O Brasil é mestre em criar personagens que, com o tempo, vão se mostrando mais complexos do que a própria mídia costuma retratar - e para o bem do entretenimento (e apenas dele), suas histórias vão sendo contadas de uma forma envolvente e, muitas vezes, surpreendente. A minissérie documental "Flordelis: Questiona ou Adora" é mais um ótimo exemplo dessa exploração da "vida como ela é" após um fato marcante, nesse caso um crime! Aqui temos um recorte dos mais interessantes sobre os escândalos em torno da figura pública, pastora evangélica e deputada-federal mulher mais votada do país em 2018 (pelo Rio de Janeiro), Flordelis dos Santos de Souza. Essa produção da Boutique de Filmes para o Globoplay, mergulha nos detalhes do assassinato do marido de Flordelis, Anderson do Carmo, em um crime que chocou o Brasil em 2019 e levantou questões perturbadoras sobre a moralidade, poder e manipulação a partir de uma personagem de aparente santidade. A produção parte de uma investigação intensa e detalhada ao mesmo tempo que traça um perfil psicológico e social de uma mulher cujas contradições são tão grandes quanto sua notoriedade.
Ao longo de seis episódios, vemos como Flordelis, uma líder religiosa carismática e influente, com uma trajetória de vida que ia da adoção de dezenas de crianças à atuação como parlamentar, transformou-se em ré em um julgamento acusada de ser a mandante do assassinato de seu próprio marido. A narrativa constrói uma visão em camadas da vida de Flordelis, desde sua ascensão meteórica como pastora e política, até a queda abrupta após as revelações chocantes sobre seu envolvimento no crime. Confira o trailer aqui:
É inegável que "Flordelis: Questiona ou Adora" é mais uma aula de narrativa documental que nos remete ao melhor do drama policial. A forma como a diretora Mariana Jaspe consegue equilibrar o factual com uma exploração mais profunda da figura pública de Flordelis e do impacto que suas ações tiveram na sociedade ao longo dos anos, é de se aplaudir de pé. O tom de mistério, da fotografia às inserções gráficas, potencializa a maneira como a minissérie levanta perguntas essenciais sobre poder, fé e manipulação, especialmente no contexto de líderes religiosos e sociais que têm influência não apenas dentro de suas igrejas, mas também em esferas políticas e na comunidade. O roteiro é muito eficaz em nos colocar diante de uma figura que, por anos, foi venerada por muitos, inclusive por repórteres e celebridades, mas que se viu envolta em um turbilhão de acusações, inclusive de assassinato.
Jaspe utiliza imagens de arquivo e reconstituições, além de uma variedade de fontes, incluindo entrevistas com familiares, investigadores, ex-integrantes da igreja, jornalistas e autoridades envolvidas no caso, para oferecer um panorama completo dos eventos que levaram ao assassinato de Anderson do Carmo e as investigações que se seguiram. Essa multiplicidade de perspectivas enriquece a narrativa, permitindo uma reflexão sobre as diversas faces da vida de Flordelis - desde a figura materna e de pastora carismática até a de uma mulher dissimulada acusada de tramar um crime brutal. Nesse sentido a montagem da minissérie dá um show - ela é muito eficaz ao manter o ritmo e a tensão constante, revelando as reviravoltas de forma não-linear, o que nos mantém intrigados e, ao mesmo tempo, chocados com as informações que surgem a cada episódio. O formato escolhido por Jaspe permite que a audiência acompanhe o desenvolvimento dos fatos em tempo real, trazendo à tona os detalhes da investigações e o processo judicial, sem perder de vista as complexidades do caso e o histórico de vida dos personagens.
O subtítulo "Questiona ou Adora" é uma provocação inteligente por refletir perfeitamente a dualidade que permeia a imagem de Flordelis: aqueles que a seguiam cegamente, admirando sua história de vida e devoção religiosa, e aqueles que começaram a questionar sua verdadeira índole quando as primeiras suspeitas sobre seu envolvimento no assassinato surgiram. A minissérie é muito competente ao explorar essa dicotomia, sempre de maneira cuidadosa, sem tentar oferecer respostas fáceis ou unilaterais, mas se aproveitando da ambiguidade que ronda a personagem principal para entregar uma peça sólida para quem busca entender mais sobre os aspectos sombrios que podem cercar figuras ditas "autoridade moral".
Vale muito o seu play!
O Brasil é mestre em criar personagens que, com o tempo, vão se mostrando mais complexos do que a própria mídia costuma retratar - e para o bem do entretenimento (e apenas dele), suas histórias vão sendo contadas de uma forma envolvente e, muitas vezes, surpreendente. A minissérie documental "Flordelis: Questiona ou Adora" é mais um ótimo exemplo dessa exploração da "vida como ela é" após um fato marcante, nesse caso um crime! Aqui temos um recorte dos mais interessantes sobre os escândalos em torno da figura pública, pastora evangélica e deputada-federal mulher mais votada do país em 2018 (pelo Rio de Janeiro), Flordelis dos Santos de Souza. Essa produção da Boutique de Filmes para o Globoplay, mergulha nos detalhes do assassinato do marido de Flordelis, Anderson do Carmo, em um crime que chocou o Brasil em 2019 e levantou questões perturbadoras sobre a moralidade, poder e manipulação a partir de uma personagem de aparente santidade. A produção parte de uma investigação intensa e detalhada ao mesmo tempo que traça um perfil psicológico e social de uma mulher cujas contradições são tão grandes quanto sua notoriedade.
Ao longo de seis episódios, vemos como Flordelis, uma líder religiosa carismática e influente, com uma trajetória de vida que ia da adoção de dezenas de crianças à atuação como parlamentar, transformou-se em ré em um julgamento acusada de ser a mandante do assassinato de seu próprio marido. A narrativa constrói uma visão em camadas da vida de Flordelis, desde sua ascensão meteórica como pastora e política, até a queda abrupta após as revelações chocantes sobre seu envolvimento no crime. Confira o trailer aqui:
É inegável que "Flordelis: Questiona ou Adora" é mais uma aula de narrativa documental que nos remete ao melhor do drama policial. A forma como a diretora Mariana Jaspe consegue equilibrar o factual com uma exploração mais profunda da figura pública de Flordelis e do impacto que suas ações tiveram na sociedade ao longo dos anos, é de se aplaudir de pé. O tom de mistério, da fotografia às inserções gráficas, potencializa a maneira como a minissérie levanta perguntas essenciais sobre poder, fé e manipulação, especialmente no contexto de líderes religiosos e sociais que têm influência não apenas dentro de suas igrejas, mas também em esferas políticas e na comunidade. O roteiro é muito eficaz em nos colocar diante de uma figura que, por anos, foi venerada por muitos, inclusive por repórteres e celebridades, mas que se viu envolta em um turbilhão de acusações, inclusive de assassinato.
Jaspe utiliza imagens de arquivo e reconstituições, além de uma variedade de fontes, incluindo entrevistas com familiares, investigadores, ex-integrantes da igreja, jornalistas e autoridades envolvidas no caso, para oferecer um panorama completo dos eventos que levaram ao assassinato de Anderson do Carmo e as investigações que se seguiram. Essa multiplicidade de perspectivas enriquece a narrativa, permitindo uma reflexão sobre as diversas faces da vida de Flordelis - desde a figura materna e de pastora carismática até a de uma mulher dissimulada acusada de tramar um crime brutal. Nesse sentido a montagem da minissérie dá um show - ela é muito eficaz ao manter o ritmo e a tensão constante, revelando as reviravoltas de forma não-linear, o que nos mantém intrigados e, ao mesmo tempo, chocados com as informações que surgem a cada episódio. O formato escolhido por Jaspe permite que a audiência acompanhe o desenvolvimento dos fatos em tempo real, trazendo à tona os detalhes da investigações e o processo judicial, sem perder de vista as complexidades do caso e o histórico de vida dos personagens.
O subtítulo "Questiona ou Adora" é uma provocação inteligente por refletir perfeitamente a dualidade que permeia a imagem de Flordelis: aqueles que a seguiam cegamente, admirando sua história de vida e devoção religiosa, e aqueles que começaram a questionar sua verdadeira índole quando as primeiras suspeitas sobre seu envolvimento no assassinato surgiram. A minissérie é muito competente ao explorar essa dicotomia, sempre de maneira cuidadosa, sem tentar oferecer respostas fáceis ou unilaterais, mas se aproveitando da ambiguidade que ronda a personagem principal para entregar uma peça sólida para quem busca entender mais sobre os aspectos sombrios que podem cercar figuras ditas "autoridade moral".
Vale muito o seu play!
Se "Gaming Wall Street" da HBO usou o caso da GameStop para discutir um fluxo de falhas no sistema financeiro americano, "GameStop contra Wall Street" faz justamente o contrário, ele se apoia em uma estrutura narrativa bastante eficiente e didaticamente das mais competentes para contar a história de uma quase falida loja de games que, graças ao mindset ganancioso e predatório de Wall Street, provocou um embate histórico entre pequenos investidores e grandes corretoras de investimento.
A minissérie em três partes da Netflix mostra justamente como esse grupo de pessoas sem muita experiência no mercado de ações se uniu pela internet para resgatar a GameStop da falência e assim se colocar em direta rota de colisão com grandes investidores de Wall Street que lucrariam muito se esse destino que parecia certo se concretizasse. Confira o trailer:
Vendido como "uma verdadeira saga de Davi contra Golias viralizada e ambientada no século 21", "GameStop contra Wall Street" é extremamente eficaz em posicionar a audiência em uma atmosfera onde seus protagonistas naturalmente entrariam em choque em algum momento. De um lado o cidadão comum, imerso na cultura da internet e que graças as novas tecnologias, como a do app "Robinhood", passou a ser capaz de controlar suas estratégias de investimento em ações sem depender de corretoras e de suas taxas de corretagem. Do outro lado o status-quo, o tradicional, o universo ganancioso (e preparado só para "ganhar dinheiro") de Wall Street. Acontece, e aí está o grande mérito do documentário e do diretor Theo Love (de "A Cobra do Alabama" e produtor de "McMillions"), que esses dois lados se misturam, se embaralham e, principalmente, se confundem sem perceber que o objetivo de ambos é impreterivelmente o mesmo: se dar bem, e rápido. Se atentem na história de Keith Gill, também conhecido no Reddit como DeepFuckingValue, e veja como essa fusão de ideais que a princípio soariam antagônicas, na verdade são mais complementares do que imaginamos.
O roteiro do próprio Love foi muito feliz em estabelecer vários conceitos financeiros como gatilhos para entendermos o que de fato aconteceu - tudo apresentado da forma mais simples possível. Mesmo que algumas dessas explicações possam soar superficiais para alguns, dentro do contexto do documentário, tudo fica muito fluido e se encaixa perfeitamente na linguagem fragmentada e moderninha que o diretor defendeu em toda sua narrativa. Com uma edição que prioriza essa linguagem, sempre com um leve toque de humor e ironia, "Eat the Rich: The GameStop Saga" (no original) se aproveita de muitos depoimentos, de muitos personagens interessantes, de imagens de arquivo da mídia e de ótimas inserções gráficas para detalhar essa história tão absurda quanto surpreendente, com muito mais qualidade e nuances do que encontramos na obra da HBO - aliás, eu diria até que "Gaming Wall Street" serve como uma boa introdução para "GameStop contra Wall Street".
Embora com um certo exagero nas piadinhas "de internet" (mesmo que esse exagero nem seja tão fora da realidade assim), "GameStop contra Wall Street" é mais um exemplo de narrativa capaz de entreter ao mesmo tempo em que cria uma espécie de senso crítico sem soar "burocrática" ou "chapa branca" demais - é perceptível a preocupação de Theo Love em sempre mostrar os dois lados das histórias, para que nós como audiência tenhamos a liberdade de encontrar as respostas que mais se alinhem com o que acreditamos.
Vale muito a pena!
Se "Gaming Wall Street" da HBO usou o caso da GameStop para discutir um fluxo de falhas no sistema financeiro americano, "GameStop contra Wall Street" faz justamente o contrário, ele se apoia em uma estrutura narrativa bastante eficiente e didaticamente das mais competentes para contar a história de uma quase falida loja de games que, graças ao mindset ganancioso e predatório de Wall Street, provocou um embate histórico entre pequenos investidores e grandes corretoras de investimento.
A minissérie em três partes da Netflix mostra justamente como esse grupo de pessoas sem muita experiência no mercado de ações se uniu pela internet para resgatar a GameStop da falência e assim se colocar em direta rota de colisão com grandes investidores de Wall Street que lucrariam muito se esse destino que parecia certo se concretizasse. Confira o trailer:
Vendido como "uma verdadeira saga de Davi contra Golias viralizada e ambientada no século 21", "GameStop contra Wall Street" é extremamente eficaz em posicionar a audiência em uma atmosfera onde seus protagonistas naturalmente entrariam em choque em algum momento. De um lado o cidadão comum, imerso na cultura da internet e que graças as novas tecnologias, como a do app "Robinhood", passou a ser capaz de controlar suas estratégias de investimento em ações sem depender de corretoras e de suas taxas de corretagem. Do outro lado o status-quo, o tradicional, o universo ganancioso (e preparado só para "ganhar dinheiro") de Wall Street. Acontece, e aí está o grande mérito do documentário e do diretor Theo Love (de "A Cobra do Alabama" e produtor de "McMillions"), que esses dois lados se misturam, se embaralham e, principalmente, se confundem sem perceber que o objetivo de ambos é impreterivelmente o mesmo: se dar bem, e rápido. Se atentem na história de Keith Gill, também conhecido no Reddit como DeepFuckingValue, e veja como essa fusão de ideais que a princípio soariam antagônicas, na verdade são mais complementares do que imaginamos.
O roteiro do próprio Love foi muito feliz em estabelecer vários conceitos financeiros como gatilhos para entendermos o que de fato aconteceu - tudo apresentado da forma mais simples possível. Mesmo que algumas dessas explicações possam soar superficiais para alguns, dentro do contexto do documentário, tudo fica muito fluido e se encaixa perfeitamente na linguagem fragmentada e moderninha que o diretor defendeu em toda sua narrativa. Com uma edição que prioriza essa linguagem, sempre com um leve toque de humor e ironia, "Eat the Rich: The GameStop Saga" (no original) se aproveita de muitos depoimentos, de muitos personagens interessantes, de imagens de arquivo da mídia e de ótimas inserções gráficas para detalhar essa história tão absurda quanto surpreendente, com muito mais qualidade e nuances do que encontramos na obra da HBO - aliás, eu diria até que "Gaming Wall Street" serve como uma boa introdução para "GameStop contra Wall Street".
Embora com um certo exagero nas piadinhas "de internet" (mesmo que esse exagero nem seja tão fora da realidade assim), "GameStop contra Wall Street" é mais um exemplo de narrativa capaz de entreter ao mesmo tempo em que cria uma espécie de senso crítico sem soar "burocrática" ou "chapa branca" demais - é perceptível a preocupação de Theo Love em sempre mostrar os dois lados das histórias, para que nós como audiência tenhamos a liberdade de encontrar as respostas que mais se alinhem com o que acreditamos.
Vale muito a pena!
"Gaming Wall Street" chegou ao Brasil pela HBO Max com mais de 6 meses de atraso em relação ao seu lançamento nos EUA. Esse movimento gerou algumas indagações sobre as consequências dos assuntos abordados no documentário e, sinceramente, não me surpreenderia se essa especulação, de fato, fosse a razão de tanta demora. Por se tratar de uma das histórias mais loucas dos últimos anos e pelos nomes envolvidos na produção, toda narrativa dá a exata impressão de que uma nova crise nos moldes daquela de 2008 é só uma questão de tempo - o motivo, lógico, a ganância!
Narrado por Kieran Culkin (com um tom que faz muito lembrar seu personagem Roman Roy de "Succession"), o documentário dividido em duas partes tenta explicar como pequenos investidores que se organizaram a partir de um grupo do Reddit focado em investimentos, o r/Wallstreetbets, quase colapsaram o mercado de ações ao entrarem em um embate direto contra grandes fundos de investimento de Wall Street que apostavam na derrocada de uma (queridinha) rede de varejo especializada em compra e venda de mídias físicas de jogos de video-game chamada GameStop. Confira o trailer (em inglês):
Dirigido pelo austriaco Tobias Deml, "Gaming Wall Street" tem dois episódios completamente diferentes um do outro. Para alinharmos bem as expectativas, ele não é um documentário sobre o caso da GameStop, mas sim um estudo sobre as falhas no sistema que envolve Wall Street e que, ai sim, a partir desse caso específico, escancara a fragilidade do processo de negociação de ações com a entrada de novos players como o "Robinhood" - uma startup com base na tecnologia que criou um app extremamente intuitivo que entrega facilidade para que qualquer um possa investir na bolsa sem custo de corretagem.
O interessante é que ao longo das histórias que o documentário retrata, entendemos que nem tudo é o que parece. Por trás do "divino" propósito de um app que prometia democratizar uma relação financeira sem intermediários, na verdade existia uma dinâmica escondida (embora legal) de corretagem onde o conflito de interesses (esse sim ilegal) fez com que a startup manipulasse o mercado, evitando que grandes corretoras como a Melvin Capital fossem prejudicadas no caso da GameStop - sim, o app chegou a tirar o botão "comprar" da tela, para evitar maiores problemas (e perdas) para seus aliados (e para si mesmo).
