no Canadá apenas para se afastar dele. Nessa mistura entre o luto emocional e a busca por um novo propósito, Cherry acaba descobrindo o horror na Guerra do Iraque e seus terríveis reflexos pós-traumáticos. Essa ruína física e mental culmina em um profundo vicio, primeiro em remédios contra a ansiedade e depois em heroína, transformando sua vida em um verdadeiro caos - uma bola de neve que mistura drogas, crimes e solidão. Confira o trailer:
Primeiro a quebra da quarta parede (aquele artifício narrativo onde o personagem fala diretamente para câmera, no meio da ação, quase como um confidente para quem assiste - tão bem utilizada por Frank Underwood de "House of Cards", diga-se de passagem) e depois muita narração em off, passam a impressão de um filme com muita identidade logo de cara. O problema é que identidade demais pode ter justamente o efeito contrário e os irmão Russo sentem isso na pele ao se perderem em decisões um pouco ingênuas e na necessidade de ganhar dinâmica reproduzindo uma estética de videoclipe dos anos 90. O curioso, porém, é que o trabalho dos irmãos no set é irretocável! Tanto a direção de cena como na de atores, eles merecem muitos elogios - eles entregam um filme muito bonito, bem fotografado e com personagens interessantes! Aliás, não é só o Tom Holland (esse digno de Oscar) que está voando, destaco também o trabalho da ótima Ciara Bravo (como Emily).
Misturando vários gêneros, muitos sem nenhuma conexão, que vão do romance ao drama de guerra, "Cherry - Inocência Perdida" é um filme (propositalmente) caótico que cobre um período gigantesco da vida de um personagem bem complexo, um homem que definha por conta do sistema que ele claramente não estava preparado para lidar, sem nenhum apoio, e que é incapaz de encontrar uma oportunidade para tentar sair desse caos que ele mesmo entrou - mais ou menos como aconteceu com os irmão Russo na direção tentando ser os irmãos Cohen.
Eu recomendo "Cherry", é ótimo entretenimento, uma produção de extrema qualidade técnica e que tem um trabalho que chancela Tom Holland como um grande ator; mas aquele potencial de Oscar que tanto se comentou, pode até ter pesado no final - exatamente como aconteceu com "Malcolm e Marie".
Vale muito o play, mesmo assim.
"Cherry - Inocência Perdida", novo filme dos irmão Russo para o AppleTV+, vem dividindo opiniões graças a quantidade enorme de elementos que os diretores Anthony e Joe escolheram para compor, tanto o conceito visual como o narrativo. Eu, pessoalmente, gostei muito do filme - especialmente do trabalho do Tom Holland que desde "O diabo de cada dia"vem se mostrando cada vez mais maduro e consciente do seu talento.
O fato é que "Cherry" não é linear como obra, sua cadência varia muito entre os "capítulos" (cinco no total + prólogo e epílogo) que pontuam a jornada do protagonista e, talvez por isso, tenha encontrado ainda mais resistência - acho até que se o filme tivesse poucas intervenções gráficas e vinte minutos a menos, tirando um epílogo completamente dispensável, a percepção pudesse até ser outra - e aqui estou falando de percepção mesmo, porque o filme está longe de ser ruim como vou explicar abaixo.
Holland é Cherry (algo como "cabaço" - em um jogo de palavras também usado para definir alguém fraco de cabeça e de postura perante a vida) é um jovem americano que se alista no Exército depois que sua namorada resolve estudar no Canadá apenas para se afastar dele. Nessa mistura entre o luto emocional e a busca por um novo propósito, Cherry acaba descobrindo o horror na Guerra do Iraque e seus terríveis reflexos pós-traumáticos. Essa ruína física e mental culmina em um profundo vicio, primeiro em remédios contra a ansiedade e depois em heroína, transformando sua vida em um verdadeiro caos - uma bola de neve que mistura drogas, crimes e solidão. Confira o trailer:
Primeiro a quebra da quarta parede (aquele artifício narrativo onde o personagem fala diretamente para câmera, no meio da ação, quase como um confidente para quem assiste - tão bem utilizada por Frank Underwood de "House of Cards", diga-se de passagem) e depois muita narração em off, passam a impressão de um filme com muita identidade logo de cara. O problema é que identidade demais pode ter justamente o efeito contrário e os irmão Russo sentem isso na pele ao se perderem em decisões um pouco ingênuas e na necessidade de ganhar dinâmica reproduzindo uma estética de videoclipe dos anos 90. O curioso, porém, é que o trabalho dos irmãos no set é irretocável! Tanto a direção de cena como na de atores, eles merecem muitos elogios - eles entregam um filme muito bonito, bem fotografado e com personagens interessantes! Aliás, não é só o Tom Holland (esse digno de Oscar) que está voando, destaco também o trabalho da ótima Ciara Bravo (como Emily).
Misturando vários gêneros, muitos sem nenhuma conexão, que vão do romance ao drama de guerra, "Cherry - Inocência Perdida" é um filme (propositalmente) caótico que cobre um período gigantesco da vida de um personagem bem complexo, um homem que definha por conta do sistema que ele claramente não estava preparado para lidar, sem nenhum apoio, e que é incapaz de encontrar uma oportunidade para tentar sair desse caos que ele mesmo entrou - mais ou menos como aconteceu com os irmão Russo na direção tentando ser os irmãos Cohen.
Eu recomendo "Cherry", é ótimo entretenimento, uma produção de extrema qualidade técnica e que tem um trabalho que chancela Tom Holland como um grande ator; mas aquele potencial de Oscar que tanto se comentou, pode até ter pesado no final - exatamente como aconteceu com "Malcolm e Marie".
Vale muito o play, mesmo assim.
Existe uma linha tênue entre a percepção do que é "genial" e do que é "doentio" - e talvez por isso que nos sentimos tão revoltados quando assistimos uma história como a do ex-famoso cirurgião italiano Paolo Macchiarini.
Se você assistiu "The Con", deve se lembrar da história de uma produtora de TV americana, chamada Benita Alexander, que se apaixona por um grande cirurgião e que depois um breve namoro com ele, já teria, acreditem, seu casamento realizado pelo Papa Francisco (ela acreditou!). Enquanto o primeiro episódio dessa série antológica do Star+ foca nas falcatruas amorosas de Macchiarini pelos olhos de quem sofreu o golpe, ao melhor estilo "O Golpista do Tinder", aqui a coisa é bem mais complexa já que o tom investigativo da narrativa também retrata o profundo impacto de uma farsa médica onde sete de oito pacientes do cirurgião morreram após uma operação de traquéia que, na época, era dada como revolucionária.
Nos três episódios de "Cirurgião do Mal" acompanhamos a ascensão e queda de Paolo Macchiarini, conhecido por supostamente ser o primeiro a criar e implantar órgãos de plástico, por meio de suas revolucionárias cirurgias de traquéia com infusão de células-tronco, realizadas no famoso hospital Karolinska, na Suécia - onde, inclusive, é entregue o prêmio Nobel de Medicina. A história profissional de Macchiarini é considerada uma das maiores fraudes da ciência em todos os tempos. Já uma de suas conquistas amorosas, ficou conhecida como um dos maiores golpes já sofridos por uma mulher nos últimos anos. Confira o trailer:
Muito bem produzida pela Nutopia para a Netflix e dirigida com maestria pelo Ben Steele (do premiado "Hunted: The War Against Gays in Russia"), "Cirurgião do Mal" se destaca não apenas pela qualidade técnica inegável, mas também pela forma como o roteiro equilibra questões pessoais e profissionais que cercaram a vida de Macchiarini - indiretamente é como se Steele construísse um perfil do cirurgião e pouco a pouco validasse seu modo de agir inescrupuloso e cruel independente de quem fosse a vítima - uma mulher ou um paciente. Veja, ao desvendar os aspectos mais complexos sobre as manipulações do protagonista, o diretor é extremamente inteligente ao alternar entrevistas com ex-colegas, familiares das vitimas e jornalistas investigativos com o longo depoimento, mais uma vez, de Benita Alexander.
A pesquisa aprofundada sobre os eventos reais que levaram as desconfianças sobre os métodos usados por Macchiarini provoca algumas reflexões - especialmente se olharmos pela perspectiva da ética, então não se surpreenda se por algum momento você vier a compara-lo com um serial-killer. E aqui vale um comentário: como um bom "true crime"as entrevistas com pessoas-chave cria uma narrativa envolvente e esclarecedora que sabe brincar com nossas emoções do inicio ao fim sem perder nenhum instante de fôlego, ou seja, se prepare para um jornada bastante indigesta. A verdade é que é tudo muito impactante e perturbador, especialmente quando sentimos a esperança de quem via em Macchiarini sua melhor chance de continuar vivendo.
"Bad Surgeon: Love Under the Knife" (no original) é de fato surpreendentemente boa! A profundidade da investigação e a honestidade de todos os depoimentos, aliados à maestria técnica, especialmente da direção e da montagem, faz dessa minissérie uma experiência que merece sua atenção. Para aqueles que buscam não apenas o entretenimento, mas também uma compreensão interessante sobre os desafios éticos enfrentados pela ciência contemporânea, eu atesto que essa jornada será intensa e revoltante na mesma medida. Pode acreditar!
Existe uma linha tênue entre a percepção do que é "genial" e do que é "doentio" - e talvez por isso que nos sentimos tão revoltados quando assistimos uma história como a do ex-famoso cirurgião italiano Paolo Macchiarini.
Se você assistiu "The Con", deve se lembrar da história de uma produtora de TV americana, chamada Benita Alexander, que se apaixona por um grande cirurgião e que depois um breve namoro com ele, já teria, acreditem, seu casamento realizado pelo Papa Francisco (ela acreditou!). Enquanto o primeiro episódio dessa série antológica do Star+ foca nas falcatruas amorosas de Macchiarini pelos olhos de quem sofreu o golpe, ao melhor estilo "O Golpista do Tinder", aqui a coisa é bem mais complexa já que o tom investigativo da narrativa também retrata o profundo impacto de uma farsa médica onde sete de oito pacientes do cirurgião morreram após uma operação de traquéia que, na época, era dada como revolucionária.
Nos três episódios de "Cirurgião do Mal" acompanhamos a ascensão e queda de Paolo Macchiarini, conhecido por supostamente ser o primeiro a criar e implantar órgãos de plástico, por meio de suas revolucionárias cirurgias de traquéia com infusão de células-tronco, realizadas no famoso hospital Karolinska, na Suécia - onde, inclusive, é entregue o prêmio Nobel de Medicina. A história profissional de Macchiarini é considerada uma das maiores fraudes da ciência em todos os tempos. Já uma de suas conquistas amorosas, ficou conhecida como um dos maiores golpes já sofridos por uma mulher nos últimos anos. Confira o trailer:
Muito bem produzida pela Nutopia para a Netflix e dirigida com maestria pelo Ben Steele (do premiado "Hunted: The War Against Gays in Russia"), "Cirurgião do Mal" se destaca não apenas pela qualidade técnica inegável, mas também pela forma como o roteiro equilibra questões pessoais e profissionais que cercaram a vida de Macchiarini - indiretamente é como se Steele construísse um perfil do cirurgião e pouco a pouco validasse seu modo de agir inescrupuloso e cruel independente de quem fosse a vítima - uma mulher ou um paciente. Veja, ao desvendar os aspectos mais complexos sobre as manipulações do protagonista, o diretor é extremamente inteligente ao alternar entrevistas com ex-colegas, familiares das vitimas e jornalistas investigativos com o longo depoimento, mais uma vez, de Benita Alexander.
A pesquisa aprofundada sobre os eventos reais que levaram as desconfianças sobre os métodos usados por Macchiarini provoca algumas reflexões - especialmente se olharmos pela perspectiva da ética, então não se surpreenda se por algum momento você vier a compara-lo com um serial-killer. E aqui vale um comentário: como um bom "true crime"as entrevistas com pessoas-chave cria uma narrativa envolvente e esclarecedora que sabe brincar com nossas emoções do inicio ao fim sem perder nenhum instante de fôlego, ou seja, se prepare para um jornada bastante indigesta. A verdade é que é tudo muito impactante e perturbador, especialmente quando sentimos a esperança de quem via em Macchiarini sua melhor chance de continuar vivendo.
"Bad Surgeon: Love Under the Knife" (no original) é de fato surpreendentemente boa! A profundidade da investigação e a honestidade de todos os depoimentos, aliados à maestria técnica, especialmente da direção e da montagem, faz dessa minissérie uma experiência que merece sua atenção. Para aqueles que buscam não apenas o entretenimento, mas também uma compreensão interessante sobre os desafios éticos enfrentados pela ciência contemporânea, eu atesto que essa jornada será intensa e revoltante na mesma medida. Pode acreditar!
Quanto menos você souber sobre a minissérie da Netflix, "Clark", mais você vai se surpreender - e imagino que positivamente. Se você ainda não clicou em "assista agora" presumo que queira entender se essa produção sueca, dirigida pelo talentoso Jonas Akerlund, é realmente para você. Pois bem, antes de mais nada é preciso dizer que Akerlund tem uma sólida carreira como diretor de publicidade e videoclipes, trabalhando com artistas do nível de Madonna, U2, Coldplay e Lady Gaga, apenas para citar alguns - assim você vai entender o tamanho do potencial desse cara que está estreando na ficção e te garanto: criatividade é o que não faltou para contar a história de Clark Olofsson.
Mas você sabe quem é Clark Olofsson? Se não sabe, não se preocupe, porque até o lançamento de "Clark" pouca gente sabia. A minissérie de seis episódios se propõe a contar a história do personagem que cunhou a expressão “Síndrome de Estocolmo”. Um criminoso que conseguiu enganar toda a Suécia por muitos anos e fez todo um país se apaixonar por ele, apesar de ter sido acusado de tráfico de drogas, tentativa de homicídio, agressão, roubos e centenas de assaltos a bancos. Confira o trailer (em inglês):
Embora a história de "Clark" seja incrível, é inegável que o conceito narrativo e visual que Akerlund imprime no projeto é o que chama mais a atenção - veja, é uma mistura de Jean-Pierre Jeunet (de "Amélie Poulain"), com Spike Lee (de "Infiltrado Na Klan") e ainda com um toque de Adam McKay (de "Vice"). Eu diria que é um sopro de criatividade (e inventividade) que pouco encontramos nas produções da Netflix (tirando algumas raras exceções). Com uma montagem primorosa e inserções gráficas divertidíssimas, o diretor nos leva para uma jornada tão absurda quanto empolgante.
A "síndrome de Estocolmo" define um estado bem particular daqueles que, uma vez submetidos a um período prolongado de intimidação, desenvolvem uma traumática conexão de empatia (e até mesmo simpatia) pelo agressor - resultado de uma complexa estratégia mental de sobrevivência ao abuso. Lendo essa definição, é bem possível que a premissa te transporte para uma outra minissérie da Netflix, "O Paraíso e a Serpente"- e de fato existem inúmeros elementos dramáticos que se assemelham, porém o tom é completamente diferente. Aqui a ação está apoiada na comédia, no non-sense e até no estereótipo (quase escrachado), ditando um ritmo alucinante para os episódios. O total controle da gramática cinematográfica proveniente de um certo estilo de publicidade e dos clipes, fazem com que "Clark" salte aos olhos, mesmo discutindo assuntos tão densos - e a proposta é tão genial, que até podemos suspeitar que "talvez" estejamos sofrendo uma, digamos, "versão lite-digital" da mesma síndrome que é discutida na história.
Baseada, obviamente, em uma história real, a minissérie reconta "as verdades e mentiras presentes" na autobiografia de Olofsson. São muitas passagens, recortes extensos, mas muito bem conectados pelo roteiro de Fredrik Agetoft e de Peter Arrhenius. Outro destaque (e que pode esperar estará em muitas premiações daqui para frente) é Bill Skarsgard - o Pennywise de "It: A Coisa". Ele está simplesmente incrível, capaz de construir uma personalidade doentia com tanto charme e veracidade que até suas enormes falhas de caráter soam como refutáveis.
"Clark" pode até causar um certo estranhamento inicial, mas embarque na proposta do diretor e repare como um personagem complexo, independente do tom imposto pela narrativa, é capaz de se humanizar através de uma construção muito cuidadosa, pouco expositiva e, principalmente, bastante sensível aos valores sobre si mesmo, trazendo uma verdade tão essencial para a história que em nenhum momento se propõe a ser documental ou tendenciosa - e isso é muito divertido!
Vale muito a pena e já se estabelece como uma das melhores produções do ano de 2022!
Quanto menos você souber sobre a minissérie da Netflix, "Clark", mais você vai se surpreender - e imagino que positivamente. Se você ainda não clicou em "assista agora" presumo que queira entender se essa produção sueca, dirigida pelo talentoso Jonas Akerlund, é realmente para você. Pois bem, antes de mais nada é preciso dizer que Akerlund tem uma sólida carreira como diretor de publicidade e videoclipes, trabalhando com artistas do nível de Madonna, U2, Coldplay e Lady Gaga, apenas para citar alguns - assim você vai entender o tamanho do potencial desse cara que está estreando na ficção e te garanto: criatividade é o que não faltou para contar a história de Clark Olofsson.
Mas você sabe quem é Clark Olofsson? Se não sabe, não se preocupe, porque até o lançamento de "Clark" pouca gente sabia. A minissérie de seis episódios se propõe a contar a história do personagem que cunhou a expressão “Síndrome de Estocolmo”. Um criminoso que conseguiu enganar toda a Suécia por muitos anos e fez todo um país se apaixonar por ele, apesar de ter sido acusado de tráfico de drogas, tentativa de homicídio, agressão, roubos e centenas de assaltos a bancos. Confira o trailer (em inglês):
Embora a história de "Clark" seja incrível, é inegável que o conceito narrativo e visual que Akerlund imprime no projeto é o que chama mais a atenção - veja, é uma mistura de Jean-Pierre Jeunet (de "Amélie Poulain"), com Spike Lee (de "Infiltrado Na Klan") e ainda com um toque de Adam McKay (de "Vice"). Eu diria que é um sopro de criatividade (e inventividade) que pouco encontramos nas produções da Netflix (tirando algumas raras exceções). Com uma montagem primorosa e inserções gráficas divertidíssimas, o diretor nos leva para uma jornada tão absurda quanto empolgante.