Embora possa parecer bem complicado para um público pouco acostumado com o assunto e com os termos que envolvem essas operações, "Gaming Wall Street" tenta de todas as formas parecer didático ao mesmo tempo que entretém. Em meio aos depoimentos dos vários personagens que transitaram por Wall Street ou pelas telas de computador (e de celular) durante o caso da GameStop, sequências animadas explicam a mecânica de algumas ações como as "vendas a descoberto", por exemplo. Culkin traz leveza para as narrações enquanto gifs e memes estabelecem um conceito onde a cultura da Internet ou a dinâmica dos podcasts se encaixem melhor do que uma narrativa documental dura e enfadonha.
Para quem gosta do estilo "Trabalho Interno" sobre crimes financeiros, você vai se divertir com o play!
"Gaming Wall Street" chegou ao Brasil pela HBO Max com mais de 6 meses de atraso em relação ao seu lançamento nos EUA. Esse movimento gerou algumas indagações sobre as consequências dos assuntos abordados no documentário e, sinceramente, não me surpreenderia se essa especulação, de fato, fosse a razão de tanta demora. Por se tratar de uma das histórias mais loucas dos últimos anos e pelos nomes envolvidos na produção, toda narrativa dá a exata impressão de que uma nova crise nos moldes daquela de 2008 é só uma questão de tempo - o motivo, lógico, a ganância!
Narrado por Kieran Culkin (com um tom que faz muito lembrar seu personagem Roman Roy de "Succession"), o documentário dividido em duas partes tenta explicar como pequenos investidores que se organizaram a partir de um grupo do Reddit focado em investimentos, o r/Wallstreetbets, quase colapsaram o mercado de ações ao entrarem em um embate direto contra grandes fundos de investimento de Wall Street que apostavam na derrocada de uma (queridinha) rede de varejo especializada em compra e venda de mídias físicas de jogos de video-game chamada GameStop. Confira o trailer (em inglês):
Dirigido pelo austriaco Tobias Deml, "Gaming Wall Street" tem dois episódios completamente diferentes um do outro. Para alinharmos bem as expectativas, ele não é um documentário sobre o caso da GameStop, mas sim um estudo sobre as falhas no sistema que envolve Wall Street e que, ai sim, a partir desse caso específico, escancara a fragilidade do processo de negociação de ações com a entrada de novos players como o "Robinhood" - uma startup com base na tecnologia que criou um app extremamente intuitivo que entrega facilidade para que qualquer um possa investir na bolsa sem custo de corretagem.
O interessante é que ao longo das histórias que o documentário retrata, entendemos que nem tudo é o que parece. Por trás do "divino" propósito de um app que prometia democratizar uma relação financeira sem intermediários, na verdade existia uma dinâmica escondida (embora legal) de corretagem onde o conflito de interesses (esse sim ilegal) fez com que a startup manipulasse o mercado, evitando que grandes corretoras como a Melvin Capital fossem prejudicadas no caso da GameStop - sim, o app chegou a tirar o botão "comprar" da tela, para evitar maiores problemas (e perdas) para seus aliados (e para si mesmo).
Embora possa parecer bem complicado para um público pouco acostumado com o assunto e com os termos que envolvem essas operações, "Gaming Wall Street" tenta de todas as formas parecer didático ao mesmo tempo que entretém. Em meio aos depoimentos dos vários personagens que transitaram por Wall Street ou pelas telas de computador (e de celular) durante o caso da GameStop, sequências animadas explicam a mecânica de algumas ações como as "vendas a descoberto", por exemplo. Culkin traz leveza para as narrações enquanto gifs e memes estabelecem um conceito onde a cultura da Internet ou a dinâmica dos podcasts se encaixem melhor do que uma narrativa documental dura e enfadonha.
Para quem gosta do estilo "Trabalho Interno" sobre crimes financeiros, você vai se divertir com o play!
Tenho que admitir que ainda não conhecia o cinema búlgaro - o que me chamou a atenção em "Slava" (título original), além de ser o filme indicado pelo país para concorrer ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2017, foi o fato dele ter ganho prêmios muito importantes em festivais como Edinburgh e Locarno (ambos em 2016). E depois do play, posso te garantir: foi uma grata surpresa. "Glory" é muito bem filmado por um jovem casal de diretores: Kristina Grosava e Petar Valchanov, premiadíssimos inclusive.
Tzanko Petrov (Stefan Denolyubov) encontrou uma grande quantia de dinheiro nos trilhos de uma estação de trem onde trabalha, e decidiu entregar tudo à polícia. Como recompensa, recebe um novo relógio de pulso que logo para de funcionar. O problema é que Julia Staikova, chefe do departamento de relações públicas do Ministério dos Transportes, perdeu o antigo relógio de Petrov, fazendo com que ele inicie uma busca desenfreada pelo objeto. Confira o trailer:
Tecnicamente o filme é excelente, embora não venha com nenhuma grande inovação estética ou conceitual. Seu forte (e isso é um grande mérito) está no roteiro bem construído e na atuação dos três personagens principais, especialmente a Margita Gosheva que interpreta Staikova - uma mulher completamente superficial e arrogante. Aliás, ella já tinha sido premiada em outro filme dessa dupla de diretores chamado "Urok" (ou "The Lesson").
"Glory" ao mesmo tempo que é denso e complexo, se torna muito bem resolvido em cada ato até a sua conclusão. Não é um filme de arte, mas também não é um filme comercial, o que certamente ajudou em sua jornada nos festivais. Como exercício, vale muito a pena conhecer esses diretores e a maneira como eles nos conduzem durante essa narrativa realmente envolvente
Bem vindo ao cinema búlgaro independente!
Tenho que admitir que ainda não conhecia o cinema búlgaro - o que me chamou a atenção em "Slava" (título original), além de ser o filme indicado pelo país para concorrer ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2017, foi o fato dele ter ganho prêmios muito importantes em festivais como Edinburgh e Locarno (ambos em 2016). E depois do play, posso te garantir: foi uma grata surpresa. "Glory" é muito bem filmado por um jovem casal de diretores: Kristina Grosava e Petar Valchanov, premiadíssimos inclusive.
Tzanko Petrov (Stefan Denolyubov) encontrou uma grande quantia de dinheiro nos trilhos de uma estação de trem onde trabalha, e decidiu entregar tudo à polícia. Como recompensa, recebe um novo relógio de pulso que logo para de funcionar. O problema é que Julia Staikova, chefe do departamento de relações públicas do Ministério dos Transportes, perdeu o antigo relógio de Petrov, fazendo com que ele inicie uma busca desenfreada pelo objeto. Confira o trailer:
Tecnicamente o filme é excelente, embora não venha com nenhuma grande inovação estética ou conceitual. Seu forte (e isso é um grande mérito) está no roteiro bem construído e na atuação dos três personagens principais, especialmente a Margita Gosheva que interpreta Staikova - uma mulher completamente superficial e arrogante. Aliás, ella já tinha sido premiada em outro filme dessa dupla de diretores chamado "Urok" (ou "The Lesson").
"Glory" ao mesmo tempo que é denso e complexo, se torna muito bem resolvido em cada ato até a sua conclusão. Não é um filme de arte, mas também não é um filme comercial, o que certamente ajudou em sua jornada nos festivais. Como exercício, vale muito a pena conhecer esses diretores e a maneira como eles nos conduzem durante essa narrativa realmente envolvente
Bem vindo ao cinema búlgaro independente!
Esse é um filme sobre os horrores da guerra pela perspectiva do silêncio. E aqui não estou falando sobre "a ausência de som" e sim sobre a sua jornada solitária de alguém que precisa tomar decisões que impactam a vida de milhares de semelhantes e que precisa carregar a dor de estar nessa posição. Se você está em busca de uma experiência íntima que mistura o drama das tensões geopolíticas com a luta de um personagem histórico que pouca gente conhece, "Golda" é simplesmente imperdível. Dirigido por Guy Nattiv, o filme nos transporta para um momento crucial na história de Israel a partir de uma narrativa truncada, cadenciada, mas extremamente envolvente para aqueles que se identificam com o tema e com esse tipo de dinâmica. Bem ao estilo de "Oslo" ou de "O Destino de uma Nação", "Golda" é um filme que se destaca, proporcionando uma visão única e poderosa desse doloroso capítulo da humanidade.
Ambientado na Guerra do Yom Kippur, em 1973, esse drama político baseado em uma história real, mostra como a primeira-ministra Golda Meir (Helen Mirren), conhecida como a “Dama de Ferro” de Israel, enfrenta uma possível destruição do Estado, tomando decisões de alto risco, enquanto trava uma batalha pessoal contra o câncer. Confira o trailer (em inglês):
Esteja preparado para se deparar com um filme difícil na sua proposta narrativa, mas genial na forma com que explora não apenas os desafios políticos da protagonista, mas também sua luta pessoal contra o câncer, oferecendo um olhar íntimo e humano de um momento crítico na história de Israel e também impactante na sua vida. O brilhantismo do trabalho de Mirren, que inexplicavelmente não foi indicada ao Oscar 2024 por esse personagem, está justamente em desmistificar a imagem de Golda Meir como uma líder incansável e segura que toma decisões de alto risco para salvar seu país de uma iminente destruição. Aqui, o que vemos é a fragilidade, o receio, o medo, a dor, e até a insegurança sobre o futuro, mas sempre com muita sensibilidade - o sentimento de Meir está no olhar não nas palavras e isso é bonito demais!
Obviamente que "Golda" brilha não apenas por sua narrativa envolvente ou por uma performance notavelmente acima da média, mas também por elementos técnicos e artísticos que elevam a nossa jornada como audiência. A fotografia do Jasper Wolf (de "Monos - Entre o Céu e o Inferno"), por exemplo, captura de maneira extremamente realista a atmosfera tensa da guerra através dos sentidos - olhar esse horror por uma tela ou escutar o sofrimento por um rádio, estando em segurança, exige do ator um trabalho de introspecção difícil, mas com uma lente fechada (85mm) que super expõe essa condição, conseguimos não só sentir a angustia e a tensão como também testemunhar os reflexos das decisões ali tomadas, sejam elas certas ou erradas. A direção habilidosa de Guy Nattiv (vencedor do Oscar de "Melhor Curta-Metragem" em 2019 por "Skin") sabe da importância dessa dicotomia e não por acaso mescla imagens documentais com suas reconstituições, nos guiando por essas reviravoltas politicas (e bélicas) com a eficiência de quem não esquece que é o ser humano quem transforma uma história.
Dito isso, é de se elogiar como "Golda" demonstra um compromisso impressionante com a autenticidade histórica, recriando fielmente os eventos da época bem como transformando Helen Mirren na própria Meir com uma maquiagem que rendeu até uma indicação ao Oscar para o time de " ais do que um filme histórico, muito bem produzido e realizado, "Golda" é uma jornada emocional que nos leva aos corredores do poder, revelando a complexidade e coragem por trás da "Dama de Ferro" de Israel. Todo mundo vai gostar? Acho que não, mas se você leu até aqui, pode dar o play porque você não vai se arrepender. História pura, simplesmente imperdível!
Esse é um filme sobre os horrores da guerra pela perspectiva do silêncio. E aqui não estou falando sobre "a ausência de som" e sim sobre a sua jornada solitária de alguém que precisa tomar decisões que impactam a vida de milhares de semelhantes e que precisa carregar a dor de estar nessa posição. Se você está em busca de uma experiência íntima que mistura o drama das tensões geopolíticas com a luta de um personagem histórico que pouca gente conhece, "Golda" é simplesmente imperdível. Dirigido por Guy Nattiv, o filme nos transporta para um momento crucial na história de Israel a partir de uma narrativa truncada, cadenciada, mas extremamente envolvente para aqueles que se identificam com o tema e com esse tipo de dinâmica. Bem ao estilo de "Oslo" ou de "O Destino de uma Nação", "Golda" é um filme que se destaca, proporcionando uma visão única e poderosa desse doloroso capítulo da humanidade.
Ambientado na Guerra do Yom Kippur, em 1973, esse drama político baseado em uma história real, mostra como a primeira-ministra Golda Meir (Helen Mirren), conhecida como a “Dama de Ferro” de Israel, enfrenta uma possível destruição do Estado, tomando decisões de alto risco, enquanto trava uma batalha pessoal contra o câncer. Confira o trailer (em inglês):
Esteja preparado para se deparar com um filme difícil na sua proposta narrativa, mas genial na forma com que explora não apenas os desafios políticos da protagonista, mas também sua luta pessoal contra o câncer, oferecendo um olhar íntimo e humano de um momento crítico na história de Israel e também impactante na sua vida. O brilhantismo do trabalho de Mirren, que inexplicavelmente não foi indicada ao Oscar 2024 por esse personagem, está justamente em desmistificar a imagem de Golda Meir como uma líder incansável e segura que toma decisões de alto risco para salvar seu país de uma iminente destruição. Aqui, o que vemos é a fragilidade, o receio, o medo, a dor, e até a insegurança sobre o futuro, mas sempre com muita sensibilidade - o sentimento de Meir está no olhar não nas palavras e isso é bonito demais!
Obviamente que "Golda" brilha não apenas por sua narrativa envolvente ou por uma performance notavelmente acima da média, mas também por elementos técnicos e artísticos que elevam a nossa jornada como audiência. A fotografia do Jasper Wolf (de "Monos - Entre o Céu e o Inferno"), por exemplo, captura de maneira extremamente realista a atmosfera tensa da guerra através dos sentidos - olhar esse horror por uma tela ou escutar o sofrimento por um rádio, estando em segurança, exige do ator um trabalho de introspecção difícil, mas com uma lente fechada (85mm) que super expõe essa condição, conseguimos não só sentir a angustia e a tensão como também testemunhar os reflexos das decisões ali tomadas, sejam elas certas ou erradas. A direção habilidosa de Guy Nattiv (vencedor do Oscar de "Melhor Curta-Metragem" em 2019 por "Skin") sabe da importância dessa dicotomia e não por acaso mescla imagens documentais com suas reconstituições, nos guiando por essas reviravoltas politicas (e bélicas) com a eficiência de quem não esquece que é o ser humano quem transforma uma história.
Dito isso, é de se elogiar como "Golda" demonstra um compromisso impressionante com a autenticidade histórica, recriando fielmente os eventos da época bem como transformando Helen Mirren na própria Meir com uma maquiagem que rendeu até uma indicação ao Oscar para o time de " ais do que um filme histórico, muito bem produzido e realizado, "Golda" é uma jornada emocional que nos leva aos corredores do poder, revelando a complexidade e coragem por trás da "Dama de Ferro" de Israel. Todo mundo vai gostar? Acho que não, mas se você leu até aqui, pode dar o play porque você não vai se arrepender. História pura, simplesmente imperdível!
"Grande demais para Quebrar" é um filmaço, mas não é nada fácil - embora tenha alguns diálogos bastante didáticos como o que define a crise de 2008 enquanto a equipe do governo se preparava para emitir um comunicado para a imprensa no inicio do terceiro ato. É preciso que se diga que o filme, uma ficção baseada em fatos reais, não é, nem de longe, uma narrativa fluida e auto-explicativa para quem conhece pouco do assunto ou da dinâmica econômica da época. O vencedor do Oscar de 2011, "Trabalho Interno" é quase um pré-requisito para assistir "Grande demais para Quebrar". Sim, o assunto é exatamente o mesmo, mas dessa vez acompanhamos a bomba explodindo pelos olhos de Henry Paulson, secretário do Tesouro dos Estados Unidos e na época o grande responsável pela saúde da economia do governo Bush.
O mercado financeiro era, há poucos anos, um paraíso: salários multimilionários, bônus exagerados e lucros astronômicos. Tudo começou a ruir em 2008. O filme retrata a crise econômica que até hoje afeta a economia dos EUA, tomando como tema central os esforços do então secretário do tesouro americano, Henry Paulson (William Hurt), para controlar os danos a partir de conversas com Richard Fuld, Ben Bernanke, Warren Buffett e Tim Geithner, e assim tentar salvar o Lehman Brothers. Durante as negociações, buscava-se uma solução privada envolvendo banqueiros de investimento e membros do Congresso para preservar a empresa sediada em Nova York, mas, como se sabe, o problema era muito mais complexo. Confira o trailer, em inglês:
"Grande demais para Quebrar" foi indicado para 3 Globos de Ouro em 2012: Melhor Filme para TV, Melhor Ator (William Hurt) e Melhor ator Coadjuvante (Paul Giamatti), sem contar a indicação para, acreditem, 11 Emmys em 2011 - e provavelmente você não assistiu a essa obra de arte!