A "síndrome de Estocolmo" define um estado bem particular daqueles que, uma vez submetidos a um período prolongado de intimidação, desenvolvem uma traumática conexão de empatia (e até mesmo simpatia) pelo agressor - resultado de uma complexa estratégia mental de sobrevivência ao abuso. Lendo essa definição, é bem possível que a premissa te transporte para uma outra minissérie da Netflix, "O Paraíso e a Serpente"- e de fato existem inúmeros elementos dramáticos que se assemelham, porém o tom é completamente diferente. Aqui a ação está apoiada na comédia, no non-sense e até no estereótipo (quase escrachado), ditando um ritmo alucinante para os episódios. O total controle da gramática cinematográfica proveniente de um certo estilo de publicidade e dos clipes, fazem com que "Clark" salte aos olhos, mesmo discutindo assuntos tão densos - e a proposta é tão genial, que até podemos suspeitar que "talvez" estejamos sofrendo uma, digamos, "versão lite-digital" da mesma síndrome que é discutida na história.
Baseada, obviamente, em uma história real, a minissérie reconta "as verdades e mentiras presentes" na autobiografia de Olofsson. São muitas passagens, recortes extensos, mas muito bem conectados pelo roteiro de Fredrik Agetoft e de Peter Arrhenius. Outro destaque (e que pode esperar estará em muitas premiações daqui para frente) é Bill Skarsgard - o Pennywise de "It: A Coisa". Ele está simplesmente incrível, capaz de construir uma personalidade doentia com tanto charme e veracidade que até suas enormes falhas de caráter soam como refutáveis.
"Clark" pode até causar um certo estranhamento inicial, mas embarque na proposta do diretor e repare como um personagem complexo, independente do tom imposto pela narrativa, é capaz de se humanizar através de uma construção muito cuidadosa, pouco expositiva e, principalmente, bastante sensível aos valores sobre si mesmo, trazendo uma verdade tão essencial para a história que em nenhum momento se propõe a ser documental ou tendenciosa - e isso é muito divertido!
Vale muito a pena e já se estabelece como uma das melhores produções do ano de 2022!
"Clemência: A História de Cyntoia Brown" é mais uma empreitada da Netflix que segue a linha "Making a Murderer", mas que, embora seja um ótimo documentário, não surpreende com alguma reviravolta que nos faça perder o sentido, como ficou tão característico nesse tipo de produção que nos apresenta detalhes sobre personagens envolvidos em crimes reais. É claro que o fato de ser um filme e não uma série, ter pouco mais de 90 minutos, interfere demais na narrativa - não há tempo para um aprofundamento maior, mas cá entre nós: Cyntoia Brownnão me pareceu ter a "força" de um Steven Avery ou de um Robert Durst de "The Jinx" e isso fica muito claro durante os "saltos temporais" entre a sua prisão e as razões que levaram até sua tentativa de obter clemência do governador do Tennessee.
Veja bem: certa noite, Cyntoia, uma garota negra de 16 anos, conheceu um homem branco chamado Johnny Allen, no estacionamento de uma lanchonete, próximo a casa do seu então namorado: o traficante e cafetão, Kut-Throat. Depois de um bate-papo rápido, Allen perguntou se Cyntoia estava pronta para "ação". Ao responder afirmativamente, eles acertaram os valores e foram para a casa dele. Acontece que, em algum momento após a relação sexual, Cyntoia Brown pegou a arma que estava em sua bolsa e disparou contra Johnny Allen pelas costas. Ele morreu na hora e Cyntoia ainda levou 172 dólares da sua carteira, duas armas e a caminhonete do rapaz. Ao ser detida, Cyntoia confessou o crime, mas declarou ter agido em legítima defesa - o que, claro, não colou para ninguém! Confira o trailer (em inglês):
Quando vemos uma adolescente sendo julgada como adulta e depois condenada à prisão perpétua por homicídio (e mais 3 crimes), imediatamente criamos uma certa empatia pela personagem, como ser humano, porém nos afastamos desse sentimento quando refletimos sobre a versão que Cyntoia tanto defende e que não parece nada plausível dada as provas periciais - o fato dela nunca ter demonstrado arrependimento algum, certamente, também colabora para esse distanciamento. O interessante é que o roteiro do diretor Daniel H. Birman não se propõe a defender a versão de Cyntoia e sim apresentar a tese de que circunstâncias sociais e fisiológicas a levaram cometer o crime! É um documentário curioso nesse sentido, diferente do que estamos acostumados, e por isso me agradou tanto, mesmo sendo óbvio e pouco surpreendente, vale a pena conhecer essa história e os desdobramentos que Birman nos conta.
Em 2011, o diretor Daniel H. Birman já havia produzido um documentário sobre o caso, chamado: "Me Facing Life: Cyntoia's Story", até que 9 anos depois, ele retorna ao tema para nos apresentar alguns fatos inéditos, com várias imagens exclusivas e algumas informações que na época do julgamento pareciam improváveis, mas que agora tem uma força reveladora e passível de mudar o rumo do caso. Fica claro que o diretor defende a tese pessoal de que Cyntoia deveria ser libertada imediatamente e que sua condenação não existiria se o julgamento tivesse ocorrido nos tempos atuais. O roteiro não se preocupa em mostrar o outro lado da história, ele é um exercício escancarado de argumentação - inclusive se apoiando em uma campanha liderada por vários famosos, de 2017, a favor de Cyntoia.
Apesar de "Clemência: A História de Cyntoia Brown" ter se concentrando na dinâmica legal do caso e não nas investigações do assassinato, usando e abusando de cenas de audiências e de conversas entre advogados e especialistas, Burman nos convida para uma reflexão muito mais do ponto de vista moral do que pela discussão dos fatos em si. Quando ele explora que a garota possui alguma deficiência intelectual ou um transtorno de bipolaridade, que seu histórico familiar foi marcada pelo alcoolismo e pela violência, ele deixa de lado a razão pela qual Cyntoia Brown atirou em Johnny Allen, para defender que essa ação foi um reflexo natural da sua experiência como ser humano até ali - o advogado de Cyntoia chega a comentar: "Matar alguém é errado, e ninguém contesta isso. No entanto, o que leva uma menina de 16 anos a cometer um assassinato como esse?"
Sim, nos vemos refletindo sobre os pontos levantados em defesa de Cyntoia, mas em nenhum momento somos levados ao outro lado da história e isso incomoda um pouco. Em compensação somos convidados a ver a história de uma outra forma, que para alguns fará mais sentido do que para outros, mas o fato é que a construção narrativa do documentário trabalha como um quebra-cabeça de fácil resolução, basta nos fazer acreditar naquela tese! Para quem gosta do gênero, será mais um bom filme que merece ser assistido; só não espere o improvável porque o objetivo não é esse e desde o começo sabemos qual é!
"Clemência: A História de Cyntoia Brown" é mais uma empreitada da Netflix que segue a linha "Making a Murderer", mas que, embora seja um ótimo documentário, não surpreende com alguma reviravolta que nos faça perder o sentido, como ficou tão característico nesse tipo de produção que nos apresenta detalhes sobre personagens envolvidos em crimes reais. É claro que o fato de ser um filme e não uma série, ter pouco mais de 90 minutos, interfere demais na narrativa - não há tempo para um aprofundamento maior, mas cá entre nós: Cyntoia Brownnão me pareceu ter a "força" de um Steven Avery ou de um Robert Durst de "The Jinx" e isso fica muito claro durante os "saltos temporais" entre a sua prisão e as razões que levaram até sua tentativa de obter clemência do governador do Tennessee.
Veja bem: certa noite, Cyntoia, uma garota negra de 16 anos, conheceu um homem branco chamado Johnny Allen, no estacionamento de uma lanchonete, próximo a casa do seu então namorado: o traficante e cafetão, Kut-Throat. Depois de um bate-papo rápido, Allen perguntou se Cyntoia estava pronta para "ação". Ao responder afirmativamente, eles acertaram os valores e foram para a casa dele. Acontece que, em algum momento após a relação sexual, Cyntoia Brown pegou a arma que estava em sua bolsa e disparou contra Johnny Allen pelas costas. Ele morreu na hora e Cyntoia ainda levou 172 dólares da sua carteira, duas armas e a caminhonete do rapaz. Ao ser detida, Cyntoia confessou o crime, mas declarou ter agido em legítima defesa - o que, claro, não colou para ninguém! Confira o trailer (em inglês):
Quando vemos uma adolescente sendo julgada como adulta e depois condenada à prisão perpétua por homicídio (e mais 3 crimes), imediatamente criamos uma certa empatia pela personagem, como ser humano, porém nos afastamos desse sentimento quando refletimos sobre a versão que Cyntoia tanto defende e que não parece nada plausível dada as provas periciais - o fato dela nunca ter demonstrado arrependimento algum, certamente, também colabora para esse distanciamento. O interessante é que o roteiro do diretor Daniel H. Birman não se propõe a defender a versão de Cyntoia e sim apresentar a tese de que circunstâncias sociais e fisiológicas a levaram cometer o crime! É um documentário curioso nesse sentido, diferente do que estamos acostumados, e por isso me agradou tanto, mesmo sendo óbvio e pouco surpreendente, vale a pena conhecer essa história e os desdobramentos que Birman nos conta.
Em 2011, o diretor Daniel H. Birman já havia produzido um documentário sobre o caso, chamado: "Me Facing Life: Cyntoia's Story", até que 9 anos depois, ele retorna ao tema para nos apresentar alguns fatos inéditos, com várias imagens exclusivas e algumas informações que na época do julgamento pareciam improváveis, mas que agora tem uma força reveladora e passível de mudar o rumo do caso. Fica claro que o diretor defende a tese pessoal de que Cyntoia deveria ser libertada imediatamente e que sua condenação não existiria se o julgamento tivesse ocorrido nos tempos atuais. O roteiro não se preocupa em mostrar o outro lado da história, ele é um exercício escancarado de argumentação - inclusive se apoiando em uma campanha liderada por vários famosos, de 2017, a favor de Cyntoia.
Apesar de "Clemência: A História de Cyntoia Brown" ter se concentrando na dinâmica legal do caso e não nas investigações do assassinato, usando e abusando de cenas de audiências e de conversas entre advogados e especialistas, Burman nos convida para uma reflexão muito mais do ponto de vista moral do que pela discussão dos fatos em si. Quando ele explora que a garota possui alguma deficiência intelectual ou um transtorno de bipolaridade, que seu histórico familiar foi marcada pelo alcoolismo e pela violência, ele deixa de lado a razão pela qual Cyntoia Brown atirou em Johnny Allen, para defender que essa ação foi um reflexo natural da sua experiência como ser humano até ali - o advogado de Cyntoia chega a comentar: "Matar alguém é errado, e ninguém contesta isso. No entanto, o que leva uma menina de 16 anos a cometer um assassinato como esse?"
Sim, nos vemos refletindo sobre os pontos levantados em defesa de Cyntoia, mas em nenhum momento somos levados ao outro lado da história e isso incomoda um pouco. Em compensação somos convidados a ver a história de uma outra forma, que para alguns fará mais sentido do que para outros, mas o fato é que a construção narrativa do documentário trabalha como um quebra-cabeça de fácil resolução, basta nos fazer acreditar naquela tese! Para quem gosta do gênero, será mais um bom filme que merece ser assistido; só não espere o improvável porque o objetivo não é esse e desde o começo sabemos qual é!
"Coach Carter" é uma ficção, embora baseada em uma história real, que de fato acontece com mais frequência do que imaginamos - basta assistir as excelentes séries documentais da Netflix, "Last Chance U"ou "Nada de Bandeja", para entender que a dinâmica entre educação/esporte está inserida na sociedade americana de diversas formas e em níveis de importância e pressão que, muitas vezes, beiram a hipocrisia, mas também fomentam a esperança de jovens talentosos em busca de uma (única oportunidade de) ascensão social.
"Coach Carter" (que no Brasil ganhou o sugestivo subtítulo de "Treino Para a Vida") é um filme de 2005 que narra a história real de Ken Carter (Samuel L. Jackson), um dono de loja de artigos esportivos de uma pequena cidade da Califórnia, que assume a tarefa de treinar um time de basquete de sua antiga escola. Carter é um homem rígido, disciplinador, com métodos de treinamento pouco convencionais, mas que domina o esporte com a mesma vitalidade que impõe seu caráter transformador, dentro e fora das quadras, lutando para que seus comandados, além de atletas, se tornem alunos preparados para enfrentar as universidades. Confira o trailer:
O veterano diretor Thomas Carter, vencedor de três Emmys em sua carreira, foi muito competente em contar uma história que embora pareça simples, tem uma complexidade narrativa enorme, já que precisa condensar uma passagem biográfica marcante que envolve vários personagens (e seus respectivos dramas pessoais) em pouco mais de duas horas. Sua condução não traz nenhuma inovação conceitual que chame a atenção, é uma direção "feijão com arroz" - que nesse caso acaba deixando muito espaço para os atores brilharem. Samuel L. Jackson está impecável como sempre, mas aproveito para destacar o trabalho de Rick Gonzalez como Timo Cruz e uma (na época) não tão conhecida Octavia Spencer como Mrs. Battle.
Mesmo parecendo que "Coach Carter" segue um roteiro batido e completamente previsível, é de se destacar a qualidade dos diálogos e a coragem ao escolher o caminho menos óbvio para entregar uma experiência muito agradável para quem assiste o filme. Bem ao estilo "Sessão da Tarde", mas com uma mensagem muito bacana e cheio de lições de liderança e postura perante a vida. O filme é imperdível para quem gosta de esporte, de um bom drama de superação ou até para aqueles que buscam referências empreendedoras e inspiracionais para lidar com pessoas.
Vale a pena!
"Coach Carter" é uma ficção, embora baseada em uma história real, que de fato acontece com mais frequência do que imaginamos - basta assistir as excelentes séries documentais da Netflix, "Last Chance U"ou "Nada de Bandeja", para entender que a dinâmica entre educação/esporte está inserida na sociedade americana de diversas formas e em níveis de importância e pressão que, muitas vezes, beiram a hipocrisia, mas também fomentam a esperança de jovens talentosos em busca de uma (única oportunidade de) ascensão social.
"Coach Carter" (que no Brasil ganhou o sugestivo subtítulo de "Treino Para a Vida") é um filme de 2005 que narra a história real de Ken Carter (Samuel L. Jackson), um dono de loja de artigos esportivos de uma pequena cidade da Califórnia, que assume a tarefa de treinar um time de basquete de sua antiga escola. Carter é um homem rígido, disciplinador, com métodos de treinamento pouco convencionais, mas que domina o esporte com a mesma vitalidade que impõe seu caráter transformador, dentro e fora das quadras, lutando para que seus comandados, além de atletas, se tornem alunos preparados para enfrentar as universidades. Confira o trailer:
O veterano diretor Thomas Carter, vencedor de três Emmys em sua carreira, foi muito competente em contar uma história que embora pareça simples, tem uma complexidade narrativa enorme, já que precisa condensar uma passagem biográfica marcante que envolve vários personagens (e seus respectivos dramas pessoais) em pouco mais de duas horas. Sua condução não traz nenhuma inovação conceitual que chame a atenção, é uma direção "feijão com arroz" - que nesse caso acaba deixando muito espaço para os atores brilharem. Samuel L. Jackson está impecável como sempre, mas aproveito para destacar o trabalho de Rick Gonzalez como Timo Cruz e uma (na época) não tão conhecida Octavia Spencer como Mrs. Battle.
Mesmo parecendo que "Coach Carter" segue um roteiro batido e completamente previsível, é de se destacar a qualidade dos diálogos e a coragem ao escolher o caminho menos óbvio para entregar uma experiência muito agradável para quem assiste o filme. Bem ao estilo "Sessão da Tarde", mas com uma mensagem muito bacana e cheio de lições de liderança e postura perante a vida. O filme é imperdível para quem gosta de esporte, de um bom drama de superação ou até para aqueles que buscam referências empreendedoras e inspiracionais para lidar com pessoas.
Vale a pena!
"Colin em Preto e Branco" chegou no catálogo da Netflix com o status de minissérie premium, dirigida por Ava DuVernay (do enorme sucesso da plataforma, "Olhos que Condenam") e criada em parceria com o próprio Colin Kaepernick - uma das grandes estrelas da NIKE, mesmo "aposentado". A grande questão, porém, é que as escolhas criativas de DuVernay devem afastar um público pouco disposto a se conectar com narrativas menos tradicionais e isso será um ponto sensível na continuidade do projeto que "claramente" mereceria mais episódios - ao final dos seis primeiros, temos a exata sensação de que "a história só está começando"!
Como uma espécie de entidade onipresente, Colin Kaepernick conta histórias sobre a cultura negra e como o racismo foi se institucionalizando nos EUA através dos tempos, principalmente no esporte, mas com reflexos na sociedade como um todo (inclusive dentro de sua própria casa), ao mesmo tempo em que narra sua jornada até a chegada na universidade. Negro e adotado por uma família branca, Kaepernick precisou enfrentar inúmeros obstáculos de raça, classe e cultura para poder crescer e ser reconhecido como um potencial atleta de elite. "Colin em Preto e Branco" acompanha o relacionamento com a família, com os amigos e companheiros de time em meio as descobertas da adolescência, além, é claro, da sua busca incansável por respostas, dentro e fora, dos campos. Confira o trailer (em inglês):
Independente da forma, o conteúdo de "Colin em Preto e Branco" é no mínimo curioso - afinal estamos falando de um atleta que pode ser considerado um dos melhores de sua geração no esporte mais popular dos EUA. A grande questão é que a expectativa em torno de sua história como ativista perante os direitos civis se confunde com sua carreira como atleta de futebol americano, na universidade e principalmente na NFL - quando em 2016, se recusou a levantar para cantar o hino nacional dos Estados Unidos em protesto ao tratamento recebido pela comunidade negra no país. Acontece que "Colin em Preto e Branco" foca nos dramas esportivos de Kaepernick na época do colegial e nos primeiros impactos que o racismo teve em sua vida.
Isso é ruim? Não, mas também não é o assunto mais importante da vida do protagonista como figura pública - por receio da Netflix ou um erro grave no marketing de divulgação, só isso pode justificar a escolha de categorizar "Colin em Preto e Branco" como minissérie! Veja, as pessoas que conhecem um pouco da jornada de Kaepernick não vão assistir a "minissérie" só para descobrir as razões que fizeram o jovem escolher o futebol americano e não o beisebol antes da universidade. A história é interessante? Sim, mas é pouco em relação ao que aconteceu depois: os impactos daquela atitude de 2016 no resto da carreira, por exemplo - é como se em "Divino Baggio"o filme não mostrasse o drama da final da Copa de 1994 para focar no sonho de Baggio em jogar pela seleção italiana.
A produção é de fato excelente, a direção também, mas dois pontos se sobressaem: a participação do Colin Kaepernick como condutor da história chega a ser emocionante em muitas passagens (a experiência de ver ele assistindo sua história em retrospectiva é incrível) e o trabalho do Jaden Michael como protagonista na adolescência - impressionante como Jaden é convincente. Repare como o conceito estético/narrativo, que elimina a quarta parede, nos coloca frente a frente com Kaepernick e com o que ele tem a dizer, funciona e é impactante - quem conhece um pouco mais do atleta, certamente, vai se conectar de uma forma diferente com esses prólogos dos episódios, mas quem caiu de para-quedas vai achar chato.
Eu pessoalmente gostei muito, mas sou suspeito por acompanhar o esporte e ser fã do atleta - que inclusive levou o meu time (San Francisco 49ers) ao Superbowl de 2013, depois de muito tempo. Para quem não sabe nada de futebol americano ou não conhece Kaepernick, "Colin em Preto e Branco" pode soar como mais um daqueles dramas esportivos sobre superação e resiliência com toques de seriado juvenil dos anos 90.
PS: a continuação da história será essencial para o reconhecimento do produto como obra importante sobre a luta contra o racismo e sobre a hipocrisia da sociedade (principalmente esportiva) americana, mas até o momento, nada foi confirmado pela Netflix. Sendo assim, a minissérie embora tenha um "fim", vai deixar um gostinho de "quero mais".
"Colin em Preto e Branco" chegou no catálogo da Netflix com o status de minissérie premium, dirigida por Ava DuVernay (do enorme sucesso da plataforma, "Olhos que Condenam") e criada em parceria com o próprio Colin Kaepernick - uma das grandes estrelas da NIKE, mesmo "aposentado". A grande questão, porém, é que as escolhas criativas de DuVernay devem afastar um público pouco disposto a se conectar com narrativas menos tradicionais e isso será um ponto sensível na continuidade do projeto que "claramente" mereceria mais episódios - ao final dos seis primeiros, temos a exata sensação de que "a história só está começando"!
Como uma espécie de entidade onipresente, Colin Kaepernick conta histórias sobre a cultura negra e como o racismo foi se institucionalizando nos EUA através dos tempos, principalmente no esporte, mas com reflexos na sociedade como um todo (inclusive dentro de sua própria casa), ao mesmo tempo em que narra sua jornada até a chegada na universidade. Negro e adotado por uma família branca, Kaepernick precisou enfrentar inúmeros obstáculos de raça, classe e cultura para poder crescer e ser reconhecido como um potencial atleta de elite. "Colin em Preto e Branco" acompanha o relacionamento com a família, com os amigos e companheiros de time em meio as descobertas da adolescência, além, é claro, da sua busca incansável por respostas, dentro e fora, dos campos. Confira o trailer (em inglês):
Independente da forma, o conteúdo de "Colin em Preto e Branco" é no mínimo curioso - afinal estamos falando de um atleta que pode ser considerado um dos melhores de sua geração no esporte mais popular dos EUA. A grande questão é que a expectativa em torno de sua história como ativista perante os direitos civis se confunde com sua carreira como atleta de futebol americano, na universidade e principalmente na NFL - quando em 2016, se recusou a levantar para cantar o hino nacional dos Estados Unidos em protesto ao tratamento recebido pela comunidade negra no país. Acontece que "Colin em Preto e Branco" foca nos dramas esportivos de Kaepernick na época do colegial e nos primeiros impactos que o racismo teve em sua vida.
Isso é ruim? Não, mas também não é o assunto mais importante da vida do protagonista como figura pública - por receio da Netflix ou um erro grave no marketing de divulgação, só isso pode justificar a escolha de categorizar "Colin em Preto e Branco" como minissérie! Veja, as pessoas que conhecem um pouco da jornada de Kaepernick não vão assistir a "minissérie" só para descobrir as razões que fizeram o jovem escolher o futebol americano e não o beisebol antes da universidade. A história é interessante? Sim, mas é pouco em relação ao que aconteceu depois: os impactos daquela atitude de 2016 no resto da carreira, por exemplo - é como se em "Divino Baggio"o filme não mostrasse o drama da final da Copa de 1994 para focar no sonho de Baggio em jogar pela seleção italiana.
A produção é de fato excelente, a direção também, mas dois pontos se sobressaem: a participação do Colin Kaepernick como condutor da história chega a ser emocionante em muitas passagens (a experiência de ver ele assistindo sua história em retrospectiva é incrível) e o trabalho do Jaden Michael como protagonista na adolescência - impressionante como Jaden é convincente. Repare como o conceito estético/narrativo, que elimina a quarta parede, nos coloca frente a frente com Kaepernick e com o que ele tem a dizer, funciona e é impactante - quem conhece um pouco mais do atleta, certamente, vai se conectar de uma forma diferente com esses prólogos dos episódios, mas quem caiu de para-quedas vai achar chato.
Eu pessoalmente gostei muito, mas sou suspeito por acompanhar o esporte e ser fã do atleta - que inclusive levou o meu time (San Francisco 49ers) ao Superbowl de 2013, depois de muito tempo. Para quem não sabe nada de futebol americano ou não conhece Kaepernick, "Colin em Preto e Branco" pode soar como mais um daqueles dramas esportivos sobre superação e resiliência com toques de seriado juvenil dos anos 90.
PS: a continuação da história será essencial para o reconhecimento do produto como obra importante sobre a luta contra o racismo e sobre a hipocrisia da sociedade (principalmente esportiva) americana, mas até o momento, nada foi confirmado pela Netflix. Sendo assim, a minissérie embora tenha um "fim", vai deixar um gostinho de "quero mais".
É preciso olhar para o sucesso e entender como algumas referências, de fato inspiradoras, podem nos mover para frente. "Como Ser Warren Buffett" nem de longe será o melhor documentário biográfico que você vai assistir, muito menos menos será o mais dinâmico ou inovador, mas nem por isso ele deixa de ser imperdível. Dirigido pelo Peter W. Kunhardt (de "Living with Lincoln", também da HBO), aqui temos um recorte biográfico mais tradicional, pelo olhar do próprio protagonista, o que naturalmente acaba nos oferecendo uma análise profunda, mais pessoal e íntima, sobre o "Oráculo de Omaha" - como ficou conhecido um dos homens mais ricos e influentes do mundo. Saiba que esse documentário, no mínimo, te fará repensar sobre seus conceitos de sucesso e pode ter certeza que, de alguma forma, te motivará a perseguir seus sonhos sob uma nova perspectiva.
Becoming Warren Buffett" (no original) nos leva a uma jornada pela vida de Warren Buffett, desde sua infância em Nebraska até o topo do mundo dos investimentos. Através de entrevistas exclusivas com o próprio Buffett, alguns familiares, amigos e colegas de trabalho, o filme procura analisar os métodos do investidor, desvendar os segredos do seu sucesso profissional e ainda entender como sua paixão por números, a disciplina inabalável e o foco permanente, transformaram sua vida ao longo dos anos. Confira o trailer (em inglês):
Com uma narrativa mais clássica, basicamente focada nos depoimentos cativantes de Buffett e de pessoas muito próximas a ele, eu diria que a experiência de assistir "Como Ser Warren Buffett" é algo mais educacional, inspiracional. A direção de Kunhardt é precisa e elegante ao dar esse tom ao documentário, utilizando recursos como imagens de arquivo, animações e gráficos para ilustrar os conceitos complexos do protagonista de uma forma clara e acessível para todos. Veja, o filme não é um manual definitivo de como ficar rico, muito pelo contrário, o objetivo aqui é desmistificar Buffett sem precisar apelar para aquele sensacionalismo barato de outros tempos - embora a passagem que conta sobre a doença de sua ex-mulher soe mais como gatilho para as decisões que ele veio a tomar em seguida, do que propriamente como um evento transformador de sua vida.
Sem dúvida que um dos pontos fortes do documentário é a forma como o roteiro desmistifica o mundo dos investimentos, tornando-o palpável para o público em geral. Através da história de Buffett, aprendemos sobre os princípios básicos de sua filosofia de investimento, a importância da pesquisa e da análise de dados e, claro, o valor da paciência e da disciplina em todo esse processo - Buffet chega brincar que os livros que ele leu estão disponíveis para todos, ou seja, não se trata apenas de adquirir conhecimento, é preciso colocar em prática. Mesmo com uma certa atmosfera "chapa branca" demais, o filme também nos convida a refletir sobre valores importantes para Buffet como ética, filantropia e uma busca frequente por uma vida significativa, especialmente próxima a quem amamos - essa abordagem se dá muito mais por uma provocação para se encontrar um equilíbrio, do que propriamente para revelar a fórmula mágica que ele seguiu e funcionou, afinal até Buffet tem seus fantasmas.
"Como Ser Warren Buffett" é uma história sobre a paixão, a perseverança e uma crença inabalável nos próprios sonhos. É um filme que nos inspira a buscar o sucesso em nossos próprios termos, mas pelo exemplo (vivo). Seja no universo do investimento ou do empreendedorismo, eu afirmo que assistir 90 minutos de Warren Buffett é um privilégio e um incentivo para todos aqueles que desejam aprender com um dos maiores gênios da nossa época.
Vale seu play!
É preciso olhar para o sucesso e entender como algumas referências, de fato inspiradoras, podem nos mover para frente. "Como Ser Warren Buffett" nem de longe será o melhor documentário biográfico que você vai assistir, muito menos menos será o mais dinâmico ou inovador, mas nem por isso ele deixa de ser imperdível. Dirigido pelo Peter W. Kunhardt (de "Living with Lincoln", também da HBO), aqui temos um recorte biográfico mais tradicional, pelo olhar do próprio protagonista, o que naturalmente acaba nos oferecendo uma análise profunda, mais pessoal e íntima, sobre o "Oráculo de Omaha" - como ficou conhecido um dos homens mais ricos e influentes do mundo. Saiba que esse documentário, no mínimo, te fará repensar sobre seus conceitos de sucesso e pode ter certeza que, de alguma forma, te motivará a perseguir seus sonhos sob uma nova perspectiva.
Becoming Warren Buffett" (no original) nos leva a uma jornada pela vida de Warren Buffett, desde sua infância em Nebraska até o topo do mundo dos investimentos. Através de entrevistas exclusivas com o próprio Buffett, alguns familiares, amigos e colegas de trabalho, o filme procura analisar os métodos do investidor, desvendar os segredos do seu sucesso profissional e ainda entender como sua paixão por números, a disciplina inabalável e o foco permanente, transformaram sua vida ao longo dos anos. Confira o trailer (em inglês):
Com uma narrativa mais clássica, basicamente focada nos depoimentos cativantes de Buffett e de pessoas muito próximas a ele, eu diria que a experiência de assistir "Como Ser Warren Buffett" é algo mais educacional, inspiracional. A direção de Kunhardt é precisa e elegante ao dar esse tom ao documentário, utilizando recursos como imagens de arquivo, animações e gráficos para ilustrar os conceitos complexos do protagonista de uma forma clara e acessível para todos. Veja, o filme não é um manual definitivo de como ficar rico, muito pelo contrário, o objetivo aqui é desmistificar Buffett sem precisar apelar para aquele sensacionalismo barato de outros tempos - embora a passagem que conta sobre a doença de sua ex-mulher soe mais como gatilho para as decisões que ele veio a tomar em seguida, do que propriamente como um evento transformador de sua vida.
Sem dúvida que um dos pontos fortes do documentário é a forma como o roteiro desmistifica o mundo dos investimentos, tornando-o palpável para o público em geral. Através da história de Buffett, aprendemos sobre os princípios básicos de sua filosofia de investimento, a importância da pesquisa e da análise de dados e, claro, o valor da paciência e da disciplina em todo esse processo - Buffet chega brincar que os livros que ele leu estão disponíveis para todos, ou seja, não se trata apenas de adquirir conhecimento, é preciso colocar em prática. Mesmo com uma certa atmosfera "chapa branca" demais, o filme também nos convida a refletir sobre valores importantes para Buffet como ética, filantropia e uma busca frequente por uma vida significativa, especialmente próxima a quem amamos - essa abordagem se dá muito mais por uma provocação para se encontrar um equilíbrio, do que propriamente para revelar a fórmula mágica que ele seguiu e funcionou, afinal até Buffet tem seus fantasmas.
"Como Ser Warren Buffett" é uma história sobre a paixão, a perseverança e uma crença inabalável nos próprios sonhos. É um filme que nos inspira a buscar o sucesso em nossos próprios termos, mas pelo exemplo (vivo). Seja no universo do investimento ou do empreendedorismo, eu afirmo que assistir 90 minutos de Warren Buffett é um privilégio e um incentivo para todos aqueles que desejam aprender com um dos maiores gênios da nossa época.
Vale seu play!
Se você não assistiu esse filme, assista! Embora "Conexão Escobar" se apoie na premissa do agente infiltrado correndo muito perigo para desmantelar um cartel de tráfico de drogas como em "Sicario - Terra de Ninguém", aqui o foco não está tanto na ação e sim no drama, na relação dos personagens, no planejamento e, principalmente, na construção de laços que colocam, inclusive, os objetivos da missão em dúvida.
O filme acompanha a história real de Robert Mazur (Bryan Cranston), um agente infiltrado sob o disfarce de Bob Musella que trabalha para acabar com a operação de lavagem de dinheiro do cartel de Pablo Escobar a partir da relação do tráfico com bancos panamenhos. Confira o trailer:
Dirigido pelo ótimo Brad Furman (de "City of Lies") e baseado no livro do próprio Robert Mazur, "Conexão Escobar" é um prato cheio para quem gosta de filmes de ação, com elementos de investigação, que vão além do tiroteiro. A forma como o roteiro da (na época) estreante Ellen Furman vai amarrando as histórias dá a exata proporção do que foi a Operação C-Chase e o que ela representou na luta contra o tráfico de drogas durante os anos 80 - que, inclusive, culminou com a queda do Banco de Crédito e Comércio Internacional (BCCI), o sétimo maior banco privado do mundo.
O maior mérito do filme, sem dúvida, é ter Bryan Cranston como protagonista e o sempre divertido e competente John Leguizamo ("Waco") como coadjuvante (o agente Emir Abreu). Para os fãs de "Breaking Bad" é impossível não comparar a performance do ator com o tom que dá aos seus personagens Mazur e Mr. White, mas, principalmente, com a semelhança que vai além dos diálogos para exaltar a jornada moral de cada um! É impressionante como, embora diferentes, o conceito por trás dos personagens é parecido: ambos possuem um vida comum, em diferentes pontos de satisfação (claro), mas claramente aquém do que seus talentos poderiam oferecer, porém quando eles assumem uma segunda identidade, o flerte com a ilegalidade desperta a ambição - justamente o nó que o filme tenta desatar ou, pelo menos, medir o seu valor (a chegada da agente Kathy Ertz de Diane Kruger, personifica esse conflito interno).
"Conexão Escobar" poderia tranquilamente ser um spin-off da série "Narcos" - o que dá uma ótima noção do que você vai encontrar em 120 minutos de filme. Mesmo que a figura mítica de Pablo Escobar seja apenas um detalhe muito bem pontuado na trama, a atmosfera criada é extremante tensa e angustiante para quem assiste. Se a fotografia do diretor Joshua Reis se aproveita do enorme contraste de tons para retratar a diferença entre a vida “infiltrada” e a “verdadeira” de Robert, é na sensibilidade dos atores e na inteligência do roteiro que o filme decola!
Vale muito a pena!
Se você não assistiu esse filme, assista! Embora "Conexão Escobar" se apoie na premissa do agente infiltrado correndo muito perigo para desmantelar um cartel de tráfico de drogas como em "Sicario - Terra de Ninguém", aqui o foco não está tanto na ação e sim no drama, na relação dos personagens, no planejamento e, principalmente, na construção de laços que colocam, inclusive, os objetivos da missão em dúvida.
O filme acompanha a história real de Robert Mazur (Bryan Cranston), um agente infiltrado sob o disfarce de Bob Musella que trabalha para acabar com a operação de lavagem de dinheiro do cartel de Pablo Escobar a partir da relação do tráfico com bancos panamenhos. Confira o trailer:
Dirigido pelo ótimo Brad Furman (de "City of Lies") e baseado no livro do próprio Robert Mazur, "Conexão Escobar" é um prato cheio para quem gosta de filmes de ação, com elementos de investigação, que vão além do tiroteiro. A forma como o roteiro da (na época) estreante Ellen Furman vai amarrando as histórias dá a exata proporção do que foi a Operação C-Chase e o que ela representou na luta contra o tráfico de drogas durante os anos 80 - que, inclusive, culminou com a queda do Banco de Crédito e Comércio Internacional (BCCI), o sétimo maior banco privado do mundo.