O que salta aos olhos logo de cara, sem a menor dúvida, é o elenco: William Hurt, Paul Giamatti, James Woods, Cynthia Nixon, Billy Crudup - só para citar alguns! A direção de Curtis Hanson de "L.A. Confidential", a fotografia de Kramer Morgenthau (Creed II) e o roteiro de Peter Gould (Breaking Bad) terminam de compor esse perfeito Dream Team! Mas vamos aos fatos: o maior mérito do filme é o de não demonizar seus personagens, deixando o julgamento exclusivamente para quem assiste. É possível perceber em algumas cenas, todo o mindset daquele grupo de executivos e membros do governo, mas será preciso alguma sensibilidade para separar os sentimentos mais íntimos em um momento conturbado da economia com sua postura maniqueísta como tomador de decisões no ambiente corporativo - e isso humaniza os personagens de tal forma, que temos a exata impressão que não se trata de uma ficção (o prólogo do filme e as cenas de arquivo, normalmente da imprensa falada, inseridas na narrativa, ajudam muito nessa percepção).
Como todos os filmes e documentários sobre o tema, "Grande demais para Quebrar" é um retrato da hipocrisia corporativa e de como o descaso do mercado financeiro, tão em evidência, podem gerar consequências catastróficas. O diferencial está na forma como o filme mostra, por dentro e de maneira inteligente, as tentativas e equívocos do governo durante o caos financeiro – lidando com egos de grandes executivos que só pensaram em si, mesmo assistindo de camarote suas empresas afundarem após conscientes vendas de derivativos e títulos podres.
Vale muito o seu play!
"Grande demais para Quebrar" é um filmaço, mas não é nada fácil - embora tenha alguns diálogos bastante didáticos como o que define a crise de 2008 enquanto a equipe do governo se preparava para emitir um comunicado para a imprensa no inicio do terceiro ato. É preciso que se diga que o filme, uma ficção baseada em fatos reais, não é, nem de longe, uma narrativa fluida e auto-explicativa para quem conhece pouco do assunto ou da dinâmica econômica da época. O vencedor do Oscar de 2011, "Trabalho Interno" é quase um pré-requisito para assistir "Grande demais para Quebrar". Sim, o assunto é exatamente o mesmo, mas dessa vez acompanhamos a bomba explodindo pelos olhos de Henry Paulson, secretário do Tesouro dos Estados Unidos e na época o grande responsável pela saúde da economia do governo Bush.
O mercado financeiro era, há poucos anos, um paraíso: salários multimilionários, bônus exagerados e lucros astronômicos. Tudo começou a ruir em 2008. O filme retrata a crise econômica que até hoje afeta a economia dos EUA, tomando como tema central os esforços do então secretário do tesouro americano, Henry Paulson (William Hurt), para controlar os danos a partir de conversas com Richard Fuld, Ben Bernanke, Warren Buffett e Tim Geithner, e assim tentar salvar o Lehman Brothers. Durante as negociações, buscava-se uma solução privada envolvendo banqueiros de investimento e membros do Congresso para preservar a empresa sediada em Nova York, mas, como se sabe, o problema era muito mais complexo. Confira o trailer, em inglês:
"Grande demais para Quebrar" foi indicado para 3 Globos de Ouro em 2012: Melhor Filme para TV, Melhor Ator (William Hurt) e Melhor ator Coadjuvante (Paul Giamatti), sem contar a indicação para, acreditem, 11 Emmys em 2011 - e provavelmente você não assistiu a essa obra de arte!
O que salta aos olhos logo de cara, sem a menor dúvida, é o elenco: William Hurt, Paul Giamatti, James Woods, Cynthia Nixon, Billy Crudup - só para citar alguns! A direção de Curtis Hanson de "L.A. Confidential", a fotografia de Kramer Morgenthau (Creed II) e o roteiro de Peter Gould (Breaking Bad) terminam de compor esse perfeito Dream Team! Mas vamos aos fatos: o maior mérito do filme é o de não demonizar seus personagens, deixando o julgamento exclusivamente para quem assiste. É possível perceber em algumas cenas, todo o mindset daquele grupo de executivos e membros do governo, mas será preciso alguma sensibilidade para separar os sentimentos mais íntimos em um momento conturbado da economia com sua postura maniqueísta como tomador de decisões no ambiente corporativo - e isso humaniza os personagens de tal forma, que temos a exata impressão que não se trata de uma ficção (o prólogo do filme e as cenas de arquivo, normalmente da imprensa falada, inseridas na narrativa, ajudam muito nessa percepção).
Como todos os filmes e documentários sobre o tema, "Grande demais para Quebrar" é um retrato da hipocrisia corporativa e de como o descaso do mercado financeiro, tão em evidência, podem gerar consequências catastróficas. O diferencial está na forma como o filme mostra, por dentro e de maneira inteligente, as tentativas e equívocos do governo durante o caos financeiro – lidando com egos de grandes executivos que só pensaram em si, mesmo assistindo de camarote suas empresas afundarem após conscientes vendas de derivativos e títulos podres.
Vale muito o seu play!
Intrigante! Uma atmosfera que nos remete ao excelente "Devs", mas que não nos deixa esquecer de "Ruptura" - só que com o mérito de ter sido lançada bem antes dessas duas pérolas do streaming. O fato é que "Homecoming" é muito mais que uma minissérie de suspense psicológico, ela é um verdadeiro quebra-cabeça narrativo que nos provoca e nos surpreende a cada nova peça apresentada. Criada por Sam Esmail (a mente criativa por trás de "Mr. Robot") essa recomendação é um prato cheio para quem aprecia um bom thriller com fortes elementos de mistério e algumas camadas de drama. Vale lembrar, inclusive, que "Homecoming" venceu o Satellite Awards como Melhor Série Dramática em 2019, além de ter recebido indicações importantes no Globo de Ouro e no Emmy do mesmo ano.
Boas intenções. Chefes inconstantes. Paranoia crescente. Consequências imprevistas saindo de controle. Heidi (Julia Roberts) trabalha em Homecoming, uma unidade que ajuda soldados no processo de transição para a vida civil. Anos após ela começar uma nova vida, o Departamento de Defesa do EUA passa a questionar Heidi para entender os reais motivos de sua saída do misterioso programa e é justamente a partir daí que ela entende que há uma outra história por trás daquela que ela acreditava ser a verdadeira. Confira o trailer (em inglês):
Nem o amável sorriso de Heidi consegue disfarçar que há algo de errado em "Homecoming" - desde o primeiro episódio somos fisgados pelo clima de tensão e mistério que vai tomando conta dos corredores deste que se anuncia como um projeto revolucionário, mas que claramente esconde nos seus benefícios, interesses maliciosos. Explorando a fragilidade da mente humana e os efeitos psicológicos do trauma, Esmail sabe exatamente como criar uma complexa e bem elaborada trama, com personagens realmente intrigantes e uma atmosfera que nos faz questionar, a cada episódio, tudo o que sabemos, ou pelo menos, tudo o que nos vai sendo contado.
Com duas linhas temporais distintas, que inicialmente não se completam, "Homecoming" dá um show como proposta narrativa e conceito estético - mais do que uma mudança sutil no visual da protagonista, os períodos são filmados de modos muito diferentes. Enquanto o passado ocupa toda a tela da TV e valoriza as cores do arborizado e moderno centro de recuperação, o presente é apresentado no formato 4:3, aquele mais quadrado, com tons opacos e acinzentados - tudo isso para criar um sentimento de angustia e melancolia que se misturam e que acaba se justificando pela perspectiva de uma inteligente metáfora que vai surgindo com o final da temporada. O fato é que, em "Homecoming", nada é por acaso.
Com atuações impecáveis de Julia Roberts e Stephan James (que interpreta o soldado Walter Cruz que Heidi monitora) o que vemos na tela é a potencialização da complexidade emocional do ser humano se sobrepondo perante sua própria fragilidade. Sim, a sentença pode até soar redundante, mas ao mergulharmos na proposta de Esmail entendemos perfeitamente sua estratégia de criar esse senso de desorientação permanente, nos provocando e instigando nossa curiosidade como poucas vezes experienciamos. No entanto, antes do play, saiba que "Homecoming" não é uma jornada simples, sua narrativa é mais cadenciada e seu propósito como obra é naturalmente pouco expositivo. Dito isso, se prepare para uma jornada viciante (ainda mais sabendo que cada episódio tem apenas 30 minutos) onde os perigos do poder e da manipulação serão ótimos assuntos para uma discussão - pós-créditos, claro.
Imperdível!
Intrigante! Uma atmosfera que nos remete ao excelente "Devs", mas que não nos deixa esquecer de "Ruptura" - só que com o mérito de ter sido lançada bem antes dessas duas pérolas do streaming. O fato é que "Homecoming" é muito mais que uma minissérie de suspense psicológico, ela é um verdadeiro quebra-cabeça narrativo que nos provoca e nos surpreende a cada nova peça apresentada. Criada por Sam Esmail (a mente criativa por trás de "Mr. Robot") essa recomendação é um prato cheio para quem aprecia um bom thriller com fortes elementos de mistério e algumas camadas de drama. Vale lembrar, inclusive, que "Homecoming" venceu o Satellite Awards como Melhor Série Dramática em 2019, além de ter recebido indicações importantes no Globo de Ouro e no Emmy do mesmo ano.
Boas intenções. Chefes inconstantes. Paranoia crescente. Consequências imprevistas saindo de controle. Heidi (Julia Roberts) trabalha em Homecoming, uma unidade que ajuda soldados no processo de transição para a vida civil. Anos após ela começar uma nova vida, o Departamento de Defesa do EUA passa a questionar Heidi para entender os reais motivos de sua saída do misterioso programa e é justamente a partir daí que ela entende que há uma outra história por trás daquela que ela acreditava ser a verdadeira. Confira o trailer (em inglês):
Nem o amável sorriso de Heidi consegue disfarçar que há algo de errado em "Homecoming" - desde o primeiro episódio somos fisgados pelo clima de tensão e mistério que vai tomando conta dos corredores deste que se anuncia como um projeto revolucionário, mas que claramente esconde nos seus benefícios, interesses maliciosos. Explorando a fragilidade da mente humana e os efeitos psicológicos do trauma, Esmail sabe exatamente como criar uma complexa e bem elaborada trama, com personagens realmente intrigantes e uma atmosfera que nos faz questionar, a cada episódio, tudo o que sabemos, ou pelo menos, tudo o que nos vai sendo contado.
Com duas linhas temporais distintas, que inicialmente não se completam, "Homecoming" dá um show como proposta narrativa e conceito estético - mais do que uma mudança sutil no visual da protagonista, os períodos são filmados de modos muito diferentes. Enquanto o passado ocupa toda a tela da TV e valoriza as cores do arborizado e moderno centro de recuperação, o presente é apresentado no formato 4:3, aquele mais quadrado, com tons opacos e acinzentados - tudo isso para criar um sentimento de angustia e melancolia que se misturam e que acaba se justificando pela perspectiva de uma inteligente metáfora que vai surgindo com o final da temporada. O fato é que, em "Homecoming", nada é por acaso.
Com atuações impecáveis de Julia Roberts e Stephan James (que interpreta o soldado Walter Cruz que Heidi monitora) o que vemos na tela é a potencialização da complexidade emocional do ser humano se sobrepondo perante sua própria fragilidade. Sim, a sentença pode até soar redundante, mas ao mergulharmos na proposta de Esmail entendemos perfeitamente sua estratégia de criar esse senso de desorientação permanente, nos provocando e instigando nossa curiosidade como poucas vezes experienciamos. No entanto, antes do play, saiba que "Homecoming" não é uma jornada simples, sua narrativa é mais cadenciada e seu propósito como obra é naturalmente pouco expositivo. Dito isso, se prepare para uma jornada viciante (ainda mais sabendo que cada episódio tem apenas 30 minutos) onde os perigos do poder e da manipulação serão ótimos assuntos para uma discussão - pós-créditos, claro.
Imperdível!
"Homeland" ganhou os principais prêmios no Emmy de 2012, entre eles o de melhor roteiro e melhor série dramática - o que foi uma surpresa na época. Na verdade, eu nunca havia me interessado pelo seu argumento, achava que seria "mais do mesmo"! Mas por causa dessa premiação resolvi assistir o "piloto" para entender como uma série sobre terrorismo conseguiu desbancar pesos-pesados que já acompanha como "Mad Men" e "Game of Thrones". Pois bem meus amigos, "Homeland" é genial! O roteiro de piloto é muito intrigante e chega a lembrar "24 horas" nos seus melhores anos. Não dá vontade parar de assistir. A estrutura do roteiro casa muito bem os dramas pessoais dos protagonistas (e é aí que Homeland dá um banho em 24 horas) com a tensão constante do terrorismo que está no argumento. É sensacional!
Após o desaparecimento de dois soldados americanos no Iraque, um deles, o sargento Nicholas Brody (Damian Lewis), retorna aos EUA após ser resgatado pelo exército. Repatriado, ele é recebido como herói pela família, pelos amigos e pelo governo. Porém a agente da CIA Carrie Mathison (Claire Danes), especialista em anti-terrorismo e que passou vários anos infiltrada no Afeganistão, não acredita que Brody seja realmente um herói de guerra - ela desconfia que ele é, na verdade, um espião iraquiano preparando o próximo ataque terrorista em solo dos EUA.
O ponto alto de "Homeland", como comentei acima, é a relação entre os dois personagens principais. Fica claro, logo de cara, que realmente existe algo de errado com Brody - suas atitudes remetem a uma série de referências ao islamismo ou a cultura daquela região, porém ninguém consegue reparar que essa sua postura pode significar algo que vai além do respeito às tradições. Carrie parece ser a única pessoa que consegue detectar algo suspeito nas atitudes de Brody, acontece que ela sofre de um distúrbio bipolar e sua obsessão em descobrir a verdade soa como desequilíbrio e paranóia para a maioria dos seus superiores, o que, óbvio, só a motiva em descobrir a verdade - mesmo que usando de artifícios pouco convencionais para uma agente da CIA.
É fato que o roteiro das primeiras temporadas são mais dinâmicos e inteligentes, porém a série, já com várias temporadas, consegue manter parte do seu público engajado mesmo com as trocas de elenco e as várias mudanças nas motivações de Carrie. Embora não seja uma antologia como em "24 horas", por exemplo, "Homeland" procura equilibrar suas histórias pontuais com os dramas que a protagonista tem que lidar para continuar sua caminhada como heroína. As vezes a série falha, parece perder o fôlego, mas de repente algo surge e trás um sentido novo que levanta a história novamente e a mantém sendo produzida - aliás, a produção continua excelente e mesmo com episódios de 2011, a série está em ótima forma no que diz respeito aos conceitos cinematográficos!
"Homeland" é uma livre adaptação de uma série israelense de muito sucesso chamada "Hatufim", que significa “Sequestrados” - traduzida para o inglês como "Prisioneiros de Guerra" .Ela vale cada episódio, cada temporada; e posso afirmar que já se transformou em uma referência que merece ser vista por quem gosta do gênero!
"Homeland" ganhou os principais prêmios no Emmy de 2012, entre eles o de melhor roteiro e melhor série dramática - o que foi uma surpresa na época. Na verdade, eu nunca havia me interessado pelo seu argumento, achava que seria "mais do mesmo"! Mas por causa dessa premiação resolvi assistir o "piloto" para entender como uma série sobre terrorismo conseguiu desbancar pesos-pesados que já acompanha como "Mad Men" e "Game of Thrones". Pois bem meus amigos, "Homeland" é genial! O roteiro de piloto é muito intrigante e chega a lembrar "24 horas" nos seus melhores anos. Não dá vontade parar de assistir. A estrutura do roteiro casa muito bem os dramas pessoais dos protagonistas (e é aí que Homeland dá um banho em 24 horas) com a tensão constante do terrorismo que está no argumento. É sensacional!
Após o desaparecimento de dois soldados americanos no Iraque, um deles, o sargento Nicholas Brody (Damian Lewis), retorna aos EUA após ser resgatado pelo exército. Repatriado, ele é recebido como herói pela família, pelos amigos e pelo governo. Porém a agente da CIA Carrie Mathison (Claire Danes), especialista em anti-terrorismo e que passou vários anos infiltrada no Afeganistão, não acredita que Brody seja realmente um herói de guerra - ela desconfia que ele é, na verdade, um espião iraquiano preparando o próximo ataque terrorista em solo dos EUA.
O ponto alto de "Homeland", como comentei acima, é a relação entre os dois personagens principais. Fica claro, logo de cara, que realmente existe algo de errado com Brody - suas atitudes remetem a uma série de referências ao islamismo ou a cultura daquela região, porém ninguém consegue reparar que essa sua postura pode significar algo que vai além do respeito às tradições. Carrie parece ser a única pessoa que consegue detectar algo suspeito nas atitudes de Brody, acontece que ela sofre de um distúrbio bipolar e sua obsessão em descobrir a verdade soa como desequilíbrio e paranóia para a maioria dos seus superiores, o que, óbvio, só a motiva em descobrir a verdade - mesmo que usando de artifícios pouco convencionais para uma agente da CIA.
É fato que o roteiro das primeiras temporadas são mais dinâmicos e inteligentes, porém a série, já com várias temporadas, consegue manter parte do seu público engajado mesmo com as trocas de elenco e as várias mudanças nas motivações de Carrie. Embora não seja uma antologia como em "24 horas", por exemplo, "Homeland" procura equilibrar suas histórias pontuais com os dramas que a protagonista tem que lidar para continuar sua caminhada como heroína. As vezes a série falha, parece perder o fôlego, mas de repente algo surge e trás um sentido novo que levanta a história novamente e a mantém sendo produzida - aliás, a produção continua excelente e mesmo com episódios de 2011, a série está em ótima forma no que diz respeito aos conceitos cinematográficos!