O maior mérito do filme, sem dúvida, é ter Bryan Cranston como protagonista e o sempre divertido e competente John Leguizamo ("Waco") como coadjuvante (o agente Emir Abreu). Para os fãs de "Breaking Bad" é impossível não comparar a performance do ator com o tom que dá aos seus personagens Mazur e Mr. White, mas, principalmente, com a semelhança que vai além dos diálogos para exaltar a jornada moral de cada um! É impressionante como, embora diferentes, o conceito por trás dos personagens é parecido: ambos possuem um vida comum, em diferentes pontos de satisfação (claro), mas claramente aquém do que seus talentos poderiam oferecer, porém quando eles assumem uma segunda identidade, o flerte com a ilegalidade desperta a ambição - justamente o nó que o filme tenta desatar ou, pelo menos, medir o seu valor (a chegada da agente Kathy Ertz de Diane Kruger, personifica esse conflito interno).
"Conexão Escobar" poderia tranquilamente ser um spin-off da série "Narcos" - o que dá uma ótima noção do que você vai encontrar em 120 minutos de filme. Mesmo que a figura mítica de Pablo Escobar seja apenas um detalhe muito bem pontuado na trama, a atmosfera criada é extremante tensa e angustiante para quem assiste. Se a fotografia do diretor Joshua Reis se aproveita do enorme contraste de tons para retratar a diferença entre a vida “infiltrada” e a “verdadeira” de Robert, é na sensibilidade dos atores e na inteligência do roteiro que o filme decola!
Vale muito a pena!
Antes de falar de "Creed 2", eu preciso admitir que, para mim, a franquia "Rocky" terminou no quarto filme, quando ele nocauteia Ivan Drago com Burning Heart ecoando nos meus ouvidos, no ápice da guerra fria de 1985 - Meu Deus, eu assisti esse filme no cinema (rs)!!! Aquelas presepadas do 5 e do 6, devem ser esquecidas em nome do sucesso que essa nova série de filmes, que tem o filho do Apollo como protagonista, vem alcançando, ok?
Dito isso, agora podemos continuar sem nenhum peso na consciência! Creed trás para os anos 2000, um pouco do que Rocky representou para os anos 80! Fazendo esse paralelo, podemos dizer que "Creed" (2015) tem aquela atmosfera de cinema independente do "Rocky 1 e 2" - quando, inclusive, "o lutador" ganhou o Oscar de melhor filme em 1977. Ele espelha aquele conceito de cinema de autor, focado muito mais no drama do que na ação, nas lutas em si. Claro que com uma pegada mais moderna, mas com o mesmo foco na história mais existencial, com um roteiro mais profundo, trabalhado e com um diretor extremamente competente como o Ryan Coogler (de Pantera Negra) no comando para criar uma identidade própria, forte, ao mesmo tempo que revive um gênero que foi se perdendo no meio de tanta porcaria que fizeram durante anos. Funcionou! "Creed" foi um sucesso de bilheteria e de crítica - até presenteando o Stallone com uma indicação de melhor ator no Oscar de 2016!!!
Bom, ai vem Creed 2, filme que acabei de assistir: definitivamente é um filme menos autoral, eu diria que é mais de Estúdio, estilo blockbuster mesmo; sem tanta alma, sem tanto roteiro, mas com muito mais ação e aquela fórmula consagrada da jornada de superação do herói inseguro - como foi Rocky 3 e 4. Isso é um problema? De maneira nenhuma, Rocky 3 e 4 são os meus favoritos (me julguem, rs) e Creed 2 é praticamente um reboot desses dois filmes em um só! "Creed 2" é completamente previsível, superficial, mas muito (muito) divertido! O filme trás aquele sorriso no rosto já nos primeiros acordes da música tema (aquela...) no momento da virada, na última luta, quando tudo parecia perdido...
É claro que você já viu isso, a sinopse já te entrega o que vem pela frente de cara: o filho do Apollo tendo que enfrentar o filho do Drago em busca de auto-afirmação fantasiada de vingança! O fato é que essa previsibilidade pouco importa, porque a sensação de assistir essa jornada "novamente" é maravilhosa!!! Aliás você que tem mais de 40 anos (e/ou é fã da série anterior), vai adivinhar o filme inteirinho; vai reconhecer muito dos filmes dos anos 80, mas vai se divertir como adolescente de novo!!! Já você, na casa do 20, vai começar a entender um pouco mais "por que?" o Stallone se tornou um dos atores mais bem pagos daquela época e um ícone de uma geração!!!
A verdade é que "Creed 2" é um conjunto de clichês, não tem nada de novo, tudo é uma versão mais moderna do que já foi contado um dia... Perde muito em qualidade cinematográfica para o primeiro filme, tem um diretor infinitamente menos relevante, deixam de lado aquela inserção gráfica magnífica do cartel dos lutadores que poderia virar uma marca da série (e que era linda), mas, mesmo assim, te garanto: "Creed 2" vale cada centavo!!! É muito divertido, além de ter aquele tom nostálgico dos anos 80...
Antes de falar de "Creed 2", eu preciso admitir que, para mim, a franquia "Rocky" terminou no quarto filme, quando ele nocauteia Ivan Drago com Burning Heart ecoando nos meus ouvidos, no ápice da guerra fria de 1985 - Meu Deus, eu assisti esse filme no cinema (rs)!!! Aquelas presepadas do 5 e do 6, devem ser esquecidas em nome do sucesso que essa nova série de filmes, que tem o filho do Apollo como protagonista, vem alcançando, ok?
Dito isso, agora podemos continuar sem nenhum peso na consciência! Creed trás para os anos 2000, um pouco do que Rocky representou para os anos 80! Fazendo esse paralelo, podemos dizer que "Creed" (2015) tem aquela atmosfera de cinema independente do "Rocky 1 e 2" - quando, inclusive, "o lutador" ganhou o Oscar de melhor filme em 1977. Ele espelha aquele conceito de cinema de autor, focado muito mais no drama do que na ação, nas lutas em si. Claro que com uma pegada mais moderna, mas com o mesmo foco na história mais existencial, com um roteiro mais profundo, trabalhado e com um diretor extremamente competente como o Ryan Coogler (de Pantera Negra) no comando para criar uma identidade própria, forte, ao mesmo tempo que revive um gênero que foi se perdendo no meio de tanta porcaria que fizeram durante anos. Funcionou! "Creed" foi um sucesso de bilheteria e de crítica - até presenteando o Stallone com uma indicação de melhor ator no Oscar de 2016!!!
Bom, ai vem Creed 2, filme que acabei de assistir: definitivamente é um filme menos autoral, eu diria que é mais de Estúdio, estilo blockbuster mesmo; sem tanta alma, sem tanto roteiro, mas com muito mais ação e aquela fórmula consagrada da jornada de superação do herói inseguro - como foi Rocky 3 e 4. Isso é um problema? De maneira nenhuma, Rocky 3 e 4 são os meus favoritos (me julguem, rs) e Creed 2 é praticamente um reboot desses dois filmes em um só! "Creed 2" é completamente previsível, superficial, mas muito (muito) divertido! O filme trás aquele sorriso no rosto já nos primeiros acordes da música tema (aquela...) no momento da virada, na última luta, quando tudo parecia perdido...
É claro que você já viu isso, a sinopse já te entrega o que vem pela frente de cara: o filho do Apollo tendo que enfrentar o filho do Drago em busca de auto-afirmação fantasiada de vingança! O fato é que essa previsibilidade pouco importa, porque a sensação de assistir essa jornada "novamente" é maravilhosa!!! Aliás você que tem mais de 40 anos (e/ou é fã da série anterior), vai adivinhar o filme inteirinho; vai reconhecer muito dos filmes dos anos 80, mas vai se divertir como adolescente de novo!!! Já você, na casa do 20, vai começar a entender um pouco mais "por que?" o Stallone se tornou um dos atores mais bem pagos daquela época e um ícone de uma geração!!!
A verdade é que "Creed 2" é um conjunto de clichês, não tem nada de novo, tudo é uma versão mais moderna do que já foi contado um dia... Perde muito em qualidade cinematográfica para o primeiro filme, tem um diretor infinitamente menos relevante, deixam de lado aquela inserção gráfica magnífica do cartel dos lutadores que poderia virar uma marca da série (e que era linda), mas, mesmo assim, te garanto: "Creed 2" vale cada centavo!!! É muito divertido, além de ter aquele tom nostálgico dos anos 80...
"Creed 3" é essencialmente um filme de boxe, com as forças e as franquezas que o fã desse subgênero de ação já está acostumado. No entanto, especificamente nesse capitulo da franquia, o filme sofre com a imaturidade de Michael B. Jordan na direção e com o roteiro pouco inspirado (e certamente o menos consistente) do Ryan Coogler, que, inclusive, escreveu os anteriores e me parece que aqui apenas supervisionou o trabalho de Keenan Coogler (de "Space Jam 2") e de Zach Baylin (de "King Richard"). Ok, mas o filme é ruim? Não, longe disso, mas é preciso dizer que ao dar o play, você vai encontrar "mais do mesmo"!
Depois de dominar o mundo do boxe, Adonis Creed (Michael B. Jordan) vem prosperando tanto na carreira quanto na vida familiar até que um amigo de infância e ex-prodígio do boxe, Damian (Jonathan Majors), ressurge após ficar 18 anos na prisão. Ansioso para provar que merece sua chance no ringue, Damian pede a ajuda de Creed. Apesar de apoio do amigo, Damian parece não estar nada satisfeito com a ideia de que Creed tenha "tomado seu lugar" e é aí que os dois velhos amigos resolvem lutar para enfrentar os fantasmas do passado e assim encontrar um futuro mais digno para ambos. Confira o trailer:
Como já era de se esperar, as sequências de luta são o ponto alto de "Creed 3" - coreografadas com maestria e filmadas de forma bastante imersiva pelo diretor de fotografia Kramer Morgenthau. Cada soco, cada movimento é capturado de uma maneira visceral, fazendo com que a audiência, de fato, se sinta parte do ringue. A energia e a intensidade dessas cenas são impressionantes e é o que mantém nossa adrenalina em alta ao longo da trama, no entanto essas cenas são pontuais e o drama dos personagens em si, parece não ter a mesma "alma" dos outros dois filmes (especialmente o primeiro pelo tom mais independente da direção do próprio Coogler ou até do segundo graças ao conceito mais nostálgico da narrativa).
É inegável que o roteiro até se esforça para explorar questões sociais relevantes, ao abordar assuntos como o impacto da fama e do sucesso, a importância de encontrar sua própria voz e até a luta para superar o passado em pró do futuro - eu diria até que esses elementos adicionam certa profundidade à história, mas falta desenvolvimento. A relação do próprio Adonis com Damian, o impacto desse convívio com o que ambos se tornaram e as conexões entre a juventude pobre com as questões raciais e de preconceito, parecem pouco exploradas e deixam uma certa sensação de frustração quando chegamos no terceiro ato.
A trilha sonora produzida pelo selo Dreamville com músicas do rapper J. Cole é um espetáculo à parte - a cada filme, uma identidade, um verdadeiro show. Repare como as canções se encaixam quando combinadas com os temas de perseverança e dedicação que são exploradas pelo roteiro. Esse impacto emocional continua sendo um trunfo da franquia e faz com que “Creed 3” se mantenha interessante, divertido e até alinhado com a essência de "Rocky", mas como amante de filmes de boxe, eu abriria os olhos para não cometer as mesmas falhas que o grande Stallone cometeu por não aceitar que existe uma hora de finalizar um ciclo - imagino que o de "Creed" está chegando.
Para você, fã, vale o play!
"Creed 3" é essencialmente um filme de boxe, com as forças e as franquezas que o fã desse subgênero de ação já está acostumado. No entanto, especificamente nesse capitulo da franquia, o filme sofre com a imaturidade de Michael B. Jordan na direção e com o roteiro pouco inspirado (e certamente o menos consistente) do Ryan Coogler, que, inclusive, escreveu os anteriores e me parece que aqui apenas supervisionou o trabalho de Keenan Coogler (de "Space Jam 2") e de Zach Baylin (de "King Richard"). Ok, mas o filme é ruim? Não, longe disso, mas é preciso dizer que ao dar o play, você vai encontrar "mais do mesmo"!
Depois de dominar o mundo do boxe, Adonis Creed (Michael B. Jordan) vem prosperando tanto na carreira quanto na vida familiar até que um amigo de infância e ex-prodígio do boxe, Damian (Jonathan Majors), ressurge após ficar 18 anos na prisão. Ansioso para provar que merece sua chance no ringue, Damian pede a ajuda de Creed. Apesar de apoio do amigo, Damian parece não estar nada satisfeito com a ideia de que Creed tenha "tomado seu lugar" e é aí que os dois velhos amigos resolvem lutar para enfrentar os fantasmas do passado e assim encontrar um futuro mais digno para ambos. Confira o trailer:
Como já era de se esperar, as sequências de luta são o ponto alto de "Creed 3" - coreografadas com maestria e filmadas de forma bastante imersiva pelo diretor de fotografia Kramer Morgenthau. Cada soco, cada movimento é capturado de uma maneira visceral, fazendo com que a audiência, de fato, se sinta parte do ringue. A energia e a intensidade dessas cenas são impressionantes e é o que mantém nossa adrenalina em alta ao longo da trama, no entanto essas cenas são pontuais e o drama dos personagens em si, parece não ter a mesma "alma" dos outros dois filmes (especialmente o primeiro pelo tom mais independente da direção do próprio Coogler ou até do segundo graças ao conceito mais nostálgico da narrativa).
É inegável que o roteiro até se esforça para explorar questões sociais relevantes, ao abordar assuntos como o impacto da fama e do sucesso, a importância de encontrar sua própria voz e até a luta para superar o passado em pró do futuro - eu diria até que esses elementos adicionam certa profundidade à história, mas falta desenvolvimento. A relação do próprio Adonis com Damian, o impacto desse convívio com o que ambos se tornaram e as conexões entre a juventude pobre com as questões raciais e de preconceito, parecem pouco exploradas e deixam uma certa sensação de frustração quando chegamos no terceiro ato.
A trilha sonora produzida pelo selo Dreamville com músicas do rapper J. Cole é um espetáculo à parte - a cada filme, uma identidade, um verdadeiro show. Repare como as canções se encaixam quando combinadas com os temas de perseverança e dedicação que são exploradas pelo roteiro. Esse impacto emocional continua sendo um trunfo da franquia e faz com que “Creed 3” se mantenha interessante, divertido e até alinhado com a essência de "Rocky", mas como amante de filmes de boxe, eu abriria os olhos para não cometer as mesmas falhas que o grande Stallone cometeu por não aceitar que existe uma hora de finalizar um ciclo - imagino que o de "Creed" está chegando.
Para você, fã, vale o play!
Antes de mais nada é preciso dizer que a história de "Crimes de Família" é infinitamente mais potente do que o filme que vemos na tela - não que o filme seja ruim, mesmo porque ele não é, mas na minha opinião, sua previsibilidade pode prejudicar demais a experiência de quem assiste, já que as escolhas narrativas, tanto do roteiro quanto da direção, são falhas - eles fazem de tudo para criar uma expectativa por um "plot twist inesquecível" que na verdade nem precisava!
Talvez o fato do cinema argentino carregar o peso de nos ter apresentado muitos filmes surpreendentes, tenha interferido no trabalho do diretor (e co-roteirista) Sebastián Schindel. "Crimes de Família" conta a história real de dois crimes que aconteceram praticamente ao mesmo tempo, em uma mesma família de classe média/alta de Buenos Aires. Em um deles, o filho do casal Alícia (Cecília Roth) e Ignácio (Miguel Angel Sola) é acusado de estuprar e agredir sua ex-esposa. No outro, a empregada desse mesmo casal é presa acusada de cometer um homicídio e precisa enfrentar um difícil julgamento. Confira o trailer:
Embora contadas paralelamente, as duas histórias, obviamente, tem alguns elementos em comum que por si só já nos manteriam grudados no filme para que pudéssemos entender seu desdobramento, acontece que Schindel preferiu transformar uma história chocante, quase documental, em um thriller de mistério policial e para isso ele usou de uma gramática cinematográfica que notadamente funciona, só que a entrega final vai se enfraquecendo ao longo dos atos (de tão infantil que é)! Então, se você assumir que o "caminho" é muito mais interessante que o "fim" é bem provável que você vá amar o filme, mas se você cair na expectativa que o próprio diretor te sugere, a decepção pode ser grande, já que o elo entre esses dois crimes é "mais do mesmo"!
Certamente "Crimes de Família" não tem a força de narrativa e muito menos a elegância estética de "Em Defesa de Jacob", mas a produção da AppleTV+ vai servir como referência se você gosta desse estilo de trama. No final das contas eu gostei, mas nem de longe será um filme inesquecível. Vale como uma ótima "sessão da tarde" e por algumas passagens que vamos analisar abaixo!
Logo no inicio, mesmo nos causando uma certa estranheza, já percebemos que a quebra da linearidade da narrativa, vai nos criar aquela sensação incômoda do "o que aconteceu?" e esse mérito precisa ser valorizado. A questão é que o roteiro tem elementos mais críticos e que não precisava dessa dinâmica - o que eu quero dizer é que o drama existencial da mãe, Alícia, poderia ser um caminho muito mais eficiente do que o mistério investigativo escolhido. Repare: são dois crimes, um envolvendo o filho adulto, mimado e problemático do casal rico e o outro, uma empregada doméstica semi-analfabeta, pobre e introspectiva - a questão chave da trama é que a resposta da família à cada um dos "criminosos" é completamente diferente e tendenciosa! Ao discutir assuntos como: aborto, abuso sexual, drogas, alcoolismo, abandono, violência contra a mulher, racismo, preconceito, "Crimes de Família" cutuca feridas profundas da sociedade moderna, mas acaba transitando na superficialidade de cada tema por se preocupar muito mais com os crimes em si do que com os motivos e reflexos deles.