"Homeland" é uma livre adaptação de uma série israelense de muito sucesso chamada "Hatufim", que significa “Sequestrados” - traduzida para o inglês como "Prisioneiros de Guerra" .Ela vale cada episódio, cada temporada; e posso afirmar que já se transformou em uma referência que merece ser vista por quem gosta do gênero!
"House of Cards", criada por Beau Willimon e baseada no romance homônimo de Michael Dobbs, é uma série que redefiniu o drama político na televisão. Lançada em 2013 pela Netflix, a série rapidamente se tornou um fenômeno cultural, destacando-se por sua narrativa intricada, personagens complexos e uma visão cínica e implacável do mundo da política americana. Ao longo de suas seis temporadas, "House of Cards" ofereceu um mergulho profundo no poder e na corrupção, capturando a atenção e a imaginação dos espectadores em todo o mundo.
A trama de "House of Cards" segue Francis "Frank" Underwood (Kevin Spacey), um político ambicioso e implacável que, após ser preterido para o cargo de Secretário de Estado, embarca em uma jornada de vingança e manipulação para conquistar a presidência dos Estados Unidos. Ao seu lado está sua igualmente ambiciosa esposa, Claire Underwood (Robin Wright), cuja busca por poder e influência é tão implacável quanto a de Frank. Juntos, eles formam uma das duplas mais formidáveis e temíveis da televisão.
O maior trunfo de "House of Cards" está em suas performances soberbas, especialmente as de Kevin Spacey e Robin Wright. Spacey traz uma intensidade magnética a Frank Underwood, quebrando a quarta parede com seus monólogos cínicos e perspicazes, que revelam as profundezas de sua mente maquiavélica. Robin Wright, por sua vez, entrega uma atuação igualmente poderosa como Claire Underwood, evoluindo de uma parceira silenciosa para uma figura de poder autônoma e dominante. Sua química é palpável e sua dinâmica, fascinante, sustentando a série mesmo nos momentos mais sombrios.
A direção de David Fincher no piloto estabelece o tom visual da série: elegante, sombrio e imbuído de uma sensação constante de tensão. A cinematografia de Igor Martinovic e a trilha sonora de Jeff Beal complementam perfeitamente a narrativa, criando uma atmosfera opressiva que espelha o mundo moralmente ambíguo que os personagens habitam. As escolhas estéticas e a atenção aos detalhes visuais reforçam a sensação de decadência e corrupção que permeia a série. A narrativa de "House of Cards" é intricada e cheia de reviravoltas, explorando os mecanismos sombrios da política e do poder. A série é habilidosa em desenvolver arcos complexos e personagens multifacetados, onde cada ação tem consequências profundas e muitas vezes devastadoras. A escrita de Beau Willimon e sua equipe é afiada, com diálogos mordazes e uma trama que mantém os espectadores na ponta da cadeira.
No entanto, "House of Cards" não está isenta de controvérsias e desafios. As alegações de má conduta contra Kevin Spacey resultaram em sua saída abrupta após a quinta temporada, obrigando a série a reformular sua narrativa para a temporada final. Robin Wright assumiu o papel principal, e embora sua performance tenha sido amplamente elogiada, a série lutou para manter a mesma intensidade e coesão sem a presença de Spacey. Além disso, alguns críticos apontaram que as temporadas posteriores não conseguiram capturar a mesma magia das primeiras, com tramas que, por vezes, se tornaram excessivamente enroladas e menos impactantes.
Ainda assim, "House of Cards" permaneça uma série marcante e influente, que ofereceu uma visão corajosa e muitas vezes perturbadora do mundo da política. Seu impacto na cultura pop é inegável, inspirando inúmeras discussões e análises sobre poder, ética e corrupção. A série é um testemunho da capacidade da televisão de explorar temas complexos e de desafiar os espectadores a refletir sobre a natureza do poder e da ambição.
Em resumo, temos uma obra imperdível para os amantes de dramas políticos que vale muito o seu play!
"House of Cards", criada por Beau Willimon e baseada no romance homônimo de Michael Dobbs, é uma série que redefiniu o drama político na televisão. Lançada em 2013 pela Netflix, a série rapidamente se tornou um fenômeno cultural, destacando-se por sua narrativa intricada, personagens complexos e uma visão cínica e implacável do mundo da política americana. Ao longo de suas seis temporadas, "House of Cards" ofereceu um mergulho profundo no poder e na corrupção, capturando a atenção e a imaginação dos espectadores em todo o mundo.
A trama de "House of Cards" segue Francis "Frank" Underwood (Kevin Spacey), um político ambicioso e implacável que, após ser preterido para o cargo de Secretário de Estado, embarca em uma jornada de vingança e manipulação para conquistar a presidência dos Estados Unidos. Ao seu lado está sua igualmente ambiciosa esposa, Claire Underwood (Robin Wright), cuja busca por poder e influência é tão implacável quanto a de Frank. Juntos, eles formam uma das duplas mais formidáveis e temíveis da televisão.
O maior trunfo de "House of Cards" está em suas performances soberbas, especialmente as de Kevin Spacey e Robin Wright. Spacey traz uma intensidade magnética a Frank Underwood, quebrando a quarta parede com seus monólogos cínicos e perspicazes, que revelam as profundezas de sua mente maquiavélica. Robin Wright, por sua vez, entrega uma atuação igualmente poderosa como Claire Underwood, evoluindo de uma parceira silenciosa para uma figura de poder autônoma e dominante. Sua química é palpável e sua dinâmica, fascinante, sustentando a série mesmo nos momentos mais sombrios.
A direção de David Fincher no piloto estabelece o tom visual da série: elegante, sombrio e imbuído de uma sensação constante de tensão. A cinematografia de Igor Martinovic e a trilha sonora de Jeff Beal complementam perfeitamente a narrativa, criando uma atmosfera opressiva que espelha o mundo moralmente ambíguo que os personagens habitam. As escolhas estéticas e a atenção aos detalhes visuais reforçam a sensação de decadência e corrupção que permeia a série. A narrativa de "House of Cards" é intricada e cheia de reviravoltas, explorando os mecanismos sombrios da política e do poder. A série é habilidosa em desenvolver arcos complexos e personagens multifacetados, onde cada ação tem consequências profundas e muitas vezes devastadoras. A escrita de Beau Willimon e sua equipe é afiada, com diálogos mordazes e uma trama que mantém os espectadores na ponta da cadeira.
No entanto, "House of Cards" não está isenta de controvérsias e desafios. As alegações de má conduta contra Kevin Spacey resultaram em sua saída abrupta após a quinta temporada, obrigando a série a reformular sua narrativa para a temporada final. Robin Wright assumiu o papel principal, e embora sua performance tenha sido amplamente elogiada, a série lutou para manter a mesma intensidade e coesão sem a presença de Spacey. Além disso, alguns críticos apontaram que as temporadas posteriores não conseguiram capturar a mesma magia das primeiras, com tramas que, por vezes, se tornaram excessivamente enroladas e menos impactantes.
Ainda assim, "House of Cards" permaneça uma série marcante e influente, que ofereceu uma visão corajosa e muitas vezes perturbadora do mundo da política. Seu impacto na cultura pop é inegável, inspirando inúmeras discussões e análises sobre poder, ética e corrupção. A série é um testemunho da capacidade da televisão de explorar temas complexos e de desafiar os espectadores a refletir sobre a natureza do poder e da ambição.
Em resumo, temos uma obra imperdível para os amantes de dramas políticos que vale muito o seu play!
Enquanto Bryan Fogel se propunha a documentar uma experiência pessoal para entender os efeitos do doping na performance de um atleta, no caso de um ciclista, uma reunião casual com um cientista acabou transformando completamente seu projeto: ele começa a descobrir uma verdade extremamente inconveniente sobre o sistema de doping no esporte russo. Confira o trailer (em inglês):
O vencedor do Oscar de melhor Documentário do Oscar de 2018 era pra ser uma espécie de "Super Size Me" do doping e virou uma das maiores revelações conspiratórias do esporte mundial de todos os tempos - se não a maior! Por muita sorte do diretor (e a história é inacreditável), o documentário mostra como a Rússia vinha burlando os exames anti-doping em competições olímpicas há anos - com 50% (dados reais) dos atletas que disputaram as Olimpíadas de Londres competindo a base de protocolos proibidos. Ainda mais surpreendente é a atuação do Governo (leia-se Vladimir Putin) na troca das amostras de urina dos atletas na Olimpíadas de Inverno em Sochi 2014.
O triste é, mais uma vez, comprovar que "o crime compensa" - pelo menos aos olhos da Política!!! "Ícaro" é um grande documentário, que usou o "acaso" a seu favor e foi capaz de construir um storytelling dinâmico e surpreendente, mostrando que as as melhores histórias estão por aí, mas ta estar disposto a descobri-las! Olha, esse documentário é realmente imperdível! Vale muito o seu play!!!
Enquanto Bryan Fogel se propunha a documentar uma experiência pessoal para entender os efeitos do doping na performance de um atleta, no caso de um ciclista, uma reunião casual com um cientista acabou transformando completamente seu projeto: ele começa a descobrir uma verdade extremamente inconveniente sobre o sistema de doping no esporte russo. Confira o trailer (em inglês):
O vencedor do Oscar de melhor Documentário do Oscar de 2018 era pra ser uma espécie de "Super Size Me" do doping e virou uma das maiores revelações conspiratórias do esporte mundial de todos os tempos - se não a maior! Por muita sorte do diretor (e a história é inacreditável), o documentário mostra como a Rússia vinha burlando os exames anti-doping em competições olímpicas há anos - com 50% (dados reais) dos atletas que disputaram as Olimpíadas de Londres competindo a base de protocolos proibidos. Ainda mais surpreendente é a atuação do Governo (leia-se Vladimir Putin) na troca das amostras de urina dos atletas na Olimpíadas de Inverno em Sochi 2014.
O triste é, mais uma vez, comprovar que "o crime compensa" - pelo menos aos olhos da Política!!! "Ícaro" é um grande documentário, que usou o "acaso" a seu favor e foi capaz de construir um storytelling dinâmico e surpreendente, mostrando que as as melhores histórias estão por aí, mas ta estar disposto a descobri-las! Olha, esse documentário é realmente imperdível! Vale muito o seu play!!!
"Essa parada é baseada numa M****, muito, muito real!!!" - Com essa legenda (tradução livre), Spike Lee já te fala de cara que você vai tomar alguns socos no estômago vendo o filme, o que de fato acontece em vários momentos e sem pedir muita permissão!!! O filme é sensacional!!! A história de um policial negro que precisa se infiltrar na KKK para evitar possíveis atentados a comunidade negra e judia na cidade de Colorado Springs no final dos anos 70 é incrível!
O período era de grande agitação social onde a luta pelos direitos civis estavam borbulhando! Ron Stallworth (John David Washington) acabava de se tornar o primeiro detetive afro-americano do Departamento da Polícia de El Paso, mas a sua chegada era vista com muito ceticismo, iniciando uma certa hostilidade entre os vários departamentos da instituição. Porém, com sua audácia, Ron Stallworth decide fazer a diferença na sua comunidade, se infiltrando na Ku Klux Klan para depois expor seus integrantes e acabar com a onde de impunidade que permeava os EUA da época! Veja o trailer:
Olha, tecnicamente o filme está impecável. Spike Lee é aquele tipo diretor que transita em vários universos, que hoje chamamos de "Muilti-plataforma", mas acho que ele vai além disso, porque ele usa conceitos narrativos e estéticos de tudo que ele já fez e, melhor, de tudo que ele busca como referência. "BlacKkKlansman" (titulo original) é um show de referências e conceitos, de publicidade, de games, de outros diretores, de tv, de cinema, etc. Em determinados momentos ele dá uma leve desnivelada na camera, principalmente nas conversas pelo telefone, e cria uma sensação de instabilidade que é linda de ver. As aplicações gráficas, total anos 70, estão lindas, totalmente integradas à história - e isso é muito difícil de fazer. Em outros momentos ele parece quebrar a linearidade da edição com um corte de câmera, então você acaba assistindo uma mesma ação duas vezes, mas muito rápido, quase imperceptível, mas que te trás sensações de desconforto e estranhamento na hora certa!!
Os atores estão perfeitos: John David Washington está incrível como protagonista: intenso e sensível ao que está acontecendo com ele, mas com uma naturalidade para chegar aos alívios cômicos digno de Oscar (embora ele tenha, pelo menos, o Rami Malek pela frente). Reparem em uma personagem sem muito destaque, mas representa o que é um bom trabalho no olhar mais introspectivo, e na ação, completamente over-acting, mas com o range certo: a Connie, mulher do Felix, interpretada pela Ashlie Atkinson - ela dá um show. A fotografia também está linda, Chayse Irvin vem da publicidade e da música; merece uma indicação em 2019 sem a menor dúvida!!!!
Vale muito a pena
Up-date: "Infiltrado na Klan" ganhou em uma categoria no Oscar 2019: Melhor Roteiro Adaptado!
"Essa parada é baseada numa M****, muito, muito real!!!" - Com essa legenda (tradução livre), Spike Lee já te fala de cara que você vai tomar alguns socos no estômago vendo o filme, o que de fato acontece em vários momentos e sem pedir muita permissão!!! O filme é sensacional!!! A história de um policial negro que precisa se infiltrar na KKK para evitar possíveis atentados a comunidade negra e judia na cidade de Colorado Springs no final dos anos 70 é incrível!
O período era de grande agitação social onde a luta pelos direitos civis estavam borbulhando! Ron Stallworth (John David Washington) acabava de se tornar o primeiro detetive afro-americano do Departamento da Polícia de El Paso, mas a sua chegada era vista com muito ceticismo, iniciando uma certa hostilidade entre os vários departamentos da instituição. Porém, com sua audácia, Ron Stallworth decide fazer a diferença na sua comunidade, se infiltrando na Ku Klux Klan para depois expor seus integrantes e acabar com a onde de impunidade que permeava os EUA da época! Veja o trailer:
Olha, tecnicamente o filme está impecável. Spike Lee é aquele tipo diretor que transita em vários universos, que hoje chamamos de "Muilti-plataforma", mas acho que ele vai além disso, porque ele usa conceitos narrativos e estéticos de tudo que ele já fez e, melhor, de tudo que ele busca como referência. "BlacKkKlansman" (titulo original) é um show de referências e conceitos, de publicidade, de games, de outros diretores, de tv, de cinema, etc. Em determinados momentos ele dá uma leve desnivelada na camera, principalmente nas conversas pelo telefone, e cria uma sensação de instabilidade que é linda de ver. As aplicações gráficas, total anos 70, estão lindas, totalmente integradas à história - e isso é muito difícil de fazer. Em outros momentos ele parece quebrar a linearidade da edição com um corte de câmera, então você acaba assistindo uma mesma ação duas vezes, mas muito rápido, quase imperceptível, mas que te trás sensações de desconforto e estranhamento na hora certa!!
Os atores estão perfeitos: John David Washington está incrível como protagonista: intenso e sensível ao que está acontecendo com ele, mas com uma naturalidade para chegar aos alívios cômicos digno de Oscar (embora ele tenha, pelo menos, o Rami Malek pela frente). Reparem em uma personagem sem muito destaque, mas representa o que é um bom trabalho no olhar mais introspectivo, e na ação, completamente over-acting, mas com o range certo: a Connie, mulher do Felix, interpretada pela Ashlie Atkinson - ela dá um show. A fotografia também está linda, Chayse Irvin vem da publicidade e da música; merece uma indicação em 2019 sem a menor dúvida!!!!
Vale muito a pena
Up-date: "Infiltrado na Klan" ganhou em uma categoria no Oscar 2019: Melhor Roteiro Adaptado!
Se você está com saudade dos bons tempos de "Homeland" nem precisa ler esse review inteiro, já pule direto para o play que você não vai se arrepender. Em quatro temporadas, "Jack Ryan" traz o melhor que uma série politica, com investigações internacionais (muito com o foco no terrorismo), com uma dinâmica narrativa envolvente e com uma produção de altíssimo nível, têm para oferecer. Desde seu lançamento em 2018 pela Prime Video, a série conquistou não apenas uma legião de fãs ávidos por tramas de espionagem, mas também a crítica especializada, acumulando elogios e reconhecimentos em diversos prêmios do setor - sendo indicado, inclusive, para três Emmys.