Cecília Roth poderia ser uma espécie de Isabelle Huppert de "Elle", não pela similaridade das personagens, mas pela profundidade das discussões e das decisões que ambas precisam tomar perante sua história, mas, mais uma vez, transita na inconstância da escolha do gênero. Quando provocada a mergulhar nas dores mais intimas, Roth dá um show: quando conversa com o marido sobre ajudar mais uma vez o filho problemático ou quando precisa tomar uma decisão que vai completamente contra o que acreditava ser o melhor para sua família, são dois ótimos exemplos. Outro destaque do elenco é a empregada Gladys, interpretada pela atriz Yanina Ávila - essa sim me impressionou durante os quase 100 minutos de filme. Benjamín Amadeo, o filho Daniel, é pouco aproveitado, mas o depoimento que faz no seu julgamento também merece reconhecimento!
Outro fator que o roteiro apresenta, mas que é pouco desenvolvido, diz respeito as várias formas de lidar com maternidade: se com Alícia vemos a incondicionalidade ou um predatório amor de mãe, até irracional, com Gladys temos um lado mais sombrio, marcado pelo passado e completamente inseguro, despreparado. Já a ex-esposa de Daniel, Marcela (Sofía Gala), encontramos a mulher em transformação, que encontra força para lutar e buscar uma vida melhor - tudo isso com o reflexo da convivência social entre filhos, parceiros e pais. Mais uma vez, quando Sebastián Schindel foca na ação e não na discussão entre essas diferenças, perdemos uma ótima oportunidade de ir um pouco além! Uma pena!
Fiz questão de exaltar tantos pontos positivos até para justificar o inicio dessa análise: "Crimes de Família" tem uma excelente história nas mãos e que vai tocar na alma feminina de uma forma mais cruel, mesmo com todas essas escolhas narrativas menos sensíveis. Poderia ser, de fato, um grande filme, mas acabou se tornando um bom entretenimento, com algum mistério, nada de suspense (como foi vendido pela Netflix) e com um drama mais forte do que será percebido!
Vale o play, mas não será uma unanimidade!
Antes de mais nada é preciso dizer que a história de "Crimes de Família" é infinitamente mais potente do que o filme que vemos na tela - não que o filme seja ruim, mesmo porque ele não é, mas na minha opinião, sua previsibilidade pode prejudicar demais a experiência de quem assiste, já que as escolhas narrativas, tanto do roteiro quanto da direção, são falhas - eles fazem de tudo para criar uma expectativa por um "plot twist inesquecível" que na verdade nem precisava!
Talvez o fato do cinema argentino carregar o peso de nos ter apresentado muitos filmes surpreendentes, tenha interferido no trabalho do diretor (e co-roteirista) Sebastián Schindel. "Crimes de Família" conta a história real de dois crimes que aconteceram praticamente ao mesmo tempo, em uma mesma família de classe média/alta de Buenos Aires. Em um deles, o filho do casal Alícia (Cecília Roth) e Ignácio (Miguel Angel Sola) é acusado de estuprar e agredir sua ex-esposa. No outro, a empregada desse mesmo casal é presa acusada de cometer um homicídio e precisa enfrentar um difícil julgamento. Confira o trailer:
Embora contadas paralelamente, as duas histórias, obviamente, tem alguns elementos em comum que por si só já nos manteriam grudados no filme para que pudéssemos entender seu desdobramento, acontece que Schindel preferiu transformar uma história chocante, quase documental, em um thriller de mistério policial e para isso ele usou de uma gramática cinematográfica que notadamente funciona, só que a entrega final vai se enfraquecendo ao longo dos atos (de tão infantil que é)! Então, se você assumir que o "caminho" é muito mais interessante que o "fim" é bem provável que você vá amar o filme, mas se você cair na expectativa que o próprio diretor te sugere, a decepção pode ser grande, já que o elo entre esses dois crimes é "mais do mesmo"!
Certamente "Crimes de Família" não tem a força de narrativa e muito menos a elegância estética de "Em Defesa de Jacob", mas a produção da AppleTV+ vai servir como referência se você gosta desse estilo de trama. No final das contas eu gostei, mas nem de longe será um filme inesquecível. Vale como uma ótima "sessão da tarde" e por algumas passagens que vamos analisar abaixo!
Logo no inicio, mesmo nos causando uma certa estranheza, já percebemos que a quebra da linearidade da narrativa, vai nos criar aquela sensação incômoda do "o que aconteceu?" e esse mérito precisa ser valorizado. A questão é que o roteiro tem elementos mais críticos e que não precisava dessa dinâmica - o que eu quero dizer é que o drama existencial da mãe, Alícia, poderia ser um caminho muito mais eficiente do que o mistério investigativo escolhido. Repare: são dois crimes, um envolvendo o filho adulto, mimado e problemático do casal rico e o outro, uma empregada doméstica semi-analfabeta, pobre e introspectiva - a questão chave da trama é que a resposta da família à cada um dos "criminosos" é completamente diferente e tendenciosa! Ao discutir assuntos como: aborto, abuso sexual, drogas, alcoolismo, abandono, violência contra a mulher, racismo, preconceito, "Crimes de Família" cutuca feridas profundas da sociedade moderna, mas acaba transitando na superficialidade de cada tema por se preocupar muito mais com os crimes em si do que com os motivos e reflexos deles.
Cecília Roth poderia ser uma espécie de Isabelle Huppert de "Elle", não pela similaridade das personagens, mas pela profundidade das discussões e das decisões que ambas precisam tomar perante sua história, mas, mais uma vez, transita na inconstância da escolha do gênero. Quando provocada a mergulhar nas dores mais intimas, Roth dá um show: quando conversa com o marido sobre ajudar mais uma vez o filho problemático ou quando precisa tomar uma decisão que vai completamente contra o que acreditava ser o melhor para sua família, são dois ótimos exemplos. Outro destaque do elenco é a empregada Gladys, interpretada pela atriz Yanina Ávila - essa sim me impressionou durante os quase 100 minutos de filme. Benjamín Amadeo, o filho Daniel, é pouco aproveitado, mas o depoimento que faz no seu julgamento também merece reconhecimento!
Outro fator que o roteiro apresenta, mas que é pouco desenvolvido, diz respeito as várias formas de lidar com maternidade: se com Alícia vemos a incondicionalidade ou um predatório amor de mãe, até irracional, com Gladys temos um lado mais sombrio, marcado pelo passado e completamente inseguro, despreparado. Já a ex-esposa de Daniel, Marcela (Sofía Gala), encontramos a mulher em transformação, que encontra força para lutar e buscar uma vida melhor - tudo isso com o reflexo da convivência social entre filhos, parceiros e pais. Mais uma vez, quando Sebastián Schindel foca na ação e não na discussão entre essas diferenças, perdemos uma ótima oportunidade de ir um pouco além! Uma pena!
Fiz questão de exaltar tantos pontos positivos até para justificar o inicio dessa análise: "Crimes de Família" tem uma excelente história nas mãos e que vai tocar na alma feminina de uma forma mais cruel, mesmo com todas essas escolhas narrativas menos sensíveis. Poderia ser, de fato, um grande filme, mas acabou se tornando um bom entretenimento, com algum mistério, nada de suspense (como foi vendido pela Netflix) e com um drama mais forte do que será percebido!
Vale o play, mas não será uma unanimidade!
Você não vai precisar mais do que alguns minutos para sentir seu estômago revirar com as histórias desse imperdível documentário da Netflix, "Criptofraude" - eu diria, uma mistura de "Shiny Flakes" com "O Escândalo da Wirecard" e, claro, com aquele toque Billy McFarland de "Fyre Festival". Com um roteiro impecável e uma narrativa envolvente, o filme dirigido pelo excelente Bryan Storkel (de um dos episódios de "Untold") não só joga luz sobre as falcatruas do infame Ray Trapani e de seus sócios na Centra Tech, como também oferece uma análise profunda de uma geração que acredita poder ganhar muito dinheiro, sem muito esforço - nesse caso a partir das entranhas mais obscuras do mundo das criptomoedas. Storkel, sem dúvidas, entrega uma obra que não apenas informa, mas também prende a audiência com uma história real absurda de um pseudo-empreendedorismo pautado na ganância, na irresponsabilidade, na mentira e na ironia de acreditar que sim, o crime compensa (até nos EUA)!
"Criptofraude" basicamente desvenda os bastidores da Centra Tech, uma startup que prometia revolucionar o mercado de criptomoedas transformando dinheiro digital em moeda física para se usar onde bem entender, na hora que o usuário quisesse. O que à primeira vista parecia uma promissora ideia, na verdade era a forma como Ray Trapani e Sam 'Sorbee' Sharma arquitetavam uma fraude que abalou o mundo financeiro e fez muita gente perder muito dinheiro. O documentário expõe não só as artimanhas de Trapani como faz um recorte profundo da sua personalidade e da maneira como ele enxerga a vida, revelando não só sua rede de cúmplices, mas também sua incrível façanha de iludir investidores, celebridades e clientes do mundo inteiro. Confira o trailer (em inglês):
"Criptofraude" se destaca não apenas pelo seu tema intrigante, atual, mas também por uma execução técnica e artística primorosa - tudo no documentário funciona tão harmoniosamente, dos irritantes depoimentos do próprio Trapani até as reconstituições (sempre desfocadas) que nos dão a exata noção do que foi a Centra Tech e de como toda aquela fraude foi pensada por seus fundadores. O roteiro do Jonathan Ignatius Green mergulha nas sombras do mundo digital, criando uma atmosfera que reflete a complexidade moral da história, essencialmente personificando aquele mindset de que a vida é uma eterna festa.
A direção de Storkel sabe navegar entre a gramática documental e da ficção - isso mantém o ritmo e o interesse em alta. Sua proposta visual é agradável, como se ler uma revista cheia de cores marcantes fosse mais prazeiroso que ler um melancólico jornal preto e branco e é nesse sentido que destaco a montagem precisa de Weston Currie: envolvente, divertida e de muito bom gosto. Veja, todos esses elementos juntos só potencializam a capacidade do documentário de desvendar a mente realmente criminosa de um jovem Trapani, oferecendo uma análise psicológica das mais interessantes, e da forma como ele enxergava oportunidades e transformava em negócios. Acho até que o filme não apenas acusa ele, mas também explora suas motivações e as nuances éticas por trás das suas ações sempre com um olhar perspicaz e muitas vezes provocador, mesmo soando inocente em várias passagens.
O fato é que "Criptofraude" adiciona camadas de profundidade emocionais à trama, tornando-a mais do que uma simples exposição de fraudes para se tornar um objeto de reflexão sobre essa era das redes sociais e da busca pela vida perfeita sem esforço. Saíba que você será envolvido em uma experiência única que combina uma narrativa fascinante com personagens odiáveis. Então se você procura uma história, ou melhor, uma jornada intrigante sobre os bastidores do empreendedorismo mentiroso em um universo digital que representa 78% de fraudes, "Criptofraude" é a escolha certa. Pode ir para o play!
Você não vai precisar mais do que alguns minutos para sentir seu estômago revirar com as histórias desse imperdível documentário da Netflix, "Criptofraude" - eu diria, uma mistura de "Shiny Flakes" com "O Escândalo da Wirecard" e, claro, com aquele toque Billy McFarland de "Fyre Festival". Com um roteiro impecável e uma narrativa envolvente, o filme dirigido pelo excelente Bryan Storkel (de um dos episódios de "Untold") não só joga luz sobre as falcatruas do infame Ray Trapani e de seus sócios na Centra Tech, como também oferece uma análise profunda de uma geração que acredita poder ganhar muito dinheiro, sem muito esforço - nesse caso a partir das entranhas mais obscuras do mundo das criptomoedas. Storkel, sem dúvidas, entrega uma obra que não apenas informa, mas também prende a audiência com uma história real absurda de um pseudo-empreendedorismo pautado na ganância, na irresponsabilidade, na mentira e na ironia de acreditar que sim, o crime compensa (até nos EUA)!
"Criptofraude" basicamente desvenda os bastidores da Centra Tech, uma startup que prometia revolucionar o mercado de criptomoedas transformando dinheiro digital em moeda física para se usar onde bem entender, na hora que o usuário quisesse. O que à primeira vista parecia uma promissora ideia, na verdade era a forma como Ray Trapani e Sam 'Sorbee' Sharma arquitetavam uma fraude que abalou o mundo financeiro e fez muita gente perder muito dinheiro. O documentário expõe não só as artimanhas de Trapani como faz um recorte profundo da sua personalidade e da maneira como ele enxerga a vida, revelando não só sua rede de cúmplices, mas também sua incrível façanha de iludir investidores, celebridades e clientes do mundo inteiro. Confira o trailer (em inglês):
"Criptofraude" se destaca não apenas pelo seu tema intrigante, atual, mas também por uma execução técnica e artística primorosa - tudo no documentário funciona tão harmoniosamente, dos irritantes depoimentos do próprio Trapani até as reconstituições (sempre desfocadas) que nos dão a exata noção do que foi a Centra Tech e de como toda aquela fraude foi pensada por seus fundadores. O roteiro do Jonathan Ignatius Green mergulha nas sombras do mundo digital, criando uma atmosfera que reflete a complexidade moral da história, essencialmente personificando aquele mindset de que a vida é uma eterna festa.
A direção de Storkel sabe navegar entre a gramática documental e da ficção - isso mantém o ritmo e o interesse em alta. Sua proposta visual é agradável, como se ler uma revista cheia de cores marcantes fosse mais prazeiroso que ler um melancólico jornal preto e branco e é nesse sentido que destaco a montagem precisa de Weston Currie: envolvente, divertida e de muito bom gosto. Veja, todos esses elementos juntos só potencializam a capacidade do documentário de desvendar a mente realmente criminosa de um jovem Trapani, oferecendo uma análise psicológica das mais interessantes, e da forma como ele enxergava oportunidades e transformava em negócios. Acho até que o filme não apenas acusa ele, mas também explora suas motivações e as nuances éticas por trás das suas ações sempre com um olhar perspicaz e muitas vezes provocador, mesmo soando inocente em várias passagens.
O fato é que "Criptofraude" adiciona camadas de profundidade emocionais à trama, tornando-a mais do que uma simples exposição de fraudes para se tornar um objeto de reflexão sobre essa era das redes sociais e da busca pela vida perfeita sem esforço. Saíba que você será envolvido em uma experiência única que combina uma narrativa fascinante com personagens odiáveis. Então se você procura uma história, ou melhor, uma jornada intrigante sobre os bastidores do empreendedorismo mentiroso em um universo digital que representa 78% de fraudes, "Criptofraude" é a escolha certa. Pode ir para o play!
Na linha de "Luta por Justiça" e de "Olhos que condenam", a história de "Crown Heights" é mais uma daquelas difíceis de digerir onde questionamos a racionalidade e os valores do ser humano sem o menor receio de ser injusto, afinal, o que vemos em pouco mais de 90 minutos é um retrato de uma sociedade racista e egocêntrica incapaz de olhar o outro através de suas próprias inseguranças e vulnerabilidades.
Quando Colin Warner (LaKeith Stanfield) é injustamente condenado por homicídio, seu melhor amigo, Carl King (Nnamdi Asomugha), dedica sua vida para provar a inocência de Colin. Adaptado de "This American Life", esta é a incrível história real sobre uma angustiante busca pela justiça por mais de 20 anos. Confira o trailer (em inglês):
Chancelado pelo prêmio de "Melhor Filme Dramático" pela audiência no Festival de Sundance em 2017, o filme dirigido pelo Matt Ruskin (muito conhecido por ter produzido o excelente "Conexão Escolbar") procura alinhar a vida de dois personagens na busca pela verdade. Se de uma lado temos o ponto de vista de quem foi condenado e sofre o dia a dia de uma prisão, do outro temos a resiliência de quem acredita que ainda é possível fazer justiça dentro de uma sociedade preconceituosa e elitista. E embora o roteiro do próprio Ruskin retrate a fragilidade do sistema penal e carcerário americano, é inegável que é a jornada dos protagonistas nos move, nos emociona e, principalmente, nos faz refletir!
Sem a preocupação de colocar em dúvida a inocência de Colin Warner, "Crown Heights" se esforça é para retratar a realidade, considerando que o acusado está longe de ser um modelo irretocável de caráter. Warner parece ser uma boa pessoa se analisado pelo âmbito familiar, porém suas atitudes (e cada um é convidado ao julgamento unicamente por elas) também expõem suas falhas - o interessante dessa construção cuidadosa do personagem, é que o roteiro vai nos apresentando diversas camadas, humanizando Warner, e provando que nem sempre existem respostas 100% seguras para muitos atos quando eles são fortemente provocados pelo meio em que seus atores estão inseridos.
Como o recorte da vida de Warner apresentado no filme é bastante extenso, é natural percebermos que a narrativa se apoia na edição bem realizada pelo, duas vezes vencedor do Oscar (das quatro indicações que recebeu), Joe Hutshing. Sim, Hutshing (de "JFK") fragmenta a jornada; mas é extremamente competente em unir duas histórias com a mesma precisão com que pontua os problemas sociais e as inúmeras falhas do sistema sem que um assunto atropele o outro. Nesse ponto, aliás, o diretor Matt Ruskin também brilha - é impressionante como ele conduz os personagens, como eles vão se transformando e ganhando (ou perdendo) vida durante a progressão da história.
"Crown Heights" é muito envolvente, mas pouco confortável. Olhando em retrospectiva, chega a ser surpreendente que o filme não tenha ganhado os holofotes na temporada de premiação daquele ano, seja pelo roteiro muito bem escrito, pela direção surpreendente de Ruskin, mas, principalmente, pelas performances de LaKeith Stanfield, de Nnamdi Asomugha e até de Natalie Paul (como a futura esposa de Warner, Antoinette).
Por tudo isso e muito mais, "Crown Heights" vale muito o seu play!
Na linha de "Luta por Justiça" e de "Olhos que condenam", a história de "Crown Heights" é mais uma daquelas difíceis de digerir onde questionamos a racionalidade e os valores do ser humano sem o menor receio de ser injusto, afinal, o que vemos em pouco mais de 90 minutos é um retrato de uma sociedade racista e egocêntrica incapaz de olhar o outro através de suas próprias inseguranças e vulnerabilidades.
Quando Colin Warner (LaKeith Stanfield) é injustamente condenado por homicídio, seu melhor amigo, Carl King (Nnamdi Asomugha), dedica sua vida para provar a inocência de Colin. Adaptado de "This American Life", esta é a incrível história real sobre uma angustiante busca pela justiça por mais de 20 anos. Confira o trailer (em inglês):
Chancelado pelo prêmio de "Melhor Filme Dramático" pela audiência no Festival de Sundance em 2017, o filme dirigido pelo Matt Ruskin (muito conhecido por ter produzido o excelente "Conexão Escolbar") procura alinhar a vida de dois personagens na busca pela verdade. Se de uma lado temos o ponto de vista de quem foi condenado e sofre o dia a dia de uma prisão, do outro temos a resiliência de quem acredita que ainda é possível fazer justiça dentro de uma sociedade preconceituosa e elitista. E embora o roteiro do próprio Ruskin retrate a fragilidade do sistema penal e carcerário americano, é inegável que é a jornada dos protagonistas nos move, nos emociona e, principalmente, nos faz refletir!
Sem a preocupação de colocar em dúvida a inocência de Colin Warner, "Crown Heights" se esforça é para retratar a realidade, considerando que o acusado está longe de ser um modelo irretocável de caráter. Warner parece ser uma boa pessoa se analisado pelo âmbito familiar, porém suas atitudes (e cada um é convidado ao julgamento unicamente por elas) também expõem suas falhas - o interessante dessa construção cuidadosa do personagem, é que o roteiro vai nos apresentando diversas camadas, humanizando Warner, e provando que nem sempre existem respostas 100% seguras para muitos atos quando eles são fortemente provocados pelo meio em que seus atores estão inseridos.
Como o recorte da vida de Warner apresentado no filme é bastante extenso, é natural percebermos que a narrativa se apoia na edição bem realizada pelo, duas vezes vencedor do Oscar (das quatro indicações que recebeu), Joe Hutshing. Sim, Hutshing (de "JFK") fragmenta a jornada; mas é extremamente competente em unir duas histórias com a mesma precisão com que pontua os problemas sociais e as inúmeras falhas do sistema sem que um assunto atropele o outro. Nesse ponto, aliás, o diretor Matt Ruskin também brilha - é impressionante como ele conduz os personagens, como eles vão se transformando e ganhando (ou perdendo) vida durante a progressão da história.
"Crown Heights" é muito envolvente, mas pouco confortável. Olhando em retrospectiva, chega a ser surpreendente que o filme não tenha ganhado os holofotes na temporada de premiação daquele ano, seja pelo roteiro muito bem escrito, pela direção surpreendente de Ruskin, mas, principalmente, pelas performances de LaKeith Stanfield, de Nnamdi Asomugha e até de Natalie Paul (como a futura esposa de Warner, Antoinette).
Por tudo isso e muito mais, "Crown Heights" vale muito o seu play!
Se olharmos pela perspectiva do desejo de ser muito rico, ainda muito jovem e assim resolver todos os problemas da vida com dinheiro e sem pensar nas consequências, "Crypto Boy" é uma versão atualizada de todo dilema que assistimos em "O Clube dos Meninos Bilionários" e que depois fomos nos aprofundando em excelentes obras como "Altos Negócios", "O Primeiro Milhão" e "O Mago das Mentiras". Dito isso, fica muito fácil definir a linha narrativa que essa produção holandesa da Netflix escolhe para discutir o jogo de altos e baixos, mentiras e meia-verdades, do universo das criptomoedas, sem cair na armadilha de se aprofundar ou analisar didaticamente um cenário que, pode ter certeza, ainda terá ótimas (e verídicas, talvez por isso absurdas) histórias para contar.
Dirigido por Shady El-Hamus (de "Forever Rich"), o filme acompanha a história do jovem Amir (Shahine El-Hamus), um rapaz que anda ainda meio perdido na vida, mas cheio de sonhos e ambições, que não se sente feliz sendo o garoto de entregas do restaurante mexicano de seu pai. Quando, bem por acaso, Amir descobre o universo das criptomoedas e conhece o CEO de uma startup que transaciona esse tipo de ativo prometendo lucros de 2% ao dia, Roy (Minne Koole), tudo muda! O problema é que, com o tempo, aquilo que parecia uma mina de ouro se transforma em uma crise pessoal e familiar sem precedentes. Confira o trailer (no seu idioma original):
Talvez a grande força "Crypto Boy" esteja justamente no elemento que pode desagradar algumas pessoas: sua simplicidade. O filme não deve ser encarado como um documentário mais profundo sobre o assunto, para isso sugiro outra obra: "Não confie em ninguém: a caça ao rei das criptomoedas", também da Netflix. Aqui estamos falando é de um drama despretensioso que, mesmo nos remetendo ao escândalo real da FTX e de seu fundador Sam Bankman-Fried, não passa de uma ficção com o único objetivo de entreter. O roteiro de El-Hamus, ao lado de seu parceiro Jeroen Scholten van Aschat, é habilmente construído para tornar aquele mundo que pode soar complexo para alguns, em algo acessível para todos, independentemente do conhecimento prévio que podemos (ou não) ter.
A narrativa é sim muito inteligente e por isso envolvente, já que insere uma jornada de humanidade ao perigo que pode ser o mercado de criptomoedas. Embora um pouco estereotipado demais em alguns momentos, o filme proporciona uma visão mais perspicaz sobre as dinâmicas financeiras modernas ao mesmo tempo em que usa das consequências de sua fraude para pontuar as relações familiares e provocar uma reflexão sobre o valor da "ultrapassada" velha economia. A direção habilidosa de El-Hamus capta muito bem a distorção do conceito "não trabalhe por dinheiro; deixe o dinheiro trabalhar por você" na cabeça de uma geração que ainda acredita no "almoço grátis" para se dar bem. Agora reparem quando a realidade bate na porta, como a tensão simbolizada pelo olhar de Amir e a angustia de, mais uma vez, ter decepcionado seu pai, nos provoca reflexões - e acreditem, ao encarar, sob essa perspectiva, "Crypto Boy" muda de patamar.
É um fato que aqui temos um filme que nos cativa do início ao fim, mas que não deixa marcas inesquecíveis. Embora sua narrativa seja intrigante, o assunto esteja em voga, as atuações sejam de alto nível e a produção impecável dentro de suas limitações e proposta, "Crypto Boy" é apenas mais um ótimo entretenimento para um domingo à tarde. Ou seja, se você é um entusiasta de tecnologia, um investidor em criptomoedas ou simplesmente alguém em busca diversão sem precisar pensar demais, certamente você vai se conectar com a história e ficar muito satisfeito.
Se olharmos pela perspectiva do desejo de ser muito rico, ainda muito jovem e assim resolver todos os problemas da vida com dinheiro e sem pensar nas consequências, "Crypto Boy" é uma versão atualizada de todo dilema que assistimos em "O Clube dos Meninos Bilionários" e que depois fomos nos aprofundando em excelentes obras como "Altos Negócios", "O Primeiro Milhão" e "O Mago das Mentiras". Dito isso, fica muito fácil definir a linha narrativa que essa produção holandesa da Netflix escolhe para discutir o jogo de altos e baixos, mentiras e meia-verdades, do universo das criptomoedas, sem cair na armadilha de se aprofundar ou analisar didaticamente um cenário que, pode ter certeza, ainda terá ótimas (e verídicas, talvez por isso absurdas) histórias para contar.
Dirigido por Shady El-Hamus (de "Forever Rich"), o filme acompanha a história do jovem Amir (Shahine El-Hamus), um rapaz que anda ainda meio perdido na vida, mas cheio de sonhos e ambições, que não se sente feliz sendo o garoto de entregas do restaurante mexicano de seu pai. Quando, bem por acaso, Amir descobre o universo das criptomoedas e conhece o CEO de uma startup que transaciona esse tipo de ativo prometendo lucros de 2% ao dia, Roy (Minne Koole), tudo muda! O problema é que, com o tempo, aquilo que parecia uma mina de ouro se transforma em uma crise pessoal e familiar sem precedentes. Confira o trailer (no seu idioma original):
Talvez a grande força "Crypto Boy" esteja justamente no elemento que pode desagradar algumas pessoas: sua simplicidade. O filme não deve ser encarado como um documentário mais profundo sobre o assunto, para isso sugiro outra obra: "Não confie em ninguém: a caça ao rei das criptomoedas", também da Netflix. Aqui estamos falando é de um drama despretensioso que, mesmo nos remetendo ao escândalo real da FTX e de seu fundador Sam Bankman-Fried, não passa de uma ficção com o único objetivo de entreter. O roteiro de El-Hamus, ao lado de seu parceiro Jeroen Scholten van Aschat, é habilmente construído para tornar aquele mundo que pode soar complexo para alguns, em algo acessível para todos, independentemente do conhecimento prévio que podemos (ou não) ter.
A narrativa é sim muito inteligente e por isso envolvente, já que insere uma jornada de humanidade ao perigo que pode ser o mercado de criptomoedas. Embora um pouco estereotipado demais em alguns momentos, o filme proporciona uma visão mais perspicaz sobre as dinâmicas financeiras modernas ao mesmo tempo em que usa das consequências de sua fraude para pontuar as relações familiares e provocar uma reflexão sobre o valor da "ultrapassada" velha economia. A direção habilidosa de El-Hamus capta muito bem a distorção do conceito "não trabalhe por dinheiro; deixe o dinheiro trabalhar por você" na cabeça de uma geração que ainda acredita no "almoço grátis" para se dar bem. Agora reparem quando a realidade bate na porta, como a tensão simbolizada pelo olhar de Amir e a angustia de, mais uma vez, ter decepcionado seu pai, nos provoca reflexões - e acreditem, ao encarar, sob essa perspectiva, "Crypto Boy" muda de patamar.
É um fato que aqui temos um filme que nos cativa do início ao fim, mas que não deixa marcas inesquecíveis. Embora sua narrativa seja intrigante, o assunto esteja em voga, as atuações sejam de alto nível e a produção impecável dentro de suas limitações e proposta, "Crypto Boy" é apenas mais um ótimo entretenimento para um domingo à tarde. Ou seja, se você é um entusiasta de tecnologia, um investidor em criptomoedas ou simplesmente alguém em busca diversão sem precisar pensar demais, certamente você vai se conectar com a história e ficar muito satisfeito.
Se "O Paraíso e a Serpente" (coprodução da BBC One com a Netflix) poderia, tranquilamente, ser uma temporada de "American Crime Story", a minissérie de dez episódios, "Dahmer: Um Canibal Americano", sem a menor dúvida, se encaixa dentro do mesmo conceito como obra antológica sobre crimes marcantes, além de se apropriar de uma narrativa muito similar ao que o próprio Ryan Murphy já desenvolveu no passado - citar "O Assassinato de Gianni Versace", inclusive, parece até natural como referência.
Aqui acompanhamos a trajetória do infame serial killer Jeffrey Dahmer (Evan Peters) através do tempo. Ao explorar a juventude do assassino até sua vida adulta, temos um retrato complexo da mente por trás do monstro que tirou a vida de 17 homens e meninos entre os anos de 1978 e 1991, em Milwaukee, nos EUA. Além de cobrir muitos dos seus brutais assassinatos, a minissérie também analisa os problemas que permitiram que Dahmer continuasse agindo com total impunidade ao longo de mais de uma década. Confira o trailer:
Embora o time de diretores encabeçado pela excelente Jennifer Lynch (de "Sob Controle") domine completamente a gramática cinematográfica do suspense, é inegável que o ponto alto da minissérie está na maneira como o elenco se relaciona com seus personagens ao ponto de termos a exata noção do terror que representou aquele universo onde Jeffrey Dahmer estava inserido. Ter a vencedora do Emmy, Niecy Nash, como a vizinha Glenda Cleveland, além de Evan Peters no melhor e mais profundo papel de sua carreira (até melhor que o do detetive Colin Zabel de "Mare of Easttown"), é de fato um privilégio - ambos estão tão bem que chega a ser impossível imaginar uma nova temporada de premiações sem a presença de ambos.
Obviamente que o foco da minissérie é expor os crimes brutais que Dahmer cometeu, porém o pano de fundo é tão potente (embora em alguns momentos o roteiro se esforce para ser didático e repetitivo demais - ao melhor estilo Ryan Murphy) que tudo se encaixa perfeitamente dentro de um fluxo narrativo que praticamente nos impede de desligar a tv antes de assistir o próximo episódio. Ao pontuar uma sociedade que convivia com o desprezo pelos grupos minoritários, com um forte racismo estrutural e com importantes falhas institucionais, "Dahmer: Um Canibal Americano" é praticamente uma obra-denúncia que sinceramente deve ter deixado muita gente constrangida.
Embora os detalhes dos crimes de Dahmer sejam até mais sugestivos do que explícitos visualmente, é preciso que se diga que algumas cenas são bem impactantes graficamente. O primeiro episódio não nos poupa, por exemplo, de fotos onde vemos corpos completamente desmembrados ou mutilados, bem como introduz algumas particularidades sobre o modo (brutal e doentio) com que o assassino se relacionava com suas vítimas. Reparem até como isso dialoga com a fotografia do Jason McCormick e do veterano John T. Connor - ela vai se tornando mais escura com o passar do tempo, indicando o caminho sombrio que o protagonista escolheu. Os planos mais longos também merecem sua atenção - eles são tão bem planejados que os movimentos soam quase como documentais, dando uma sensação de realidade impressionante.
"Dahmer: Um Canibal Americano" é um soco no estômago que vai ganhando maior intensidade conforme os episódios vão se desenrolando. Talvez pelo caminho escolhido para contar uma história real tão complexa e aterrorizante, dentro de um recorte de tempo tão extenso, prejudique um pouco a experiência - você vai notar isso a partir do episódio 6 quando o foco da história muda um pouco. Porém, é inegável a capacidade de Ryan Murphy em entregar entretenimento onde normalmente se encontraria repulsa e esse é o que faz dessa minissérie despontar como uma ótima surpresa no catálogo da Netflix mesmo com aquela sensação de "já vi algo parecido em algum lugar" e sem o selo respeitável de "American Crime Story" da FX.
Vale seu play!
Se "O Paraíso e a Serpente" (coprodução da BBC One com a Netflix) poderia, tranquilamente, ser uma temporada de "American Crime Story", a minissérie de dez episódios, "Dahmer: Um Canibal Americano", sem a menor dúvida, se encaixa dentro do mesmo conceito como obra antológica sobre crimes marcantes, além de se apropriar de uma narrativa muito similar ao que o próprio Ryan Murphy já desenvolveu no passado - citar "O Assassinato de Gianni Versace", inclusive, parece até natural como referência.
Aqui acompanhamos a trajetória do infame serial killer Jeffrey Dahmer (Evan Peters) através do tempo. Ao explorar a juventude do assassino até sua vida adulta, temos um retrato complexo da mente por trás do monstro que tirou a vida de 17 homens e meninos entre os anos de 1978 e 1991, em Milwaukee, nos EUA. Além de cobrir muitos dos seus brutais assassinatos, a minissérie também analisa os problemas que permitiram que Dahmer continuasse agindo com total impunidade ao longo de mais de uma década. Confira o trailer:
Embora o time de diretores encabeçado pela excelente Jennifer Lynch (de "Sob Controle") domine completamente a gramática cinematográfica do suspense, é inegável que o ponto alto da minissérie está na maneira como o elenco se relaciona com seus personagens ao ponto de termos a exata noção do terror que representou aquele universo onde Jeffrey Dahmer estava inserido. Ter a vencedora do Emmy, Niecy Nash, como a vizinha Glenda Cleveland, além de Evan Peters no melhor e mais profundo papel de sua carreira (até melhor que o do detetive Colin Zabel de "Mare of Easttown"), é de fato um privilégio - ambos estão tão bem que chega a ser impossível imaginar uma nova temporada de premiações sem a presença de ambos.
Obviamente que o foco da minissérie é expor os crimes brutais que Dahmer cometeu, porém o pano de fundo é tão potente (embora em alguns momentos o roteiro se esforce para ser didático e repetitivo demais - ao melhor estilo Ryan Murphy) que tudo se encaixa perfeitamente dentro de um fluxo narrativo que praticamente nos impede de desligar a tv antes de assistir o próximo episódio. Ao pontuar uma sociedade que convivia com o desprezo pelos grupos minoritários, com um forte racismo estrutural e com importantes falhas institucionais, "Dahmer: Um Canibal Americano" é praticamente uma obra-denúncia que sinceramente deve ter deixado muita gente constrangida.
Embora os detalhes dos crimes de Dahmer sejam até mais sugestivos do que explícitos visualmente, é preciso que se diga que algumas cenas são bem impactantes graficamente. O primeiro episódio não nos poupa, por exemplo, de fotos onde vemos corpos completamente desmembrados ou mutilados, bem como introduz algumas particularidades sobre o modo (brutal e doentio) com que o assassino se relacionava com suas vítimas. Reparem até como isso dialoga com a fotografia do Jason McCormick e do veterano John T. Connor - ela vai se tornando mais escura com o passar do tempo, indicando o caminho sombrio que o protagonista escolheu. Os planos mais longos também merecem sua atenção - eles são tão bem planejados que os movimentos soam quase como documentais, dando uma sensação de realidade impressionante.