Baseada nos populares romances de Tom Clancy, "Jack Ryan" segue as intrigantes missões do analista da CIA que dá nome a série, interpretado brilhantemente por John Krasinski. A trama se desenrola quando Ryan se vê no centro de operações secretas para desvendar ameaças terroristas que podem abalar o equilíbrio do poder global. Com Wendell Pierce no papel de James Greer, a série oferece uma dinâmica convincente que nos cativa desde o primeiro episódio. Confira o trailer (em inglês):
Tal qual "24 Horas" e alguns anos depois "Homeland", a série retoma aquela receita infalível onde, com muita habilidade, é capaz de unir drama, ação e suspense, se apropriando do pseudo-realismo politico e da profundidade de seus personagens (imperfeitos) para nos entreter durante muitas horas - olha, é quase impossível assistir apenas um episódio por vez. Embora exista uma atmosfera de ficção, toda a construção narrativa respeita com muita verdade aquilo que o roteiro propõe, ou seja, as tramas e subtramas têm o mérito de nos impactar emocionante como se realmente tivessem acontecido. Carlton Cuse (sim, aquele mesmo de "Lost") e Graham Roland, criadores da série, sabem que a essência do material utilizado como base não é algo, digamos, tão inovador, contudo, a dupla consegue dar fôlego e contemporaneidade aos temas discutidos nas temporadas, entregando jornadas bem construídas tanto do ponto de vista técnico quanto no criativo.
Para você ter uma idéia, a primeira temporada de "Jack Ryan" custou cerca US$ 8 milhões por episódio, o que dá um aspecto de superprodução. Com planos de realmente tirar o fôlego e locações como Marrocos, França e Canadá, a série é visualmente impecável - nesse ponto ela nos remete muito a outro sucesso do streaming, "The Night Manager". A fotografia toda conceitualizada pelo Richard Rutkowski (o mesmo de "The Americans: Rede de Espionagem") é deslumbrante - ela captura tanto essa grandiosidade dos cenários internacionais quanto a intensidade dos momentos de mais ação e angústia dos personagens, ajudando demais a garantir uma verossimilhança acima da média. E aqui cabe um outro elogio: reparem como a direção de arte e o desenho de produção garantem essa atmosfera extremamente realista e totalmente alinhada a proposta inicial dos seus criadores.
Embora seus personagens satélites, especialmente os vilões, soem complexos em relação às ambiguidades humanas, o Jack Ryan de Krasinski em si, está mais para um resgate daquele mocinho tradicional - suas batalhas intimas existem, mas, de fato, nem de longe invocam aquele turbilhão de fantasmas do passado dos saudosos Jack Bauer (24 Horas) e Carrie Mathison (Homeland). Talvez esse seja o ponto de equilíbrio que a série tenta encontrar (e consegue) a cada temporada - além das típicas histórias de heróis, os roteiros mergulham em dilemas éticos e com consequências inesperadas com muito mais leveza que as produções clássicas que citamos, diminuindo assim nossa ansiedade como audiência, mas por outro lado nos entregando um entretenimento com a mesma qualidade, as mesmas premissas narrativas, mas ainda mais divertido.
Olha, imperdível!
Se você está com saudade dos bons tempos de "Homeland" nem precisa ler esse review inteiro, já pule direto para o play que você não vai se arrepender. Em quatro temporadas, "Jack Ryan" traz o melhor que uma série politica, com investigações internacionais (muito com o foco no terrorismo), com uma dinâmica narrativa envolvente e com uma produção de altíssimo nível, têm para oferecer. Desde seu lançamento em 2018 pela Prime Video, a série conquistou não apenas uma legião de fãs ávidos por tramas de espionagem, mas também a crítica especializada, acumulando elogios e reconhecimentos em diversos prêmios do setor - sendo indicado, inclusive, para três Emmys.
Baseada nos populares romances de Tom Clancy, "Jack Ryan" segue as intrigantes missões do analista da CIA que dá nome a série, interpretado brilhantemente por John Krasinski. A trama se desenrola quando Ryan se vê no centro de operações secretas para desvendar ameaças terroristas que podem abalar o equilíbrio do poder global. Com Wendell Pierce no papel de James Greer, a série oferece uma dinâmica convincente que nos cativa desde o primeiro episódio. Confira o trailer (em inglês):
Tal qual "24 Horas" e alguns anos depois "Homeland", a série retoma aquela receita infalível onde, com muita habilidade, é capaz de unir drama, ação e suspense, se apropriando do pseudo-realismo politico e da profundidade de seus personagens (imperfeitos) para nos entreter durante muitas horas - olha, é quase impossível assistir apenas um episódio por vez. Embora exista uma atmosfera de ficção, toda a construção narrativa respeita com muita verdade aquilo que o roteiro propõe, ou seja, as tramas e subtramas têm o mérito de nos impactar emocionante como se realmente tivessem acontecido. Carlton Cuse (sim, aquele mesmo de "Lost") e Graham Roland, criadores da série, sabem que a essência do material utilizado como base não é algo, digamos, tão inovador, contudo, a dupla consegue dar fôlego e contemporaneidade aos temas discutidos nas temporadas, entregando jornadas bem construídas tanto do ponto de vista técnico quanto no criativo.
Para você ter uma idéia, a primeira temporada de "Jack Ryan" custou cerca US$ 8 milhões por episódio, o que dá um aspecto de superprodução. Com planos de realmente tirar o fôlego e locações como Marrocos, França e Canadá, a série é visualmente impecável - nesse ponto ela nos remete muito a outro sucesso do streaming, "The Night Manager". A fotografia toda conceitualizada pelo Richard Rutkowski (o mesmo de "The Americans: Rede de Espionagem") é deslumbrante - ela captura tanto essa grandiosidade dos cenários internacionais quanto a intensidade dos momentos de mais ação e angústia dos personagens, ajudando demais a garantir uma verossimilhança acima da média. E aqui cabe um outro elogio: reparem como a direção de arte e o desenho de produção garantem essa atmosfera extremamente realista e totalmente alinhada a proposta inicial dos seus criadores.
Embora seus personagens satélites, especialmente os vilões, soem complexos em relação às ambiguidades humanas, o Jack Ryan de Krasinski em si, está mais para um resgate daquele mocinho tradicional - suas batalhas intimas existem, mas, de fato, nem de longe invocam aquele turbilhão de fantasmas do passado dos saudosos Jack Bauer (24 Horas) e Carrie Mathison (Homeland). Talvez esse seja o ponto de equilíbrio que a série tenta encontrar (e consegue) a cada temporada - além das típicas histórias de heróis, os roteiros mergulham em dilemas éticos e com consequências inesperadas com muito mais leveza que as produções clássicas que citamos, diminuindo assim nossa ansiedade como audiência, mas por outro lado nos entregando um entretenimento com a mesma qualidade, as mesmas premissas narrativas, mas ainda mais divertido.
Olha, imperdível!
"Jogo do Dinheiro" é entretenimento puro, daqueles que será necessário uma boa dose de suspensão da realidade, mas que também te faz ficar grudado na tela durante seus 90 minutos de filme - e aqui cabe um comentário importante: mesmo com o filme sendo arquitetado para criar uma certa tensão, é a forma como os personagens vão se relacionando e construindo seus vínculos, que prende nossa atenção; não necessariamente as cenas de ação (mesmo com algumas sendo bem importantes).
Lee Gates (George Clooney) é o apresentador de um popular programa de TV chamado "Money Monster", onde presta uma espécie de consultoria financeira para sua audiência da forma mais debochada possível: ele canta, dança, pula, se veste de rapper, entra ao lado de dançarinas de palco - um autêntico showman! Diante da ingenuidade de quem segue seus conselhos, um deles, Kyle Budwell (Jack O’Connell) perde muito dinheiro devido a uma dessas dicas "infalíveis" de Lee, é quando, buscando vingança e explicações, faz do apresentador um refém em seu próprio programa e ao vivo. Lee conta com poucas pessoas para ajudá-lo a sair dessa situação, sendo a principal delas sua diretora Patty (Julia Roberts). Confira o trailer:
Diferente do mediano "Interrompemos a Programação"- que tem um conceito narrativo mais autoral, independente e que tenta se aprofundar exclusivamente nos fantasmas por trás das motivações do protagonista; "Jogo do Dinheiro" foca muito mais na agilidade de um programa de TV ao vivo, com diferentes ângulos, cortes rápidos e uma urgência na transmissão da informação, custe o que custar. O interessante do roteiro, sem a menor dúvida, é a forma como é construída aquela atmosfera de tensão: de um lado o clichê, o tosco, o irônico e uma boa dose de humor (negro) personificado pelo apresentador Lee Gates; de outro, a critica social, a ingenuidade e o desespero de alguém que foi enganado (como vemos em tantos documentários sobre a relação com investidores de Wall Street) na figura de Kyle.
O filme é dirigido pela Jodie Foster (sim, ela mesmo, a atriz de "Silêncio dos Inocentes"). Ela aproveita da dinâmica de urgência que a diretora na ficção (Patty) costuma imprimir no seu show para, em segundo plano, discutir questões importantes como a ganância de CEOs, a superficialidade da mídia americana e a irresponsabilidade de alguns programas "jornalísticos" que só pensam na audiência - mérito da conexão perfeita entre Foster e o roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf.
De fato, "Jogo do Dinheiro" é entretenimento, mas não esquece do conteúdo denunciativo para atender os mais atentos.
Vale a pena!
"Jogo do Dinheiro" é entretenimento puro, daqueles que será necessário uma boa dose de suspensão da realidade, mas que também te faz ficar grudado na tela durante seus 90 minutos de filme - e aqui cabe um comentário importante: mesmo com o filme sendo arquitetado para criar uma certa tensão, é a forma como os personagens vão se relacionando e construindo seus vínculos, que prende nossa atenção; não necessariamente as cenas de ação (mesmo com algumas sendo bem importantes).
Lee Gates (George Clooney) é o apresentador de um popular programa de TV chamado "Money Monster", onde presta uma espécie de consultoria financeira para sua audiência da forma mais debochada possível: ele canta, dança, pula, se veste de rapper, entra ao lado de dançarinas de palco - um autêntico showman! Diante da ingenuidade de quem segue seus conselhos, um deles, Kyle Budwell (Jack O’Connell) perde muito dinheiro devido a uma dessas dicas "infalíveis" de Lee, é quando, buscando vingança e explicações, faz do apresentador um refém em seu próprio programa e ao vivo. Lee conta com poucas pessoas para ajudá-lo a sair dessa situação, sendo a principal delas sua diretora Patty (Julia Roberts). Confira o trailer:
Diferente do mediano "Interrompemos a Programação"- que tem um conceito narrativo mais autoral, independente e que tenta se aprofundar exclusivamente nos fantasmas por trás das motivações do protagonista; "Jogo do Dinheiro" foca muito mais na agilidade de um programa de TV ao vivo, com diferentes ângulos, cortes rápidos e uma urgência na transmissão da informação, custe o que custar. O interessante do roteiro, sem a menor dúvida, é a forma como é construída aquela atmosfera de tensão: de um lado o clichê, o tosco, o irônico e uma boa dose de humor (negro) personificado pelo apresentador Lee Gates; de outro, a critica social, a ingenuidade e o desespero de alguém que foi enganado (como vemos em tantos documentários sobre a relação com investidores de Wall Street) na figura de Kyle.
O filme é dirigido pela Jodie Foster (sim, ela mesmo, a atriz de "Silêncio dos Inocentes"). Ela aproveita da dinâmica de urgência que a diretora na ficção (Patty) costuma imprimir no seu show para, em segundo plano, discutir questões importantes como a ganância de CEOs, a superficialidade da mídia americana e a irresponsabilidade de alguns programas "jornalísticos" que só pensam na audiência - mérito da conexão perfeita entre Foster e o roteiro de Jamie Linden, Alan DiFiore e Jim Kouf.
De fato, "Jogo do Dinheiro" é entretenimento, mas não esquece do conteúdo denunciativo para atender os mais atentos.
Vale a pena!
Se você gosta da densidade de um bom drama politico, eu diria que "Jogo do Poder" é imperdível - mas saiba que aqui existe uma certa cadência graças a uma complexidade narrativa bem evidente com inúmeros diálogos expositivos, mas pouco explicativos para quem caiu de para-quedas no play. Dirigido pelo renomado Costa-Gavras (vencedor do Oscar pelo roteiro de "Desaparecido: Um Grande Mistério" e diretor de "O Quarto Poder") o filme é um convite para o intrigante bastidor da crise que assolou a Grécia em 2015 pela perspectiva de quem estava lutando para encontrar uma saída. Embora, como diz o título nacional, o jogo de poder paute a trama, é na conveniência das relações humanas que o estômago realmente embrulha - algo como vimos em "Oslo", por exemplo. Baseado no livro de memórias de Yanis Varoufakis, o filme oferece uma visão íntima de toda a negociação feita na época deixando claro a importância histórica dos eventos que moldaram a Europa contemporânea pós-União.
"Adults in the Room" (no original) traz a história verídica e impactante do ex-Ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis (Christos Loulis) em sua tentativa de negociar um acordo financeiro com os credores internacionais durante a crise econômica grega de 2015. Ao lado do então primeiro-ministro Alexis Tsipras (Alexandros Bourdoumis), Varoufakis teve a árdua tarefa de convencer a Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) sobre a necessidade de revisitar um Memorando de Entendimento que provavelmente destruiria ainda mais a economia de seu país. Confira o trailer:
Antes de mais nada é preciso conhecer o conceito de "austeridade", ou seja, esse conjunto de políticas econômicas que visam reduzir os déficits do governo por meio de cortes de gastos, aumento de impostos ou uma combinação de ambos. Dito isso fica mais fácil entender o que Varoufakis, depois de sete longos anos de crise, queria evitar ao iniciar um verdadeiro embate contra a Comissão Europeia, especialmente com os representantes da Alemanha, que pregava uma imposição de medidas de austeridade rigorosas para o país como condição para novos empréstimos e uma nova ajuda financeira. Ao lidar com a intransigência da Troika e com a pressão da população que sofria com as consequências econômicas e sociais das políticas impostas pelo governo anterior, o Ministro se viu em uma verdadeira encruzilhada politica e moral - e é isso que Costa-Gavras consegue desenvolver com maestria durante todo o filme.
Ao utilizar um estilo narrativo envolvente, mesclando cenas tensas de negociações com imagens de arquivo reais da época, o diretor nos dá a exata noção do turbilhão emocional que os personagens estão vivendo. A atuação magistral de Loulis transmite nuances que vão da confiança ao receio de estar sendo "cabeça dura" demais, enquanto precisa lidar com a constante, vejam só, decepção perante a falta de palavra (e empatia) de outros líderes da UE. Costa-Gavras sabe manter essa tensão, brincando, inclusive, com nossa percepção sobre quem seriam os “heróis” ou os “vilões” nessa negociação. Reparem na cena onde Varoufakis conversa em particular com o Ministro da Alemanha, Wolfgang Schäuble (Ulrich Tukur) - ele respondendo se aceitaria as condições impostas por ele e pela Troika é impagável.
A habilidade de "Jogo do Poder" em destacar a complexidade das negociações políticas é notável. A fotografia de Yorgos Arvanitis intensifica essa atmosfera de suspense, enquanto a montagem habilidosa do próprio Costa-Gavrasmantém um ritmo que prende nossa atenção de uma forma impressionante. Além disso, é preciso elogiar a direção de arte pela autenticidade como retratou os eventos históricos com precisão. O fato é que o filme, mesmo com uma sequência final recheada de simbologia (que nem todos vão gostar), sabe o valor da sua trama e do seu propósito em mostrar que não se pode fazer um omelete sem quebrar alguns ovos - e se tratando de politica, poder e hipocrisia, haja ovos!
Vale seu play!
Se você gosta da densidade de um bom drama politico, eu diria que "Jogo do Poder" é imperdível - mas saiba que aqui existe uma certa cadência graças a uma complexidade narrativa bem evidente com inúmeros diálogos expositivos, mas pouco explicativos para quem caiu de para-quedas no play. Dirigido pelo renomado Costa-Gavras (vencedor do Oscar pelo roteiro de "Desaparecido: Um Grande Mistério" e diretor de "O Quarto Poder") o filme é um convite para o intrigante bastidor da crise que assolou a Grécia em 2015 pela perspectiva de quem estava lutando para encontrar uma saída. Embora, como diz o título nacional, o jogo de poder paute a trama, é na conveniência das relações humanas que o estômago realmente embrulha - algo como vimos em "Oslo", por exemplo. Baseado no livro de memórias de Yanis Varoufakis, o filme oferece uma visão íntima de toda a negociação feita na época deixando claro a importância histórica dos eventos que moldaram a Europa contemporânea pós-União.
"Adults in the Room" (no original) traz a história verídica e impactante do ex-Ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis (Christos Loulis) em sua tentativa de negociar um acordo financeiro com os credores internacionais durante a crise econômica grega de 2015. Ao lado do então primeiro-ministro Alexis Tsipras (Alexandros Bourdoumis), Varoufakis teve a árdua tarefa de convencer a Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) sobre a necessidade de revisitar um Memorando de Entendimento que provavelmente destruiria ainda mais a economia de seu país. Confira o trailer:
Antes de mais nada é preciso conhecer o conceito de "austeridade", ou seja, esse conjunto de políticas econômicas que visam reduzir os déficits do governo por meio de cortes de gastos, aumento de impostos ou uma combinação de ambos. Dito isso fica mais fácil entender o que Varoufakis, depois de sete longos anos de crise, queria evitar ao iniciar um verdadeiro embate contra a Comissão Europeia, especialmente com os representantes da Alemanha, que pregava uma imposição de medidas de austeridade rigorosas para o país como condição para novos empréstimos e uma nova ajuda financeira. Ao lidar com a intransigência da Troika e com a pressão da população que sofria com as consequências econômicas e sociais das políticas impostas pelo governo anterior, o Ministro se viu em uma verdadeira encruzilhada politica e moral - e é isso que Costa-Gavras consegue desenvolver com maestria durante todo o filme.