"Dahmer: Um Canibal Americano" é um soco no estômago que vai ganhando maior intensidade conforme os episódios vão se desenrolando. Talvez pelo caminho escolhido para contar uma história real tão complexa e aterrorizante, dentro de um recorte de tempo tão extenso, prejudique um pouco a experiência - você vai notar isso a partir do episódio 6 quando o foco da história muda um pouco. Porém, é inegável a capacidade de Ryan Murphy em entregar entretenimento onde normalmente se encontraria repulsa e esse é o que faz dessa minissérie despontar como uma ótima surpresa no catálogo da Netflix mesmo com aquela sensação de "já vi algo parecido em algum lugar" e sem o selo respeitável de "American Crime Story" da FX.
Vale seu play!
Costumo dizer que existe um tipo de história que não precisa muito para ser analisada, ela precisa ser sentida! Certamente "Daisy Jones & The Six" é uma delas! Essa minissérie da Prime Video, baseada no best-seller de Taylor Jenkins Reid, é um recorte profundamente emocional e nostálgico do representou o rock dos anos 70 - aliás, com forte inspiração em bandas icônicas como Fleetwood Mac (dizem até que as histórias se confundem). Criada por Scott Neustadter e Michael H. Weber (ambos de "Artista do Desastre") , essa minissérie de 10 episódios transforma o formato documental do livro em uma narrativa envolvente que mistura drama e música pela perspectiva da complexidade das relações humanas na busca pelo sucesso e reconhecimento em um período de auge da indústria fonográfica. "Daisy Jones & The Six" traz o melhor de "Quase Famosos" com a essência de qualquer grande cinebiografia musical de destaque - só que aqui, com muito mais tempo de tela para um desenvolvimento de personagens primoroso.
A trama de "Daisy Jones & The Six", basicamente, acompanha a ascensão e queda de uma talentosa banda fictícia, explorando os bastidores e a trajetória de cada um dos seus membros até o estrelato, além dos conflitos que levaram ao fim prematuro de um projeto que parecia único. Confira o trailer:
Em um primeiro olhar, é a narrativa estruturada como um documentário que vai chamar sua atenção. Essa proposta de Neustadter e Weber, de fato, cria uma dinâmica bastante interessante para quem assiste, trazendo uma certa sensação de realidade para a narrativa e fazendo com que as entrevistas dos integrantes da banda, relembrando eventos passados, soe nostálgica e ao mesmo tempo provocadora, já que o mistério sobre os acontecimentos que levaram ao fim da banda anos antes nos mantém engajados de uma forma impressionante. Nesse sentido, a ambientação acaba sendo um dos grandes trunfos da produção. O figurino, a direção de arte e a trilha sonora original capturam com autenticidade o espírito dos anos 70, nos transportando para uma época de excessos, criatividade e egos inflamados - um contraste com os dias atuais.
Riley Keough, neta de Elvis Presley, assume o papel da enigmática Daisy Jones, uma jovem cantora talentosa e autodestrutiva, cuja presença transforma completamente o destino da banda The Six. Sua performance carrega uma intensidade magnética, equilibrando insegurança com rebeldia. Ao seu lado, Sam Claflin interpreta Billy Dunne, o então líder da banda, cuja dinâmica com Daisy se torna o centro emocional da minissérie - repleta de tensão, uma química explosiva e, claro, sentimentos não tão bem resolvidos. A direção de James Ponsoldt (de "Falando a Real") e de Nzingha Stewart (de "Inventando Anna") aposta, com muita elegância, em uma estética granulada e um iluminação mais quente, evocando a sensação de estarmos assistindo a imagens de arquivo de uma Los Angeles dourada - os takes rodados em Super8, por exemplo, só valorizam esse conceito visual. Além disso, o uso das entrevistas intercaladas com flashbacks adiciona uma camada de profundidade à trama, revelando, pouco a pouco, como cada personagem enxerga os eventos do passado de forma subjetiva, muitas vezes até contraditória - e funciona demais!
"Daisy Jones & The Six" entrega uma experiência cativante, tanto para fãs da literatura quanto para amantes da música - aliás, é preciso que se diga: as músicas da banda foram compostas exclusivamente para a minissérie e entregam um realismo raro em produções desse tipo, algo que contribui demais para a imersão e para o senso de credibilidade da história. Com atuações marcantes, uma jornada emocional envolvente e uma trama que explora talento, o ego e as dores do sucesso, "Daisy Jones & The Six" é uma jóia que merece demais a sua atenção - por sua "forma" e por seu "conteúdo". Imperdível!
Vale muito o seu play!
Costumo dizer que existe um tipo de história que não precisa muito para ser analisada, ela precisa ser sentida! Certamente "Daisy Jones & The Six" é uma delas! Essa minissérie da Prime Video, baseada no best-seller de Taylor Jenkins Reid, é um recorte profundamente emocional e nostálgico do representou o rock dos anos 70 - aliás, com forte inspiração em bandas icônicas como Fleetwood Mac (dizem até que as histórias se confundem). Criada por Scott Neustadter e Michael H. Weber (ambos de "Artista do Desastre") , essa minissérie de 10 episódios transforma o formato documental do livro em uma narrativa envolvente que mistura drama e música pela perspectiva da complexidade das relações humanas na busca pelo sucesso e reconhecimento em um período de auge da indústria fonográfica. "Daisy Jones & The Six" traz o melhor de "Quase Famosos" com a essência de qualquer grande cinebiografia musical de destaque - só que aqui, com muito mais tempo de tela para um desenvolvimento de personagens primoroso.
A trama de "Daisy Jones & The Six", basicamente, acompanha a ascensão e queda de uma talentosa banda fictícia, explorando os bastidores e a trajetória de cada um dos seus membros até o estrelato, além dos conflitos que levaram ao fim prematuro de um projeto que parecia único. Confira o trailer:
Em um primeiro olhar, é a narrativa estruturada como um documentário que vai chamar sua atenção. Essa proposta de Neustadter e Weber, de fato, cria uma dinâmica bastante interessante para quem assiste, trazendo uma certa sensação de realidade para a narrativa e fazendo com que as entrevistas dos integrantes da banda, relembrando eventos passados, soe nostálgica e ao mesmo tempo provocadora, já que o mistério sobre os acontecimentos que levaram ao fim da banda anos antes nos mantém engajados de uma forma impressionante. Nesse sentido, a ambientação acaba sendo um dos grandes trunfos da produção. O figurino, a direção de arte e a trilha sonora original capturam com autenticidade o espírito dos anos 70, nos transportando para uma época de excessos, criatividade e egos inflamados - um contraste com os dias atuais.
Riley Keough, neta de Elvis Presley, assume o papel da enigmática Daisy Jones, uma jovem cantora talentosa e autodestrutiva, cuja presença transforma completamente o destino da banda The Six. Sua performance carrega uma intensidade magnética, equilibrando insegurança com rebeldia. Ao seu lado, Sam Claflin interpreta Billy Dunne, o então líder da banda, cuja dinâmica com Daisy se torna o centro emocional da minissérie - repleta de tensão, uma química explosiva e, claro, sentimentos não tão bem resolvidos. A direção de James Ponsoldt (de "Falando a Real") e de Nzingha Stewart (de "Inventando Anna") aposta, com muita elegância, em uma estética granulada e um iluminação mais quente, evocando a sensação de estarmos assistindo a imagens de arquivo de uma Los Angeles dourada - os takes rodados em Super8, por exemplo, só valorizam esse conceito visual. Além disso, o uso das entrevistas intercaladas com flashbacks adiciona uma camada de profundidade à trama, revelando, pouco a pouco, como cada personagem enxerga os eventos do passado de forma subjetiva, muitas vezes até contraditória - e funciona demais!
"Daisy Jones & The Six" entrega uma experiência cativante, tanto para fãs da literatura quanto para amantes da música - aliás, é preciso que se diga: as músicas da banda foram compostas exclusivamente para a minissérie e entregam um realismo raro em produções desse tipo, algo que contribui demais para a imersão e para o senso de credibilidade da história. Com atuações marcantes, uma jornada emocional envolvente e uma trama que explora talento, o ego e as dores do sucesso, "Daisy Jones & The Six" é uma jóia que merece demais a sua atenção - por sua "forma" e por seu "conteúdo". Imperdível!
Vale muito o seu play!
Essa é mais uma comédia inglesa, daquelas gostosas de assistir, bem ao estilo de "Um Lugar Chamado Notting Hill" ou "Yesterday" - o diferencial aqui, é que a história de "David contra os Bancos" é baseada em fatos "quase" reais. No filme dirigido pelo Chris Foggin (de "Um Natal Improvável") entendemos a importância histórica de retratar a jornada de resiliência de um homem comum em face de desafios extraordinários, no caso o sistema econômico britânico, mas sem esquecer daquilo que nos mantém sorrindo durante os momentos de dificuldade: o amor! Sim, a receita "Notting Hill" está em cada detalhe do roteiro e mesmo supondo como será o final, fica impossível não se envolver com aqueles personagens!
O filme, basicamente, narra a trajetória do empresário idealista Dave Fishwick (Rory Kinnear), proprietário de uma empresa de vans na pequena cidade de Burnley na Inglaterra, que decide lutar contra um sistema financeiro secular para conseguir uma licença e assim abrir seu próprio banco com o intuito de ajudar sua comunidade, sem cobrar taxas abusivas, em um período pós-recessão. Para isso ele conta como a ajuda do jovem advogado de Londres, Huch (Joel Fry), que acredita estar perdendo seu tempo até que se vê envolvido com a sobrinha de Dave, Alexandra (Phoebe Dynevor). Confira o trailer:
Se em "O Próprio Enterro" acompanhamos uma complexa batalha “David x Golias corporativo" com um toque de "Erin Brockovich", aqui temos o mesmo principio, porém em um tom infinitamente mais leve.Veja, as críticas contra o sistema econômico e a política elitista dos bancos britânicos estão lá. O desafio pela busca de prosperidade em pequenas comunidades que se organizam independente das dificuldades geográficas ou de segregação também. Mas talvez o fato que mais nos conecta com a história é o de sabermos que existe um homem (podemos dizer, milionário) que quer criar um banco para simplesmente fomentar o progresso de sua comunidade sem pedir absolutamente nada em troca! Essa foi a escolha mais sábia de Foggin e de seu roteirista Piers Ashworth (de "Fisherman's Friends: One and All"): realizar um filme positivo e simples em todos os sentidos, que não busca grandes coisas além de uma história feliz que agrade todos os públicos.
Quando o enredo resolve acompanhar a vida desse visionário empreendedor, imediatamente criamos empatia por Dave e pela sua causa - praticamente partimos para a luta contra as barreiras confortáveis do Sistema em uma jornada emocional e cativante repleta de aprendizado e superação. Se o alívio emocional vem da relação "(im)provável" de seu advogado com sua sobrinha, pode ter certeza que é pela seu envolvimento com a música que encontramos o combustível para seguir em clima de "juntos vamos conseguir". Pelas mãos do produtor e compositor Christian Henson partimos de um pub/karaokê onde parte da comunidade se reune todas as noites até seu ápice narrativo do terceiro ato com um grande espetáculo ao som da banda "Def Leppard" que, inexplicavelmente, multiplica toda aaquela noção de comunidade que o filme construiu nos seus primeiros atos - mas tudo bem, faz parte do estilo "Notting Hill" de mover a história que, no final das contas, se amarra de forma coerente, mesmo que sobrem passagens sem muito sentido e que só ocorrem para nos levar ao ponto que Foggin deslumbrou - e até que funciona com certa competência!
O fato é que "Bank of Dave" (no original) traz o ingênuo e o inofensivo para sua narrativa maniqueísta, buscando puramente o entretenimento e a sensação de que, com resiliência e muita vontade, tudo é possível. Mesmo sabendo que a política, em suas diversas formas e ideologias, está sempre presente nos diálogos e em vários momentos da trama, posso te garantir que a experiência está longe de ser profunda ou crítica demais, deixando apenas nas entrelinhas um material interessante para discussão que, mal colocado, poderia ter acabado com o que o filme tem de melhor: sua leveza chancelada pelo fato de ser uma história real e que merecia ser contada.
Vale muito o seu play!
Essa é mais uma comédia inglesa, daquelas gostosas de assistir, bem ao estilo de "Um Lugar Chamado Notting Hill" ou "Yesterday" - o diferencial aqui, é que a história de "David contra os Bancos" é baseada em fatos "quase" reais. No filme dirigido pelo Chris Foggin (de "Um Natal Improvável") entendemos a importância histórica de retratar a jornada de resiliência de um homem comum em face de desafios extraordinários, no caso o sistema econômico britânico, mas sem esquecer daquilo que nos mantém sorrindo durante os momentos de dificuldade: o amor! Sim, a receita "Notting Hill" está em cada detalhe do roteiro e mesmo supondo como será o final, fica impossível não se envolver com aqueles personagens!
O filme, basicamente, narra a trajetória do empresário idealista Dave Fishwick (Rory Kinnear), proprietário de uma empresa de vans na pequena cidade de Burnley na Inglaterra, que decide lutar contra um sistema financeiro secular para conseguir uma licença e assim abrir seu próprio banco com o intuito de ajudar sua comunidade, sem cobrar taxas abusivas, em um período pós-recessão. Para isso ele conta como a ajuda do jovem advogado de Londres, Huch (Joel Fry), que acredita estar perdendo seu tempo até que se vê envolvido com a sobrinha de Dave, Alexandra (Phoebe Dynevor). Confira o trailer:
Se em "O Próprio Enterro" acompanhamos uma complexa batalha “David x Golias corporativo" com um toque de "Erin Brockovich", aqui temos o mesmo principio, porém em um tom infinitamente mais leve.Veja, as críticas contra o sistema econômico e a política elitista dos bancos britânicos estão lá. O desafio pela busca de prosperidade em pequenas comunidades que se organizam independente das dificuldades geográficas ou de segregação também. Mas talvez o fato que mais nos conecta com a história é o de sabermos que existe um homem (podemos dizer, milionário) que quer criar um banco para simplesmente fomentar o progresso de sua comunidade sem pedir absolutamente nada em troca! Essa foi a escolha mais sábia de Foggin e de seu roteirista Piers Ashworth (de "Fisherman's Friends: One and All"): realizar um filme positivo e simples em todos os sentidos, que não busca grandes coisas além de uma história feliz que agrade todos os públicos.
Quando o enredo resolve acompanhar a vida desse visionário empreendedor, imediatamente criamos empatia por Dave e pela sua causa - praticamente partimos para a luta contra as barreiras confortáveis do Sistema em uma jornada emocional e cativante repleta de aprendizado e superação. Se o alívio emocional vem da relação "(im)provável" de seu advogado com sua sobrinha, pode ter certeza que é pela seu envolvimento com a música que encontramos o combustível para seguir em clima de "juntos vamos conseguir". Pelas mãos do produtor e compositor Christian Henson partimos de um pub/karaokê onde parte da comunidade se reune todas as noites até seu ápice narrativo do terceiro ato com um grande espetáculo ao som da banda "Def Leppard" que, inexplicavelmente, multiplica toda aaquela noção de comunidade que o filme construiu nos seus primeiros atos - mas tudo bem, faz parte do estilo "Notting Hill" de mover a história que, no final das contas, se amarra de forma coerente, mesmo que sobrem passagens sem muito sentido e que só ocorrem para nos levar ao ponto que Foggin deslumbrou - e até que funciona com certa competência!
O fato é que "Bank of Dave" (no original) traz o ingênuo e o inofensivo para sua narrativa maniqueísta, buscando puramente o entretenimento e a sensação de que, com resiliência e muita vontade, tudo é possível. Mesmo sabendo que a política, em suas diversas formas e ideologias, está sempre presente nos diálogos e em vários momentos da trama, posso te garantir que a experiência está longe de ser profunda ou crítica demais, deixando apenas nas entrelinhas um material interessante para discussão que, mal colocado, poderia ter acabado com o que o filme tem de melhor: sua leveza chancelada pelo fato de ser uma história real e que merecia ser contada.
Vale muito o seu play!
"De Cabeça Erguida" é um poderoso e denso drama francês que fala sobre ciclos. Ou melhor, talvez o filme seja muito mais uma provocação para uma reflexão sobre a possibilidade de uma quebra de um ciclo vicioso, recheado de violência e abandono, na esperança por uma segunda chance onde, aparentemente, isso parece impossível! Muito bem dirigido pela talentosa diretora (de atores), Emmanuelle Bercot (de "150 Miligramas"), o filme se apoia em um emaranhado de assuntos importantes e sensíveis que, através de uma jornada de 10 anos, tenta explicar (ou justificar) muitas das atitudes e como a experiência em reformatórios, impactaram na formação do caráter do protagonista.
Em "La Tête Haute" (no original) a história gira em torno de Malony (Rod Paradot), um garoto com sérios problemas disciplinares, e de sua educação dos 6 aos 18 anos de idade, período onde uma juíza da vara da infância e um assistente social tentam de todas as formas salvá-lo de um futuro com problemas ainda maiores. Confira o trailer:
Pode parecer que o roteiro escrito por Bercot ao lado de Marcia Romano (de "O Acontecimento") sofra de um vicio narrativo que escancara a fragilidade de uma estrutura “circular” onde o protagonista apronta, recebe e cumpre uma punição, então é liberado, aí apronta de novo, novamente é punido, e assim sucessivamente. Mas é preciso que se diga que essa estrutura, mesmo em alguns momentos cansativa, é totalmente proposital - ela reflete o ciclo vivido pela maioria dos garotos nas mesmas condições de Malony (algo parecido com o que encontramos em "DOM").