Ao utilizar um estilo narrativo envolvente, mesclando cenas tensas de negociações com imagens de arquivo reais da época, o diretor nos dá a exata noção do turbilhão emocional que os personagens estão vivendo. A atuação magistral de Loulis transmite nuances que vão da confiança ao receio de estar sendo "cabeça dura" demais, enquanto precisa lidar com a constante, vejam só, decepção perante a falta de palavra (e empatia) de outros líderes da UE. Costa-Gavras sabe manter essa tensão, brincando, inclusive, com nossa percepção sobre quem seriam os “heróis” ou os “vilões” nessa negociação. Reparem na cena onde Varoufakis conversa em particular com o Ministro da Alemanha, Wolfgang Schäuble (Ulrich Tukur) - ele respondendo se aceitaria as condições impostas por ele e pela Troika é impagável.
A habilidade de "Jogo do Poder" em destacar a complexidade das negociações políticas é notável. A fotografia de Yorgos Arvanitis intensifica essa atmosfera de suspense, enquanto a montagem habilidosa do próprio Costa-Gavrasmantém um ritmo que prende nossa atenção de uma forma impressionante. Além disso, é preciso elogiar a direção de arte pela autenticidade como retratou os eventos históricos com precisão. O fato é que o filme, mesmo com uma sequência final recheada de simbologia (que nem todos vão gostar), sabe o valor da sua trama e do seu propósito em mostrar que não se pode fazer um omelete sem quebrar alguns ovos - e se tratando de politica, poder e hipocrisia, haja ovos!
Vale seu play!
Se você gostou da série "Small Axe"e se identificou com a trama de "Os 7 de Chicago" ou de "Seberg", pode dar o play em "Judas e o Messias Negro" sem o menor medo de errar. Primeiro por se tratar do mesmo tema - a luta dos Panteras Negras e sua relação com o movimento dos direitos civis; e segundo por ser um filme simplesmente sensacional, um dos melhores do ano - inclusive indicado ao Oscar em 6 categorias.
Fred Hampton (Daniel Kaluuya) foi um ativista norte-americano taxado como uma grande ameaça pelo governo e pelo FBI. Presidente do Partido dos Panteras Negras em Chicago, dono de uma excelente oratória e de forte presença, o jovem foi considerado um dos responsáveis (ao lado de Bobby Seale e Huey P. Newton) pela luta dos direitos dos negros nos EUA pós-Martin Luther King. É quando William O’Neal (LaKeith Stanfield) acaba sendo obrigado pelo agente Roy Mitchell (Jesse Plemons) a se tornar um informante do FBI e se infiltrar no Partido com a tarefa de vigiar seu carismático líder em troca de liberdade por um crime que havia cometido. Acontece que a ligação entre eles vai se tornando cada vez mais especial, e o que parecia um missão relativamente tranquila, se torna um fantasma cada vez mais presente. Confira o trailer:
Muito bem dirigido por Shaka King, narrar a história real de uma figura tão particular como Fred Hampton, em um momento onde o tema "direitos civis" era facilmente encontrado em tantas produções de qualidade, por si só já trazia um enorme desafio para o Diretor. Não transformar "Judas e o Messias Negro" em uma outra versão de uma história que já havia sido contada, fez com que King mergulhasse nos questionamentos sobre os conflitos mais internos de um homem que não tinha para onde fugir - e é aqui que o elenco começa a se destacar, pois além de um Daniel Kaluuya impecável, LaKeith Stanfield direciona a narrativa para camadas muito mais interessantes que simplesmente o sentimento da raiva que temos ao ver a intensa brutalidade policial que se instaurou em solo norte-americano na década de 60.
A tensão de "Judas e o Messias Negro" é constante e incrivelmente amplificada por uma eletrizante trilha sonora de Mark Isham e Craig Harris. O plano-sequência inicial é um bom exemplo do que o filme vai nos provocar: nele acompanhamos o roubo de um carro logo depois de uma falsa apreensão feita por O’Neal em um bar frequentado exclusivamente por negros. O diretor usa de enquadramentos que ocultam o rosto do personagem para demonstrar como o simbolismo está presente em muitas passagens do roteiro: ali os desejos materiais simplesmente distorcem a essência do personagem e nos prepara para o que virá a seguir, mas sem precisar explicar demais.
Tecnicamente perfeito, o filme equilibra perfeitamente a luta diária dos Panteras Negras com as imperfeições de seus integrantes sem estereotipar nenhum personagem. O que vemos na tela é uma versão humana, quase documental, de todos os envolvidos naquela atmosfera de terror de Chicago. Veja, quando somos incapazes de julgar algumas atitudes depois de entender suas motivações, fica claro que a história tem muito mais a nos contar do que um pré-conceito estabelecido por posicionamento social ou politico. "Judas e o Messias Negro" é isso: uma aula de cinema, mas também de sensibilidade narrativa onde todo o elenco soube aproveitar muito bem esse presente de King.
Vale muito a pena!
Up-date: "Judas e o Messias Negro" ganhou em duas das seis categorias que disputou no Oscar 2021: Melhor Ator e Melhor Canção!
Se você gostou da série "Small Axe"e se identificou com a trama de "Os 7 de Chicago" ou de "Seberg", pode dar o play em "Judas e o Messias Negro" sem o menor medo de errar. Primeiro por se tratar do mesmo tema - a luta dos Panteras Negras e sua relação com o movimento dos direitos civis; e segundo por ser um filme simplesmente sensacional, um dos melhores do ano - inclusive indicado ao Oscar em 6 categorias.
Fred Hampton (Daniel Kaluuya) foi um ativista norte-americano taxado como uma grande ameaça pelo governo e pelo FBI. Presidente do Partido dos Panteras Negras em Chicago, dono de uma excelente oratória e de forte presença, o jovem foi considerado um dos responsáveis (ao lado de Bobby Seale e Huey P. Newton) pela luta dos direitos dos negros nos EUA pós-Martin Luther King. É quando William O’Neal (LaKeith Stanfield) acaba sendo obrigado pelo agente Roy Mitchell (Jesse Plemons) a se tornar um informante do FBI e se infiltrar no Partido com a tarefa de vigiar seu carismático líder em troca de liberdade por um crime que havia cometido. Acontece que a ligação entre eles vai se tornando cada vez mais especial, e o que parecia um missão relativamente tranquila, se torna um fantasma cada vez mais presente. Confira o trailer:
Muito bem dirigido por Shaka King, narrar a história real de uma figura tão particular como Fred Hampton, em um momento onde o tema "direitos civis" era facilmente encontrado em tantas produções de qualidade, por si só já trazia um enorme desafio para o Diretor. Não transformar "Judas e o Messias Negro" em uma outra versão de uma história que já havia sido contada, fez com que King mergulhasse nos questionamentos sobre os conflitos mais internos de um homem que não tinha para onde fugir - e é aqui que o elenco começa a se destacar, pois além de um Daniel Kaluuya impecável, LaKeith Stanfield direciona a narrativa para camadas muito mais interessantes que simplesmente o sentimento da raiva que temos ao ver a intensa brutalidade policial que se instaurou em solo norte-americano na década de 60.
A tensão de "Judas e o Messias Negro" é constante e incrivelmente amplificada por uma eletrizante trilha sonora de Mark Isham e Craig Harris. O plano-sequência inicial é um bom exemplo do que o filme vai nos provocar: nele acompanhamos o roubo de um carro logo depois de uma falsa apreensão feita por O’Neal em um bar frequentado exclusivamente por negros. O diretor usa de enquadramentos que ocultam o rosto do personagem para demonstrar como o simbolismo está presente em muitas passagens do roteiro: ali os desejos materiais simplesmente distorcem a essência do personagem e nos prepara para o que virá a seguir, mas sem precisar explicar demais.
Tecnicamente perfeito, o filme equilibra perfeitamente a luta diária dos Panteras Negras com as imperfeições de seus integrantes sem estereotipar nenhum personagem. O que vemos na tela é uma versão humana, quase documental, de todos os envolvidos naquela atmosfera de terror de Chicago. Veja, quando somos incapazes de julgar algumas atitudes depois de entender suas motivações, fica claro que a história tem muito mais a nos contar do que um pré-conceito estabelecido por posicionamento social ou politico. "Judas e o Messias Negro" é isso: uma aula de cinema, mas também de sensibilidade narrativa onde todo o elenco soube aproveitar muito bem esse presente de King.
Vale muito a pena!
Up-date: "Judas e o Messias Negro" ganhou em duas das seis categorias que disputou no Oscar 2021: Melhor Ator e Melhor Canção!
"Kursk" é um filme dos mais interessantes, pois ele equilibra muito bem a superficialidade de um filme catástrofe e a profundidade de um drama real. Baseado no livro "A Time to Die", de Robert Moore, essa co-produção Bélgica / Luxemburgo / França se arrisca ao trazer um roteirista americano como Robert Rodat (notavelmente um profissional de grandes estúdios, indicado ao Oscar por "O Resgate do Soldado Ryan") e um diretor como o dinamarquês Thomas Vinterberg de "A Caça" (extremamente autoral e que privilegia muito mais as profundas relações humanas aos dramas superficiais do gênero) - o que eu quero dizer com isso é que "Kursk" tinha tudo para ser uma espécie de "Armageddon" no fundo do mar, mas a qualidade do diretor nos entrega um trabalho mais bem cuidado, intimista em muitos momentos, muito mais próximo de "Chernobyl" da HBO, por exemplo!
Em agosto de 2000, o submarino nuclear da marinha russa "Kursk" é naufragado durante um exercício nas águas do mar de Barents. Uma falha no controle de temperatura dos torpedos e dos mísseis que o submarino transportava, desencadeou uma série de explosões e praticamente dizimou a tripulação. Os 23 marinheiros que sobreviveram começam então uma luta contra o tempo na esperança pelo resgate. Acontece que a Marinha Russa está falida e a única alternativa de chegar ao submarino preso no fundo do mar é incapaz de concluir a missão por problemas técnicos. Um desastre seguido por uma negligência acentuada do governo russo que teme em aceitar a ajuda internacional e ter seus segredos bélicos descobertos. Eu diria que o filme é duro, de difícil digestão e muito angustiante (embora muitos ainda se recordam do final da história). Vale a pena, e mesmo com algumas "bengalas" do roteiro (que explicarei adiante), o filme é um ótimo entretenimento!
Ao entender a dinâmica do filme, fica impossível não pensar em quão rico seria se "Kursk" fosse uma série e houvesse um tempo maior para o desenvolvimento dos personagens, mesmo que em flashbacks. Digo isso porque, mesmo com o esforço do Diretor, dirigindo uma cena belíssima de casamento e mostrando a espirito de irmandade que aqueles soldados tinham um com o outro, não dá tempo para se estabelecer uma profunda relação que nos permita se importar tanto com os personagens. Elementos como um marinheiro recém-casado, uma esposa gravida, um filho pequeno; tudo isso está filme para cortar esse caminho, mas a verdade é que funciona pouco. Nossa agonia é muito mais com o sofrimento do ser humano do que por identificação com os personagens - a cena em que o capitão Mikhail Averin (Matthias Schoenaerts de "Ferrugem e Osso") mergulha em busca das capsulas de oxigênio é um ótimo exemplo: poderia ser qualquer outro personagem que a angústia seria a mesma e, posso garantir, é enorme! Outros elementos de gênero que estragam o roteiro, estereotipando cenas, personagens e servem de bengalas emocionais são as passagens onde os soldados cantam seu hino ou quando resolvem trazer a história do relógio no final - o primeiro não se trata do conteúdo em si, mas da forma. A cena poderia ter ficado muito mais dramática sem esse artificio - para mim já batido desde a época de Top Gun. O mesmo serve para o segundo elemento - esse relógio não representa nada, por mais que o roteiro se esforce para tonar o objeto algo importante ou sentimental para os personagens.
As cenas das esposas e a relação politica das decisões sobre resgate são excelentes. Vinterberg cria uma atmosfera de vazio ao filmar lindos planos no conjunto habitacional da marinha onde todas as famílias dos soldados moram - lembram muito aquela decadência (ou precariedade) de Chernobyl dos anos 80 e fortalece muito a forma como a excelente Léa Seydoux se posiciona - ela é a esposa grávida (Tanya Averina) de Mikhail. É um trabalho de respeito! A fotografia do Anthony Dod Mantle (Quem quer ser um Milionário? e 127 Horas) é sensacional - não me surpreenderia se fosse indicado ao Oscar 2020! Aliás, dois pontos merecem nossa atenção: o desenho de som e a mixagem - muito bem construídos. Reparem como o som se propaga dentro do submarino e como ele quase desaparece nas explosões externas, mas mesmo assim nos causam um certo desespero. Os sustos que tomamos, a forma como os efeitos criam aquele clima de suspense; enfim, é sempre um desafio criar uma atmosfera debaixo da água - também colocaria como potenciais indicados.
Além da cena do mergulho em busca das capsulas de oxigênio que achei genial como foi realizada, existe um outra cena que talvez reflita tudo que comentei do filme no que diz respeito a qualidade técnica e artística - a cena do mini-submarino tentando se acoplar para fazer o resgate: é um câmera fixa, com efeito sonoros delicados, praticamente sem cortes (ou reações de personagens) e mesmo assim a tensão é altíssima - isso é sair do comum! Um outro momento muito delicado e sensível é o olhar do filho de Mikhail para o General burocrata Vladimir Petrenko (Max Von Sydon): simples, profunda e muito bem realizada - um exemplo de como o silêncio pode ser ensurdecedor!
É claro que por se tratar de um história real, nossa relação com o filme fica muito mais sensível, mas cinematograficamente falando, "Kursk" é mais um grande acerto do diretor Thomas Vinterberg - prestem muita atenção nos filmes desse cara porque valem muito a pena. Ele prova que tem a mesma capacidade para filmar cenas de explosão quanto de relações e sua escolha, muito pautada na força executiva do Luc Besson (do recente Anna), mostrou ter sido das mais acertadas.
"Kursk" é um filme dos mais interessantes, pois ele equilibra muito bem a superficialidade de um filme catástrofe e a profundidade de um drama real. Baseado no livro "A Time to Die", de Robert Moore, essa co-produção Bélgica / Luxemburgo / França se arrisca ao trazer um roteirista americano como Robert Rodat (notavelmente um profissional de grandes estúdios, indicado ao Oscar por "O Resgate do Soldado Ryan") e um diretor como o dinamarquês Thomas Vinterberg de "A Caça" (extremamente autoral e que privilegia muito mais as profundas relações humanas aos dramas superficiais do gênero) - o que eu quero dizer com isso é que "Kursk" tinha tudo para ser uma espécie de "Armageddon" no fundo do mar, mas a qualidade do diretor nos entrega um trabalho mais bem cuidado, intimista em muitos momentos, muito mais próximo de "Chernobyl" da HBO, por exemplo!
Em agosto de 2000, o submarino nuclear da marinha russa "Kursk" é naufragado durante um exercício nas águas do mar de Barents. Uma falha no controle de temperatura dos torpedos e dos mísseis que o submarino transportava, desencadeou uma série de explosões e praticamente dizimou a tripulação. Os 23 marinheiros que sobreviveram começam então uma luta contra o tempo na esperança pelo resgate. Acontece que a Marinha Russa está falida e a única alternativa de chegar ao submarino preso no fundo do mar é incapaz de concluir a missão por problemas técnicos. Um desastre seguido por uma negligência acentuada do governo russo que teme em aceitar a ajuda internacional e ter seus segredos bélicos descobertos. Eu diria que o filme é duro, de difícil digestão e muito angustiante (embora muitos ainda se recordam do final da história). Vale a pena, e mesmo com algumas "bengalas" do roteiro (que explicarei adiante), o filme é um ótimo entretenimento!
Ao entender a dinâmica do filme, fica impossível não pensar em quão rico seria se "Kursk" fosse uma série e houvesse um tempo maior para o desenvolvimento dos personagens, mesmo que em flashbacks. Digo isso porque, mesmo com o esforço do Diretor, dirigindo uma cena belíssima de casamento e mostrando a espirito de irmandade que aqueles soldados tinham um com o outro, não dá tempo para se estabelecer uma profunda relação que nos permita se importar tanto com os personagens. Elementos como um marinheiro recém-casado, uma esposa gravida, um filho pequeno; tudo isso está filme para cortar esse caminho, mas a verdade é que funciona pouco. Nossa agonia é muito mais com o sofrimento do ser humano do que por identificação com os personagens - a cena em que o capitão Mikhail Averin (Matthias Schoenaerts de "Ferrugem e Osso") mergulha em busca das capsulas de oxigênio é um ótimo exemplo: poderia ser qualquer outro personagem que a angústia seria a mesma e, posso garantir, é enorme! Outros elementos de gênero que estragam o roteiro, estereotipando cenas, personagens e servem de bengalas emocionais são as passagens onde os soldados cantam seu hino ou quando resolvem trazer a história do relógio no final - o primeiro não se trata do conteúdo em si, mas da forma. A cena poderia ter ficado muito mais dramática sem esse artificio - para mim já batido desde a época de Top Gun. O mesmo serve para o segundo elemento - esse relógio não representa nada, por mais que o roteiro se esforce para tonar o objeto algo importante ou sentimental para os personagens.
As cenas das esposas e a relação politica das decisões sobre resgate são excelentes. Vinterberg cria uma atmosfera de vazio ao filmar lindos planos no conjunto habitacional da marinha onde todas as famílias dos soldados moram - lembram muito aquela decadência (ou precariedade) de Chernobyl dos anos 80 e fortalece muito a forma como a excelente Léa Seydoux se posiciona - ela é a esposa grávida (Tanya Averina) de Mikhail. É um trabalho de respeito! A fotografia do Anthony Dod Mantle (Quem quer ser um Milionário? e 127 Horas) é sensacional - não me surpreenderia se fosse indicado ao Oscar 2020! Aliás, dois pontos merecem nossa atenção: o desenho de som e a mixagem - muito bem construídos. Reparem como o som se propaga dentro do submarino e como ele quase desaparece nas explosões externas, mas mesmo assim nos causam um certo desespero. Os sustos que tomamos, a forma como os efeitos criam aquele clima de suspense; enfim, é sempre um desafio criar uma atmosfera debaixo da água - também colocaria como potenciais indicados.
Além da cena do mergulho em busca das capsulas de oxigênio que achei genial como foi realizada, existe um outra cena que talvez reflita tudo que comentei do filme no que diz respeito a qualidade técnica e artística - a cena do mini-submarino tentando se acoplar para fazer o resgate: é um câmera fixa, com efeito sonoros delicados, praticamente sem cortes (ou reações de personagens) e mesmo assim a tensão é altíssima - isso é sair do comum! Um outro momento muito delicado e sensível é o olhar do filho de Mikhail para o General burocrata Vladimir Petrenko (Max Von Sydon): simples, profunda e muito bem realizada - um exemplo de como o silêncio pode ser ensurdecedor!
É claro que por se tratar de um história real, nossa relação com o filme fica muito mais sensível, mas cinematograficamente falando, "Kursk" é mais um grande acerto do diretor Thomas Vinterberg - prestem muita atenção nos filmes desse cara porque valem muito a pena. Ele prova que tem a mesma capacidade para filmar cenas de explosão quanto de relações e sua escolha, muito pautada na força executiva do Luc Besson (do recente Anna), mostrou ter sido das mais acertadas.
Um pouquinho de "Succession", um pouquinho de "Yellowstone" - é assim que você vai olhar para "Landman" e colocá-la naquela prateleira que só as "muito boas" têm a honra de estar! Taylor Sheridan, mais uma vez, reafirma sua posição como um dos grandes mestres da TV contemporânea com a sua mais nova produção para o Paramount+. Co-criada com Christian Wallace e baseada no podcast "Boomtown", a série segue a fórmula que consagrou Sheridan, misturando dramas familiares, tensões sociais e intrigas corporativas - agora ambientada no universo das petroleiras americanas. Após o sucesso estrondoso de "Yellowstone" e seus spin-offs, Sheridan expande seu alcance ao focar em um protagonista muito bem desenvolvido, cheio de camadas, que se encontra no centro da exploração econômica e ambiental do Texas, entregando uma narrativa que, mesmo soando familiar, encontra várias formas de cativar a audiência como raramente vemos.
A série segue Tommy Norris (Billy Bob Thornton), um gerente de campo implacável de uma poderosa petroleira. Enquanto "Yellowstone" apresentava a luta da família Dutton para proteger seu rancho de grandes corporações, "Landman" inverte a perspectiva, colocando Tommy como o representante das forças que transformam o mundo em nome do progresso. Tommy é um personagem complexo, moldado por ambição, ironia e uma certa dose de pragmatismo moral, que faz de tudo para atingir seus objetivos, seja enfrentando traficantes que contestam os terrenos arrendados, seja lidando com crises internas, como os acidentes catastróficos nas operações da empresa. Confira o trailer (dublado):
Você não vai precisar mais do que 5 minutos para entender o que "Landman" representa como força narrativa - é impressionante como a série apresenta, em tão pouco tempo, o universo tenso e dinâmico que vamos encontrar em todos os episódios dessa primeira temporada. Veja, Tommy não apenas enfrenta ameaças inerentes ao seu cargo, como também carrega o peso de manter a coesão de sua família disfuncional. Seus filhos, Ainsley (Michelle Randolph), uma jovem prestes a ingressar na faculdade, e Cooper (Jacob Lofland), enviado pelo pai para trabalhar na extração de petróleo, têm suas próprias trajetórias que ecoam o mesmo estilo de drama familiar explorado em "Succession" e em "Yellowstone". Repare como funciona a relação entre Tommy e seus filhos, oferecendo momentos de certa vulnerabilidade que contrastam com o ritmo intenso das operações corporativas e com os desafios impostos pelo terreno hostil do Texas.
O roteiro de "Landman", aliás, mantém o tom característico das produções de seu criador com diálogos afiados, um ritmo frenético e uma constante exploração de temas morais e éticos humanizados por seus personagens - aqui nada é tão simples quanto parece e essa sensação de urgência e insegurança constante, soa genial durante a narrativa. Se a trama aborda questões contemporâneas, como a exploração de recursos naturais e seus impactos sociais e ambientais, é no drama familiar que nos conectamos com os personagens e aí a direção de Stephen Kay (de "Friday Night Lights") ganha destaque. Assim como nas obras anteriores de Sheridan, as paisagens desempenham um papel fundamental na narrativa, mas é a relação dos protagonistas com esse universo tão particular que nos impacta como audiência. O Texas é capturado com planos exuberantes, seus terrenos acidentados, iluminados pelo nascer e pelo pôr do sol, sempre acompanhados por uma trilha sonora country que reforça o senso de identidade regional da série. Essa atenção aos detalhes visuais mais uma vez demonstra a habilidade de Sheridan em transformar o cenário em um personagem tão ativo na trama quanto seus protagonistas.
O elenco, liderado por Billy Bob Thornton, é um dos grandes trunfos da série - e pode anotar aí que vai ganhar muitos prêmios daqui para frente. Thornton traz carisma e certa intensidade para Tommy, ajustando uma postura muitas vezes fria de um empresário com as nuances de um pai que tenta preservar sua família em meio ao caos que é viver em Odessa, Texas. Michelle Randolph e Jacob Lofland trazem o frescor e a humanidade que comentei acima, enquanto Jon Hamm e Demi Moore trazem um sopro de tensão e intriga à narrativa. O fato é que "Landman" tem tudo que precisa para se estabelecer como uma obra única, cheia de identidade, mesmo referenciada por outros sucessos, criando um universo distinto e dando um foco mais incisivo para as consequências corporativas da exploração petrolífera. Espere um ritmo intenso e conflitos bem estruturados e não se irrite se, mais uma vez, você se vir mergulhado nas intrigas de uma boa história de família.
Vale muito o seu play! Realmente imperdível!
Um pouquinho de "Succession", um pouquinho de "Yellowstone" - é assim que você vai olhar para "Landman" e colocá-la naquela prateleira que só as "muito boas" têm a honra de estar! Taylor Sheridan, mais uma vez, reafirma sua posição como um dos grandes mestres da TV contemporânea com a sua mais nova produção para o Paramount+. Co-criada com Christian Wallace e baseada no podcast "Boomtown", a série segue a fórmula que consagrou Sheridan, misturando dramas familiares, tensões sociais e intrigas corporativas - agora ambientada no universo das petroleiras americanas. Após o sucesso estrondoso de "Yellowstone" e seus spin-offs, Sheridan expande seu alcance ao focar em um protagonista muito bem desenvolvido, cheio de camadas, que se encontra no centro da exploração econômica e ambiental do Texas, entregando uma narrativa que, mesmo soando familiar, encontra várias formas de cativar a audiência como raramente vemos.
A série segue Tommy Norris (Billy Bob Thornton), um gerente de campo implacável de uma poderosa petroleira. Enquanto "Yellowstone" apresentava a luta da família Dutton para proteger seu rancho de grandes corporações, "Landman" inverte a perspectiva, colocando Tommy como o representante das forças que transformam o mundo em nome do progresso. Tommy é um personagem complexo, moldado por ambição, ironia e uma certa dose de pragmatismo moral, que faz de tudo para atingir seus objetivos, seja enfrentando traficantes que contestam os terrenos arrendados, seja lidando com crises internas, como os acidentes catastróficos nas operações da empresa. Confira o trailer (dublado):
Você não vai precisar mais do que 5 minutos para entender o que "Landman" representa como força narrativa - é impressionante como a série apresenta, em tão pouco tempo, o universo tenso e dinâmico que vamos encontrar em todos os episódios dessa primeira temporada. Veja, Tommy não apenas enfrenta ameaças inerentes ao seu cargo, como também carrega o peso de manter a coesão de sua família disfuncional. Seus filhos, Ainsley (Michelle Randolph), uma jovem prestes a ingressar na faculdade, e Cooper (Jacob Lofland), enviado pelo pai para trabalhar na extração de petróleo, têm suas próprias trajetórias que ecoam o mesmo estilo de drama familiar explorado em "Succession" e em "Yellowstone". Repare como funciona a relação entre Tommy e seus filhos, oferecendo momentos de certa vulnerabilidade que contrastam com o ritmo intenso das operações corporativas e com os desafios impostos pelo terreno hostil do Texas.
O roteiro de "Landman", aliás, mantém o tom característico das produções de seu criador com diálogos afiados, um ritmo frenético e uma constante exploração de temas morais e éticos humanizados por seus personagens - aqui nada é tão simples quanto parece e essa sensação de urgência e insegurança constante, soa genial durante a narrativa. Se a trama aborda questões contemporâneas, como a exploração de recursos naturais e seus impactos sociais e ambientais, é no drama familiar que nos conectamos com os personagens e aí a direção de Stephen Kay (de "Friday Night Lights") ganha destaque. Assim como nas obras anteriores de Sheridan, as paisagens desempenham um papel fundamental na narrativa, mas é a relação dos protagonistas com esse universo tão particular que nos impacta como audiência. O Texas é capturado com planos exuberantes, seus terrenos acidentados, iluminados pelo nascer e pelo pôr do sol, sempre acompanhados por uma trilha sonora country que reforça o senso de identidade regional da série. Essa atenção aos detalhes visuais mais uma vez demonstra a habilidade de Sheridan em transformar o cenário em um personagem tão ativo na trama quanto seus protagonistas.
O elenco, liderado por Billy Bob Thornton, é um dos grandes trunfos da série - e pode anotar aí que vai ganhar muitos prêmios daqui para frente. Thornton traz carisma e certa intensidade para Tommy, ajustando uma postura muitas vezes fria de um empresário com as nuances de um pai que tenta preservar sua família em meio ao caos que é viver em Odessa, Texas. Michelle Randolph e Jacob Lofland trazem o frescor e a humanidade que comentei acima, enquanto Jon Hamm e Demi Moore trazem um sopro de tensão e intriga à narrativa. O fato é que "Landman" tem tudo que precisa para se estabelecer como uma obra única, cheia de identidade, mesmo referenciada por outros sucessos, criando um universo distinto e dando um foco mais incisivo para as consequências corporativas da exploração petrolífera. Espere um ritmo intenso e conflitos bem estruturados e não se irrite se, mais uma vez, você se vir mergulhado nas intrigas de uma boa história de família.
Vale muito o seu play! Realmente imperdível!
Talvez "Leviathan" tenha sofrido pela falta de um marketing mais potente em uma época onde as plataformas de streaming apenas engatinhavam. O fato é que esse filme foi o representante russo na disputa o Oscar de Melhor Filme Internacional de 2015 e que, embora não tenha levado a Palme d'Or em 2014, ganhou como "Melhor Roteiro" em Cannes, o Golden Globe nos EUA e teve mais de 35 vitórias e 52 indicações em festivais importantes ao redor do planeta! Dirigido pelo Andrey Zvyagintsev (de "Sem Amor"), esse é o tipo do filme que não deve ser ignorado por nenhum cinéfilo que tem no cinema independente sua jornada de descobertas. Eu diria, inclusive, que esse drama russo é uma obra-prima que soube combinar como poucos, uma narrativa poderosa com uma crítica social atemporal extremamente contundente e necessária, criando um retrato visceral e devastador da corrupção e da injustiça que assolam a sociedade desde sempre. Aclamado internacionalmente, "Leviathan" foi comparado a obras inesquecíveis como "A Separação" de Asghar Farhadi e "A Caça" de Thomas Vinterberg, pela sua habilidade única em abordar temas universais através de uma lente profundamente pessoal e culturalmente marcante.
Sua trama gira em torno de Kolya (Aleksey Serebryakov) um homem que vive em uma pequena cidade da Península de Kola, no norte da Rússia. Sua vida é virada de cabeça para baixo quando o prefeito corrupto decide tomar posse de sua casa e do terreno onde vive com sua jovem esposa Lilya (Elena Lyadova) e seu filho Romka (Sergey Pokhodaev). Desesperado, Kolya pede ajuda a Dmitriy (Vladimir Vdovichenkov), um velho amigo e advogado de Moscou, para lutar contra essa injustiça. No entanto, a chegada de advogado não traz a salvação esperada, mas sim uma série de tragédias que afundam Kolya e sua família em um abismo de desespero. Confira o trailer (com legendas em inglês):
Todos sabemos como as coisas são resolvidas na Rússia e isso, por si só, já seria o suficiente para nos dilacerar o coração ao nos conectarmos com a luta de Kolya e de sua família pelo que lhe é de direito, no entanto, inserido nesse elemento realmente dramático, existe uma sensação de abandono que é lindamente dissecada no roteiro do próprio Zvyagintsev com seu parceiro Oleg Negin - primeiro na briga com o prefeito, depois com os magistrados, com a polícia, e então, com os amigos. Veja, ao mesmo tempo que temos um filme de caráter extremamente simbólico, estamos diante da história "real" de uma vida "como tantas outras na Rússia" que é destruída em todos os aspectos pela ganância (e poder).
A direção de Zvyagintsev é magistral ao trabalhar esses aspectos de uma forma muito sensorial, utilizando a vastidão gelada da paisagem russa para refletir o vazio e a implacabilidade do sistema corrupto contra o qual Kolya luta, luta e luta - é dolorido demais, machuca de verdade. A fotografia de Mikhail Krichman (também parceiro de longa data do diretor) tem um papel fundamental na construção dessa atmosfera - eu diria até que ela é uma das jóias do filme! Repare como os planos longos e contemplativos capturam a beleza e a desolação da natureza, criando um contraste com o embate moral dos personagens que ocupam essa paisagem. Aqui, a fotografia não só estabelece o tom melancólico do filme, como também reforça a sensação angustiante de isolamento e impotência que permeia a vida de Kolya - a impressão de que algo ruim está para acontecer a cada nova cena, um medo igualmente alimentado pela sombria trilha de Philip Glass, vai te acompanhar por toda essa jornada e vai te tirar do conforto.
Tudo em "Leviathan" é provocador - de seus personagens odiosos ao ritmo deliberadamente lento que nos permite absorver a gravidade das situações enfrentadas pelo protagonista. Sim, estamos diante de um filme difícil, mas ao mesmo tempo poderoso, que combina uma crítica social contundente com uma jornada pessoal profundamente comovente. É uma obra que nos desafia a confrontar as realidades brutais da injustiça e da corrupção, enquanto oferece uma experiência absurdamente envolvente - e aqui cabe um disclaimer: "Leviathan" era minha aposta para o Oscar de 2015, um ano que tivemos "Relatos Selvagens" e a vencedora, "Ida".
Para aqueles que apreciam filmes que exploram a condição humana com uma abordagem artística e introspectiva, "Leviathan" é uma escolha indispensável, contudo já adianto: sua intensidade e crueza podem não ser tão fácil de digerir. Vale muito o seu play!
Talvez "Leviathan" tenha sofrido pela falta de um marketing mais potente em uma época onde as plataformas de streaming apenas engatinhavam. O fato é que esse filme foi o representante russo na disputa o Oscar de Melhor Filme Internacional de 2015 e que, embora não tenha levado a Palme d'Or em 2014, ganhou como "Melhor Roteiro" em Cannes, o Golden Globe nos EUA e teve mais de 35 vitórias e 52 indicações em festivais importantes ao redor do planeta! Dirigido pelo Andrey Zvyagintsev (de "Sem Amor"), esse é o tipo do filme que não deve ser ignorado por nenhum cinéfilo que tem no cinema independente sua jornada de descobertas. Eu diria, inclusive, que esse drama russo é uma obra-prima que soube combinar como poucos, uma narrativa poderosa com uma crítica social atemporal extremamente contundente e necessária, criando um retrato visceral e devastador da corrupção e da injustiça que assolam a sociedade desde sempre. Aclamado internacionalmente, "Leviathan" foi comparado a obras inesquecíveis como "A Separação" de Asghar Farhadi e "A Caça" de Thomas Vinterberg, pela sua habilidade única em abordar temas universais através de uma lente profundamente pessoal e culturalmente marcante.