O interessante é que além dessa repetição quase insuportável para audiência (que nos faz desistir do protagonista em muitos momentos, inclusive), o roteiro vai inserindo outros elementos que funcionam como uma espécie de "bola de neve emocional": do romance com a filha de uma funcionária do centro educacional à separação do irmão mais novo que também vai para um reformatório, passando sempre pelo descontrole da mãe; o que temos é uma verdadeira personificação do caos! Sara Forastier está incrível (e irreconhecível) como a mãe inconsequente de Malony, Séverine; já Paradot, fazendo sua estreia no cinema como o protagonista revoltado, adicionam uma camada de tensão ao filme para lá de angustiante. Ainda sobre elenco, Catherine Deneuve como a juíza Florence e Benoît Magimel como o tutor Yann também merecem aplausos e são a "cereja do bolo" da trama.
Bem no estilo de "Florida Project", a grande verdade é que "De Cabeça Erguida" nos toca a alma em muitos sentidos, já que além de fomentar inúmeros julgamentos (muitos mesmo), ainda sugere profundas reflexões sobre a realidade de uma juventude esquecida, não amada, sofrida e que parece sem solução. O convite para enxergar o futuro desses jovens, passa pelo nosso entendimento de que antes do futuro, é preciso entender o passado e lutar por cada um deles no presente.
Vale muito seu play!
"De Cabeça Erguida" é um poderoso e denso drama francês que fala sobre ciclos. Ou melhor, talvez o filme seja muito mais uma provocação para uma reflexão sobre a possibilidade de uma quebra de um ciclo vicioso, recheado de violência e abandono, na esperança por uma segunda chance onde, aparentemente, isso parece impossível! Muito bem dirigido pela talentosa diretora (de atores), Emmanuelle Bercot (de "150 Miligramas"), o filme se apoia em um emaranhado de assuntos importantes e sensíveis que, através de uma jornada de 10 anos, tenta explicar (ou justificar) muitas das atitudes e como a experiência em reformatórios, impactaram na formação do caráter do protagonista.
Em "La Tête Haute" (no original) a história gira em torno de Malony (Rod Paradot), um garoto com sérios problemas disciplinares, e de sua educação dos 6 aos 18 anos de idade, período onde uma juíza da vara da infância e um assistente social tentam de todas as formas salvá-lo de um futuro com problemas ainda maiores. Confira o trailer:
Pode parecer que o roteiro escrito por Bercot ao lado de Marcia Romano (de "O Acontecimento") sofra de um vicio narrativo que escancara a fragilidade de uma estrutura “circular” onde o protagonista apronta, recebe e cumpre uma punição, então é liberado, aí apronta de novo, novamente é punido, e assim sucessivamente. Mas é preciso que se diga que essa estrutura, mesmo em alguns momentos cansativa, é totalmente proposital - ela reflete o ciclo vivido pela maioria dos garotos nas mesmas condições de Malony (algo parecido com o que encontramos em "DOM").
O interessante é que além dessa repetição quase insuportável para audiência (que nos faz desistir do protagonista em muitos momentos, inclusive), o roteiro vai inserindo outros elementos que funcionam como uma espécie de "bola de neve emocional": do romance com a filha de uma funcionária do centro educacional à separação do irmão mais novo que também vai para um reformatório, passando sempre pelo descontrole da mãe; o que temos é uma verdadeira personificação do caos! Sara Forastier está incrível (e irreconhecível) como a mãe inconsequente de Malony, Séverine; já Paradot, fazendo sua estreia no cinema como o protagonista revoltado, adicionam uma camada de tensão ao filme para lá de angustiante. Ainda sobre elenco, Catherine Deneuve como a juíza Florence e Benoît Magimel como o tutor Yann também merecem aplausos e são a "cereja do bolo" da trama.
Bem no estilo de "Florida Project", a grande verdade é que "De Cabeça Erguida" nos toca a alma em muitos sentidos, já que além de fomentar inúmeros julgamentos (muitos mesmo), ainda sugere profundas reflexões sobre a realidade de uma juventude esquecida, não amada, sofrida e que parece sem solução. O convite para enxergar o futuro desses jovens, passa pelo nosso entendimento de que antes do futuro, é preciso entender o passado e lutar por cada um deles no presente.
Vale muito seu play!
"De Rainha do Veganismo a Foragida" é mais uma história surpreendente onde uma mulher (aparentemente carente) é enganada por um homem (supostamente milionário) em nome do amor, porém, nesse caso, existe um certo ponto de interrogação já que a história é tão surreal que, de fora, fica quase impossível acreditar que uma empresária bem sucedida, bem relacionada, talentosa, bonita e inteligente fosse acreditar em qualquer que fossem as intenções do tal criminoso - e não estou falando de promessas falsas de amor em troca de dinheiro; estou falando de vida eterna, intervenção interplanetária, relação espiritual com forças dividas e por aí vai...
Bem na linha de "O Golpista do Tinder" e "The Con", "Bad Vegan: Fame. Fraud. Fugitives" (no original e infinitamente mais apropriado que o título em português) conta a história de Sarma Melngailis, uma famosa e bem sucedida empresaria e chef vegana que perde completamente o controle da própria vida depois de se casar com um homem misterioso que garante que, entre outras coisas absurdas, pode imortalizar o cachorro dela. Confira o trailer (em inglês):
Sarma Melngailis criou ao lado do ex-marido, o chef Matthew Kenney, e do mega empresário Jeffrey Chodorow, um restaurante vegano que movimentou a sociedade nova-iorquina em meados de 2004 - o Pure Food and Wine era, de fato, inovador e muito bem recomendado por especialistas, o que o transformou em um lugar requisitado por celebridades na época. Autoridade, fama, dinheiro e realização profissional não impediram que Sarma se envolvesse em uma complexa rede de crimes a partir de 2011, depois de conhecer Shane Fox no Twitter, um misterioso homem que de referência tinha apenas uma amizade virtual com um antigo affair da empresaria, o ator Alec Baldwin.
Dito isso, é possível ter uma ideia do que o diretor Chris Smith (de "Educação Americana: Fraude e Privilégio", "O Desaparecimento de Madeleine McCann" e "Fyre Festival: Fiasco no Caribe" e um dos produtores de "A Máfia dos Tigres ") foi capaz de fazer com esse material. Com uma dinâmica extremamente ágil e muito bem conectada com o drama da protagonista que conduz a narrativa com seus depoimentos, "De Rainha do Veganismo a Foragida" é o tipo da minissérie documental que você não consegue parar até encontrar seu final - são 4 episódios tão bem estruturados e completamente isentos, que temos a exata sensação de que tudo aquilo está acontecendo bem próximo de nós. São depoimentos de todos os envolvidos (com excessão de Shane), que vão de ex-funcionários do restaurante até investidores e jornalistas, passando por amigos e familiares de Sarma, além de inúmeras gravações telefônicas, reportagens da época e até uma transcrição que, juro, soa ficção.
"De Rainha do Veganismo a Foragida" não é um jornada fácil, é até indigesta, pois somos provocados ao julgamento a todo instante e nossa opinião muda a cada nova revelação, a cada nova falcatrua, mas, principalmente a cada postura de Sarma em relação aos fatos - o final sugerido por Smith, inclusive, foi muito feliz em desconstruir tudo que poderíamos em algum momento dar como certeza. Não se trata de criminalizar ou inocentar a vítima, mas é inegável o quanto a narrativa (e a excelente edição da Amanda C. Griffin e do Michael Mahaffie) vai mexendo com nossas percepções e gerando discussões internas que jamais nos daríamos conta caso não estivéssemos tão imersos na história - e te garanto: vale o mergulho!
"De Rainha do Veganismo a Foragida" é mais uma história surpreendente onde uma mulher (aparentemente carente) é enganada por um homem (supostamente milionário) em nome do amor, porém, nesse caso, existe um certo ponto de interrogação já que a história é tão surreal que, de fora, fica quase impossível acreditar que uma empresária bem sucedida, bem relacionada, talentosa, bonita e inteligente fosse acreditar em qualquer que fossem as intenções do tal criminoso - e não estou falando de promessas falsas de amor em troca de dinheiro; estou falando de vida eterna, intervenção interplanetária, relação espiritual com forças dividas e por aí vai...
Bem na linha de "O Golpista do Tinder" e "The Con", "Bad Vegan: Fame. Fraud. Fugitives" (no original e infinitamente mais apropriado que o título em português) conta a história de Sarma Melngailis, uma famosa e bem sucedida empresaria e chef vegana que perde completamente o controle da própria vida depois de se casar com um homem misterioso que garante que, entre outras coisas absurdas, pode imortalizar o cachorro dela. Confira o trailer (em inglês):
Sarma Melngailis criou ao lado do ex-marido, o chef Matthew Kenney, e do mega empresário Jeffrey Chodorow, um restaurante vegano que movimentou a sociedade nova-iorquina em meados de 2004 - o Pure Food and Wine era, de fato, inovador e muito bem recomendado por especialistas, o que o transformou em um lugar requisitado por celebridades na época. Autoridade, fama, dinheiro e realização profissional não impediram que Sarma se envolvesse em uma complexa rede de crimes a partir de 2011, depois de conhecer Shane Fox no Twitter, um misterioso homem que de referência tinha apenas uma amizade virtual com um antigo affair da empresaria, o ator Alec Baldwin.
Dito isso, é possível ter uma ideia do que o diretor Chris Smith (de "Educação Americana: Fraude e Privilégio", "O Desaparecimento de Madeleine McCann" e "Fyre Festival: Fiasco no Caribe" e um dos produtores de "A Máfia dos Tigres ") foi capaz de fazer com esse material. Com uma dinâmica extremamente ágil e muito bem conectada com o drama da protagonista que conduz a narrativa com seus depoimentos, "De Rainha do Veganismo a Foragida" é o tipo da minissérie documental que você não consegue parar até encontrar seu final - são 4 episódios tão bem estruturados e completamente isentos, que temos a exata sensação de que tudo aquilo está acontecendo bem próximo de nós. São depoimentos de todos os envolvidos (com excessão de Shane), que vão de ex-funcionários do restaurante até investidores e jornalistas, passando por amigos e familiares de Sarma, além de inúmeras gravações telefônicas, reportagens da época e até uma transcrição que, juro, soa ficção.
"De Rainha do Veganismo a Foragida" não é um jornada fácil, é até indigesta, pois somos provocados ao julgamento a todo instante e nossa opinião muda a cada nova revelação, a cada nova falcatrua, mas, principalmente a cada postura de Sarma em relação aos fatos - o final sugerido por Smith, inclusive, foi muito feliz em desconstruir tudo que poderíamos em algum momento dar como certeza. Não se trata de criminalizar ou inocentar a vítima, mas é inegável o quanto a narrativa (e a excelente edição da Amanda C. Griffin e do Michael Mahaffie) vai mexendo com nossas percepções e gerando discussões internas que jamais nos daríamos conta caso não estivéssemos tão imersos na história - e te garanto: vale o mergulho!
Se você tem mais que 40 anos e está lendo este review, provavelmente você deve ter assistido "Imensidão Azul" e se emocionado com a história marcante de Jacques Mayol (Jean-Marc Barr) e Enzo Molinari (Jean Reno) ao som de uma trilha sonora brilhante assinada por Éric Serra. Pois bem, "De Tirar o Fôlego", mesmo sendo um documentário, tem a mesma força dramática que o premiado filme de Luc Besson, ao contar a história de Stephen Keenan e Alessia Zecchini - que inicialmente se apoia no processo de superação e resiliência de uma atleta (campeã mundial de "mergulho livre"), mas que logo se transforma em uma jornada inspiradora sobre a paixão pela vida e seus limites.
Aqui conhecemos a impressionante cruzada do fenômeno Alessia Zecchini, uma vitoriosa mergulhadora italiana que treinou incansavelmente para bater o recorde mundial de mergulho livre. Porém, ela não esteve sozinha nessa missão: Alessia contou com a ajuda de Stephen Keenan, seu fiel treinador e responsável pela segurança nas competições que participava. Compartilhando o amor pelo mergulho livre, o documentário mostra as recompensas, desafios e escolhas de cada um deles, mostrando sua paixão quase obsessiva pelos oceanos e como os dois estiveram dispostos a arriscar tudo a fim de conquistarem um lugar na história. Confira o trailer:
Dirigido e roteirizado por Laura McGann (de "Revolutions", "The Deepest Breath" (no original) chega a ser impressionante de tão bom! Mesmo que inicialmente soe como mais um documentário sobre o encontro "improvável" de uma atleta em busca recordes que desafiam seus limites e de um técnico que tem uma relação muito particular com a natureza e com o esporte, o filme vai muito além graças a um simples elemento - ele tem alma! Seguindo duas linhas narrativas separadas e que, naturalmente, vão se cruzado, o roteiro é muito sagaz em nos provocar inúmeras emoções ao brincar com nossa percepção sobre o que de fato aconteceu com Keenan e com Zecchini. E aqui vai o meu conselho para que sua experiência seja única: não pesquise absolutamente nada sobre a história dos dois.
São inúmeras imagens de arquivo, depoimentos e reconstituições belíssimas que nos dão a exata sensação de mergulhar a mais de 100 metros de profundidade em cenários belíssimos. A estrutura narrativa que McGann usa para construir o documentário é tão bem planejada que parece uma ficção - é realmente impressionante como somos jogados para dentro da trama e como nos conectamos imediatamente com os personagens (da vida real). Reparem como o filme vai da apresentação dos protagonistas, passando pela contextualização de seus estilos de vida e sonhos até chegar no ápice de quando seus destinos se cruzaram em uma competição de mergulho. Agora veja, embora tudo leve a crer que algo deu errado, é pelo encontro dos dois e pela conexão instantânea através de uma paixão compartilhada, que torcemos.
É natural que "De Tirar o Fôlego" crie uma atmosfera envolvente, principalmente emocional, usando e abusando de imagens lindas, de uma trilha sonora extremamente alinhada com o conceito mais dramático para nos manter ligados em uma história onde dois personagens, juntos, formavam uma equipe aparentemente invencível, apoiando-se mutuamente e incentivando um ao outro para alcançar novos patamares no esporte. Eu diria que essa é uma história que nos deixa muitas lições e que, de fato, merecia ser contada, então prepare-se, pois certamente será um dos melhores documentários do ano - pode me cobrar depois!
Vale muito o seu play!
Se você tem mais que 40 anos e está lendo este review, provavelmente você deve ter assistido "Imensidão Azul" e se emocionado com a história marcante de Jacques Mayol (Jean-Marc Barr) e Enzo Molinari (Jean Reno) ao som de uma trilha sonora brilhante assinada por Éric Serra. Pois bem, "De Tirar o Fôlego", mesmo sendo um documentário, tem a mesma força dramática que o premiado filme de Luc Besson, ao contar a história de Stephen Keenan e Alessia Zecchini - que inicialmente se apoia no processo de superação e resiliência de uma atleta (campeã mundial de "mergulho livre"), mas que logo se transforma em uma jornada inspiradora sobre a paixão pela vida e seus limites.
Aqui conhecemos a impressionante cruzada do fenômeno Alessia Zecchini, uma vitoriosa mergulhadora italiana que treinou incansavelmente para bater o recorde mundial de mergulho livre. Porém, ela não esteve sozinha nessa missão: Alessia contou com a ajuda de Stephen Keenan, seu fiel treinador e responsável pela segurança nas competições que participava. Compartilhando o amor pelo mergulho livre, o documentário mostra as recompensas, desafios e escolhas de cada um deles, mostrando sua paixão quase obsessiva pelos oceanos e como os dois estiveram dispostos a arriscar tudo a fim de conquistarem um lugar na história. Confira o trailer:
Dirigido e roteirizado por Laura McGann (de "Revolutions", "The Deepest Breath" (no original) chega a ser impressionante de tão bom! Mesmo que inicialmente soe como mais um documentário sobre o encontro "improvável" de uma atleta em busca recordes que desafiam seus limites e de um técnico que tem uma relação muito particular com a natureza e com o esporte, o filme vai muito além graças a um simples elemento - ele tem alma! Seguindo duas linhas narrativas separadas e que, naturalmente, vão se cruzado, o roteiro é muito sagaz em nos provocar inúmeras emoções ao brincar com nossa percepção sobre o que de fato aconteceu com Keenan e com Zecchini. E aqui vai o meu conselho para que sua experiência seja única: não pesquise absolutamente nada sobre a história dos dois.
São inúmeras imagens de arquivo, depoimentos e reconstituições belíssimas que nos dão a exata sensação de mergulhar a mais de 100 metros de profundidade em cenários belíssimos. A estrutura narrativa que McGann usa para construir o documentário é tão bem planejada que parece uma ficção - é realmente impressionante como somos jogados para dentro da trama e como nos conectamos imediatamente com os personagens (da vida real). Reparem como o filme vai da apresentação dos protagonistas, passando pela contextualização de seus estilos de vida e sonhos até chegar no ápice de quando seus destinos se cruzaram em uma competição de mergulho. Agora veja, embora tudo leve a crer que algo deu errado, é pelo encontro dos dois e pela conexão instantânea através de uma paixão compartilhada, que torcemos.
É natural que "De Tirar o Fôlego" crie uma atmosfera envolvente, principalmente emocional, usando e abusando de imagens lindas, de uma trilha sonora extremamente alinhada com o conceito mais dramático para nos manter ligados em uma história onde dois personagens, juntos, formavam uma equipe aparentemente invencível, apoiando-se mutuamente e incentivando um ao outro para alcançar novos patamares no esporte. Eu diria que essa é uma história que nos deixa muitas lições e que, de fato, merecia ser contada, então prepare-se, pois certamente será um dos melhores documentários do ano - pode me cobrar depois!
Vale muito o seu play!