Sua trama gira em torno de Kolya (Aleksey Serebryakov) um homem que vive em uma pequena cidade da Península de Kola, no norte da Rússia. Sua vida é virada de cabeça para baixo quando o prefeito corrupto decide tomar posse de sua casa e do terreno onde vive com sua jovem esposa Lilya (Elena Lyadova) e seu filho Romka (Sergey Pokhodaev). Desesperado, Kolya pede ajuda a Dmitriy (Vladimir Vdovichenkov), um velho amigo e advogado de Moscou, para lutar contra essa injustiça. No entanto, a chegada de advogado não traz a salvação esperada, mas sim uma série de tragédias que afundam Kolya e sua família em um abismo de desespero. Confira o trailer (com legendas em inglês):
Todos sabemos como as coisas são resolvidas na Rússia e isso, por si só, já seria o suficiente para nos dilacerar o coração ao nos conectarmos com a luta de Kolya e de sua família pelo que lhe é de direito, no entanto, inserido nesse elemento realmente dramático, existe uma sensação de abandono que é lindamente dissecada no roteiro do próprio Zvyagintsev com seu parceiro Oleg Negin - primeiro na briga com o prefeito, depois com os magistrados, com a polícia, e então, com os amigos. Veja, ao mesmo tempo que temos um filme de caráter extremamente simbólico, estamos diante da história "real" de uma vida "como tantas outras na Rússia" que é destruída em todos os aspectos pela ganância (e poder).
A direção de Zvyagintsev é magistral ao trabalhar esses aspectos de uma forma muito sensorial, utilizando a vastidão gelada da paisagem russa para refletir o vazio e a implacabilidade do sistema corrupto contra o qual Kolya luta, luta e luta - é dolorido demais, machuca de verdade. A fotografia de Mikhail Krichman (também parceiro de longa data do diretor) tem um papel fundamental na construção dessa atmosfera - eu diria até que ela é uma das jóias do filme! Repare como os planos longos e contemplativos capturam a beleza e a desolação da natureza, criando um contraste com o embate moral dos personagens que ocupam essa paisagem. Aqui, a fotografia não só estabelece o tom melancólico do filme, como também reforça a sensação angustiante de isolamento e impotência que permeia a vida de Kolya - a impressão de que algo ruim está para acontecer a cada nova cena, um medo igualmente alimentado pela sombria trilha de Philip Glass, vai te acompanhar por toda essa jornada e vai te tirar do conforto.
Tudo em "Leviathan" é provocador - de seus personagens odiosos ao ritmo deliberadamente lento que nos permite absorver a gravidade das situações enfrentadas pelo protagonista. Sim, estamos diante de um filme difícil, mas ao mesmo tempo poderoso, que combina uma crítica social contundente com uma jornada pessoal profundamente comovente. É uma obra que nos desafia a confrontar as realidades brutais da injustiça e da corrupção, enquanto oferece uma experiência absurdamente envolvente - e aqui cabe um disclaimer: "Leviathan" era minha aposta para o Oscar de 2015, um ano que tivemos "Relatos Selvagens" e a vencedora, "Ida".
Para aqueles que apreciam filmes que exploram a condição humana com uma abordagem artística e introspectiva, "Leviathan" é uma escolha indispensável, contudo já adianto: sua intensidade e crueza podem não ser tão fácil de digerir. Vale muito o seu play!
Não tem como não gostar de "Line of Duty", especialmente se você (como eu) foi um grande fã de "24 Horas"! Mas calma, nada é por acaso - para minha surpresa, eu já tinha comentado sobre as referências do criador dessa série em uma análise de outra de suas produções, a minissérie sensação de 2018, "Segurança em Jogo"da Netflix! É isso, criada por Jed Mercurio, "Line of Duty" é daquelas séries raras que prende a atenção da audiência pela dinâmica narrativa, pela inteligência de suas reviravoltas, pela tensão constante de sua sequências de ação e pela habilidade de se reinventar a cada temporada, mantendo um altíssimo nível do início ao fim. Olha, se prepare para não sair do sofá, pois são seis temporadas (com uma média de seis episódios cada) de muito (mas, muito) entretenimento de qualidade!
"Line of Duty" é um premiadíssimo drama britânico que, basicamente, mergulha no universo da corrupção policial. Após uma delicada incursão contraterrorista dar muito errado, o Sargento Steve Arnott (Martin Compston) se recusa a encobertar os erros de sua equipe. Ao ser hostilizado pelos seus superiores, Arnott então se transfere para uma unidade anti-corrupção da policia local comandada pelo peculiar superintendente Ted Hastings (Adrian Dunbar). Lançada em 2012 pela BBC, a série rapidamente se consolidou como uma das melhores obras policiais das últimas décadas, graças à sua capacidade excepcional de equilibrar mistério, ação e uma reflexão crítica sobre poder, ética e integridade institucional. Confira o trailer (em inglês):
Mercurio já é conhecido por uma escrita, ao mesmo tempo, sofisticada e criativa. Dessa vez ele entrega uma jornada ainda mais empolgante que "Segurança em Jogo" e sem perder sua marca registrada: oferecer um olhar minucioso sobre os meandros da corrupção policial e sobre as complexidades morais enfrentadas por aqueles que tentam combatê-la. A cada temporada, a série apresenta um caso diferente, com personagens centrais que trazem consigo uma narrativa própria, mergulhando profundamente em dilemas éticos, pontuando as relações de poder e escolhas difíceis que cada um precisa tomar ao longo da jornada. Porém, o núcleo permanente formado pelo trio de investigadores Steve Arnott, Kate Fleming (Vicky McClure) e Ted Hastings (Adrian Dunbar) funciona como a espinha dorsal de "Line of Duty", trazendo muito do conceito de antologia procedural, bem anos 2000, para a produção.
A série, impossível negar, se destaca especialmente pelo seu roteiro inteligente e elaborado, que raramente oferece respostas fáceis - mesmo exigindo uma certa suspensão da realidade graças a alguns atalhos dramáticos que Mercurio insiste em pegar. Repare como cada episódio é construído com muita precisão, repleto de diálogos rápidos e referências técnicas de investigação bastante detalhadas que criam um ritmo intenso, potencializado por reviravoltas, de fato, inesperadas. As entrevistas conduzidas pela equipe da AC-12, aliás, são particularmente memoráveis - filmadas em espaços claustrofóbicos e com enquadramentos fechados, elas aumentam a tensão e frequentemente geram momentos de grande impacto emocional e narrativo. Outro elemento marcante em "Line of Duty" é a excelência do elenco convidado a cada temporada: atores e atrizes consagrados como Keeley Hawes, Lennie James, Thandiwe Newton, Kelly Macdonald e até Stephen Graham tiveram interpretações brilhantes, trazendo complexidade aos seus personagens e deixando um forte legado para a história da série.
A direção ao longo das temporadas, mesmo com vários profissionais no comando, também mantém uma solidez e um refinamento elogiável. Os episódios contam com um trabalho excepcional de câmera, especialmente na construção das cenas de ação e das perseguições, que nunca se limitam ao mero espetáculo. Ao contrário, elas sempre servem à narrativa, reforçando a sensação de urgência e de perigo iminente enfrentado pelos personagens. Além de ser um mestre em narrativas como essa, Mercurio é também um observador sagaz dos conflitos internos de seus personagens, ou seja, os protagonistas carregam suas próprias sombras e lutas pessoais, sendo colocados à prova constantemente - é essa dinâmica que funciona como um elo praticamente inquebrável de uma temporada até a outra. Embora mantenha um ritmo empolgante e um tom bastante investigativo, a obra nunca deixa de apresentar reflexões críticas sobre temas contemporâneos, o que coloca "Line of Duty" em um patamar tão elevado entre as produções policiais que, para mim, entra no hall das melhores do gênero já produzidas! Sem exageros!
Com sua mistura impecável de suspense, drama e crítica, "Line of Duty" é mais um exemplo primoroso do que a televisão britânica é capaz de produzir de melhor!
Não tem como não gostar de "Line of Duty", especialmente se você (como eu) foi um grande fã de "24 Horas"! Mas calma, nada é por acaso - para minha surpresa, eu já tinha comentado sobre as referências do criador dessa série em uma análise de outra de suas produções, a minissérie sensação de 2018, "Segurança em Jogo"da Netflix! É isso, criada por Jed Mercurio, "Line of Duty" é daquelas séries raras que prende a atenção da audiência pela dinâmica narrativa, pela inteligência de suas reviravoltas, pela tensão constante de sua sequências de ação e pela habilidade de se reinventar a cada temporada, mantendo um altíssimo nível do início ao fim. Olha, se prepare para não sair do sofá, pois são seis temporadas (com uma média de seis episódios cada) de muito (mas, muito) entretenimento de qualidade!
"Line of Duty" é um premiadíssimo drama britânico que, basicamente, mergulha no universo da corrupção policial. Após uma delicada incursão contraterrorista dar muito errado, o Sargento Steve Arnott (Martin Compston) se recusa a encobertar os erros de sua equipe. Ao ser hostilizado pelos seus superiores, Arnott então se transfere para uma unidade anti-corrupção da policia local comandada pelo peculiar superintendente Ted Hastings (Adrian Dunbar). Lançada em 2012 pela BBC, a série rapidamente se consolidou como uma das melhores obras policiais das últimas décadas, graças à sua capacidade excepcional de equilibrar mistério, ação e uma reflexão crítica sobre poder, ética e integridade institucional. Confira o trailer (em inglês):
Mercurio já é conhecido por uma escrita, ao mesmo tempo, sofisticada e criativa. Dessa vez ele entrega uma jornada ainda mais empolgante que "Segurança em Jogo" e sem perder sua marca registrada: oferecer um olhar minucioso sobre os meandros da corrupção policial e sobre as complexidades morais enfrentadas por aqueles que tentam combatê-la. A cada temporada, a série apresenta um caso diferente, com personagens centrais que trazem consigo uma narrativa própria, mergulhando profundamente em dilemas éticos, pontuando as relações de poder e escolhas difíceis que cada um precisa tomar ao longo da jornada. Porém, o núcleo permanente formado pelo trio de investigadores Steve Arnott, Kate Fleming (Vicky McClure) e Ted Hastings (Adrian Dunbar) funciona como a espinha dorsal de "Line of Duty", trazendo muito do conceito de antologia procedural, bem anos 2000, para a produção.
A série, impossível negar, se destaca especialmente pelo seu roteiro inteligente e elaborado, que raramente oferece respostas fáceis - mesmo exigindo uma certa suspensão da realidade graças a alguns atalhos dramáticos que Mercurio insiste em pegar. Repare como cada episódio é construído com muita precisão, repleto de diálogos rápidos e referências técnicas de investigação bastante detalhadas que criam um ritmo intenso, potencializado por reviravoltas, de fato, inesperadas. As entrevistas conduzidas pela equipe da AC-12, aliás, são particularmente memoráveis - filmadas em espaços claustrofóbicos e com enquadramentos fechados, elas aumentam a tensão e frequentemente geram momentos de grande impacto emocional e narrativo. Outro elemento marcante em "Line of Duty" é a excelência do elenco convidado a cada temporada: atores e atrizes consagrados como Keeley Hawes, Lennie James, Thandiwe Newton, Kelly Macdonald e até Stephen Graham tiveram interpretações brilhantes, trazendo complexidade aos seus personagens e deixando um forte legado para a história da série.
A direção ao longo das temporadas, mesmo com vários profissionais no comando, também mantém uma solidez e um refinamento elogiável. Os episódios contam com um trabalho excepcional de câmera, especialmente na construção das cenas de ação e das perseguições, que nunca se limitam ao mero espetáculo. Ao contrário, elas sempre servem à narrativa, reforçando a sensação de urgência e de perigo iminente enfrentado pelos personagens. Além de ser um mestre em narrativas como essa, Mercurio é também um observador sagaz dos conflitos internos de seus personagens, ou seja, os protagonistas carregam suas próprias sombras e lutas pessoais, sendo colocados à prova constantemente - é essa dinâmica que funciona como um elo praticamente inquebrável de uma temporada até a outra. Embora mantenha um ritmo empolgante e um tom bastante investigativo, a obra nunca deixa de apresentar reflexões críticas sobre temas contemporâneos, o que coloca "Line of Duty" em um patamar tão elevado entre as produções policiais que, para mim, entra no hall das melhores do gênero já produzidas! Sem exageros!
Com sua mistura impecável de suspense, drama e crítica, "Line of Duty" é mais um exemplo primoroso do que a televisão britânica é capaz de produzir de melhor!
"Mank" parece ser "O Irlandês"dessa temporada! Embora não exista nenhum ponto em comum entre as narrativas, assuntos ou escolhas conceituais, "Mank" chegou ao serviço de streaming com o mesmo status do filme de Scorsese: favorito ao Oscar, mas que também não será uma unanimidade - eu diria até, que ficará longe disso!
O filme mostra a chamada Era de Ouro de Hollywood sob a visão sagaz, ácida e extremamente crítica do roteirista alcoólatraHerman J. Mankiewicz (Gary Oldman) durante seu processo de criação do roteiro e seu maior sucesso, "Cidadão Kane" - reconhecido como um dos melhores filmes da História do Cinema. "Mank" é menos sobre a famosa discussão dos créditos sobre o roteiro que rendeu o único Oscar ao filme de Orson Welles e mais sobre uma abordagem desglamourizada dos bastidores de Hollywood, onde o poder da mídia, no caso o Cinema, era usada para informação e desinformação com objetivos claramente políticos. Confira o trailer:
"Mank" é um filme muito difícil de assistir, pois é preciso ter algum conhecimento sobre o assunto que ele aborda, além de exigir muita atenção, pois o roteiro explora o time sarcástico nas falas do protagonista em detrimento a cadência narrativa e visual da história. O que eu quero dizer é que se você não souber nada sobre a "Era de Ouro de Hollywood", o momento politico dos EUA e do mundo nos anos 30 e o que "Cidadão Kane" de fato é (ou representa); você vai dormir nos primeiros 30 minutos do filme - e o detalhe dele ser "preto e branco" é o que menos vai te incomodar!
Agora, se você estiver familiarizado com a história do cinema e como ela impacta na cultura americana ou fizer parte daquela audiência exigente, que repara em cada elemento técnico e artístico, aí você vai se divertir e presenciar uma aula de direção do David Fincher - sua capacidade de encontrar a melhor forma de contar a história usando conceitos visuais e narrativos aplicados por Welles em "Cidadão Kane" coloca "Mank" em outro patamar! Outro ponto que vale o play, é, sem dúvida, o trabalho de Gary Oldman - olha, ele já pode comemorar mais uma indicação ao Oscar! A cena em que ele, embriagado, faz um paralelo entre "sua" história e Don Quixote é simplesmente fabulosa, reparem!
Pois bem, sabendo das condições e peculiaridades que citei acima, dê o play por conta e risco, com a certeza que você vai gostar muito ou odiar o filme!
"Mank" parece ser "O Irlandês"dessa temporada! Embora não exista nenhum ponto em comum entre as narrativas, assuntos ou escolhas conceituais, "Mank" chegou ao serviço de streaming com o mesmo status do filme de Scorsese: favorito ao Oscar, mas que também não será uma unanimidade - eu diria até, que ficará longe disso!
O filme mostra a chamada Era de Ouro de Hollywood sob a visão sagaz, ácida e extremamente crítica do roteirista alcoólatraHerman J. Mankiewicz (Gary Oldman) durante seu processo de criação do roteiro e seu maior sucesso, "Cidadão Kane" - reconhecido como um dos melhores filmes da História do Cinema. "Mank" é menos sobre a famosa discussão dos créditos sobre o roteiro que rendeu o único Oscar ao filme de Orson Welles e mais sobre uma abordagem desglamourizada dos bastidores de Hollywood, onde o poder da mídia, no caso o Cinema, era usada para informação e desinformação com objetivos claramente políticos. Confira o trailer:
"Mank" é um filme muito difícil de assistir, pois é preciso ter algum conhecimento sobre o assunto que ele aborda, além de exigir muita atenção, pois o roteiro explora o time sarcástico nas falas do protagonista em detrimento a cadência narrativa e visual da história. O que eu quero dizer é que se você não souber nada sobre a "Era de Ouro de Hollywood", o momento politico dos EUA e do mundo nos anos 30 e o que "Cidadão Kane" de fato é (ou representa); você vai dormir nos primeiros 30 minutos do filme - e o detalhe dele ser "preto e branco" é o que menos vai te incomodar!
Agora, se você estiver familiarizado com a história do cinema e como ela impacta na cultura americana ou fizer parte daquela audiência exigente, que repara em cada elemento técnico e artístico, aí você vai se divertir e presenciar uma aula de direção do David Fincher - sua capacidade de encontrar a melhor forma de contar a história usando conceitos visuais e narrativos aplicados por Welles em "Cidadão Kane" coloca "Mank" em outro patamar! Outro ponto que vale o play, é, sem dúvida, o trabalho de Gary Oldman - olha, ele já pode comemorar mais uma indicação ao Oscar! A cena em que ele, embriagado, faz um paralelo entre "sua" história e Don Quixote é simplesmente fabulosa, reparem!
Pois bem, sabendo das condições e peculiaridades que citei acima, dê o play por conta e risco, com a certeza que você vai gostar muito ou odiar o filme!